Laura Ferreira dos Santos, fotografada por José
Caria/Visão
Em 2008, ela
confessava imaginar o seu encontro com Deus como acontecendo num momento
semelhante a um colorido pós-pôr do sol. “Tenho a sensação que só nessa altura,
como se diz na Bíblia, todas as lágrimas do nosso rosto serão enxugadas e todas
as dúvidas que temos e não conseguimos resolver racionalmente serão resolvidas.
(...) A minha ideia do ‘outro lado’ é a de que simplesmente vamo-nos abraçar de
imediato e dizer: ‘Finalmente!’” Laura Ferreira dos Santos, professora
universitária e ensaísta, que se destacara nos últimos anos na defesa da morte
assistida, morreu sexta-feira passada em Braga, após vários anos de luta contra
um cancro. O funeral realizou-se sábado, para o Porto.
Autora de um
Diário de uma Mulher Católica a Caminho
da Descrença (ed. Angelus Novus, 2003 e 2008), em dois volumes, essa obra marcante
no seu percurso foi ignorada nas notícias acerca da sua morte. Nela se definia
como uma “católica nas margens”, mas em busca de “uma ortodoxia maior”.
Na
entrevista que lhe fiz em 2008 e foi publicada no Público em 5 de Maio desse ano (entretanto também publicada no
livro Diálogos com Deus em Fundo, ed.
Gradiva), ela contava como escreveu este diário singular na literatura
portuguesa, as suas distâncias e proximidades com o catolicismo e a fé.
Mais
recentemente, numa entrevista ao suplemento Igreja
Viva, do Diário do Minho, Laura
Ferreira dos Santos actualizou as razões do seu envolvimento na causa da morte
assistida, surgido precisamente por causa da experiência de sofrimento e de
morte que enfrentou várias vezes entre os seus próximos e que levou mesmo a
mudar o seu modo de entender a fé.
“Como
acredito num Deus de amor, acredito também que Ele só pode querer o nosso
melhor interesse. Infelizmente, em certas alturas, o nosso melhor interesse é
morrermos, para assim escaparmos ao sofrimento atroz. Por isso, por vezes
rezamos para que Deus ‘leve’ alguém o mais depressa possível”, dizia, na
entrevista que pode ser lida aqui.
Nascida em
Braga, a 27 de Março de 1959, Laura Ferreira dos Santos licenciou-se em 1982,
na Faculdade de Filosofia da Universidade Católica Portuguesa. No ano seguinte,
passou a leccionar na Universidade do Minho. Trabalhou no Instituto de Educação
da UM (Departamento de Teoria da Educação e Educação Artística e Física) e, em
1996, prestou provas de doutoramento em Educação, na mesma Universidade, com
uma tese sobre Pensar o desejo a partir
de Freud, Girard e Deleuze.
Laura
Ferreira dos Santos dedicou a sua investigação à Filosofia da Educação e
bioética (neste último caso, especialmente às questões das escolhas de fim de
vida). Entre as suas obras, incluem-se Educação
e cultura em Nietzsche. Análise da
primeira fase do seu pensamento, Pensar
o desejo a partir de Freud, Girard e Deleuze (ambos ed. da Universidade do
Minho), Alteridades feridas. Algumas
leituras feministas do cristianismo e da filosofia (ed. Angelus Novus), Ajudas-me a morrer? A morte assistida na
cultura ocidental do século XXI e Testamento
Vital – O que é? Como elaborá-lo? (ambos na Sextante). Integrou também,
desde Janeiro de 2009, a Comissão de Ética para a Saúde da Administração
Regional de Saúde do Norte.
Como surgiu este Diário de uma Mulher
Católica a Caminho da Descrença?
Já há muitos
anos que escrevo. No segundo volume [do Diário…], de vez em quando há extractos
de diários antigos. Escrevi sempre porque tinha vários problemas para resolver
e porque a escrita foi sempre a melhor maneira de pensar sobre eles.
Há uma
canção de Leonard Cohen, que diz mais ou menos: “Toca os sinos que ainda podes
tocar,/ larga a tua oferta perfeita,/ em todas as coisas há uma fissura/ e é
por aí que a luz entra.” Desde que a ouvi, tomei consciência de que andei
sempre à procura dessa luz, não só em circunstâncias de sofrimento, mas também
em outras mais favoráveis.