sábado, 13 de janeiro de 2018

Fátima no seu centenário: olhares plurais


Agenda 

O santuário de Fátima em noite de peregrinação 
(foto reproduzida daqui)

Fátima no seu centenário: olhares plurais é o título do colóquio que decorre em Lisboa, na próxima quarta-feira, 17 de Janeiro, entre as 10h e as 18h.
Promovido pelo Policredos – Observatório da Religião no Espaço Público, do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, e pelo CITER (Centro de Investigação em Teologia e Estudos de Religião), da Universidade Católica Portuguesa, o colóquio abre com uma intervenção de frei Bento Domingues, que procurará responder à pergunta Que fica do centenário da Fátima? Bento Domingues, recorde-se, é autor do livro A Religião dos Portugueses, uma obra fundadora nos estudos contemporâneos sobre Fátima e que será reeditada durante o corrente ano de 2018.
O centenário dos acontecimentos de Fátima, ocorrido em 2017, “associado à canonização dos pastorinhos e à visita do Papa Francisco”, em Maio, “deu origem ou fez reemergir questões que se prendem com a relação entre o Estado e a Igreja, com a chamada ‘identidade religiosa’ dos portugueses, com a sintonia com a mensagem do Papa e com a dissidência face à mesma”, lê-se no texto de apresentação do programa.
“Os media ocuparam um lugar de destaque na cobertura dos acontecimentos, tratando-os com maior ou menor profundidade, maior ou menor literacia, mas sempre como um grande acontecimento mediático. Chegados quase ao fim do arco temporal de comemoração (depois do também simbólico 13 de Outubro), impõe-se fazer uma análise crítica multidisciplinar, na qual se façam ouvir vozes diversas sobre os mesmos acontecimentos”, acrescenta o mesmo texto.
Os temas em debate incluem as reinterpretações de Fátima, no campo das ciências sociais e da teologia; as representações de Fátima a partir dos média, da música, artes plásticas e cinema, e a relação entre literatura e Fátima.
A lista dos intervenientes inclui também Anna Fedele, Teresa Toldy, António Martins, António Marujo, Alfredo Teixeira, Mário Avelar, Leonor Xavier e Teresa Bartolomei. Os debates serão moderados por Teresa Toldy, Tiago P. Marques, Steffen Dix e José Tolentino Mendonça. O colóquio decorre no Centro de Informação Urbana de Lisboa (Picoas Plaza, R. Viriato, 13) e o programa detalhado está disponível aqui.

À procura de Sefarad nas judiarias portuguesas: as 300 marcas de judeus em Trancoso obrigados à conversão

Porta da vila de Trancoso (foto reproduzida daqui)
Em Trancoso, podem encontrar-se 300 marcas em casas que assinalam lugares onde teriam habitado judeus obrigados a converte-se ao cristianismo. Na judiaria de Trancoso, situada dentro das muralhas da pequena vila, viviam artesãos, médicos, colectores de impostos e pessoas com muitas outras actividades – incluindo algumas que chegaram a ser conselheiros de reis, médicos da coroa e altos dignitários da sociedade de então.
Em dia de Shabath judaico, traz-se aqui a referência a um texto (que pode ser lido aqui, em castelhano) de Nora Goldfinger na página de Shavei Israel (uma organização de divulgação e estudo do judaísmo sefardita) acerca das judiarias de Trancoso e da Covilhã.
Entre as marcas referidas por Goldfinger, podem descobrir-se um IHS, acrónimo para Jesus, ou um AM, abreviatura de Ave-Maria, como relatei num reportagem que publiquei em Abril de 2011, no Público, quando a Rota das Judiarias começava a ganhar forma (o texto, que pode ser lido aqui na íntegra, fala também das judiarias de Belmonte, Guarda, Tomar e Castelo de Vide. Entre as marcas que se encontram no “jogo de pista” que se pode jogar em Trancoso, descobrem-se ainda um círculo com um pentagrama – até ao início do século XX, a estrela de Salomão poderia ter sido usada por judeus ou por adeptos da cabala – ou uma cruz grega numa outra porta.
Já na Covilhã, recorda Nora Goldfinger, a cidade teve um importante contributo de judeus, que chegaram ao ponto de colocar a “estrela de David” no brazão covilhanense.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Quando a Filosofia e a Literatura se cruzam


Agenda


Vittorio Carpaccio, Santo Agostinho no estúdio, escrevendo as Confissões 
(Scuola di San Giorgio degli Schiavoni, Veneza)
 
Quando a Filosofia e a Literatura se cruzam é o título do curso que se inicia na próxima segunda-feira, 15 de Janeiro, na Capela Nossa Senhora da Bonança (conhecida como Capela do Rato), em Lisboa.
As sessões, com ritmo semanal, decorrem às segundas-feiras, sempre entre as 18h15 e as 20h, e abordarão autores de séculos passados como Platão, Santo Agostinho, Goethe, Voltaire ou Nietzsche, ou mais recentes como Albert Camus, Clarice Lispector, Milan Kundera, Umberto Eco ou Gonçalo M. Tavares.
Coordenado cientificamente por Maria Luísa Ribeiro Ferreira, o curso conta com as intervenções, entre outros, de Fernanda Henriques, Viriato Soromenho-Marques ou José Tolentino Mendonça.
Outras informações e o calendário dos temas e oradores podem ler-se aqui.
As inscrições encontram-se encerradas mas, à semelhança do que aconteceu com os cursos anteriores, sobre Filosofar é também agir (2017), e Os filósofos também falam de Deus (2016), o áudio das sessões ficará disponível em linha (no caso, as gravações podem ser encontradas nos anos respectivos, na rubrica O curso dos dias, da página da Capela do Rato).

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Entre Bragança e a Coreia: Que os sinos repiquem nos campanários

 As comunidades da Diocese de Bragança-Miranda estão a ressentir-se com a falta de clero e sentem-se cada vez mais abandonadas. A torcida da fé que ainda fumega nas aldeias mais remotas do Nordeste Transmontano está quase a apagar-se.
S. João Maria Vianney, o Santo Cura de Ars, dizia: “Deixai uma paróquia 20 anos sem padre e lá os homens adorarão os animais”. Talvez tenha razão, mas há pelo menos uma realidade no mundo que contradiz essa afirmação: a Igreja coreana.
No século XVII a fé cristã foi introduzida naquela península asiática com a chegada de livros católicos em chinês do jesuíta italiano Matteo Ricci. Até à chegada dos primeiros sacerdotes franceses, em 1836, os católicos alimentaram e mantiveram a fé, extraordinariamente, sem o alimento da eucaristia. Diversas perseguições foram decapitando as comunidades coreanas, habituando-se estas a viver e a aprofundar a sua fé mesmo sem sacerdotes, de tal modo que a Coreia é considerada um caso único no mundo de uma “nação que se evangelizou a si mesma”.
Durante os últimos anos o concelho de Vinhais foi particularmente fustigado pela diminuição do clero. Em pouco tempo, de sete diminuíram para três o número de sacerdotes que o servem. Há localidades que não têm missa durante mais de dois meses. D. José Cordeiro, o bispo desta diocese, tem-se disponibilizado ele próprio a celebrar em alguns domingos nessas comunidades. Numa delas, alguém lhe terá manifestado o abandono em que se encontram e lhe fez este apelo: “Todos nos abandonaram, por favor que a Igreja não nos abandone”.
(o texto pode continuar a ser lido aqui) 

Imagens: Igreja de Gimonde, Bragança (foto Fernando Calado Rodrigues) e Mártires da Coreia (ilustração reproduzida daqui)

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Mulheres e homens para 2018



Capas de Le Monde des Religions e Psychologies
duas das publicações citadas no texto

Na sua crónica semanal no Diário do Minho, Eduardo Jorge Madureira propõe um conjunto de mulheres e homens que vale a pena conhecer durante este ano:
“Por esta altura, multiplicam-se os balanços. Podem servir para selecionar as palavras ou os números do ano; os acontecimentos; os concertos, as exposições, os filmes e os livros; as personalidades. Entre o fim de um ano e o início de outro, foram várias as publicações que quiseram chamar a atenção para mulheres e homens do passado e do presente que poderão ser inspiradoras em 2018.
(...)
Não falta gente que vale a pena conhecer, mulheres e homens exemplares, que ajudam a construir um mundo melhor.”

Na crónica, que pode ser lida na íntegra aqui, citam-se as revistas Psychologies, que publicou um segundo número extra sobre “20 mestres da vida”, Le Monde des Religions,
que dedica um número extra a “22 mestres da sabedoria, e Geo, que escolheu “estes heróis que mudam o mundo e o sítio digital Aleteia, que escolheu “dez casos de testemunhas da caridade”. 


terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Avóspedagem: Aqui paga-se com companhia

Texto e fotos de Filipa Correia/Igreja Viva (Diário do Minho)




Aurora e Maria: empatia imediata desde o início

“Levanta-te perante uma cabeça branca e honra a pessoa do ancião.
Teme o teu Deus. Eu sou o Senhor.”
(Levítico 19:32)

Aurora, de 69 anos, “adoptou” uma neta. Tem dois filhos emigrados. O mais velho mora perto, mas “tem a vida dele”. Diz ser tímida e por isso não fazer muitas amizades. Recebeu Maria em sua casa, uma estudante que procurava alojamento. Faz-lhe companhia. Já não passa os dias e as noites só. E assim se cumpre o principal objectivo do programa Avóspedagem: alojar estudantes em casa de idosos para combater a solidão e o isolamento social da população sénior.

Um sofá para dois

Aurora, ou “D. Aurora”, como lhe chama Maria, nasceu numa aldeia em Vila Verde. Sentia-se só. Mudou-se para o centro de Braga para ter “mais companhia, ver mais pessoas”. Morava sozinha e o rebuliço da cidade não atenuou o seu sentimento de solidão. “Uma pessoa sente sempre quando está só. Quando tem alguém em casa há sempre aquele «bom dia», «boa noite», «até logo»”, explica. A noite era o que mais lhe custava. Entristecia-a o facto de “não ter ninguém com quem conversar, desabafar, dizer alguma coisa”. Hoje tem a companhia de Maria, uma estudante de 18 anos. Ao fim do jantar já não fica sozinha no sofá. Sempre que possível, sentam-se as duas a ver a novela.
Maria não tinha por hábito ver televisão, mas a hora da novela já passou a fazer parte da sua rotina. Natural de Lisboa, veio para Braga para estudar Psicologia. Quando soube que ficou colocada na Universidade do Minho, começou a procurar casa, tarefa que se revelou mais difícil do que imaginava. Uma pesquisa pelo site da Universidade deu-lhe a conhecer o programa Avóspedagem. O facto de não conhecer a cidade nem ninguém fazia com que se sentisse “desamparada”, por isso a oportunidade de morar com a “D. Aurora” pareceu-lhe a alternativa ideal. Vivem juntas desde Outubro. Maria não se arrepende. Não é de “grandes noitadas”, o que abona a favor da integração no programa. Mas sai com os amigos de vez em quando, geralmente durante a tarde. Cada uma tem as suas rotinas e garantem que não se privam de nada. Avisam quando saem e se vão demorar mais do que o habitual, apenas para que a outra não fique preocupada. E Aurora faz questão de frisar: “Quem manda nela são os pais, não sou eu”.
Os horários das refeições raramente coincidem. Aurora toma o pequeno-almoço fora. “Tenho algumas amigas que vêm ter comigo, conversamos um bocadinho e passo assim a manhã. A vida da Maria é diferente da minha”, conta. Por norma, as suas refeições são num horário mais tardio que as da estudante: “Eu só lá para as 21h é que como a minha sopinha. E ao almoço é igual, é sempre mais tarde, lá para as 13h30/14h. A Maria faz ao jeito dela, pode calhar de comermos ao mesmo tempo ou não. A gente entende-se”. Maria já conheceu uma das suas netas. “Ela gostou muito da Maria”, revela Aurora. “E eu também gostei muito da sua neta”, responde Maria, de imediato.

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Inês Fontinha: legalizar a prostituição é legitimar a compra de uma mulher por um homem


Ilustração reproduzida da página du Nid francês, que se pode visitar aqui

Quem defende a legalização da prostituição, deveria defendê-la também para as suas próprias filhas, defende Inês Fontinha, socióloga e ex-responsável d’O Ninho, a instituição que acompanha mulheres vítimas da prostituição e que está a comemorar meio século de existência.
Em entrevista a Manuel Vilas Boas, na TSF, Inês Fontinha, por cujas mãos passaram oito mil mulheres, manifesta-se radicalmente contra a legalização, que estará em debate no Parlamento. “Na prostituição, a sexualidade é vivida na mais profunda desigualdade”, afirma, e o que está em causa é o papel do cliente, que é “sempre um homem”. Por isso, entende que “não podemos legalizar uma situação que fere severamente a dignidade humana e que legitima a compra de uma mulher por um homem”.
A socióloga critica o discurso político dominante e o olhar de vários partidos sobre o tema, bem como o papel de organismos como a Comissão para a Igualdade de Género, cujo silêncio sobre o tema considera inadmissível.
Criada como instituição de inspiração católica, por Ana Maria Braga da Cruz, que para isso contou com o apoio do fundador do Nid francês, padre André-Marie Talvas, O Ninho nunca teve uma ajuda explícita da hierarquia católica, mas apenas de algumas personalidades. Por estes dias, no entanto, o actual patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, almoça numa das casas da instituição com as mulheres apoiadas pel’O Ninho.
Galardoado, em 2003, com o Prémio de Direitos Humanos da Assembleia da República, O Ninho participou também nos debates sobre o Código penal que, em 1982, levaram à despenalização da mulher vítima de prostituição e ao estabelecimento do crime de lenocínio.  
A entrevista pode ser ouvida aqui na íntegra.

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Que procuras em 2018?



“Falta uma voz única na Europa para enfrentar o drama dos refugiados”, defende a jornalista Lumena Raposo no debate Que Procuras em 2018?, que passou na SIC Notícias nos dias de passagem de ano. A crise europeia a propósito do drama dos refugiados é um desafio que se mantém de 2017 para 2018, como coincidiram os participantes neste debate (além de Lumena Raposo, também a deputada Catarina Marcelino, o historiador José Eduardo Franco e eu próprio, moderados por Joaquim Franco.
No debate, os convidados começaram por ser desafiados a escolher a palavra que marcou o ano de 2018 e a projectar 2018. Além do drama dos refugiados, também o papel do Papa Francisco e a participação das mulheres nas estruturas religiosas – em particular na Igreja Católica –, bem como a intervenção social e política dos crentes foram outros temas abordados.
Os actuais europeus são descendentes de migrantes de há séculos. Por isso, a Europa tem de repensar a sua política sobre o tema. Porque, se não fosse a voz do Papa, onde estaríamos hoje, pergunta-se a dado passo.
O Papa Francisco, cujo papel talvez possa ser avaliado com rigor só daqui a algum tempo, responde a expectativas de uma maior participação na Igreja e de mais justiça no mundo. Por isso, a defesa de uma maior intervenção dos cristãos, no campo social e político, é outra das ideias deixadas no debate. Tal como a necessidade de respeitar os direitos humanos, sem relativismos culturais ou religiosos.
Também o papel das mulheres foi objecto de debate. Têm elas de facto um lugar secundário? Ou devem ter mais participação nos lugares de decisão?
Com um novo ano que começa, rompendo a rotina da nossa existência, é tempo de fazer balanços e reler o mundo e a vida. Assim se projectam expectativas a partir de um verbo transformado em substantivo. O debate pode ser visto no vídeo acima ou na página da SIC Notícias.



sábado, 30 de dezembro de 2017

Refugiados: o Papa e os pactos, os encalhados e os rohyngia, e as fotos de “nós, os muçulmanos”

 
 A família Dabbah, "encalhada" na Turquia, 
que aguarda a possibilidade de viver em Portugal, 
uma das histórias da reportagem de Catarina Santos na Renascença, citada no final

O Papa Francisco deseja que, durante o ano de 2018, se consigam definir e aprovar dois pactos mundiais: um para migrações seguras, ordenadas e regulares, outro referido aos refugiados. O anseio é manifestado na sua mensagem para o 51º Dia Mundial da Paz, que a Igreja Católica assinala depois de amanhã, dia 1 de Janeiro. Desta vez, o texto é dedicado ao tema Migrantes e refugiados: homens e mulheres em busca de paz
É importante que tais documentos “sejam inspirados por sentimentos de compaixão, clarividência e coragem, de modo a aproveitar todas as ocasiões para fazer avançar a construção da paz: só assim o necessário realismo da política internacional não se tornará uma capitulação ao cinismo e à globalização da indiferença”, acrescenta o Papa.
Na mensagem, disponível aqui na íntegra, Francisco recorda os “mais de 250 milhões de migrantes no mundo, dos quais 22 milhões e meio são refugiados” (os números do Alto Comissariado das Nações Unidas apontavam, em 2016, para mais de 60 milhões de refugiados e deslocados internos no mundo). E diz que eles são mulheres e homens que apenas buscam um lugar para viver em paz. “Para o encontrar, muitos deles estão prontos a arriscar a vida numa viagem que se revela, em grande parte dos casos, longa e perigosa, a sujeitar-se a fadigas e sofrimentos, a enfrentar arames farpados e muros erguidos para os manter longe da meta.”
As pessoas fogem de conflitos armados, mas também levadas pelo “desejo de uma vida melhor, unido muitas vezes ao intento de deixar para trás o ‘desespero’ de um futuro impossível de construir”. E se a maioria o faz através de um percurso legal, “há quem tome outros caminhos, sobretudo por causa do desespero, quando a pátria não lhes oferece segurança nem oportunidades, e todas as vias legais parecem impraticáveis, bloqueadas ou demasiado lentas”.
O Papa contesta a retórica, largamente generalizada em muitos países de destino, “que enfatiza os riscos para a segurança nacional ou o peso do acolhimento dos recém-chegados, desprezando assim a dignidade humana que se deve reconhecer a todos, enquanto filhos e filhas de Deus.”
Num comentário à mensagem, publicado no National Catholic Reporter, que pode ser lido aqui em inglês, Tony Magliano afirma que “numerosos estudos indicam que a imigração traz o crime”, referindo concretamente a realidade dos Estados Unidos – e que se confirma também em muitos outros países. Pelo contrário: “A maior parte dos dados revelam que, em média, quando a imigração aumenta, o crime diminui.”
Acrescenta o Papa: “Quem fomenta o medo contra os migrantes, talvez com fins políticos, em vez de construir a paz, semeia violência, discriminação racial e xenofobia, que são fonte de grande preocupação para quantos têm a peito a tutela de todos os seres humanos.”

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Um convento resiliente, a partir do seu interior

 
“É uma beleza!...” Nossa Senhora da Conceição a ser coroada com a coroa da paz 
(pintura em azulejo no antecoro do Convento dos Cardaes)

Fundado por D. Luísa de Távora em 1681, como convento de carmelitas, acolhe, desde 1877, uma comunidade de irmãs dominicanas e de mulheres com necessidade de apoio. A história do Convento dos Cardaes conta-se com a resiliência: sobreviveu praticamente intacto ao terramoto de Lisboa de 1755 e às extinções dos conventos e mosteiros decretadas pela revolução liberal, em 1834, e pela República, em 1910-11. “Ficou sossegado”, comenta a irmã Ana Maria Vieira que, desde 1975, tem sido responsável pela comunidade, pela residência de mulheres e pela recuperação patrimonial do convento – e que guia a reportagem de Manuel Vilas Boas na TSF (com som de Mézicles Helim) percorrendo as escadarias, celas, igreja e arte patrimonial deste convento
Discreto por fora e riquíssimo por dentro, o edifício guarda vários segredos: abrem-se armários e deles saem pinturas ou retábulos, percorrem-se os corredores ou os claustros e deles emergem histórias desconhecidas ou esquecidas. Uma delas foi a razão da sobrevivência do convento, depois da extinção decretada no século XIX: graças ao facto de ali se acolherem mulheres cegas, o convento pode permanecer aberto; depois da instauração da República, foram destacados funcionários dos hospitais civis de Lisboa mas as mulheres “choravam tanto” que as irmãs tiveram de voltar, com o pedido de que “rezassem baixinho”.
Entre os muitos tesouros artísticos que o convento guarda, está um painel de azulejos alusivo à coroação de Nossa Senhora da Conceição com a coroa da paz. La femme européène (a mulher europeia), comentou um historiador de arte em visita ao convento, aludindo às doze estrelas que circundam a cabeça de Nossa Senhora, que inspiraram a bandeira da União Europeia. “É uma beleza”, comenta a irmã Ana Maria na reportagem, mostrando o seu gosto pelo património que tem à sua guarda há 42 anos. E que destaca, por exemplo outra pintura alusiva à ressurreição de Jesus: “Não há Madalena a dizer que [Cristo] não está, não há anjo, não há soldado estremunhado...” Apenas a luz e os símbolos da paixão. Porque não se pode representar o irrepresentável, como dirá também a irmã Ana Maria na reportagem da Visita Guiada conduzida por Paula Moura Pinheiro.
Na mesma reportagem, Ana Maria Vieira acrescenta: “O interior é que tem valor, o exterior são aparências.”

(Para conhecer o convento e o seu património, pode também procurar-se o livro O Convento dos Cardaes – Veios da Memória, ed. Quetzal)

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

O Natal tem nome? E que procuras em 2018?


Que nome damos ao Natal? Falamos do Natal das “religiões laicas”? Falamos do papel da narrativa ou dos avós? Falamos do Natal da compra que nos destitui da nossa identidade? Ou do Natal do consumo e da “retórica mentirosa”, que quase interdita (como acontece no espaço mediático e em escolas públicas) que se fale de Jesus, a sua razão primeira? Falamos do desafio de “ir a Belém sem palas nos olhos” e de um Deus que não tem religião – e que, por isso, apela a passar “da religião à fé”?
Todas estas questões – e muitas mais – passaram pelo debate O Natal tem nome?, uma emissão especial da SIC Notícias na véspera e no dia de Natal. Moderado pelo jornalista Joaquim Franco, o debate teve a participação de Fernando Ventura, frade franciscano e biblista, Joana Rigato, pós-doutorada em filosofia das neurociências, Annabela Rita, professora de Literatura Portuguesa, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, e José Brissos Lino, pastor protestante. O programa pode ser visto aqui ou no vídeo acima reproduzido.

No mesmo formato, a SIC Notícias irá transmitir nos próximos dias 31 (17h) e 1 de Janeiro (1h30 e 15h) o debate Que procuras em 2018?, onde serão tratadas questões como o papel das religiões e do catolicismo, o lugar da mulher nas instituições religiosas, a crise europeia a propósito dos refugiados, o futuro do Médio Oriente, o protagonismo do Papa Francisco.
Participam neste debate a deputada e ex-secretária de Estado para a Cidadania e Igualdade, Catarina Marcelino, o historiador José Eduardo Franco, e os jornalistas Lumena Raposo e António Marujo.

quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

Taizé em Basileia: Uma alegria que nunca se esgota


 Vista de Basileia (foto reproduzida daqui)


Nesta quinta-feira, 28, dezenas de milhar de jovens de toda a Europa estarão em Basileia para participar em mais uma etapa da peregrinação de confiança animada pela comunidade monástica ecuménica de Taizé.
Até 1 de Janeiro, os jovens viverão um conjunto de propostas e iniciativas de oração, reflexão, cultura e encontro na cidade que acolheu a primeira parte de um concílio católico (o concílio de Basileia-Ferrara-Florença, entre 1431-1445), que se distinguiu como um dos principais centros da Reforma protestante e que foi lugar de ensino para Nietzsche, o filósofo da “morte de Deus”.
Depois do encontro de Estrasburgo, em 2013, que mobilizou comunidades de dois países diferentes (França e Alemanha), esta é a primeira vez que tal encontro movimenta pessoas de três países – Suíça, França e Alemanha – depois de a comunidade ter sido convidada por onze responsáveis de diferentes igrejas.
Como preparação para o encontro e ponto de partida para as reflexões que serão animadas em Taizé ao longo do ano de 2018, o irmão Aloïs, prior de Taizé, escreveu uma carta intitulada Uma alegria que nunca se esgota, que a seguir se reproduz na íntegra:

Uma alegria que nunca se esgota

No ano passado, uma jovem muito doente disse-me: «Amo a vida». Continuo muito emocionado pela alegria interior que a preenchia, apesar dos limites muito grandes impostos pela doença. Fiquei tocado não apenas pelas suas palavras, mas também pela bela expressão do seu rosto.
E que dizer da alegria das crianças? Vi-a recentemente em África. Mesmo em campos de refugiados, onde se concentram tantas histórias dramáticas, a presença delas faz irromper a vida. A sua energia transforma um conjunto de vidas despedaçadas num viveiro cheio de promessas. Se elas soubessem o quanto nos ajudam a manter a esperança! A sua alegria de viver é um raio de luz.
Gostaríamos de nos deixar iluminar por estes testemunhos quando fizermos, ao longo do ano de 2018, uma reflexão sobre a alegria, uma das três realidades – com a simplicidade e a misericórdia – que o irmão Roger colocou no coração da vida da nossa Comunidade de Taizé.

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Músicas que falam com Deus (37) - Voz despida, voz pura de Natal

 


Em português, nua é o mesmo que despida; em gaélico, “nua” significa novo, fresco, puro. A maestrina irlandesa Aoife (lê-se Ifa) Hiney, radicada em Aveiro há vários anos, traduz assim a polissemia dos objectivos e do repertório do Voz Nua, que fundou em 2012: voz sem instrumentos e, por isso, pura, fresca, nova (mesmo se, em quatro temas, o piano está presente, para sublinhar a riqueza e pluralidade melódica de que a voz é capaz). Neste disco de Natal, o grupo mostra isso mesmo, dando vida nova a canções que ouvimos muitas vezes. É o caso de Joy to the World, Stille Nacht/Noite Feliz, Meia Noite Dada, ou até um por vezes irritante Santa Claus is coming to town, que aparece aqui com a ternura própria do Natal e um trabalho vocal muito rico. Mas o disco também revela pérolas puras ou tesouros mais escondidos, como Walking in the air, Hodie Nobis Caelorum ou Suantrai ár Slánaitheora, belíssima canção de embalar irlandesa que resume o mistério: “Tu és do meu sangue, meu amor, minha adoração/ Meu pequeno, lindo filho/ Só eu vou cuidar de ti.” Um disco jubiloso.

(Texto publicado na revista Além-Mar, disponível aqui; sobre este disco, o coro Voz Nua e a maestrina Aoife Hiney pode ouvir-se aqui o programa de Manuel Vilas Boas na TSF, que passou neste fim-de-semana de Natal.)

Nativitas
Intérpretes: Voz Nua; dir. Aoife Hiney; edição: Voz Nua