sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Manuel Pedro Cardoso (18 Outubro 1938 – 19 Dezembro 2017): Historiador do protestantismo português




Manuel Pedro Cardoso (foto reproduzida daqui
onde também está disponível um perfil biográfico)

Na apresentação do seu livro Cristãos Inconformistas – História da Igreja Presbiteriana de Lisboa, escrevia Manuel Pedro Cardoso, justificando o título: “A expressão ‘cristãos inconformistas’ devia ser considerada uma redundância, porque ser cristão, seguidor de Jesus Cristo, deveria significar alguém que não se conforma com este mundo, como exorta o apóstolo S. Paulo, que questiona todas as ideologias em nome dos valores do Reino.”
Homem bom e afável, Manuel Pedro Cardoso foi o primeiro historiador do protestantismo português. No texto a seguir, Timóteo Cavaco recorda as várias obras historiográficas e de espiritualidade que Pedro Cardoso deixou, antes de morrer, há precisamente um mês. Tendo em conta o empenhamento de Manuel Pedro Cardoso no diálogo ecuménico, faz todo o sentido evocá-lo no momento em que os cristãos de todo o mundo assinalam a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos (de 18 a 25 de Janeiro).

Manuel Pedro Cardoso
(texto de Timóteo Cavaco*)

Nasceu em Lisboa mas acabou por exercer a sua atividade pastoral, para a qual foi habilitado a 14 de junho de 1970, não só na sua cidade de origem, de 1973 a 1979, enquanto pastor da Igreja Presbiteriana de Lisboa, como também em diversas congregações reformadas na zona Centro do país, nomeadamente Figueira da Foz, Bebedouro, Portomar, Alhadas e Granja do Ulmeiro. Por razões de saúde, havia suspendido a sua ação pastoral em 2004.
Pedro Cardoso desempenhou ainda cargos da maior relevância nacional e com impacto internacional, nomeadamente o de secretário-geral do Conselho Português de Igrejas Cristãs de 1984 a 1996. Para além de ser conhecido pela sua personalidade afável e de bom trato, destacou-se entre os da sua geração pelo labor que dedicou à investigação histórica tendo sido o primeiro a empreender uma história completa do protestantismo português, vertida na obra Por Vilas e Cidades: Notas para a história do Protestantismo em Portugal, na sequência de um outro trabalho anteriormente publicado.
Na sua vertente de historiador, Manuel P. Cardoso dedicou-se ainda ao estudo histórico de algumas comunidades locais, de onde resultaram trabalhos publicados, como foi o caso das igrejas presbiterianas de Lisboa – Cem Anos de Vida (reeditado com o título Cristãos Inconformistas), do Bebedouro – O Protestantismo no mundo rural [acerca de cuja experiência ecuménica se pode ler esta reportagem no DN] – e da Figueira da Foz – Um Século na Figueira da Foz.

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Braga abre possibilidade de recomeço aos divorciados “recasados”

(foto reproduzida daqui)
 
Braga tornou-se, desde ontem, a primeira diocese portuguesa a regulamentar a possibilidade do acesso de pessoas casadas em segunda união à comunhão eucarística. Uma carta pastoral ao arcebispo, Jorge Ortiga, com o título Construir a Casa sobre a Rocha, e um Documento Orientador da Pastoral Familiar são os dois textos orientadores da nova estratégia pastoral para situações como a referida.
O novo Serviço Arquidiocesano de Acolhimento e Apoio à Família pretende “disponibilizar um acompanhamento integral e multidisciplinar” dos desafios e problemas que as famílias enfrentam, “com seriedade e sempre de forma fiel à doutrina da Igreja”, como afirmou o arcebispo numa conferencia de imprensa de apresentação dos textos, realizada quarta-feira.
Problemas como a violência doméstica, dependências, vida matrimonial e sexual, entre outros, são algumas das questões que o serviço acompanhará, com o contributo de uma equipa constituída por um psicólogo, um psiquiatra e um médico. Já as questões relativas aos divorciados “recasados” ou outras situações irregulares terão o apoio de três padres jesuítas e de uma jurista em Direito Canónico e Civil. Os custos podem não chegar sequer aos dois mil euros, afirmou ainda D. Jorge Ortiga. Mas, no caso dos “processos breves” instituídos pelo Papa Francisco, podem nem ter custo algum.
A nova orientação da diocese de Braga, cuja síntese pode ser lida aqui, surgiu na sequência da exortação apostólica Amoris Laetitia, do Papa Francisco. Num comentário publicado entretanto, o presidente do polo de Braga da Universidade Católica Portuguesa, João Duque,  saúda-a como uma “permanente afirmação e confirmação do valor imenso da família e das respectivas relações como núcleo da vida eclesial”. De modo nenhum acrescenta João Duque num texto que pode ser lido aqui na íntegra, o documento (no caso, a carta pastoral) segue “uma leitura facilitista dos compromissos, que são e continuarão a ser compromissos para toda a vida”. O também professor da Faculdade de Teologia defende ainda a importância de se criar um dinamismo “que ajude casais em fase de crise, para eventualmente se evitar a ruptura definitiva”, pois a mediação familiar “terá que ser uma prática corrente, precisamente para conseguir que sejam cada vez menos os casais cristãos que se separam”.
Numa notícia publicada no Jornal de Notícias de quarta-feira, a jornalista Emília Monteiro escreve que mais do que duplicou o número de pedidos de nulidade matrimonial, desde que, há dois anos, o Papa Francisco simplificou o processo. Em 2016, terão sido 200 os processos iniciados de norte a sul do país. Mais do dobro dos registados em 2015. Em 2017, quase no final do ano, somados os pedidos que deram entrada nos tribunais, o número está muito próximo dos 250, adianta a mesma fonte, num texto que pode ser lido aqui.
O mesmo texto adianta que existem já gabinetes de aconselhamento em todas as dioceses portuguesas, embora Braga seja a primeira a criar normas concretas que procuram responder aos apelos deixados pelo Papa na exortação A Alegria do Amor.

O caso de Rosa e de outras mulheres e homens que celebram uma “missa” que não é bem missa




Uma das fotografias reproduzidas na galeria de imagens disponível aqui
(foto Miguel Manso)

No Público de domingo passado, Margarida David Cardoso publicou uma reportagem sobre as celebrações dominicais na ausência de presbítero. Na Igreja Católica, estas celebrações generalizaram-se em Portugal, em dioceses mais dispersas e com problemas de falta de clero, a partir da década de 1980. A realização da celebrações da palavra (em tudo semelhantes à eucaristia, mas sem o gesto da consagração do pão e do vinho) é aqui retratada a partir do que se passa na região de Reguengos de Monsaraz, em que várias celebrações são animadas por mulheres e homens, mais jovens e mais velhos. Como Rosa: 

(...) Rosa, 55 anos, empregada fabril em Évora, ainda tem um “santo tremor” que sobe sempre consigo ao altar. Apesar de já ter dirigido centenas de celebrações dominicais, ao longo das mais de duas décadas que as tem a seu cargo. Começou de forma pontual, quando o padre tinha que ir à terra. Ou Rosa ia ou a igreja fechava. “O Nosso Senhor havia de meter as palavras certas na minha boca”, acreditou.
Se dependesse dela, aquela igreja, que quase parece uma pequena casa, nunca fecharia a porta. É pequena, caiada de branco, com um altar de pedra. Cá fora, emoldurada pelo olival e campos de pasto, cor de folhas e terra molhada.
Dentro, Rosa celebra uma espécie de missa que não é missa. Chama-se celebração da palavra, em substituição da eucaristia, que, diz a Igreja Católica, apenas pode ser feita por um padre. Na sua ausência, os cristãos designados para orientar as cerimónias seguem um guia de celebração. Há leituras, salmos, as mesmas orações, os mesmos cânticos, a comunhão e a oração dos fiéis. Só não há homilia — em sua substituição, os leigos fazem uma interpretação do evangelho – e a consagração das hóstias – estas são consagradas pelo presbítero numa missa anterior.

(a reportagem pode ser lida na íntegra aqui; no mesmo endereço pode ser vista uma galeria de imagens, da autoria de Miguel Manso, que pode ser acedida clicando sobre a fotografia que aparece na página)

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Papa Francisco no Chile e Peru: uma viagem difícil mas emocionante





O Papa Francisco à chegada ao Chile (foto reproduzida daqui)

O Papa Francisco já está no Chile desde ontem para uma viagem que o levará também, entre quinta-feira e Domingo, ao Peru. Uma viagem que o secretário de Estado do Vaticano, Pietro Parolin, considerou que seria difícil, ao mesmo tempo, emocionante
No ReligionDigital, José Manuel Vidal comentou os temas espinhosos para estes dias de regresso de Bergoglio à América Latina: no Chile, houve protestos violentos contra os custos da visita (cerca de seis milhões de dólares), mas o Papa terá de enfrentar questões como os abusos sexuais cometidos por membros do clero, a situação dos índios mapuches, a perda de credibilidade da Igreja, além do crescimento económico que está a gerar  graves desigualdades e a questão política do acesso da Bolívia ao mar; no Peru, será de novo a questão dos abusos, dos indígenas e, ainda, de uma Igreja cuja liderança está partida em dois, com um sector claramente do lado das reformas desejadas pelo Papa e o outro a querer prosseguir uma linha de conluio com os poderes político e económico; ao mesmo tempo, o país vive dias de agitação política, depois do perdão presidencial ao antigo Presidente Fujimori. (O texto de Vidal, que sugere alguns gestos que o Papa pode protagonizar durante estes dias, pode ser lido, na íntegra, aqui em castelhano.)
No seu primeiro discurso, o Papa referiu-se precisamente à questão dos abusos (dos quais pediu perdão) e à sabedoria dos povos indígenas. Depois, Francisco foi rezar junto do túmulo de Enrique Alvear, que ficou conhecido como “bispo dos pobres” e morreu em 29 de Abril de 1982, com 66 anos - um dos gestos que Vidal escreve, no seu texto, que ele poderia protagonizar.
Precisamente no Peru, onde o Papa chega na quinta-feira, o Vaticano nomeou, na semana passada, um bispo colombiano para liderar uma importante organização católica, que tem alguns dos seus responsáveis acusados de abusos.
Esta viagem surge num contexto em que aumenta claramente a oposição interna ao Papa, no interior da Igreja Católica. Um dos últimos episódios foram as acusações dirigidas ao cardeal Oscar Maradiaga, coordenador do C-9, o grupo de cardeais conselheiros do Papa e um dos homens mais próximos de Francisco. Em causa estariam casos de utilização de fundos indevidos e uma investigação a um bispo auxiliar de Maradiaga – que, no entanto, terá sido ordenada pelo próprio cardeal.
O próprio Papa telefonou ao cardeal, depois de surgidas as notícias, afirmando a sua solidariedade e manifestando a sua dor com o que estaria a ser feito, como Maradiaga contou numa entrevista.
Este é o mesmo Papa que, no entanto, inspira muitas coisas, em muitas pessoas – cristãs ou não-cristãs, crentes ou não-crentes – como escrevia, há duas semanas, Alexandra Lucas Coelho: “Não é pouco que muitos milhões de cristãos no mundo tenham em Francisco a sua referência de carne-e-osso. Não é pouco o que ele inspira em não-cristãos, talvez especialmente não-crentes. Talvez Francisco ainda venha a ser a pessoa que fará da Igreja Católica uma instituição menos injusta, mais à altura do papa que hoje tem. E como nessa nova imaginação sonhada por ele fariam diferença contra-poderes assim à frente de outras crenças. Diferença política, para todos nós.” (O texto integral pode ser lido aqui)

(Uma síntese do que tem sido a oposição declarada ao Papa foi publicada no Guardian e traduzida pelo Público, aqui; um dos capítulos do livro Papa Francisco - A Revolução Imparável, que publiquei com Joaquim Franco, desenvolve também este tema.)


sábado, 13 de janeiro de 2018

Fátima no seu centenário: olhares plurais


Agenda 

O santuário de Fátima em noite de peregrinação 
(foto reproduzida daqui)

Fátima no seu centenário: olhares plurais é o título do colóquio que decorre em Lisboa, na próxima quarta-feira, 17 de Janeiro, entre as 10h e as 18h.
Promovido pelo Policredos – Observatório da Religião no Espaço Público, do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, e pelo CITER (Centro de Investigação em Teologia e Estudos de Religião), da Universidade Católica Portuguesa, o colóquio abre com uma intervenção de frei Bento Domingues, que procurará responder à pergunta Que fica do centenário da Fátima? Bento Domingues, recorde-se, é autor do livro A Religião dos Portugueses, uma obra fundadora nos estudos contemporâneos sobre Fátima e que será reeditada durante o corrente ano de 2018.
O centenário dos acontecimentos de Fátima, ocorrido em 2017, “associado à canonização dos pastorinhos e à visita do Papa Francisco”, em Maio, “deu origem ou fez reemergir questões que se prendem com a relação entre o Estado e a Igreja, com a chamada ‘identidade religiosa’ dos portugueses, com a sintonia com a mensagem do Papa e com a dissidência face à mesma”, lê-se no texto de apresentação do programa.
“Os media ocuparam um lugar de destaque na cobertura dos acontecimentos, tratando-os com maior ou menor profundidade, maior ou menor literacia, mas sempre como um grande acontecimento mediático. Chegados quase ao fim do arco temporal de comemoração (depois do também simbólico 13 de Outubro), impõe-se fazer uma análise crítica multidisciplinar, na qual se façam ouvir vozes diversas sobre os mesmos acontecimentos”, acrescenta o mesmo texto.
Os temas em debate incluem as reinterpretações de Fátima, no campo das ciências sociais e da teologia; as representações de Fátima a partir dos média, da música, artes plásticas e cinema, e a relação entre literatura e Fátima.
A lista dos intervenientes inclui também Anna Fedele, Teresa Toldy, António Martins, António Marujo, Alfredo Teixeira, Mário Avelar, Leonor Xavier e Teresa Bartolomei. Os debates serão moderados por Teresa Toldy, Tiago P. Marques, Steffen Dix e José Tolentino Mendonça. O colóquio decorre no Centro de Informação Urbana de Lisboa (Picoas Plaza, R. Viriato, 13) e o programa detalhado está disponível aqui.

À procura de Sefarad nas judiarias portuguesas: as 300 marcas de judeus em Trancoso obrigados à conversão

Porta da vila de Trancoso (foto reproduzida daqui)
Em Trancoso, podem encontrar-se 300 marcas em casas que assinalam lugares onde teriam habitado judeus obrigados a converte-se ao cristianismo. Na judiaria de Trancoso, situada dentro das muralhas da pequena vila, viviam artesãos, médicos, colectores de impostos e pessoas com muitas outras actividades – incluindo algumas que chegaram a ser conselheiros de reis, médicos da coroa e altos dignitários da sociedade de então.
Em dia de Shabath judaico, traz-se aqui a referência a um texto (que pode ser lido aqui, em castelhano) de Nora Goldfinger na página de Shavei Israel (uma organização de divulgação e estudo do judaísmo sefardita) acerca das judiarias de Trancoso e da Covilhã.
Entre as marcas referidas por Goldfinger, podem descobrir-se um IHS, acrónimo para Jesus, ou um AM, abreviatura de Ave-Maria, como relatei num reportagem que publiquei em Abril de 2011, no Público, quando a Rota das Judiarias começava a ganhar forma (o texto, que pode ser lido aqui na íntegra, fala também das judiarias de Belmonte, Guarda, Tomar e Castelo de Vide. Entre as marcas que se encontram no “jogo de pista” que se pode jogar em Trancoso, descobrem-se ainda um círculo com um pentagrama – até ao início do século XX, a estrela de Salomão poderia ter sido usada por judeus ou por adeptos da cabala – ou uma cruz grega numa outra porta.
Já na Covilhã, recorda Nora Goldfinger, a cidade teve um importante contributo de judeus, que chegaram ao ponto de colocar a “estrela de David” no brazão covilhanense.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Quando a Filosofia e a Literatura se cruzam


Agenda


Vittorio Carpaccio, Santo Agostinho no estúdio, escrevendo as Confissões 
(Scuola di San Giorgio degli Schiavoni, Veneza)
 
Quando a Filosofia e a Literatura se cruzam é o título do curso que se inicia na próxima segunda-feira, 15 de Janeiro, na Capela Nossa Senhora da Bonança (conhecida como Capela do Rato), em Lisboa.
As sessões, com ritmo semanal, decorrem às segundas-feiras, sempre entre as 18h15 e as 20h, e abordarão autores de séculos passados como Platão, Santo Agostinho, Goethe, Voltaire ou Nietzsche, ou mais recentes como Albert Camus, Clarice Lispector, Milan Kundera, Umberto Eco ou Gonçalo M. Tavares.
Coordenado cientificamente por Maria Luísa Ribeiro Ferreira, o curso conta com as intervenções, entre outros, de Fernanda Henriques, Viriato Soromenho-Marques ou José Tolentino Mendonça.
Outras informações e o calendário dos temas e oradores podem ler-se aqui.
As inscrições encontram-se encerradas mas, à semelhança do que aconteceu com os cursos anteriores, sobre Filosofar é também agir (2017), e Os filósofos também falam de Deus (2016), o áudio das sessões ficará disponível em linha (no caso, as gravações podem ser encontradas nos anos respectivos, na rubrica O curso dos dias, da página da Capela do Rato).

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Entre Bragança e a Coreia: Que os sinos repiquem nos campanários

 As comunidades da Diocese de Bragança-Miranda estão a ressentir-se com a falta de clero e sentem-se cada vez mais abandonadas. A torcida da fé que ainda fumega nas aldeias mais remotas do Nordeste Transmontano está quase a apagar-se.
S. João Maria Vianney, o Santo Cura de Ars, dizia: “Deixai uma paróquia 20 anos sem padre e lá os homens adorarão os animais”. Talvez tenha razão, mas há pelo menos uma realidade no mundo que contradiz essa afirmação: a Igreja coreana.
No século XVII a fé cristã foi introduzida naquela península asiática com a chegada de livros católicos em chinês do jesuíta italiano Matteo Ricci. Até à chegada dos primeiros sacerdotes franceses, em 1836, os católicos alimentaram e mantiveram a fé, extraordinariamente, sem o alimento da eucaristia. Diversas perseguições foram decapitando as comunidades coreanas, habituando-se estas a viver e a aprofundar a sua fé mesmo sem sacerdotes, de tal modo que a Coreia é considerada um caso único no mundo de uma “nação que se evangelizou a si mesma”.
Durante os últimos anos o concelho de Vinhais foi particularmente fustigado pela diminuição do clero. Em pouco tempo, de sete diminuíram para três o número de sacerdotes que o servem. Há localidades que não têm missa durante mais de dois meses. D. José Cordeiro, o bispo desta diocese, tem-se disponibilizado ele próprio a celebrar em alguns domingos nessas comunidades. Numa delas, alguém lhe terá manifestado o abandono em que se encontram e lhe fez este apelo: “Todos nos abandonaram, por favor que a Igreja não nos abandone”.
(o texto pode continuar a ser lido aqui) 

Imagens: Igreja de Gimonde, Bragança (foto Fernando Calado Rodrigues) e Mártires da Coreia (ilustração reproduzida daqui)

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Mulheres e homens para 2018



Capas de Le Monde des Religions e Psychologies
duas das publicações citadas no texto

Na sua crónica semanal no Diário do Minho, Eduardo Jorge Madureira propõe um conjunto de mulheres e homens que vale a pena conhecer durante este ano:
“Por esta altura, multiplicam-se os balanços. Podem servir para selecionar as palavras ou os números do ano; os acontecimentos; os concertos, as exposições, os filmes e os livros; as personalidades. Entre o fim de um ano e o início de outro, foram várias as publicações que quiseram chamar a atenção para mulheres e homens do passado e do presente que poderão ser inspiradoras em 2018.
(...)
Não falta gente que vale a pena conhecer, mulheres e homens exemplares, que ajudam a construir um mundo melhor.”

Na crónica, que pode ser lida na íntegra aqui, citam-se as revistas Psychologies, que publicou um segundo número extra sobre “20 mestres da vida”, Le Monde des Religions,
que dedica um número extra a “22 mestres da sabedoria, e Geo, que escolheu “estes heróis que mudam o mundo e o sítio digital Aleteia, que escolheu “dez casos de testemunhas da caridade”. 


terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Avóspedagem: Aqui paga-se com companhia

Texto e fotos de Filipa Correia/Igreja Viva (Diário do Minho)




Aurora e Maria: empatia imediata desde o início

“Levanta-te perante uma cabeça branca e honra a pessoa do ancião.
Teme o teu Deus. Eu sou o Senhor.”
(Levítico 19:32)

Aurora, de 69 anos, “adoptou” uma neta. Tem dois filhos emigrados. O mais velho mora perto, mas “tem a vida dele”. Diz ser tímida e por isso não fazer muitas amizades. Recebeu Maria em sua casa, uma estudante que procurava alojamento. Faz-lhe companhia. Já não passa os dias e as noites só. E assim se cumpre o principal objectivo do programa Avóspedagem: alojar estudantes em casa de idosos para combater a solidão e o isolamento social da população sénior.

Um sofá para dois

Aurora, ou “D. Aurora”, como lhe chama Maria, nasceu numa aldeia em Vila Verde. Sentia-se só. Mudou-se para o centro de Braga para ter “mais companhia, ver mais pessoas”. Morava sozinha e o rebuliço da cidade não atenuou o seu sentimento de solidão. “Uma pessoa sente sempre quando está só. Quando tem alguém em casa há sempre aquele «bom dia», «boa noite», «até logo»”, explica. A noite era o que mais lhe custava. Entristecia-a o facto de “não ter ninguém com quem conversar, desabafar, dizer alguma coisa”. Hoje tem a companhia de Maria, uma estudante de 18 anos. Ao fim do jantar já não fica sozinha no sofá. Sempre que possível, sentam-se as duas a ver a novela.
Maria não tinha por hábito ver televisão, mas a hora da novela já passou a fazer parte da sua rotina. Natural de Lisboa, veio para Braga para estudar Psicologia. Quando soube que ficou colocada na Universidade do Minho, começou a procurar casa, tarefa que se revelou mais difícil do que imaginava. Uma pesquisa pelo site da Universidade deu-lhe a conhecer o programa Avóspedagem. O facto de não conhecer a cidade nem ninguém fazia com que se sentisse “desamparada”, por isso a oportunidade de morar com a “D. Aurora” pareceu-lhe a alternativa ideal. Vivem juntas desde Outubro. Maria não se arrepende. Não é de “grandes noitadas”, o que abona a favor da integração no programa. Mas sai com os amigos de vez em quando, geralmente durante a tarde. Cada uma tem as suas rotinas e garantem que não se privam de nada. Avisam quando saem e se vão demorar mais do que o habitual, apenas para que a outra não fique preocupada. E Aurora faz questão de frisar: “Quem manda nela são os pais, não sou eu”.
Os horários das refeições raramente coincidem. Aurora toma o pequeno-almoço fora. “Tenho algumas amigas que vêm ter comigo, conversamos um bocadinho e passo assim a manhã. A vida da Maria é diferente da minha”, conta. Por norma, as suas refeições são num horário mais tardio que as da estudante: “Eu só lá para as 21h é que como a minha sopinha. E ao almoço é igual, é sempre mais tarde, lá para as 13h30/14h. A Maria faz ao jeito dela, pode calhar de comermos ao mesmo tempo ou não. A gente entende-se”. Maria já conheceu uma das suas netas. “Ela gostou muito da Maria”, revela Aurora. “E eu também gostei muito da sua neta”, responde Maria, de imediato.

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Inês Fontinha: legalizar a prostituição é legitimar a compra de uma mulher por um homem


Ilustração reproduzida da página du Nid francês, que se pode visitar aqui

Quem defende a legalização da prostituição, deveria defendê-la também para as suas próprias filhas, defende Inês Fontinha, socióloga e ex-responsável d’O Ninho, a instituição que acompanha mulheres vítimas da prostituição e que está a comemorar meio século de existência.
Em entrevista a Manuel Vilas Boas, na TSF, Inês Fontinha, por cujas mãos passaram oito mil mulheres, manifesta-se radicalmente contra a legalização, que estará em debate no Parlamento. “Na prostituição, a sexualidade é vivida na mais profunda desigualdade”, afirma, e o que está em causa é o papel do cliente, que é “sempre um homem”. Por isso, entende que “não podemos legalizar uma situação que fere severamente a dignidade humana e que legitima a compra de uma mulher por um homem”.
A socióloga critica o discurso político dominante e o olhar de vários partidos sobre o tema, bem como o papel de organismos como a Comissão para a Igualdade de Género, cujo silêncio sobre o tema considera inadmissível.
Criada como instituição de inspiração católica, por Ana Maria Braga da Cruz, que para isso contou com o apoio do fundador do Nid francês, padre André-Marie Talvas, O Ninho nunca teve uma ajuda explícita da hierarquia católica, mas apenas de algumas personalidades. Por estes dias, no entanto, o actual patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, almoça numa das casas da instituição com as mulheres apoiadas pel’O Ninho.
Galardoado, em 2003, com o Prémio de Direitos Humanos da Assembleia da República, O Ninho participou também nos debates sobre o Código penal que, em 1982, levaram à despenalização da mulher vítima de prostituição e ao estabelecimento do crime de lenocínio.  
A entrevista pode ser ouvida aqui na íntegra.

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Que procuras em 2018?



“Falta uma voz única na Europa para enfrentar o drama dos refugiados”, defende a jornalista Lumena Raposo no debate Que Procuras em 2018?, que passou na SIC Notícias nos dias de passagem de ano. A crise europeia a propósito do drama dos refugiados é um desafio que se mantém de 2017 para 2018, como coincidiram os participantes neste debate (além de Lumena Raposo, também a deputada Catarina Marcelino, o historiador José Eduardo Franco e eu próprio, moderados por Joaquim Franco.
No debate, os convidados começaram por ser desafiados a escolher a palavra que marcou o ano de 2018 e a projectar 2018. Além do drama dos refugiados, também o papel do Papa Francisco e a participação das mulheres nas estruturas religiosas – em particular na Igreja Católica –, bem como a intervenção social e política dos crentes foram outros temas abordados.
Os actuais europeus são descendentes de migrantes de há séculos. Por isso, a Europa tem de repensar a sua política sobre o tema. Porque, se não fosse a voz do Papa, onde estaríamos hoje, pergunta-se a dado passo.
O Papa Francisco, cujo papel talvez possa ser avaliado com rigor só daqui a algum tempo, responde a expectativas de uma maior participação na Igreja e de mais justiça no mundo. Por isso, a defesa de uma maior intervenção dos cristãos, no campo social e político, é outra das ideias deixadas no debate. Tal como a necessidade de respeitar os direitos humanos, sem relativismos culturais ou religiosos.
Também o papel das mulheres foi objecto de debate. Têm elas de facto um lugar secundário? Ou devem ter mais participação nos lugares de decisão?
Com um novo ano que começa, rompendo a rotina da nossa existência, é tempo de fazer balanços e reler o mundo e a vida. Assim se projectam expectativas a partir de um verbo transformado em substantivo. O debate pode ser visto no vídeo acima ou na página da SIC Notícias.