segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

O fanatismo como “inflexibilidade, sentimentalismo e falta de imaginação”

Livros para oferecer no Natal (II)

Texto de Eduardo Jorge Madureira

O romancista israelita Sami Michael descreveu uma viagem de táxi em que o motorista se pôs a predicar sobre quão importante era para os judeus, como ele próprio e o seu passageiro, que se matassem todos os árabes. Sami Michael escutava-o com enorme paciência e, em vez de se mostrar horrorizado e o mandar calar, decidiu perguntar-lhe quem deveria ter o encargo de matar a totalidade dos árabes. O taxista respondeu o que se lhe afigurava óbvio: “Nós! Os judeus! Temos de matá-los! É ou nós ou eles! Você não vê o que eles estão sempre a fazer-nos!” O escritor decidiu insistir na interrogação sobre quem, exactamente, deveria matar todos os árabes: “O exército? A polícia? Serão os bom­beiros? Ou os médicos de bata branca, com injecções?” O taxista, depois de uma pausa para calcular a melhor resposta, disse: “Temos de dividi-los irmãmente por cada um de nós. Cada homem judeu terá de matar uns quantos árabes”. Sami Michael prosseguiu a indagação: “Tudo bem. Digamos que você, por ser de Haifa, recebe um prédio de apartamentos em Haifa. Vai de porta em porta, toca à campainha e pergunta delicadamente aos moradores: ‘Perdão, serão por acaso árabes?’ Se a resposta for sim, dispa­ra e mata-os. Quando acaba de matar todos os árabes do seu prédio, volta para casa, mas, antes de se afastar, ouve de repente do andar mais alto o choro de um bebé. O que fazer? Voltar atrás? Subir as escadas e matar o bebé? Sim ou não?” Depois de um demorado silêncio, o taxista responde a Sami Michael: “Escute, senhor, você é uma pessoa muito cruel!”
A história é contada pelo escritor israelita Amos Oz no livro Caros fanáticos. Fé, fanatismo e convivência no século XXI como exemplo da confusão que prevalece no espírito de um fanático: “uma combinação de inflexibilidade, de sentimentalismo e de falta de imaginação”. Para Amos Oz, que é também um militante pela paz, Sami Michael conseguiu, ao trazer o bebé para a história, confundir o motorista de táxi, tocando-lhe na “corda emocional”. O episódio oferece também uma, ainda que ténue, esperança, uma vez que, como escreve Amos Oz, ao se ser instado a imaginar os detalhes do horror de que se faz a apologia, emerge um embaraço que é “uma pequena brecha súbita no muro da inflexibilidade fanática”.

sábado, 8 de dezembro de 2018

Matança

Texto de Leonor Xavier


O rio Amazonas nos arredores de Manaus: um infinito de medida na surpresa, 
nos acontecimentos, nas emoções” (foto © António Marujo)

Menos de um ano antes do Sínodo Pan-Amazónico se realizar e a poucas semanas da tomada de posse de Jair Bolsonaro como Presidente do Brasil, a estratégia política do Governo brasileiro para a Amazónia é preocupante. Pareceu-me útil retomar o tema, relendo o artigo de opinião que há um ano escrevi para o Jornal Público.  

O Brasil é infinito de medida na surpresa, nos acontecimentos, nas emoções. E já que o tema corrupção pouco abala a opinião pública, retomo a saga da Floresta Amazónica e da governação de Michel Temer, mais ainda agora contestada pela recente decisão de abrir à exploração de mineradoras multinacionais uma área de cerca de 50 mil km2, onde existem reservas indígenas e ambientais, onde há ouro, cobre, manganês, ferro. 
Neste Brasil sempre inesperado e pasmoso, até hoje se revelam comunidades indígenas nunca vistas. Ainda se confrontam flechas e armas, a divisão entre vida e morte passa por um vírus de gripe, um produto tóxico, alguma substância que por má fé possa contagiar territórios onde não há defesa nem imunidade. Na demarcação das reservas indígenas, a guerra química é real, a violência é extrema. Há o conflito entre índios e garimpeiros, comprados como escravos, a trabalhar por valor de nada. Há o confronto entre as populações e os agentes ambientais, entre madeireiros, fornecedores do garimpo, fazendeiros, poderes locais. Há a disputa entre empresas, interesses e negócios políticos e privados. Háos lobbies para monopólios de mineração. Estes acontecimentos são notícia nacional quase diária, logo divulgada. A Floresta Amazónica é uma grande causa para o povo brasileiro. 
Logo que publicado o decreto do presidente Temer, as instâncias do poder em Brasília contestaram-no. A política de abertura à mineração foi interpretada por muitos analistas como uma medida contra a crise económica que tem fraturado o país. Para outros, ao invés, uma estratégia de abertura com controlo federal seria melhor do que a atual situação em que três mil garimpeiros depredam ilegalmente a natureza. Houve reações da União Europeia, dos bispos, dos ambientalistas, dos ativistas políticos, dos mais variados setores da sociedade brasileira. Na justiça federal, foi alegada desobediência à Constituição, e foram proibidas outras possíveis decisões do presidente sobre mineração. Pela Igreja Católica, bispos de nove países amazónicos declararam o decreto como antidemocrático, considerando-o uma ameaça política para o Brasil. No Congresso, deputados ambientalistas, defenderam um projeto de lei para anular tais decisões. O Ministério Público do Amapá empreendeu uma ação civil pública e declarou a extinção daquela área de Reserva como ameaça à biodiversidade e ao ambiente, como atentado contra a vida, pronto a destruir as populações e as comunidades indígenas. E na abertura do Rock in Rio, a oposição ao decreto foi proclamada pela modelo Gisele Bundchen, ativista ambiental, com convicção, firmeza e comoção.

Judaísmo: A partilha da luz no Hanukkah em Cascais

Texto, fotos e vídeo de Maria Wilton


As velas de Hanukkah: “A luz é a única coisa que, quando partilhamos, não ficamos com menos. 
Se passarmos uma chama, ficamos com duas.”

A Baía de Cascais está calma. A noite de quinta-feira, 6 de dezembro, parece outra qualquer, na hora de regressar a casa. Mas a roda gigante que ali está montada para a época do Natal celebra, hoje outra festa. No letreiro luminoso, lê-se: “Feliz Hanukkah”. 
Ali ao lado, quase escondida de quem passa, cerca de uma centena de pessoas reúne-se numa grande tenda para assinalar a quinta noite do Hanukkah, a Festa das Luzes judaica. É uma das mais importantes do calendário: durante oito dias, recorda-se a inauguração do segundo Templo de Jerusalém, depois de este ter sido profanado pelos selêucidas sírios.
A história de Hanukkah está contada no primeiro e segundo livros dos Macabeus, que integram a Bíblia judaica. Nestes está descrita em detalhe a história que originou a celebração: Em 165 a.E.C. (antes da Era Comum), o rei Antioco Epifânio queria helenizar a Síria e a Judeia, de maneira violenta. Para isso, proibia celebração do Shabat, a leitura da Bíblia e a circuncisão e mandou colocar no Tempo de Jerusalém uma estátua de Júpiter, chegando a ordenar sacrifícios com porcos.
Os israelitas revoltaram-se e Judá Macabeu liderou uma guerra de guerrilha contra a ocupação selêucida. Quando, depois da reconquista de Jerusalém, os judeus purificaram o Templo, conta-se que foi encontrado um pote com azeite para acender a chama sagrada durante um dia. Mas o azeite queimou durante oito dias.


Um judeu na cerimónia de quinta-feira: a festa assinalar a libertação da ocupação selêucida

Em memória desses acontecimentos, os judeus acendem as velas de um menorá ou hanukkiah, candelabro com nove braços. Neste, um dos braços está tipicamente elevado em relação aos restantes e essa vela, a shamashé utilizada para acender as oito restantes, uma por cada noite de Hanukkah.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

Motins, greves e as preocupações dos capelães de prisões em Portugal

Texto de Maria Wilton






Número total de reclusos em Portugal:
 a descer desde 2013, depois de ter atingido o máximo em 1998 
(clicar sobre a imagem para ampliar) 

“Todos os mundos fechados são mundos onde a tensão habita. Cada recluso é um indivíduo com a sua história pessoal. Foi privado da liberdade porque socialmente prejudicou o próximo e o cumprimento da pena tem que ser esse. Mas podemos perguntar se o sistema de justiça que temos se preocupa com a sua reabilitação e reinserção.”
O comentário ao RELIGIONLINE é do padre João Nogueira, 55 anos, capelão do Estabelecimento Prisional de Lisboa (EPL), a propósito dos incidentes dos últimos dias, em quatro prisões portuguesas: “Essa discussão tem de ser feita em paz na sociedade, e não apenas a propósito de um motim. É uma questão de maturidade democrática.”
Na passada terça-feira, 4 de dezembro, vários detidos do EPL iniciaram um protesto depois de ter sido anunciado que não iria haver visitas no dia seguinte, quarta-feira, por estar marcado um plenário de guardas, convocado pelo Sindicato Nacional do Corpo da Guarda Prisional. Ao Observador, Celso Manata, diretor-geral dos Serviços Prisionais admitiu que os reclusos só descobriram naquele dia que haveria greve dos guardas. A notícia acabaria por levar 170 reclusos da Ala B do EPL a amotinarem-se, reagindo com gritos e queimando colchões e papéis.
Também em declarações ao Observador, o presidente do sindicato, Jorge Alves, afirmou que a “ala B tem estado ultimamente em alvoroço” e referiu que a situação é imagem da falta de recursos nas cadeias, tanto para os guardas prisionais, como para os reclusos. 
“O homem, sendo privado de liberdade, já não está confortável na sua vida e história. Depois, privado de coisas básicas, facilmente a bolha rebenta”, acrescenta o capelão do estabelecimento. “Um recluso não sendo, não tendo e não habitando o seu espaço interior, sente a carência. E depois, muitas vezes, há carências efectivas que o sistema não dá, desde coisas básicas, como papel higiénico, champô, lâmina de barbear... aquilo que normalmente temos em casa para gerir o quotidiano.”
As carências no EPL são conhecidas. O relatório do Comité Europeu para a Prevenção da Tortura e das Penas ou Tratamentos Desumanos ou Degradantes, publicado a 27 de fevereiro deste ano, depois de uma visita a vários estabelecimentos prisionais portugueses, verificou que o EPL, com capacidade para 886 pessoas, albergava 1253 homens. O relatório dava ainda conta de que “os reclusos vivem em condições desumanas”, em celas frias, húmidas e escuras e que havia ratos a sair “pelas instalações sanitárias localizadas no piso térreo da prisão.” Adicionalmente, há cerca de um mês que os bares da prisão estão fechados devido à greve.
O padre João Nogueira comenta ainda que os reclusos não devem ser ilhas e que, se assim se tornaram, homens e mulheres devem ser desafiados a fazer pontes, a unir as margens de quem é livre e de quem é recluso: “Para quem passa de diante do EPL, é muito fácil pensar que, se os reclusos estão ali, é porque alguma coisa fizeram – e o pensamento solidário acaba ali. A solução é cada cidadão assumir a sua cidadania. Esse é que é o grande desafio de um pensamento social.”

Fernando Belo (1933-2018): o filósofo que foi padre e fez a leitura materialista do Evangelho de Marcos

In Memoriam
Texto de António Marujo


Fernando Belo

Em Agosto de 2015, Fernando Belo escrevia no Público: “Há três dicotomias políticas nos evangelhos que podem ser esclarecedoras: ‘não podeis servir Deus e o Dinheiro’ (Mateus 6,24), ‘dai o que é de César a César e o que é de Deus a Deus’ (Marcos 12,17), ‘[Deus] não é um Deus de mortos, mas de vivos; todos com efeito vivem por ele’ (Lucas 20,38). O dinheiro, César e o Deus dos mortos (da religião enquanto poder, de que o suporte é o Templo, adversário simbólico de Jesus) são três feitiços do poder substantivo que impede que se possa viver fecundamente. É o cerne da atitude espiritual, renunciar aos feitiços, mas também é a de todos os grandes apaixonados por causas de vida, artistas ou pensadores, gente entregue à generosidade social, aqueles cujas biografias lemos por vezes maravilhados, que nos mostram como vale a pena viver. Fecundidade fora do ‘poder’: ‘sem posses’ mas ‘podendo’ além do que podiam. É isso uma ética radical.”
Da busca de uma ética radical se fez a vida de Fernando Belo, filósofo e professor de filosofia, após ter-se licenciado em Engenharia Civil, entrado para o seminário, ordenado padre e licenciado em teologia. Foi depois de se desencantar com o ministério de padre que abraçou uma carreira académica na área da filosofia, caminho que lhe tinha sido aberto ainda no seminário pelo padre Honorato Rosa. Fernando Belo morreu na madrugada de segunda-feira passada, 3 de Dezembro, aos 85 anos, na sequência de uma doença respiratória. 
O seu percurso singular ficou marcado pela publicação de Lecture Matérialiste de l’Évangile de MarcRécit, pratique, idéologie (Leitura Materialista do Evangelho de Marcos – Narrativa, prática, ideologia), publicado em Paris pela editora católica francesa Éditions du Cerf, em 1974. 
Traduzida em Espanha, Alemanha e Estados Unidos, a obra “articulava uma leitura textual da narrativa do Evangelho de São Marcos, influenciada por Roland Barthes, à estrutura social da Palestina da época bíblica, servindo-se de fortes referências francesas, muito importantes à época, nomeadamente Louis Althusser e Georges Bataille”, como escreveu António Guerreiro, no Público, ao recordar o trajecto de Belo. “O estruturalismo francês, com o diálogo que este promoveu entre a filosofia e as ciências sociais e humanas, foi o campo e o horizonte teórico e epistemológico em que Fernando Belo se inscreveu”, acrescentava Guerreiro. Seria mesmo esse livro, acrescenta o crítico, que abriria as portas da Faculdade de Letras ao futuro professor. Belo ficaria na Faculdade entre 1975 e 2003

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

Papa fala de unidade ao patriarca ortodoxo, num momento de relações cortadas entre ortodoxos de Moscovo e Constantinopla

Texto de António Marujo


O patriarca ortodoxo Bartolomeu na Amazónia, em 2006, 

O Papa Francisco escreveu ao patriarca Bartolomeu, da Igreja Ortodoxa, manifestando a ideia de que a “caminhada conjunta dos últimos cinquenta anos “ permite já “experimentar estar em comunhão, embora esta ainda não seja plena e completa”. Esse trabalho “rumo à comunhão plena deve continuar”, acrescenta o Papa, para que os cristãos possam responder às necessidades de “tantos homens e mulheres do nosso tempo, sobretudo os que sofrem de pobreza, fome, doença e guerra”.
A carta seguiu para o Fanar, a residência do primaz ortodoxo, na passada sexta-feira, 30 de Novembro, dia da festividade de Santo André, que é o patrono da Constantinopla cristã. Francisco e Bartolomeu já se encontraram várias vezes, tal como os seus antecessores, desde 1964, quando o patriarca Atenágoras e o Papa Paulo VI puseram fim a nove séculos de excomunhão mútua.
“Ambas as Igrejas, com um sentido de responsabilidade para com o mundo, sentiram o apelo urgente que leva cada um de nós, que foi baptizado, a proclamar o Evangelho a todos os homens e mulheres”, escreve ainda o Papa. Por essa razão, católicos e ortodoxos podem “trabalhar hoje em busca da paz entre os povos, pela abolição de todas as formas de escravatura, pelo respeito e dignidade de cada ser humano e pelo cuidado com a criação”. (texto integral aqui, em castelhano)
Apesar da reafirmação do desejo de unidade, esta mensagem surge num contexto em que Constantinopla e o patriarcado (também ortodoxo) de Moscovo estão de relações cortadas, depois de um acumular de tensões nos últimos anos e, sobretudo, nos meses mais recentes. Em causa, está o facto de o patriarca Bartolomeu ter reconhecido a autonomia da Igreja Ortodoxa da Ucrânia, até agora dependente do patriarcado de Moscovo. 
O problema é que, às razões e tensões religiosas juntam-se as divergências políticas: Moscovo e Kiev estão em guerra aberta no leste da Ucrânia, depois da anexação da Crimeia pela Rússia. E ambas as lideranças políticas apoiam a respectiva Igreja nacional na argumentação que é utilizada por ambos. 

Maldições e intromissões políticas

A zanga entre Moscovo e Constantinopla passou já por afirmações de maldição, orações que se deixaram de fazer e intromissões políticas, culminando com o corte de relações desde Outubro. Antes dele, os ortodoxos russos tinham deixado de rezar pelo patriarca Bartolomeu, de Constantinopla – que tem a primazia de honra na ortodoxia –, e este acusara o metropolita Hilarion Alfeyev (número dois e “ministro” dos estrangeiros do patriarcado russo) de ter mentido no processo. 

Pecadores impenitentes e pequenas epifanias

Livros para oferecer no Natal (I)

Texto de Eduardo Jorge Madureira

É a fotografia que empresta o título ao mais recente livro editado em Portugaldo escritor italiano Claudio Magris. Ele socorre-se, aliás, do Grande Dicionário da Língua Italiana para, logo no início de Instantâneos, explicar que o instantâneo é “obtido com um tempo de exposição muito curto, sem recurso a outros suportes”. A atenção do escritor dirige-se, pois, para pequenos acontecimentos quotidianos, susceptíveis de oferecer uma concisa reflexão ética, uma moralidade breve.
O tom dos cerca de cinquenta textos breves nunca é doutrinário e a ironia é frequente – como quando, por exemplo, conta uma história passada em Nova Iorque, na Galeria de Leo Castelli. Para contestar uma sentença judicial que condenou um artista por obscenidade, os quadros da exposição que a galeria apresenta estão cobertos por um pano preto. A certa altura, conta Claudio Magris, uma jovem, desconhecendo as marcas de protesto, vai olhando atentamente para esses panos pretos – “afasta-se e aproxima-se para observar melhor” – que parecem agradá-la e convencê-la.
Assaz divertida é também a história protagonizada por “um ilustre matemático dedicado a inalcançáveis estudos ultraespecializados” que foi dar um curso ao Collège de France. Tem sempre a sala cheia. Tal parece incompreensível pois aquilo que diz é imperceptível. A assistência não é, todavia, do género da jovem da exposição nova-iorquina, agradada e convencida, mas não vale a pena antecipar aqui a razão do sucesso do matemático.

terça-feira, 4 de dezembro de 2018

Em que acreditam os portugueses?

Agenda 


(Foto reproduzida daqui)

Menos de 80% dos portugueses dizem-se católicos, e o número continua a descer. Ao mesmo tempo, multiplicam-se as igrejas evangélicas e o país até vai acolher a sede mundial dos ismailis, uma importante corrente do Islão xiita. Perante uma Igreja Católica que já não dá todas as respostas, o tradicional Portugal católico é cada vez mais diverso e plural e já tem 832 confissões oficialmente registadas. Sinónimo de diálogo e tolerância? Ainda é cedo para responder.
Um retrato de um país menos católico e em “destradicionalização”, no qual, nos últimos anos, se registou um boom do evangelismo protestante e que tem sido apontado como exemplo de tolerância será o tema do Fronteiras XXI, o programa que a RTP3 transmite esta quarta-feira, 5 de Dezembro, a partir das 21h30. O debate conta com as participações de José Tolentino Mendonça, responsável da Biblioteca do Vaticano, o escritor Bruno Vieira Amaral, o antropólogo Alfredo Teixeira e a socióloga Helena Vilaça. 
Como antecipação do debate, o jornalista João Francisco Gomes publicou na página do programa na internet um texto com o título Em que acreditam os portugueses?


Dia das Pessoas com Deficiência: A Igreja e o país ainda precisam de ser mais inclusivos

Texto de Maria Wilton



Desejamos ser uma Igreja de todos e com todos, que acolha a todos como irmãos, 
que derrube barreiras físicas e psíquicas diz o Serviço católico a Pessoas com Deficiência
(foto Josh Appel)

O Serviço Pastoral a Pessoas com Deficiência (SPPD), da Igreja Católica, divulgou uma mensagem na qual diz que esta deve ser “uma Igreja mais inclusiva”. A propósito do Dia Internacional das Pessoas com Deficiência, assinalado esta segunda-feira, 3 de dezembro, acrescenta o texto: “Desejamos ser uma Igreja de todos e com todos. Uma Igreja que acolha a todos como irmãos, cada vez mais inclusiva, que derrube barreiras físicas e psíquicas, que esteja atenta para ouvir cada um na sua singularidade.
Desejamos ser uma Igreja que permaneça companheira, pela vida fora, no calor da amizade e do abraço inclusivo.”
Como exemplo concreto, o SPPD diz que se deve “continuar a aprender Língua Gestual Portuguesa”. E refere dificuldades: “Temos boa vontade, mas ainda temos receios”, por vezes “quer-se apertar a mão e falta o jeito” e os reponsáveis da  Igreja ainda falam “de forma complexa”. 
Nessa missão de tornar a Igreja mais inclusiva, o Serviço Pastoral dirige-se às pessoas com deficiência, acrescentando: “Precisamos da vossa experiência de vida e conhecimento, da vossa persistência e resiliência, da vossa sabedoria de fazer acontecer o impossível, como possível.” E sublinha ainda que já há experiências positivas de acolhimento e inclusão “na catequese e em movimentos”, em instituições e em famílias “que, mesmo com limitações acentuadas, têm gosto por viver e nos agarram e levam pela mão”.
Este dia internacional foi proposto pelas Nações Unidas desde 1992 e tem o objetivo de apelar a uma maior sensibilidade para as questões da deficiência, promovendo a defesa da dignidade, dos direitos e do bem estar das pessoas. Este ano, o tema escolhido foi Capacitar pessoas com deficiência e assegurar a inclusão e igualdade. 
Em Portugal, não há estatísticas oficiais. A nota do SPPD fala em um sexto da população, mas a TSF dizia que se estima que a percentagem de população com algum tempo de deficiência pode chegar a 10 por cento, mas que há ainda limitações básicas que impedem a igualdade de oportunidades.

sábado, 1 de dezembro de 2018

Jornadas Mundiais da Juventude com o Papa serão em Portugal em 2022

 Texto de António Marujo



Jovens católicos portugueses nas JMJ de Cracóvia em 2016; desta vez, serão eles a acolher 
a juventude de todo o mundo que virá a Lisboa em 2022 (foto reproduzida daqui)

As Jornadas Mundiais da Juventude (JMJ) de 2022, presididas pelo Papa, serão em Portugal e a região de Lisboa acolherá os actos principais – nomeadamente o fim-de-semana de celebração, que habitualmente conta com a participação de cerca de um milhão de jovens de todo o mundo. O anúncio oficial será feito no Panamá, nas próximas JMJ, que decorrem entre 23 e 27 de Janeiro, e nas quais o patriarca de Lisboa (entre vários bispos portugueses) estará presente para receber o testemunho do Papa e do bispo do Panamá. A informação foi confirmada pelo RELIGIONLINE e pela SIC junto de várias fontes eclesiásticas. 
Nessa ocasião, o patriarca de Lisboa, acompanhado de uma delegação de jovens portugueses e de Lisboa, receberá a cruz das jornadas – o mais importante símbolo das JMJ, que os jovens do país de acolhimento transportarão e que servirá de centro para diferentes iniciativas, ao longo do tempo de preparação.
O próprio Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, prevê estar no Panamá também para as JMJ de Janeiro, “na esperança” de que o Papa Francisco anuncie que as jornadas seguintes sejam em PortugalMas uma tal decisão é tomada com muita antecedência e, neste caso, ela está já assumida há meses, mesmo que, como acontece com as visitas do Papa, ela só seja confirmada com o anúncio oficial – o que acontecerá no final da missa com os jovens, a 27 de Janeiro. 
O patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, oficializou o pedido no final de 2017, mas desde 2012 que em várias reuniões do Conselho Pontifício para os Leigos (CPL), do Vaticano, a hipótese de Portugal tem estado a ser pensada. Muitas pessoas sabem já da decisão, até pela enorme operação logística que ela envolve, mas a primeira informação por sair pelo Presidente da República que, já em relação à vinda do Papa em 2017, foi o primeiro a dar indicações de que a vinda de Francisco a Fátima estaria praticamente confirmada.  
A história, no entanto, começou muito antes: em 2009, a Conferência Episcopal Portuguesa propôs ao CPL, que, em 2017, as JMJ fossem realizadas em Fátima, por ocasião do centenário. Mas, nessa altura, já se aventava a possibilidade de o Papa estar no santuário português para os 100 anos de Fátima e não fazia sentido que viesse ao mesmo lugar com um intervalo de dois ou três meses (as JMJ decorrem, normalmente, no Verão). Além disso, Madrid acolheu as JMJ de 2011. 
Uma jornada em Lisboa seis anos depois seria demasiado próxima: a regra não escrita é que o acontecimento decorra uma vez na Europa e, dois ou três anos depois (o intervalo normal com que se realiza) em outro continente – até agora, nas Américas e na Ásia. Fátima também não teria as condições logísticas que a região de Lisboa garante – embora, num caso como este, a operação exija a mobilização de todas as dioceses do país. 

sexta-feira, 30 de novembro de 2018

Joaquín Martínez, inocente e condenado à morte

Texto de Maria Wilton



“Fui para o corredor da morte com 25 anos, em 1996. Quando fecharam a porta da minha cela e me vi sozinho, comecei a chorar. Não acreditava em Deus, sentia-me abandonado. Não podia compreender porque é que isto me tinha acontecido.” O relato é de Joaquín Martínez, 46 anos, equatoriano de nascimento. Em Portugal a convite da Comunidade de Sant’Egídio, Joaquín contou a sua história na Capela do Rato, em Lisboa, nesta quinta-feira, 29 de novembro. Num depoimento emocional, o ativista pretendeu transmitir a cruel realidade da pena de morte e a mais cruel realidade de ter sido condenado mesmo sendo inocente.
Em pequeno, o equatoriano viveu em Espanha por um curto período de tempo antes de emigrar para os Estados Unidos. Aqui permaneceria a maior parte da sua vida adulta – primeiro em Nova Iorque, depois em Miami: “Venho de uma boa família. Tive uma boa educação, estudei, não sou o prisioneiro típico.”
Aos 24 anos, vivia em Tampa, na Flórida, e estava a concretizar o “sonho americano”: tinha um bom carro, uma casa na praia e duas filhas pequenas. No entanto, estava a passar por um divórcio complicado, algo que, diz em jeito de brincadeira, “também fazer parte do sonho americano”.
Na altura, um caso de um assassinato de um casal teve grande atenção dos média: o homem era filho de um membro da polícia, chefe do departamento de provas.


No dia em que Sloane Martínez, ex-mulher de Joaquín Martínez, contactou a polícia, ela tinha descoberto que Joaquín planeava faltar à visita semanal das filhas para ir de férias com a sua nova namorada. 
Depois de uma longa batalha em tribunal, com provas fabricadas e mentiras no depoimento da ex-mulher, Joaquín Martínez acaba no corredor da morte: “Infelizmente, queriam alguém para culpar e eu estava ali. Nos EUA, para ser condenado à pena de morte, o crime tem de reunir três coisas: ser cruel, atroz e inumano. E este tinha as três”, conta. “Foram três anos que estive no corredor da morte, mas pareceram trinta.”

Um bispo entre estivadores: “Quando os direitos são espezinhados, não há futuro”

Texto de António Marujo e Maria Wilton

“Quando os direitos das pessoas são espezinhados, não há futuro para ninguém nem é assim que se constrói o futuro de um país progressivo e actual”, diz o bispo de Setúbal, D. José Ornelas Carvalho, a propósito da greve dos estivadores do porto de Setúbal que dura há quase um mês. Em declarações ao RELIGIONLINE, na tarde de ontem, 29 de Novembro, o bispo diz que tem acompanhado a situação através do padre Constantino Alves que, em seu nome, tem ido com frequência ao porto, para estar com os trabalhadores. 
O bispo Ornelas Carvalho diz que estão em causa situações como aquelas que têm vindo a público: os trabalhadores só sabem, no final de um dia de trabalho, se podem voltar no dia seguinte; não recebem a baixa por doença nem têm direito a subsídio de férias ou a 13º mês. “Todos os dias eles são necessários, mas nunca lhes dão estabilidade”, acrescenta. 
“Era bom que as posições se aproximassem para chegar a algum acordo”, dizia o bispo, no dia em que estavam previstas novas negociações para tentar encontrar uma solução. É preciso, acrescentava, “estar ao lado das aspirações daqueles que vêm os seus direitos postos de parte. Por outro lado, sabemos que as situações económicas e sociais são complicadas. Não é com simplismos e populismos que se resolvem os problemas”, admitindo que as empresas também precisam de ter algumas garantias: “A busca de verdadeiras soluções, numa estrutura que dê justiça e dignidade às pessoas, é fundamental para que se possa construir um futuro com credibilidade e estabilidade e que seja o pano de fundo onde se desenvolve a actividade social e económica.”

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

O riso do Papa quando Wenzel brincou com a farda do guarda suíço

Texto de Maria Wilton



Começou por brincar com a farda do guarda suíço que se encontrava perto do Papa. Depois, rodeou Francisco, que procurou brincar com ele. Sempre esquivo, e perante a sua dificuldade em colaborar com os seguranças, a mãe da criança dirigiu-se ao Papa, explicando que o seu filho, Wenzel Eluneyé autista e mudo, como que em jeito de desculpa pelo seu comportamento. 
Foi na audiência geral do Papa desta quarta-feira, 28, quando a criança saiu de junto da mãe e subiu os degraus do auditório Paulo VI, provocando pequenos constrangimentos, primeiro, gargalhadas e aplausos, depois. Wenzel é argentino, o que levou o Papa a dizer, para o seu secretário: “É argentino, é indisciplinado.”
Perante o sucedido, Francisco disse à mãe que deixasse o filho estar por ali a brincar, aproveitando para transformar o sucedido numa lição: “Este menino não fala, é mudo. Mas sabe  expressar-se e, mais do que isso, é livre. Indisciplinadamente livre”, provocando novos risos na plateia. E recordando, a propósito, que Jesus afirmava que “devemos ser livres como as crianças”. 
Esta não é a primeira vez que o Papa argentino tem visitas inesperadas de crianças, a interrompê-lo nos seus discursos ou homilias. Em 2013, um colombiano de seis anos chamou a atenção durante uma vigília, sentando-se no lugar de Francisco e chegando mesmo a abraçá-lo:



Falta informação sobre a deficiência

Alice Caldeira Cabral, responsável do Movimento Fé e Luz, que trabalha com crianças, jovens e adultos com deficiência, foi, ela própria, mãe de um rapaz que morreu há dez anos, e que tinha “uma deficiência profunda, apesar de na altura não se falar de autismo – o diagnóstico era só epilepsia”.
Depois de ter visto as imagens, Alice Cabral diz que é urgente levar em conta as palavras do Papa. E louva a sua reação espontânea de alegria perante a situação – algo que, diz, continua a ser muito pouco comum na sociedade portuguesa e também no interior da Igreja.
“O meu filho também tinha uma liberdade muito indisciplinada. Era exatamente isso que acontecia e a aflição da mãe é algo que conheço bem. Os nossos filhos não são disciplináveis. E, de facto, uma das coisas mais pesadas para nós é o olhar de comiseração ou de crítica daqueles que não entendem a diferença.”
Alice Cabral destaca que, em Portugal, é “impressionante” que não haja estudos que relacionem a teologia e a experiência cristã com a deficiência. O Serviço Pastoral para Pessoas com Deficiência, que também integra, participa em alguns iniciativas internacionais mas não consegue criar grande interesse das comunidades cristãs pela questão. “Não tenho dúvidas de que o Papa está muito bem informado acerca das questões da deficiência e de como as acolher socialmente. Porque, se não houver informação, é muito difícil que os olhares mudem.”

quarta-feira, 28 de novembro de 2018

“Não é a religião que gera violência, mas o nível de apropriação que cada indivíduo faz da mesma”

Texto de Maria Wilton


Afirmar que a religião leva à violência não é só uma simplificação mas também uma generalização: “A religião gera violência, mas também gera paz. Podemos dizer que há uma ambiguidade profunda no fenómeno religioso e na relação com o sagrado que é preciso ser pensada. Não é a religião por si que gera violência, mas o nível de apropriação que cada indivíduo faz da mesma”. 
A afirmação é de José Rosa, professor na Universidade da Beira Interior (UBI) e um dos organizadores do colóquio internacional Religião e Violência, que nestas quinta e sexta-feira, dias 29 e 30 de Novembro, decorrerá na UBI, na Covilhã. 
Com convidados de variadas áreas profissionais, portugueses e estrangeiros, o objectivo do colóquio é debater a relação entre a violência e o fenómeno religioso – “o homo religiosus é também homo periculosus”, o homem religioso é também um homem perigoso –, discutindo a pertinência de textos sagrados na génese desta mesma violência e das radicalizações que ocorrem em todas as religiões.
José Rosa salienta que a importância deste colóquio não é estabelecer uma relação única e direta entre os dois termos, mas questionar todos os tipos de relação que se podem estabelecer: “É uma questão profundamente atual, que está em cima da mesa desde pelo menos 2001, aquando dos ataques do 11 de Setembro.”

Pela vida, um dia contra a pena de morte

Texto de Maria Wilton

Depois de ser acusado injustamente de um duplo homicídio, o equatoriano Joaquín Martinez esteve cinco anos no corredor da morte nos Estados Unidos, até ser considerado inocente. Desde aí, Martínez tem dedicado a sua vida à luta contra à pena de morte e ao apoio a prisioneiros que enfrentam esta sentença. 
O ex-condenado à morte nos EUA estará esta quinta-feira, 29 de novembro, na Capela do Rato (Calç. Bento da Rocha Cabral, 1-B), em Lisboa, para dar o seu testemunho numa conferência organizada no âmbito do Dia Internacional das Cidades pela Vida – Cidades contra a Pena de Morte, que se assinala dia 20. 
O dia internacional é uma iniciativa da Comunidade de Sant’Egídio, pretendendo assinalar o aniversário da primeira abolição da pena de morte, a 30 de novembro de 1876, no Grão-Ducado da Toscânia. O dia internacional surgiu pela primeira vez em 2002 e representa, segundo a organização, “a maior mobilização abolicionista a nível internacional”.
A Comunidade de Sant’Egídio é uma organização católica fundada em 1968 pelo historiador Andrea Riccardi, e que dedica ao apoio aos mais pobres, à evangelização e promoção da paz e dos direitos humanos. Foi a Comunidade de Sant’Egídio que mediou as negociações para a paz em vários países africanos – nomeadamente em Moçambique, onde o acordo de paz assinado em Roma, em 1992, pôs fim a 16 anos de guerra civil. 
Com a conferência em Lisboa, o grupo português de Sant’Egídio pretende estabelecer um diálogo entre a sociedade e os órgãos de governação, com o intuito de encontrar uma forma civilizada de justiça, capaz de renunciar à pena de morte e a qualquer tipo de violência.
Para assinalar este dia, haverá iniciativas em mais de duas mil Cidades Pela Vidailuminando alguns monumentos principais com a ideia de sensibilizar para a rejeição da pena de morte. Em Lisboa, o Arco da Rua Augusta é iluminado desde 2013.

terça-feira, 27 de novembro de 2018

Uma cimeira “sem precedentes” para uma resposta “firme e universal”

Texto de António Marujo


Picasso, Guernica (pormenor)

O Papa Francisco nomeou, no final da última semana, os membros da comissão responsável por organizar a cimeira inédita de presidentes de conferências episcopais de todo o mundo, para discutir o tema dos abusos sexuais na Igreja Católica. A iniciativa decorre entre 21 e 24 de Fevereiro, em Roma e o seu carácter “sem precedentes” traduz o facto de o tema ser considerado uma “prioridade” do Papa, tendo em conta também o “impacto devastador” nas vítimas, como disse o porta-voz do Vaticano, Greg Burke. 
A comissão nomeada pelo Papa inclui os cardeais Blase J. Cupich, de Chicago (EUA) e Oswald Gracias, de Bombaim (Índia); Charles Scicluna, arcebispo de Malta e secretário-adjunto da Congregação para a Doutrina da Fé; Hans Zollner, padre jesuíta e presidente do Centro para a Proteção de Menores da Universidade Pontifícia Gregoriana. A preparação envolverá também, de acordo com o responsável já citado, Gabriella Gambino e  Linda Ghisoni, do dicastério do Vaticano para os Leigos, Família e Vida, os membros da Comissão Pontifícia para a Protecção dos Menores (CPPM) e “algumas vítimas de abusos”.
A constituição da comissão demonstra claramente o empenho do Papa em erradicar este problema, tanto quanto possível, da vida da Igreja. Cupich e Gracias são, entre os cardeais, dois dos que estão do lado do Papa neste assunto. Scicluna e Zoller são dois dos mais activos na hora de investigar o que se passa, propor soluções e escutar vítimas. Scicluna, recorde-se, foi um dos dois responsáveis por preparar ao Papa o devastador relatório sobre a situação vivida no Chile, que conduziu à cimeira dos bispos com o Papa, ao pedido de demissão dos bispos em bloco e à efectivação desse pedido já por parte de vários bispos. 
Numa entrevista à revista America, dos jesuítas dos EUA, o arcebispo Scicluna, que foi nomeado também há poucos dias secretário-adjunto da Congregação para a Doutrina da Fé, dizia que o Papa convocou a cimeira porque entende que o problema “tem de ser prioridade nas pautas da Igreja”. E porque se trata de “uma questão global: não é uma questão de critérios geográficos ou culturais, mas um problema global que a Igreja deve abordar em união, respeitando as diferentes culturas, mas com uma solução definitiva em conjunto, com pessoas em sintonia”.
O encontro marcará “o início de uma nova abordagem” que deverá abranger toda a Igreja, “mas também terá um contexto local muito importante, porque a protecção não é distante, não pode ser algo abstracto, tem que ser vivida em cada paróquia, em cada escola, em cada diocese”. E entre os objectivos do encontro estão seguramente os de fazer com que os bispos percebam e discutam juntos o fenómeno “criminoso” dos abusos como sintoma muito grave de algo mais profundo, que é uma crise no modo de abordar o ministério”, que tem sido designada por “clericalismo” ou “perversão do ministério”. 
Na entrevista (da qual pode ser lido aqui um resumo alargadoem português do Brasil), Charles Scicluna acrescenta que, tal como o Papa tem reafirmado, “a questão não diz respeito apenas aos casos trágicos individuais de má conduta e o impacto do crime nos mais vulneráveis, as crianças, mas também ao modo como se administra a questão quando somos confrontados, ou seja, como tratamos os criminosos, as vítimas, a comunidade”. 

segunda-feira, 26 de novembro de 2018

Iluminar monumentos: uma “red wednesday” para lembrar os cristãos perseguidos

Texto de Maria Wilton


Quatro monumentos portugueses serão iluminados de vermelho, na quarta-feira, 28 de Novembro, a partir das 20h, como homenagem e recordação dos cristãos perseguidos em todo o mundo. Será uma Red Wednesday, quarta-feira vermelha para recordar pessoas vítimas de violências. 
A Ajuda à Igreja que Sofre (AIS), organização católica internacional dependente da Santa Sé e responsável pela iniciativa em Portugal, escolheu pela segunda vez o Santuário do Cristo-Rei (Almada) e a Basílica dos Congregados (Braga), que já se tinham iluminado este ano. Desta vez, a lista será acrescentada com o Mosteiro dos Jerónimos (Lisboa) e a Torre dos Clérigos (Porto). Em Fevereiro, os dois primeiros monumentos iluminaram-se como parte de uma jornada de oração e de sensibilização da opinião pública para a questão da perseguição aos cristãos que, na altura, juntou também o Coliseu de Roma, a Catedral maronita de Santo Elias, em Alepo (Síria), e a Igreja de São Paulo, em Mossul (Iraque). 
Segundo Félix Lungu, porta-voz da AIS em Portugal, esta Red Wednesday é “uma forma de mostrar que Portugal também se importa com os direitos humanos”, e pretende “despertar para esta realidade”, já que a religião é um tema que “costuma ficar em segundo plano na agenda mediática”.
Na última sexta-feira, 23, a Basílica da Sagrada Família em Barcelona (Espanha) foi iluminada com o mesmo propósito, juntando-se a um leque de monumentos internacionais, que se iluminarão na ocasião mais propícia em cada país. Esta quarta-feira, além de Portugal, juntam-se a esta iniciativa países como o Reino Unido (Parlamento Britânico),  Austrália, Irlanda e Estados Unidos, todos com o mesmo intuito de combater a indiferença perante a dramática realidade atual.
Segundo o relatório sobre a Liberdade Religiosa no Mundodivulgado na semana passada pela AIS, estima-se que o número de cristãos perseguidos no mundo seja perto de 300 milhões. Isto significa que um em cada cinco cristãos reside em países onde há perseguição ou discriminação com base nas questões da fé. A falta de liberdade religiosa, relembra a AIS, apresenta por vezes contornos dramáticos, com pessoas, famílias e comunidades inteiras a sofrerem violência, terrorismo, ameaças, perseguição, prisão e até a morte. 

sábado, 24 de novembro de 2018

Um doodle para o padre que ajudou a integrar os surdos


 
Nascido em 24 de Novembro de 1712, o padre Charles Michel de l’Épée é uma das figuras mais destacadas na história da integração social das pessoas surdas. Ele “educou, instruiu e formou uma população abandonada que ninguém sabia como entender e ninguém queria atender”, como escreve Alberto López na edição brasileira do El País, onde se pode ler este parágrafo:

As pessoas com deficiência auditiva tinham naquela época poucas oportunidades de subir na vida e, certamente, nenhuma facilidade. As superstições e os preconceitos ainda estavam arraigados em muitas áreas da Europa Ocidental. Por exemplo, o filósofo grego Aristóteles escreveu no ano 355 a.C. que os surdos eram incapazes de raciocinar, algo que perdurou mais de um milénio como se fosse uma verdade absoluta. Felizmente, o médico Girolama Cardano realizou, em 1500, um estudo que demonstrou que os surdos eram, sim, capazes de raciocinar. Mesmo assim, em grande parte da Europa as pessoas surdas estavam sujeitas a decretos que as proibiam de se casar, possuir bens ou, em alguns casos, de ter acesso a uma mínima e elementar educação. Só os filhos surdos de famílias ricas podiam ler e escrever. Alguns até aprenderam a falar graças a professores dedicados exclusivamente a isso, cujos métodos, considerados quase milagrosos, eram um segredo bem guardado.

Tendo passado neste sábado, 24 de Novembro, o aniversário de Charles Michel de l’Épée, o motor de busca Google homenageou-o com o doodle do dia. O texto referido pode ser lido aqui.