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terça-feira, 9 de outubro de 2018

Evocação de Paulo VI e Óscar Romero pela sua canonização

Agenda

O Centro de Reflexão Cristã (CRC), de Lisboa, assinala a canonização do Papa Paulo VI e de Óscar Romero (que acontecerá domingo, numa cerimónia presidida pelo Papa, em Roma), com um debate que contará com a presença de Guilherme d’Oliveira Martins, administrador da Fundação Gulbenkian, e Eugénio Fonseca, presidente da Cáritas Portuguesa. A iniciativa decorre esta quarta-feira, dia 10, às 18h30, no Centro Nacional de Cultura (Largo do Picadeiro, 10). A entrada é livre.
Na apresentação do debate, fala-se de duas personalidades muito caras ao CRC que, “ao longo dos seus mais de 30 anos existência, tem trabalhado sobre o seu exemplo”. Em 1980, um número especial da revista do CRC foi dedicada a Óscar Romero, com o título D. Romero não morreu!– alguns exemplares deste número estarão disponíveis no local do encontro.
Nesse número, reproduz-se um texto de Pedro Casaldáliga, bispo (agora emérito) de São Félix de Araguaia, sobre Óscar Romero e a propósito do seu assassinato: “Estamos outra vez em pé de Testemunho, São Romero da América, pastor e mártir nosso! Romero de uma Paz quase impossível, nesta terra em guerra. Romero roxa flor morada da Esperança incólume de todo o Continente.”

(Ilustração acima: capa do número especial da revista do CRC sobre D. Óscar Romero, sobre quem se pode ler aqui uma evocação a partir de livros publicados em Portugal; aqui, um texto sobre algumas das suas propostase aqui uma crónica de Fernando Calado Rodrigues, sobre os que sobem aos altares, com estas duas canonizações)

sábado, 24 de março de 2018

Óscar Romero assassinado há 38 anos: não vergar perante leis imorais



Óscar Romero, em 1979, fotografado na igreja de San Antonio Los Ranchos, 
em Chalatenango, El Salvador (foto de fr. Octavio Duran/CNS, reproduzida daqui)

Foi um bispo em construção: a 24 de Março de 1980, faz hoje 38 anos, Óscar Romero, arcebispo de San Salvador (capital de El Salvador) foi assassinado quando celebrava a eucaristia. Mártir sem o querer ser, só o foi por assumir aquilo que pare ele era o essencial: anunciar o evangelho de Jesus, em quem acreditava. E, nesse evangelho, incluir a centralidade da justiça, da paz, dos direitos humanos, da dignidade da pessoa, da não-violência.  
Duas biografias publicadas em Portugal e um livro com uma selecção de textos do arcebispo podem ajudar a compor um retrato do arcebispo mártir, que deverá ser canonizado pelo Papa Francisco, ainda este ano.
E ajudam também a entender o itinerário pessoal de Romero e porque é que a sua canonização demorou 38 anos: o medo da mensagem de alguém que passou de “moderado” e “conservador” a um bispo metido no meio do seu povo e identificado na fase final da sua vida com a teologia da libertação, prevaleceu nas estruturas de decisão da Igreja Católica.
No livro Óscar Romero – O amor deve triunfar (ed. Paulinas; o capítulo 7, “Amor, a vingança dos cristãos, pode ser lido aqui), Kevin Clark descreve bem os obstáculos que dominaram em diferentes estruturas da Igreja: vários bispos salvadorenhos criticavam o empenhamento do arcebispo junto dos mais pobres e desprotegidos, o núncio Emanuele Gerada (1920-2011) terá começado por apoiá-lo, confiando na sua “moderação” e vários cardeais no Vaticano [como Alfonso Lopez Trujillo (1935-2008) ou Darío Castrillón Hoyos (n. 1929)] usavam o seu poder para influenciar o Papa João Paulo II – que, no início, não entendeu o arcebispo e acabaria por ceder às acusações medíocres, retardando o seu processo de beatificação.
Romero nasceu no contexto de um continente e um país grandes contrastes, como muito bem descreve o livro de Clarke, que conhece bem o pensamento e acção do arcebispo: “Sessenta por cento da melhor terra de El Salvadorera controlada por menos de dois por cento da sua população”, exemplifica o autor. Rapidamente, os grandes produtores de café, principal fonte de riqueza do país, converteram o poder económico em poder político. De tal modo que, entre 1898 e 1931, a presidência do país esteve sempre nas mãos de produtores de café, recorda ainda Clarke.
Em Oscar Romero – A biografia (ed. AO), o autor, Roberto Morozzo della Rocca, escreve: “Para Romero, o drama de El Salvador tinha origem essencialmente na injustiça social e exprimia-se pela violência desumana e inaceitável.” E, como dizia o próprio bispo, citado no mesmo livro: “Se é verdade que não se pode perdoar o terrorismo nem a violência em nome do desacordo, também não se pode justificar a violência oficialmente instituída.”

domingo, 31 de maio de 2015

Santíssima Trindade, Romero, Filipe Néri e maçonaria

No comentário aos textos da liturgia católica deste domingo, dedicado à Santíssima Trindade, Vítor Gonçalves escreve sobre Entrar no mar:

Um só Deus em três pessoas parece inverosímil. Não se compreende com lógica, mas com amor. Com a surpresa e a disponibilidade de um mergulho confiante nos braços que nos amparam. Como dizia Madre Assunción Soler Gimeno, fundadora das Irmãs Carmelitas do Sagrado Coração de Jesus, na belíssima Málaga, banhada pelo Mediterrâneo: "Só com as vossas forças não confiem em nada, mas com Deus, valemos tudo, saberão tudo, poderão tudo." Como ser "com Deus" sem ser "por dentro"? Vivendo o dinamismo do Pai que é amor e doação de vida, aprendendo com Jesus a derrubar muros e encantarmo-nos em salvar o que parecia perdido, criando o que o Espírito inspira para uma vida mais plena? "Ensinar as nações" é mostrar que ninguém está fora da comunhão de Deus, que o perdão é chave de crescimento, e que as nossas vidas estão entrelaçadas. A trindade que Deus é revela-se na comunhão que fazemos, nos diálogos e laços que alimentamos, na diversidade que fazemos riqueza, no amor que não deixamos gastar-se. Não há felicidade na solidão!
(o texto completo pode ser lido aqui)


No Público, frei Bento Domingues evocava a figura do arcebispo Óscar Romero, que foi assassinado há 35 anos em El Salvador e foi beatificado há uma semana. Sob o título Assassinado no altar, escreve:

A homilia de Romero, a 21 de Janeiro de 1979, no funeral do padre Octávio Ortiz e de mais quatro jovens assassinados pelas forças de segurança salvadorenhas, numa casa de retiros, é mais realista: Este mundo passa; somente permanece a alegria de se ter vivido para implantar, nele, o reino de Deus. Passarão pela boca do mundo todos os boatos, todos os triunfos, os capitalismos egoístas, os falsos êxitos da vida. Tudo isso passa. O que não passa é o amor, a coragem de reverter o dinheiro, os bens e a profissão ao serviço dos outros, a felicidade de compartilhar e de sentir todos os seres humanos como irmãos. Ao entardecer da vida, julgar-te-ão pelo amor.
(o texto completo pode ser lido aqui)


No CM de sexta-feira, Fernando Calado Rodrigues fez uma outra evocação: a de São Filipe Néri, O santo da alegria, para se referir depois aos papas João Paulo I e Francisco:

“Diz-se que o sentido do humor – depois do breve pontificado de João Paulo I – ainda não regressou ao Vaticano. Não faltam sinais dessa demora. A alegria do papa Luciani era subversiva. Ao gostar de anedotas, de perder tempo com crianças, de gracejar em dialeto com a sua gente, destoava naquele cenário de sagradas solenidades” escrevia frei Bento Domingues, em 1998, numa crónica que pode agora ser lida no livro “O bom humor de Deus
(o texto completo pode ser lido aqui)


No DN de sábado, Anselmo Borges escreveu sobre Maçonaria, Igreja e segredo:

Todos os cidadãos têm, no quadro da lei, direito ao segredo. Mas ainda se justifica hoje o segredo maçónico? De qualquer modo, gostei de ler um bem conhecido maçon, Ricardo Sá Fernandes, quando recentemente disse ao i: "Não tenho a mais pequena dúvida: se eu detectasse situações de corrupção na maçonaria, obviamente que a denunciaria à justiça profana. Sou, primeiro, cidadão, e só depois maçon. E se tivesse uma varinha mágica, convenceria todos os meus irmãos a assumir que são maçons quando estão em cargos públicos e políticos."
(o texto completo pode ser lido aqui)

domingo, 24 de maio de 2015

São Romero de América: “A Igreja não pode ficar calada diante de tanta abominação”

Agenda e evocação


A vida e mensagem de Óscar Arnulfo Romero, arcebispo de San Salvador, assassinado há 35 anos e ontem beatificado na cidade onde morreu, serão evocadas nesta segunda-feira à noite, a partir das 21h, no Convento de São Domingos, de Lisboa. Na véspera da sua morte, Romero dizia: A Igreja, defensora dos direitos de Deus, da lei de Deus, da dignidade humana, da pessoa, não pode ficar calada diante de tanta abominação.
A sessão, com o título Monsenhor Oscar Romero – Profeta e Mártir de um mundo novo, é organizada pela comunidade do Convento de São Domingos e tem a colaboração da editorial Apostolado da Oração, dos jesuítas, que acaba de publicar uma biografia de Óscar Romero. O encontro contará com a participação do dominicano fr. Rui Grácio e da irmã Mariana Vilar, das Escravas do Sagrado Coração de Jesus. Na ocasião, farei uma curta apresentação da biografia editada na última semana pela AO (deve corrigir-se que a beatificação foi feita ontem, em San Salvador, pelo cardeal Angelo Amato).
Romero, de quem a Consolata Editora editou A Doce Violência do Amor, que recolhe excertos de homilias e textos, foi um incansável defensor dos mais pobres e do povo sofrido de El Salvador, que acabou por ser vítima de uma guerra civil que custou milhares de vidas.
O seu martírio foi reconhecido pelos Papas João Paulo II e Bento XVI, mas as teias burocráticas do Vaticano e a oposição declarada de alguns bispos e cardeais fizeram com que tardassem 35 anos até ao reconhecimento institucional, pela Igreja Católica, de que São Romero da América, como já há muito era chamado pelo povo, foi morto por causa da fé, como aqui já se recordou.
Na homilia que fez na véspera da sua morte, Óscar Arnulfo Romero fez um apelo especial aos militares, terminando quase com um grito: “Parem a repressão!” As suas palavras, nessa homilia, interrompida várias vezes por aplausos dos fiéis, transcrevem-se a seguir:

domingo, 29 de março de 2015

Óscar Romero, 35 anos depois da morte: Se o grão de trigo morrer, dará muito fruto




A imagem de Óscar Romero no pórtico dos mártires na 
Abadia de Westminster, a catedral anglicana de Londres; 
a estátua de Romero está colocada entre as que representam Luther King e Dietrich Bonhoeffer


Antes da missa, o seu último acto tinha sido ir até junto ao mar, com um grupo de amigos, para “estudar” um recente texto do Papa João Paulo II sobre formação do clero.
Nesse dia, antes de celebrar a eucaristia na capela do Seminário Maior, em San Salvador, decide mudar o texto do Evangelho. Escolhe a passagem de São João, capítulo 12, quando Jesus diz: “Se o grão de trigo não cair na terra e não morrer, continuará ele só. Mas, se morrer, dará muito fruto.”
Antes de ser morto, o arcebispo Óscar Romero ainda tivera tempo de explicar, durante a homilia, que, apesar das ameaças de morte que lhe eram feitas, ele estava disposto a continuar a lutar contra a violência e a favor dos mais desprotegidos de El Salvador. “Outros continuarão, com mais sabedoria e santidade, os trabalhos da Igreja e do meu país”, dizia.
Nesse dia, o arcebispo de San Salvador (capital de El Salvador) seria morto, durante a celebração da missa, pelas balas dos esquadrões paramilitares.
A história das últimas horas de vida do arcebispo de San Salvador, que foi assassinado há 35 anos (que passaram dia 24) foi contada há dois anos, em Lisboa, por Gregorio Rosa, bispo auxiliar de San Salvador, que chegou a trabalhar, já nesse cargo, com Óscar Romero.
D. Gregorio esteve em Portugal em 2013 para apresentar o livro A Doce Violência do Amor (Consolata Editora), que recolhe excertos de textos e homilias de D. Óscar. Como este, que serve de epígrafe e justifica o título: “Nunca ensinamos a violência. Apenas a violência do amor, a violência que pregou Cristo numa cruz, a violência que faz cada um a si mesmo para vencer os seus egoísmos para que não haja desigualdades tão cruéis entre nós. Essa não é a violência da espada ou do ódio. É a violência do amor e da fraternidade; a violência que se propõe transformar as armas em foices de trabalho.”
Agora, e após 35 anos de hesitações, o Vaticano reconheceu finalmente o martírio de Óscar Romero, que abre caminho à sua beatificação – a 23 de Maio próximo, em San Salvador.
Esta decisão só foi possível graças à decisão do Papa Francisco, tomada pouco depois da sua eleição, em 2013. Até porque, como reconheceu há pouco o arcebispo italiano Vincenzo Paglia, presidente do Conselho Pontifício para a Família e postulador da causa de beatificação de Romero, houve muitos obstáculos a vencer dentro do próprio Vaticano.