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quarta-feira, 5 de setembro de 2018

“Acreditar num Deus criador implica cuidar da criação e da casa comum”

Texto de Maria Wilton


Comportamentos mais ecológicos e força para resistir às seduções dos males 
que afetam a nossa casa comum”, defende Manuela Silva 
(foto © Maria Marujo)


Na crise ecológica que estamos a viver, os desafios com que nos confrontamos “são de tal ordem que precisamos mesmo de rezar a Deus, para que converta os nossos corações para termos comportamentos mais ecológicos e força para resistir às seduções dos males que afetam a nossa casa comum”. 
A economista Manuela Silva,responsável da rede Cuidar da Casa Comum (CCC), que reúne pessoas individuais, instituições, organizações e grupos católicos e de outras igrejas cristãs, refere-se deste modo aos objetivos da vigília de oração que se realiza sexta-feira, 7 de setembro, às 21h, na Igreja do Sagrado Coração de Jesus (R. Camilo Castelo Branco, ao Marquês de Pombal), em Lisboa. 
A iniciativa, diz a economista, tem como objetivo a reflexão sobre a encíclica Laudato Si’publicada pelo Papa Francisco em 2015, dedicada ao ambiente e ao “cuidado da casa comum”. O tempo de oração pretende sensibilizar para o conhecimento da encíclica, levando os cristãos a uma conversão ecológica, no sentido de “um estilo de vida que não seja predador nem excludente de grande parte da população e até de outros seres vivos”.
Há uma acrescida responsabilidade ecológica que os cristãos devem demonstrar, diz Manuela Silva: acreditar num Deus criador implica acreditar que este confiou à humanidade a tarefa de cuidar da criação e da “casa comum”. 
Entre as propostas da CCC, estão os “focos de conversão ecológica”, pequenos grupos que pretendem alargar a sensibilização para as questões ambientais e ecológicas. “Os focos têm por missão escutar o grito da nossa Casa Comum ‘contra o mal que lhe provocamos’, identificar, na vida quotidiana, ‘o uso irresponsável’ dos bens da Terra”, lê-se na apresentação dos objetivos. Ao mesmo tempo, os focos propõem-se “criar no seio das respetivas comunidades “pontes de diálogo com vista à construção de uma ecologia integral, tanto no plano dos comportamentos individuais como nas opções e práticas das comunidades da sua área de influência”.  
No próximo sábado, uma outra iniciativa, esta de caráter mundial, terá concretização também em três cidades portuguesas: às 17h, Lisboa (concentração no Cais do Sodré), Porto (Praça da Liberdade) e Faro (Largo da Sé) participam na Marcha Mundial do Clima

domingo, 25 de fevereiro de 2018

Alterações climáticas – responsabilidade individual e social


Agenda 


Inundações no rio Sena, em Paris, no final de Janeiro 
(foto © Francisco Marujo)  

Alterações climáticas – responsabilidade individual e social é o tema da Sessão de Estudos promovida pelo Metanoia – Movimento Católico de Profissionais, no próximo sábado, 3 de Março, no Porto, entre as 10h30 e as 18h30.
O encontro, aberto a todos os interessados, decorre na Casa Diocesana de Vilar e conta com a participação dos investigadores e especialistas Carlos Soares Borrego (sobre causas e consequências da responsabilidade humana nas alterações climáticas), Luísa Schmidt (responsabilidade social e novos estilos de vida),
 Lígia Costa Pinto (a economia circular),
 João Paulo Teixeira (reflexos da qualidade ambiental na saúde e bem-estar de populações vulneráveis) e Helena Oliveira Freitas (desafios para os territórios).
Na apresentação da iniciativa, cita-se um parágrafo da Laudato si’, encíclica do Papa Francisco acerca do cuidado da casa comum, para fundamentar a escolha do tema, ao falar da relação entre alterações climáticas, pobreza, justiça e económica e migrações:
As mudanças climáticas são um problema global com graves implicações ambientais, sociais, económicas, distributivas e políticas, constituindo actualmente um dos principais desafios para a humanidade. Provavelmente os impactos mais sérios recairão, nas próximas décadas, sobre os países em vias de desenvolvimento. Muitos pobres vivem em lugares particularmente afectados por fenómenos relacionados com o aquecimento, e os seus meios de subsistência dependem fortemente das reservas naturais e dos chamados serviços do ecossistema como a agricultura, a pesca e os recursos florestais. Não possuem outras disponibilidades económicas nem outros recursos que lhes permitam adaptar-se aos impactos climáticos ou enfrentar situações catastróficas, e gozam de reduzido acesso a serviços sociais e de protecção. Por exemplo, as mudanças climáticas dão origem a migrações de animais e vegetais que nem sempre conseguem adaptar-se; e isto, por sua vez, afecta os recursos produtivos dos mais pobres, que são forçados também a emigrar com grande incerteza quanto ao futuro da sua vida e dos seus filhos. É trágico o aumento de emigrantes em fuga da miséria agravada pela degradação ambiental, que, não sendo reconhecidos como refugiados nas convenções internacionais, carregam o peso da sua vida abandonada sem qualquer tutela normativa. Infelizmente, verifica-se uma indiferença geral perante estas tragédias, que estão acontecendo agora mesmo em diferentes partes do mundo. A falta de reacções diante destes dramas dos nossos irmãos e irmãs é um sinal da perda do sentido de responsabilidade pelos nossos semelhantes, sobre o qual se funda toda a sociedade civil.(LS 25)
A iniciativa corresponde à proposta do Metanoia de promover anualmente um dia de reflexão sobre temáticas sociais. A dinâmica da Sessão de Estudos inclui intervenções de especialistas convidados e debate com os participantes. Para mais informações pode consultar-se a página do Metanoia ou escrever para metanoia.se@gmail.com. 

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Em defesa da Amazónia e da Casa Comum

Bispos brasileiros condenam extinção de reserva amazónica, dias depois de o Papa Francisco e o Patriarca Bartolomeu terem publicado um documento conjunto assinalando o Dia de Oração pelo Cuidado da Criação.


O Patriarca Bartolomeu e o bispo católico Geraldo Majella Agnelo, durante a cerimónia 
da bênção das águas, que abriu o simpósio Religião, Ciência e Ambiente, 
em Manaus (Amazónia, Brasil), em Julho de 2006 (foto © RSE)

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) divulgou esta terça-feira, dia 5, uma nota em que manifesta um “veemente repúdio” pelos decretos que extinguem a Reserva Nacional de Cobre e seus Associados (Renca). A decisão governamental afronta a Constituição Federal, considera a presidência da CNBB, pelo facto de não consultar os povos indígenas.
Os bispos acrescentam que esta decisão evidencia a lógica de mercado que tem sido adoptada no Brasil, “em detrimento da vida, da dignidade da pessoa e do cuidado com a Casa Comum”. E exemplificam: “Políticas governamentais de incentivo às hidrelétricas, à mineração e ao agronegócio, com flexibilização de licenças ambientais, anulam os esforços em prol de sua preservação”, considera a CNBB.
A nota dos bispos em defesa da Amazónia, intitulada “Viver a vocação de guardiões da obra de Deus”, pode ser lida na íntegra aqui e pede a “revogação revogação integral dos decretos de extinção da Renca”.
Também a Rede Eclesial Pan-Amazónica (Repam), integrada no Conselho Episcopal Latino-Americano e do Caribe (Celam), que reúne todas as conferências episcopais da região, repudiou a decisão governamental brasileira. E, apesar de o Presidente Michel temer ter anunciado há dias a revisão de um dos decretos em causa – que abre uma reserva amazónica à exploração mineira – acabou por manter a extinção da Renca, que agora foi condenada pela CNBB.
Esta situação surge no contexto da celebração do terceiro Dia de Oração pelo Cuidado da Criação, assinalado no passado dia 1 de Setembro, pela primeira vez, com uma mensagem conjunta do Papa Francisco e do Patriarca Bartolomeu, de Constantinopla.
No documento, que pode ser lido aqui na íntegraFrancisco e Bartolomeu relacionam as trágicas consequências das mudanças climáticas com a situação das populações mais vulneráveis: “O ambiente humano e o ambiente natural estão a deteriorar-se conjuntamente, e esta deterioração do planeta pesa sobre as pessoas mais vulneráveis. O impacto das mudanças climáticas repercute-se, antes de mais nada, sobre aqueles que vivem pobremente em cada ângulo do globo. O dever que temos de usar responsavelmente dos bens da terra implica o reconhecimento e o respeito por cada pessoa e por todas as criaturas vivas. O apelo e o desafio urgentes a cuidar da criação constituem um convite a toda a humanidade para trabalhar por um desenvolvimento sustentável e integral.”

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Clima: Isto muda tudo!

Agenda

A poucos dias do início da Conferência de Paris sobre o Clima, a Campo Aberto promove esta sexta-feira, no Porto (Cinema Passos Manuel, 21h30) a exibição do filme Isto Muda Tudo!, inspirado no livro homónimo da jornalista canadiana Naomi Klein. O filme, com cerca de 90 minutos e legendas em português, será seguido de debate. A entrada é livre, mas as pessoas serão convidadas a dar um pequeno donativo para as despesas de organização.
No livro This changes everything, Naomi Klein pretende demonstrar como a economia contemporânea atinge ao mesmo tempo as sociedades e a natureza. O filme é uma espécie de “volta ao mundo com imagens simultaneamente belas e terríveis do que está a acontecer no nosso mundo e com os testemunhos daqueles que não se conformam.” Na apresentação da iniciativa, a Campo Aberto diz: “Mais do que as emissões, são o modo de vida que levamos e a prioridade dada ao lucro que nos colocam em perigo.”
(Mais informação aquium texto sobre a encíclica do Papa, Laudato Si’, escrito por um dos responsáveis da Campo Aberto, foi publicado aqui)

Também na sexta, em Lisboa (depois de idêntico acontecimento ter tido lugar no Porto nesta quinta-feira), terá lugar a apresentação do livro do economista italiano Luigino Bruno, Redescobrir a Árvore da Vida. Um economista lê o Livro do Génesis (Universidade Católica, 18h30).

A propósito da cimeira do Clima, há várias marchas e encontros previstos em Portugal. Para sábado, estão previstos uma caminhada em Vouzela (Largo da Feira, 9h45) e um encontro em Faro (Mercado Municipal, 17h).
Para Domingo, às 15h, há marchas previstas em Lisboa (Martim Moniz), Porto (Largo do Terreiro) Braga, (Praça da República) e Coimbra.
Outras actividades e uma lista actualizada das iniciativas pode ser conferida aqui.

Texto anterior no blogue
Papa já está num país “vibrante” para uma viagem de alto risco - início da viagem do Papa Ao Quénia, Uganda e República Centro-Africana


sábado, 15 de agosto de 2015

Taizé: as peregrinações cristãs pelo clima já começaram e querem chegar a Paris

Chegada prevista à capital francesa antes de 1 de Dezembro


(foto reproduzida daqui)

Uma peregrinação de cristãos pelo clima começou a 7 de Junho, na Escandinávia. Depois de passar na Noruega, Suécia, Finlândia, Dinamarca e Alemanha, chegará a Paris, antes de 1 de Dezembro, quando começa a Conferência das Nações Unidas sobre o Clima.
Em breve, juntar-se-ão a esta iniciativa inédita cristãos do Reino Unido, que atravessarão o Canal da Mancha, e um outro grupo que sairá da Itália, integrando também cristãos filipinos.
“O número de participantes pelo caminho será muito variável, mas é um símbolo importante do que os cristãos podem fazer”, diz à ECCLESIA o francês Martin Kopp, da Federação Luterana Mundial (FLM), que reúne 145 igrejas e comunidades de 98 países, juntando 72 milhões de luteranos de todo o mundo.
Martin Kopp, 28 anos, está a fazer doutoramento em teologia na área do decrescimento. No âmbito da FLM, coordena desde há mais de um ano as estruturas e iniciativas no âmbito ambiental.
Kopp está em Taizé estes dias, para participar num dos debates do encontro Por uma Nova Solidariedade, que inclui centena e meia de fóruns.
(o texto pode continuar a ser lido aqui)


sábado, 27 de junho de 2015

Encíclica “Laudato Si’”, o primeiro acto de um apelo para uma nova civilização

Um guia pelos comentários à encíclica do Papa sobre o cuidado da casa comum; pensadores e investigadores, cientistas e políticos, crentes e ambientalistas coincidem na importância do texto papal; este domingo, na Praça de São Pedro, organizações e ambientalistas e ecologistas vão agradecer ao Papa a publicação de Laudato Si'

(ilustração reproduzida daqui)

A encíclica Laudato Si’ é “o primeiro acto de um apelo para uma nova civilização”, considera o sociólogo Edgar Morin, numa entrevista em que comenta o novo documento do Papa Francisco.
Publicada na semana passada, a encíclica, já considerada histórica por muitos comentadores e pensadores de relevo, tem provocado muitos comentários, incluindo de quem critica o Papa por falar de alterações climáticas e considerar que ele não deve falar sobre política ou economia. Tal é o caso do candidato republicano às presidenciais dos Estados Unidos do próximo ano, Jeb Bush.
Também o articulista espanhol Miguel Angel Belloso é muito crítico com Francisco: apesar de se apresentar como católico, ele manifesta, no DN, uma profunda ignorância sobre o que dizem a teologia e a doutrina social católica desde os primeiros séculos do cristianismo, ao escrever, por exemplo, que “Francisco chega a ser ofensivo ao assegurar que a propriedade privada não pode estar acima do bem comum”.
Em geral, no entanto, a encíclica Louvado Sejas – Sobre o Cuidado da CasaComum (versão em pdf também disponível nesta ligação) foi bem acolhida. A tal ponto que levou já um conjunto de organizações de diversos países a propor uma petição internacional de apoio ao apelo do Papa por uma ecologia integral.
A petição é dirigida aos chefes de Estado e de Governo dos países que participarão na Conferência Internacional sobre a Mudança do Clima, que decorre na primeira quinzena de Dezembro, em Paris.
“Em nome dos nossos filhos e de todas as crianças”, em nome “dos pobres e do próprio planeta” e “em nome de toda a família humana”, os signatários pedem aos líderes políticos “que acolham o apelo lançado pelo Papa Francisco na encíclica Laudato Si’, sobre o ‘cuidado da casa comum’, na qual ele reconhece que a humanidade ainda está em tempo de evitar uma catástrofe ecológica e pede compromissos concretos por uma ‘autêntica ecologia humana’”.
O texto de Francisco motivou também, e sobretudo, interessantes e importantes reflexões a propósito do seu conteúdo e das propostas que faz. O sociólogo agnóstico Edgar Morin considerou, em entrevista ao La Croixque a Laudato Si’ “é, talvez, o primeiro acto de um apelo para uma nova civilização”. O pensador francês considera a encíclica “providencial”, porque “vivemos uma época de deserto do pensamento, um pensamento fragmentado em que os partidos que se dizem ecologistas não têm nenhuma real visão da magnitude e da complexidade do problema, em que perdem de vista o interesse daquilo que o Papa Francisco, numa maravilhosa fórmula retomada de Gorbatchev, chama de “casa comum”. Na entrevista (aqui em português), Morin acrescenta que considera o texto muito “bem estruturado”.

O “undécimo mandamento”

Prior da comunidade monástica de Bosé, teólogo e cronista reconhecido em Itália, Enzo Bianchi (autor de Para Uma Ética Partilhada, ed. Pedra Angular) fala da encíclica como o “undécimo mandamento”. “A mensagem de Francisco é urgente e clara: para nos salvar, nós, humanos, devemos nos salvar junto com a terra. Há anos eu repito a mim mesmo um mandamento que eu coloco ao lado dos mandamentos bíblicos: ‘Ama a terra como a ti mesmo’”, escreve ele, num artigo publicado no jornal La Repubblica, aqui traduzido para português.

sábado, 20 de junho de 2015

Cinco notas para a leitura de uma encíclica


É um texto histórico e um marco na doutrina social da Igreja, onde o Papa o situa. A encíclica Laudato Sí – Sobre o Cuidado da Casa Comum foi apresentada anteontem em Roma e está já a marcar o debate político, financeiro, ambiental até à Conferência de Paris sobre o Clima, no final do ano. Podem destacar-se do texto algumas notas, que não impedem a sua leitura integral por cada pessoa, já que o Papa o destina a cada habitante do planeta.


1. Um texto de doutrina social católica
Quarta-feira, foi o próprio Papa que afirmou que a Laudato Sí (Louvado Sejas) é um documento de doutrina social católica. E justificou: a nossa casa comum “está a arruinar-se e isso faz mal a todos, especialmente aos mais pobres”.
O próprio texto sugere (49*): “uma verdadeira abordagem ecológica sempre se torna uma abordagem social, que deve integrar a justiça nos debates sobre o meio ambiente, para ouvir tanto o clamor da terra como o clamor dos pobres”. E acrescenta (63) que a doutrina social da Igreja é “chamada a enriquecer-se cada vez mais a partir dos novos desafios”.
A encíclica não é, portanto, um texto para simples meditação pessoal dos crentes. Porque se dirige “a cada pessoa que habita neste planeta”; e porque apela à acção consequente de cada indivíduo, e ainda de governos, poderes financeiros, multinacionais e organizações internacionais – âmbitos onde se percebe uma maior distância na aplicação de vários princípios da doutrina social da Igreja.
O Papa recorda princípios básicos da doutrina social da Igreja: por exemplo (93), a ideia de que a terra é “uma herança comum, cujos frutos devem beneficiar a todos”; o de que “toda a abordagem ecológica deve integrar uma perspectiva social que tenha em conta os direitos fundamentais dos mais desfavorecidos”; e o princípio “da subordinação da propriedade privada ao destino universal dos bens” –do qual decorre a ideia de que “qualquer forma de propriedade privada” tem uma “função social”.

2. A Igreja toma partido e propõe acções concretas
Muitas vezes, diz-se da doutrina social católica que ela não toma partido por este ou aquele campo político. Isso é verdade no campo circunstancial, mas não é verdade na afirmação de princípios irrenunciáveis, que devem ter tradução na forma como os crentes se posicionam.
A oposição de alguns católicos à ideia de que o Papa se “meta em política ou economia” ou a oposição de políticos católicos à condenação, feita por João Paulo II, da invasão do Iraque, são reflexo de uma mesma recusa da “hierarquia de valores”, afirmada pela doutrina católica. O Papa diz (23): “Há um consenso científico muito consistente, indicando que estamos perante um preocupante aquecimento do sistema climático.” Se é sabido que há quem conteste esta ideia, é evidente que Francisco está, por isso, a tomar partido por uma determinada leitura da realidade.
Mas há mais: o Papa aponta exemplos de como cada pessoa pode dar o seu contributo para ajudar a melhorar o estado da casa comum: “A educação na responsabilidade ambiental pode incentivar vários comportamentos (...) tais como evitar o uso de plástico e papel, reduzir o consumo de água, diferenciar o lixo, cozinhar apenas aquilo que razoavelmente se poderá comer, tratar com desvelo os outros seres vivos, servir-se dos transportes públicos ou partilhar o mesmo veículo com várias pessoas, plantar árvores, apagar as luzes desnecessárias...”
Com tais sugestões, o Papa indica que a educação para a criação tem de fazer parte da missão da Igreja. Grupos católicos vocacionados para a atenção à natureza, como os escuteiros, têm campo aberto para reformular a sua actuação, desafiando pessoas, empresas e governos a uma acção mais consequente.
Com estas propostas concretas, o Papa dá legitimidade à mesma ideia em campos da doutrina social católica como a necessária refundação do sistema financeiro, o primado do trabalho sobre o capital, a redistribuição da terra ou comércio de armas – todos eles temas já tratados pelos papas, desde João XXIII.

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Sobre o cuidado da casa comum - a nova encíclica


Aqui está o texto da Encíclica Laudato Si (Louvado Sejas), que acaba de ser apresentada aos jornalistas no Vaticano.
Fica o início de um apelo do Papa a todas aspessoas de boa vontade (nº 14 e início do 15):
"Lanço um convite urgente a renovar o diálogo sobre a maneira como estamos a construir o futuro do planeta. Precisamos de um debate que nos una a todos, porque o desafio ambiental, que vivemos, e as suas raízes humanas dizem respeito e têm impacto sobre todos nós. O movimento ecológico mundial já percorreu um longo e rico caminho, tendo gerado numerosas agregações de cidadãos que ajudaram na consciencialização. Infelizmente, muitos esforços na busca de soluções concretas para a crise ambiental acabam, com frequência, frustrados não só pela recusa dos poderosos, mas também pelo desinteresse dos outros. As atitudes que dificultam os caminhos de solução, mesmo entre os crentes, vão da negação do problema à indiferença, à resignação acomodada ou à confiança cega nas soluções técnicas. Precisamos de nova solidariedade universal. Como disseram os bispos da África do Sul, «são necessários os talentos e o envolvimento de todos para reparar o dano causado pelos humanos sobre a criação de Deus».[22]Todos podemos colaborar, como instrumentos de Deus, no cuidado da criação, cada um a partir da sua cultura, experiência, iniciativas e capacidades.

Espero que esta carta encíclica, que se insere no magistério social da Igreja, nos ajude a reconhecer a grandeza, a urgência e a beleza do desafio que temos pela frente."
Para descarregar o ficheiro pdf: AQUI 

COMPLEMENTO:

"Ecologia integral. A grande novidade da Laudato Si'. "Nem a ONU produziu um texto desta natureza''. Entrevista especial com Leonardo Boff"

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Papa quer revisão profunda do modelo de desenvolvimento

O Papa Bento XVI publicou terça-feira passada a sua mensagem para o Dia Mundial da Paz (próximo 1 de Janeiro). Dedicada ao tema “Se queres cultivar a paz, preserva a criação”, a publicação do texto coincidiu com os últimos dias da cimeira de Copenhaga, onde um eventual acordo eficaz parece ainda nublado (ver post anterior). A necessidade d erever o modelo de desnvolvimento já tinha sido defendida na encíclica Caritas in Veritate, mas para muitos sectores, memso no interior da Igreja Católica, esta é uma ideia que custa a ser assumida. O sistema económico que conhecemos é o responsável pela crise ecológica, diz também o Papa, mas muitos preferem ignorar essa ideia e sublinhar as frases mais anódinas dos textos do Papa. No Público, fiz uma síntese da mensagem da Paz, remetendo para o texto integral:

O Papa Bento XVI defende “uma revisão profunda e clarividente do modelo de desenvolvimento”. Na sua mensagem para o Dia Mundial da Paz, que se assinala a 1 de Janeiro próximo, o Papa acusa mesmo os países industrializados de serem responsáveis pela “crise ecológica” que se vive. E diz ser necessário “reflectir sobre o sentido da economia e dos seus objectivos, para corrigir as suas disfunções e deturpações”.

Depois de ter intensificado referências ao tema do ambiente e da ecologia, nas últimas semanas, a propósito da Cimeira de Copenhaga, Bento XVI vem agora defender a responsabilidade da preservação do ambiente, quer em relação às gerações futuras, quer “entre os indivíduos da mesma geração, especialmente nas relações entre os países em vias de desenvolvimento e os países altamente industrializados”.

Com o título “Se queres cultivar a paz, preserva a criação”, diz Bento XVI que é necessária uma “actividade económica mais respeitadora do ambiente”. E escreve: “O desenvolvimento humano integral está intimamente ligado com os deveres que nascem da relação do homem com o ambiente natural, considerado como uma dádiva de Deus para todos, cuja utilização comporta uma responsabilidade comum para com a humanidade inteira, especialmente os pobres e as gerações futuras.”

Não é a primeira vez que um Papa liga a questão da paz aos problemas ambientais. Já em 1990, o Papa João Paulo II escreveu a mensagem do Dia Mundial da Paz com o tema “Paz com Deus criador, paz com toda a criação”. A teologia cristã vem acentuando, desde há três décadas, a questão do cuidado com a criação. Bento XVI recorda que o seu antecessor previa já que a “exploração inconsiderada da natureza” traria o risco de tornar a humanidade “vítima dessa degradação”.

Nesta mensagem (disponível na íntegra aqui), o Papa enumera os problemas ambientais que se verificam. Entre outros, alterações climáticas, desertificação, poluição das águas, perda da biodiversidade, aumento de calamidades naturais, desflorestamento, refugiados ambientais.

“Trata-se de um conjunto de questões que têm um impacto profundo no exercício dos direitos humanos, como, por exemplo, o direito à vida, à alimentação, à saúde, ao desenvolvimento”, escreve.

As sociedades mais avançadas têm que favorecer também “comportamentos caracterizados pela sobriedade”, acrescenta ainda Bento XVI.

(Foto: Uma índia brasileira no rio Amazonas, durante o simpósio Religião, Ciência e Ambiente, realizado em Manaus, em 2006)

Copenhaga à beira do fim e o apelo urgente dos bispos

Os bispos católicos de vários países da Europa desafiaram a União Europeia a decidir unilateralmente as reduções de CO2 em 30 por cento até 2020. Numa carta enviada aos líderes europeus, com data de quinta, 17, bispos da Alemanha, Áustria, Bélgica, Irlanda e Reino Unido pedem que os políticos da Europa tenham a coragem moral de avançar sozinhos nas negociações que estão a terminar na cimeira sobre o clima, anunciando a redução unilateral de 30 por cento nas emissões de dióxido de carbono, apoiando os países mais pobres nesse processo. A curta carta está aqui e nela os bispos ainda pedem que essa redução seja financiada por um fundo separado do orçamento da ajuda externa. No site da Cáritas Internacional podem ler-se mais informações sobre o tema.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

350 toques a rebate pelo clima

No próximo domingo, dia 13, os sinos de muitas igrejas em todo o mundo irão tocar pelo clima, enquanto decorre a Cimeira de Copenhaga sobre as alterações climáticas. Um toque a rebate, quase se poderia dizer. Mas serão antes 350 toques, às três da tarde de domingo, simbolizando as 350 partes por milhão que muitos cientistas dizem ser a medida máxima aceitável para o dióxido de carbono a lançar na atmosfera. No Público de segunda-feira, publiquei um texto sobre algumas tomadas de posição das diferentes igrejas cristãs a propósito da cimeira. E falei também d'A Rocha, uma organização ambientalista de inspiração cristã que nasceu em Portugal e está hoje presente em vinte países:

Uma organização ambientalista nascida em Portugal há 26 anos, impulsionada por um inglês, hoje presente em 20 países e inspirada na teologia cristã da criação. A Rocha, assim se chama esta associação, nasceu na Quinta da Rocha, em plena ria de Alvor (Portimão).

Ali está ainda um dos seus principais alvos das suas lutas: juntamente com outras cinco organizações ambientalistas (entre as quais a Quercus e a Liga para a Protecção da Natureza), A Rocha tem lutado pela reposição dos sapais e outras zonas com espécies protegidas na ria de Alvor.

Os ambientalistas consideram que esses habitats foram destruídos pela empresa Butwell – o caso está mesmo em tribunal.

O centro d’A Rocha no Alvor é, aliás, o lugar de onde irradia uma das principais acções da organização: a educação ambiental. “Fazemos uma abordagem como a da pediatria: ensinamos a prevenir, como fazer bem, como se cresce bem”, diz Tiago Branco, director executivo d’A Rocha em Portugal.

Peter Harris, pastor anglicano e ornitólogo, veio para Portugal em 1983, com a família, para estudar zonas ameaçadas e que eram utilizadas pelas aves migratórias. Parou no Alvor.

Nessa altura, Peter tinha uma sensação, como diz ao PÚBLICO: “Estranhei a pouca atenção dos cristãos [ao ambiente e biodiversidade].” Hoje, as coisas mudaram: “O actual Papa tem tido várias posições sobre o cuidado com a Terra, há iniciativas e declarações de diferentes Igrejas”, o patriarca ortodoxo de Constantinopla dinamiza simpósios sobre lugares ameaçados.

Está moderadamente optimista com Copenhaga: “Os frutos concretos serão limitados, mas o debate é inevitável e, pouco a pouco, tem que haver uma resposta.”


Recorde-se ainda o recente simpósio (o oitavo) da série Religião, Ciência e Ambiente, promovido pelo patriarca Bartolomeu, de Constantinopla, que desta vez decorreu no Mississipi, em Outubro (a foto, copiada do site do simpósio, mostra o patriarca ortodoxo na cerimónia da bênção das águas, no início da iniciativa).

domingo, 6 de dezembro de 2009

É preciso um estilo de vida sóbrio, diz o Papa

(Foto © Gérard Moss, projecto "Brasil das Águas" - efeitos do desmatamento no Rio da Saudade, Amazonas)


O Papa Bento XVI destacou este Domingo a necessidade de uma acção concertada da comunidade internacional para fazer face ao fenómeno do aquecimento global, sem prejudicar as populações mais pobres nesse esforço.

Referindo-se à Cimeira da ONU sobre as alterações climáticas, que se inicia esta segunda-feira, em Copenhaga, o Papa dexiou votos, após a recitação do Angelus, na Praça de São Pedro, para que “os trabalhos ajudem a encontrar acções respeitosas da criação e promotoras de um desenvolvimento solidário, fundados na dignidade da pessoa humana e orientada para o bem comum”.

“A salvaguarda da criação postula a adopção de estilos de vida sóbrios e responsáveis, sobretudo em relação aos pobres e às geração futuras”, acrescentou.

A Ecclesia tem uma notícia mais completa e organizou também um dossier sobre o tema.

Para quem não sabe, pode referir-se que há em Portugal uma associação ambientalista de inspiração cristã, que nasceu há 26 anos e está hoje já presente em duas dezenas de países. A Rocha tem um site onde se podem obter informações, ler textos sobre teologia da criação e saber em que acções concretas a organizaçao está empenhada pelo mundo fora.

sábado, 24 de janeiro de 2009

Espiritualidade e ética na agenda da sustentabilidade do planeta

O padre Elísio Assunção, director da Fátima Missionária, está no Brasil a acompanhar o III Fórum de Teologia e Libertação; aqui, podemos acompanhar as suas crónicas. Nesta sexta-feira, contava-nos como o furacão Katrina e a epidemia da cólera no Zimbabué estiveram presentes no discurso de uma teóloga americana e de um teólogo da África do Sul.


Um ritual da água em jeito de oração precedeu a palestra da teóloga americana Emilie Townes, cuja alusão inicial a Barack Obama foi calorosamente aplaudida. O tema da sustentabilidade da terra está inscrito no seu programa de governo. Entre outras medidas, citou a sua determinação em reduzir as emissões de anidrido carbónico.

A teóloga norte-americana esclareceu que “os desastres naturais afinal são desastres criados pelos humanos”. E desenvolveu a sua afirmação com o caso do furacão Katrina, apontando erros e omissões que conduziram ao desastre com as terríveis consequências tristemente conhecidas. A teóloga da Igreja baptista lembrou que “cada um de nós tem de agir para vivermos de uma forma mais sustentável” e respeitadora da criação. Terminou afirmando que “o futuro já começou ontem e nós estamos atrasados”.

Por seu lado o teólogo sul-africano, Steve De Gruchy, começou o seu discurso com a apresentação de três casos emblemáticos: da eliminação dos dejectos humanos num bairro do seu país, o problema do abastecimento da água e a epidemia da cólera no Zimbabué, que se difunde pelos países vizinhos. “Como honrar a criação de Deus?”, interrogou o teólogo. Torna-se necessário “pegar na responsabilidade de viver com a água”, agarrando “os políticos pela gravata para que assumam a sua responsabilidade pela água e pela terra”, explicou com uma linguagem forte e imaginativa. “Não se trata apenas de um problema ecológico, mas da maneira como nos relacionamos com os recursos da natureza”. A teologia tem que “se debruçar sobre a cobiça da economia”. (Foto: Elísio Assunção)