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quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Um brinde à liberdade: Asia Bibi absolvida ao fim de nove anos de cativeiro

 Texto de António Marujo



Uma das filhas de Asia, numa das ocasiões em que foi recebida pelo Papa Francisco 
(foto Ajuda à Igreja que Sofre)

Por causa de um copo de água, Asia Bibi foi condenada à morte no Paquistão. Por causa de Asia, uma jornalista francesa foi semanalmente à prisão ouvir a sua história. Há sete anos, assim começava um texto com uma entrevista a Anne-Isabel Tollet, a jornalista da France 24 que se interessou pelo caso de Asia e tentou alertar o mundo para ele. 
Demorou mais sete anos, com muita gente a lutar e a falar do caso - incluindo o Papa Francisco, que recebeu o marido e os filhos. Emblema de tantas pessoas – católicas, protestantes e ortodoxas, muçulmanas, e judias, budistas e hindus ou de muitos outros credos – que, em todo o mundo, são perseguidas por causa da fé que têm, Asia Bibi foi ontem, finalmente, absolvida pelo Supremo Tribunal do Paquistão do crime de que tinha sido acusada. A notícia levou o seu marido e filhos, como relata a Ajuda à Igreja que Sofre, a manifestar o seu contentamento. E o advogado de Asia, o muçulmano Saiful Malook, acrescentou que esta é uma grande notícia para o Paquistão e para o resto do mundo.
Pode dizer-se que, num tempo em que crescem por todo o mundo as ameaças à liberdade, esta é, porventura, a melhor notícia do dia. Ainda mais pelo carácter absolutamente arbitrário e absurdo da acusação contra Asia. 
Como dizia Anne-Isabel Tollet na entrevista citada, este caso traduz também a responsabilidade do Ocidente, que não acaba nas guerras do Afeganistão e do Iraque. E que uma lei como a que proíbe a burqa, em França, ou o aumento da islamofobia e do antisemitismo, ou a recusa do acolhimento a refugiados na Europa, pode ser causa de aumento do ódio contra os cristãos nos países de maioria muçulmana.
Asia Bibi foi presa, em 2009, por ter retirado um copo de água de um poço, enquanto trabalhava no campo. Acusada por mulheres muçulmanas de conspurcar a água que lhes pertencia, reagiu, defendendo-se, e à sua fé cristã. O facto valeu-lhe a acusação de blasfémia e a pena de morte. Durante estes anos, não podia ver ninguém, à excepção do marido (que viveu escondido, tal como os filhos do casal) e do advogado.
Correspondente da France 24 em Islamabad durante três anos, Anne-Isabel Tollet recolheu o depoimento de Asia Bibi, durante dois meses. O livro foi publicado em Portugal com o título Blasfémia (ed. Alêtheia).

quinta-feira, 1 de março de 2018

Enviado da UE ameaça com represálias comerciais se Paquistão não libertar Asia Bibi



Manifestação das minorias religiosas no Paquistão a favor da libertação de Asia Bibi 
(foto reproduzida daqui)
 
O enviado especial da União Europeia (UE) para a promoção da liberdade religiosa, o eslovaco Ján Figel, afirmou que a UE pode não renovar o acordo comercial com o Paquistão se o Paquistão não libertar Asia Bibi, a cristã condenada à morte por blasfémia, que está na prisão a aguardar um último recurso na justiça.
A informação, desenvolvida nesta notícia da AIS (Ajuda à Igreja que Sofre), tem a ver com o estatuto privilegiado de que goza aquele país, nas trocas comerciais com a UE, que se traduz na isenção de direitos no acesso ao mercado comunitário.
Se isso se concretizar, será uma atitude inédita da parte da UE, cujos governos e instâncias comunitárias se têm limitado, na prática, às declarações inconsequentes de condenação.
Em Setembro de 2011, a jornalista francesa Anne-Isabel Tollet, que trabalhou durante três anos como correspondente da France 24 em Islamabad (Paquistão), dizia, numa entrevista que lhe fiz para o Público: 
“O que é difícil para os países europeus é que eles podem dizer o que pensam, mas não podem impor nada. O Paquistão é um país muito orgulhoso, que tem a bomba nuclear, que deve continuar um parceiro diplomático importante para evitar que a situação se torne um barril de pólvora e que haja o risco de atentados através do mundo.”
Foi enquanto jornalista que Anne-Isabel se interessou pelo caso de Asia Bibi, a mulher cristã que está presa acusada de “blasfémia” mas que, na realidade, foi detida em 2009 por ter retirado água de um poço que lhe estava interdito, enquanto trabalhava no campo. Acusada por mulheres muçulmanas de conspurcar a água que lhes pertencia, reagiu, defendendo-se a si mesma e à fé cristã que professava e que as colegas de trabalho puseram em causa. Na entrevista citada, Anne-Isabel Tollet conta vários pormenores da história de Asia Bibi.
Foi esse facto que lhe valeu a acusação de blasfémia e a pena de morte, entretanto adiada em sucessivos avanços e recuos. Asia Bibi não pode ver ninguém, à excepção do marido (que tem vivido escondido, tal como os filhos do casal) e do advogado. E foi para contar todo esse caso que Anne-Isabel Tollet escreveu Blasfémia, publicado em Portugal pela Aletheia
Tragicamente, as questões de liberdade religiosa (sobretudo quando são cristãos que estão em causa) continuam a não merecer muita atenção da comunidade internacional, acantonada à manifestação de preconceitos ideológicos ou político-económicos. Com poucas excepções, a regra é a do silêncio ou a das declarações inconsequentes: à esquerda, o carimbo do religioso como sinónimo de fundamentalismo ou conservador, à direita por causa dos interesses financeiros, económicos, comerciais e políticos.
Pode ser que, desta vez, Asia Bibi tenha um mínimo de sorte (se se pode considerar sorte ser libertada de uma prisão injusta ao fim de nove anos). Mas o calvário continuará para muitas pessoas que não têm, sequer, quem conheça e divulgue os seus casos. 

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Liberdade religiosa no mundo em “grave declínio”

Relatório apresentado esta terça-feira em Lisboa com presença de arcebispo libanês; perseguição de minorias e estados uniconfessionais provocam aumento dramático de refugiados; patriarca greco-melquita traça retrato trágico da situação na Síria



Refugiados no Médio Oriente 
(foto reproduzida daqui)

A liberdade religiosa está numa fase de “grave declínio”, de acordo com a edição de 2014 do relatório Liberdade Religiosa no Mundo, que avalia 196 países. Preparado pela Ajuda à Igreja que Sofre (AIS), organização internacional dependente da Santa Sé, o documento será apresentado no auditório da Assembleia da República, a partir das 17h desta terça-feira, dia 4 de Novembro, com a presença do arcebispo libanês de Bekaa, Issam John Darwish.
Outra conclusão importante do relatório é que, entre os casos de violações mais graves da liberdade religiosa, predominam países de maioria muçulmana e onde os governos usam a religião para impor regimes autocráticos e ditatoriais.
De acordo com informações da Fundação AIS em Portugal, o estudo conclui ainda que “a perseguição das minorias religiosas” e o aumento dos estados uniconfessionais está a provocar uma vaga muito elevada de populações em fuga, o que tem contribuído para a “crise mundial de refugiados”.
 Michael Gulbenkian participa também na apresentação do relatório. O arcebispo Darwish, anuncia a AIS, irá falar sobre a liberdade religiosa no Líbano. O país está confrontado com uma forte ameaça de colapso económico e político por ter acolhido, nos últimos anos, milhares de refugiados provenientes da Síria e do Iraque.

“Pelas armas não se muda nada”

A presença de Issam Darwish em Portugal integra a campanha da AIS no sentido de sensibilizar a população portuguesa para a violência que estão a sofrer os cristãos do Médio Oriente. Nos últimos dias, no âmbito desta acção, esteve em Portugal o patriarca Gregorios III, da Igreja Católica Greco-Melquita, com sede em Damasco (Síria), que concelebrou mesmo a eucaristia do dia de Fiéis Defuntos, na sé patriarcal de Lisboa.
No mesmo dia, em entrevista a Sofia Lorena, no Público, o patriarca Gregorios dizia: “O que temos de ver é que pelas armas não se muda nada. São fáceis de conseguir, mas não levam a solução nenhuma”. E acrescenta: “É irresponsável que os grandes países pensem que vão resolver esta situação com armas, é uma tontice.” Para este responsável, “se a América e a Rússia já tivessem alcançado algum acordo que preservasse os seus interesses estaria tudo bem”. E acrescenta: “A paz não chega porque falta esse consenso. A América e a Rússia não querem saber de democracia na Síria.” (o texto pode ser lido aqui na íntegra)