Babel, ou a narrativa de uma loucura totalitária,
ilustração de Serge Bloch (texto de Frédéric Boyer),
em Bible - Les récits fondateurs (ed. Bayard)
Na passada segunda-feira, decorreu em Lisboa uma reunião da Associação Bíblica Portuguesa (ABP) que, entre outras coisas, fez o ponto de situação da nova tradução da Bíblia, que está a ser preparada a pedido da Conferência Episcopal Portuguesa. Esta tradução terá a colaboração de biblistas portugueses e lusófonos, como se descreve nesta notícia.
Em entrevista a Ângela Roque, na Rádio Renascença, o presidente da ABP, padre Mário Sousa, falou das novas perspectivas sobre esta tradução e as diferenças que se poderão vir a encontrar, em relação a anteriores trabalhos – nomeadamente, à tradução que Frederico Lourenço tem vindo a publicar, em vários volumes, desde 2016 (ed. Quetzal). A entrevista pode ser lida aqui.
A propósito precisamente da tradução de Frederico Lourenço, publiquei no número do Inverno 2017 da revista Ler dois textos que a seguir se reproduzem.
AS CHAVES DE LOURENÇO PARA ABRIR A BÍBLIA
Frederico Lourenço anda às voltas com a Bíblia e assim continuará por mais dois anos. Ganha o texto bíblico, mas também os leitores: de uma vez só, ficam com uma nova tradução da Bíblia, e um precioso conjunto de chaves de leitura sobre o contexto histórico, autores, processos de composição do texto, linguística ou personagens bíblicas.
Uma das características que se destaca do trabalho de Frederico Lourenço com a tradução da Bíblia – cujo terceiro volume, contendo os livros proféticos do Antigo Testamento, foi publicado em Outubro passado – é a do corpusjá constituído pelas diferentes introduções (e pelas notas, que complementam muita da informação). Além da tradução propriamente dita, Frederico Lourenço acaba por realizar um segundo trabalho, de grande qualidade, com as introduções e as notas que escreve e constituem já uma importante porta de entrada na Bíblia e nos seus livros.
Quem queira ter o mínimo de informação sobre traduções do texto bíblico, estado dos debates e os diferentes argumentos na exegese histórica e contemporânea, autores e composição dos textos, questões linguísticas atinentes à tradução, história e processo de constituição do cânone bíblico, manuscritos e variantes ou objectivo literário dos textos no seu contexto histórico, entre outros temas, tem aqui um importante guia de leitura. Como também pode ficar a conhecer melhor figuras importantes da narrativa bíblica ou ainda perceber que cada um dos textos da Bíblia muitas vezes não tem um autor único – por exemplo, Mateus, Marcos, Lucas ou João – mas muitos (ou, pelo menos, autores anónimos).
