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segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Papa insiste no papel das mulheres em lugares de responsabilidade

Texto de António Marujo


O Papa Francisco com Marianne Schlosser e Mario Botta, os dois laureados 
(foto reproduzida daqui)


O Papa Francisco sublinhou que “é muito importante que se reconheça cada vez mais a contribuição das mulheres no campo da investigação teológica científica e do ensino da teologia, considerados durante muito tempo territórios quase exclusivos do clero”. 
Num curto discurso na cerimónia de entrega do Prémio Ratzinger, no passado sábado, 17 de Novembro, o Papa acrescentou: “É necessário que esta contribuição seja estimulada e encontre um espaço mais amplo, de modo coerente com a crescente presença de mulheres nos diversos campos de responsabilidade da Igreja, em particular, e não só no campo cultural.”
O Prémio Ratzinger deste ano contemplou, pela segunda vez, depois da francesa Anne-Marie Pelletier, o nome de uma mulher: Marianne Schlosser, professora na Universidade de Viena, especialista em teologia das épocas patrística (primeiros séculos cristãos) e medieval. São Boaventura é um dos autores que tem trabalhado e Joseph Ratzinger (o Papa emérito Bento XVI), patrono do prémio, dedicara também, em 1959, a São Boaventura e a Teologia da Históriaum dos seus primeiros trabalhos de jovem teólogo. 

As doutoras da Igreja

“Desde que Paulo VI proclamou doutoras da Igreja a Teresa de Ávila e Catarina de Sena, não pode haver dúvida alguma de que as mulheres possam alcançar os cumes mais altos da inteligência da fé. João Paulo II e Bento XVI também o confirmaram, incluindo na série de doutoras os nomes de outras mulheres, Santa Teresa de Lisieux e Hildegarda de Bingen”, afirmou o Papa. 

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Da grande ruptura de Bento XVI às muitas moradas de Francisco




O Papa Bento XVI saindo de helicóptero do Vaticano, em direcção a Castelgandolfo, 
a 28 de Fevereiro de 2013, dando início ao período de sede vacante 
(foto da Fondazione Joseph Ratzinger, reproduzida da página da Fundação no Facebook)


A 11 de Fevereiro de 2013, pouco depois de ter sido conhecida a notícia da resignação do Papa Bento XVI e sob o título A grande rupturaescrevi neste mesmo blogue:
O grande teólogo, o intelectual que ficaria na história da Igreja apenas como Papa de transição, o homem que não tinha jeito para o governo da Igreja e teve que lidar com mão de ferro na questão dos abusos sexuais do clero, acaba por introduzir uma grande ruptura no catolicismo: ao dizer que deixará o governo da Igreja no final deste mês, Bento XVI introduz um precedente (mesmo se já houve resignação de um Papa na história do catolicismo): a partir de agora, nada será como dantes.

Cinco anos depois, muita coisa mudou. Para muitos, a mudança foi demasiada. Para outros, ela é ainda curta. Hoje, no DN, sob o título Tudo mudou com Francisco. Mas esta Igreja é a mesma morada de Bento XVI, num trabalho de Miguel Marujo sobre o que mudou no papado e na Igreja Católica nestes cinco anos, escreve-se:
“Há cinco anos, quando o Papa Bento XVI resignou, o seu gesto inesperado apanhou a Igreja Católica de surpresa – é preciso recuar seis séculos, a 1415, para encontrar idêntica atitude em Gregório XII.
Os cardeais que escutavam (a 11 de fevereiro de 2013) o seu discurso em Latim não acreditavam no que ouviam - e só uma jornalista da agência italiana Ansa percebeu o texto original. Cansado da Cúria Romana, frágil para forçar alterações necessárias ao governo do Vaticano, Bento XVI retirou-se, oficializando a abdicação a 28 de fevereiro.”
(o texto pode ser lido aqui na íntegra)

No mesmo trabalho fala-se de como o Papa emérito tem vivido esta última fase da sua vida, admitindo o declínio físico na sua peregrinação para “Casa”

Também nas mesmas páginas do DN, o bispo Carlos Azevedo, delegado no Conselho Pontifício da Cultura, escreve num comentário:
Grave será que alguns transformem a obediência ao Papa, defendida na sua lógica, em um concordismo autocentrado e seletivo de opões a seu gosto e não em autêntico acatamento do único Bispo de Roma que existe e se chama Francisco. Confundem sensibilidades de pequenos grupos com o bem da Igreja. Não entenderam a fé cristã como peregrinação, disponível ao confronto com novas questões. Para ser fiel à sua missão a Igreja deve renovar-se continuamente, em diálogo com outras religiões, confissões cristãs e com a cultura contemporânea. Assim, pode contribuir para uma abertura aos valores perenes da Transcendência.

No Crux, John Allen escreve sobre a desconstrução do forte “papado imperial” como uma das mais fortes marcas do Papa Francisco, na sequência do que se passou no último século (para ler na íntegra, aqui, em inglês)


terça-feira, 17 de outubro de 2017

Uma compreensão dinâmica da tradição da Igreja: o caso da pena de morte


O Papa Francisco pronunciou em 11 de setembro último um discurso curto mas de grande alcance, pelo seu significado. Foi a propósito dos 25 anos do Catecismo da Igreja Católica. O texto pode ser lido em Português aqui: http://bit.ly/2zhaYHg. Entretanto, já esta semana, o historiador italiano Massimo Faggioli, professor da Villanova University, nos Estados Unidos, publicou um artigo de comentário a esse discurso no sítio de La Croix International, que publicamos a seguir, recorrendo à tradução feita por Moisés Sbardelotto no site noticioso do Instituto Humanitas da Unisinos, Brasil. Eis o texto:

"O legado teológico de Joseph Ratzinger pode ser significativo, mas, provavelmente, não do modo como os seus fãs neotradicionalistas podem pensar.
Um importante estudo de caso que sugere isso está ligado ao recente discurso que o Papa Francisco proferiu no 25º aniversário do Catecismo da Igreja Católica. O discurso é significativo no modo como confirma vários componentes teológicos chave desse pontificado e do atual momento do catolicismo.

sábado, 10 de maio de 2014

O dia dos quatro papas

Crónica

No seu texto no DN de hoje, Anselmo Borges volta à canonização de João XXIII e João Paulo II, sob o título O dia dos quatro papas:

Os media caracterizaram o passado dia 27 de Abril como a celebração dos quatro papas. Dois - João XXIII e João Paulo II foram canonizados - e dois - o Papa Francisco e o papa emérito Bento XVI - presidiram. Como prometido, tentarei mostrar a importância histórica dos canonizados. (...)
O que é facto é que o sucessor [de João Paulo II], Bento XVI, acabou por resignar e Francisco está mais na linha de João XXIII do que da de João Paulo II.
(o texto integral pode ser lido aqui)

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Espevitar as brasas debaixo das cinzas


Nunca apreciaremos bastante o alcance do gesto que há um ano tomou o Papa Bento XVI, ao resignar ao seu múnus para se dedicar à oração. Vistas as coisas friamente, não há nada de excepcional na atitude. É o que acontece já em toda a Igreja, com os bispos que chegam aos 75 anos. Mas o Papa não. A simples ideia de resignação deixou não poucos cristãos pouco menos do que em estado de choque.
Ficou claro que o acto, profundamente ponderado, decorreu de um conflito interior entre a consciência das (cada vez mais) débeis forças próprias e a percepção da magnitude dos problemas que enfrentou: a Cúria, a pedofilia, a desobediência assumida de vastos sectores de cristãos e de clero, a desafectação cada vez maior dos preceitos eclesiásticos...
A renúncia foi um acto de grande humildade. Diria de enorme humanidade. Involuntariamente, Bento XVI abria porta ao Papa Francisco, a um estilo mais terra a terra, mais próximo das pessoas.
A abdicação representou um profundo golpe num modelo de Igreja papolâtrico que, proclamando a verdade, a justiça e a fraternidade, vivia, ao seu mais alto nível, na pompa, na arrogância sobre o mundo e sobre as outras confissões religiosas e frequentemente na mentira. O caso dos Legionários de Cristo (só o nome tresanda!) e o modo como, através dessa figura sinistra que foi o seu fundador e mentor, Marcial Maciel, se insinuaram no Vaticano e junto do Papa João Paulo II é, talvez, o caso mais paradigmático da corrupção económica e moral na Igreja.
É-me difícil não recordar as célebres palavras da última entrevista do cardeal Carlo Martini: "Eu vejo na Igreja de hoje tantas cinzas sobre as brasas que muitas vezes me invade uma sensação de impotência. Como se pode livrar as brasas das cinzas de modo a revigorar a chama do amor? Em primeiro lugar, devemos procurar essas brasas".
A "sensação de impotência" deve ter sido o que sentiu Ratzinger. A procura das brasas que ainda ardem sob as cinzas foi o desafio que decidiu enfrentar o Papa Francisco.
Num ano, muita coisa já mudou. Na atitude. No modo de estar. Na centração da vida cristã na atenção e compaixão com os humildes e os humilhados na sua dignidade. Na denúncia vigorosa de uma economia da exclusão e de uma lógica que torna as pessoas descartáveis.
Já é alguma coisa. Mas falta ainda tanto para fazer. E há tanta resistência a ir por esse caminho que não seria de espantar que o Papa ficasse a falar e a agir sozinho.
Há toda uma geração de bispos e de padres que foram formatados numa hermenêutica conciliar assente no medo da força do Evangelho e temerosa dos desafios do mundo de hoje.
O que vale é que os caminhos do Espírito são surpreendentes. A Igreja é uma casa plural em que também existe em abundância a entrega, a misericórdia, a busca da justiça, com obras. Temos motivos para acreditar. E temos a garantia da oração de Bento XVI que confessava, há dias, em carta ao teólogo Hans Küng:
"Estou grato por poder estar ligado por uma grande identidade de pontos de vista e por uma amizade de coração ao Papa Francisco. Hoje, vejo como minha única e última tarefa é apoiar o seu Pontificado na oração."

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Um liberal no seu labirinto


Livro

Porque Devemos Chamar-nos Cristãos, de Marcello Pera, é o primeiro título da editora Frente e Verso, novo projecto editorial ligado aos jesuítas, cujo aparecimento se deve saudar. Neste livro, Pera defende a ideia de que os liberais e a Europa devem entender-se como cristãos.
A nova marca editorial pretende ter uma presença significativa quer nos debates culturais da sociedade portuguesa e europeia, através da perspectiva cristã, entendendo esta como diversa; quer na formação teológica dos cristãos e de outros interessados em reflectir e debater os “grandes temas do património cristão”; e ainda no diálogo que faça a ponte entre “as várias expressões culturais e a fé cristã”.
Uma editora com estes objectivos deve saudar-se vivamente. Uma das graves deficiências do catolicismo português é o seu baixíssimo nível cultural. Por isso, a intenção de favorecer “a inteligência da fé cristã” é desafiadora.
Filósofo, político italiano, senador desde 1996 e presidente do Senado italiano entre 2001 e 2006, Marcello Pera esteve no PS italiano com Bettino Craxi, foi depois crítico dos partidos e apoiante dos juízes das “Mãos Limpas”, passou a condenar os juízes e ligou-se à Forza Italia, de Berlusconi. Foi enquanto senador desse partido que presidiu ao Senado, como recordou Marcelo Rebelo de Sousa na apresentação do livro, feita terça-feira passada, dia 11, em Lisboa. Inicialmente agnóstico, Pera converteu-se ao catolicismo, influenciado pelo pensamento de Bento XVI, com quem o pensador tinha já publicado o livro Senza Radici (Sem raízes), dedicado à questão das raízes cristãs da Europa.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

"Um papa novo deverá proceder de modo diferente"

Jacques Noyer, bispo emérito de Amiens, França, reflete num artigo há dias publicado na revista Témoignage Chrétien, sobre o significado da renúncia do Papa Bento XVI:

" (...)
Um combatente como João Paulo II sentia prazer em guerrear e nunca se declarava derrotado. A fineza da inteligência de Bento XVI, nessas circunstâncias, é uma fraqueza. As objeções dos adversários, sem dúvida, lhe atingem mais do que outros militantes blindados de certezas. A fé que o habita não suprime o peso da Razão.

Coirmãos bispos me diziam que sofrimento haviam lido no seu rosto quando haviam evocado diante dele alguns impasses pastorais a que certas regras canônicas os constrangiam. Com a cabeça entre as mãos, ele sofria por não poder dar respostas. Cabe a vocês, in loco – lhes dizia –, encontrar um caminho pelo qual a observância da lei não impeça o anúncio do evangelho.

Os bispos ficaram tocados por um papa tão frágil quanto eles diante das contradições da sua pastoral. Quem sabe em quais insônias se terá prolongado, na pessoa do papa, essa necessidade de coerência?

Esses fracassos poderiam ter levado algumas almas menos santas ao desencorajamento total, a uma passividade resignada. Bento XVI viu neles a oportunidade para um sobressalto de esperança: reconheceu o seu fracasso. Ele sabe que está velho demais para recomeçar de outro jeito. Ele dá lugar a algum outro. Se estivesse certo dos combates travados, teria preparado um sucessor. Ele sente, ao contrário, a meu ver, no segredo do seu coração, que um papa novo deverá proceder de modo diferente.

Quando ele foi eleito papa, não lhe deixaram escolha: ele devia continuar a obra do seu antecessor e se esforçou para encontrar o seu estilo próprio. Ao contrário, hoje, ele pede para que se tentem outras coisas.

Podemos esperar que uma figura nova defina uma estratégia nova. Podemos esperar um papa que tenha qualidades diferentes. Acima de tudo, podemos esperar um papa que faça circular a palavra naquele grande corpo que é a Igreja e que, para isso, descentralize as decisões, que dê confiança ao Povo de Deus, em vez de ser o seu Guardião, que tente o novo onde o antigo está morto.

Essa humildade certamente é um ato de esperança: um outro fará melhor do que eu, proclama ele. Eu rezo para que ele não seja esmagado por aquilo que ele chama de seus defeitos. A esperança não o abandonará.

Ninguém pensa hoje em repreendê-lo por ter feito o que ele considerou bom fazer. Só se pode admirar que ele tenha ousado abrir a porta às iniciativas de um desconhecido que o Espírito Santo e os cardeais do mundo inteiro já estão nos preparando".

(Texto integral, traduzido por Moisés Sbardelotto para a newsletter do IHU, AQUI. Texto original: AQUI)
(Crédito da foto: Reuter)

Atualização:

Ler, a este propósito, o post que o diretor da revista espanhola católica Vida Nueva acaba de pubicar, intitulado: 

El Papa recibe antes de irse a la ‘comisión Vatileaks’.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Papa Ratzinger


Crónica

O pontificado tem os dias contados, mas o tempo de Bento XVI há-de prolongar-se. Já muito, mas nem tudo, se disse do Papa Ratzinger.
Estes oito anos foram escassos para esquecer o tsumani mediático de João Paulo II. Suficientes no entanto para traçar uma linha histórica na Igreja. O gesto dessacraliza a figura do Papa, com consequências no longo prazo. Outros afastaram-se num passado longínquo e o direito canónico prevê esta situação. Mas Ratzinger é o primeiro que ousa resignar de forma livre, reflectida e consciente. 
Não é correcto fazer comparações entre pontificados. Os tempos históricos são diferentes como diferentes são as circunstâncias de vida de cada um dos homens que assumiram a liderança espiritual da Igreja católica. Foi tão corajoso o místico atleta polaco, como lúcido foi o cerebral professor alemão. 
Um dos problemas irresolúveis do próprio cristianismo é o da interpretação. Uma tensão permanente que implica a componente humana. Na “cadeira de Pedro”, como noutras funções, o homem também faz o lugar. Interpreta-o no tempo e na circunstância, embora, pela tradição, seja escolhido com inspiração divina. Bento XVI assumiu o lugar com o peso de um “mandato do céu” que só se compreende com os pés assentes na terra. É o que podemos ler nas entrelinhas da resignação. Se os desafios e as circunstâncias, internas e externas, ultrapassam os limites da capacidade humana, há que tirar as devidas ilações. Ratzinger viveu intensamente a agonia do papa Woytila, sabe o que significa para o governo da Igreja a fragilidade física e anímica do seu líder.
Podemos ver, no raciocínio de Ratzinger, a gravidade do que se avizinha. O cristianismo é o grupo religioso mais perseguido no mundo. São tempos difíceis e esgotantes para o novo Papa, da necessária renovação da estrutura - que não se livra de escândalos e divisões -, ao diálogo ecuménico, inter-religioso, social, político e cultural, num mundo plural, secularizado e indefinido, com novos pólos de poder, mediaticamente exigente, o que pede uma grande itinerância. 
Este é o homem que um dia confessou não ter descoberto a vocação como se fosse um raio fulminante, um chamamento episódico. Ratzinger teceu uma rede teórica com a Fé e a Razão, como duas dimensões inseparáveis na experiência religiosa.
Fé e Razão, Liberdade, Consciência e “Verdade” são padrões de uma cultura que não prescinde da análise, da maturação racional. Goste-se ou não das ideias. Mas essa é outra conversa. Até porque são legítimas as motivações para a contestação ao conservadorismo doutrinário e à centralização romana.
Como Papa era chamado a fazer pontes para fora e por dentro. Do alto do seu pensamento elaborado e ao mesmo tempo pragmaticamente simples, ensaiou algumas. Sem ilusões. Equivocou-se julgando que só isso bastava e mais se equivocaram o que pensaram que ele agiria de outra forma. 
Recordo o que disse aos compatriotas numa audiência poucos dias depois de ser eleito. Comparou o momento a uma guilhotina. Tremenda metáfora para um homem sensível. Se Deus cortara a cabeça a Ratzinger, quem seria Bento XVI?
Em oito anos nunca deixou a via do pensamento autónomo, arriscando gerar alguma confusão entre o intelectual académico e o pontífice, porque são, afinal, uma e a mesma pessoa. Paradoxalmente, é quando deixa o pontificado que se vê obrigado a fazer silêncio. Agora, mais do que nunca, as suas palavras estariam sujeitas ao escrutínio. Terá caído definitivamente a guilhotina para um dos mais importantes pensadores da actualidade. Fica a obra, incluindo um texto sobre a Fé, a publicar em breve, no qual estava a trabalhar para ser uma encíclica. As três encíclicas publicadas apontam úteis pistas ao sucessor. A última - Caritas in veritate - deixou os católicos da alta finança, executivos e académicos, tendencialmente neoliberais e promotores da sacralização dos mercados, com as orelhas a arder.
Esta é uma parte do seu legado... Uma resignação coerente que abre novas perspectivas para os pontífices seguintes, o reforço de uma certa ortodoxia católica, a discreta teimosia da Razão num tempo de emoções exacerbadas, também na experiência religiosa.
Joaquim Franco

Artigo de opinião publicado na SIC Online, que pode ver aqui

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Venha o novo Papa


Crónica

No "Público deste domingo, também frei Bento Domingues escreve sobre a renúncia de Bento XVI e o que pode vir da sua sucessão. Aqui fica o texto:





















1. O Código de Direito Canónico (Cân.401) reza assim: roga-se ao Bispo diocesano, que tiver completado 75 anos de idade, que apresente a renúncia do ofício ao Sumo Pontífice. O Cardeal Ratzinger, quando foi eleito Papa, isto é, Bispo da diocese de Roma, testemunha da fé apostólica de Pedro e Paulo, em comunhão e ao serviço dos Bispos das outras dioceses da Igreja Católica, já tinha 78 anos. Quanto à idade, um Bispo diocesano merece mais cuidados do que um Papa, que tem uma responsabilidade muito mais ampla e pesada.
O alarido em torno da renúncia de Bento XVI, deve-se à estranha ideia de que ele desempenhava um cargo vitalício. A possibilidade de um Papa renunciar está prevista no Direito Canónico (Cân. 332 § 2). O próprio Bento XVI, em 2010, mostrou que poderia vir a ser confrontado com essa situação: “Quando um Papa tem clara consciência de que já não está em grau de cumprir os deveres do seu ofício, física, psicológica e espiritualmente, tem o direito, e em algumas circunstâncias, também o dever, de se demitir”.
Muitos de nós fomos testemunhas das dificuldades físicas que João Paulo II enfrentou, durante anos, ao não atender a esse critério. É certo que foi encontrada, para uso interno, uma “mística da imolação” pelo bem da Igreja, que convenceu apenas os já convencidos. Era demasiado evidente que ele já não se encontrava em condições de responder às enormes carências e responsabilidades da Igreja no século XXI. A falta de atenção aos sintomas de uma certa degradação, em determinados ambientes eclesiásticos e na Cúria Romana, assim como a persistência do sistema de abafar as vozes discordantes, acabaram por adiar uma reforma que se mostra cada vez mais urgente.
2. Em 1999, durante o Sínodo Internacional dos Bispos, convocado por Wojtyla, para analisar a Europa, após a queda do Muro de Berlim, o então Arcebispo de Milão, Cardeal Martini, surpreendeu os outros padres sinodais, ao evocar o "sonho" de um novo Concílio que tivesse a coragem de discutir os problemas mais espinhosos: "A eclesiologia de comunhão do Vaticano II", a carência já dramática de padres, a posição da mulher na Sociedade e na Igreja, a participação dos leigos em algumas responsabilidades ministeriais, o tema da sexualidade, a disciplina católica do matrimônio, o ecumenismo e as relações com as Igrejas irmãs da Ortodoxia.
Era essa uma agenda crucial, que os Papas Wojtyla e Ratzinger nunca tiveram coragem de enfrentar, mas à medida que o tempo passa, tudo se vai complicando de forma dramática.
Bento XVI espelhou a situação, subjectiva e objectiva em que se encontra: “Depois de ter examinado repetidamente a minha consciência diante de Deus, cheguei à certeza de que as minhas forças, devido à idade avançada, já não são idóneas para exercer adequadamente o ministério petrino. Estou bem consciente de que este ministério, pela sua essência espiritual, deve ser cumprido não só com as obras e com as palavras, mas também e igualmente sofrendo e rezando. Todavia, no mundo de hoje, sujeito a rápidas mudanças e agitado por questões de grande relevância para a vida da fé, para governar a barca de São Pedro e anunciar o Evangelho, é necessário também o vigor quer do corpo quer do espírito; vigor este, que, nos últimos meses, foi diminuindo de tal modo em mim que tenho de reconhecer a minha incapacidade para administrar bem o ministério que me foi confiado.”
3. Até à eleição do novo Papa, vão surgir muitas projecções, dentro e fora da Igreja, segundo os grupos e as tendências, acerca das possíveis figuras, desejadas ou não, para ocupar a cátedra de Pedro. Muito em breve, a lista dos papabili, ao ritmo do sobe e desce, irá circular e cada um poderá ir construindo também a sua. Bento XVI já balizou o espaço no qual os eleitores se devem mover: “procurar alguém que perceba o ritmo deste tempo de rápidas mudanças e seja capaz de identificar quais são as questões, de grande relevância para a vida da fé, no governo da barca de S. Pedro e no anúncio do Evangelho”. Para esta tarefa, a assistência do Espírito Santo está divinamente garantida, mas Ele não costuma agir sozinho, nem substituir o discernimento dos eleitores.
A graça não substitui a natureza e sendo assim, o importante é garantir um método de eleição, humanamente fiável, no interior da vida da Igreja, cujas preocupações têm de ser as de Cristo. Para governar a barca de Pedro, além de comprovada capacidade de liderança espiritual, cultural e pastoral, o Papa deve mostrar, sobretudo, um grande gosto de escutar e de consultar, não só os seus irmãos no episcopado, mas sobretudo a vida concreta das pessoas, dentro e fora das comunidades cristãs, em diálogo com todas as correntes que atravessam as sociedades. Em todo o caso, o Papa, Bispo de Roma, não deveria poder ser escolhido por tempo indeterminado, nem ultrapassar a idade de 75 anos, aquela que está marcada para todos os Bispos. A Igreja não pode ser uma monarquia absolutista e vitalícia.

(foto: Capela Árvore da Vida, no Seminário Conciliar de Braga; © António Marujo)