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sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

Jovens portugueses no encontro de Taizé em Madrid: cuidar da espera, cuidar da terra, cuidar da linguagem

Texto de António Marujo


Um dos momentos de oração durante o encontro europeu de jovens, em Madrid 
(foto reproduzida daqui)


O problema é cuidar da espera e do desespero dos refugiados, diz Nicolau Osório, 24 anos, do Porto. A linguagem eclesiástica é um problema para os jovens, afirma Mónica Ribau, 26 anos, de Aveiro. O problema é o cuidado que devemos ter com os direitos do planeta, acrescenta Catarina Sá Couto, 29 anos, do Porto. 
Nicolau, Mónica e Catarina são três dos mais de 600 portugueses que estiveram em Madrid, entre 28 de Dezembro e 1 de Janeiro, a participar no 41º encontro europeu de jovens, promovido pela comunidade monástica ecuménica de Taizé, no âmbito da peregrinação de confiança sobre a terra
Na última tarde do ano, numa igreja da periferia de Madrid, juntam-se para partilhar experiências e ver o que podem fazer, em Portugal, para continuar o que viveram nestes últimos dias do ano na capital espanhola. 
Atenas (Grécia) foi o destino de Nicolau durante seis meses (com uma incursão de dez dias à ilha de Lesbos), num trabalho voluntário com a Plataforma de Apoio aos Refugiados. “O problema é cuidar da espera e do desespero dos refugiados”, conta o jovem licenciado em Engenharia de Minas, mas que quer procurar um trabalho na área da educação sexual.  
“São pessoas que não podem sair da Grécia. E o que me ficou não são as histórias trágicas que ouvi de tantos deles, mas os laços pessoais que se criaram. Para mim, os refugiados passaram de um rótulo a rostos e pessoas concretas”, acrescenta, aos compatriotas que o escutam. Com o seu trabalho, Nicolau também quis dizer aos refugiados que “ainda há uma Europa que quer acolher”. Por vezes, “temos medo, mas devemos acolher”. 

Direitos humanos e direitos do planeta

Catarina, que se apresenta como cristã anglicana, tem estado envolvida no movimento pela Carta da Terra – Valores e Princípios para um Futuro Sustentável, integrando também a organização Green Anglicans. E chama a atenção para a forma como todos consumimos: “Esquecemos muitas vezes que os direitos humanos e os direitos do planeta dependem uns dos outros.” E aponta: “Este banco vem de uma árvore, esta luz vem da água de uma barragem, do vento, de uma energia renovável ou da queima de carvão.” 

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

Taizé (finalmente) em Madrid: não esquecer a hospitalidade

Texto de António Marujo


Igreja da Reconciliação, em Taizé: a partir desta sexta-feira, a comunidade muda-se para Madrid 
(foto reproduzida daqui)

A partir desta sexta-feira, 28, a comunidade monástica ecuménica de Taizé anima em Madrid o seu encontro europeu da peregrinação de confiança sobre a Terra, designação dada às iniciativas que reúnem jovens de diferentes origens e proveniências. A capital espanhola acolhe deste modo, pela primeira vez, tal iniciativa, depois de Barcelona (1979, 1985 e 2000), Lisboa (2004) e Valência (2015).  
Nesta última cidade está, aliás, a chave para perceber a escolha de Madrid: quando era bispo da capital valenciana, o actual arcebispo de Madrid, Carlos Osoro Sierra, convidou a comunidade a animar o encontro do final de ano de 2015 em Valência. 
Um ano e meio antes, em Agosto de 2014, já com a decisão tomada, o Papa nomeou Carlos Osoro como arcebispo de Madrid. Esta escolha já não permitiu que fosse ele a acolher a comunidade em Valência, mas o seu sucessor, Antonio Cañizares Llovera. É fácil perceber que o entretanto nomeado cardeal Osoro não perdeu tempo a convidar de novo a comunidade, desta vez para Madrid, onde o encontro nunca se tinha realizado. 
Numa nota de imprensa, a comunidade de Taizé destaca que Madrid “já foi palco de importantes encontros, eventos internacionais e acordos de paz” e que, por isso, este encontro será enriquecido “pelos valores de solidariedade que os habitantes e instituições de Madrid gostam de partilhar”. 
Até ao próximo dia de Ano Novo, os mais de 20 mil participantes que entretanto estão a chegar à capital espanhola são acolhidos por milhares de famílias ou em instituições eclesiais de 170 paróquias. Entre eles, estarão várias centenas de portugueses, e ainda 3500 polacos e mais de 2000 ucranianos. Há duas semanas, ainda faltavam oito mil lugaresmas a disponibilidade para acolher os jovens aparece sempre, em cima da hora. 
O encontro inicia-se na tarde desta sexta-feira, com uma oração comunitária às 19h30 (menos uma hora em Lisboa), no pavilhão 4 da Feira Internacional de Madrid (Ifema). Sábado, domingo e segunda, os jovens reúnem-se no mesmo lugar, sempre às 19h30. De manhã, os jovens participam em debates por pequenos grupos nas paróquias da cidade, centrados no tema “Não esqueçamos a hospitalidade!”, proposto pelo irmão Aloïs, prior da comunidade, na carta que orientará a reflexão dos jovens que irão a Taizé durante o próximo ano
Descobrir em Deus a fonte da hospitalidade, estar atentos à presença de Cristo na vida de cada pessoa, acolher os próprios dons e limitações, encontrar na comunidade da Igreja um lugar de amizade e ser generoso(a) na hospitalidade são as propostas da carta para os jovens concretizarem. “No meio das dificuldades actuais, quando muitas vezes a desconfiança parece ganhar terreno, teremos juntos a coragem de viver a hospitalidade e, assim, aumentar a confiança?”, pergunta o prior de Taizé. 
Nas tardes de sábado e domingo, depois de um tempo de oração às 13, em diferentes igrejas da cidade, é a vez de ateliês temáticos, sobre economia, política, arte, refugiados, oração, música, paz, desporto, tráfico de pessoas, ecologia,... Testemunhos de acolhimento a pessoas sem-abrigo (como os Mensajeros de la Paz), de visitadores de presos ou de integração de pessoas com deficiência, e ainda visitas temáticas ao Museu do Prado e ao Centro de Arte Reina Sofia são algumas das experiências que os jovens poderão fazer. 

terça-feira, 11 de dezembro de 2018

Uma celebração ininterrupta há 46 dias para salvar a família Tamrazyan

Texto de Maria Wilton


Haryarpi, Seyran e Warduhi, filhos do casal Tamrazyane, 
num dos momentos do culto ininterrupto na Igreja Bethel, em Haia 
(Foto reproduzida daqui)

Uma igreja protestante em Haia, na Holanda, está a fazer celebrações religiosas contínuas desde 26 de outubro, às 13h30. Devido a uma lei do país, pouco conhecida, a polícia não pode interromper qualquer cerimónia religiosa para fazer detenções dentro do templo. É por isso que, nos últimos 46 dias, oficiais de imigração não têm podido entrar dentro da Igreja Bethel para deter os cinco arménios da família Tamrazyan, que lá se encontram desde então.
Os refugiados fugiram para lá, de modo a escapar a uma ordem de deportação. Para os proteger, mais de 550 líderes religiosos, leigos cristãos e outros responsáveis têm rodado em permanência. O que começou em outubro, como uma medida de emergência tomada por um pequeno grupo de pastores locais, é agora um movimento muito alargado, que atrai pessoas de diferentes confissões para a pequena igreja protestante.
O plano para evitar a ordem de deportação foi concebido em segredo, para que a família não fosse posta em perigo, contou o pastor Axel Wicke, da Igreja Bethel a um canal de televisão norte-americano: “Eu tinha copiado e colado [os guiões d]as liturgias dos últimos 10 anos num documento enorme, e nós simplesmente cantámos e rezámos a partir daí, até encontrarmos outros pastores que assumiram o controlo”, explicou. Apesar de a polícia não estar no exterior, a igreja está a ser monitorizada mais intensamente do que o habitual, garantiu.
A cerimónia tem contado também com apoiantes da comunidade para assistir ao culto ininterrupto e ajudar com comida. A igreja diz que 3500 visitantes de todo o país vieram já apoiar esta causa e que nem todos são religiosos.
Ao jornal The New York Times, Florine Kuethe, uma consultora de relações públicas, contou: “Não sou religiosa mas, quando ouvi acerca disto, disse ao meu marido: ‘Não fiques chocado mas eu quero ir à igreja.’”
Num país cada vez mais secular (que, segundo o Pew Research Center em 2017, contava com 48% de pessoas não religiosas), Florine diz que, para ela, são estas iniciativas que tornam as igrejas relevantes outra vez. 
Já para Rosaliene Israel, secretária geral da Igreja Protestante de Amsterdão, esta é uma maneira de voltar a sentir que o que que faz é relevante: “Como igrejas na Europa ocidental, andamos a debater-nos, pois estamos cada vez mais nas margens da sociedade. E como líderes da Igreja, sentimos isto.”
A história da família Tamrazyan começou há nove anos, quando o casal e os três filhos fugiram da Arménia para a Holanda. Sasun Tamrazyane a sua mulher, Anousche, enfrentavam ameaças de morte no seu país, devido ao ativismo político de Sasun.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

Fernando Belo (1933-2018): o filósofo que foi padre e fez a leitura materialista do Evangelho de Marcos

In Memoriam
Texto de António Marujo


Fernando Belo

Em Agosto de 2015, Fernando Belo escrevia no Público: “Há três dicotomias políticas nos evangelhos que podem ser esclarecedoras: ‘não podeis servir Deus e o Dinheiro’ (Mateus 6,24), ‘dai o que é de César a César e o que é de Deus a Deus’ (Marcos 12,17), ‘[Deus] não é um Deus de mortos, mas de vivos; todos com efeito vivem por ele’ (Lucas 20,38). O dinheiro, César e o Deus dos mortos (da religião enquanto poder, de que o suporte é o Templo, adversário simbólico de Jesus) são três feitiços do poder substantivo que impede que se possa viver fecundamente. É o cerne da atitude espiritual, renunciar aos feitiços, mas também é a de todos os grandes apaixonados por causas de vida, artistas ou pensadores, gente entregue à generosidade social, aqueles cujas biografias lemos por vezes maravilhados, que nos mostram como vale a pena viver. Fecundidade fora do ‘poder’: ‘sem posses’ mas ‘podendo’ além do que podiam. É isso uma ética radical.”
Da busca de uma ética radical se fez a vida de Fernando Belo, filósofo e professor de filosofia, após ter-se licenciado em Engenharia Civil, entrado para o seminário, ordenado padre e licenciado em teologia. Foi depois de se desencantar com o ministério de padre que abraçou uma carreira académica na área da filosofia, caminho que lhe tinha sido aberto ainda no seminário pelo padre Honorato Rosa. Fernando Belo morreu na madrugada de segunda-feira passada, 3 de Dezembro, aos 85 anos, na sequência de uma doença respiratória. 
O seu percurso singular ficou marcado pela publicação de Lecture Matérialiste de l’Évangile de MarcRécit, pratique, idéologie (Leitura Materialista do Evangelho de Marcos – Narrativa, prática, ideologia), publicado em Paris pela editora católica francesa Éditions du Cerf, em 1974. 
Traduzida em Espanha, Alemanha e Estados Unidos, a obra “articulava uma leitura textual da narrativa do Evangelho de São Marcos, influenciada por Roland Barthes, à estrutura social da Palestina da época bíblica, servindo-se de fortes referências francesas, muito importantes à época, nomeadamente Louis Althusser e Georges Bataille”, como escreveu António Guerreiro, no Público, ao recordar o trajecto de Belo. “O estruturalismo francês, com o diálogo que este promoveu entre a filosofia e as ciências sociais e humanas, foi o campo e o horizonte teórico e epistemológico em que Fernando Belo se inscreveu”, acrescentava Guerreiro. Seria mesmo esse livro, acrescenta o crítico, que abriria as portas da Faculdade de Letras ao futuro professor. Belo ficaria na Faculdade entre 1975 e 2003

sábado, 29 de setembro de 2018

Um voto para uma casa, uma Casa para a Bíblia

Texto de António Marujo


© Ilda David, ilustração na Bíblia Ilustrada

Um voto pode decidir uma casa. E uma casa pode conter a Bíblia, a vida de uma comunidade local, a promoção da cultura e preocupações ambientais. Até este domingo, 30 de Setembro, estará em votação, no âmbito do Orçamento Participativo de Portugal, o projecto da Casa João Ferreira de Almeida, a construir em Torre de Tavares (Mangualde), que pretende “estudar, promover e divulgar a vida e obra” do autor da primeira tradução integral da Bíblia para português. O método é muito simples e basta usar uma mensagem de texto no telemóvel ou um computador com acesso à internet (no final, explica-se como se vota neste projecto). 
A ideia da Casa Ferreira de Almeida não pretende ser apenas a de um museu voltado para o passado. Entre os objectivos, estão os da apresentação da história da tradução da Bíblia para português e da biografia e trabalho de João Ferreira de Almeida, “salientando a sua importância como instrumento de promoção da língua e das culturas lusófonas”. 
“Promover a Bíblia como património espiritual e cultural” e de “valores universais”, bem como a criação de uma plataforma “para o conhecimento plural e acessível” do texto bíblico e dos seus significados, é outra das ideias. Tal como a de “resgatar da clandestinidade histórica e cultural a biografia e a bibliografia de João Ferreira de Almeida”, que pode ser considerado “um dos pais da lusofonia”, como dizem os promotores da ideia. 
O autor daquela que continua a ser a tradução mais vendida da Bíblia em português – pelo menos três a quatro milhões de exemplares, anualmente, só no Brasil – nasceu em 1628, em Chãs de Tavares, tendo ficado órfão desde muito cedo. Terá sido educado por um tio, padre católico, que residia em Lisboa. Aos 13 ou 14 anos, João parte para Amesterdão e, pouco depois, para Malaca. 
Durante a viagem, o jovem sobrinho de clérigo católico decide tornar-se protestante. Em 1644, com apenas 16 anos, João Ferreira Annes d’Almeida inicia a tradução dos textos da Bíblia do latim para português, começando pelo Novo Testamento. No trabalho, Ferreira d’Almeida coteja a sua versão com traduções para espanhol, francês e italiano. 

Reduzir a pegada de carbono

Não se ficarão pela Bíblia e pela memória de Ferreira d’Almeida os objectivos da Casa. Ela quer também afirmar-se como um “espaço expositivo de excelência” e um “centro vivo de referência cultural”, contribuindo, ao mesmo tempo, para “a formação da população local e dos visitantes”. “Não estamos a falar de uma realidade urbana, mas há uma preocupação forte com a comunidade local”, diz ao RELIGIONLINE Timóteo Cavaco, presidente da Sociedade Bíblica Portuguesa e um dos dinamizadores do projecto da Casa Ferreira de Almeida. 
Outra preocupação será a da integração dos espaços, das opções por soluções energéticas seguras e não poluentes, de modo a reduzir a pegada de carbono, e com boas acessibilidades para pessoas com diferentes condições físicas, sensoriais e motoras. “Focada em destacar a relação entre a Palavra Criadora (Bíblia) e a Criação, a Casa está comprometida em promover o uso sustentável do ecossistema local”, lê-se na descrição do projecto. “Com efeito, tanto as áreas naturais, a descoberto, como a estética arquitectónica dos espaços interiores devem ser pensados em articulação com as características da paisagem” e com a preocupação da “conservação e sustentabilidade dos recursos envolvidos
(Ilustração acima: © Ilda David, Bíblia Ilustrada)

segunda-feira, 17 de setembro de 2018

África do Sul na encruzilhada da xenofobia, violência e mentalidade mítica

Texto de Maria Wilton


Bairro na periferia da Cidade do Cabo: a África do Sul 
é a segunda economia “mais miserável do mundo”
(Foto © José Rebelo)

“O que sentimos é que [as igrejas não têm] um grande apelo sobre as pessoas. Questões culturais como a crença nos espíritos e na cura são difíceis de penetrar e fazem com que nós, os católicos, sejamos considerados estranhos.” A afirmação é do padre José Rebelo, dos Missionários Combonianos, 57 anos, a viver em Pretória, África do Sul, há sete anos. A trabalhar no país pela segunda vez, depois de ali ter estado no final do regime do apartheid, José Rebelo está, agora, a dirigir a revista WorldWidedos Combonianos. E descreve a realidade altamente desigual e pobre que encontrou na nação pós-regime do apartheid e depois da presidência de Jacob Zuma (2009-2018), acusado de estar envolvido em escândalos de corrupção.
Um dos problemas graves no país é também o da violência xenófoba. Na semana passada, o arcebispo de Joanesburgo, Buti Joseph Tlhagale, denunciou ataques de violência xenófoba ocorridos em Zeerust e Soweto. Pelo menos quatro comerciantes estrangeiros perderam a vida: “Mais uma vez, tivemos de ver fotos de bem vestidos e bem alimentados sul-africanos a pilhar lojas de estrangeiros, atacando os donos e deixando para trás devastação e mortes”, afirmava, citado pela agência Fides, o também presidente do Instituto para os Migrantes e Refugiados da Conferência Episcopal da África Austral (África do Sul, Botswana e Suazilândia). 


Arcebispo de Joanesburgo, Buti Joseph Tlhagale 
(Foto © José Rebelo)

De acordo com o sítio de informação financeira Bloomberg, a África do Sul é a segunda economia “mais miserável do mundo” (apenas atrás da Venezuela), com uma das maiores taxas de desemprego do mundo (27,5 por cento) e com uma alta inflação (5,1 por cento).
Adicionalmente, relatórios da polícia nacional divulgados pelo The Guardian dão conta de uma subida da taxa de homicídios em mais de sete por cento, com um total de 20 mil pessoas mortas entre abril de 2017 e março de 2018 (ou seja, 57 mortes diárias, em média). 
Perante esta realidade, José Rebelo refere os obstáculos que as igrejas encontram para prestar auxílio às pessoas que mais precisam: “A Igreja Católica na África do Sul é minoritária, não tendo grande relevância – até por causa de uma falta de identidade católica –, e por isso é difícil conseguir ajudar a população mais fragilizada.” O missionário português conta ainda que o crime também já acontece dentro das igrejas, com episódios de roubos da coleta de domingo, em alguns casos duas vezes em três meses. 

terça-feira, 11 de setembro de 2018

Cristãos e marxistas aprendem juntos o que podem fazer pelo bem comum e a democracia


Texto de António Marujo

Ilustração reproduzida daqui

Os bens comuns, a democracia, a Europa e o diálogo foram os quatro temas que mobilizaram 35 jovens estudantes e vários professores, cristãos e marxistas, numa universidade de Verão. A iniciativa, que decorreu toda a semana passada em Ermoupoli, na Grécia, foi promovida por pessoas ligadas sobretudo ao movimento dos Focolares, do lado católico, tendo à frente o arcebispo Vincenzo Zani, secretário da Congregação da Educação Católica. Do lado marxista, eram sobretudo pessoas da rede Transform Europe, que congrega movimentos da esquerda política, entre os quais o brasileiro Michael Löwiradicado em França, que dirige a área de Ciências Sociais no Centre National de la Recherche Scientifique. 
Vindos de vários países, incluindo alguns de África e da Ásia, os participantes trabalhavam sempre com um professor católico e outro marxista, quer na análise da realidade quer na construção de cenários futuros. A ideia nasceu do diálogo entre Franz Konreif, membro do movimento dos Focolares, na Áustria, e o secretário-geral do Partido Comunista austríaco, Walter Baeir, que, em 2014, e em conjunto com o actual primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras, foram recebidos pelo Papa Francisco em audiência. 
O Papa Francisco pediu aos Focolares para levarem a iniciativa por diante, conta José Manuel Pureza, deputado do Bloco de Esquerda, que participou na academia, que o próprio apresentou neste artigo na Visãoe sobre a qual prestou declarações neste outro texto no DN.
Todos os dias, além das aulas, havia um momento inicial de invocação de trajectos pessoais ou políticos. O protestante Dietrich Bonhoeffer, assassinado pelos nazis, e o compromisso histórico entre a Democracia Cristã e os comunistas italianos foram duas das histórias trazidas por diferentes professores. José Pureza evocou Dorothy Daya activista católica que, nos Estados Unidos, criou o jornal The Catholic Worker, que acabou por dar origem a uma rede de centros onde sem-abrigo, pobres, desempregados e outros necessitados se juntam e gerem as próprias casas. 

sábado, 11 de agosto de 2018

Livros: A mentira – Contra a mentira

Texto de Rui Pedro Vasconcelos

A publicação, no nosso contexto, de uma obra clássica da Tradição cristã – neste caso de Santo Agostinho – representa um acontecimento a registar. Agora, o leitor recebe nas suas mãos dois opúsculos de Agostinho de Hipona, escritos respetivamente em 395 e 420 d. C., sobre a temática da mentira. O primeiro opúsculo, A Mentira, adquire uma linguagem formal e académica, própria das investigações do autor na área da filosofia e da ética; já o segundo opúsculo, Contra a Mentira, consiste numa carta dirigida a um cristão, Consêncio, como resposta a dúvidas levantadas por este sobre a legitimidade de usar a mentira e táticas semelhantes para infiltrar grupos considerados heréticos, como os priscilianistas (movimento de caráter espiritual e popular muito influente na Península Ibérica ao longo dos séculos IV e V, fundado por Prisciliano, bispo de Ávila). Em ambos os opúsculos, Agostinho é perentório: a mentira nunca é, em caso algum, um meio legítimo de evangelização ou anúncio da verdade.
Agostinho procura responder a uma ampla corrente, oriunda da filosofia grega e difundida em significativos autores cristãos da época, segundo a qual a mentira poderia ser justificada em determinadas situações ou de acordo com a intenção de quem a proferisse. Agostinho defende que, podendo em alguns casos ser um mal menor ou leve, a mentira nunca é um bem ou um meio que se justifique, independentemente do fim – seja perseguir a verdade com a mentira ou defender a vida com o falso testemunho. Os mártires elevam-se como baluartes desta integridade da linguagem. Como é bem referido por José Maria Silva Rosa na sua Introdução à obra, a reflexão de Agostinho transporta-nos, hoje, para a natureza do discurso político. Um livro exigente, graças ao qual o leitor se aproximará da sua própria linguagem no comum dos dias.

quinta-feira, 24 de maio de 2018

Cristianismo Contemporâneo em congresso

Agenda

O I congresso internacional Cristianismo Contemporâneo – Cristianismo, Cultura e Diálogo num Mundo em Mudança realiza-se em Lisboa, entre sexta, 25, e domingo, 27 de Maio, reunindo investigadores, docentes, estudantes, religiosos, teólogos e outros cientistas do fenómeno religioso contemporâneo, oriundos de Portugal, França, Itália, Polónia, Brasil, Chile e Cabo Verde. 
Os organizadores apontam, entre os objectivos do congresso, a ideia de contribuir para uma cultura de paz e tolerância entre diferentes expressões de fé e promover o diálogo inter-religioso; dinamizar a reflexão da fé na sociedade contemporânea, nos âmbitos cultural, artístico, social, político e comunicacional; e reflectir sobre a dimensão ética da fé nos diversos contextos de vida. 
A iniciativa, que decorre na Igreja Evangélica Presbiteriana de Lisboa e na Universidade Lusófona de Ciências e Tecnologias, contará com intervenções, entre outros, de Guilherme d’Oliveira Martins, Luís Salgado de Matos, Mendo Castro Henriques, frei Bento Domingues e Stefan Bratosin. 
Mais informações sobre a iniciativa, incluindo o programa completo, podem ser consultadas aqui


segunda-feira, 21 de maio de 2018

Ser católica e de esquerda: aproximações e dúvidas existenciais



No Ponto SJ, Joana Rigato publicou hoje uma reflexão sobre Ser católica e de esquerda, onde escreve: 

Pior ainda é, a meu ver, a persistência de uma atitude clubística entre pessoas que aspiram, com idealismo e desinteressadamente, a um mundo perfeitamente justo. Não será que aquilo que os ateus não compreendem em nós – esta fé num Deus que não se vê, a esperança num Reino que temos de construir pessoa a pessoa, e o seguimento de princípios difíceis de implementar, que desafiam o pragmatismo capitalista atual em que impera a lei do mais forte – é o espelho daquilo que também os cristãos mais conservadores não compreendem na esquerda que desfila na Avenida da Liberdade? 
Aquilo que move tanta gente de esquerda é o anseio por um modelo social justo, em que o Bem Comum seja preocupação de todos. Pode parecer uma utopia, mas não é mais utópico do que o sonho do Reino de Deus que mobiliza tantos cristãos.
(o texto pode ser lido aqui na íntegra, de onde também se reproduz a foto)

quinta-feira, 3 de maio de 2018

Traduções da Bíblia: sentimentos, experiências, chaves e uma “incrível fonte de imagens”


Babel, ou a narrativa de uma loucura totalitária
ilustração de Serge Bloch (texto de Frédéric Boyer), 
em Bible - Les récits fondateurs (ed. Bayard)

Na passada segunda-feira, decorreu em Lisboa uma reunião da Associação Bíblica Portuguesa (ABP) que, entre outras coisas, fez o ponto de situação da nova tradução da Bíblia, que está a ser preparada a pedido da Conferência Episcopal Portuguesa. Esta tradução terá a colaboração de biblistas portugueses e lusófonos, como se descreve nesta notícia. 
Em entrevista a Ângela Roque, na Rádio Renascença, o presidente da ABP, padre Mário Sousa, falou das novas perspectivas sobre esta tradução e as diferenças que se poderão vir a encontrar, em relação a anteriores trabalhos – nomeadamente, à tradução que Frederico Lourenço tem vindo a publicar, em vários volumes, desde 2016 (ed. Quetzal). A entrevista pode ser lida aqui
A propósito precisamente da tradução de Frederico Lourenço, publiquei no número do Inverno 2017 da revista Ler dois textos que a seguir se reproduzem. 


AS CHAVES DE LOURENÇO PARA ABRIR A BÍBLIA

Frederico Lourenço anda às voltas com a Bíblia e assim continuará por mais dois anos. Ganha o texto bíblico, mas também os leitores: de uma vez só, ficam com uma nova tradução da Bíblia, e um precioso conjunto de chaves de leitura sobre o contexto histórico, autores, processos de composição do texto, linguística ou personagens bíblicas. 

Uma das características que se destaca do trabalho de Frederico Lourenço com a tradução da Bíblia – cujo terceiro volume, contendo os livros proféticos do Antigo Testamento, foi publicado em Outubro passado – é a do corpusjá constituído pelas diferentes introduções (e pelas notas, que complementam muita da informação). Além da tradução propriamente dita, Frederico Lourenço acaba por realizar um segundo trabalho, de grande qualidade, com as introduções e as notas que escreve e constituem já uma importante porta de entrada na Bíblia e nos seus livros. 
Quem queira ter o mínimo de informação sobre traduções do texto bíblico, estado dos debates e os diferentes argumentos na exegese histórica e contemporânea, autores e composição dos textos, questões linguísticas atinentes à tradução, história e processo de constituição do cânone bíblico, manuscritos e variantes ou objectivo literário dos textos no seu contexto histórico, entre outros temas, tem aqui um importante guia de leitura. Como também pode ficar a conhecer melhor figuras importantes da narrativa bíblica ou ainda perceber que cada um dos textos da Bíblia muitas vezes não tem um autor único – por exemplo, Mateus, Marcos, Lucas ou João – mas muitos (ou, pelo menos, autores anónimos). 

sábado, 7 de abril de 2018

Páscoa, hoje de novo: a Oriente e em todas as latitudes, “o perdão brotou do túmulo”



O Salmo 53 termina, dizendo:
“Quem dera que viesse de Sião a salvação de Israel!
Quando Deus reconduzir os cativos do seu povo,
Jacob rejubilará e Israel exultará de alegria.”

É este poema que se pode ouvir no vídeo acima. No salmo, um dos versos também diz “Não há razão para tremer”. Mas, ao escutar estas (poucas) vozes, que cantam o Salmo 53 em aramaico – a língua que Jesus falava –, há todas as razões para tremer, pela intensidade e beleza que é colocada na interpretação desta oração bíblica (a gravação foi feita durante a visita do Papa Francisco à catedral patriarcal Svietyskhoveli, em Mtskheta, na Geórgia, a 1 de Outubro de 2016).
Hoje, a Oriente, tendo em conta a diferença de calendário, a maior parte das igrejas ortodoxas, católicas orientais, coptas, caldeias, sírias e arménias celebram o Sábado de Páscoa – coincidindo, aliás, com o Sábado da Pessah judaica, celebração final que culmina uma semana de memória da saída do cativeiro doEgipto.
No hino de Sábado Santo da tradição oriental, reza-se: “Tu desceste à terra para salvar Adão, mas não o encontrando na terra, oh Senhor, foste buscá-lo aos infernos.” É por isso que muitos ícones da ressurreição representam, na tradição oriental, Cristo descendo aos infernos. (Uma pequena polémica mediática envolveu de novo o Papa Francisco, dias antes da Páscoa, por ele alegadamente ter dito que o Inferno não existeuma ideia, aliás, que já João Paulo II tinha assumido, nas suas catequeses de quarta-feira, no Verão de 1999, o inferno não é um lugar físico mas a “situação de quem se afasta de Deus”, e que seria depois contraditada por Bento XVI.)
Diz a homilia de São João Crisóstomo, que se lê na Divina Liturgia ortodoxa da noite de Páscoa: “Saciai-vos todos no banquete da fé, vinde servir-vos do tesouro da misericórdia. Que ninguém lamente a sua pobreza, porque o Reino chegou para todos; que ninguém chore as suas faltas, porque o perdão brotou do túmulo; que ninguém receie a morte, porque a morte do Salvador dela nos libertou.” (o texto completo da homilia pode ser lido aqui, em português)
No seu Prado Espiritual, Aleksej Remizov escreve: “A santa mãe, a Ressurreição do Tríduo, purificada no orvalho de Primavera, acende a aurora, e no final da liturgia, resplandecente a conduz sobre o monte mais alto.”
A linguagem de uma profunda poética de interioridade, fortemente ancorada nas celebrações pascais, marca a linguagem do cristianismo oriental. Tal como a tradição do acolhimento e a “intensa procura da comunhão com Deus”, como escreve o dominicano fr. José Luís de Almeida Monteiro, na apresentação da edição portuguesa dos Relatos de um Peregrino Russo ao seu Pai Espiritual.
E, na Pequena Filocaliapode ler-se, num dos Quatrocentos textos sobre o amor, de São Máximo, o Confessor: “Bem-aventurado o homem que não fica cativo do que é finito, transitório, corruptível.”

(Sobre outras tradições pascais, podem ouvir-se duas reportagens de Manuel Vilas Boas na TSF. Uma, que conta a Páscoa judaico-cristã de Castelo de Vide, que passa pelas matracas de Quinta-feira Santa, a bênção dos cordeiros no Sábado, o ensurdecedor toque nocturno das campainhas e chocalhos no interior da igreja e pelas ruas desta vila medieval até à procissão da Ressurreição, no Domingo de Páscoa. Para ouvir aqui
A outra, sobre as tradições minhotas do Compasso ou Visita Pascal, que inclui cortejos de cruzes floridas, bênção das casas e a travessia do rio Minho, entre Portugal e a Galiza. Para escutar aqui.)

Ilustração: Ícone O Anjo e as Mulheres junto do túmulo de Jesus, Museu de São Petersburgo

sexta-feira, 6 de abril de 2018

Luther King: como uma dor de pés e um pequeno gesto podem fazer sonhar o mundo


Martin Luther King (ilustração reproduzida daqui)

O assassinato de Martin Luther King, cujos 50 anos se assinalaram na quarta-feira, dia 4, é o desfecho trágico de uma história que começou com uma dor de pés. (No final deste texto, há várias sugestões de outras leituras a propósito da efeméride)
A 1 de Dezembro de 1955, Rosa Parks, uma costureira negra de 42 anos foi presa na cidade de Montgomery (Alabama, Estados Unidos da América) por se ter recusado a dar o lugar a um branco no autocarro em que seguia. De acordo com as leis de segregação e os costumes da cidade, Rosa tinha que se levantar quando já não houvesse lugar nas quatro filas da frente para os passageiros brancos.
“É verdade que me doíam os pés, e que num primeiro momento foi isso que me levou a ficar sentada. Mas a verdadeira razão porque não me levantei foi por achar que tinha o direito de ser tratada como outro passageiro qualquer. Já tínhamos sofrido demasiado tempo aquele tratamento desumano”, recordaria a própria numa entrevista, em 1992. Sem que ela o soubesse, esta dor dos pés de Rosa Parks, que morreu com 92 anos em Outubro de 2005, viria a ser o primeiro passo de uma longa marcha pelos direitos cívicos dos negros norte-americanos.
No dia seguinte, Martin Luther King, jovem pastor da Igreja Baptista que estava na cidade há pouco mais de um ano, recebe um telefonema madrugador. E. D. Nixon pagara os 14 dólares de fiança para Rosa esperar o julgamento em liberdade. Ao telefone, quando King atende, Nixon esquece-se de lhe dar os bons dias e vai directo ao assunto: “Acho que está na altura de boicotar os autocarros. Só com um boicote podemos conseguir fazer com que estes tipos percebam que não vamos suportar mais este tipo de tratamento.”

Não pactuar com um sistema pernicioso

Antes do telefonema, conta o próprio King, E. D. Nixon telefonara ao pastor Ralph Abernathy, da Primeira Igreja Baptista da cidade, tendo ambos concordado com o boicote. King também adere à ideia.
À noite, a dúvida assalta-o: seria o método “intrinsecamente anticristão” e uma “forma negativa de resolver o problema”? Não: tratava-se apenas de “deixar de pactuar com um sistema pernicioso”, uma ideia do ensaio de Henry David Thoreau sobre a desobediência civil. E deixará de falar em boicote, passa a referir-se a um acto colectivo de não-colaboração.
A pé, de bicicleta, à boleia, de táxi. Aquele 5 de Dezembro, a segunda-feira da acção programada, é o primeiro de 381 dias em que os negros de Montgomery utilizam todos os meios possíveis nas suas deslocações. Todos, menos o autocarro. No mesmo dia, Rosa Parks é condenada, em tribunal, ao pagamento de 14.000 dólares – mas recorre. O sucesso da não-colaboração e a sentença judicial levam à criação de uma organização mais consistente. King, então com 26 anos, é o escolhido para liderar o processo. Ao fim de 14 meses, o Supremo Tribunal dos Estados Unidos declara inconstitucional a segregação nos autocarros.

domingo, 25 de março de 2018

Jerusalém: uma cruz para os judeus, um tapete para os cristãos e um talit para os muçulmanos, a fórmula para a paz em Israel


A Cúpula do Rochedo e a Mesquita de Al Aqsa, vistas do Jardim das Oliveiras 
(foto © António Marujo)

No texto da semana passada nas Reflexões Islâmicas, página produzida por Mohamed Yioussuf Adamgy, responsável da revista Al Furqánpode ler-se a tradução, em português, de um artigo de Manuel Ismail Fernández Muñoz, publicado no seu blogue La Taberna del Derviche. Reproduz-se a seguir a versão portuguesa do texto. 

Respondi ao eco do chamamento de Jerusalém, como muitas almas fizeram ao longo dos séculos, para orar aqui e retornar testemunhando que, além de ser a Cidade Sagrada, Jerusalém é um estado de ser.
Aqui pode-se sentir Deus nas entranhas ouvindo cada uma das orações. Pode-se chorar de amor no Muro, prostrado diante da Presença que encheu o espírito na Cúpula da Rocha, ou seguir os passos de Jesus ao longo da Via Dolorosa até chegar ao Santo Sepulcro. Um túmulo vazio porque ele ressuscitou.
Jerusalém é três vezes santa e outras tantas mais para cada um dos peregrinos que chegam aqui, bebem dela e voltam reconfortados. Jerusalém, sem dúvida, é a Casa do Senhor. Um Deus que, no entanto, é tão grande que não cabe em todas as suas igrejas, mesquitas e sinagogas. É por isso que tem que ser compartilhado entre nós.
Agora, que é o momento de partir, sinto-me triste, não porque não tenha sentido Deus derramando-se no meu coração, mas porque vi a ignorância em que meus irmãos e irmãs estão imersos. Bem disse Anthony de Mello que Jerusalém era a cidade onde todos dizem amar a Deus enquanto se odeiam mutuamente até a morte... E, infelizmente, isso também é o que eu encontrei aqui.
Rezando no Túmulo do Jardim, mergulhando nos mistérios que a minha mente esconde e imaginando Jesus caminhando como um jardineiro, por este lugar há séculos atrás, ouvi um capelão dizendo à sua congregação:
- Eu estou hospedado num hotel muçulmano. Certamente que isso é um pecado!
E fiquei muito triste, tanto por aquele homem quanto pelas pessoas que o seguiam, porque não tinham entendido a mensagem de amor de Galileu ou mesmo lido claramente no Evangelho a parábola do Bom Samaritano. Então, pensei, de que os servia vir à Terra Santa, orar nos lugares onde Jesus esteve, se não se esforçavam por fazer o que ele fez? Mas é que a cruz de Jesus pesa muito.
Tentando esquecer o sucedido, algumas horas depois, dirigi-me à Esplanada das Mesquitas e vi que inúmeros polícias palestinos negavam o acesso ao recinto aos não-muçulmanos, e igualmente pensei que esses homens não haviam lido o versículo do Alcorão Sagrado que diz: “É verdade que aqueles que creêm, os judeus, sabeus e cristãos que crêem em Allah e no Último Dia, e agem com rectidão, não terão nada a temer nem se atribularão.” (Surah 5: 69).

quinta-feira, 1 de março de 2018

Enviado da UE ameaça com represálias comerciais se Paquistão não libertar Asia Bibi



Manifestação das minorias religiosas no Paquistão a favor da libertação de Asia Bibi 
(foto reproduzida daqui)
 
O enviado especial da União Europeia (UE) para a promoção da liberdade religiosa, o eslovaco Ján Figel, afirmou que a UE pode não renovar o acordo comercial com o Paquistão se o Paquistão não libertar Asia Bibi, a cristã condenada à morte por blasfémia, que está na prisão a aguardar um último recurso na justiça.
A informação, desenvolvida nesta notícia da AIS (Ajuda à Igreja que Sofre), tem a ver com o estatuto privilegiado de que goza aquele país, nas trocas comerciais com a UE, que se traduz na isenção de direitos no acesso ao mercado comunitário.
Se isso se concretizar, será uma atitude inédita da parte da UE, cujos governos e instâncias comunitárias se têm limitado, na prática, às declarações inconsequentes de condenação.
Em Setembro de 2011, a jornalista francesa Anne-Isabel Tollet, que trabalhou durante três anos como correspondente da France 24 em Islamabad (Paquistão), dizia, numa entrevista que lhe fiz para o Público: 
“O que é difícil para os países europeus é que eles podem dizer o que pensam, mas não podem impor nada. O Paquistão é um país muito orgulhoso, que tem a bomba nuclear, que deve continuar um parceiro diplomático importante para evitar que a situação se torne um barril de pólvora e que haja o risco de atentados através do mundo.”
Foi enquanto jornalista que Anne-Isabel se interessou pelo caso de Asia Bibi, a mulher cristã que está presa acusada de “blasfémia” mas que, na realidade, foi detida em 2009 por ter retirado água de um poço que lhe estava interdito, enquanto trabalhava no campo. Acusada por mulheres muçulmanas de conspurcar a água que lhes pertencia, reagiu, defendendo-se a si mesma e à fé cristã que professava e que as colegas de trabalho puseram em causa. Na entrevista citada, Anne-Isabel Tollet conta vários pormenores da história de Asia Bibi.
Foi esse facto que lhe valeu a acusação de blasfémia e a pena de morte, entretanto adiada em sucessivos avanços e recuos. Asia Bibi não pode ver ninguém, à excepção do marido (que tem vivido escondido, tal como os filhos do casal) e do advogado. E foi para contar todo esse caso que Anne-Isabel Tollet escreveu Blasfémia, publicado em Portugal pela Aletheia
Tragicamente, as questões de liberdade religiosa (sobretudo quando são cristãos que estão em causa) continuam a não merecer muita atenção da comunidade internacional, acantonada à manifestação de preconceitos ideológicos ou político-económicos. Com poucas excepções, a regra é a do silêncio ou a das declarações inconsequentes: à esquerda, o carimbo do religioso como sinónimo de fundamentalismo ou conservador, à direita por causa dos interesses financeiros, económicos, comerciais e políticos.
Pode ser que, desta vez, Asia Bibi tenha um mínimo de sorte (se se pode considerar sorte ser libertada de uma prisão injusta ao fim de nove anos). Mas o calvário continuará para muitas pessoas que não têm, sequer, quem conheça e divulgue os seus casos.