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sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

Credibilidade não se recupera com fluxogramas, diz o Papa em carta sobre abusos, aos bispos dos EUA

Texto de Maria Wilton


O Papa Francisco com os responsáveis da Conferência dos Bispos Católicos dos Estados Unidos, 
em Setembro, no Vaticano (foto CNS, reproduzida daqui)

“A credibilidade da Igreja tem sido seriamente enfraquecida e diminuída por esses pecados e crimes, mas ainda mais pelos esforços feitos para negar ou ocultar os mesmos”, escreve o Papa Francisco numa carta dirigida aos bispos da Conferência Episcopal dos Estados Unidos, que estão em retiro no seminário de Mundelein, em Chicago.
No texto de oito páginas, Francisco faz uma forte crítica à realidade vivida na Igreja Católica daquele país. Antes de propor uma solução para a crise atual, começa por diagnosticar o problema da perda da credibilidade da instituição católica, algo que levou a “um sentido de incerteza, desconfiança e vulnerabilidade nos fiéis”.
Os bispos estadunidenses encontram-se reunidos desde esta quarta-feira, 2 de janeiro, para refletir sobre a resposta à crise que tem assolado a Igreja Católica do país, relacionada com os abusos sexuais. Na carta, o Papa argentino escreve que a credibilidade “não pode ser recuperada com decretos severos ou a criação de novos comités ou fluxogramas, como se estivéssemos num departamento de recursos humanos”. Segundo Francisco, isso reduziria o papel dos bispos e da Igreja a funções administrativas ou organizacionais no “negócio de evangelização”.
Em vez disso, o Papa pede que o foco esteja no que é verdadeiramente importante: “Têm sido tempos de turbulência nas vidas de todas as vítimas que sofreram na pele o abuso de poder e consciência e o abuso sexual da parte de ministros, religiosos e leigos. (…) Sabemos que, dada a seriedade da situação, nenhuma resposta ou abordagem parece adequada.”
Mesmo assim, Francisco sugere uma solução, que se baseia numa “nova presença” no mundo com “uma forma concreta de serviço aos homens e mulheres" dos dias de hoje: “Os pastores têm que estar dispostos a ouvir e a aprender com os seus erros, não agindo defensivamente.”
Estes são passos fundamentais, considera o Papa, para a reconciliação não só com os fiéis católicos, mas também entre os diversos responsáveis da Igreja, já que “momentos de dificuldade e provação também ameaçam a comunhão fraterna”. Francisco pede o abandono do modus operandi dedescrédito, de vitimização e de reprovação no modo de relacionar, já que estas atitudes desfiguram e dificultam a missão da Igreja. 

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

Abusos sexuais na Igreja Católica: pequeno guia de uma grande tormenta



O Papa Francisco respondendo aos jornalistas, Domingo, 
no voo de regresso a Roma (foto reproduzida daqui)

A tormenta não passou, nem passará tão cedo: a crise dos abusos sexuais continua na Igreja Católica, após a viagem do Papa à Irlanda, que deixou um lastro de várias manifestações de crítica à Igreja e a Francisco, que ali esteve para encerrar o Encontro Mundial das Famílias. Depois de, no sábado, ter feito várias declarações e se ter encontrado com várias vítimas de abusos, o Papa foi ontem ainda, Domingo, 26 de Agosto, objecto de uma carta do arcebispo Carlo Maria Viganò, núncio (embaixador) do Vaticano em Washington entre Outubro de 2011 e Janeiro de 2016, denunciando que Francisco teria conhecimento dos abusos cometidos pelo ex-cardeal Theodore McCarrick, forçado a demitir-se do colégio de cardeais há um mês.
Afinal, Viganò – que foi, ele próprio, acusado de ter encoberto casos de abusos e ordenado a destruição de provas – terá deturpado ou mentido vários factos, como se enumera neste texto do National Catholic Reporter [NCR]. 
Na conferência de imprensa dada a bordo do avião, de regresso a Roma, o Papa pediu que os jornalistas façam o trabalho de casa: respondendo a uma pergunta da jornalista Anna Matranga, da CBS, Francisco disse que o texto da carta “fala por si” e que era importante que os jornalistas o lessem e retirassem as suas conclusões. Quando passar um pouco mais de tempo, acrescentou, poderá voltar ao assunto. (A transcrição da conferência de imprensa está aquipor enquanto apenas na versão italiana.)
Tal como o National Catholic Reporter, o New York Times já fez o trabalho de casa e escreveu: “As suas [de Viganò] alegações infundadas e os ataques pessoais representaram uma extraordinária declaração pública de guerra contra o papado de Francisco, feitas naquele que é talvez o seu momento mais vulnerável.” (o texto do NYT está disponível aqui, em inglês)
Quer tudo isto dizer que se deve menosprezar ou ignorar a acusação do antigo núncio? Certamente que não, mas ela tem de ser compreendida no contexto da pessoa que a faz, que também foi um dos envolvidos no caso “Vatileaks”, um dos que levou à demissão do Papa Bento XVI. No Crux, John Allen Jr. recorda vários desses episódios e ainda no NCR escreve-se como a carta de Viganò manifesta a conspiração contra o actual Papa. 

sábado, 25 de agosto de 2018

Verdade, confiança, dar a palavra aos crentes: uma nova Reforma da Igreja




Protestos no Chile contra o encobrimento dos crimes de abusos sexuais do clero católico 
(foto reproduzida daqui)

Hoje, no Público, dia em que o Papa Francisco chega à Irlanda para encerrar o Encontro Mundial de Famílias, escrevo um texto longo sobre as possibilidades de saída da crise dos abusos sexuais do clero:

Conhecer a verdade, restaurar a confiança, dar a palavra aos crentes e promover uma nova reforma da Igreja. Estas são algumas das urgências para enfrentar o que está a acontecer no catolicismo. Uma crise só comparável, na dimensão, extensão, gravidade e profundidade, à que levou à Reforma do século XVI. Nesta crise, revelam-se, tal como há 500 anos, problemas graves como abuso de poder, clericalismo, formas de nepotismo, centralidade da instituição em detrimento do evangelho, má gestão de bens... O Papa Francisco, que este sábado chega à Irlanda, tem alertado para várias destas questões e já repetiu que considera muito grave o que se passa.
(o texto pode continuar a ser lido aqui)

No mesmo jornal, há outros textos sobre o mesmo tema:
Natália Faria escreve sobre os casos conhecidos em Portugal, para concluir que, afinal, os padres já condenados em tribunal continuarem a exercer o ministério. Ou seja, os mínimos continuam por fazer. O texto pode ser lido aqui

Maria João Guimarães descreve a Irlanda que Francisco visita, estabelecendo as profundas diferenças da actual sociedade irlandesa e do seu catolicismo com aqueles que o Papa João Paulo II encontrou, em 1979. Para ler aqui

Também João Miguel Tavares dedica a sua crónica ao assunto, para defender uma investigação mundial sobre o tema e um estudo aprofundado sobre o celibato. Para ler aqui

  

sábado, 18 de agosto de 2018

Os abusos sexuais na Pensilvânia e a urgente Reforma da Igreja


Esta foto de Ivan Alavarado/Reuters/CNS (reproduzida daquié mais um sinal dos sentimentos 
de raiva, nojo, náusea, horror e traição que atingem fiéis católicos por todo o mundo: 
dia 25 de Julho, numa missa na catedral de Santiago do Chile, 
uma mulher segura um cartaz onde diz: “Não mais bispos encobridores”. 

No Expresso Diário de quinta-feira, dia 16, publiquei um texto sobre os abusos sexuais por membros do clero em seis dioceses da Pensilvânia (Estados Unidos): 

(...) um relatório de 1356 páginas regista 300 casos supostos de “padres depredadores” sexuais em seis dioceses, que vitimaram pelo menos mil crianças e adolescentes, entre 1947 e o início deste século. 
O padre jesuíta Thomas Reese, do Catholic News Service, uma das vozes que tem defendido a abertura de arquivos e a tolerância zero para com estes casos, afirmou que o documento deve ser um “alerta” para outras dioceses: os responsáveis devem contratar investigadores externos para averiguar tudo o que se passou até hoje e publicar os resultados. 
Naquele que é talvez o comentário mais certeiro ao caso, Reese acrescentou, citado pelo jornal digital Crux: “Muitos bispos pensam: ‘Isto aconteceu antes de eu chegar aqui, lamento que tenha acontecido, mas já mudámos os procedimentos e já não está a acontecer.’” O problema, acrescenta, é que não se averiguou toda a sujidade, ao mesmo tempo. Se isso tivesse sido feito “não estaríamos a ser mortos com mil golpes”. O relatório da Pensilvânia é apenas mais um, depois de outros. “É a mesma história em todos os lugares.”
(o texto pode continuar a ser lido aqui)

Como seria de esperar, o caso está a levantar uma avassaladora onda de reacções. A mais forte, até ao momento, será o apelo lançado por centena e meia de teólogos, educadores e leigos responsáveis de instituições católicas, que fizeram um apelo a que todos os bispos dos EUA apresentassem a sua resignação ao Papa Francisco, tal como fizeram, em Maio, os 34 bispos do Chile.
O apelo foi lançado sexta-feira mas, nesta tarde de sábado, o número de signatários já ia em mais de 700. “Hoje, pedimos aos bispos católicos dos Estados Unidos que orem e genuinamente considerem submeter ao Papa Francisco a sua renúncia colectiva como um acto público de arrependimento e lamento diante de Deus e do povo de Deus”, lê-se num texto publicado ontem mesmo, sexta-feira, em inglês e espanhol no blogue Daily Theology e noticiado pelo National Catholic Reporter (NCR).
Este seria “o primeiro de muitos passos para chegar à justiça, à transparência e à conversão” e só depois poderá começar o doloroso trabalho de cura, acrescenta o texto. 
Num editorial do mesmo NCR, com o título O corpo de Cristo deve reclamar a nossa Igrejaa prestigiada publicação católica alinha pelo mesmo tom muito crítico, defendendo uma urgente Reforma da Igreja. O texto começa por escrever que “raiva e nojo não parecem palavras suficientemente fortes” para definir o que se está a passar e soma três palavras: “Náusea? Horror? Traição?”
O editorial acrescenta, depois: “As revelações dos últimos dois meses tornam inegavelmente claro que é a hora de os leigos reclamarmos que esta Igreja nos pertence. Nós somos o corpo de Cristo, nós somos a Igreja. É tempo de exigirmos que os bispos assumam as suas verdadeiras vocações como servos do povo de Deus. E eles devem viver desse modo.

Dizer duas coisas aos bispos

No texto, admite-se que os leigos, neste momento, podem “fazer muito pouco” para provocar as mudanças necessárias nas “grandes questões” que afligem a Igreja – “carreirismo, abuso de poder, falta de transparência, nenhuma prestação de contas”. Os leigos têm pouco poder, diz o editorial, mas a raiva deve ser transformada em “determinação” e na exigência de mudanças claras. 

sexta-feira, 6 de abril de 2018

Luther King: como uma dor de pés e um pequeno gesto podem fazer sonhar o mundo


Martin Luther King (ilustração reproduzida daqui)

O assassinato de Martin Luther King, cujos 50 anos se assinalaram na quarta-feira, dia 4, é o desfecho trágico de uma história que começou com uma dor de pés. (No final deste texto, há várias sugestões de outras leituras a propósito da efeméride)
A 1 de Dezembro de 1955, Rosa Parks, uma costureira negra de 42 anos foi presa na cidade de Montgomery (Alabama, Estados Unidos da América) por se ter recusado a dar o lugar a um branco no autocarro em que seguia. De acordo com as leis de segregação e os costumes da cidade, Rosa tinha que se levantar quando já não houvesse lugar nas quatro filas da frente para os passageiros brancos.
“É verdade que me doíam os pés, e que num primeiro momento foi isso que me levou a ficar sentada. Mas a verdadeira razão porque não me levantei foi por achar que tinha o direito de ser tratada como outro passageiro qualquer. Já tínhamos sofrido demasiado tempo aquele tratamento desumano”, recordaria a própria numa entrevista, em 1992. Sem que ela o soubesse, esta dor dos pés de Rosa Parks, que morreu com 92 anos em Outubro de 2005, viria a ser o primeiro passo de uma longa marcha pelos direitos cívicos dos negros norte-americanos.
No dia seguinte, Martin Luther King, jovem pastor da Igreja Baptista que estava na cidade há pouco mais de um ano, recebe um telefonema madrugador. E. D. Nixon pagara os 14 dólares de fiança para Rosa esperar o julgamento em liberdade. Ao telefone, quando King atende, Nixon esquece-se de lhe dar os bons dias e vai directo ao assunto: “Acho que está na altura de boicotar os autocarros. Só com um boicote podemos conseguir fazer com que estes tipos percebam que não vamos suportar mais este tipo de tratamento.”

Não pactuar com um sistema pernicioso

Antes do telefonema, conta o próprio King, E. D. Nixon telefonara ao pastor Ralph Abernathy, da Primeira Igreja Baptista da cidade, tendo ambos concordado com o boicote. King também adere à ideia.
À noite, a dúvida assalta-o: seria o método “intrinsecamente anticristão” e uma “forma negativa de resolver o problema”? Não: tratava-se apenas de “deixar de pactuar com um sistema pernicioso”, uma ideia do ensaio de Henry David Thoreau sobre a desobediência civil. E deixará de falar em boicote, passa a referir-se a um acto colectivo de não-colaboração.
A pé, de bicicleta, à boleia, de táxi. Aquele 5 de Dezembro, a segunda-feira da acção programada, é o primeiro de 381 dias em que os negros de Montgomery utilizam todos os meios possíveis nas suas deslocações. Todos, menos o autocarro. No mesmo dia, Rosa Parks é condenada, em tribunal, ao pagamento de 14.000 dólares – mas recorre. O sucesso da não-colaboração e a sentença judicial levam à criação de uma organização mais consistente. King, então com 26 anos, é o escolhido para liderar o processo. Ao fim de 14 meses, o Supremo Tribunal dos Estados Unidos declara inconstitucional a segregação nos autocarros.

segunda-feira, 26 de março de 2018

O silêncio acusador de Emma Gonzalez diante das armas que matam os seus amigos


Um olhar fixo, um coração e um peito que batem forte. Foi assim sábado passado, com Emma Gonzalez, a adolescente que se tornou o rosto da revolta dos estudantes do seu país contra o lóbi das armas e as sucessivas matanças nos Estados Unidos.
Durante os sete minutos em que Emma se dirigiu às centenas de milhares de pessoas que a escutavam na “Marcha pelas Nossas Vidas”, em Washington, Emma começou por evocar os nomes de todos os seus 17 colegas e amigos que foram mortos na escola de Parkland, no sul do estado da Florida, a 14 de Fevereiro (e incluindo três professores e funcionários): Carmen Schentrup (16 anos), Aaron Feis (37), Alex Schachter (14), Scott Beigel (35), Helen Ramsay (17), Gina Montalto (14), Joaquin Oliver (17), Alaina Petty (14), Cara Loughran (14), Chris Hixon (49), Luke Hoyer (15), Nicholas Dworet (17), Martin Duque Anguiano (14), Peter Wang (15), Alyssa Alhadeff (14), Jaime Guttenberg (14), Meadow Pollack (18) nunca mais poderão estar com os seus amigos.
Depois, uns longos 4’25” – quatro minutos e vinte se cinco segundos – foram feitos de silêncio. Um silêncio perturbador, que olha de frente políticos criminosos. Um silêncio apenas quebrado pela comoção de alguns, incapazes de conter lágrimas, aplausos ou o grito de “nunca mais”. Seis minutos e vinte segundos – 6’20” – depois de chegar ao palco – o mesmo tempo que durou o tiroteio na escola  Stoneman Douglas –, Emma recordou que o atirador ainda circulou durante uma hora, antes de ser detido. “Todos os que lá estavam compreendem; todos os que foram tocados pelo aperto frio das armas compreendem...”
E conclui o som do seu silêncio, afirmando: Lutem pelas vossa vidas, antes que o trabalho seja feito por outra pessoa.”
(Neste caso, a frase correcta é: o vídeo DEVE SER VISTO nesta ligação; nesta outra, pode ler-se, em inglês, uma reportagem sobre a Marcha; e, claro, Emma traz-nos à memória uma canção que nos fala também de tantas coisas que pode o silêncio fazer:




quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Um jejum contra a violência e as fotos do purgatório dentro da igreja




(foto reproduzida daqui)

O Papa Francisco convocou para esta sexta-feira, dia 23, um jejum pela paz e, em especial, pelas populações da República Democrática do Congo e do Sudão do Sul, tendo em conta a “trágica continuação de situações de conflito em diversas partes do mundo”.
Ao convidar os crentes (incluindo “os irmãos e irmãs não católicos e não cristãos” com as “modalidades que considerarem mais oportunas”) para um dia de “oração e jejum”, o Papa acrescentou que cada pessoa se deve perguntar, na sua própria consciência: “O que posso eu fazer pela paz?” E acrescentou: “Certamente podemos rezar; mas não só. Cada um pode dizer concretamente ‘não’ à violência naquilo que depender dele ou dela. Porque as vitórias obtidas com a violência são falsas vitórias; enquanto trabalhar pela paz faz bem a todos!”
Na sua mensagem para a Quaresma deste ano, o Papa explica precisamente o sentido do jejum, relacionando-o com o fim da violência: “o jejum tira força à nossa violência, desarma-nos, constituindo uma importante ocasião de crescimento. Por um lado, permite-nos experimentar o que sentem quantos não possuem sequer o mínimo necessário, provando dia a dia as mordeduras da fome. Por outro, expressa a condição do nosso espírito, faminto de bondade e sedento da vida de Deus. O jejum desperta-nos, torna-nos mais atentos a Deus e ao próximo, reanima a vontade de obedecer a Deus, o único que sacia a nossa fome.”
Como proposta de oração para este dia de jejum, a Cáritas Portuguesa convidou um conjunto de instituições e movimentos católicos a redigir uma Via-Sacra que servisse de meditação para este dia. “Esta iniciativa resultou, primeiro, num gesto simbólico de união entre aqueles que têm por missão a evangelização e a erradicar a pobreza; segundo, num texto com um alinhamento diversificado que vive da identidade de cada uma destas organizações.” O texto está disponível aqui.
 
A propósito da violência que não se limita às guerras declaradas, merece também referência a iniciativa da Igreja Católica que, nas Filipinas, juntou aos objectivos de uma tradicional Marcha pela Vida a luta contra os assassinatos suspeitos, a declaração da lei marcial no sul do país ou a ideia de restabelecer a pena de morte. Numa semana em que assistimos a um dos mais graves massacres na guerra da Síria e a um novo massacre de jovens numa escola dos Estados Unidos, vale a pena reparar na forma como os católicos de um país se mobilizam contra a instalação de uma “cultura de violência”, como referiu o bispo Broderick Pabillo.
Uma forma de alertar consciências contra outras violências que a Europa está a infligir a muitas pessoas que no continente buscam refúgio, é aquela que propõe a paróquia da Vera-Cruz, em Aveiro: até 4 de Março, dentro da igreja paroquial, os fiéis e muitos visitantes que ali entram serão surpreendidos pelas fotografias de Ricardo Lopes feitas em campos de refugiados.
Grécia: o Purgatório Europeu, pretende mostrar “rostos, a preto e branco, cenas do quotidiano do sofrimento de quem é esquecido”. E os objectivos, como explica o pároco, padre João Alves, são mesmo o de “incomodar quem ali está ou passa, ajudar à relação entre a Eucaristia e a caridade, porque este ano é dedicado à caridade, e percebermos que a paróquia tem uma fraca sensibilidade sócio-caritativa da comunidade celebrante”. Uma reflexão mais para este tempo, como se pode ler nesta notícia.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

“O que Trump está a fazer é iniciar uma campanha terrorista"

No DN de hoje, o meu irmão, Miguel Marujo, entrevista Faranaz Keshavjee, muçulmana e investigadora de estudos islâmicos, que diz: “Estamos todos a sofrer um abanão imenso, porque percebemos que isto está de facto a acontecer e agora é preciso pensar como é que se faz. Eu não posso impor, mas tenho de negociar. Faz-me pensar: porque é que até hoje não se negociou com ninguém. Não negociamos com terroristas, mas está aqui um terrorista. Não vamos negociar com ele?”
Faranaz  Keshavjee afirma ainda – é a frase puxada para título da entrevista – que “O que Trump está a fazer é iniciar uma campanha terrorista”, e acrescenta: “Há uma coisa grave nisto tudo e que me preocupa. Dentro da Europa e dentro da sociedade portuguesa, pessoas com alguma proeminência social, religiosa e política, estão a acompanhar muito bem a ideologia de Donald Trump. Isto é preocupante. Como seres pensantes, temos que observar, pensar, questionar e encontrar soluções. E seguramente este caminho não é o mais certo. A história já nos deu exemplos de coisas dramáticas que aconteceram, de destruição total, de desumanidade profunda e nós não podemos deixar que a história se repita. Mais a mais com o potencial que têm os EUA.”
O texto completo da entrevista pode ser lido aqui. (Foto reproduzida daqui)


Texto anterior no blogue
A Senhora de Maio - Todas as perguntas sobre Fátima - texto de apresentação do livro que hoje é apresentado em Lisboa

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Eleições nos EUA: Muros e pontes

O resultado das eleições nos EUA foi já objecto de um comentário aqui. Na Voz da Verdade, Pedro Vaz Patto volta ao tema, para escrever:

A eleição de Donald Trump surpreendeu o mundo.
Muitos cristãos, católicos e evangélicos, saudaram essa eleição como um mal menor, face à sua adversária, Hillary Clinton, empenhada em alargar ainda mais as possibilidades de recurso ao aborto como direito absoluto, e capaz de limitar a liberdade de consciência e religião em âmbitos “fraturantes” como esse (ficou célebre um seu discurso em que afirmava que os Estados deviam usar meios coercivos para levar as autoridades religiosas a modificar as suas doutrinas tradicionais quanto a essas matérias). Mal menor porque o aborto será, hoje, o mais grave e sistemático atentado à vida e dignidade humanas.
Este raciocínio envolve, porém um grave perigo: centrar unicamente em duas ou três causas (“single issues”) o empenho político dos cristãos, ignorando ou desvalorizando outras causas também importantes, assim descredibilizando esse empenho e justificando acusações de parcialidade e incoerência. 
(texto para continuar a ler aqui)

No artigo, o actual presidente da Comissão Nacional Justiça e Paz (CNJP) recorda uma acção das comissões europeias sobre a questão dos refugiados, tema que voltou a ser objecto de um documento que pode ser lido na página da CNJP, com o título Criando um refúgio seguro para todos: Refugiados e dignidade humana (clicando aqui e procurando o título ao fundo da coluna da direita)

Publicação anterior no blogue
Advento - Precisamos de uma estrela (um poema de José Tolentino Mendonça e uma foto de Rui Aleixo para o I Domingo do Advento)


sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Uma penitência católica pela eleição de Trump

Hoje, no DN, publico um artigo sobre o modo de estar católico em algumas questões políticas, tomando o caso dos EUA:

Deve a Igreja Católica, nomeadamente nos Estados Unidos, penitenciar-se também pela eleição do novo presidente? Há dias, o Papa Francisco gravou uma mensagem aos bispos dos EUA, por ocasião da sua assembleia plenária, dizendo-lhes que o grande desafio do catolicismo "é criar uma cultura do encontro, que encoraje os indivíduos e os grupos a compartilhar a riqueza das suas tradições e experiências, a abater muros e a construir pontes".
A mensagem do Papa sobre o tema tem sido clara em diversas ocasiões. Em Fevereiro, no regresso da viagem ao México, inquirido sobre as intenções de Trump em construir um muro para evitar a entrada de emigrantes, Francisco afirmou mesmo: "Uma pessoa que só pensa em fazer muros, onde quer que seja, e não em fazer pontes, não é cristã. Isto não está no Evangelho."
Apesar dos alertas do Papa, as sondagens pós-eleitorais dizem (segundo o La Croix) que 52% dos católicos votaram Trump (contra 45% que escolheu Hillary). O mesmo aconteceu, em maior escala, se juntarmos todos os grupos cristãos (evangélicos, protestantes, mórmones e outros), entre os quais o candidato republicano foi a escolha maioritária.
(o artigo pode continuar a ser lido aqui)

Publicação anterior no blogue
Fé, justiça e diálogo cultural e religioso, prioridades dos jesuítas para os próximos seis anos - o plano pastoral 2016-2022 dos jesuítas portugueses e um perfil do actual provincial, padre José Frazão Correia


quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Ressurreição e Turquia, Europa e cristianismo, Estados Unidos e Cuba

Crónicas

Na crónica de domingo, no Público, frei Bento Domingues retoma alguns temas da viagem do Papa à Turquia e pergunta Quantos Cristos Ressuscitaram:

À Igreja, os primeiros Padres chamavam-lhe mysterium lunae, o mistério da lua, porquê? Porque dá luz, mas não tem luz própria; é a que lhe vem do sol. E, quando a Igreja olha demasiado para si mesma, aparecem as divisões. Foi o que sucedeu depois do primeiro milénio. Hoje, à mesa, falávamos do momento, de uma terra – não me lembro qual – em que um cardeal foi comunicar a excomunhão do Papa ao Patriarca (ortodoxo). Naquele momento, a Igreja olhou para si mesma; não estava voltada para Cristo. Creio que todos estes problemas que surgem entre nós, entre os cristãos – falo pelo menos da nossa Igreja católica – surgem quando ela olha para si mesma: torna-se auto-referencial.
(texto integral aqui)


No DN de sábado, Anselmo Borges escreve sobre a Herança cristã da Europa:

(...) o filósofo ateu convicto e combatente, Michel Onfray, escreve no seu Tratado de Ateologia: “A carne ocidental é cristã. Incluindo a dos ateus, muçulmanos, deístas e agnósticos educados, criados ou instruídos na zona geográfica e ideológica judeo-cristã.” O filósofo André Comte-Sponville também escreve: “Sou ateu, uma vez que não creio em nenhum deus, mas fiel, porque me reconheço como parte de determinada tradição, de determinada história e dos seus valores judeo-cristãos (ou greco-cristãos), que são os nossos.”
(texto integral aqui)


No CM de sexta-feira, Fernando Calado Rodrigues escreve sobre O Papa, Cuba e os EUA

Quando no mundo se volta a matar e a fazer a guerra em nome de uma distorcida conceção da religião, é de enaltecer o contributo de um líder religioso para promover a reconciliação entre dois povos desavindos há mais de meio século.
(texto integral aqui)