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segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

Seis anos, 26 assassinatos: México, o país mais perigoso para os padres católicos

Texto de Maria Wilton



México: a violência é, hoje, uma marca endémica do país 
(foto Tim Mossholder/Pexels) 

O México “continua a ser o país mais perigoso para exercer o sacerdócio apesar de a sua população ser maioritariamente católica”. O alerta é do padre Omar Sotelo, diretor do Centro Católico Multimedial (CCM), na Cidade do México, capital federal do país. Sotelo lamenta ainda que o tempo da presidência de Enrique Peña Nieto tenha sido, até à data, o mais mortífero para o clero mexicano, já que, nesse período de tempo (2012-2018), morreram até agora 26 padres.
Em entrevista ao jornal mexicano Procesoo padre Sotelo explica: “O aumento no número de assassinatos coincide precisamente com o início da guerra contra o narcotráfico, quecomeçou com Calderón (anterior Presidente) e continuou com Peña Nieto. Esta foi uma guerra para a qual as instituições não estavam preparadas, o que as levou a  serem infiltradas pelo crime organizado.”
Como termo de comparação, no ano de 2017, em toda a América Latina, foram assassinados 14 padres católicos. Destes, metade foram-no no México. O maior problema, segundo Omar Sotelo, é o facto de nenhum dos crimes parecer ter resolução: “Há investigações a decorrer, suspeitos, gente detida que fica livre e dados sem certezas da burocracia judicial.” O padre mexicano denuncia ainda a brutalidade destes crimes dizendo que os sacerdotes são sequestrados,  torturados e só depois mortos.
Dá como exemplo o assassinato do padre José Ascencio Acuña, em setembro de 2014, na comunidade de São Miguel Totolapan. Suspeita-se que tenha sido levado a cabo por membros de crime organizado em conluio com o governo municipal: “Neste caso, havia ordens de detenção contra o deputado do PRI, Saúl Beltran, mas elas não só não foram levadas a cabo como o caso foi praticamente arquivado.”

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

Bispo nos EUA nomeia mulher leiga para liderar paróquia

Texto de Maria Wilton


Eleanor Sauers à porta da igreja de Santo António 
(foto Joe Pisani/Diocese de Bridgeport, via AP, reproduzida daqui)

A paróquia católica de Santo António de Pádua, em Fairfield (estado do Connecticut, EUA) terá oficialmente um novo responsável a partir de janeiro de 2019 – mas a surpresa é que o cargo será preenchido por uma mulher. Eleanor Sauers é leiga, doutorada em teologia e professora de estudos religiosos e será, a partir de agora, será a “coordenadora da vida paroquial”.
Sauers já tinha assumido o cargo, a título provisório, aquando da morte precoce do anterior pároco, em março de 2018. Dois meses após o Sínodo dos Bispos sobre os Jovens, o bispo Frank Caggiano, que chamou para a atenção da importância das mulheres na Igreja (uma ideia que acabou refletida nas conclusões no relatório final da assembleia) considerou que Eleanor seria indicada para o papel. 
Num comunicado, o bispo Caggiano clarificou as razões da sua escolha: “As suas responsabilidades, tal como qualquer padre ou diácono que é administrador, é trabalhar com a paróquia para desenvolver a visão e missão pastoral. (…) A sua educação, formação e experiência tornam-na profissionalmente, academicamente e espiritualmente preparada para este papel.”
No comunicado, Caggiano agradece ainda a dedicação de Eleanor à paróquia e fala da sua esperança de que isto seja um precedente para que outras dioceses adotem este modelo de liderança pastoral. 
Ao site AP News Eleanor afirma que percebe que está a ser vista como alguém que pode exercer influência e espera que as mulheres que se vêm desencorajadas pela natureza patriarcal do catolicismo possam olhar para ela e dar uma nova hipótese à Igreja.

terça-feira, 18 de dezembro de 2018

China acusada de criar campos de concentração para muçulmanos uigures

Texto de Maria Wilton


São cada vez mais as denúncias de que muçulmanos uigures e do Turquestão (China) têm sido perseguidos, detidos e mesmo encaminhados para campos próprios para o efeito. Ainda mais graves são as fortes indicações de que, para além de detidos, os uigures têm sido obrigados a trabalhos forçados, como se estivessem em campos de concentração.
Os Uigures são uma etnia maioritariamente muçulmana com cerca de 11 milhões de pessoas que vivem na região autónoma de Xinjiang (noroeste da China). Consideram-se cultural e etnicamente semelhantes a várias nações da Ásia central e a sua língua é parecida com o turco.
Há muito tempo que a China tenta restringir a prática do islão e manter um punho de ferro sobre Xinjiang. Nas últimas décadas, uma migração em massa dos chineses han (a maioria étnica do país) para esta região tem colocado as vidas e cultura dos uigures sob ameaça. Tensões económicas e étnicas têm crescido entre os uigures e os han, culminando muitas vezes em protestos e ataques violentos de grupos extremistas.
Em resposta aos ataques, o Governo chinês pôs em vigor medidas extremas na comunidade de Xinjiang: maior policiamento, câmaras de vigilância e detenções. A medida mais controversa foi a detenção, por tempo indefinido, de um milhão de uigures em “centros de treino político”: em agosto de 2018, a Comissão dos Direitos Humanos (CDH), das Nações Unidas, disse ter testemunhos credíveis de que a China tinha tornado a região dos uigures em algo que se assemelhava a um campo de internamento gigante.
Nos campos, as pessoas são obrigadas a aprender mandarim, a jurar lealdade ao Presidente Xi Jinping e a renunciar à sua fé. Adicionalmente, cantam hinos que enaltecem o Partido Comunista Chinês, escrevem ensaios de autocrítica e, em casos mais extremos, são torturados. A BBC entrevistou Omir, um dos ex-prisioneiros que conseguiu sair para outros países e contou o tormento que lá sofreu: “Não me deixavam dormir. Penduravam-me durante horas e batiam-me. Tinham muitos instrumentos de tortura que colocavam ao pé de mim, prontos a utilizar. Conseguia ouvir outras pessoas a gritar nas suas celas.” 

terça-feira, 11 de dezembro de 2018

A vida ainda por um fio

Os 70 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos (II)


Texto de Fernando Sousa

Ilustração ao lado: Case Closed (Toda a pessoa acusada de um acto delituoso presume-se inocente até que a sua culpabilidade seja legalmente provada) 
© Gonçalo Pena (para Amnistia Internacional)

A vida é ainda um dos direitos individuais mais ameaçados no mundo. Apesar dos muitos textos internacionais que dispõem sobre a sua inviolabilidade, como a Declaração Universal dos Direitos Humanos (artigo 3º), o Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos (artigo 6º) ou mesmo a Carta Africana dos Direitos Humanos e dos Povos (artigo 4º), a Convenção para a Proteção dos Direitos do Homem e das Liberdades Fundamentais Relativa à Abolição da Pena de Morte ou os apelos para a sua abolição por parte das Nações Unidas ou da World Coalition Against the Death Penalty, associação de organizações abolicionistas de que a Amnistia Internacional (AI) faz parte, ela continua demasiado frequente. Muito se andou, mas os estados continuam a matar. 
De acordo com o último relatório global da AI, em 2017 ocorreram pelo menos 993 execuções em 23 países. O número marca um decréscimo de quatro por cento em relação a 2016 (quando foram executadas 1023 pessoas) e de 39 por cento comparado com 2015 (com 1634 pessoas mortas, o pior ano desde 1989). 
O ano em análise assinalou também menos sentenças capitais: 2591, em 53 países, uma descida muito significativa em relação ao período anterior, com 3117 condenações. 
Infelizmente, porém, estes números são provisórios: à semelhança dos anos anteriores continuam desconhecidas as execuções e as novas sentenças condenatórias na China. O país não publica quaisquer estatísticas sobre a pena capital. A AI calcula-as em milhares.  

sábado, 8 de dezembro de 2018

Matança

Texto de Leonor Xavier


O rio Amazonas nos arredores de Manaus: um infinito de medida na surpresa, 
nos acontecimentos, nas emoções” (foto © António Marujo)

Menos de um ano antes do Sínodo Pan-Amazónico se realizar e a poucas semanas da tomada de posse de Jair Bolsonaro como Presidente do Brasil, a estratégia política do Governo brasileiro para a Amazónia é preocupante. Pareceu-me útil retomar o tema, relendo o artigo de opinião que há um ano escrevi para o Jornal Público.  

O Brasil é infinito de medida na surpresa, nos acontecimentos, nas emoções. E já que o tema corrupção pouco abala a opinião pública, retomo a saga da Floresta Amazónica e da governação de Michel Temer, mais ainda agora contestada pela recente decisão de abrir à exploração de mineradoras multinacionais uma área de cerca de 50 mil km2, onde existem reservas indígenas e ambientais, onde há ouro, cobre, manganês, ferro. 
Neste Brasil sempre inesperado e pasmoso, até hoje se revelam comunidades indígenas nunca vistas. Ainda se confrontam flechas e armas, a divisão entre vida e morte passa por um vírus de gripe, um produto tóxico, alguma substância que por má fé possa contagiar territórios onde não há defesa nem imunidade. Na demarcação das reservas indígenas, a guerra química é real, a violência é extrema. Há o conflito entre índios e garimpeiros, comprados como escravos, a trabalhar por valor de nada. Há o confronto entre as populações e os agentes ambientais, entre madeireiros, fornecedores do garimpo, fazendeiros, poderes locais. Há a disputa entre empresas, interesses e negócios políticos e privados. Háos lobbies para monopólios de mineração. Estes acontecimentos são notícia nacional quase diária, logo divulgada. A Floresta Amazónica é uma grande causa para o povo brasileiro. 
Logo que publicado o decreto do presidente Temer, as instâncias do poder em Brasília contestaram-no. A política de abertura à mineração foi interpretada por muitos analistas como uma medida contra a crise económica que tem fraturado o país. Para outros, ao invés, uma estratégia de abertura com controlo federal seria melhor do que a atual situação em que três mil garimpeiros depredam ilegalmente a natureza. Houve reações da União Europeia, dos bispos, dos ambientalistas, dos ativistas políticos, dos mais variados setores da sociedade brasileira. Na justiça federal, foi alegada desobediência à Constituição, e foram proibidas outras possíveis decisões do presidente sobre mineração. Pela Igreja Católica, bispos de nove países amazónicos declararam o decreto como antidemocrático, considerando-o uma ameaça política para o Brasil. No Congresso, deputados ambientalistas, defenderam um projeto de lei para anular tais decisões. O Ministério Público do Amapá empreendeu uma ação civil pública e declarou a extinção daquela área de Reserva como ameaça à biodiversidade e ao ambiente, como atentado contra a vida, pronto a destruir as populações e as comunidades indígenas. E na abertura do Rock in Rio, a oposição ao decreto foi proclamada pela modelo Gisele Bundchen, ativista ambiental, com convicção, firmeza e comoção.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

Motins, greves e as preocupações dos capelães de prisões em Portugal

Texto de Maria Wilton






Número total de reclusos em Portugal:
 a descer desde 2013, depois de ter atingido o máximo em 1998 
(clicar sobre a imagem para ampliar) 

“Todos os mundos fechados são mundos onde a tensão habita. Cada recluso é um indivíduo com a sua história pessoal. Foi privado da liberdade porque socialmente prejudicou o próximo e o cumprimento da pena tem que ser esse. Mas podemos perguntar se o sistema de justiça que temos se preocupa com a sua reabilitação e reinserção.”
O comentário ao RELIGIONLINE é do padre João Nogueira, 55 anos, capelão do Estabelecimento Prisional de Lisboa (EPL), a propósito dos incidentes dos últimos dias, em quatro prisões portuguesas: “Essa discussão tem de ser feita em paz na sociedade, e não apenas a propósito de um motim. É uma questão de maturidade democrática.”
Na passada terça-feira, 4 de dezembro, vários detidos do EPL iniciaram um protesto depois de ter sido anunciado que não iria haver visitas no dia seguinte, quarta-feira, por estar marcado um plenário de guardas, convocado pelo Sindicato Nacional do Corpo da Guarda Prisional. Ao Observador, Celso Manata, diretor-geral dos Serviços Prisionais admitiu que os reclusos só descobriram naquele dia que haveria greve dos guardas. A notícia acabaria por levar 170 reclusos da Ala B do EPL a amotinarem-se, reagindo com gritos e queimando colchões e papéis.
Também em declarações ao Observador, o presidente do sindicato, Jorge Alves, afirmou que a “ala B tem estado ultimamente em alvoroço” e referiu que a situação é imagem da falta de recursos nas cadeias, tanto para os guardas prisionais, como para os reclusos. 
“O homem, sendo privado de liberdade, já não está confortável na sua vida e história. Depois, privado de coisas básicas, facilmente a bolha rebenta”, acrescenta o capelão do estabelecimento. “Um recluso não sendo, não tendo e não habitando o seu espaço interior, sente a carência. E depois, muitas vezes, há carências efectivas que o sistema não dá, desde coisas básicas, como papel higiénico, champô, lâmina de barbear... aquilo que normalmente temos em casa para gerir o quotidiano.”
As carências no EPL são conhecidas. O relatório do Comité Europeu para a Prevenção da Tortura e das Penas ou Tratamentos Desumanos ou Degradantes, publicado a 27 de fevereiro deste ano, depois de uma visita a vários estabelecimentos prisionais portugueses, verificou que o EPL, com capacidade para 886 pessoas, albergava 1253 homens. O relatório dava ainda conta de que “os reclusos vivem em condições desumanas”, em celas frias, húmidas e escuras e que havia ratos a sair “pelas instalações sanitárias localizadas no piso térreo da prisão.” Adicionalmente, há cerca de um mês que os bares da prisão estão fechados devido à greve.
O padre João Nogueira comenta ainda que os reclusos não devem ser ilhas e que, se assim se tornaram, homens e mulheres devem ser desafiados a fazer pontes, a unir as margens de quem é livre e de quem é recluso: “Para quem passa de diante do EPL, é muito fácil pensar que, se os reclusos estão ali, é porque alguma coisa fizeram – e o pensamento solidário acaba ali. A solução é cada cidadão assumir a sua cidadania. Esse é que é o grande desafio de um pensamento social.”

terça-feira, 4 de dezembro de 2018

Dia das Pessoas com Deficiência: A Igreja e o país ainda precisam de ser mais inclusivos

Texto de Maria Wilton



Desejamos ser uma Igreja de todos e com todos, que acolha a todos como irmãos, 
que derrube barreiras físicas e psíquicas diz o Serviço católico a Pessoas com Deficiência
(foto Josh Appel)

O Serviço Pastoral a Pessoas com Deficiência (SPPD), da Igreja Católica, divulgou uma mensagem na qual diz que esta deve ser “uma Igreja mais inclusiva”. A propósito do Dia Internacional das Pessoas com Deficiência, assinalado esta segunda-feira, 3 de dezembro, acrescenta o texto: “Desejamos ser uma Igreja de todos e com todos. Uma Igreja que acolha a todos como irmãos, cada vez mais inclusiva, que derrube barreiras físicas e psíquicas, que esteja atenta para ouvir cada um na sua singularidade.
Desejamos ser uma Igreja que permaneça companheira, pela vida fora, no calor da amizade e do abraço inclusivo.”
Como exemplo concreto, o SPPD diz que se deve “continuar a aprender Língua Gestual Portuguesa”. E refere dificuldades: “Temos boa vontade, mas ainda temos receios”, por vezes “quer-se apertar a mão e falta o jeito” e os reponsáveis da  Igreja ainda falam “de forma complexa”. 
Nessa missão de tornar a Igreja mais inclusiva, o Serviço Pastoral dirige-se às pessoas com deficiência, acrescentando: “Precisamos da vossa experiência de vida e conhecimento, da vossa persistência e resiliência, da vossa sabedoria de fazer acontecer o impossível, como possível.” E sublinha ainda que já há experiências positivas de acolhimento e inclusão “na catequese e em movimentos”, em instituições e em famílias “que, mesmo com limitações acentuadas, têm gosto por viver e nos agarram e levam pela mão”.
Este dia internacional foi proposto pelas Nações Unidas desde 1992 e tem o objetivo de apelar a uma maior sensibilidade para as questões da deficiência, promovendo a defesa da dignidade, dos direitos e do bem estar das pessoas. Este ano, o tema escolhido foi Capacitar pessoas com deficiência e assegurar a inclusão e igualdade. 
Em Portugal, não há estatísticas oficiais. A nota do SPPD fala em um sexto da população, mas a TSF dizia que se estima que a percentagem de população com algum tempo de deficiência pode chegar a 10 por cento, mas que há ainda limitações básicas que impedem a igualdade de oportunidades.

sábado, 1 de dezembro de 2018

Jornadas Mundiais da Juventude com o Papa serão em Portugal em 2022

 Texto de António Marujo



Jovens católicos portugueses nas JMJ de Cracóvia em 2016; desta vez, serão eles a acolher 
a juventude de todo o mundo que virá a Lisboa em 2022 (foto reproduzida daqui)

As Jornadas Mundiais da Juventude (JMJ) de 2022, presididas pelo Papa, serão em Portugal e a região de Lisboa acolherá os actos principais – nomeadamente o fim-de-semana de celebração, que habitualmente conta com a participação de cerca de um milhão de jovens de todo o mundo. O anúncio oficial será feito no Panamá, nas próximas JMJ, que decorrem entre 23 e 27 de Janeiro, e nas quais o patriarca de Lisboa (entre vários bispos portugueses) estará presente para receber o testemunho do Papa e do bispo do Panamá. A informação foi confirmada pelo RELIGIONLINE e pela SIC junto de várias fontes eclesiásticas. 
Nessa ocasião, o patriarca de Lisboa, acompanhado de uma delegação de jovens portugueses e de Lisboa, receberá a cruz das jornadas – o mais importante símbolo das JMJ, que os jovens do país de acolhimento transportarão e que servirá de centro para diferentes iniciativas, ao longo do tempo de preparação.
O próprio Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, prevê estar no Panamá também para as JMJ de Janeiro, “na esperança” de que o Papa Francisco anuncie que as jornadas seguintes sejam em PortugalMas uma tal decisão é tomada com muita antecedência e, neste caso, ela está já assumida há meses, mesmo que, como acontece com as visitas do Papa, ela só seja confirmada com o anúncio oficial – o que acontecerá no final da missa com os jovens, a 27 de Janeiro. 
O patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, oficializou o pedido no final de 2017, mas desde 2012 que em várias reuniões do Conselho Pontifício para os Leigos (CPL), do Vaticano, a hipótese de Portugal tem estado a ser pensada. Muitas pessoas sabem já da decisão, até pela enorme operação logística que ela envolve, mas a primeira informação por sair pelo Presidente da República que, já em relação à vinda do Papa em 2017, foi o primeiro a dar indicações de que a vinda de Francisco a Fátima estaria praticamente confirmada.  
A história, no entanto, começou muito antes: em 2009, a Conferência Episcopal Portuguesa propôs ao CPL, que, em 2017, as JMJ fossem realizadas em Fátima, por ocasião do centenário. Mas, nessa altura, já se aventava a possibilidade de o Papa estar no santuário português para os 100 anos de Fátima e não fazia sentido que viesse ao mesmo lugar com um intervalo de dois ou três meses (as JMJ decorrem, normalmente, no Verão). Além disso, Madrid acolheu as JMJ de 2011. 
Uma jornada em Lisboa seis anos depois seria demasiado próxima: a regra não escrita é que o acontecimento decorra uma vez na Europa e, dois ou três anos depois (o intervalo normal com que se realiza) em outro continente – até agora, nas Américas e na Ásia. Fátima também não teria as condições logísticas que a região de Lisboa garante – embora, num caso como este, a operação exija a mobilização de todas as dioceses do país. 

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

O riso do Papa quando Wenzel brincou com a farda do guarda suíço

Texto de Maria Wilton



Começou por brincar com a farda do guarda suíço que se encontrava perto do Papa. Depois, rodeou Francisco, que procurou brincar com ele. Sempre esquivo, e perante a sua dificuldade em colaborar com os seguranças, a mãe da criança dirigiu-se ao Papa, explicando que o seu filho, Wenzel Eluneyé autista e mudo, como que em jeito de desculpa pelo seu comportamento. 
Foi na audiência geral do Papa desta quarta-feira, 28, quando a criança saiu de junto da mãe e subiu os degraus do auditório Paulo VI, provocando pequenos constrangimentos, primeiro, gargalhadas e aplausos, depois. Wenzel é argentino, o que levou o Papa a dizer, para o seu secretário: “É argentino, é indisciplinado.”
Perante o sucedido, Francisco disse à mãe que deixasse o filho estar por ali a brincar, aproveitando para transformar o sucedido numa lição: “Este menino não fala, é mudo. Mas sabe  expressar-se e, mais do que isso, é livre. Indisciplinadamente livre”, provocando novos risos na plateia. E recordando, a propósito, que Jesus afirmava que “devemos ser livres como as crianças”. 
Esta não é a primeira vez que o Papa argentino tem visitas inesperadas de crianças, a interrompê-lo nos seus discursos ou homilias. Em 2013, um colombiano de seis anos chamou a atenção durante uma vigília, sentando-se no lugar de Francisco e chegando mesmo a abraçá-lo:



Falta informação sobre a deficiência

Alice Caldeira Cabral, responsável do Movimento Fé e Luz, que trabalha com crianças, jovens e adultos com deficiência, foi, ela própria, mãe de um rapaz que morreu há dez anos, e que tinha “uma deficiência profunda, apesar de na altura não se falar de autismo – o diagnóstico era só epilepsia”.
Depois de ter visto as imagens, Alice Cabral diz que é urgente levar em conta as palavras do Papa. E louva a sua reação espontânea de alegria perante a situação – algo que, diz, continua a ser muito pouco comum na sociedade portuguesa e também no interior da Igreja.
“O meu filho também tinha uma liberdade muito indisciplinada. Era exatamente isso que acontecia e a aflição da mãe é algo que conheço bem. Os nossos filhos não são disciplináveis. E, de facto, uma das coisas mais pesadas para nós é o olhar de comiseração ou de crítica daqueles que não entendem a diferença.”
Alice Cabral destaca que, em Portugal, é “impressionante” que não haja estudos que relacionem a teologia e a experiência cristã com a deficiência. O Serviço Pastoral para Pessoas com Deficiência, que também integra, participa em alguns iniciativas internacionais mas não consegue criar grande interesse das comunidades cristãs pela questão. “Não tenho dúvidas de que o Papa está muito bem informado acerca das questões da deficiência e de como as acolher socialmente. Porque, se não houver informação, é muito difícil que os olhares mudem.”

terça-feira, 27 de novembro de 2018

Uma cimeira “sem precedentes” para uma resposta “firme e universal”

Texto de António Marujo


Picasso, Guernica (pormenor)

O Papa Francisco nomeou, no final da última semana, os membros da comissão responsável por organizar a cimeira inédita de presidentes de conferências episcopais de todo o mundo, para discutir o tema dos abusos sexuais na Igreja Católica. A iniciativa decorre entre 21 e 24 de Fevereiro, em Roma e o seu carácter “sem precedentes” traduz o facto de o tema ser considerado uma “prioridade” do Papa, tendo em conta também o “impacto devastador” nas vítimas, como disse o porta-voz do Vaticano, Greg Burke. 
A comissão nomeada pelo Papa inclui os cardeais Blase J. Cupich, de Chicago (EUA) e Oswald Gracias, de Bombaim (Índia); Charles Scicluna, arcebispo de Malta e secretário-adjunto da Congregação para a Doutrina da Fé; Hans Zollner, padre jesuíta e presidente do Centro para a Proteção de Menores da Universidade Pontifícia Gregoriana. A preparação envolverá também, de acordo com o responsável já citado, Gabriella Gambino e  Linda Ghisoni, do dicastério do Vaticano para os Leigos, Família e Vida, os membros da Comissão Pontifícia para a Protecção dos Menores (CPPM) e “algumas vítimas de abusos”.
A constituição da comissão demonstra claramente o empenho do Papa em erradicar este problema, tanto quanto possível, da vida da Igreja. Cupich e Gracias são, entre os cardeais, dois dos que estão do lado do Papa neste assunto. Scicluna e Zoller são dois dos mais activos na hora de investigar o que se passa, propor soluções e escutar vítimas. Scicluna, recorde-se, foi um dos dois responsáveis por preparar ao Papa o devastador relatório sobre a situação vivida no Chile, que conduziu à cimeira dos bispos com o Papa, ao pedido de demissão dos bispos em bloco e à efectivação desse pedido já por parte de vários bispos. 
Numa entrevista à revista America, dos jesuítas dos EUA, o arcebispo Scicluna, que foi nomeado também há poucos dias secretário-adjunto da Congregação para a Doutrina da Fé, dizia que o Papa convocou a cimeira porque entende que o problema “tem de ser prioridade nas pautas da Igreja”. E porque se trata de “uma questão global: não é uma questão de critérios geográficos ou culturais, mas um problema global que a Igreja deve abordar em união, respeitando as diferentes culturas, mas com uma solução definitiva em conjunto, com pessoas em sintonia”.
O encontro marcará “o início de uma nova abordagem” que deverá abranger toda a Igreja, “mas também terá um contexto local muito importante, porque a protecção não é distante, não pode ser algo abstracto, tem que ser vivida em cada paróquia, em cada escola, em cada diocese”. E entre os objectivos do encontro estão seguramente os de fazer com que os bispos percebam e discutam juntos o fenómeno “criminoso” dos abusos como sintoma muito grave de algo mais profundo, que é uma crise no modo de abordar o ministério”, que tem sido designada por “clericalismo” ou “perversão do ministério”. 
Na entrevista (da qual pode ser lido aqui um resumo alargadoem português do Brasil), Charles Scicluna acrescenta que, tal como o Papa tem reafirmado, “a questão não diz respeito apenas aos casos trágicos individuais de má conduta e o impacto do crime nos mais vulneráveis, as crianças, mas também ao modo como se administra a questão quando somos confrontados, ou seja, como tratamos os criminosos, as vítimas, a comunidade”. 

sexta-feira, 23 de novembro de 2018

Tomáš Halík: “Deus gosta de quem luta com ele”

Entrevista de António Marujo
Imagem de Maria Wilton

“Deus não é um problema, é um mistério. E a fé é a coragem de entrar na nuvem do mistério”, diz o teólogo checo Tomáš Halík, que esta semana esteve em Lisboa, a propósito da edição do seu último livro, Diante de Ti os Meus Caminhos (ed. Paulinas). Obra que cruza as memórias e a reflexão teológica e antropológica a que o autor já habituou os seus leitores, Halik percorre, nela, os anos da aproximação à fé cristã durante a sua juventude, a opção pelo catolicismo e pela missão de presbítero, a clandestinidade e as proibições e controlos a que foi sujeito, a morte do colega Jan Palach, a democratização da então Checoslováquia ou a amizade com o primeiro Presidente eleito, Vaclav Havel. 
A partir do seu trabalho com jovens estudantes, Halik traça, também, as suas reflexões sobre o papel do cristianismo na contemporaneidade. “Não acredito numa Igreja sem feridas”, diz, para manifestar a sua extrema preocupação com o fenómeno dos populismos contemporâneos: “Comunismo e populismo não se podem comparar. No comunismo, precisamos de coragem. Agora, precisamos de sabedoria.”
Ao longo da entrevista, Tomáš Halík pára por vezes durante largos segundos para pensar na resposta. Noutras, volta atrás, porque a ideia não estava a sair como pretendia. “Escrevo os meus livros para pessoas com mentes e corações abertos”, dirá, a terminar. 


P. – Nos seus livros, cita várias vezes Nietzsche e, sobretudo, o seu “Assim Falava Zaratustra”. Neste último, escreve mesmo que começou a ler Nietzsche e volta a ele sempre, em diferentes momentos da sua vida. 


Há várias similitudes entre Nietzsche e Søren Kierkegaard, que foi um grande cristão, não conformista. Também há semelhanças com Pascal. Todos eles lutam contra um cristianismo superficial e de massa. Nietzsche criticava Jesus mas há também alguns capítulos no seu Anti-Cristo, que é como uma canção de amor e admiração por Jesus. Penso que os críticos perspicazes são sempre bons parceiros para pensar, provocadores do pensamento. 

– Termina este novo livro escrevendo: “Acredito que o NADA, ao qual nos dirigimos na morte, é apenas outro nome maravilhoso de Deus.” Isto é uma profissão de fé cristã ou uma declaração ateia?
– É uma citação do grande místico Mestre Eckart: “Deus não é nada das coisas deste mundo.” É uma purificação da idolatria presente em alguns dos nossos conceitos de Deus. Alguns retratos de Deus são humanos e não podemos viver sem eles. Mas, se esquecermos a diferença entre o símbolo e o que ele simboliza, isso é idolatria, fundamentalismo. Mestre Eckart está a dizer: Deus não é nada assim. 


Deus não é um problema, é um mistério. E a fé é a coragem de entrar na nuvem do mistério, para viver este mistério, este paradoxo da vida sem medo e com confiança. 

– Esse mistério de que fala tem algo a ver com o “horizonte absoluto” de que falava o Presidente Havel?
– Essa expressão de Havel é inspirada em Martin Heidegger e no existencialismo. Sim, há alguma similitude. Penso que é algo muito típico da espiritualidade checa: [muitos checos] não são ateus, são muito sensíveis aos valores espirituais, mas não são capazes de falar de Deus em termos tradicionais. 

terça-feira, 20 de novembro de 2018

Tomáš Halík em Portugal: “O populismo é uma das grandes doenças da nossa vida”

Texto de António Marujo


Tomáš Halík está em Lisboa para apresentar o seu novo livro: “Escrevo sobre mim, 
mas também sobre meio século da história deste país no coração da Europa e, nomeadamente, da história da Igreja checa, repleta de graves provações.” (foto © Maria Wilton)

“Uma das grandes doenças e feridas da nossa vida é o populismo, o racismo e a xenofobia, o medo e o desespero... Este é o novo populismo, que é tão forte no nosso mundo”, diz o padre e teólogo Tomáš Halík, que está em Portugal até quinta-feira, dia 22, para quatro intervenções públicas – a mais importante das quais exactamente sobre o papel da “razão, esperança e fé numa era de populismo”, a propósito da publicação do seu novo livro Diante de Ti os Meus Caminhos (ed. Paulinas). 
Em entrevista ao RELIGIONLINE, o autor de Paciência Com Deus acrescenta: “[O populismo] é uma doença e devemos – não apenas a Igreja, mas também os bons média, as universidades... – ser um hospital para curar essas feridas e actuar também como prevenção, para preparar as pessoas, para confrontar notícias falsas e todas essas coisas, no nosso mundo.”
O novo livro – que sucede aos títulos Paciência Com DeusA Noite do ConfessorO Meu Deus é um Deus FeridoQuero que Tu Sejas! e ainda a O Abandono de Deus, escrito com Anseln Grün, todos na Paulinas Editora – faz um percurso por memórias biográficas, a par com um conjunto de reflexões sobre o sentido da vida, a fé, a política, a Igreja, a clandestinidade e a liberdade. Num tom que, por vezes, se aproxima do registo das Confissões, de Santo Agostinho, Halík explica: “Escrevo sobre mim, mas também sobre meio século da história deste país no coração da Europa e, nomeadamente, da história da Igreja checa, repleta de graves provações.”
Tomáš Halík tem dedicado boa parte da sua obra à reflexão sobre a crença e a descrença. Em Paciência Com Deus, o livro que o tornou conhecido em Portugal, ele começa por dizer que muitas vezes concorda com os ateus, mesmo em quase tudo. 

terça-feira, 13 de novembro de 2018

3 Milhões de Nós: outra linguagem, outra criatividade, para chegar a mais pessoas

Texto de Maria Wilton


Ricardo Araújo Pereira: 
Todos estão “à procura: não acredito em Cristo, mas acredito nos cristãos
(foto reproduzida daqui)

O encontro 3 Milhões de Nós pretendeu renovar a linguagem para aproximar a mensagem cristã dos jovens

“Eu fiz a escola primária num colégio de freiras vicentinas, depois estudei num colégio de padres franciscanos; depois, então, estudei num colégio de padres jesuítas e, no fim, Universidade Católica. Muitas vezes as pessoas perguntam-me se é por isso que eu sou ateu. E não é: eu sou ateu apesar disso.”
Foi assim que, entre muitas gargalhadas, o humorista Ricardo Araújo Pereira começou a sua intervenção no encontro 3 Milhões de Nós, que encheu a Aula Magna, em Lisboa. Sábado passado, 10 de Novembro, cerca de 1700 pessoas – jovens, na maior parte – ouviram um conjunto de convidados a falar sobre temas como a espiritualidade, o mundo do trabalho ou a família. O título da iniciativa remete para o facto de, em Portugal, haver cerca de três milhões de pessoas com menos de 25 anos, que o encontro pretendia atingir, com criatividade e novas linguagens, como diria a irmã Núria Frau, responsável da iniciativa. 
O humorista falou sobre viver a espiritualidade sem fé, partindo da sua experiência de, não sendo crente, ter frequentado escolas católicas. Destacou o impacto que para ele teve o “padre Joaquim”, um professor de Português do colégio dos padres franciscanos. Recentemente falecido, a sua recordação emocionou o fundador dos Gato Fedorento. Ricardo Araújo Pereira acrescentou que, enquanto ateu, está sempre a pensar no fim da vida e na sua finalidade ou propósito. Mas que, apesar disso, se considerava semelhante a quem tem fé: todos estão “à procura: não acredito em Cristo, mas acredito nos cristãos”. 




Um painel com frases escritas pelos participantes, 
no qual a frase de Ricardo Araújo Pereira foi reproduzida
(foto © Maria Wilton)

Acerca da experiência de ter fé falou também Zohora Pirbhai, da Comunidade Ismaili de Lisboa, um dos grupos muçulmanos mais importantes. A oradora pretendia dar outra perspetiva acerca do Islão. Assumindo-se como feminista e islâmica, salientou que, no seu modo de entender o seu islão, os dois conceitos não se excluem mutuamente.

Portugal “resiste à crise de fé”

Da experiência cristã falou o padre jesuíta Pedro Rocha Mendes, para quem os jovens continuam a tentar preencher a vida com algo mais: “O mundo em que vivemos”, virtual, descartável e instantâneo, como caracterizou, “está voltado para a satisfação imediata, mas todos nos apercebemos que a satisfação não gera felicidade, mas sim, mais insatisfação.” 

domingo, 11 de novembro de 2018

Fórum pela Paz celebra os cem anos do Armistício

Texto de Eduardo Jorge Madureira

O Armistício declarando o fim da I Guerra Mundial que, desde 1914, opunha tropas alemãs e aliadas, foi assinado fez cem anos neste domingo, 11 de Novembro. As celebrações oficiais da efeméride, que têm decorrido em França, onde se encontram dezenas de chefes de Estado e de governo, têm sido acompanhadas por múltiplas outras evocações de um conflito de uma violência e uma crueldade até então nunca vistas. Como é habitual nos aniversários de acontecimentos relevantes, têm abundado os colóquios, os seminários, as exposições, as edições de livros e de números especiais de revistas e de jornais.
A revisitação de um período negro do século XX não tem provocado polémicas excessivas. Mas elas não têm faltado. Uma diz respeito ao lugar a conceder, por estes dias, à memória do marechal Philippe Pétain, o Dr. Jekyll que se transformou em Mr. Hyde, para usar a imagem que o historiador Serge Klarsfeld traçou no diário francês Le Monde (8 de Novembro). Tendo sido um dos chefes militares que conduziram o exército francês à vitória em 1918, Pétain seria, poucas décadas depois, o rosto do colaboracionismo com o ocupante nazi da França na II Guerra Mundial. “A nossa memória colectiva assume o veredicto de 1945”, sintetizou, no mesmo jornal, Laurent Joly, também historiador.
O “consenso negativo” em relação ao marechal ocorre numa ocasião em que os jornais têm dado conta de um acréscimo de violência contra os judeus em França, tendo o número de acções antissemitas em França subido quase 70 por cento nos primeiros nove meses deste ano. A denúncia foi feita pelo primeiro-ministro Edouard Philippe, num texto de homenagem às vítimas da “Noite de Cristal”, os judeus que, a 9 de novembro de 1938, na Alemanha, viram as suas sinagogas, lojas e casas destruídas por uma onda de violência nazi.

“É melhor festejar a concórdia do que a vitória”

Não é, pois, por acaso que algumas vozes – como a do director do Libération, Laurent Joffrin – têm pedido que este dia 11 de Novembro de 2018 celebre a paz e a concórdia entre os povos da Europa – que, feito inédito, duram desde há mais de 70 anos – em vez de homenagear a vitória dos aliados. No editorial “1918, Uma paz com memória curta”, Laurent Joffrin escreve que foi o nacionalismo das nações europeias, que hoje há quem pretenda restaurar, o causador da morte de 18 milhões de seres humanos; e que foram os valores viris, cuja ausência hoje se deplora, que conduziram a uma brutalidade inédita, com a utilização de canhões de enorme calibre e de metralhadoras, de gás de combate, com a destruição de incontáveis edifícios civis, e a um genocídio contra os arménios, promovido por jovens turcos.

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Sete mil pessoas, 2800 km, dois meses, 600 horas a pé para fugir à pobreza e à violência

Texto de Maria Wilton


O percurso feito até agora pela caravana de migrantes hondurenhos. 
A cidade de McAllen, no Texas, é o destino fronteiriço, daqui a cerca de um mês. 

Eram aproximadamente umas sete mil pessoas, no início. Partiram, a 12 de outubro, de San Pedro Sula, a segunda maior cidade das Honduras, conhecida como a “Faixa de Gaza hondurenha”, por ser um centro de tráfico de droga e disputas entre gangues. Chegou a ser considerada a cidade mais violenta do mundo por causa da alta taxa de homicídios, mas atualmente está em 26º lugar na lista do Business Insider: em 2017, com uma população de 765.864 habitantes, ocorreram 392 homicídios. 
Esta não é a primeira caravana de migrantes que, da América Central, procura  chegar aos Estados Unidos, mas é a mais falada nos média. Demorará perto de dois meses ou quase 600 horas a pé. A maioria viaja a pé, mas muitos conseguem boleias em partes do percurso. Em várias reportagens divulgadas desde que a marcha se iniciou nas Honduras, a maioria dos migrantes diz querer escapar à pobreza e à violência. Há famílias a viajar com os filhos pequenos, na esperança de arranjar emprego e educação para os mais novos. Outros saíram, dizem, por se sentirem ameaçados diretamente por gangues. Esta é mesmo, segundo o Washington Post, a maior caravana de migrantes já registada:



As marchas em caravanas tornaram-se um modo mais económico para os migrantes passarem o México em segurança, uma vez que não têm de pagar a contrabandistas. Domingo passado, ao passar Tierra Blanca,  no estado de Veracruz, no México, muitos dos marchantes hesitaram ao chegar à auto-estrada principal, que passa numa zona com atividades criminosas organizadas e frequentes. 

quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Um brinde à liberdade: Asia Bibi absolvida ao fim de nove anos de cativeiro

 Texto de António Marujo



Uma das filhas de Asia, numa das ocasiões em que foi recebida pelo Papa Francisco 
(foto Ajuda à Igreja que Sofre)

Por causa de um copo de água, Asia Bibi foi condenada à morte no Paquistão. Por causa de Asia, uma jornalista francesa foi semanalmente à prisão ouvir a sua história. Há sete anos, assim começava um texto com uma entrevista a Anne-Isabel Tollet, a jornalista da France 24 que se interessou pelo caso de Asia e tentou alertar o mundo para ele. 
Demorou mais sete anos, com muita gente a lutar e a falar do caso - incluindo o Papa Francisco, que recebeu o marido e os filhos. Emblema de tantas pessoas – católicas, protestantes e ortodoxas, muçulmanas, e judias, budistas e hindus ou de muitos outros credos – que, em todo o mundo, são perseguidas por causa da fé que têm, Asia Bibi foi ontem, finalmente, absolvida pelo Supremo Tribunal do Paquistão do crime de que tinha sido acusada. A notícia levou o seu marido e filhos, como relata a Ajuda à Igreja que Sofre, a manifestar o seu contentamento. E o advogado de Asia, o muçulmano Saiful Malook, acrescentou que esta é uma grande notícia para o Paquistão e para o resto do mundo.
Pode dizer-se que, num tempo em que crescem por todo o mundo as ameaças à liberdade, esta é, porventura, a melhor notícia do dia. Ainda mais pelo carácter absolutamente arbitrário e absurdo da acusação contra Asia. 
Como dizia Anne-Isabel Tollet na entrevista citada, este caso traduz também a responsabilidade do Ocidente, que não acaba nas guerras do Afeganistão e do Iraque. E que uma lei como a que proíbe a burqa, em França, ou o aumento da islamofobia e do antisemitismo, ou a recusa do acolhimento a refugiados na Europa, pode ser causa de aumento do ódio contra os cristãos nos países de maioria muçulmana.
Asia Bibi foi presa, em 2009, por ter retirado um copo de água de um poço, enquanto trabalhava no campo. Acusada por mulheres muçulmanas de conspurcar a água que lhes pertencia, reagiu, defendendo-se, e à sua fé cristã. O facto valeu-lhe a acusação de blasfémia e a pena de morte. Durante estes anos, não podia ver ninguém, à excepção do marido (que viveu escondido, tal como os filhos do casal) e do advogado.
Correspondente da France 24 em Islamabad durante três anos, Anne-Isabel Tollet recolheu o depoimento de Asia Bibi, durante dois meses. O livro foi publicado em Portugal com o título Blasfémia (ed. Alêtheia).