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quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

Está a ser notícia

GULAG – Assim classifica um comentário no The New York Times a situação dos muçulmanos na China, especialmente da minoria Uigur, com a campanha de prisões de “reeducação” que tem vindo a ser levada a cabo pelas autoridades do país.

BELÉM – A Autoridade Palestiniana foi o primeiro contribuinte para o projeto de restauração da Basílica da Natividadeem Belém, na Cisjordânia. Um gesto simbólico mas também interessado no potencial turístico do edifício, na leitura feita por Le Monde.

MONJAS – Um trabalho da Associated Press vem dar âmbito mais largo às denúncias de abusos sexuais de membros do clero católico sobre freiras e monjas, em dioceses da Índia.

ORTODOXOS – O processo de ‘autocefalia’ da igreja ortodoxa da Ucrânia foi considerada “ilegítima” e “nula” pelo patriarca Cirilo, de Moscovo, numa carta dura que dirigiu ao patriarca ecuménico Bartolomeu, de Constantinopla, que apoia o processo.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

Papa fala de unidade ao patriarca ortodoxo, num momento de relações cortadas entre ortodoxos de Moscovo e Constantinopla

Texto de António Marujo


O patriarca ortodoxo Bartolomeu na Amazónia, em 2006, 

O Papa Francisco escreveu ao patriarca Bartolomeu, da Igreja Ortodoxa, manifestando a ideia de que a “caminhada conjunta dos últimos cinquenta anos “ permite já “experimentar estar em comunhão, embora esta ainda não seja plena e completa”. Esse trabalho “rumo à comunhão plena deve continuar”, acrescenta o Papa, para que os cristãos possam responder às necessidades de “tantos homens e mulheres do nosso tempo, sobretudo os que sofrem de pobreza, fome, doença e guerra”.
A carta seguiu para o Fanar, a residência do primaz ortodoxo, na passada sexta-feira, 30 de Novembro, dia da festividade de Santo André, que é o patrono da Constantinopla cristã. Francisco e Bartolomeu já se encontraram várias vezes, tal como os seus antecessores, desde 1964, quando o patriarca Atenágoras e o Papa Paulo VI puseram fim a nove séculos de excomunhão mútua.
“Ambas as Igrejas, com um sentido de responsabilidade para com o mundo, sentiram o apelo urgente que leva cada um de nós, que foi baptizado, a proclamar o Evangelho a todos os homens e mulheres”, escreve ainda o Papa. Por essa razão, católicos e ortodoxos podem “trabalhar hoje em busca da paz entre os povos, pela abolição de todas as formas de escravatura, pelo respeito e dignidade de cada ser humano e pelo cuidado com a criação”. (texto integral aqui, em castelhano)
Apesar da reafirmação do desejo de unidade, esta mensagem surge num contexto em que Constantinopla e o patriarcado (também ortodoxo) de Moscovo estão de relações cortadas, depois de um acumular de tensões nos últimos anos e, sobretudo, nos meses mais recentes. Em causa, está o facto de o patriarca Bartolomeu ter reconhecido a autonomia da Igreja Ortodoxa da Ucrânia, até agora dependente do patriarcado de Moscovo. 
O problema é que, às razões e tensões religiosas juntam-se as divergências políticas: Moscovo e Kiev estão em guerra aberta no leste da Ucrânia, depois da anexação da Crimeia pela Rússia. E ambas as lideranças políticas apoiam a respectiva Igreja nacional na argumentação que é utilizada por ambos. 

Maldições e intromissões políticas

A zanga entre Moscovo e Constantinopla passou já por afirmações de maldição, orações que se deixaram de fazer e intromissões políticas, culminando com o corte de relações desde Outubro. Antes dele, os ortodoxos russos tinham deixado de rezar pelo patriarca Bartolomeu, de Constantinopla – que tem a primazia de honra na ortodoxia –, e este acusara o metropolita Hilarion Alfeyev (número dois e “ministro” dos estrangeiros do patriarcado russo) de ter mentido no processo. 

sábado, 7 de abril de 2018

Páscoa, hoje de novo: a Oriente e em todas as latitudes, “o perdão brotou do túmulo”



O Salmo 53 termina, dizendo:
“Quem dera que viesse de Sião a salvação de Israel!
Quando Deus reconduzir os cativos do seu povo,
Jacob rejubilará e Israel exultará de alegria.”

É este poema que se pode ouvir no vídeo acima. No salmo, um dos versos também diz “Não há razão para tremer”. Mas, ao escutar estas (poucas) vozes, que cantam o Salmo 53 em aramaico – a língua que Jesus falava –, há todas as razões para tremer, pela intensidade e beleza que é colocada na interpretação desta oração bíblica (a gravação foi feita durante a visita do Papa Francisco à catedral patriarcal Svietyskhoveli, em Mtskheta, na Geórgia, a 1 de Outubro de 2016).
Hoje, a Oriente, tendo em conta a diferença de calendário, a maior parte das igrejas ortodoxas, católicas orientais, coptas, caldeias, sírias e arménias celebram o Sábado de Páscoa – coincidindo, aliás, com o Sábado da Pessah judaica, celebração final que culmina uma semana de memória da saída do cativeiro doEgipto.
No hino de Sábado Santo da tradição oriental, reza-se: “Tu desceste à terra para salvar Adão, mas não o encontrando na terra, oh Senhor, foste buscá-lo aos infernos.” É por isso que muitos ícones da ressurreição representam, na tradição oriental, Cristo descendo aos infernos. (Uma pequena polémica mediática envolveu de novo o Papa Francisco, dias antes da Páscoa, por ele alegadamente ter dito que o Inferno não existeuma ideia, aliás, que já João Paulo II tinha assumido, nas suas catequeses de quarta-feira, no Verão de 1999, o inferno não é um lugar físico mas a “situação de quem se afasta de Deus”, e que seria depois contraditada por Bento XVI.)
Diz a homilia de São João Crisóstomo, que se lê na Divina Liturgia ortodoxa da noite de Páscoa: “Saciai-vos todos no banquete da fé, vinde servir-vos do tesouro da misericórdia. Que ninguém lamente a sua pobreza, porque o Reino chegou para todos; que ninguém chore as suas faltas, porque o perdão brotou do túmulo; que ninguém receie a morte, porque a morte do Salvador dela nos libertou.” (o texto completo da homilia pode ser lido aqui, em português)
No seu Prado Espiritual, Aleksej Remizov escreve: “A santa mãe, a Ressurreição do Tríduo, purificada no orvalho de Primavera, acende a aurora, e no final da liturgia, resplandecente a conduz sobre o monte mais alto.”
A linguagem de uma profunda poética de interioridade, fortemente ancorada nas celebrações pascais, marca a linguagem do cristianismo oriental. Tal como a tradição do acolhimento e a “intensa procura da comunhão com Deus”, como escreve o dominicano fr. José Luís de Almeida Monteiro, na apresentação da edição portuguesa dos Relatos de um Peregrino Russo ao seu Pai Espiritual.
E, na Pequena Filocaliapode ler-se, num dos Quatrocentos textos sobre o amor, de São Máximo, o Confessor: “Bem-aventurado o homem que não fica cativo do que é finito, transitório, corruptível.”

(Sobre outras tradições pascais, podem ouvir-se duas reportagens de Manuel Vilas Boas na TSF. Uma, que conta a Páscoa judaico-cristã de Castelo de Vide, que passa pelas matracas de Quinta-feira Santa, a bênção dos cordeiros no Sábado, o ensurdecedor toque nocturno das campainhas e chocalhos no interior da igreja e pelas ruas desta vila medieval até à procissão da Ressurreição, no Domingo de Páscoa. Para ouvir aqui
A outra, sobre as tradições minhotas do Compasso ou Visita Pascal, que inclui cortejos de cruzes floridas, bênção das casas e a travessia do rio Minho, entre Portugal e a Galiza. Para escutar aqui.)

Ilustração: Ícone O Anjo e as Mulheres junto do túmulo de Jesus, Museu de São Petersburgo

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Fátima, 100 anos, de Maio a Outubro (4) – Maria: factor de unidade ou perturbação no catolicismo e no diálogo ecuménico?

Depois de Maio, podemos voltar a parte do muito que se publicou sobre Fátima e que ajudará a sistematizar informação e elementos para vários debates sobre o fenómeno, que importa agora aprofundar.

Hoje, dia em que a liturgia católica assinala a Assunção de Nossa Senhora e a Igreja Ortodoxa festeja a Dormição de Maria, trago aqui dois textos sobre a figura da mãe de Jesus: um, publicado no Público de 7 de Maio (e que, por isso, tem uma referência final datada); o outro, um texto publicado no número de Maio/Junho da revista Bíblica. Em ambos, procuro apresentar alguns elementos sobre o modo como Maria é olhada e venerada e de que modo isso influencia ou não a fé de tantos crentes (incluindo o Papa Francisco, cuja relação com Nossa Senhora é também tratada no primeiro texto.

Este é o quarto trabalho desta série, que incluirá mais dois textos, nos dias 13 de Setembro e 13 de Outubro. Os textos já publicados podem ser lidos nestas ligações:



PAPA FRANCISCO: DEVOTO DE MARIA, MAS NÃO MARIANO

Maria é importante no cristianismo? E a que ponto? Há uma forte presença da mãe de Jesus na teologia, na vida dos crentes – e dos Papas. Mas o entendimento do seu lugar no dogma cristão tem sido objecto de debates e muitas polémicas. Aqui se recordam alguns desses episódios e se tenta perscrutar o entendimento do Papa Francisco sobre a figura da mãe de Jesus.



O Papa Francisco no Santuário de Fátima, a 12 de Maio último 
(foto reproduzida daqui)

Na primeira metade do século VIII, São João Damasceno, um dos mais importantes teólogos cristãos do primeiro milénio cristão, escrevia que “Maria é a primeira das novas criaturas”.
Com essa afirmação, queria destacar o papel da mãe de Jesus na configuração da fé cristã. Mãe de Cristo e irmã dos crentes, primeira seguidora e discípula do seu filho, protectora e advogada de quem a ela recorre, Maria de Nazaré pode ser também arquétipo da figura da mãe, da presença do feminino na antropologia e figuração da deusa-mãe. A sua personalidade é, desde o início do cristianismo, venerada em diferentes graus, a ponto de ter sido proclamada pelo Concílio de Éfeso, em 431, como Theotokos – literalmente, “portadora de Deus”, ou seja, mãe de Deus.
O catolicismo e o cristianismo ortodoxo (predominante no leste europeu e no Médio Oriente) herdaram esse entendimento e essa veneração. Ao contrário do protestantismo, que se afastou daquilo que considerava os desvios e exageros da tradição católica.
Característica da identidade católica, a veneração a Maria é, no entanto, objecto de debates, divergências, opiniões diferentes – mesmo no interior do catolicismo. Esses diversos graus de adesão e as distintas expressões de linguagem utilizadas manifestam também, quase sempre, modos de ver e de se relacionar com a mãe de Jesus muito díspares.
O Papa Francisco não foge à regra: devoto da figura de Nossa Senhora, ele afirma, desse modo, a sua absoluta identidade católica. Mas, vindo da América Latina, ele dá a essa devoção uma configuração que não coincide completamente com algumas tradições. E que, se acentua a dimensão popular da irmã e companheira que apoia e auxilia os crentes, também afirma em permanência a centralidade de Jesus e do seu evangelho como fundamentos da fé cristã. Maria é, nesta perspectiva, tomada como a primeira seguidora de Jesus e a referência dos crentes.

A desatadora dos nós e a ternura para ajudar

No modo como Francisco se relaciona com a figura de Maria contam, desde logo, os gestos iniciais: na primeira manhã depois de eleito, o novo Papa dirigiu-se à basílica de Santa Maria Maior, em Roma. Ali, Inácio de Loiola, fundador dos jesuítas, a ordem a que pertence Jorge Mario Bergoglio, celebrara a primeira missa de Natal, em 1538. Mas Bergoglio, agora Francisco, não foi lá por causa do fundador da sua ordem, antes para rezar e colocar um ramo de flores. Era a sua forma de saudar a imagem conhecida como Salus Populi Romani, a protectora do povo de Roma.


Nossa Senhora Desatadora dos Nós, 
a imagem preferida do Papa Francisco

A invocação que Bergoglio/Francisco prefere, no entanto, é outra: Nossa Senhora Desatadora dos Nós, uma representação pictórica que ele viu na Igreja de St. Peter am Perlach, em Augsburgo (Alemanha), quando lá viveu, a partir de 1986, para fazer a tese em teologia. Numa pagela que o então padre e, depois, bispo Bergoglio passou a distribuir às pessoas, a imagem de Nossa Senhora Desatadora dos Nós era apresentada como alguém capaz de desfazer “todos os nós do coração, todos os nós da consciência”, todos os nós “da vida pessoal, familiar e profissional, da vida comunitária” que “as mãos bondosas de Maria vão desatando um a um.”

sábado, 13 de fevereiro de 2016

Francisco e Cirilo pedem acção urgente para evitar nova guerra mundial

Encontro histórico em Havana termina com declaração conjunta a apelar à comunidade internacional para travar perseguições a cristãos

O Papa Francisco e o patriarca Cirilo, da Igreja Ortodoxa Russa, querem uma "acção urgente da comunidade internacional para prevenir nova expulsão dos cristãos do Médio Oriente". Ao mesmo tempo, pedem à comunidade internacional que "faça todos os esforços possíveis para pôr fim ao terrorismo valendo-se de ações comuns, conjuntas e coordenadas", mas de modo "responsável e prudente". E os cristãos devem rezar para que Deus "não permita uma nova guerra mundial".
A declaração conjunta dos dois líderes religiosos, naquele que é o primeiro encontro entre o bispo de Roma e o patriarca de Moscovo em mil anos de separação das duas Igrejas, foi assinada ontem, cerca das 17.00, em Havana (22.00 de Lisboa). No documento, Francisco e Cirilo dizem que, ao levantar a voz em defesa dos cristãos perseguidos, exprimem igualmente a sua "compaixão pelas tribulações sofridas pelos fiéis doutras tradições religiosas, também eles vítimas da guerra civil, do caos e da violência terrorista".
(texto para continuar a ler aqui, de onde também é reproduzida a foto abaixo; a seguir, um segundo texto sobre a história e as razões da separação entre católicos e ortodoxos)




O patriarca Cirilo, de Moscovo, e o Papa Francisco, 
ontem em Havana

Política e religião, razões de um cisma de mil anos

Foram razões políticas que levaram à excomunhão mútua entre os cristãos do Ocidente e do Oriente, em 1054, mesmo se havia já divergências teológicas importantes. Depois, o modo de entender a fé cavou mais fundo a separação. Hoje, a política e os modos de entender a fé cristã aproximam os dois grandes ramos do cristianismo, mesmo se subsistem importantes factores de divisão em ambos os campos.
Durante os primeiros séculos, o cristianismo dos dois lados da Europa foi seguindo modos diferentes de se entender a si mesmo e de compreender a presença cristã na sociedade política. Mas a primeira grande divergência aparece ainda no século VIII, com a crise iconoclasta, a querela relativa às imagens. Nela “intervieram a teologia, a disciplina e a polícia”, como recorda o teólogo alemão Hans Küng, na sua monumental obra “O Cristianismo. Essência e História” (ed. Círculo de Leitores/Temas e Debates).

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Ressurreição e Turquia, Europa e cristianismo, Estados Unidos e Cuba

Crónicas

Na crónica de domingo, no Público, frei Bento Domingues retoma alguns temas da viagem do Papa à Turquia e pergunta Quantos Cristos Ressuscitaram:

À Igreja, os primeiros Padres chamavam-lhe mysterium lunae, o mistério da lua, porquê? Porque dá luz, mas não tem luz própria; é a que lhe vem do sol. E, quando a Igreja olha demasiado para si mesma, aparecem as divisões. Foi o que sucedeu depois do primeiro milénio. Hoje, à mesa, falávamos do momento, de uma terra – não me lembro qual – em que um cardeal foi comunicar a excomunhão do Papa ao Patriarca (ortodoxo). Naquele momento, a Igreja olhou para si mesma; não estava voltada para Cristo. Creio que todos estes problemas que surgem entre nós, entre os cristãos – falo pelo menos da nossa Igreja católica – surgem quando ela olha para si mesma: torna-se auto-referencial.
(texto integral aqui)


No DN de sábado, Anselmo Borges escreve sobre a Herança cristã da Europa:

(...) o filósofo ateu convicto e combatente, Michel Onfray, escreve no seu Tratado de Ateologia: “A carne ocidental é cristã. Incluindo a dos ateus, muçulmanos, deístas e agnósticos educados, criados ou instruídos na zona geográfica e ideológica judeo-cristã.” O filósofo André Comte-Sponville também escreve: “Sou ateu, uma vez que não creio em nenhum deus, mas fiel, porque me reconheço como parte de determinada tradição, de determinada história e dos seus valores judeo-cristãos (ou greco-cristãos), que são os nossos.”
(texto integral aqui)


No CM de sexta-feira, Fernando Calado Rodrigues escreve sobre O Papa, Cuba e os EUA

Quando no mundo se volta a matar e a fazer a guerra em nome de uma distorcida conceção da religião, é de enaltecer o contributo de um líder religioso para promover a reconciliação entre dois povos desavindos há mais de meio século.
(texto integral aqui)

domingo, 26 de janeiro de 2014

Reconhecimento mútuo do baptismo: dois momentos

Os vídeos são artesanais e de fraca qualidade, mas ficam como registo de dois momentos da celebração de reconhecimento mútuo do baptismo entre cinco igrejas cristãs, já referido aqui em antecipação do acontecimento, e cuja reportagem foi publicada aqui.
No primeiro, canta-se "louvai o nosso Deus, todos os povos, aleluia", no segundo entoa-se o "Veni Sancte Spiritus" (Vinde, Espírito Santo), enquanto se prepara a proclamação da fé e o momento da assinatura da declaração comum pelos representantes de cada uma das igrejas, com o gesto da luz que passa de mão em mão.





Reconhecimento mútuo do baptismo: um passo em frente na unidade dos cristãos

O canto que irrompeu no momento da assinatura traduzia o sentimento das centenas de pessoas que lotaram, no final desta tarde de sábado, a catedral lusitana de São Paulo, em Lisboa: Jubilate Deo, jubilate Deo, alleluia (alegrai-vos em Deus, aleluia). Cinco responsáveis, em nome de outras tantas igrejas cristãs – Católica, Lusitana/Anglicana, Metodista, Presbiteriana e,  Ortodoxa (Patriarcado de Constantinopla) – assinaram a declaração de reconhecimento mútuo do baptismo.
A partir de agora, e segundo os oito pontos da declaração, estas igrejas passam a reconhecer como válido os respectivos certificados de baptismo, recusando a necessidade de um novo sacramento – o que já sucedia na maior parte dos casos, mas que, a partir de agora, fica oficializado para situações como as de casamentos mistos ou de pessoas que decidem mudar de igreja. E esperam, de acordo com a declaração assinada, que esse reconhecimento “constitua um passo em frente no caminho da unidade visível” dos cristãos.
Na sua curta homilia, a propósito do texto da 1ª Carta de São Paulo aos Coríntios que acabara de ser lido (1 Cor 1, 1-17), onde se pergunta “Estará Cristo dividido?”, o patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, disse que os cristãos estão unidos em “três pontos essenciais: a unidade de vocação, no chamamento à santidade; a unidade de pertença”, que há-de ajudar a ultrapassar a “tendência atávica” dos cristãos para a divisão; e a “unidade de acolhimento e relação”. E pediu: “Sejamos consequentes.”
A declaração do baptismo não é ainda a unidade plena na diversidade – de fora, fica a questão mais delicada da eucaristia comum; e de fora ficam, também, todas as comunidades ligadas à Aliança Evangélica Portuguesa, além de outras igrejas cristãs, minoritárias no país. Mas é um passo que pode contribuir “para uma maior comunhão entre todos os baptizados”, como se refere também no último ponto da declaração.
Esta celebração, que culminou a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, iniciou-se pouco depois das 18h, com a participação de muitos jovens, marcados por um tempo em que as divisões aparecem cada vez mais como coisa do passado. Muitos deles estão já habituados a participar em iniciativas como o Fórum Ecuménico Jovem, ou nas propostas feitas por comunidades como Taizé, que reúne monges de diferentes proveniências.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

A ressurreição de um baptismo que estava “morto”

Documento a assinar por católicos, anglicanos, metodistas, presbiterianos e ortodoxos reconhece validade mútua do baptismo. RELIGIONLINE divulga o texto desse documento, uma espécie de ressurreição de um morto, tendo em conta os doze anos que tardou a concluir o processo, como diz o seu primeiro proponente.


Marko I. Rupnik, Baptismo de Cristo (ilustração reproduzida daqui)


Um documento de “Reconhecimento mútuo do sacramento do Baptismo” será assinado no próximo sábado, em Lisboa, por representantes da Igreja Católica RomanaIgreja Lusitana (Comunhão Anglicana)Igreja MetodistaIgreja Presbiteriana e Igreja Ortodoxa (Patriarcado de Constantinopla), presentes em Portugal. Este acontecimento, que levou cerca de doze anos a ser preparado, põe um ponto final nas divergências doutrinais históricas que, na prática, já há alguns anos não se fazem sentir. Ao mesmo tempo, acentua a concordância pastoral e doutrinal que existe sobre o tema, entre aquelas igrejas cristãs.
O texto, que RELIGIONLINE divulga na íntegra, em primeira mão, no final deste artigo, começou a ser debatido em 2002, no âmbito dos encontros periódicos entre a então Comissão Episcopal da Doutrina da Fé (CEDF), do lado católico, e a direcção do Copic (Conselho Português de Igrejas Cristãs), que reúne lusitanos, metodistas e presbiterianos. Mais tarde, os ortodoxos juntaram-se também ao processo.
No documento, reconhece-se “mutuamente a validade do baptismo” ministrado por qualquer uma daquelas igrejas. O texto começa por referir a concordância “sobre os pontos fundamentais de doutrina e prática baptismal” entre aquelas diferentes igrejas e verifica que, na prática, elas “já aceitam tacitamente o reconhecimento mútuo da validade do sacramento” tal como é administrado por católicos, presbiterianos, lusitanos, metodistas e ortodoxos.
Situações como alguém decidir mudar de Igreja ou casar com um membro de outra Igreja obrigaram muitas vezes a um novo baptismo: no caso dos casamentos, o/a noivo/a de determinada Igreja era obrigado/a a baptizar-se de novo, para poder casar, pois a comunidade a que o outro nubente pertencia não reconhecia o baptismo inicial.

Primeira proposta em 2006

“A assinatura de sábado parece uma ressurreição, pois eu julgava que o documento estava morto”, diz ao RELIGIONLINE o pastor José Leite, da Igreja Evangélica Presbiteriana de Portugal e que trabalhou largos anos na sede do Conselho Ecuménico de Igrejas, em Genebra. Enquanto pastor presbiteriano e presidente do Copic, José Leite foi quem inicialmente propôs, em 2002, um documento deste género.
“Deixei uma primeira proposta no Copic em 2006, que seguia de perto o reconhecimento que já existia em outros países”, acrescenta. Antes, José Leite tinha ficado responsável por apresentar os pontos necessários para debater o assunto. “Fui ver o que se passava em países latinos como Itália, França ou Brasil, onde já havia o reconhecimento mútuo do baptismo. Antes de deixar o Copic, escrevi uma proposta.”
Ao ter sabido da notícia da assinatura, José Leite reagiu com entusiasmo: “Os episódios de recusa estavam, em larga maioria, ultrapassados já em 2006. Hoje não há nada de especial que embarace as nossas Igrejas em relação a este tema.”
No sábado, José Leite estará em Lisboa, na catedral lusitana de São Paulo (às Janelas Verdes), a partir das 18h, juntamente com outros dois ex-responsáveis de igrejas protestantes que também participaram no processo: os bispos Fernando Soares (Igreja Lusitana) e Irineu Cunha (Igreja Metodista).
A cerimónia de sábado marca o fim de um caminho e o início de uma nova fase, acrescenta o bispo D. Jorge Pina Cabral que assinará o documento em nome da Igreja Lusitana Católica Apostólica Evangélica (que integra a Comunhão Anglicana). Jorge Pina Cabral, que tomou posse como bispo da Igreja Lusitana em Abril do ano passadoacrescenta que este acontecimento “abre e responsabiliza as diferentes igrejas envolvidas quanto ao seu futuro conjunto: reconhecemos este fundamento, temos de o aprofundar.”
Sandra Reis é quem assinará a declaração em nome da Igreja Evangélica Presbiteriana de Portugal. Pastora na zona da Figueira da Foz, diz que está a recolher os frutos do trabalho de outros: “Cresci com o pastor José Leite e sei que ele esteve neste processo. Já há muito que esperávamos por este momento.”

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Natal ortodoxo e oriental, mesmo em Portugal

Hoje é dia de Natal para muitos cristãos de rito Bizantino, incluindo alguns que estão em Portugal. As comunidades imigrantes de vários países, nomeadamente da Rússia e da Ucrânia, utilizam o calendário litúrgico juliano, que está 13 dias atrasado em relação ao calendário gregoriano, utilizado em Portugal e nas igrejas ocidentais.

Por essa razão, o dia 25 de Dezembro do calendário juliano coincide com o dia 7 de Janeiro e está a ser assinalado hoje por milhares de cristãos ortodoxos ou católicos de rito oriental, conhecidos, por vezes, como greco-católicos, que vivem no nosso país.

“As festividades começaram ontem à noite com uma refeição especial, conhecida como Ceia Santa, na qual se evita comer leite ou carne”, refere o Padre Ivan, da comunidade greco-católica ucraniana. Hoje, será celebrada a Divina Liturgia às 19h30 na Igreja de São Jorge de Arroios, para festejar o nascimento de Jesus.

As celebrações costumam ter lugar na capela do antigo hospital de Arroios, mas “no Natal há tantos fiéis que não cabem lá, então utilizamos a igreja principal”.

Sendo um dia de grande festa e alegria, o Natal é vivido por estas comunidades com um misto de tristeza por estarem longe das suas terras e, em muitos casos, das suas famílias. “É como na Páscoa, desde crianças estamos habituados a viver este dia com a família. Em Portugal, como ainda por cima segue-se um calendário diferente, é difícil manter as tradições”.

Mensagens de Natal

A Igreja greco-católica da Ucrânia é a maior de várias igrejas orientais em comunhão com Roma. Tem a sua própria liturgia e regras, mas aceita a primazia do Papa.

Ontem, no Vaticano, Bento XVI deixou aos cristãos do Oriente os seus votos natalícios. “Tenho a alegria de dirigir os meus mais cordiais votos aos irmãos e irmãs das Igrejas Orientais que amanhã celebram o santo Natal. Que o mistério de luz seja fonte de alegria e de paz para cada família e comunidade”, disse.

Em Moscovo, o patriarca Cirilo preside às principais celebrações, tendo publicado uma mensagem de Natal para os seus fiéis, onde se pode ler que celebrar o Natal nos “aproxima do Salvador, ajuda-nos a ver melhor a sua face, a ficarmos imersos na sua boa nova”. “O Senhor renasce misteriosamente a cada dia por nós, nas nossas almas, para que possamos ter vida em abundância. O que se passou naquela noite em Belém entra hoje na nossa vida, ajuda-nos a vê-la de uma perspectiva diferente, simultaneamente, nova e inesperada. Aquilo que parecia importante e grande, de repente torna-se trivial e passageiro, abrindo caminho para a majestade e beleza eterna da verdade divina”.

(Notícia publicada no Página 1, da Renascença; ilustração: Adoração dos Magos, pintura da segunda metade do século III, na Catacumba de Priscila em Roma; os magos estão vestidos com uma túnica curta e com um barrete frígio, o que assinala a sua origem oriental)

sábado, 19 de dezembro de 2009

Calendário de Advento (19) - Teofania no Natal ortodoxo


No calendário ortodoxo, hoje é dia 6 de Dezembro, data para festejar de novo S. Nicolau. Tudo por causa de uma diferença de calendário estabelecida há pouco mais de 400 anos. Para os cristãos ortodoxos, o Natal é uma festa menos importante que a Páscoa, mas nem por isso ela deixa de ser festejada como manifestação de Deus.

(Ilustração: Natividade, ícone da escola de Pskov, séc. XVI )


“Não imagino Deus dividido entre o céu e a terra, mas como uma presença que mora em todas as direcções, no infinito.” (Aleksej Remizov, Prado Espiritual)
Para os ortodoxos, o Natal não é uma festa com a importância que ganhou no mundo católico. A Páscoa tem, entre os cristãos da ortodoxia, a primazia. Depois desta, aparece a Teofania, ou manifestação de Deus. Há notícias de que esta era teria tido origem em Roma, celebrando diversos acontecimentos relatados nos evangelhos: a adoração dos magos, o baptismo de Jesus por João Baptista e as bodas de Caná, onde Cristo teria realizado o que seria considerado o seu primeiro milagre (nos textos bíblicos, o significado da palavra remete para a noção de sinal da sua divindade).

Em 380, já há referências de que as festas da Teofania teriam chegado a Constantinopla, por acção de S. Gregório o Teólogo. Agora, o Advento é, no mundo ortodoxo, um tempo de purificação, um pouco à semelhança da Quaresma, o período de 40 dias que antecede a Páscoa. Por isso, as quatro semanas que antecedem o Natal são também um tempo de jejum à carne e ao peixe. A festa do nascimento de Jesus é encarada principalmente como uma antecipação da Páscoa.

Hoje, no entanto, dia de S. Nicolau no calendário juliano (ainda usado na Europa Oriental, sobretudo pela Igreja Ortodoxa), haverá como que uma pequena pausa no jejum. Os crentes podem beber vinho e comer aves, e fazem uma refeição comunitária mais festiva.

Em Portugal, a festa é assinalada por muitos ortodoxos – sobretudo os mais de 70 mil ucranianos, russos, arménios, georgianos, arménios, romenos, búlgaros e de outras nacionalidades, que imigraram dos países do Leste europeu. Em regiões como Lisboa, Porto, Aveiro, Portimão, juntam-se comunidades de cristãos ortodoxos a festejar S. Nicolau, uma das figuras importantes do seu calendário, cuja história foi aqui contada no passado dia 6.

Mas porquê tal diferença? Foi o Papa Gregório XIII que, em Outubro de 1582, decidiu acertar o passo dos dias com o sol: a contagem do tempo do calendário juliano [designação tomada do imperador romano Júlio César] deixava de fora alguns segundos por ano. A soma desses segundos totalizava então, em relação à rotação do sol, dias completos. Com a ajuda dos estudos de um astrónomo jesuíta, Gregório XIII decidiu anular 14 dias perdidos, saltando-os no calendário.

No Natal, que os ortodoxos festejam daqui a quase três semanas, a liturgia será solene, mas a festa não assume a proporção que adquiriu no Ocidente. Uma das orações da Igreja Ortodoxa para este dia diz: “A Virgem hoje dá à luz Aquele que está acima de toda a essência e a terra oferece uma gruta Àquele que é inacessível. Os anjos e os pastores glorificam-no. Os magos caminham seguindo a estrela. Por nós nasceu o Menino Deus que existe antes de todos os séculos.”

O Natal traduz, assim, o amor que Deus Pai tem pela humanidade e se manifesta através de Jesus, por meio do Espírito Santo. Depois do Natal, a Teofania ou Epifania serão as grandes festas litúrgicas para os ortodoxos, assinalando a manifestação de Jesus aos magos – que simbolizam toda a humanidade.

No seu Prado Espiritual (designação da literatura ascética para uma colecção de ditos e narrações edificantes), Aleksej Remizov (1877-1957) escreve: “Os que dormiam despertaram do sonho e a luz encheu as suas almas./ Aguardavam algo, esperavam./ Acreditavam e não ousavam crer./ Mas o coração cantava./ O espírito fervia./ Reuniam-se nas praças e olhavam para o longínquo…/ E os olhos voltavam a colher vida, voltavam a florescer como flores regadas.”


Quadros da vida de Maria em paralelo com os de Jesus
Mais do que na tradição católica, os ortodoxos recuam até à Natividade de Nossa Senhora na memória aos episódios relacionados com a vida de Jesus. Essa referência não tem fundamento bíblico, mas é da ordem da tradição e da devoção à Theotokos, ou Mãe de Deus, da qual a arte dos ícones acabou também por se aproximar. Tal é o caso do ícone da Natividade da Mãe de Deus (séc. XVII, Museu Andrei Rubliov, Moscovo), que tenta reconstruir vários episódios da vida de Maria de Nazaré. O ícone apresenta outras cenas, como Ana a receber oferendas, Maria a ser embalada ou a ser apresentada no Templo de Jerusalém, como era costume entre os judeus. O paralelismo com as narrativas da infância de Jesus é evidente. Aqui, as cenas pretendem induzir também nos fiéis a ideia de que Maria foi educada num ambiente de religiosidade. Como que uma preparação remota para o grande acontecimento que a esperava.


Poema - Natal, de Rui Cinatti

Inverno lactescente, adormecido
Querer, noite encantada.
Já não sinto, porém, aquele amor,
Nem a vida sonhada.

Tudo se foi, pouco nos resta,
Ilhas não há. Montanhas só no espírito
Se elevam, distantes e coroadas
Pela solidão.

No muro da minha alma há uma fresta.
Por ela entra o vento e a multidão
Das vozes e dos signos.

Quando a certeza chega, o coração
Lança de si os trajes mais indignos
E entra, sorrindo, na festa.

(In Natal... Natais – Oito Séculos de Poesia sobre o Natal,
antologia de Vasco Graça Moura, ed. Público
)