O Papa Francisco respondendo aos jornalistas, Domingo,
no voo de regresso a Roma (foto reproduzida daqui)
A tormenta não passou, nem passará tão cedo: a crise dos abusos sexuais continua na Igreja Católica, após a viagem do Papa à Irlanda, que deixou um lastro de várias manifestações de crítica à Igreja e a Francisco, que ali esteve para encerrar o Encontro Mundial das Famílias. Depois de, no sábado, ter feito várias declarações e se ter encontrado com várias vítimas de abusos, o Papa foi ontem ainda, Domingo, 26 de Agosto, objecto de uma carta do arcebispo Carlo Maria Viganò, núncio (embaixador) do Vaticano em Washington entre Outubro de 2011 e Janeiro de 2016, denunciando que Francisco teria conhecimento dos abusos cometidos pelo ex-cardeal Theodore McCarrick, forçado a demitir-se do colégio de cardeais há um mês.
Afinal, Viganò – que foi, ele próprio, acusado de ter encoberto casos de abusos e ordenado a destruição de provas – terá deturpado ou mentido vários factos, como se enumera neste texto do National Catholic Reporter [NCR].
Na conferência de imprensa dada a bordo do avião, de regresso a Roma, o Papa pediu que os jornalistas façam o trabalho de casa: respondendo a uma pergunta da jornalista Anna Matranga, da CBS, Francisco disse que o texto da carta “fala por si” e que era importante que os jornalistas o lessem e retirassem as suas conclusões. Quando passar um pouco mais de tempo, acrescentou, poderá voltar ao assunto. (A transcrição da conferência de imprensa está aqui, por enquanto apenas na versão italiana.)
Tal como o National Catholic Reporter, o New York Times já fez o trabalho de casa e escreveu: “As suas [de Viganò] alegações infundadas e os ataques pessoais representaram uma extraordinária declaração pública de guerra contra o papado de Francisco, feitas naquele que é talvez o seu momento mais vulnerável.” (o texto do NYT está disponível aqui, em inglês)
Quer tudo isto dizer que se deve menosprezar ou ignorar a acusação do antigo núncio? Certamente que não, mas ela tem de ser compreendida no contexto da pessoa que a faz, que também foi um dos envolvidos no caso “Vatileaks”, um dos que levou à demissão do Papa Bento XVI. No Crux, John Allen Jr. recorda vários desses episódios e ainda no NCR escreve-se como a carta de Viganò manifesta a conspiração contra o actual Papa.

