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terça-feira, 13 de novembro de 2018

3 Milhões de Nós: outra linguagem, outra criatividade, para chegar a mais pessoas

Texto de Maria Wilton


Ricardo Araújo Pereira: 
Todos estão “à procura: não acredito em Cristo, mas acredito nos cristãos
(foto reproduzida daqui)

O encontro 3 Milhões de Nós pretendeu renovar a linguagem para aproximar a mensagem cristã dos jovens

“Eu fiz a escola primária num colégio de freiras vicentinas, depois estudei num colégio de padres franciscanos; depois, então, estudei num colégio de padres jesuítas e, no fim, Universidade Católica. Muitas vezes as pessoas perguntam-me se é por isso que eu sou ateu. E não é: eu sou ateu apesar disso.”
Foi assim que, entre muitas gargalhadas, o humorista Ricardo Araújo Pereira começou a sua intervenção no encontro 3 Milhões de Nós, que encheu a Aula Magna, em Lisboa. Sábado passado, 10 de Novembro, cerca de 1700 pessoas – jovens, na maior parte – ouviram um conjunto de convidados a falar sobre temas como a espiritualidade, o mundo do trabalho ou a família. O título da iniciativa remete para o facto de, em Portugal, haver cerca de três milhões de pessoas com menos de 25 anos, que o encontro pretendia atingir, com criatividade e novas linguagens, como diria a irmã Núria Frau, responsável da iniciativa. 
O humorista falou sobre viver a espiritualidade sem fé, partindo da sua experiência de, não sendo crente, ter frequentado escolas católicas. Destacou o impacto que para ele teve o “padre Joaquim”, um professor de Português do colégio dos padres franciscanos. Recentemente falecido, a sua recordação emocionou o fundador dos Gato Fedorento. Ricardo Araújo Pereira acrescentou que, enquanto ateu, está sempre a pensar no fim da vida e na sua finalidade ou propósito. Mas que, apesar disso, se considerava semelhante a quem tem fé: todos estão “à procura: não acredito em Cristo, mas acredito nos cristãos”. 




Um painel com frases escritas pelos participantes, 
no qual a frase de Ricardo Araújo Pereira foi reproduzida
(foto © Maria Wilton)

Acerca da experiência de ter fé falou também Zohora Pirbhai, da Comunidade Ismaili de Lisboa, um dos grupos muçulmanos mais importantes. A oradora pretendia dar outra perspetiva acerca do Islão. Assumindo-se como feminista e islâmica, salientou que, no seu modo de entender o seu islão, os dois conceitos não se excluem mutuamente.

Portugal “resiste à crise de fé”

Da experiência cristã falou o padre jesuíta Pedro Rocha Mendes, para quem os jovens continuam a tentar preencher a vida com algo mais: “O mundo em que vivemos”, virtual, descartável e instantâneo, como caracterizou, “está voltado para a satisfação imediata, mas todos nos apercebemos que a satisfação não gera felicidade, mas sim, mais insatisfação.” 

segunda-feira, 16 de julho de 2018

Nascida como um oásis na cidade


Agenda

Foto ao lado : Igreja de Nossa Senhora da Conceição, dos Olivais Sul, em Lisboa (reproduzida daqui)

Nasceu como um oásis. Isto é, “um conjunto de instalações, dificilmente definível como edifício, vivendo por si próprio e por si próprio possibilitando uma maneira de viver”. Era assim que o arquitecto Pedro Vieira de Almeida definia, em 1970, a nova igreja e complexo paroquial dos Olivais Sul, em Lisboa, onde a invenção pretendia ser “um sistema e não uma forma”. Trinta anos depois da dedicação da igreja (em 1988), aquele espaço será objecto de um debate nesta terça-feira, dia 17 de Julho, às 21h30, com a participação do arquitecto Gonçalo Byrne.
O mote para a conversa será Passado, Presente, Futuro: Oportunidades. Fruto de um concurso de arquitectura lançado em 1969 e construído na década de 1980, o complexo (apenas parcialmente concluído) implanta-se sobre uma pequena encosta no moderno bairro de Olivais Sul (Lisboa). O volume caracteriza-se pela sua horizontalidade, apresentando-se mais como uma estrutura ao serviço da comunidade do que como referência arquitectónica dominante no território, numa interpretação muito concreta dos princípios de integração de uma igreja na cidade, no pós-Concílio Vaticano II (1962-65).
Concluída pelo Secretariado das Novas Igrejas do Patriarcado, a igreja celebra este ano os 30 anos da sua dedicação, pretexto para esta iniciativa, organizada pelo Centro de Estudos de História Religiosa da Universidade Católica Portuguesa e a Paróquia de Olivais Sul.
Também no próximo sábado, 21 de Julho, às 21h30, será apresentado o documentário A espessura da luz, de João Valério, Sofia Almeida e Tiago Santos, sobre o projecto e construção da igreja de Olivais Sul. Em ambos os casos, as iniciativas decorrem na igreja dos Olivais Sul, com entrada gratuita. O filme de apresentação do documentário pode ser visto a seguir. 




quinta-feira, 15 de março de 2018

Os 50 anos da igreja do seminário da Luz

Agenda



Igreja do Seminário da Luz (foto reproduzida daqui)

Os 50 anos da igreja do Seminário da Luz (Lisboa), da Ordem dos Frades Menores, ou franciscanos, são o pretexto para um ciclo de três conferências a realizar durante os próximos meses e que culminam com a edição de um livro sobre a mesma. Amanhã, dia 16, às 21h (com entrada pelo Largo da Luz, 11) realiza-se a primeira conferência, na qual o arquitecto João Alves da Cunha falará sobre a história e arquitectura da igreja e o curador e professor universitário Paulo Pires do Vale abordará o património artístico: vitrais, betão e alfaias litúrgicas. As outras conferências decorrerão a 16 de Junho (sobre o palácio e os jardins do seminário) e a 12 de Outubro (sobre pessoas e percursos pelo seminário). A edição do livro está prevista para 8 de Dezembro.

quarta-feira, 7 de março de 2018

Cerejeira: príncipe da Igreja, homem de uma época, vivendo épocas opostas

Agenda/Livro

No congresso da JOC (Juventude Operária Católica), em 1935, o cardeal Manuel Gonçalves Cerejeira apresentou-se dizendo “Moi, prince de l’eglise” (“eu, príncipe da Igreja”). O título “corresponde a um estilo” e “permeia toda a actividade” do homem que foi patriarca de Lisboa entre 1929 e 1971 e que, nesse lugar, promoveu o papel dos leigos na Igreja Católica, incrementou a formação do clero e dotou a Igreja de Lisboa de diversas estruturas de modernização.
Estas são algumas das ideias do livro Cardeal Cerejeira –Um Patriarca de Lisboa no Século XX Portuguêsde Luís Salgado de Matos (ed. Gradiva). A obra será apresentada amanhã, dia 8 de Março, pelo patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente. A sessão decorre às 18h30 no Museu de São Roque (Largo Dr. Trindade Coelho), na capital.
Trata-se da reescrita de um texto antes publicado em duas versões, mas aqui sujeito a uma reedição profunda. Além disso, o livro é enriquecido com um conjunto de ilustrações, muitas delas inéditas ou que revelam pormenores quase desconhecidos da actividade do antigo patriarca.
No livro, o investigador Salgado de Matos esboça um retrato de Cerejeira que, como dizia Sousa Franco em 1971, foi primeiro um “intelectual de combate” e, depois, bispo. Ou que, como refere o actual patriarca no prefácio que assina no livro, juntou “o social, o político, o eclesial e o existencial”. Manuel Clemente acrescenta que “a investigação do autor apresenta‑se original e estimulante, pela variedade das fontes que utiliza e pelo modo como ensaia um retrato mais completo e complexo do biografado.”
Fazendo um retrato impressivo, o autor percorre a biografia de Cerejeira, desde o seu nascimento minhoto, passando pela época de estudante em Coimbra, altura em que muitas das suas convicções e modos de ver se formam, com a frequência dos cursos de teologia e Direito (incompletos) e, depois, Letras.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Acesso dos católicos divorciados recasados aos sacramentos – um debate na praça pública

(Foto © Vipweddings, reproduzida daqui)

O tema do acesso aos sacramentos por parte de católicos divorciados que voltaram a casar tem provocado algum debate nos média nacionais. Aqui se publicam um artigo do jornalista Joaquim Franco e as ligações para alguns textos surgidos nos últimos dias (indicadas no final do artigo).

Em consciência – reflexão alternativa sobre ​a nota do patriarca

Texto de Joaquim Franco
(co-autor do livro Papa Francisco A Revolução Imparável)

Agora, que a poeira assentou, podemos e devemos reanalisar as (des)orientações. O cardeal-patriarca de Lisboa podia ter feito um documento sobre o acolhimento condicional e condicionado dos divorciados recasados sem a polémica referência à “abstinência sexual”? Podia. Mas fê-lo, à semelhança do que fizeram outros bispos, embora com um contexto que faz a diferença.

1. As orientações d​o bispo de​ Lisboa refletem também o ​seu ​pensamento. Antes do sínodo da família, entrevistado na SIC, o cardeal-patriarca de Lisboa disse que não via como seria possível os divorciados recasados voltarem aos sacramentos. Pois, se o sacramento do matrimónio é indissolúvel, ​assim se ​mantém, e a situação de recasados coloca-os em violação da integridade sacramental na Igreja.
Depois do sínodo, conhecida já a exortação Amoris Laetitia (AL), em que Francisco abre a porta do discernimento como reentrada para os sacramentos, Manuel Clemente diria noutra entrevista à SIC que aguardava que o Papa esclarecesse o que queria dizer. Conferências episcopais e dioceses começavam a dar as orientações a partir da exortação do Papa, mas Lisboa ainda precisava de esclarecimentos, que acabariam por ser dados pela interpretação e orientações dos bispos argentinos, legitimadas explicitamente pelo Papa, nas quais o patriarca diz que se baseia.
As orientações de Lisboa não deixam de ir ao encontro da abertura apontada na Amoris Laetitia – o patriarca está também a ser criticado pela ala mais conservadora e anti-Amoris, o que não deixa de ser irónico –, e relembram a argumentação de João Paulo II na exortação Familiaris Consortio, de 1981.
Francisco recorda as anteriores propostas de João Paulo II para dar força doutrinária à nova abordagem que propõe na AL. Seria necessário repeti-las no documento de Lisboa nos termos em que foram feitas? As orientações do patriarca refletem as possibilidades de readmissão de católicos divorciados recasados aos sacramentos, mas por via de um processo que se afigura aparentemente mais rigoroso. Manuel Clemente faz questão de sublinhar o “caráter restrito (em certos casos) e condicional (poderia)” destas situações...

2. Quantos católicos divorciados recasados viverão atormentados e com peso de consciência? Muitos são já acompanhados por um padre ou outra pessoa da comunidade referenciada para tal, e que, de forma discreta, sem grandes alaridos, praticam o princípio da misericórdia. 

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Dois caminhos para a Amoris Laetitia em Portugal

 (foto reproduzida daqui)

Estão consagrados dois caminhos, entre as dioceses católicas portuguesas, para a aplicação da Amoris Laetitia (AL), no que respeita às orientações para a integração comunitária e sacramental dos crentes divorciados que voltaram a casar. Depois da publicação, há duas semanas, da carta Construir a Casa sobre a Rocha, do arcebispo de Braga, D. Jorge Ortiga
(que rapidamente fez polémica nos Estados Unidos, certamente induzida por portugueses), foi agora a vez de o cardeal-patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, publicar as orientações para a diocese de Lisboa sobre o mesmo tema.
Numa nota com data de anteontem, terça, dia 6, o patriarca começa por referir que, na Amoris Laetitia, o Papa fornece “o quadro geral da compreensão cristã do matrimónio e da família e oportunas indicações sobre a respetiva formação e acompanhamento”. No capítulo VIII da exortação – “Acompanhar, discernir e integrar a fragilidade” –, acrescenta a nota, Francisco “não esquece as situações de fragilidade, especialmente as assim chamadas ‘irregulares’, em que ao matrimónio sucedeu a rutura e um casamento civil”. Estas situações, diz ainda o patriarca de Lisboa citando o número 300 da AL, também “deverão ser acompanhadas”: “Os sacerdotes têm o dever de acompanhar as pessoas interessadas pelo caminho do discernimento segundo a doutrina da Igreja e as orientações do bispo.” 
O caminho proposto pelo patriarca diverge do de Braga (entretanto já seguido pelas dioceses de Aveiro e Viseu), precisamente e sobretudo nesta matéria: na diocese minhota, o arcebispo coloca o acento no casal e num processo de discernimento que este deve fazer. Um processo do qual o mínimo que se pode dizer é que se trata de um caminho exigente para quem decide nele entrar, pelo menos na forma como é apresentado (poderia mesmo afirmar-se que, se um caminho do género fosse seguido antes da ordenação de padres, alguns ficariam pelo caminho...).
Já em Lisboa, a responsabilidade maior é colocada no confessor ou director espiritual. Enquanto em Braga se admite que o processo pode levar o casal (com o acompanhamento de um padre ou director espiritual) a decidir-se por regressar aos sacramentos, em Lisboa acentua-se o carácter muito excepcional dessa opção e acentua-se a proposta de abstinência sexual. Em ambos os casos, sublinha-se a doutrina católica tradicional do matrimónio indissolúvel, mas admitem-se caminhos diferentes para resolver os problemas de quem acabou com o casamento desfeito. 
Pretendendo basear a sua nota em três documentos – a Amoris Laetitia, a correspondência entre os bispos da região de Buenos Aires e o Papa Francisco e as indicações dadas aos padres da diocese do Papa (Roma) pelo seu cardeal-vigário – e sugerindo a leitura desses textos na íntegra, D. Manuel Clemente acentua aquilo que, no seu entender, devem ser as “as necessárias condições de humildade, privacidade, amor à Igreja e à sua doutrina, na busca da vontade de Deus e no desejo de chegar a uma resposta mais perfeita à mesma”. (AL, 300).
Sempre citando o documento do Papa, o patriarca acrescenta que a consciência formada “pode reconhecer não só que uma situação não corresponde objetivamente à proposta geral do Evangelho, mas reconhecer também, com sinceridade e honestidade, aquilo que, por agora, é a resposta generosa que se pode oferecer a Deus e descobrir com certa segurança moral que esta é a doação que o próprio Deus está a pedir no meio da complexidade concreta dos limites, embora não seja ainda plenamente o ideal objetivo.”

segunda-feira, 14 de abril de 2014

D. José: Uma voz tranquila no palco da democracia

Texto de António Marujo e Jorge Wemans


É hoje posto à venda o livro D. José Policarpo – Uma Voz Tranquila no Palco da Democracia (ed. Paulinas). Nele se recolhe uma entrevista que ambos fizemos ao então novo patriarca de Lisboa, em 1999, por altura dos 25 anos do 25 de Abril de 1974. Quinze anos depois, a entrevista mantém plena actualidade, pois os temas tratados – a democracia, o Estado social, o papel da Igreja na sociedade pluralista – estão agora, mais do que nunca, no centro do debate político e social.
Nessa entrevista, D. José apontava o 25 de Abril como um dos três momentos marcantes na história de Portugal – a par da fundação da nacionalidade e do ciclo das Descobertas. E admitia também, pela primeira vez, que pudesse haver mulheres ordenadas, na sequência de um processo de amadurecimento e discernimento no interior da Igreja.
Aqui pode ler-se uma notícia, dois excertos e o índice do livro.
A seguir, fica o esboço de um perfil da figura de D. José Policarpo.


Não foi um caminho fácil

Nem sempre o caminho foi fácil. Era o que ele dizia ao fazer o balanço da relação da Igreja com a sociedade nas últimas três décadas do século XX. Mas a síntese pode aplicar-se à vida e obra do próprio José da Cruz Policarpo, patriarca de Lisboa entre 1998 e 2013. Alguns dos momentos marcantes que protagonizou enquanto padre, bispo ou patriarca confirmam essa sua percepção de um caminho difícil. Perante os conflitos, os imperativos de consciência, as crises institucionais e as questões de fronteira procurou manter um estilo apaziguador servido pelo seu modo civilizado, culto, fluente. Ao contrário do que seria de esperar de um homem intelectualmente respeitado, evitou as rupturas e deixa sobretudo uma herança marcada por uma gestão à procura de equilíbrios e consensos. O que não significa que alguns dos seus gestos não tenham sido polémicos.
Um dos últimos episódios simbolizou alguns aspectos da sua acção, pensamento e carácter. Em Julho de 2011, quatro meses depois de completar 75 anos e de a Santa Sé lhe ter solicitado que continuasse como patriarca de Lisboa por mais um tempo, o patriarca de Lisboa recebeu uma carta do cardeal William Levada, então prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, do Vaticano, com uma séria reprimenda. Em causa, estava a afirmação de D. José, numa entrevista à revista da Ordem dos Advogados (OA), de que “não há nenhum obstáculo fundamental” à ordenação de mulheres. A carta do Vaticano obrigou-o a retractar-se publicamente: seria “doloroso” que tais palavras “pudessem gerar confusão” na adesão “à Igreja e à palavra do Santo Padre”, escreveu. O recuo foi notado ainda mais por se saber que, um mês antes, um bispo australiano tinha sido demitido por ter defendido a mesma opinião. E o Vaticano não hesitaria em novo castigo, mesmo perante um cardeal e patriarca.

domingo, 6 de abril de 2014

Miguel Ponces de Carvalho (1931-2014): fazedor de redes, apaixonado pela biologia e pela música

Obituário


(fotos António José Paulino)

Apaixonado pela biologia e pela música, exímio pianista, educador de gerações, o padre Miguel Ponces de Carvalho morreu sábado, dia 29 de Março, em Lisboa. Neste domingo, 6 de Abril, a sua memória foi evocada num encontro de amigos.
Era “um óptimo fazedor de redes”, diz, ao RELIGIONLINE, Luís Miguel Neto, professor universitário e um dos muitos amigos do padre Miguel, como era conhecido. Luís Miguel conheceu-o em Agosto de 1974, num acampamento de escuteiros no Gerês, que pretendia ajudar bombeiros e autoridades no combate aos fogos. Luís Miguel ia entrar no Serviço Cívico Estudantil, criado para que os estudantes fizessem a transição do secundário para o universitário.
“O padre Miguel falou-me na JUC [Juventude Universitária Católica], que estava a tentar lançar grupos no secundário. Ele tinha uma visão crítica das coisas mas, entre as discussões acaloradas que tínhamos entre os mais novos, ele era uma referência de ponderação.”
Tinha sido nesse contexto do contacto com gente mais nova que António José Paulino conhecera o padre Miguel, ainda em 1973. “Ele era assistente nacional da JUC e estava a organizar um encontro para os mais jovens.”
Nessa altura, o padre Miguel, melómano e exímio tocador de piano, já se dedicava muito à música e à ópera. “Esse gosto musical e essa jovialidade davam-lhe uma grande proximidade com os mais novos”, recorda Paulino, engenheiro electrotécnico.

Gerações de estudantes

As canções de Jacques Brel eram citadas com frequência pelo padre Miguel, mas as suas paixões musicais eram muito largas e intensas. Isabel Sassetti recorda que, ainda criança, o seu pai e Miguel Ponces de Carvalho, que eram muito amigos, passavam horas a tocar piano e cantar. “O padre Miguel compôs uma peça em que contava a criação do mundo, segundo o relato do Génesis”, recorda.

terça-feira, 1 de março de 2011

Um patriarca da estabilidade, intelectual reconhecido, um homem cansado do cargo


Todos lhe reconhecem um perfil de pensador e de referência na Igreja e no país, por entre críticas a algum esmorecimento da sua acção nos últimos anos. Aos 75 anos, idade-limite para os bispos, é tempo de balanço. Texto de António Marujo no "Público" de 27 de Fevereiro. Ler tudo aqui sobre uma figura que necessariamente tem a ver com o país todo.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Centenário de Messiaen na Sé de Lisboa

O centenário do compositor Olivier Messiaen está a ser assinalado na Sé de Lisboa, desde sábado, com a execução da integral de concertos para órgão, numa organização do pároco da Sé, Luís Manuel Pereira da Silva. Aqui fica o programa dos concertos que ainda nos esperam. Os textos são de António Esteireiro, do Instituto Gregoriano de Lisboa:


Nascido a 10 de Dezembro de 1908, Olivier Messiaen tornou-se mundialmente conhecido não só como compositor mas também como executante, fundamentalmente das suas próprias composições. A sua música caracteriza-se por um profundo sentimento religioso aliado a uma grande componente mística, continuando ainda hoje, dezasseis anos após a sua morte a servir de inspiração a várias gerações de intérpretes e compositores. A apresentação da sua obra integral para órgão na Sé Patriarcal de Lisboa surge no contexto da comemoração do centésimo aniversário deste compositor profundamente católico. Como introdução aos seus textos musicais o compositor propõe textos bíblicos e patrísticos para reflexão que serão comentados no contexto do concerto pelo Cónego Luís Manuel Pereira da Silva. Através da apresentação destes concertos pretende a Sé Patriarcal de Lisboa, com a colaboração do Instituto Gregoriano de Lisboa, dar a conhecer uma parte fundamental do património musical do século XX.


Terça, 2 de Dezembro de 2008, 21h30
Livre d’Orgue (1951-52)
Giampaolo Di Rosa/Roma-Porto
O terceiro concerto desta integral para órgão apresenta o ciclo mais complexo e abstracto que Messiaen dedicou ao seu instrumento de eleição durante mais de 60 anos. De carácter claramente especulativo e fazendo uso de várias técnicas combinatórias é resultado da influências dos cursos de Darmstadt, onde Messiaen também leccionou em 1951 e das paisagens montanhosas dos Alpes e Delfinato, local de criação deste ciclo. Este concerto traz mais uma vez até Lisboa Giampaolo Di Rosa, professor de Órgão da Escola das Artes da Universidade Católica Portuguesa – Centro Regional do Porto. Detentor de uma carreira de reconhecido mérito internacional, Giampaolo Di Rosa divide o seu tempo entre a uma intensa actividade artística e a investigação científica na área da música. O concerto será comentado pelo próprio intérprete que nos tentará ajudar a compreender um pouco melhor a complexidade desta proposta musical de Messiaen.


Sábado, 6 de Dezembro de 2008, 21h30
Meditations sur le Mystère de la Sainte Trinité (1969)
Edite Rocha e Classe de órgão da Universidade de Aveiro
No seguimento da celebração do centenário do nascimento de Olivier Messiaen, associa-se a esta integral outra das principais instituições de ensino superior de música em Portugal. O quarto concerto desta Integral das Obras para Órgão de Olivier Messiaen resulta de um projecto concretizado pela classe de órgão da Universidade de Aveiro sob a orientação da professora Edite Rocha. O ciclo de nove meditações sobre o Mistério da Santíssima Trindade foi à data da sua composição a maior obra para órgão escrita pelo compositor. Inspirado pela reinauguração do seu instrumento de eleição na Igreja da Santíssima Trindade em Paris, e pelas improvisações realizadas nesse concerto inaugural, Messiaen funde neste ciclo elementos fundamentais na sua escrita para órgão. Ao combinar o canto dos pássaros com citações de temas do repertório de canto gregoriano e com técnicas típicas da sua linguagem musical, consegue criar uma das mais importantes obras para órgão do século XX.


Terça, 9 de Dezembro de 2008, 21h30
Livre du Saint Sacrement (I) (1984)
Filipe Veríssimo/Porto e João Santos/Leiria
Escrito em 1984 depois de uma encomenda da cidade de Detroit, o Livro do Santíssimo Sacramento é não só a maior obra para órgão de Olivier Messiaen, mas também a última escrita pelo compositor. Criado depois da ópera São Francisco de Assis (1975-83) que ocupou o compositor ao longo de oito anos é um regresso do autor à escrita para órgão em contexto litúrgico. Devido à sua duração total, superior a duas horas, este ciclo será apresentado em dois concertos distintos mas complementares. No primeiro desses concertos ouviremos dois organistas formados na Escola das Artes da Universidade Católica Portuguesa, Centro Regional do Porto. Primeiramente ouviremos Filipe Veríssimo, mestre-de-capela e organista titular do órgão Jann da Igreja da Lapa no Porto, um dos instrumentos mais emblemáticos do nosso país. As intervenções musicais de Filipe Veríssimo serão intercaladas pelas de João Santos, professor de órgão em Leiria e organista titular de outro dos melhores instrumentos portugueses, o órgão Heintz da Catedral de Leiria. Trata-se de uma ocasião única de poder ouvir estes dois intérpretes em Lisboa no melhor instrumento da capital.


Quarta, 10 de Dezembro de 2008, 21h30
Missa em homenagem a Olivier Messiaen
António Esteireiro/Lisboa e Coro de Câmara e Coro Gregoriano do IGL
No dia 10 de Dezembro de 2008 celebraria Olivier Messiaen o seu centenário. Esta missa em homenagem a Olivier Messiaen repete o programa apresentado pelos mesmos intérpretes no último Festival Internacional de Órgão de Lisboa 2008, na Igreja de Nossa Senhora do Cabo em Linda-a-velha. A escolha do repertório para este recital tenta fazer uma síntese entre as várias práticas vividas por Olivier Messiaen na Igreja da Santíssima Trindade em Paris. Ao juntar no mesmo concerto obras do repertório solístico, com o Proprium gregoriano do dia e incluindo o motete O sacrum convivium, temos um pequeno vislumbre do contexto em que estas obras foram executadas originalmente. O repertório escolhido incide no período de composição que antecede a Segunda Guerra Mundial, em que foram compostos os primeiros três grandes ciclos para órgão. Os ciclos L’Ascension, La nativité du seigneur e Les corps glorieux fazem parte do repertório mais divulgado e executado de Messiaen. O Instituto Gregoriano de Lisboa é provavelmente a instituição portuguesa com maior tradição no ensino do órgão e da defesa e divulgação do repertório de canto gregoriano e associa-se a esta comemoração do centenário do nascimento de Messiaen através da realização deste concerto.


Sábado, 13 de Dezembro de 2008, 21h30
Livre du Saint Sacrement (II) (1984)
Markus Rupprecht/Regensburg
A segunda parte do Livre du Saint Sacrement, cuja primeira parte foi apresentada no dia 9 de Dezembro, é apresentada em Lisboa por um dos mais promissores talentos da nova geração de organistas alemães. Oriundo da Baviera, Markus Rupprecht dividiu o seu tempo de estudos entre Regensburg, Piteå na Suécia e Viena, trabalhando com alguns dos mais reputados pedagogos do nosso tempo, como são os casos de Hans-Ola Ericsson, Michael Radulescu e Franz Josef Stoiber. Um dos focos principais do seu repertório reside no domínio integral das obras para órgão de Messiaen, que durante este ano de 2008 o levou a apresentar-se em várias cidades europeias da Alemanha, Suécia e Áustria. Neste ciclo Messiaen faz uma síntese de todos os recursos musicais utilizados ao longo da sua carreira enquanto compositor. A utilização de vários tipos de modos, do canto de alguns pássaros da Palestina, aspectos relacionados com simbolismos, linguagem comunicável ou mesmo a métrica grega, fazem desta obra um monumento incomparável no repertório para órgão do século XX. A última parte deste ciclo traz-nos as meditações cuja temática se refere a episódios relacionados com a Eucaristia.


Domingo, 14 de Dezembro de 2008, 21h30
La Nativité du Seigneur (1935)

Classe de Órgão da Universidade de Évora
No penúltimo concerto desta celebração do centenário do nascimento de Olivier Messiaen, associa-se a esta integral outra das principais instituições de ensino superior de música em Portugal. Este concerto resulta de um projecto concretizado pela classe de órgão da Universidade de Évora sob a orientação do professor João Vaz. O ciclo de nove meditações dedicado à Natividade do Senhor foi escrito em Grenoble no ano de 1935. Sendo um dos ciclos mais apreciados pelo próprio compositor, foi uma das obras que mais reconhecimento internacional lhe trouxe, devido à forma inovadora como abordou a escrita para órgão. A utilização sistemática dos modos de transposição limitada, de um componente rítmica muito inspirada pelos ritmos hindus e de temas do repertório gregoriano modificados, tornaram este ciclo um dos mais importantes marcos da escrita para órgão na primeira metade do século XX.