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sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

“Uma carga preciosa”

Livros para oferecer no Natal (IV)


Texto de Eduardo Jorge Madureira

No início do mês de Setembro de 2015, uma criança aparecia morta numa praia da Turquia. Ficou depois a saber-se que era um menino sírio. Tinha três anos e chamava-se Alan Kurdi. As imagens terríveis que o mostravam só, deitado na orla do mar, como que adormecido, ou tombado no colo de um agente da polícia turca correram o mundo através das primeiras páginas da imprensa, provocando uma forte comoção. Alan Kurdi tinha-se afogado no Mediterrâneo, que o seu pai com ele tentou atravessar ansiando por uma vida de segurança na Europa.
A memória desta criança e das 4176 pessoas que, no ano seguinte, fugindo da guerra e da perseguição, morreram ou desapareceram em idêntica viagem inspirou Khaled Hosseini a escrever Uma Prece ao Mar. O livro, ilustrado por Dan Williams, dá voz a um pai que conta ao filho, chamado Marwan, como eram os dias felizes da sua infância na cidade de Homs, na Síria, antes de a guerra ter chegado. Os dois, na companhia de outras pessoas, estão na praia à espera da hora certa para partirem rumo à Europa. A Deus, o pai pede que conduza em segurança a embarcação. Ao mar, pede que se lembre do filho – “uma carga preciosa” – que nela viaja.  
Uma Prece ao Maré uma leitura muito recomendável para todos e, de um modo particular, para os mais novos.

Khaled Hosseini – Uma Prece ao Mar
Ilustração de Dan Williams. Tradução Manuela Madureira
Lisboa: Editorial Presença, 2018

(Nota: Uma parte das receitas deste livro, que o jornal britânico The Guardian transformou num surpreendente filme de animação, reverte a favor do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR). O filme pode ser visto a seguir (na sua versão inglesa): 


quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

O “problema grave” e as questões “ambientais, económicas e éticas” do desperdício alimentar

Livros para oferecer no Natal (III)

Texto de Eduardo Jorge Madureira

É possível que o livro Desperdício alimentar, de Iva Pires, professora da Universidade de Lisboa, não seja para muitos um livro oportuno para a quadra natalícia. Os que pouco se apoquentam em multiplicar o esbanjamento de comida nesta altura do ano acharão, com certeza, impertinente a ocasião escolhida para ouvir falar do tema.
Os que se encontram no lote de perdulários são, aliás, abundantes. A autora chama a atenção para a circunstância de não passar um dia sem vermos comida em perfeitas condições para consumo depositada no lixo: “Estima-se que cada português desperdice 100 quilos de alimentos por ano. Responda honestamente: qual foi o último alimento que pôs no lixo – e porquê?”
Em Desperdício alimentar, Iva Pires pede mais acção para lutar contra o que é tanto mais grave quanto se sabe que, no mundo, anualmente, ao mesmo tempo que se estragam 1,3 mil milhões de toneladas de alimentos, há 805 milhões de pessoas a padecer de subnutrição ou a viver numa situação de insegurança alimentar.
O livro começa com um exemplo simples: “Se em minha casa se estragar uma laranja numa semana, porque se compraram demasiadas e uma acabou por apodrecer, tendo em conta que somos 4 043 726 famílias em Portugal (em 2016, segundo a Pordata) e que uma laranja pesa em média 80 gramas, nessa semana deitaram-se para o lixo em Portugal 323 toneladas de laranjas, e por ano 16 800 toneladas”. Iva Pires calcula que isto se traduz num desperdício de 25 200 euros. Depois, sugere: “Façamos o mesmo exercício incluindo maçãs, peras, pão, alfaces ou iogurtes que, semanalmente e por razões variadas, acabam no lixo”. A dúvida colocada no fim do livro é pertinente: “Já pensaram o que representaria para a redução do desperdício alimentar em Portugal se todas as quatro milhões de famílias dessem um pequeno contributo?”

segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

O fanatismo como “inflexibilidade, sentimentalismo e falta de imaginação”

Livros para oferecer no Natal (II)

Texto de Eduardo Jorge Madureira

O romancista israelita Sami Michael descreveu uma viagem de táxi em que o motorista se pôs a predicar sobre quão importante era para os judeus, como ele próprio e o seu passageiro, que se matassem todos os árabes. Sami Michael escutava-o com enorme paciência e, em vez de se mostrar horrorizado e o mandar calar, decidiu perguntar-lhe quem deveria ter o encargo de matar a totalidade dos árabes. O taxista respondeu o que se lhe afigurava óbvio: “Nós! Os judeus! Temos de matá-los! É ou nós ou eles! Você não vê o que eles estão sempre a fazer-nos!” O escritor decidiu insistir na interrogação sobre quem, exactamente, deveria matar todos os árabes: “O exército? A polícia? Serão os bom­beiros? Ou os médicos de bata branca, com injecções?” O taxista, depois de uma pausa para calcular a melhor resposta, disse: “Temos de dividi-los irmãmente por cada um de nós. Cada homem judeu terá de matar uns quantos árabes”. Sami Michael prosseguiu a indagação: “Tudo bem. Digamos que você, por ser de Haifa, recebe um prédio de apartamentos em Haifa. Vai de porta em porta, toca à campainha e pergunta delicadamente aos moradores: ‘Perdão, serão por acaso árabes?’ Se a resposta for sim, dispa­ra e mata-os. Quando acaba de matar todos os árabes do seu prédio, volta para casa, mas, antes de se afastar, ouve de repente do andar mais alto o choro de um bebé. O que fazer? Voltar atrás? Subir as escadas e matar o bebé? Sim ou não?” Depois de um demorado silêncio, o taxista responde a Sami Michael: “Escute, senhor, você é uma pessoa muito cruel!”
A história é contada pelo escritor israelita Amos Oz no livro Caros fanáticos. Fé, fanatismo e convivência no século XXI como exemplo da confusão que prevalece no espírito de um fanático: “uma combinação de inflexibilidade, de sentimentalismo e de falta de imaginação”. Para Amos Oz, que é também um militante pela paz, Sami Michael conseguiu, ao trazer o bebé para a história, confundir o motorista de táxi, tocando-lhe na “corda emocional”. O episódio oferece também uma, ainda que ténue, esperança, uma vez que, como escreve Amos Oz, ao se ser instado a imaginar os detalhes do horror de que se faz a apologia, emerge um embaraço que é “uma pequena brecha súbita no muro da inflexibilidade fanática”.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

Pecadores impenitentes e pequenas epifanias

Livros para oferecer no Natal (I)

Texto de Eduardo Jorge Madureira

É a fotografia que empresta o título ao mais recente livro editado em Portugaldo escritor italiano Claudio Magris. Ele socorre-se, aliás, do Grande Dicionário da Língua Italiana para, logo no início de Instantâneos, explicar que o instantâneo é “obtido com um tempo de exposição muito curto, sem recurso a outros suportes”. A atenção do escritor dirige-se, pois, para pequenos acontecimentos quotidianos, susceptíveis de oferecer uma concisa reflexão ética, uma moralidade breve.
O tom dos cerca de cinquenta textos breves nunca é doutrinário e a ironia é frequente – como quando, por exemplo, conta uma história passada em Nova Iorque, na Galeria de Leo Castelli. Para contestar uma sentença judicial que condenou um artista por obscenidade, os quadros da exposição que a galeria apresenta estão cobertos por um pano preto. A certa altura, conta Claudio Magris, uma jovem, desconhecendo as marcas de protesto, vai olhando atentamente para esses panos pretos – “afasta-se e aproxima-se para observar melhor” – que parecem agradá-la e convencê-la.
Assaz divertida é também a história protagonizada por “um ilustre matemático dedicado a inalcançáveis estudos ultraespecializados” que foi dar um curso ao Collège de France. Tem sempre a sala cheia. Tal parece incompreensível pois aquilo que diz é imperceptível. A assistência não é, todavia, do género da jovem da exposição nova-iorquina, agradada e convencida, mas não vale a pena antecipar aqui a razão do sucesso do matemático.

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

A realidade humana é o lugar teológico mais importante

Nota de Agenda + Entrevista de António Marujo


Luciano Manicardi no final de 2012, em Lisboa
(foto © António Marujo)

Um livro, uma conferência sobre a mística do quotidiano e um encontro temático de dois dias sobre o seguimento de Jesus. Luciano Manicardi, prior da comunidade monástica de Bose (norte de Itália) e autor de A Caridade dá Que Fazere de vários outros livros, estará a partir desta sexta-feira, 5 de Outubro, em Lisboa, para várias actividades públicas que incluem a apresentação de um novo livro, Comentário à liturgia dominical e festiva – Ano C(ed. Paulinas). 
Sexta, dia 5, às 21h, Manicardi fará uma conferência sobre O quotidiano – lugar de revelação antropológica (entrada livre), no Centro Cultural Franciscano

(Largo da Luz, em Carnide. Sábado e domingo, dias 6 e 7, Manicardi, que junta à investigação bíblica o olhar da antropologia e da psicologia, animará um encontro (sujeito a inscriçõessobre o tema No seguimento de Jesus. Será no Mosteiro das Monjas Dominicanas, do Lumiar (Quinta do Frade, à Praça Rainha D. Filipa), também em Lisboa. 

No livro Comentário à liturgia dominical e festiva – Ano C, Manicardi aborda os textos da liturgia católica do próximo ano litúrgico (que se inicia no final de Novembro). “No Ano C da liturgia dominical, a Igreja propõe o Evangelho segundo Lucas à escuta e meditação por parte dos crentes. É um Evangelho com características muito especiais, como nos mostra frei Luciano Manicardi: ‘o Evangelho torna-se literatura’”, diz a editora, a propósito do livro. Na mesma nota, lê-se ainda que o evangelista Lucas se revela “um homem de Igreja inteligente e avisado, guiado por sentido pastoral evangélico e por um profundo sentido de humanidade”.
A estrutura da obra lucana “é muito simples: funda-se num plano geográfico e tem, no caminho de Jesus rumo a Jerusalém, ou antes, rumo ao Pai, o seu eixo condutor; a atenção prestada ao tempo leva Lucas a abordar o problema de como viver o Evangelho no dia a dia, com temáticas que têm levado várias pessoas a falar de ‘Evangelho social’ a propósito do terceiro Evangelho; do quotidiano, enfim, faz parte a relação interpessoal, a relação com o outro, e a confiança no amor misericordioso do Pai.”
Estas indicações darão o mote também para a conferência de sexta à noite. Nas suas obras, o prior de Bose (uma comunidade ecuménica de monges, que inclui homens e mulheres) confirma, como diz a editora, a “densidade humana e espiritual invulgares”, bem como o “aprofundado conhecimento” e a grande “sabedoria” na abordagem de questões de “grande relevância para a reflexão sobre a sociedade e a vivência cristã”. (Aqui podem ver-se outros elementos sobre os restantes títulos de Manicardi publicados em Portugal: Viver uma Fé Adulta – Itinerário para um Cristianismo credível, Memória do limite – A condição humana na sociedade pós-mortal, Ao Lado do Doente – 
O sentido da doença e o acompanhamento dos doentes Comentário à liturgia dominical e festiva – Ano B.)
Manicardi esteve já em Portugal por várias vezes, quer a convite da editora, quer da Fundação Betânia (entidades que o convidam de novo desta vez) quer, também, pela organização da Semana Social. Há seis anos, no Porto, Manicardi fez uma das intervenções de fundo da Semana Social desse ano, comentando a encíclica Deus Caritas Est, de Bento XVI.
Em Fevereiro de 2013, publiquei na revista Mensageiro de Santo António uma entrevista com Luciano Manicardi, a propósito dos seus livros A Caridade dá Que Fazer Viver uma Fé Adulta. É esse diálogo que a seguir se reproduz. 

A realidade humana é o lugar teológico mais importante

Diz que a tradição sapiencial bíblica nos ensina a fazer do cristianismo uma arte de viver o eros, a sofrimento, o trabalho ou a família. Luciano Manicardi, [prior] da comunidade monástica de Bose (norte de Itália), que reúne homens e mulheres, esteve em Portugal por ocasião da recente Semana Social da Igreja e da apresentação de dois livros seus. 
P. – No seu livro A Caridade dá Que Fazer, propõe reaprender a “gramática da caridade”. Esta necessidade é hoje mais urgente?
R. – Sim, porque há cada vez mais famílias e pessoas empobrecidas, com necessidade de assistência e sustento elementar. O meu receio é que, na actual crise, principalmente económica e financeira, os nossos governos intervenham com receitas muito técnicas, mas esqueçam a problemática social e familiar das pessoas. A justiça, que é a forma social da caridade, deve ter isto em conta. 

terça-feira, 15 de maio de 2018

Histórias e retratos bíblicos

Livro/Exposição


Afirmação sem novidade: a Bíblia é uma fonte inesgotável de inspiração para pintores, escultores, artesãos, arquitectos... A história da arte ocidental seria outra, caso não existisse o texto bíblico. Hoje, um dos âmbitos em que essa inspiração mais se tem concretizado é no da ilustração. Num texto aqui publicado há diasRébecca Dautremer, autora das ilustrações de Une Bible (ed. Hachette, ou Una Biblia na edição espanhola da Edelvives), diz que as histórias da Bíblia são “uma incrível fonte de imagens”. 
Cheio de histórias que traduzem muitas experiências humanas – de amor e ódio, de superação e transfiguração humana, de guerra e paz, de apelo à mais profunda humanidade –, o texto bíblico começa, em muitos casos, por ser “lido” através de pequenos episódios, ilustrados com múltiplas linguagens gráficas. Há múltiplos exemplos que vão desde as formas mais convencionais às que, apelando ao sentido do simbólico, acabam por assumir, também no desenho, aquilo que tantas vezes é o sentido do que está presente no texto. 
Histórias da Bíblia– Antigo Testamento, de J. Alberto de Oliveira (texto) e Evelina Oliveira (ilustração) (ed. Letras & Coisas) é mais um feliz exemplo da utilização da Bíblia numa bela síntese de texto e imagem. A obra centra-se em muitos personagens fulcrais na(s) história(s) bíblica(s) do Antigo Testamento: Eva e Adão, Noé, Sara, Abraão, Rebeca e Isaac, José, Moisés, Rute, Samuel, David, Elias, Job, Daniel e Susana, entre muitos outros e outras. Essa dimensão dá-nos, desde logo, um conjunto de retratos (em imagem e texto) que, além de se constituir como galeria de algumas das personagens fundamentais da história bíblica judaica, mostra que a Bíblia é, também, um texto de pessoas concretas. Bastaria folhear o livro e a sua sucessão de “retratos” ilustrados para ter essa percepção. 
Neste caso concreto, estamos perante uma ilustração que, apesar da importância que dá ao “retrato”, convoca profundamente a dimensão simbólica do texto bíblico. Ou seja, não se fica pelo carácter meramente ilustrativo do desenho, antes se assume como linguagem e texto complementares. Isso é evidente em muitas das ilustrações, desde as do primeiro capítulo (“Ao princípio”) às das páginas finais (por exemplo, com a história de Daniel e os leões, ou com Tobias a abrir as goelas do peixe para lhe retirar o fel que, sem o saber ainda, curaria o seu pai). 
Rébecca Dautremer perguntava, a propósito do seu trabalho: “Guardo um sentimento do sagrado. Pode-se desenhar a Jesus? Pode-se desenhar a Deus? Posso autorizar-me a ilustrar a Criação? A crucifixão? Perguntas intimidantes”, que exigem não “cair na paródia”, mas conservando a inteira “liberdade” da recriação. É essa liberdade que Evelina Oliveira tão bem consegue, através do seu traço e das cores utilizadas. 
Um dos impulsos importantes para fixar em texto as histórias bíblicas foi o exílio dos judeus na Babilónia e a necessidade de contar a história do que ali tinha levado. “No exílio, eles recordavam-se do Deus único, de uma promessa e das maravilhas de antes. De palavras no céu. De uma estrada no mar. E com estas velhas histórias eles vão escrever a sua esperança”, diz Serge Bloch (autor das ilustrações de Bible – Les Récits Fondateurs, também citada na ligação já referida antes. 
O autor do texto de Une Bible, Philippe Lechermeier, recordava a sua incapacidade de ter com os filhos a mesma criatividade que a avó tivera com ele, pois não encontrava, nas histórias bíblicas, “nem o ritmo nem a poesia nem a fantasia dos relatos” da sua avó. 

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

A Senhora de Maio – Todas as perguntas sobre Fátima


No último fim-de-semana foi posto à venda o livro A Senhora de Maio – Todas as perguntas sobre Fátima (ed. Temas e Debates/Círculo de Leitores), que tive o gosto de fazer com o meu camarada de profissão Rui Paulo da Cruz.
O livro será objecto de uma apresentação pública esta quarta-feira, dia 8, às 18h30, no Jardim de Inverno do Teatro São Luís, em Lisboa. A sessão conta com a participação, em forma de debate, da escritora Lídia Jorge (que assina o prefácio), do historiador Fernando Rosas e do antropólogo e professor da Universidade Católica, Alfredo Teixeira.

Idêntica sessão decorrerá no próximo dia 16, às 21h, no Auditório do Centro Missionário Allamano (Rua Francisco Marto 52), em Fátima, com Graça Poças Santos ​(​professora do Instituto Politécnico de Leiria e autora do livro Espiritualidade, Turismo e Território: estudo geográfico de Fátima​)​  e Maria Inácia Rezola ​(​historiadora, integrou a equipa da Documentação Crítica de Fátima e é autora do estudo Sindicalismo Católico no Estado Novo​)​.

O livro recolhe um conjunto de mais de vinte entrevistas e depoimentos com perspectivas muito diversas sobre o fenómeno de Fátima, a partir da teologia, espiritualidade, religiosidade popular, antropologia e sociologia. Testemunhos de contemporâneos dos acontecimentos de há 100 anos e alguns dos documentos fundamentais sobre os acontecimentos – incluindo uma carta de Lúcia ao cardeal cerejeira a falar sobre Salazar – são também publicados.
Entre os entrevistados, contam-se os bispos Januário Torgal Ferreira e Carlos Azevedo, o historiador António Matos Ferreira, frei Bento Domingues, os padres Mário de Oliveira e Luciano Cristino, o antigo e o actual reitor do santuário, padres Luciano Guerra e Carlos Cabecinhas, o cardeal Saraiva Martins, a psicanalista Maria Belo, o sociólogo Moisés Espírito Santo e o antropólogo Alfredo Teixeira.
No prefácio, escreve Lídia Jorge: “António Marujo e Rui Paulo da Cruz rodam a chave no sentido certo. Oxalá este livro (...) possa abrir o capítulo de uma discussão que convém ser serena na forma, mas por certo não poderá evitar a contradição, o debate e o confronto aberto das ideias em face da crença. Debate que sempre ultrapassa os níveis da razão e da ciência – mas não as ignora –, esse patamar de confronto tão difícil de alcançar em Portugal.”
Reproduzo a seguir a nota inicial dos dois autores (que fica completa com uma nota final, que se encontra no livro).

Para o leitor acrescentar novas perguntas e propor as suas próprias respostas

Texto de António Marujo e Rui Paulo da Cruz

Os fenómenos ocorridos na Cova da Iria em 1917 adquiriram grande relevância política e religiosa, não só naquela época. Mas, ao mesmo tempo, dividiram e dividem opiniões e emoções em Portugal e no mundo, mesmo entre os católicos. Fátima é fruto da imaginação de três crianças e da imposição do clero ou revela uma forte experiência espiritual? Ela reflecte o catolicismo popular daquele tempo ou apresenta o essencial do cristianismo? O fenómeno subsistiu por causa da oposição da República e do apoio do Estado Novo ou mantém-se pela sua grande modernidade religiosa?

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Laura Ferreira dos Santos (1959-2016): Católica das margens, em busca de uma ortodoxia maior


Laura Ferreira dos Santos, fotografada por José Caria/Visão 
(foto reproduzida daqui)

Em 2008, ela confessava imaginar o seu encontro com Deus como acontecendo num momento semelhante a um colorido pós-pôr do sol. “Tenho a sensação que só nessa altura, como se diz na Bíblia, todas as lágrimas do nosso rosto serão enxugadas e todas as dúvidas que temos e não conseguimos resolver racionalmente serão resolvidas. (...) A minha ideia do ‘outro lado’ é a de que simplesmente vamo-nos abraçar de imediato e dizer: ‘Finalmente!’” Laura Ferreira dos Santos, professora universitária e ensaísta, que se destacara nos últimos anos na defesa da morte assistida, morreu sexta-feira passada em Braga, após vários anos de luta contra um cancro. O funeral realizou-se sábado, para o Porto.
Autora de um Diário de uma Mulher Católica a Caminho da Descrença (ed. Angelus Novus, 2003 e 2008), em dois volumes, essa obra marcante no seu percurso foi ignorada nas notícias acerca da sua morte. Nela se definia como uma “católica nas margens”, mas em busca de “uma ortodoxia maior”.
Na entrevista que lhe fiz em 2008 e foi publicada no Público em 5 de Maio desse ano (entretanto também publicada no livro Diálogos com Deus em Fundo, ed. Gradiva), ela contava como escreveu este diário singular na literatura portuguesa, as suas distâncias e proximidades com o catolicismo e a fé.
Mais recentemente, numa entrevista ao suplemento Igreja Viva, do Diário do Minho, Laura Ferreira dos Santos actualizou as razões do seu envolvimento na causa da morte assistida, surgido precisamente por causa da experiência de sofrimento e de morte que enfrentou várias vezes entre os seus próximos e que levou mesmo a mudar o seu modo de entender a fé.
“Como acredito num Deus de amor, acredito também que Ele só pode querer o nosso melhor interesse. Infelizmente, em certas alturas, o nosso melhor interesse é morrermos, para assim escaparmos ao sofrimento atroz. Por isso, por vezes rezamos para que Deus ‘leve’ alguém o mais depressa possível”, dizia, na entrevista que pode ser lida aqui.
Nascida em Braga, a 27 de Março de 1959, Laura Ferreira dos Santos licenciou-se em 1982, na Faculdade de Filosofia da Universidade Católica Portuguesa. No ano seguinte, passou a leccionar na Universidade do Minho. Trabalhou no Instituto de Educação da UM (Departamento de Teoria da Educação e Educação Artística e Física) e, em 1996, prestou provas de doutoramento em Educação, na mesma Universidade, com uma tese sobre Pensar o desejo a partir de Freud, Girard e Deleuze.
Laura Ferreira dos Santos dedicou a sua investigação à Filosofia da Educação e bioética (neste último caso, especialmente às questões das escolhas de fim de vida). Entre as suas obras, incluem-se Educação e cultura em Nietzsche. Análise da primeira fase do seu pensamento, Pensar o desejo a partir de Freud, Girard e Deleuze (ambos ed. da Universidade do Minho), Alteridades feridas. Algumas leituras feministas do cristianismo e da filosofia (ed. Angelus Novus), Ajudas-me a morrer? A morte assistida na cultura ocidental do século XXI e Testamento Vital – O que é? Como elaborá-lo? (ambos na Sextante). Integrou também, desde Janeiro de 2009, a Comissão de Ética para a Saúde da Administração Regional de Saúde do Norte.

Como surgiu este Diário de uma Mulher Católica a Caminho da Descrença?
Já há muitos anos que escrevo. No segundo volume [do Diário…], de vez em quando há extractos de diários antigos. Escrevi sempre porque tinha vários problemas para resolver e porque a escrita foi sempre a melhor maneira de pensar sobre eles.
Há uma canção de Leonard Cohen, que diz mais ou menos: “Toca os sinos que ainda podes tocar,/ larga a tua oferta perfeita,/ em todas as coisas há uma fissura/ e é por aí que a luz entra.” Desde que a ouvi, tomei consciência de que andei sempre à procura dessa luz, não só em circunstâncias de sofrimento, mas também em outras mais favoráveis.

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

O Livro Aberto – Leituras da Bíblia

Agenda/Livro

Frederico Lourenço, professor universitário e tradutor de vários clássicos gregos, acaba de publicar O Livro Aberto – Leituras da Bíblia (ed. Cotovia)A obra será apresentada este sábado, no Porto (Teatro Nacional de São João, 19h), por Anselmo Borges, e na próxima sexta-feira, dia 13, às 18h, por José Tolentino Mendonça, na Livraria Pó dos Livros (Lisboa).
No prefácio da obra, Frederico Lourenço escreve: “ocorre-me que um jovem amigo católico, fervoroso na sua fé e entusiástico participante das actividades da sua paróquia, me disse há tempos as seguintes palavras: ‘tem graça, nunca li a Bíblia’. Se este meu livrinho – na sua forma variada de ir entretecendo reflexões sobre diferentes passagens bíblicas – levar alguém a empreender a sua leitura pessoal da Bíblia, dar-me-ei por plenamente realizado.”
Fazendo uma leitura pessoal de vários trechos, personagens e episódios bíblicos, o autor serve-se essencialmente do seu conhecimento do grego, língua em que foi escrito o Novo Testamento e a “Bíblia dos Setenta” (Septuaginta), que constituiu também a Bíblia dos primeiros cristãos.
No livro, Frederico Lourenço parte da questão geral de como é possível ler a Bíblia para se debruçar depois sobre temas e personagens diversos: Ezequiel, Job, Salomão, Ester, Jesus, São Paulo, as formas de leitura dos evangelhos ou os problemas de tradução, entre outros.
Confessando que parte de uma posição não religiosa na aproximação ao texto, o autor diz: “mesmo não acreditando que a Bíblia transmita ‘sem erro’ a palavra infalível de Deus e duvidando, ao mesmo tempo, que a correcta leitura da Bíblia seja relativizar e alegorizar tudo o que lá encontremos que não nos convém, mesmo assim considero o tempo gasto a ler este mais fascinante de todos os livros tempo ganho e (porque não?) infalivelmente bem empregue.”

Texto anterior no blogue
Francisco e o Vatileaks 2.0 - uma análise de Massimo Faggioli aos últimos casos policiais no Vaticano

quinta-feira, 28 de maio de 2015

Humor, teologia e fragmentos: um caminho espiritual

Nesta sexta-feira, às 18h30, Daniel Oliveira apresentará, na Igreja do Convento de São Domingos, de Lisboa (R. João Freitas Branco, 12), o livro O Bom Humor de Deus e Outras Histórias (ed. Temas e Debates/Círculo de Leitores). Este é o terceiro volume da antologia de crónicas do Público que frei Bento Domingues escreve no Público todos os domingos, há mais de 23 anos. No sábado, entre as 16h30 e as 17h30, Bento Domingues estará no espaço da Porto Editora, na Feira do Livro de Lisboa, para autografar os três volumes de antologias. Tal como os anteriores volumes, referidos no final deste texto, O Bom Humor de Deus tem uma introdução, escrita pelos organizadores da antologia, que aqui a seguir se reproduz, como aperitivo à leitura.



Texto de António Marujo e Maria Julieta Mendes Dias

A 4 de Outubro de 1998, frei Bento Domingues descrevia o seu labor como o de uma “teologia em fragmentos”. Nesse texto, intitulado “Nem fuga do mundo nem abandono ao mal do mundo”, identificava a necessidade de uma espiritualidade que não entenda o cristianismo como uma mística de “fuga do mundo” mas que não o reduza, tão pouco, a uma “mística de transformação do mundo”. E explicava: “É preciso recusar o império da lei do pêndulo. Prefiro o modelo do tear. Neste, o movimento entre extremos integra, num tecido, todos os fios da vida. Na apreciação do fenómeno religioso e das suas metamorfoses ainda continuamos a ser vítimas de uma visão pendular.”
Não há uma visão pendular na “teologia em fragmentos” de Bento Domingues. Nas suas diferentes intervenções cívicas, eclesiais e teológicas – e, de um modo especial, nas crónicas que, desde 3 de Maio de 1992, escreve, semana após semana, no Público – ele concretiza, de facto, o modelo do tear, que “integra todos os fios da vida”.
Aliás, já mais recentemente, frei Bento insistia naquele caminho. Na crónica de 14 de Setembro de 2014 (com o título “O desterro da teologia”), escrevia: “Não me sinto mal no caminho da ‘teologia do fragmento’, do provisório. Sou alérgico às declarações classificadas como definitivas, irreformáveis, de certo estilo de magistério eclesiástico. Em sentido contrário, não sou menos alérgico ao relativismo, ao vale tudo! Somos filhos do tempo, na escola de todas as épocas, lugares e culturas. O Verbo fez-se e continua a fazer-se ‘carne’, fragilidade humana no tecido dos múltiplos e contraditórios sinais dos tempos antigos e no mundo contemporâneo.”
Entre estas duas frases, apesar dos 16 anos de diferença, tece-se uma profunda relação e coerência na reflexão sobre a questão de Deus, pelo original caminho que propõe – e o catolicismo português só tem de estar grato ao diálogo do cristianismo com a cultura e à afirmação teológica que, na praça pública, frei Bento Domingues vem fazendo. (1) Ao mesmo tempo, essas duas frases condensam muito da intencionalidade da sua proposta espiritual – porque há uma proposta espiritual evidente nos textos de Bento Domingues.

* * *

Desde logo, estamos perante uma espiritualidade que se entende como imersa no mundo e com ele identificada. O que significa que assume a condição humana de que faz parte. Nem poderia ser de outro modo, tendo em conta a matriz cristã de frei Bento. Na sua expressão mais autêntica, o cristianismo entende que Deus, através da pessoa e da vida de Jesus, assumiu também a plena humanidade. Como escrevia em 5 de Março de 2000: “A complexidade do ser humano, enquanto processo permanente de personalização, não pode ser confundida com a “alma separada” nem com o corpo biológico. É constituída por um nó de relações com o mundo, com os outros, com a transcendência. São relações simbólicas. Não podem, por isso, ser vividas só dentro ou só fora de portas da vida interior.”

sábado, 9 de maio de 2015

Com Franqueza... - Crónicas num tempo em mudança

    Livro



O novo livro de Joaquim Franco recupera 71 crónicas publicadas no site da SIC ou ditas no programa Princípio e Fim da RR. 
São textos que atravessam dez anos de mudanças e perplexidades na religião, no mundo, em Portugal. A Paulinas Editora inaugura, com esta obra, uma nova colecção intitulada Sinais de Fronteira, e explica que Com Franqueza... faculta “flashes (clarões) produzidos pelo especial olhar” de Joaquim Franco, “em alguns momentos da nossa História, mas também da sua riquíssima história de repórter e cronista reconhecido”.
O autor, jornalista da SIC, investigador do Clepul (Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias), da Universidade de Lisboa, e em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona, analisa o tempo que passa e o mundo que fica, tendo como enquadramento a religião, o fenómeno religioso, as estruturas religiosas, nomeadamente a Igreja Católica, o mundo que se move pela religião e o outro que não entende a religião. As crónicas estão reunidas em seis capítulos: Igreja e Religião no tempo; Portugal; Religião e Desporto; Páscoa; Papa Ratzinger; Papa Bergoglio. 
Com Franqueza... foi apresentado em Lisboa no dia 4 de Maio, por Felisbela Lopes, da Universidade do Minho, António Sampaio da Nóvoa, ex-reitor da Universidade de Lisboa que assina o prefácio, António José Teixeira, director da SIC Noticias, e Ângela Roque, editora de Religião da Rádio Renascença (pode ver-se a gravação vídeo das intervenções clicando no respectivo nome).
Coube a Felisbela Lopes fazer a síntese da obra, que se transcreve a seguir:

É com todo o gosto que apresento o livro de Joaquim Franco. Porque é um livro especial, que interrompe a pressa com que nos habituamos a viver, fazendo-nos olhar devagar para periferias que nos vão estruturando como sociedade. Porque é escrito por um jornalista cujo trabalho aprecio imenso. Porque é sóbrio na postura e de grande densidade naquilo que faz.
Com Franqueza... a obra que aqui se apresenta é isso mesmo que o título evidencia. Um olhar límpido e despretensioso sobre várias realidades, com um foco particular no campo religioso, perspetivado com a distância de um jornalista que sabe do que fala. Se é para a reflexão que este texto nos interpela, convém que o autor seja rigoroso naquilo que escreve. Da primeira à última crónica, este princípio é cumprido. Percebemos sempre o que é da ordem do factual e o que pertence ao domínio impressivo do autor, havendo espaço para uma interpretação que é nossa, que é livre, que pode mesmo sair dos protocolos de leitura que uma crónica impõe.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

O inclassificável Péguy e os seus portais da esperança

Livro



Foi socialista e católico, um dos primeiros defensores do capitão Alfred Dreyfus (acusado de traição por ser judeu), depois de ter sido marcado desde a infância por Victor Hugo. Jornalista e poeta, Charles Péguy morreu há 100 anos, a 5 de Setembro de 1914, em plena I Guerra Mundial, durante a batalha do Marne (próximo de Paris). Um dos seus poemas mais importantes, Os Portais do Mistério da Segunda Virtude, será lido na íntegra esta quinta-feira, a partir das 21h30, na Capela do Rato, em Lisboa, pelo actor e encenador Luís Miguel Cintraa partir da tradução de Armando Silva Carvalho, publicada agora nas Paulinas.
Inclassificável, o gigantismo de Péguy nas letras francesas é admitido por todos. Por todos? Não: no Estado francês, há um reduto de quem o considera um factor de “demasiada divisão” para que ele possa ser ensinado, por exemplo, no programa de agregação de letras modernas, uma proposta que tinha sido feita por um grupo de intelectuais franceses.
O episódio deu-se no início deste ano, recorda a Histoire du Christianisme Magazine no seu número 74 (Novembro-Dezembro 2014). “Se expurgássemos a literatura francesa de todos os seus autores que são factores de divisão, pergunta-se quem poderia restar”, comenta Yves Bruley num artigo sobre Péguy, a propósito do centenário da sua morte no campo de batalha da I Guerra Mundial.
No prefácio da edição portuguesa d’Os Portais do Mistério da Segunda Virtude, José Tolentino Mendonça escreve sobre esse carácter poliédrico de Péguy: “Dizia-se dele que era um anarquista perigoso que, em vez de lançar petróleo, lançava água benta. Mas, àqueles que o acusavam de viver continuamente entre escolhas paradoxais, ele respondia que ‘apenas aprofundava o seu coração num único caminho’.” Apaixonado da causa social, militante socialista e membro das Conferências de São Vicente de Paulo, Péguy escreveu: “Não sou um santo. A santidade reconhece-se imediatamente. Sou um pecador bom. (...) Ninguém é mais competente do que o pecador em matéria de Cristianismo.”

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Este livro arde por dentro dos olhos

Livro



Na Bíblia abunda o sublime, inseparável do quotidiano? E Deus, anda ele entre as caçarolas? O texto bíblico abre para o infinito plural da interpretação? E o amor entre duas pessoas é profundamente espiritual?
O modo como José Tolentino Mendonça conjuga a Bíblia traduz um percurso raro, um labor original. O exegeta – e também poeta, autor de A Noite Abre Meus Olhos – é capaz de, num único texto, abrir horizontes, ver o que nunca se vira, cerzir pontas aparentemente soltas, desvendar sentidos recônditos. E fazer tudo isto devolvendo ao leitor um imenso prazer pelo texto.
A Leitura Infinita – Bíblia e Interpretação confirma o caminho iniciado em As Estratégias do Desejo (ed. Cotovia) e confirmado em A Construção de Jesus (Assírio & Alvim). A presente obra reúne textos de teologia e exegese bíblicas, alguns deles editados antes em publicações da especialidade, e agora revistos para este livro.
Não se pense que se trata de uma colectânea de textos avulsos sem outro nexo além do tema genérico. Bem ao inverso: há uma coerência que se aprofunda. A parte inicial faz um elogio da leitura narrativa do texto bíblico. Depois, o autor apresenta quatro temas fundacionais na Bíblia cristã: o escondimento e a revelação; a arte de amar; a cozinha, a mesa e a refeição; e a manifestação de Jesus. No final, há ainda três entrevistas, duas delas realizadas por quem assina estas linhas – facto que, espero, fique alheio ao que aqui se escreve.
Foi José Tolentino Mendonça quem revelou em Portugal a estratégia narrativa de aproximação ao texto bíblico. Os métodos de leitura da Bíblia – histórico-crítico, semiótico, de libertação, feminista, etc. – serviram, no último século e meio, para expurgar o texto da sua leitura mais tradicional ou, pior, fundamentalista. O método narrativo acrescentou-lhes um modo de olhar a Bíblia como um “jardim de lírios” da literatura, para utilizar a expressão de Oscar Wilde.
Um texto maior? Numa obra de 1946, sobre o realismo na literatura do Ocidente, Erich Auerbach fala da Odisseia e da Bíblia como dois paradigmas fundamentais. E, falando da Bíblia, escreve ainda Wilde: “Nem em Ésquilo nem em Dante, esses mestres supremos da ternura, nem em Shakespeare, o mais puramente humano de todos os grandes artistas, nem no conjunto das lendas e mitos celtas, onde a beleza do mundo é apresentada através de um nevoeiro de lágrimas (...), há alguma coisa que (...) possa considerar-se igual, ou mesmo aproximada...”

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Deus ainda tem futuro?

Livro e debates

Três debates assinalam, na próxima semana, no Porto, Coimbra e Lisboa, a publicação do livro Deus Ainda Tem Futuro? (ed. Gradiva). Coordenado por Anselmo Borges, o livro resulta do colóquio internacional Igreja em Diálogo 2013, realizado em Valadares (Gaia), em Outubro de 2013. O livro inclui ainda textos de Javier Monserrat e José Ignacio Gonzalez Faus, que não participaram no colóquio. O prefácio é de Eduardo Lourenço.
Os debates decorrem dias 2, 3 e 4 de Dezembro (terça, quarta e quinta da próxima semana). Nos dois primeiros, o tema é Deus na era da ciência e participam Anselmo Borges, Carlos Fiolhais (professor do Departamento de Física da Universidade de Coimbra) e Javier Monserrat (Universidade Autónoma de Madrid). No Porto, dia 2, o debate decorre na Fundação Cupertino de Miranda (Av. Boavista, 4245), a partir das 21h30. Em Coimbra, dia 3, será às 18h30, na Sala de São Pedro da Biblioteca Geral Universidade.
No dia 4, em Lisboa, na sede do Centro Nacional de Cultura (R. António Maria Cardoso, 68, ao Chiado), a partir das 18h30, o tema é Futuro sem Deus? Aqui, intervêm Anselmo Borges, Guilherme d’Oliveira Martins, presidente do CNC, Javier Monserrat e Miguel Oliveira da Silva, presidente do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida.


O livro aborda temas como o problema de Deus e do sentido último da existência; a situação religiosa do mundo contemporâneo; as representações e experiências de Deus no Ocidente e no Oriente; o rosto feminino de Deus; a autonomia da ética; a ciência e a razão; a genética, o animalismo, as neurociências, o trans-humanismo; a natureza e a criação.
Entre os autores estão nomes consagrados da teologia contemporânea como Paul Valadier, Juan Masiá, Andrés Torres Queiruga, González Faus e José Arregui, além de Isabel Gómez-Acebo, uma das autoras importantes da teologia no feminino. De outras áreas do saber vêm nomes como Jean-Paul Willaime, Carlos Fiolhais, Miguel Castelo-Branco, Leandro Sequeiros, Diego Gracia e Javier Monserrat, que cruza a filosofia, a neurologia e a teologia.
No prefácio, com o título Suicidário Ocidente, Eduardo Lourenço escreve: “Questão atrevida e que na verdade soa a blasfémia (ou soaria, se a formulássemos em terras do islão) esta, que sabemos grave como nenhuma outra para ocidentais em vésperas de descerem a noivas catacumbas: Deus ainda tem futuro? Quando aquela, menos vertiginosa mas não menos apocalíptica, seria: o Homem, a Humanidade, ainda tem futuro?”

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Orações que são poemas – Eterno agora, novo livro do padre António Rego

Agenda - Livro


“Orações que são poemas e que interpelam cada leitor de uma forma única”: é este o propósito do novo livro do P. António Rego, Eterno agora – Conversas com o Deus de sempre, que vai ser apresentado esta quinta-feira, em Lisboa.
“A sugestão destes textos provém do ritmo litúrgico, no ciclo anual que nos retoma, sempre mais à frente, sempre mais a fundo”, aponta o patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, na apresentação do volume editado pela Oficina do Livro.
“Não é repetição, mas insistência daquele Deus que ‘está à porta e bate’, sem se cansar de bater, até que lha abramos, franca e escancarada. Mas isso mesmo acontece ao correr da vida, como reencontro de amigos, que se retoma e adensa”, prossegue o patriarca de Lisboa.
(a continuação do texto pode ser lida aqui)