Mostrar mensagens com a etiqueta Natal. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Natal. Mostrar todas as mensagens

sábado, 22 de dezembro de 2018

O que é que aconteceu ao Natal?

Opinião de Joana Rigato


Presépio de José Aurélio no Santuário de Fátima

Há dias foi a festa de Natal da escola dos meus filhos. Uma escola pública muito bem conceituada, onde os professores e os pais se envolvem para tornar possível um espetáculo de duas horas e meia, que enche um cinema inteiro. O palco estava muito giro, decorado com caixas gigantes a simular prendas, para dar contexto cénico às atuações dos miúdos. Tudo graças ao envolvimento pessoal de montes de gente que ofereceu o seu tempo para fazer aquilo. Admirável.
Mas voltei a ficar perplexa e triste, como todos os anos. Há três anos que vou a estas festas de Natal. No total já assisti a 27 atuações (nove turmas, portanto nove atuações por ano) e, até agora, não houve uma que falasse de Jesus e do presépio, da origem da festa do Natal na nossa cultura (cujas raízes são cristãs, quer se queira quer não). Não houve sequer nenhum turma que encenasse alguma estória que focasse o espírito de solidariedade e amor que é suposto ser o cerne desta festa. Nem uma. 
Não peço muito: um conto, um poema, uma música, uma história lida pelos miúdos, sei lá, que fale, por exemplo, de alguém que está sozinho e passa a ter amigos no Natal. Alguém que não tem o que comer ou vestir, e é ajudado no Natal. Alguém que aprende a perdoar, a incluir, a amar de forma mais generosa no Natal. Uma família que está dispersa e se reúne e faz as pazes no Natal. Nada disso. 

sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

“Uma carga preciosa”

Livros para oferecer no Natal (IV)


Texto de Eduardo Jorge Madureira

No início do mês de Setembro de 2015, uma criança aparecia morta numa praia da Turquia. Ficou depois a saber-se que era um menino sírio. Tinha três anos e chamava-se Alan Kurdi. As imagens terríveis que o mostravam só, deitado na orla do mar, como que adormecido, ou tombado no colo de um agente da polícia turca correram o mundo através das primeiras páginas da imprensa, provocando uma forte comoção. Alan Kurdi tinha-se afogado no Mediterrâneo, que o seu pai com ele tentou atravessar ansiando por uma vida de segurança na Europa.
A memória desta criança e das 4176 pessoas que, no ano seguinte, fugindo da guerra e da perseguição, morreram ou desapareceram em idêntica viagem inspirou Khaled Hosseini a escrever Uma Prece ao Mar. O livro, ilustrado por Dan Williams, dá voz a um pai que conta ao filho, chamado Marwan, como eram os dias felizes da sua infância na cidade de Homs, na Síria, antes de a guerra ter chegado. Os dois, na companhia de outras pessoas, estão na praia à espera da hora certa para partirem rumo à Europa. A Deus, o pai pede que conduza em segurança a embarcação. Ao mar, pede que se lembre do filho – “uma carga preciosa” – que nela viaja.  
Uma Prece ao Maré uma leitura muito recomendável para todos e, de um modo particular, para os mais novos.

Khaled Hosseini – Uma Prece ao Mar
Ilustração de Dan Williams. Tradução Manuela Madureira
Lisboa: Editorial Presença, 2018

(Nota: Uma parte das receitas deste livro, que o jornal britânico The Guardian transformou num surpreendente filme de animação, reverte a favor do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR). O filme pode ser visto a seguir (na sua versão inglesa): 


segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

O fanatismo como “inflexibilidade, sentimentalismo e falta de imaginação”

Livros para oferecer no Natal (II)

Texto de Eduardo Jorge Madureira

O romancista israelita Sami Michael descreveu uma viagem de táxi em que o motorista se pôs a predicar sobre quão importante era para os judeus, como ele próprio e o seu passageiro, que se matassem todos os árabes. Sami Michael escutava-o com enorme paciência e, em vez de se mostrar horrorizado e o mandar calar, decidiu perguntar-lhe quem deveria ter o encargo de matar a totalidade dos árabes. O taxista respondeu o que se lhe afigurava óbvio: “Nós! Os judeus! Temos de matá-los! É ou nós ou eles! Você não vê o que eles estão sempre a fazer-nos!” O escritor decidiu insistir na interrogação sobre quem, exactamente, deveria matar todos os árabes: “O exército? A polícia? Serão os bom­beiros? Ou os médicos de bata branca, com injecções?” O taxista, depois de uma pausa para calcular a melhor resposta, disse: “Temos de dividi-los irmãmente por cada um de nós. Cada homem judeu terá de matar uns quantos árabes”. Sami Michael prosseguiu a indagação: “Tudo bem. Digamos que você, por ser de Haifa, recebe um prédio de apartamentos em Haifa. Vai de porta em porta, toca à campainha e pergunta delicadamente aos moradores: ‘Perdão, serão por acaso árabes?’ Se a resposta for sim, dispa­ra e mata-os. Quando acaba de matar todos os árabes do seu prédio, volta para casa, mas, antes de se afastar, ouve de repente do andar mais alto o choro de um bebé. O que fazer? Voltar atrás? Subir as escadas e matar o bebé? Sim ou não?” Depois de um demorado silêncio, o taxista responde a Sami Michael: “Escute, senhor, você é uma pessoa muito cruel!”
A história é contada pelo escritor israelita Amos Oz no livro Caros fanáticos. Fé, fanatismo e convivência no século XXI como exemplo da confusão que prevalece no espírito de um fanático: “uma combinação de inflexibilidade, de sentimentalismo e de falta de imaginação”. Para Amos Oz, que é também um militante pela paz, Sami Michael conseguiu, ao trazer o bebé para a história, confundir o motorista de táxi, tocando-lhe na “corda emocional”. O episódio oferece também uma, ainda que ténue, esperança, uma vez que, como escreve Amos Oz, ao se ser instado a imaginar os detalhes do horror de que se faz a apologia, emerge um embaraço que é “uma pequena brecha súbita no muro da inflexibilidade fanática”.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

Pecadores impenitentes e pequenas epifanias

Livros para oferecer no Natal (I)

Texto de Eduardo Jorge Madureira

É a fotografia que empresta o título ao mais recente livro editado em Portugaldo escritor italiano Claudio Magris. Ele socorre-se, aliás, do Grande Dicionário da Língua Italiana para, logo no início de Instantâneos, explicar que o instantâneo é “obtido com um tempo de exposição muito curto, sem recurso a outros suportes”. A atenção do escritor dirige-se, pois, para pequenos acontecimentos quotidianos, susceptíveis de oferecer uma concisa reflexão ética, uma moralidade breve.
O tom dos cerca de cinquenta textos breves nunca é doutrinário e a ironia é frequente – como quando, por exemplo, conta uma história passada em Nova Iorque, na Galeria de Leo Castelli. Para contestar uma sentença judicial que condenou um artista por obscenidade, os quadros da exposição que a galeria apresenta estão cobertos por um pano preto. A certa altura, conta Claudio Magris, uma jovem, desconhecendo as marcas de protesto, vai olhando atentamente para esses panos pretos – “afasta-se e aproxima-se para observar melhor” – que parecem agradá-la e convencê-la.
Assaz divertida é também a história protagonizada por “um ilustre matemático dedicado a inalcançáveis estudos ultraespecializados” que foi dar um curso ao Collège de France. Tem sempre a sala cheia. Tal parece incompreensível pois aquilo que diz é imperceptível. A assistência não é, todavia, do género da jovem da exposição nova-iorquina, agradada e convencida, mas não vale a pena antecipar aqui a razão do sucesso do matemático.

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

O Natal tem nome? E que procuras em 2018?


Que nome damos ao Natal? Falamos do Natal das “religiões laicas”? Falamos do papel da narrativa ou dos avós? Falamos do Natal da compra que nos destitui da nossa identidade? Ou do Natal do consumo e da “retórica mentirosa”, que quase interdita (como acontece no espaço mediático e em escolas públicas) que se fale de Jesus, a sua razão primeira? Falamos do desafio de “ir a Belém sem palas nos olhos” e de um Deus que não tem religião – e que, por isso, apela a passar “da religião à fé”?
Todas estas questões – e muitas mais – passaram pelo debate O Natal tem nome?, uma emissão especial da SIC Notícias na véspera e no dia de Natal. Moderado pelo jornalista Joaquim Franco, o debate teve a participação de Fernando Ventura, frade franciscano e biblista, Joana Rigato, pós-doutorada em filosofia das neurociências, Annabela Rita, professora de Literatura Portuguesa, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, e José Brissos Lino, pastor protestante. O programa pode ser visto aqui ou no vídeo acima reproduzido.

No mesmo formato, a SIC Notícias irá transmitir nos próximos dias 31 (17h) e 1 de Janeiro (1h30 e 15h) o debate Que procuras em 2018?, onde serão tratadas questões como o papel das religiões e do catolicismo, o lugar da mulher nas instituições religiosas, a crise europeia a propósito dos refugiados, o futuro do Médio Oriente, o protagonismo do Papa Francisco.
Participam neste debate a deputada e ex-secretária de Estado para a Cidadania e Igualdade, Catarina Marcelino, o historiador José Eduardo Franco, e os jornalistas Lumena Raposo e António Marujo.

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Músicas que falam com Deus (37) - Voz despida, voz pura de Natal

 


Em português, nua é o mesmo que despida; em gaélico, “nua” significa novo, fresco, puro. A maestrina irlandesa Aoife (lê-se Ifa) Hiney, radicada em Aveiro há vários anos, traduz assim a polissemia dos objectivos e do repertório do Voz Nua, que fundou em 2012: voz sem instrumentos e, por isso, pura, fresca, nova (mesmo se, em quatro temas, o piano está presente, para sublinhar a riqueza e pluralidade melódica de que a voz é capaz). Neste disco de Natal, o grupo mostra isso mesmo, dando vida nova a canções que ouvimos muitas vezes. É o caso de Joy to the World, Stille Nacht/Noite Feliz, Meia Noite Dada, ou até um por vezes irritante Santa Claus is coming to town, que aparece aqui com a ternura própria do Natal e um trabalho vocal muito rico. Mas o disco também revela pérolas puras ou tesouros mais escondidos, como Walking in the air, Hodie Nobis Caelorum ou Suantrai ár Slánaitheora, belíssima canção de embalar irlandesa que resume o mistério: “Tu és do meu sangue, meu amor, minha adoração/ Meu pequeno, lindo filho/ Só eu vou cuidar de ti.” Um disco jubiloso.

(Texto publicado na revista Além-Mar, disponível aqui; sobre este disco, o coro Voz Nua e a maestrina Aoife Hiney pode ouvir-se aqui o programa de Manuel Vilas Boas na TSF, que passou neste fim-de-semana de Natal.)

Nativitas
Intérpretes: Voz Nua; dir. Aoife Hiney; edição: Voz Nua


sábado, 7 de janeiro de 2017

Uma música para o dia de Natal (que hoje volta a ser, no calendário ortodoxo juliano)

Hoje volta a ser dia de Natal. No calendário juliano, seguido por várias Igrejas Ortodoxas, hoje é de novo 25 de Dezembro. A este propósito, pode ouvir-se Perinatal, um projecto de Tomáš Reindl, músico e compositor checo, que ainda em Junho último tocou algumas das suas peças na Igreja do Santo Salvador, onde está sediada a paróquia católica universitária, no centro histórico de Praga. Nesta nova peça (disponível numa ligação no final), uma composição meditativa baseada num projecto ainda em andamento, intitulado Ingrediente, o autor inspira-se em antigas tradições da música espiritual europeia (nomeadamente do canto e da polifonia medieval).


Os eslavos na sua terra natal, primeiro quadro da série Épica Eslava
de Alphonse Mucha (imagem reproduzida daqui)

Tomáš Reindl explica que essa inspiração foi como que “carregada” na peça e cruzada com sons do século XXI, em que se destacam “improvisações e novas possibilidades de processamento de som”.
A matéria-prima da composição vem da improvisação sobre três cantos tradicionais de Natal, complementados com a estrutura de peças polifónicas e trabalho adicional de estúdio, bem como o processamento de som sensível, o que cria uma atmosfera única. 
O tema central da composição é o fenómeno do nascimento de um homem, tomado quer no sentido espiritual quer na sua expressão secular. No início da peça, pode ouvir-se o ambiente de um centro comercial com músicas checas tradicionais de natal, reduzidas de modo a funcionar como estímulo às compras de Natal.

A peça tem a participação dos seguintes músicos:
Jiří Hodina – voz, violino
Jan Jirucha – trombone
Tomáš Reindl – saltério medieval, clarinete, tablas, voz, didjeridu, processador
Markéta Schley Reindlová – orgão
Matyáš Reindl (filho do autor) – voz e saltério

Os textos, em latim, são cantos gregorianos de Natal e reproduzem-se a seguir, no original:

Labia mea aperies et os meum adnuntiabit laudem tuam.

Christus natus est nobis, venite adoremus.
Venite exultemus Domino, Jubilemus Deo salutari nostro,
praeocupemus faciem ejus, in confesione, et in psalmis jubilemus ei.

Christe Redemptor omnium,
Ex Patre Patris Unice,
Solus ante principium
Natus ineffabiliter:
Tu lumen, tu splendor Patris,
tu spes perennis omnium,
intende quas fundunt preces
tui per orbem servuli.


Publicação anterior no blogue
A humanidade e o sagrado são,nela, uma e a mesma coisa – o livro Maria, com obras de arte relacionadas com a figura de Maria de Nazaré

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Um presépio no meio da cidade ou “por aí”, entre refugiados e perseguidos


A irmã Irene Guia num dos campos de refugiados por onde passou
(foto reproduzida daqui)

Fazer um presépio pode ser objecto de discussão num mosteiro, como conta a irmã Maria Domingos, monja no Mosteiro de Santa Maria, do Lumiar (Lisboa). “Não vivemos para outra coisa senão o louvor de Deus, a celebração da liturgia, a vida fraterna, dar um testemunho de que há outra maneira de estar na vida... damos o essencial do tempo ao silêncio”, conta também ela, na entrevista a Manuel Vilas Boas, onde se fala do quotidiano, de pequenas histórias e da proposta de uma espiritualidade diferente. E onde se termina a conversa evocando a cítara e a poesia de José Augusto Mourão. Para ouvir aqui.

Bem mais longe, Irene Guia, que estudou música em Viena, fala de um presépio com outras músicas, um presépio que “anda por aí”, em pleno Curdistão iraquiano, depois de ter estado em missões de apoio a refugiados em lugares como os Camarões, Timor, Ruanda ou República Democrática do Congo. Estar onde haja gritos”, diz esta religiosa das Escravas do Sagrado Coração de Jesus, que quer apenas ajudar a “manter a esperança”, incluindo a dos yazidis, populações que têm sido chacinadas e cujas mulheres são, muitas vezes, vendidas e revendidas. A entrevista pode ser escutada aqui. 

Na revista Bíblica, de Maio-Junho 2015, publiquei um texto sobre a irmã Irene Guia, onde ela conta o seu trajecto pessoal e nas várias missões de apoio a refugiados, com o Serviço Jesuíta aos Refugiados. O artigo fica a seguir na íntegra.

Ter na pele a sensação de ter salvo uma vida

Viu Saidi a correr para ela e nesse momento sentiu na pele a sensação de ter salvo uma vida. Viu Jimmy morrer com um tumor e foi pedir mais meios para evitar mortes assim. E viu a esperança que faz com que pessoas no limite “consigam padecer o incalculável.”

Chegou de capacete na cabeça, partiu depois de o colocar de novo, sentada na motorizada da congregação, que utiliza nas suas deslocações em Lisboa.
Houve um dia, num campo de refugiados do Congo, em que a motorizada poderia ter dado jeito à irmã Irene Guia, 55 anos, das Escravas do Sagrado Coração de Jesus. O pequeno Saidi, 14 anos que mais pareciam oito, mal nutrido, ventre enorme, mãe doente, foi identificado como precisando de cuidados de saúde. Mas tinha de andar 100 metros até ao posto de atendimento. Quando percebeu isso, começou a chorar.
“Um homem que me acompanhava pô-lo às cavalitas e ele parou o choro.” A mãe, que tinha um cancro e era igualmente mal nutrida, foi levada com o filho para o hospital. “Duas semanas depois, fui visitá-los. Quando me viu, Saidi desatou a correr. Nesse dia, tive a sensação na pele de que tinha salvo uma vida.”

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Uma biografia (im)possível de Jesus

Quem foi Jesus? E quem é ele hoje? A cada 25 de Dezembro os cristãos celebram o seu nascimento, mas, quanto à sua vida subsistem muitas dúvidas e mistérios. Fomos saber quais as mais recentes teses sobre este “judeu marginal” que “viveu num recanto do Império Romano”. Este texto foi originalmente publicado no Público de 23 de Dezembro de 2011. 


Sieger Koder, Última Ceia (imagem reproduzida daqui)


Um profeta ou um blasfemo? Um subversivo ou um sedutor? Um homem ou um deus? Um marginal ou um judeu da elite? Um amigo dos pobres e das mulheres ou um opositor aos líderes religiosos do seu tempo? Um político ou um mestre espiritual? Um sonhador ou um revolucionário?
Impossível compor uma biografia de Jesus de Nazaré, cujo nascimento é assinalado desde há séculos a 25 de Dezembro – mesmo se não há certezas sobre a data exacta ou sequer sobre o próprio nascimento. Começamos então por ver que sabemos pouco. Ou talvez não. Ed Parish Sanders, um dos mais importantes estudiosos sobre a personagem histórica de Jesus, escreve n’A Verdadeira História de Jesus (ed. Notícias/Casa das Letras): “Há muitos aspectos sobre o Jesus histórico que permanecerão um mistério.”
Não se sabe, por exemplo, quando e onde nasceu exactamente – apesar de, na festa do Natal, se assinalar a cidade de Belém como lugar onde veio à luz, segundo a tradição. Não se sabe se teve irmãos, embora John P. Meier, autor de Um Judeu Marginal – Repensando o Jesus Histórico (ed. Imago/Dinalivro), uma das obras maiores dos estudos contemporâneos sobre Jesus, aponte para a probabilidade de serem legítimos os vários irmãos de Jesus.
Não se sabe ainda como viveu durante os primeiros 30 anos da sua vida. Não se sabe se se casou – Meier diz que tudo aponta para que tenha permanecido celibatário. Desconhece-se se Jesus tinha consciência plena da sua missão –  ou, na linguagem crente, se era Deus.
Sabemos pouco, então, sobre Jesus? O mesmo E. P. Sanders escreve: “Sabemos que iniciou a vida pública sob João Baptista, que teve discípulos, que esperava o Reino, que foi da Galileia para Jerusalém, que fez algo hostil ao Templo, foi julgado e crucificado.” Sabemos ainda “quem era, o que fez, o que ensinou e por que morreu; e, talvez o mais importante, sabemos como inspirou os seus seguidores, que, por vezes, não o entenderam, mas que lhe foram tão fiéis que mudaram a História”.

Bilhete de identidade

Uma biografia impossível? À procura de respostas, a Sociedade Missionária da Boa Nova organizou o colóquio Quem foi, quem é Jesus Cristo? [as actas foram entretanto publicadas, com o mesmo título, pela Gradiva]. A convite do teólogo e filósofo Anselmo Borges, vários pensadores e especialistas contemporâneos passaram por Valadares (Gaia), em Outubro [de 2011], dando um panorama do que se conhece sobre Jesus, em várias áreas. Acompanhámos a iniciativa, que contou com a participação de alguns dos mais destacados teólogos espanhóis.

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Darth Vader invadiu o presépio de Alice Vieira, mas uma ambulância do INEM tratou do assunto

Pode Darth Vader invadir um presépio e um avião do INEM resolver o assunto? Em casa da escritora Alice Vieira, isso é possível, por causa dos netos. Mas o primeiro presépio feito pela autora de Histórias da Bíblia para Ler e Pensar foi quando nasceu a filha. Nessa altura – estava-se na época após a revolução de 25 de Abril de 1974 – o presépio de Alice chegou a incluir cartazes com várias reivindicações. Os presépios podem servir também para estimular a criatividade, diz Alice Vieira nesta entrevista ao programa Ecclesia, durante a qual mostra alguns dos seus mais de 60 presépios. E recorda que o Natal deve ser, sobretudo, um tempo em que cada pessoa se esforce para estar com outras.



Texto anterior no blogue
Laura Ferreira dos Santos (1959-2016): Católica das margens, em busca de uma ortodoxia maior

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Advento: Maria, José e a manjedoura



Oração de Maria

a fonte de Deus é a luminosa torrente
que alimenta aquilo que sou

e afasta de mim toda a secura:

por isso, na fonte de Deus eu espero

a mão de Deus é o mapa e a viagem
sei que me acompanha e sustém
mesmo quando eu não vejo:

por isso, na mão de Deus espero

o silêncio de Deus é a palavra

que desde o princípio do tempo

por dentro do amor vem sendo dita:
por isso, no silêncio de Deus eu espero


sábado, 9 de janeiro de 2016

Histórias e mitos sobre os presépios, e canções portuguesas de Natal


Presépio da Madre de Deus, séc. XVIII. Museu Nacional do Azulejo, Lisboa 
(foto reproduzida daqui)

A geografia, por exemplo: os presépios do século XVIII, em Lisboa, são sobretudo montados em anfiteatro, recriando a orografia da própria cidade; os do Norte aprofunda essa lógica, ainda mais abruptos e escarpados; já os de Aveiro são mais planos. Ou a posição das mãos da Virgem: se estão em adoração, remetem para a imagem do Menino como Filho de Deus; se estão cruzadas sobre o peito, falam do filho do homem e da mãe que contempla o seu filho; se levanta um tecido e expõe o menino, trata-se da rainha que mostra o seu herdeiro.
Estes são alguns dos pormenores sobre o presépio tradicional português explicados no programa Encontros sobre o Património, da TSF, dedicado precisamente a esse tema, na emissão de hoje, ao terminar a semana de Reis.
No programa, fala-se também dos primeiros presépios, montados em argila, no século XIII, sob a inspiração de Francisco de Assis; do modo como o presépio foi sendo apropriado por conventos, nobres e povo; da introdução da árvore de Natal por D. Fernando II e da crítica que Ramalho Ortigão faz a essa novidade; ou dos grandes presepistas portugueses, como António Ferreira ou Joaquim José de Barros (Barros Laborão), e também Joaquim Machado de Castro – que, como também se ouvirá, não fez tanto como se imagina.
São convidados do programa Alexandre Pais, Anísio Franco, Maria João Vilhena e o padre franciscano Joaquim Carreira das Neves. O programa pode ser escutado aqui.


No dia de Natal, Manuel Vilas Boas conversou com o compositor João Madureira, sobre o disco Canções de Natal Portuguesas.
As oito canções, executadas por 38 vozes infantis do conservatório de Carnide, em Lisboa, sob a batuta de Joana Carneiro, recuperam e recriam tradições populares, em versões de vários compositores. O programa e as músicas podem ser ouvidas aqui.

Texto anterior no blogue




domingo, 27 de dezembro de 2015

Do Natal intemporal ao diálogo inter-religioso

Parte-se dos atentados em Paris a 13 de Novembro, para falar depois sobre o olhar dos três monoteísmos acerca da guerra e da violência e do conceito de Deus. O diálogo inter-religioso é o mote para esta conversa moderada por Manuel Vilas Boas na TSF e na qual participam a muçulmana ismaili Faranaz Keshavjee, Joshua Ruah, da Comunidade Judaica de Lisboa e o padre católico Joaquim Carreira das Neves, franciscano e investigador da Bíblia.

Também da autoria de Manuel Vilas Boas é a reportagem com frei Lopes Morgadodos franciscanos capuchinhos, durante a apresentação do livro Natal Intemporal, feita em Areias de Vilar (Barcelos), terra do autor. Além dos poemas, o livro mostra 121 dos cerca de 1300 presépios da colecção Evangelho da Vida.



Texto anterior no blogue
Natal: Médio Oriente, guerras e refugiados - cenas de guerra em zona de paz (mensagens de Natal e uma reportagem fotográfica na ilha de Lesbos)