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quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

Taizé (finalmente) em Madrid: não esquecer a hospitalidade

Texto de António Marujo


Igreja da Reconciliação, em Taizé: a partir desta sexta-feira, a comunidade muda-se para Madrid 
(foto reproduzida daqui)

A partir desta sexta-feira, 28, a comunidade monástica ecuménica de Taizé anima em Madrid o seu encontro europeu da peregrinação de confiança sobre a Terra, designação dada às iniciativas que reúnem jovens de diferentes origens e proveniências. A capital espanhola acolhe deste modo, pela primeira vez, tal iniciativa, depois de Barcelona (1979, 1985 e 2000), Lisboa (2004) e Valência (2015).  
Nesta última cidade está, aliás, a chave para perceber a escolha de Madrid: quando era bispo da capital valenciana, o actual arcebispo de Madrid, Carlos Osoro Sierra, convidou a comunidade a animar o encontro do final de ano de 2015 em Valência. 
Um ano e meio antes, em Agosto de 2014, já com a decisão tomada, o Papa nomeou Carlos Osoro como arcebispo de Madrid. Esta escolha já não permitiu que fosse ele a acolher a comunidade em Valência, mas o seu sucessor, Antonio Cañizares Llovera. É fácil perceber que o entretanto nomeado cardeal Osoro não perdeu tempo a convidar de novo a comunidade, desta vez para Madrid, onde o encontro nunca se tinha realizado. 
Numa nota de imprensa, a comunidade de Taizé destaca que Madrid “já foi palco de importantes encontros, eventos internacionais e acordos de paz” e que, por isso, este encontro será enriquecido “pelos valores de solidariedade que os habitantes e instituições de Madrid gostam de partilhar”. 
Até ao próximo dia de Ano Novo, os mais de 20 mil participantes que entretanto estão a chegar à capital espanhola são acolhidos por milhares de famílias ou em instituições eclesiais de 170 paróquias. Entre eles, estarão várias centenas de portugueses, e ainda 3500 polacos e mais de 2000 ucranianos. Há duas semanas, ainda faltavam oito mil lugaresmas a disponibilidade para acolher os jovens aparece sempre, em cima da hora. 
O encontro inicia-se na tarde desta sexta-feira, com uma oração comunitária às 19h30 (menos uma hora em Lisboa), no pavilhão 4 da Feira Internacional de Madrid (Ifema). Sábado, domingo e segunda, os jovens reúnem-se no mesmo lugar, sempre às 19h30. De manhã, os jovens participam em debates por pequenos grupos nas paróquias da cidade, centrados no tema “Não esqueçamos a hospitalidade!”, proposto pelo irmão Aloïs, prior da comunidade, na carta que orientará a reflexão dos jovens que irão a Taizé durante o próximo ano
Descobrir em Deus a fonte da hospitalidade, estar atentos à presença de Cristo na vida de cada pessoa, acolher os próprios dons e limitações, encontrar na comunidade da Igreja um lugar de amizade e ser generoso(a) na hospitalidade são as propostas da carta para os jovens concretizarem. “No meio das dificuldades actuais, quando muitas vezes a desconfiança parece ganhar terreno, teremos juntos a coragem de viver a hospitalidade e, assim, aumentar a confiança?”, pergunta o prior de Taizé. 
Nas tardes de sábado e domingo, depois de um tempo de oração às 13, em diferentes igrejas da cidade, é a vez de ateliês temáticos, sobre economia, política, arte, refugiados, oração, música, paz, desporto, tráfico de pessoas, ecologia,... Testemunhos de acolhimento a pessoas sem-abrigo (como os Mensajeros de la Paz), de visitadores de presos ou de integração de pessoas com deficiência, e ainda visitas temáticas ao Museu do Prado e ao Centro de Arte Reina Sofia são algumas das experiências que os jovens poderão fazer. 

sábado, 17 de dezembro de 2016

Flannery O’Connor: querer ver a Lua inteira, passar de queijo a mística. Imediatamente.

Um Diário de Preces - um livro e uma encenação este Domingo, em Lisboa


Ilustração da capa de Um Diário de Preces (ed. Relógio d'Água)

“Meu bom Deus, não consigo amar-Te  como pretendo. És o crescente esguio de uma Lua que avisto, e o meu eu é a sombra da Terra que me impede de ver a Lua inteira.”
São palavras do início de Um Diário de Preces, da escritora norte-americana Falnnery O’Connor (1925-1964). O texto será encenado este Domingo, 18, na Capela do Rato, em Lisboa, a partir das 16h, numa encenação de Miguel Loureiro e interpretação de Isabel Abreu (mais informações aqui)
Um Diário de Preces é um texto curto, escrito na intensidade dos 22 anos de Flannery, que oscila “entre a metafísica e a terapêutica”. É um diálogo em luta com Deus e com as próprias contradições interiores, de quem se sente dividido entre aquilo que deseja ser e aquilo que realmente é. Mas também de quem tenta descobrir os verdadeiros desejos de Deus para si mesma. O mesmo Deus a quem Flannery se dirige, pedindo que a ajude a ser uma boa escritora, ou a saber como rezar ou a ser grata ou a adorá-l’O. Sobre a sombra que a impedia de ver a Lua, ela acrescentava: “Não te conheço, meu Deus, porque eu própria Te encubro. Por favor, ajuda-me a arredar-me do caminho.”
Flannery deixou vários 31 contos, dois romances – Sangue Sábio e O Céu é dos Violentos –, bem como muitas críticas literárias e ensaios. A sua obra de ficção está toda publicada em Portugal, nomeadamente na Relógio d’Água (que também publicou Um Diário de Preces) e na Cavalo de Ferro.
No prefácio obrigatório que escreveu à edição portuguesa deste Diário, Pedro Mexia recorda que a escritora “tinha uma sólida formação teórica”, que assentava em nomes como Tomás de Aquino e Romano Guardini, discutia o conceito de escritor católico – o que ele ou ela não deve fazer é “separar a natureza da Graça” – e manifestava, nos textos deste Diário, “a impaciência dos místicos”. No final, aliás, a última frase – “nada mais resta dizer acerca de mim” – assemelha-se ao “temperamento de Teresa d’Ávila”, escreve Mexia.
Há outras reminiscências. Como as que remetem para a possibilidade de ver Deus de forma intensa e permanente no quotidiano, ou para o pedido para que Deus se deixasse ajudar, ideias tão caras a Etty Hillesum, a judia que morreu em Auschwitz (autora de um Diário e de um volume de Cartas, ambos publicados na Assírio & Alvim, que relatam a sua aventura espiritual). Na penúltima entrada, escrita a 25/9/1947, escreve Flannery: “Se me cabe lavar todos os dias o segundo degrau, diz-mo e deixa-me lavá-lo até que o meu coração transborde de amor ao lavá-lo. Deus ama-nos, Deus precisa de nós. E também da minha alma.”
Em várias entradas do Diário, Flannery escreve sobre os quatro elementos de que a prece se deve compor: adoração, contrição, agradecimento e súplica. E também reza a propósito da fé, da esperança e do amor. Sobre a esperança, confessa sentir-se “um pouco perdida”. E pede, numa alusão a várias outras passagens em que se sente espatilhada e dividida por sentimentos contraditórios: “Por favor, deixa que alguma luz emane de todas as coisas que me rodeiam, para que me possa sentir coesa.”

Na entrada de 25/9, Flannery escreve, como quem dá uma ordem a Deus: “Aquilo que peço é, na verdade, bastante ridículo. Oh. Senhor, o que eu digo é que neste momento sou um queijo, faz de mim uma mística, imediatamente.”

sábado, 15 de agosto de 2015

A oração em Taizé: "participar e manter-se juntos na espera de Deus"

Comunidade propõe ícone da misericórdia, uma "representação completamente nova"


O ícone da Misericórdia, com cenas da parábola do Bom Samaritano

Quando os irmãos de Taizé se levantam, assinalando o final da oração da noite de sexta-feira, há uma pequena corrida de dezenas de jovens para ocupar os lugares deixados vagos.
Segue-se o momento da adoração da cruz e muitos querem ser os primeiros. Ficarão depois horas na igreja, em oração.
“Dans nos obscurités, allume le feu qui ne s’éteint jamais...”, cantam ainda quatro mil vozes. “Nas nossas obscuridades, acende um fogo que não se apague nunca.” O ritmo é pausado, a melodia repete-se. Os cânticos meditativos “permitem a todos participar e manter-se juntos na espera de Deus”, lê-se num pequeno texto da comunidade sobre a oração comum.
Se a oração é o centro da vida da aldeia - três vezes por dia, os jovens que estão em Taizé são convocados pela torre sineira, a 100 metros da Igreja da Reconciliação –, a oração de sexta-feira à noite é um dos momentos centrais em Taizé. 
A pequena comunidade da Borgonha (França), que reúne monges católicos e de diferentes origens protestantes, organiza a vida na aldeia num ritmo semanal, como se cada Domingo fosse a celebração da Páscoa.
Entre sexta e domingo, reza-se actualizando o mistério central da fé cristã: a morte e a ressurreição de Jesus.
O rito da adoração da cruz é feito com o ícone da cruz, da tradição ortodoxa, pousado no chão, com os jovens prostrados sobre ele. Durante duas, três horas, sucedem-se os cânticos, com a igreja ainda cheia de jovens.
Sábado à noite, a oração celebra a luz pascal. Milhares de pequenas velas acendem-se para festejar a ressurreição de Jesus.
(o texto pode continuar a ser lido aqui)

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Aveiro: Silêncio no meio do barulho do "Enterro" – ou uma foto com o Papa Francisco



A tenda de oração do CUF no espaço do 
Enterro do Ano, em Aveiro

Trata-se de propor silêncio no meio de uma as festas mais barulhentas do ano, o Enterro do Ano, na Universidade de Aveiro (equivalente à queima das fitas, em outras universidades do país): o Centro Universitário Fé e Cultura (CUFC), estrutura da diocese que há 27 anos dinamiza atividades no meio universitário, propõe aos estudantes que, entre as 23h30 e as 3h30 da manhã, possam recolher-se, numa pequena “tenda de oração”, plantada em pleno recinto do Enterro. A iniciativa, que se iniciou na cidade da ria dia 24, prossegue ainda até à próxima quinta, dia 1 de Maio, quando termina a Semana.
Há ainda a possibilidade de poder tirar uma foto com o Papa Francisco. Na realidade, o Papa continua em Roma mas, quem o desejar, pode fazer-se fotografar junto de uma foto de Francisco. “É uma maneira de provocar o diálogo”, dizem os responsáveis do CUFC.
“No mundo de hoje, a construção da paz, do respeito, da verdade, da honestidade faz-se na rua, no mundo, nos lugares onde as pessoas estão. A religião é um dos bons veículos que religam estes valores de paz, de fé, de direitos humanos no mundo”, acrescenta o CUFC, que recorda que “não é nos espaços fechados que se manifesta a diversidade cultural e religiosa das pessoas”. E sendo a diversão “algo positivo, mas que implica escolhas”, o CUFC faz esta proposta com o sentido de ser a Igreja Católica a propor um espaço de tranquilidade para os jovens.
O mote para a iniciativa deste ano é “STOD –  Se Tens Olhos Dá...” Em cada dia, a proposta é dar um sorriso, um abraço ou outro gesto. Um grupo de estudantes envolveu-se na preparação do espaço e, em cada noite, vai distribuindo centenas de convites, desafiando os jovens a entrar na tenda.
A iniciativa da tenda de oração realizou-se pela primeira vez há dois anos, no Integr@te, a festa de acolhimento aos caloiros da Universidade de Aveiro. Foi repetida no Enterro do Ano de 2013, com o então bispo de Aveiro, D. António Francisco dos Santos (agora no Porto), presente numa das noites. Já neste ano lectivo, a iniciativa foi repetida no Integr@te, em Outubro.

Mais informações no sítio do CUFC na net (aqui) e na página do Facebook (aqui). 



quarta-feira, 16 de abril de 2014

Criada a versão portuguesa de iBreviary, uma aplicação com a Liturgia das Horas


O iBreviary, uma aplicação católica que permite trazer no smartphone e no tablet a Liturgia das Horas, os textos da liturgia diária, os rituais dos sacramentos e as principais orações católicas tem, a partir de agora, uma versão portuguesa, por enquanto apenas disponível para iPhone.Na versão portuguesa do iBreviary, que usa os textos aprovados pela Conferência Episcopal Portuguesa, estão a trabalhar seis sacerdotes portugueses: Paulo Terroso, Tiago Freitas (ambos da arquidiocese de Braga); Cristopher Sousa, Pablo Lima (da diocese de Viana do Castelo); Nuno Lima (da Sociedade Missionária da Boa Nova) e Bruno Dinis Silva (dos Missionários Passionistas).
Quem não tiver um smartphone poderá aceder ao site de iBreviary, onde se encontram todos os conteúdos da aplicação e se pode criar um widget para colocar o iBreviary numa página ou num blogue. O iBreviary pode ser inserido através de uma simples janela, já que não requer a instalação de software adicional.
O iBreviary foi criado em 2008 por Paolo Padrini, sacerdote da diocese de Tortona, na região de Piemonte, Itália. Com um milhão e meio de instalações no iPhone e iPad, com cerca de quinhentos downloads por dia, é uma das aplicações católicas mais populares. A aplicação permite rezar em nove línguas: árabe, espanhol, francês, inglês, italiano, latim, português, romeno e turco e poderá ser instalada no iPhone, iPad, Android, Windows phone 7 e 8, Blackberry 5 e Kindle fire. Para responder a qualquer dúvida ou questão, ou simplesmente estar a par das novidades e actualizações, os responsáveis da versão portuguesa criaram a conta twitter @ibreviary_pt.

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Desemprego, fome e crianças (e uma oração do Papa pelos que sofrem)

Hoje, no dia em que se soube que o desemprego atingiu novos máximos históricos em Portugal (e na Europa...) vale a pena ler o que dizia o cardeal Jorge Mario Bergoglio, hoje Papa Francisco, em Buenos Aires, Páscoa de 2002 (texto citado no livro Papa Francisco – Conversas com Jorge Bergoglio, ed. Paulinas):
“A história marcou a fogo no nosso povo o sentido da dignidade do trabalho e do trabalhador. Existe algo mais humilhante do que a condenação a não poder ganhar o pão? Existe forma pior de decretar a inutilidade e inexistência de um ser humano? Pode uma sociedade, que aceita tamanha iniquidade, escudando-se em considerações técnicas abstractas, ser caminho para a realização do ser humano?”

No próximo domingo, o Papa presidirá, no Vaticano (a partir das 16h de Lisboa) a um tempo de oração que pretende marcar o dia do Corpo de Deus (ontem). A iniciativa pretende fazer uma corrente de oração em todo o mundo, à mesma hora, tendo em atenção sobretudo aqueles que, “nos mais diversos locais do mundo, são vítimas da guerra, do tráfico de seres humanos, da droga e do trabalho escravo”. E também recordando o sofrimento das crianças, bem como “todos os que enfrentam situações de precariedade económica, principalmente os desempregados, os idosos, os imigrantes, os que não têm um lugar para viver, os presos e aqueles que caíram na marginalidade”.

Desta quinta-feira, vem a notícia da intervenção do observador permanente da Santa Sé nas Nações Unidas, Francis Chullikat, considerando urgente a adopção de políticas que permitam combater a fome, que atinge “quase mil milhões de seres humanos” e apontando a falta de acesso á alimentação e à água como “um escândalo e uma crise não apenas humanitária, mas também “moral”. 

Hoje, a propósito do Dia Mundial da Criança que se assinala neste sábado, a Cáritas Europa pediu, em comunicado, que a União Europeia e os seus estados-membros dêem prioridade ao combate à pobreza em que vivem (ou arriscam viver) 25 milhões de crianças. Ou seja, uma em cada quatro crianças vive exposta a situações de pobreza. Aqui pode ler-se na íntegra o comunicado da federação europeia das Cáritas.

sábado, 27 de outubro de 2012

Modos de usar o corpo na oração


 Pode o corpo ajudar à oração? Pode haver sensualidade nos modos de rezar? Saberá o corpo rezar melhor que a alma? É possível pôr deficientes ou idosos a rezar através dos afectos? E o que pode um beijo? Ou o que têm em comum um sermão de Bernardo de Claraval sobre o Cântico dos Cânticos, uma tela como a Conversão de São Paulo, de Caravaggio (ao lado), o Êxtase de Santa Teresa, de Bernini, ou Bill T. Jones a dançar a Chaconne?...
As III Jornadas de Teologia Prática, sobre “sentidos, práticas e figuras orantes”, que esta sexta-feira decorreram na Universidade Católica Portuguesa (UCP), em Lisboa, provocaram o debate sobre o lugar do corpo na oração.
“Deus passa pelo corpo, por um corpo encarnado. E é nesse corpo que tenho que viver a oração”, disse Helena Presas num dos painéis. Catequista no Campo Grande (Lisboa) e animadora de um grupo de oração para idosos, Helena Presas destacou o valor dos afectos na experiência da oração: “Muitas destas pessoas já não têm afectos há anos. Ou nos entregamos a Deus e deixamos que a Palavra de Deus nos encha de alegria ou o que está à frente é o sofrimento, o vazio, a doença e a morte.”
Responsável do Movimento Fé e Luz, que trabalha com pessoas com deficiência, Alice Caldeira Cabral falou da necessidade de acolher os limites e de tornar os sacramentos acessíveis a todos. E destacou igualmente as linguagens do corpo na oração: o gesto, o toque, os silêncios, as músicas, os símbolos e a participação activa são aspectos fundamentais para a oração. Helena Presas acrescentou, a propósito do sentido de pertença: “Hoje, na cidade, as pessoas não pertencem a coisa nenhuma; e mesmo na Igreja pertencem muito pouco.”

O que pode um beijo?
Num outro painel, Paulo Pires do Vale, professor da UCP e da Escola Superior de Educação Maria Ulrich, referiu-se à oração como “hospitalidade carnal”, citando a tela de Vermeer, Cristo em Casa de Marta e Maria. Esta dimensão vai mais fundo, “como uma penetração no próprio corpo”, numa obra como o Êxtase de Santa Teresa, de Bernini, acrescentou. No texto que dá origem a esta obra, Santa Teresa fala de “uma lança de fogo, que repetidamente [se] cravava no [seu] corpo e penetrava o [seu] coração”. Uma linguagem que remete para metáforas de natureza sensual e sexual – de tal modo que os confessores pediram a Teresa d’Ávila que não as referisse.
Paulo Vale perguntou, com Espinoza e Deleuze: “O que pode um corpo?” Para responder, citando o filósofo: “A alma e o corpo são uma só e a mesma coisa; ninguém determinou até ao presente o que pode o corpo; o corpo, só pelas leis da sua natureza, pode muitas coisas que causam espanto à própria alma.” O corpo, acrescentava Paulo Vale, “sabe primeiro que nós” o que se passa, por exemplo nos sintomas de uma doença ou no modo como nos relacionamos com alguém de quem gostamos, mesmo antes de termos consciência dessa paixão...
Saberá então o corpo rezar melhor que a alma? “O corpo é esse lugar aberto onde o mundo e os outros se tornam a nossa própria carne. Antes de nos mostrar que somos finitos, mostra que somos abertos.” Bataille, acrescentava Paulo Vale, fala do erotismo como a negação do fechamento.
E o que pode um beijo? Num sermão sobre o Cântico dos Cânticos, São Bernardo explica acerca da primeira frase daquele livro bíblico (“Beija-me com um beijo da tua boca”): “O verbo que encarna é a boca que beija; a carne que ele toma é a boca que recebe o beijo; o beijo que se forma sobre os lábios é a pessoa de Jesus Cristo, mediador entre Deus e os homens.” Bernardo sugeria o beijo nos pés, nas mãos e na boca como símbolo da progressão espiritual.
A importância do corpo na oração, para lá de todos os discursos, parece exigir, como nas palavras de Rainer Maria Rilke, "muda a tua vida", concluía Paulo Vale. 

Liturgias rigorosamente coreografadas
Professora na Escola Superior de Dança, Maria José Fazenda referiu-se aos rituais litúrgicos como “rigorosamente coreografados”.
Fazendo um percurso pelos dois últimos séculos da história da dança, falou da “metáfora do desejo de ascender” presente no bailado romântico, na comunhão do corpo com a natureza que Isabora Duncan pretendeu ou dos próprios corpos na oração, como no uso de um canto gregoriano por Ruth St Denis. Ou ainda na descida à terra que o corpo masculino propõe, como nos bailados de Ted Shawn.
O corpo pode ser esse lugar que oscila entre o movimento e a redenção. Como na espantosa criação de Bill T. Jones em “Chaconne”, com música de Bach. Uma peça inspirada, aliás, na experiência do próprio compositor, quando um dia chegou a casa e teve a notícia de que a sua mulher morrera. “Quando a deixei ela estava muito fraca. Tudo o que ela queria era cantar. Canta.”, propõe a coreografia de Jones [no vídeo a seguir, cedido por Maria José Fazenda a partir do DVD "Chaconne", realizado por D. Kent e editado por Bel Air Media (2008), pode ver-se um excerto do final dessa criação; para outras notícias sobre as jornadas, ler aqui e aqui].



quinta-feira, 5 de maio de 2011

"Tu, que me fizeste ver as trevas..."

O Papa Bento XVI iniciou ontem, no quadro das audiências gerais das quartas-feiras, no Vaticano, uma nova série de 'catequeses' que procura responder ao pedido dos apóstolos, referido em Lucas, 11, 1: "Senhor, ensina-nos a orar".
E começou, a jeito de introdução, por propor "alguns exemplos de oração presentes nas culturas antigas, para revelar como, praticamente sempre e em todos os lugares, os homens se dirigiram a Deus". Assim:
No Antigo Egito, por exemplo, um homem cego, pedindo à divindade que lhe restituísse a vista,
demonstra algo universalmente humano, como a pura e simples oração de petição de quem se encontra no sofrimento. Este homem reza: "Meu coração deseja ver-te... Tu, que me fizeste ver as trevas, cria a luz para mim. Que eu te veja! Inclina a mim teu rosto amado" (A. Barucq - F. Daumas, Hymnes et prières de l'Egypte ancienne, Paris 1980, trad. it. en Preghiere dell'umanità, Brescia 1993, p. 30).

Nas religiões da Mesopotâmia, dominava um sentimento de culpa arcano e paralisador, não carente de esperança da redenção e libertação por parte de Deus.

Podemos apreciar assim esta súplica por parte de um crente daqueles antigos cultos: "Ó Deus, que és indulgente inclusive com as culpas mais graves, absolve o meu pecado... Olha, Senhor, teu servo esgotado e sopra a tua brisa sobre ele: perdoa-o sem demora. Levanta teu severo castigo. Dissolvidos estes laços, permite que eu volte a respirar; rompe as minhas correntes, liberta-me das minhas ataduras" (M.-J. Seux, Hymnes et prières aux Dieux de Babylone et d'Assyrie, Paris 1976, trad. it. in Preghiere dell'umanità, op. cit., p. 37). São expressões que demonstram como o homem, em sua busca de Deus, intuiu, ainda que confusamente, por um lado a sua culpa, mas também aspectos de misericórdia e de bondade divinas.

Dentro da religião pagã da Grécia Antiga, assiste-se a uma evolução muito significava: as orações, ainda que continuem invocando ajuda divina para obter o favor celestial em todas as circunstâncias da vida cotidiana e para conseguir benefícios materiais, dirigem-se progressivamente a petições mais desinteressadas, que permitem ao homem crente aprofundar em sua relação com Deus e melhorar. Por exemplo, o grande filósofo Platão relata uma oração do seu mestre Sócrates, considerado justamente um dos fundadores do pensamento ocidental. Sócrates orava assim: "Fazei que eu seja belo por dentro. Que eu considere rico quem é sábio e que possua de dinheiro somente aquilo que o sábio possa tomar e levar. Não peço mais" (Obras I. Fedro 279c, trad. it. P. Pucci, Bari 1966). Ele queria ser sobretudo belo por dentro e sábio, não rico em dinheiro.

Naquelas obras-primas da literatura de todos os tempos, as tragédias gregas, ainda hoje, depois de vinte e cinco séculos, lidas, meditadas e representadas, há orações que expressam o desejo de conhecer a Deus e de adorar sua majestade. Uma delas diz assim: "Sustento da terra, que sobre a terra tens a tua sede, sejas quem for, é difícil de saber, Zeus, seja a tua lei por natureza ou por pensamento dos mortais, a ti me dirijo: já que tu, procedendo por caminhos silenciosos, guias as vicissitudes humanas segundo a justiça" (Eurípides, Troiane, 884-886, trad. it. G. Mancini, en Preghiere dell'umanità, op. Cit., p. 54). Deus continua sendo um pouco nebuloso e, no entanto, o homem conhece esse Deus desconhecido e reza Àquele que guia os caminhos da terra.

Também para os romanos, que constituíram aquele grande império no qual nasceu e se difundiu, em grande parte, o cristianismo das origens, a oração, ainda que se associasse a uma concepção utilitarista e fundamentalmente ligada à petição da proteção divina sobre a comunidade civil, abre-se, às vezes, a invocações admiráveis pelo fervor da piedade pessoal que se transforma em louvor e agradecimento. Disso é testemunha um autor da África romana do século II d.C., Apuleio. Em seus escritos, ele manifesta a insatisfação dos seus contemporâneos com relação à religião tradicional e o desejo de uma relação mais autêntica com Deus. Em sua obra-prima, intitulada "As metamorfoses", um crente se dirige a uma divindade feminina com estas palavras: "Tu és santa, tu és em todo tempo salvadora da espécie humana; tu, em tua generosidade, ofereces sempre auxílio aos mortais; tu ofereces aos miseráveis em aperto, o doce afeto de uma mãe. Nem dia nem noite, nem momento algum, por mais breve que seja, passa sem que tu o cumules dos teus benefícios" (Apuleio de Madaura, Metamorfosis IX, 25, trad. it. C. Annaratone, en Preghiere dell'umanità, op. cit., p. 79).

No mesmo período, o imperador Marco Aurélio - que também era um filósofo que pensava na condição humana - afirma a necessidade de rezar para estabelecer uma cooperação frutífera entre ação divina e ação humana. Ele escreve em suas "Lembranças": "Quem te disse que os deuses não nos ajudam também no que depende de nós? Começa a rezar-lhes e verás" (Dictionnaire de Spiritualitè XII/2, col. 2213). Este conselho do imperador filósofo foi, efetivamente, colocado em prática por inúmeras gerações de homens antes de Cristo, demonstrando que a vida humana sem a oração, que abre nossa existência ao mistério de Deus, fica sem sentido e privada de referências. Em toda oração, de fato, expressa-se sempre a verdade da criatura humana, que experimenta, por um lado, fraqueza e indigência e, por isso, pede ajuda ao céu; e por outro, está dotada de uma dignidade extraordinária, porque se prepara para acolher a revelação divina, descobre-se capaz de entrar em comunhão com Deus.

Fonte: Agência Zenit. Texto completo AQUI. Ilustração: Angelus, de Miller.