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sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

Credibilidade não se recupera com fluxogramas, diz o Papa em carta sobre abusos, aos bispos dos EUA

Texto de Maria Wilton


O Papa Francisco com os responsáveis da Conferência dos Bispos Católicos dos Estados Unidos, 
em Setembro, no Vaticano (foto CNS, reproduzida daqui)

“A credibilidade da Igreja tem sido seriamente enfraquecida e diminuída por esses pecados e crimes, mas ainda mais pelos esforços feitos para negar ou ocultar os mesmos”, escreve o Papa Francisco numa carta dirigida aos bispos da Conferência Episcopal dos Estados Unidos, que estão em retiro no seminário de Mundelein, em Chicago.
No texto de oito páginas, Francisco faz uma forte crítica à realidade vivida na Igreja Católica daquele país. Antes de propor uma solução para a crise atual, começa por diagnosticar o problema da perda da credibilidade da instituição católica, algo que levou a “um sentido de incerteza, desconfiança e vulnerabilidade nos fiéis”.
Os bispos estadunidenses encontram-se reunidos desde esta quarta-feira, 2 de janeiro, para refletir sobre a resposta à crise que tem assolado a Igreja Católica do país, relacionada com os abusos sexuais. Na carta, o Papa argentino escreve que a credibilidade “não pode ser recuperada com decretos severos ou a criação de novos comités ou fluxogramas, como se estivéssemos num departamento de recursos humanos”. Segundo Francisco, isso reduziria o papel dos bispos e da Igreja a funções administrativas ou organizacionais no “negócio de evangelização”.
Em vez disso, o Papa pede que o foco esteja no que é verdadeiramente importante: “Têm sido tempos de turbulência nas vidas de todas as vítimas que sofreram na pele o abuso de poder e consciência e o abuso sexual da parte de ministros, religiosos e leigos. (…) Sabemos que, dada a seriedade da situação, nenhuma resposta ou abordagem parece adequada.”
Mesmo assim, Francisco sugere uma solução, que se baseia numa “nova presença” no mundo com “uma forma concreta de serviço aos homens e mulheres" dos dias de hoje: “Os pastores têm que estar dispostos a ouvir e a aprender com os seus erros, não agindo defensivamente.”
Estes são passos fundamentais, considera o Papa, para a reconciliação não só com os fiéis católicos, mas também entre os diversos responsáveis da Igreja, já que “momentos de dificuldade e provação também ameaçam a comunhão fraterna”. Francisco pede o abandono do modus operandi dedescrédito, de vitimização e de reprovação no modo de relacionar, já que estas atitudes desfiguram e dificultam a missão da Igreja. 

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

Um novo centro médico, prenda de Natal do Papa aos pobres e sem-abrigo de Roma

Texto de Maria Wilton


As instalações médicas do centro Mater Misericordia, na Praça de São Pedro 
(foto reproduzida daqui)

O Papa Francisco anunciou no sábado, 22 de dezembro, a abertura de um novo centro médico no Vaticano, destinado a prestar serviços de emergência e primeiros-socorros aos pobres e sem-abrigo que precisarem de cuidados de saúde. De acordo com um comunicado da Santa Sé, o espaço é um presente do Papa, na época natalícia, aos mais desfavorecidos, e surge na sequência de outros serviços para as pessoas sem-abrigo que circulam na zona, como duches públicos e uma barbearia solidária.
O novo centro “Mãe da Misericórdia” acabou de ser construído recentemente e localiza-se na Praça de São Pedro, no local de um antigo posto dos correios do Vaticano. Substitui o centro de São Martinho, inaugurado em 2016.
A clínica será gerida em conjunto pelo Governo do Vaticano e pelo gabinete de serviços de saúde do Vaticano. Conta com três quartos separados para visitas médicas, um gabinete para o diretor da clínica, duas casas de banho e uma sala de espera. Os quartos terão novos equipamentos e máquinas para possibilitar os primeiros exames médicos e análises.
Além de serviços básicos para as pessoas sem-abrigo, que se realizarão à segunda, quinta e sábado, é também propósito do centro ajudar os peregrinos que precisam de assistência médica durante acontecimentos na praça ou audiências papais.
O serviço do novo centro médico será realizado por especialistas médicos voluntários e pessoal de saúde da Santa Sé e da Universidade de Roma-Tor Vergata, bem como por voluntários da Associação de Medicina Solidária e da Associação Italiana de Podólogos. Além disso, o centro de saúde promoverá a formação de estudantes e pós-graduados da Faculdade de Medicina de Tor Vergata.
Desde que Francisco é Papa tem feito um grande esforço para promover diversas iniciativas em favor dos mais necessitados e sem-abrigo que circulam na zona de São Pedro, convidando-os a assistir a concertos, oferecendo visitas guiadas aos Museus do Vaticano, organizando almoços e melhorando os serviços médicos e de higiene nas redondezas. Também no último Dia Mundial dos Pobres, 18 de novembro, um centro médico ambulatório foi colocado na Praça de S. Pedro, permitindo que todos os que precisassem fizessem avaliações médicas gratuitas.

terça-feira, 18 de dezembro de 2018

Papa Francisco: É inaceitável culpar os migrantes de todos os males

Texto de Maria Wilton
Ilustração © Cristina Sampaio




“A escalada em termos de intimidação, bem como a proliferação descontrolada das armas são contrárias à moral e à busca duma verdadeira concórdia. O terror exercido sobre as pessoas mais vulneráveis contribui para o exílio de populações inteiras à procura duma terra de paz. Não são sustentáveis os discursos políticos que tendem a acusar os migrantes de todos os males e a privar os pobres da esperança”, escreve o Papa Francisco, na sua mensagem para o 52.ºDia Mundial da Paz, que será celebrado no próximo dia 1 de janeiro de 2019.
Divulgada em pleno Dia Internacional dos Migrantes, proposto pelas Nações Unidas, a mensagem do Papa argentino tem como tema a “boa política ao serviço da paz”, reflectindo sobre as “virtudes” e os “vícios” da política – como a corrupção, a xenofobia e o racismo. No documento, Francisco rejeita a guerra e a estratégia de medo utilizada por alguns políticos e mostra o seu apoio aos migrantes, dizendo: “A boa política está ao serviço da paz; respeita e promove direitos humanos fundamentais (…), para que se teça um laço de confiança e gratidão entre gerações do presente e as futuras.”
O Papa Francisco, que celebrou o seu 82º aniversário segunda-feira,17de dezembro, lembra que todas as eleições e fases da vida pública são uma oportunidade para retornar aos pontos de referência que inspiram a justiça e a lei. Falando especificamente dos jovens, o pontífice lembra como os mesmos podem perder confiança no poder político quando este protege apenas os mais privilegiados. E continua: “Quando a política se traduz, concretamente, no encorajamento dos talentos juvenis e das vocações que requerem a sua realização, a paz propaga-se nas consciências e nos rostos. Torna-se uma confiança dinâmica, que significa «fio-me de ti e creio contigo» na possibilidade de trabalharmos juntos pelo bem comum.”
A propósito deste dia do migrante, o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, divulgou também uma mensagem, que convida a comunidade mundial a refletir sobre o tópico: “A migração é um poderoso motor de crescimento económico, dinamismo e compreensão. (…) Mas, quando mal regulada, pode intensificar divisões dentro e entre sociedades e expor as pessoas a exploração e abuso, retirando fé aos governos.” 
Neste âmbito, o antigo primeiro-ministro português falou do Global Compact, uma iniciativa proposta pela Organização das Nações Unidas que encoraja empresas a adotar políticas de responsabilidade social corporativa e sustentabilidade.

terça-feira, 11 de dezembro de 2018

A vida ainda por um fio

Os 70 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos (II)


Texto de Fernando Sousa

Ilustração ao lado: Case Closed (Toda a pessoa acusada de um acto delituoso presume-se inocente até que a sua culpabilidade seja legalmente provada) 
© Gonçalo Pena (para Amnistia Internacional)

A vida é ainda um dos direitos individuais mais ameaçados no mundo. Apesar dos muitos textos internacionais que dispõem sobre a sua inviolabilidade, como a Declaração Universal dos Direitos Humanos (artigo 3º), o Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos (artigo 6º) ou mesmo a Carta Africana dos Direitos Humanos e dos Povos (artigo 4º), a Convenção para a Proteção dos Direitos do Homem e das Liberdades Fundamentais Relativa à Abolição da Pena de Morte ou os apelos para a sua abolição por parte das Nações Unidas ou da World Coalition Against the Death Penalty, associação de organizações abolicionistas de que a Amnistia Internacional (AI) faz parte, ela continua demasiado frequente. Muito se andou, mas os estados continuam a matar. 
De acordo com o último relatório global da AI, em 2017 ocorreram pelo menos 993 execuções em 23 países. O número marca um decréscimo de quatro por cento em relação a 2016 (quando foram executadas 1023 pessoas) e de 39 por cento comparado com 2015 (com 1634 pessoas mortas, o pior ano desde 1989). 
O ano em análise assinalou também menos sentenças capitais: 2591, em 53 países, uma descida muito significativa em relação ao período anterior, com 3117 condenações. 
Infelizmente, porém, estes números são provisórios: à semelhança dos anos anteriores continuam desconhecidas as execuções e as novas sentenças condenatórias na China. O país não publica quaisquer estatísticas sobre a pena capital. A AI calcula-as em milhares.  

segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

Papa pede que os Direitos Humanos estejam “no coração das políticas”

Texto de Maria Wilton



O Papa Francisco, sábado passado, na redação do Il Messagero
(foto reproduzida daqui)

O Papa Francisco apelou hoje a que “os direitos humanos sejam colocados no coração das políticas, incluindo políticas de desenvolvimento e cooperação – mesmo quando isto significa ir contra a maré”. Numa mensagem alusiva aos 70 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, dirigida aos participantes numa conferência sobre o tema, promovida pela Universidade Pontifícia Gregoriana, destacou a “atenção especial que deve ser dada aos membros mais vulneráveis da comunidade” já que, na sociedade contemporânea, se encontram inúmeras contradições que nos levam a perguntar se a declaração das Nações Unidas é “reconhecida, respeitada, protegida e promovida sob qualquer circunstância.”
Sábado passado, 8 de dezembro, o Papa argentino já tinha pedido proteção para os mais frágeis. No dia em que o calendário católico assinala a festa da Imaculada Conceição, o Papa dirigiu-se à figura de Nossa Senhora: “Sabes o que significa trazer vida para o teu colo e sentir indiferença, rejeição e às vezes até desdém. Por isso peço-te que fiques perto das famílias que vivem hoje em Roma e em todo o mundo em situações semelhantes, para que elas não sejam abandonadas.”
Francisco dedicou as suas orações desse dia aos doentes, aos que estão em dificuldades, às famílias e aos padres. Em particular, pediu proteçãpara as mulheres que “carregam vida no seu ventre”: “A ti, uma Mulher consagrada em Deus, confio as mulheres leigas e religiosas. (…) Para elas peço a alegria de ser, como tu, esposas e mães, abundantes em oração, caridade e compaixão.”

terça-feira, 4 de dezembro de 2018

Dia das Pessoas com Deficiência: A Igreja e o país ainda precisam de ser mais inclusivos

Texto de Maria Wilton



Desejamos ser uma Igreja de todos e com todos, que acolha a todos como irmãos, 
que derrube barreiras físicas e psíquicas diz o Serviço católico a Pessoas com Deficiência
(foto Josh Appel)

O Serviço Pastoral a Pessoas com Deficiência (SPPD), da Igreja Católica, divulgou uma mensagem na qual diz que esta deve ser “uma Igreja mais inclusiva”. A propósito do Dia Internacional das Pessoas com Deficiência, assinalado esta segunda-feira, 3 de dezembro, acrescenta o texto: “Desejamos ser uma Igreja de todos e com todos. Uma Igreja que acolha a todos como irmãos, cada vez mais inclusiva, que derrube barreiras físicas e psíquicas, que esteja atenta para ouvir cada um na sua singularidade.
Desejamos ser uma Igreja que permaneça companheira, pela vida fora, no calor da amizade e do abraço inclusivo.”
Como exemplo concreto, o SPPD diz que se deve “continuar a aprender Língua Gestual Portuguesa”. E refere dificuldades: “Temos boa vontade, mas ainda temos receios”, por vezes “quer-se apertar a mão e falta o jeito” e os reponsáveis da  Igreja ainda falam “de forma complexa”. 
Nessa missão de tornar a Igreja mais inclusiva, o Serviço Pastoral dirige-se às pessoas com deficiência, acrescentando: “Precisamos da vossa experiência de vida e conhecimento, da vossa persistência e resiliência, da vossa sabedoria de fazer acontecer o impossível, como possível.” E sublinha ainda que já há experiências positivas de acolhimento e inclusão “na catequese e em movimentos”, em instituições e em famílias “que, mesmo com limitações acentuadas, têm gosto por viver e nos agarram e levam pela mão”.
Este dia internacional foi proposto pelas Nações Unidas desde 1992 e tem o objetivo de apelar a uma maior sensibilidade para as questões da deficiência, promovendo a defesa da dignidade, dos direitos e do bem estar das pessoas. Este ano, o tema escolhido foi Capacitar pessoas com deficiência e assegurar a inclusão e igualdade. 
Em Portugal, não há estatísticas oficiais. A nota do SPPD fala em um sexto da população, mas a TSF dizia que se estima que a percentagem de população com algum tempo de deficiência pode chegar a 10 por cento, mas que há ainda limitações básicas que impedem a igualdade de oportunidades.

sábado, 1 de dezembro de 2018

Jornadas Mundiais da Juventude com o Papa serão em Portugal em 2022

 Texto de António Marujo



Jovens católicos portugueses nas JMJ de Cracóvia em 2016; desta vez, serão eles a acolher 
a juventude de todo o mundo que virá a Lisboa em 2022 (foto reproduzida daqui)

As Jornadas Mundiais da Juventude (JMJ) de 2022, presididas pelo Papa, serão em Portugal e a região de Lisboa acolherá os actos principais – nomeadamente o fim-de-semana de celebração, que habitualmente conta com a participação de cerca de um milhão de jovens de todo o mundo. O anúncio oficial será feito no Panamá, nas próximas JMJ, que decorrem entre 23 e 27 de Janeiro, e nas quais o patriarca de Lisboa (entre vários bispos portugueses) estará presente para receber o testemunho do Papa e do bispo do Panamá. A informação foi confirmada pelo RELIGIONLINE e pela SIC junto de várias fontes eclesiásticas. 
Nessa ocasião, o patriarca de Lisboa, acompanhado de uma delegação de jovens portugueses e de Lisboa, receberá a cruz das jornadas – o mais importante símbolo das JMJ, que os jovens do país de acolhimento transportarão e que servirá de centro para diferentes iniciativas, ao longo do tempo de preparação.
O próprio Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, prevê estar no Panamá também para as JMJ de Janeiro, “na esperança” de que o Papa Francisco anuncie que as jornadas seguintes sejam em PortugalMas uma tal decisão é tomada com muita antecedência e, neste caso, ela está já assumida há meses, mesmo que, como acontece com as visitas do Papa, ela só seja confirmada com o anúncio oficial – o que acontecerá no final da missa com os jovens, a 27 de Janeiro. 
O patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, oficializou o pedido no final de 2017, mas desde 2012 que em várias reuniões do Conselho Pontifício para os Leigos (CPL), do Vaticano, a hipótese de Portugal tem estado a ser pensada. Muitas pessoas sabem já da decisão, até pela enorme operação logística que ela envolve, mas a primeira informação por sair pelo Presidente da República que, já em relação à vinda do Papa em 2017, foi o primeiro a dar indicações de que a vinda de Francisco a Fátima estaria praticamente confirmada.  
A história, no entanto, começou muito antes: em 2009, a Conferência Episcopal Portuguesa propôs ao CPL, que, em 2017, as JMJ fossem realizadas em Fátima, por ocasião do centenário. Mas, nessa altura, já se aventava a possibilidade de o Papa estar no santuário português para os 100 anos de Fátima e não fazia sentido que viesse ao mesmo lugar com um intervalo de dois ou três meses (as JMJ decorrem, normalmente, no Verão). Além disso, Madrid acolheu as JMJ de 2011. 
Uma jornada em Lisboa seis anos depois seria demasiado próxima: a regra não escrita é que o acontecimento decorra uma vez na Europa e, dois ou três anos depois (o intervalo normal com que se realiza) em outro continente – até agora, nas Américas e na Ásia. Fátima também não teria as condições logísticas que a região de Lisboa garante – embora, num caso como este, a operação exija a mobilização de todas as dioceses do país. 

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

O riso do Papa quando Wenzel brincou com a farda do guarda suíço

Texto de Maria Wilton



Começou por brincar com a farda do guarda suíço que se encontrava perto do Papa. Depois, rodeou Francisco, que procurou brincar com ele. Sempre esquivo, e perante a sua dificuldade em colaborar com os seguranças, a mãe da criança dirigiu-se ao Papa, explicando que o seu filho, Wenzel Eluneyé autista e mudo, como que em jeito de desculpa pelo seu comportamento. 
Foi na audiência geral do Papa desta quarta-feira, 28, quando a criança saiu de junto da mãe e subiu os degraus do auditório Paulo VI, provocando pequenos constrangimentos, primeiro, gargalhadas e aplausos, depois. Wenzel é argentino, o que levou o Papa a dizer, para o seu secretário: “É argentino, é indisciplinado.”
Perante o sucedido, Francisco disse à mãe que deixasse o filho estar por ali a brincar, aproveitando para transformar o sucedido numa lição: “Este menino não fala, é mudo. Mas sabe  expressar-se e, mais do que isso, é livre. Indisciplinadamente livre”, provocando novos risos na plateia. E recordando, a propósito, que Jesus afirmava que “devemos ser livres como as crianças”. 
Esta não é a primeira vez que o Papa argentino tem visitas inesperadas de crianças, a interrompê-lo nos seus discursos ou homilias. Em 2013, um colombiano de seis anos chamou a atenção durante uma vigília, sentando-se no lugar de Francisco e chegando mesmo a abraçá-lo:



Falta informação sobre a deficiência

Alice Caldeira Cabral, responsável do Movimento Fé e Luz, que trabalha com crianças, jovens e adultos com deficiência, foi, ela própria, mãe de um rapaz que morreu há dez anos, e que tinha “uma deficiência profunda, apesar de na altura não se falar de autismo – o diagnóstico era só epilepsia”.
Depois de ter visto as imagens, Alice Cabral diz que é urgente levar em conta as palavras do Papa. E louva a sua reação espontânea de alegria perante a situação – algo que, diz, continua a ser muito pouco comum na sociedade portuguesa e também no interior da Igreja.
“O meu filho também tinha uma liberdade muito indisciplinada. Era exatamente isso que acontecia e a aflição da mãe é algo que conheço bem. Os nossos filhos não são disciplináveis. E, de facto, uma das coisas mais pesadas para nós é o olhar de comiseração ou de crítica daqueles que não entendem a diferença.”
Alice Cabral destaca que, em Portugal, é “impressionante” que não haja estudos que relacionem a teologia e a experiência cristã com a deficiência. O Serviço Pastoral para Pessoas com Deficiência, que também integra, participa em alguns iniciativas internacionais mas não consegue criar grande interesse das comunidades cristãs pela questão. “Não tenho dúvidas de que o Papa está muito bem informado acerca das questões da deficiência e de como as acolher socialmente. Porque, se não houver informação, é muito difícil que os olhares mudem.”

terça-feira, 27 de novembro de 2018

Uma cimeira “sem precedentes” para uma resposta “firme e universal”

Texto de António Marujo


Picasso, Guernica (pormenor)

O Papa Francisco nomeou, no final da última semana, os membros da comissão responsável por organizar a cimeira inédita de presidentes de conferências episcopais de todo o mundo, para discutir o tema dos abusos sexuais na Igreja Católica. A iniciativa decorre entre 21 e 24 de Fevereiro, em Roma e o seu carácter “sem precedentes” traduz o facto de o tema ser considerado uma “prioridade” do Papa, tendo em conta também o “impacto devastador” nas vítimas, como disse o porta-voz do Vaticano, Greg Burke. 
A comissão nomeada pelo Papa inclui os cardeais Blase J. Cupich, de Chicago (EUA) e Oswald Gracias, de Bombaim (Índia); Charles Scicluna, arcebispo de Malta e secretário-adjunto da Congregação para a Doutrina da Fé; Hans Zollner, padre jesuíta e presidente do Centro para a Proteção de Menores da Universidade Pontifícia Gregoriana. A preparação envolverá também, de acordo com o responsável já citado, Gabriella Gambino e  Linda Ghisoni, do dicastério do Vaticano para os Leigos, Família e Vida, os membros da Comissão Pontifícia para a Protecção dos Menores (CPPM) e “algumas vítimas de abusos”.
A constituição da comissão demonstra claramente o empenho do Papa em erradicar este problema, tanto quanto possível, da vida da Igreja. Cupich e Gracias são, entre os cardeais, dois dos que estão do lado do Papa neste assunto. Scicluna e Zoller são dois dos mais activos na hora de investigar o que se passa, propor soluções e escutar vítimas. Scicluna, recorde-se, foi um dos dois responsáveis por preparar ao Papa o devastador relatório sobre a situação vivida no Chile, que conduziu à cimeira dos bispos com o Papa, ao pedido de demissão dos bispos em bloco e à efectivação desse pedido já por parte de vários bispos. 
Numa entrevista à revista America, dos jesuítas dos EUA, o arcebispo Scicluna, que foi nomeado também há poucos dias secretário-adjunto da Congregação para a Doutrina da Fé, dizia que o Papa convocou a cimeira porque entende que o problema “tem de ser prioridade nas pautas da Igreja”. E porque se trata de “uma questão global: não é uma questão de critérios geográficos ou culturais, mas um problema global que a Igreja deve abordar em união, respeitando as diferentes culturas, mas com uma solução definitiva em conjunto, com pessoas em sintonia”.
O encontro marcará “o início de uma nova abordagem” que deverá abranger toda a Igreja, “mas também terá um contexto local muito importante, porque a protecção não é distante, não pode ser algo abstracto, tem que ser vivida em cada paróquia, em cada escola, em cada diocese”. E entre os objectivos do encontro estão seguramente os de fazer com que os bispos percebam e discutam juntos o fenómeno “criminoso” dos abusos como sintoma muito grave de algo mais profundo, que é uma crise no modo de abordar o ministério”, que tem sido designada por “clericalismo” ou “perversão do ministério”. 
Na entrevista (da qual pode ser lido aqui um resumo alargadoem português do Brasil), Charles Scicluna acrescenta que, tal como o Papa tem reafirmado, “a questão não diz respeito apenas aos casos trágicos individuais de má conduta e o impacto do crime nos mais vulneráveis, as crianças, mas também ao modo como se administra a questão quando somos confrontados, ou seja, como tratamos os criminosos, as vítimas, a comunidade”. 

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Papa insiste no papel das mulheres em lugares de responsabilidade

Texto de António Marujo


O Papa Francisco com Marianne Schlosser e Mario Botta, os dois laureados 
(foto reproduzida daqui)


O Papa Francisco sublinhou que “é muito importante que se reconheça cada vez mais a contribuição das mulheres no campo da investigação teológica científica e do ensino da teologia, considerados durante muito tempo territórios quase exclusivos do clero”. 
Num curto discurso na cerimónia de entrega do Prémio Ratzinger, no passado sábado, 17 de Novembro, o Papa acrescentou: “É necessário que esta contribuição seja estimulada e encontre um espaço mais amplo, de modo coerente com a crescente presença de mulheres nos diversos campos de responsabilidade da Igreja, em particular, e não só no campo cultural.”
O Prémio Ratzinger deste ano contemplou, pela segunda vez, depois da francesa Anne-Marie Pelletier, o nome de uma mulher: Marianne Schlosser, professora na Universidade de Viena, especialista em teologia das épocas patrística (primeiros séculos cristãos) e medieval. São Boaventura é um dos autores que tem trabalhado e Joseph Ratzinger (o Papa emérito Bento XVI), patrono do prémio, dedicara também, em 1959, a São Boaventura e a Teologia da Históriaum dos seus primeiros trabalhos de jovem teólogo. 

As doutoras da Igreja

“Desde que Paulo VI proclamou doutoras da Igreja a Teresa de Ávila e Catarina de Sena, não pode haver dúvida alguma de que as mulheres possam alcançar os cumes mais altos da inteligência da fé. João Paulo II e Bento XVI também o confirmaram, incluindo na série de doutoras os nomes de outras mulheres, Santa Teresa de Lisieux e Hildegarda de Bingen”, afirmou o Papa. 

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

O Papa Francisco, o cineasta Scorsese e como contornar a crueldade

Texto de Maria Wilton



Scorsese perguntou e o Papa respondeu. O encontro deu-se no Vaticano, aquando do lançamento do novo livro Sharing The Wisdom of Time (editado já no Brasil pela Loyola, com o título A Sabedoria das Idades), que reúne entrevistas e reflexões de vários idosos de todo o mundo. 
Na tarde de dia 23 de Outubro, o Papa Francisco respondeu a perguntas de novos e velhos. O realizador norte-americano, de 75 anos, convidado de honra, foi o último a colocar a sua questão. Na sua intervenção, reproduzida em vídeo no Vatican News, falou da sua infância em Nova Iorque e do sofrimento que via à sua volta quando saía da igreja. Fazendo uma analogia com o “mal” que ainda hoje se vê pelo mundo, perguntava: “Como podemos nós, idosos, dar força e guiar os jovens e o que eles têm de passar na vida? Como podemos ajudar jovens mulheres e homens a sobreviver a este furacão? Como podemos ajudar a Igreja neste caminho?”
Em resposta, Francisco falou de como se deve ultrapassar a crueldade do dia-a-dia: “É na verdade um furacão. Mesmo quando éramos crianças havia um fenómeno que sempre existiu, mas não era assim tão forte: o bullying; hoje, vê-se mais claramente o que a crueldade pode fazer numa criança. (…) Como ensinar, como transmitir aos jovens que a crueldade é um caminho errado, um caminho que mata, não só a pessoa, também a humanidade, o sentimento de pertença à comunidade?”

sexta-feira, 5 de outubro de 2018

“Com o Papa Francisco – Dizer o seu pensamento a várias vozes”

Agenda
Texto de Maria Wilton


Papa Francisco (foto reproduzida daqui)

Na próxima segunda-feira, dia 8, a partir das 18h30, a Capela Nossa Senhora da Bonança (conhecida como Capela do Rato) em Lisboa, será palco de uma sessãde leituras de textos do Papa Francisco, escolhidos por um conjunto de pessoas, entre os quais crentes e não-crentes, algumas das quais personalidades públicas da cultura das artes, da política ou da universidade. 
A sessão “Com o Papa Francisco – Dizer o seu pensamento a várias vozes”, organizada pela escritora e jornalista Leonor Xavier, começará e terminará com duas peças musicais do compositor João Madureira. No início, o actor Luís Miguel Cintra lerá o Cântico da Criaturas, de S. Francisco de Assis. 
Leonor Xavier, que sugeriu a ideia e convidou os intervenientes, diz que o objetivo é fazer “uma colagem de textos” da grande diversidade de assuntos sobre os quais o Papa Francisco já falou e escreveu. O Papa é a “a grande figura do séc. XXI” e, à luz dos últimos acontecimentos, “fazia sentido” esta espécie de homenagem.
Juntar personalidades crentes e não crentes a várias pessoas que participam na comunidade era importante; isso “impede que se forme um circuito fechado de pessoas” e traz as questões que o Papa propõe para o debate da sociedade.
A ideia foi recebida com interesse e entusiasmo não só pelo novo capelão, padre António Martins, como por todos os convidados. A escritora Alice Vieira não é excepção: “É uma iniciativa extremamente importante porque o Papa merece o apoio de todos – e é muito reconfortante ver o apoio que ele tem em não católicos.” 
Também há quem se junte por ver na iniciativa algo diferente e inovador. O cantor Vitorino Salomé afirma que o seu interesse pessoal reside “na tradição de contestação ao status quomantido pela Capela do Rato.

sábado, 29 de setembro de 2018

Papa Francisco - Entre a vulnerabilidade de um abalo e a oportunidade de uma reforma

Texto de Joaquim Franco



Foto Vatican Media, reproduzida daqui

Estas reflexões têm como pano de fundo o escândalo dos abusos sexuais sobre menores e a tentativa de fragilizar o Papa por parte de sensibilidades eclesiásticas que se lhe têm oposto. 
Apesar da polémica das últimas semanas, os casos de abusos registados na Igreja diminuíram de forma acentuada nos últimos 15 anos, em consequência das medidas de resposta elaboradas pela Santa Sé. Mas o escândalo da pedofilia na Igreja mantém-se como vulcão mediático que não adormece, revelando ainda incoerências e hesitações de vários episcopados.
Esta nova crise vem bloquear o pontificado ou pode transformar-se numa oportunidade para a Igreja Católica concretizar reformas, dando seguimento a expectativas criadas com a eleição de Jorge Mario Bergoglio?
Nestes textos, começam por analisar-se as questões da justiça, moral e papel dos médiaNo segundo, apontam-se as oportunidades de reforma e a denúncia de um clericalismo “que leva a silenciamentos, à ignorância, à elitização com «comunidades, planos, ênfases teológicas, espiritualidades e estruturas sem raízes, sem memória, sem rostos, sem corpos, enfim, sem vidas»”.  
A pergunta seguinte é: Como dizer este pontificado? Olha-se para as clivagens e para “um cisma que começou mudo, e, como no cinema, já passou à fase colorida dos efeitos especiais e das fakenews”. E fala-se da “revolução imparável” proposta pelo Papa Francisco e da valorização da consciência.  
Depois, trata-se do foco em que o Papa pretende colocar a Igreja: o evangelho. E que pressupõe dois caminhos: misericórdia/inclusão e discernimento/valorização da consciência. Finalmente, trata-se dos silêncios que revelam e do tempo de/segundo Bergoglio. 

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

Teimosia católica, jornalismo inquisitorial, o Papa, os abusos e o fascismo

(Texto de António Marujo, na edição de hoje do Público)

O Papa Francisco não faz nada contra os abusos sexuais do clero e deveria demitir-se. O relatório conhecido ontem na Alemanha confirma isso mesmo e vem dizer de novo que a Igreja Católica continua a encobrir estes casos e a não querer saber. E as acusações do arcebispo Viganò aí estão para provar tudo isso e ainda que o Papa sabia de tudo, não é verdade?
Não, nada disso. Tudo ao contrário.
A responsabilidade destes lugares comuns, equívocos e preconceitos cabe também a algum jornalismo que prefere assumir-se como inquisidor-mor medíocre, que condena sem julgar, que se instala em lugares-comuns e conclusões prévias, em lugar de cumprir a sua missão de investigar a verdade. E que, desde o primeiro momento, assumiu como comprovados todos os argumentos de Viganò, sem cuidar de os averiguar.
(o texto pode continuar a ser lido aqui)


quarta-feira, 12 de setembro de 2018

Avança reforma da Cúria Romana e muda o conselho de cardeais (e o que fica por fazer)

Texto de António Marujo


(Ao lado: Hildegarda de Bingen, A fonte da vida; ilustração reproduzida daqui)

Três dos nove cardeais que aconselham o Papa, reunidos no designado C9, deverão sair e ser substituídos. Na interpretação que vários sítios de informação fazem do comunicado do C9 divulgado segunda-feira, 10 de Setembro, os cardeais Francisco Errázuriz, do Chile, com 85 anos, George Pell, da Austrália, 77, e Laurent Monsengwo Pasinya, da RD Congo, 78, deverão ser substituídos e não participar na próxima assembleia do grupo. 
No caso dos dois primeiros, a questão dos abusos sexuais do clero é decisiva: ambos enfrentam, nos seus países, acusações de não ter lidado com rigor em relação a padres acusados de abusos sexuais. Já Monsengwo poderá sair tendo em conta a sua idade. No comunicado, os cardeais referem apenas a questão da idade, afirmando que pediram ao Papa Francisco “uma reflexão sobre o trabalho, a estrutura e a composição do mesmo Conselho, levando em conta também a idade avançada de alguns membros”. 
Errázuriz, que foi arcebispo de Santiago entre 1998 e 2010, está acusado de negligência na forma como agiu em relação às acusações ao padre Fernando Karadima ou, mesmo, de ter encoberto deliberadamente os crimes do padre. O cardeal já não esteve nesta reunião, que termina dia 12, quarta-feira, e a única explicação dada em Santiago foi a de afazeres inesperados que não permitiram a sua saída do país
O padre Karadima foi considerado culpado de abusos de poder, consciência e sexo pela Congregação para a Doutrina da Fé do Vaticano, em 2011. Os seus crimes e os encobrimentos de vários bispos levaram à grave crise em que se encontra a hierarquia católica chilena, que levou mesmo o Papa a convocar todos os bispos para uma reunião em Roma. No início, Francisco entregou-lhes uma carta muito dura e, no final, todos eles apresentaram a sua demissão ao Papa, que aceitou já vários dos pedidos
O australiano George Pell, prefeito da Secretaria da Economia do Vaticano, enfrenta também acusações de abusos e está neste momento indiciado num processo na Austrália. 
As mudanças ocorreriam, assim, no final dos cinco anos de mandato do C9, que foi criado no final de Setembro de 2013, pelo Papa, como um grupo de aconselhamento mais próximo, como se analisa neste texto de Hernán Reyes Alcaide, correspondente de Religión Digital no Vaticano. 
De acordo com a mesma fonte, o conselho deverá incorporar, em breve, um secretário canónico, que faça a ponte entre as necessárias reformas da Cúria e a forma de as articular com o Direito Canónico
Foi também no âmbito do C9 que foi preparada a nova constituição apostólica que regula o funcionamento da Cúria Romana, provisoriamente intitulada Praedicate Evangelium
No comunicado já citado, o conselho também se dispõe a entregar essa proposta de constituição ao Papa. O texto está, agora, a ser discutido pelos diferentes organismos da Cúria, para que as últimas sugestões de correcção possam ser tidas ou não em conta pelo Papa, antes da sua publicação. 

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

Diante da catástrofe atual: Repensar a Igreja com múltiplas vozes



Anne-Marie Pelletier 
Teóloga e biblista francesa, professora do Collège des Bernardins e vencedora do Prémio Ratzinger 2014



Neste momento em que as profundezas da vergonha parecem sem fundo e porque o Papa Francisco nos chamou a nós, o "povo de Deus", precisamos de acabar com o nosso silêncio!
Em primeiro lugar, precisamos de fazer isso para enfatizar alto e claro, particularmente para aqueles cristãos que se sentem devastados pelos eventos, que há apenas UM sacerdote ou “sumo sacerdote”, como a Carta aos Hebreus diz, e como igualmente o expressa a Lumen Gentium.
E este Sacerdote nunca faltará na Igreja, não importa as provações que possam surgir. Vamos todos reler o que o Evangelho de João diz sobre o “Bom Pastor”!
A instituição - particularmente o sacerdócio ministerial - não é a coroa sagrada da Igreja.
Devidamente entendida e dentro de seus limites, a Igreja institucional é um serviço humilde para a atualidade, responsável pela presença sacramental de Cristo para o povo batizado.
Isso é completamente diferente do que o mundo poderia pensar tendo como base para o seu entendimento os "príncipes da Igreja".

Re-examinar o papel sacerdotal

Esta é a questão principal. Está aí a necessidade fundamental hoje de reexaminar radicalmente a nossa eclesiologia. 
Na opinião de muitos, uma das causas dos crimes de pedofilia e abuso de autoridade é uma maneira muito deficiente, desequilibrada e arrogante de entender o poder sacerdotal.
Uma teologia tradicionalmente piramidal da Igreja tem reconfortado a identidade do padre como um cristão da elite que domina as outras pessoas batizadas, mantendo a jurisdição sobre as vidas dos outros.
O sentido de omnipotência que emana daqui inevitavelmente leva a excessos e remove quaisquer barreiras ao jogo das fantasias de algumas pessoas.
Essa realidade precisa, agora, de ser corajosamente desafiada. Primeiro nos seminários, mas também pelos cristãos que nem sempre estão isentos de uma visão sacralizada do papel sacerdotal, que o Evangelho de facto repudia.
Nesse sentido, não podemos apegar-nos mais a uma eclesiologia desenvolvida e implementada exclusivamente por padres.
Precisamos de imaginar uma Igreja com várias vozes, que evidentemente incluirá as vozes das mulheres. Elas têm um relacionamento diferente dos homens com o poder, o que poderia inspirar de forma útil a igreja institucional.

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

Abusos sexuais na Igreja Católica: pequeno guia de uma grande tormenta



O Papa Francisco respondendo aos jornalistas, Domingo, 
no voo de regresso a Roma (foto reproduzida daqui)

A tormenta não passou, nem passará tão cedo: a crise dos abusos sexuais continua na Igreja Católica, após a viagem do Papa à Irlanda, que deixou um lastro de várias manifestações de crítica à Igreja e a Francisco, que ali esteve para encerrar o Encontro Mundial das Famílias. Depois de, no sábado, ter feito várias declarações e se ter encontrado com várias vítimas de abusos, o Papa foi ontem ainda, Domingo, 26 de Agosto, objecto de uma carta do arcebispo Carlo Maria Viganò, núncio (embaixador) do Vaticano em Washington entre Outubro de 2011 e Janeiro de 2016, denunciando que Francisco teria conhecimento dos abusos cometidos pelo ex-cardeal Theodore McCarrick, forçado a demitir-se do colégio de cardeais há um mês.
Afinal, Viganò – que foi, ele próprio, acusado de ter encoberto casos de abusos e ordenado a destruição de provas – terá deturpado ou mentido vários factos, como se enumera neste texto do National Catholic Reporter [NCR]. 
Na conferência de imprensa dada a bordo do avião, de regresso a Roma, o Papa pediu que os jornalistas façam o trabalho de casa: respondendo a uma pergunta da jornalista Anna Matranga, da CBS, Francisco disse que o texto da carta “fala por si” e que era importante que os jornalistas o lessem e retirassem as suas conclusões. Quando passar um pouco mais de tempo, acrescentou, poderá voltar ao assunto. (A transcrição da conferência de imprensa está aquipor enquanto apenas na versão italiana.)
Tal como o National Catholic Reporter, o New York Times já fez o trabalho de casa e escreveu: “As suas [de Viganò] alegações infundadas e os ataques pessoais representaram uma extraordinária declaração pública de guerra contra o papado de Francisco, feitas naquele que é talvez o seu momento mais vulnerável.” (o texto do NYT está disponível aqui, em inglês)
Quer tudo isto dizer que se deve menosprezar ou ignorar a acusação do antigo núncio? Certamente que não, mas ela tem de ser compreendida no contexto da pessoa que a faz, que também foi um dos envolvidos no caso “Vatileaks”, um dos que levou à demissão do Papa Bento XVI. No Crux, John Allen Jr. recorda vários desses episódios e ainda no NCR escreve-se como a carta de Viganò manifesta a conspiração contra o actual Papa.