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domingo, 5 de agosto de 2018

O terramoto chileno provoca o abalo que o Papa quer para toda a Igreja

Na edição de hoje do Público, escrevo um texto sobre o caso dos abusos sexuais no Chile e o modo como o Papa o pretende aproveitar para que ele seja um exemplo para toda a Igreja – não só na questão da pedofilia, mas também no modo como é exercido o poder e como se devem afrontar questões como o elitismo, o narcisismo e o clericalismo:


O Papa Francisco com os bispos do Chile, em Maio deste ano, 
no Vaticano (foto reproduzida daqui)

O Papa foi posto em causa, mandou investigar o que se passava na questão dos abusos, começou a tomar decisões, escreveu uma carta duríssima aos bispos chilenos. Mas o que Francisco tem dito e feito ultrapassa, neste caso, o que se passa no Chile e está para lá do tema dos abusos. Uma viagem, em sete pontos, aos abalos que já se deram e às ondas de choque que o Papa está a provocar no catolicismo.

Terramoto, cataclismo, abalo, devastação — as palavras que se possam escolher não chegam para dizer o que se está a passar com a Igreja Católica, no Chile, nem aquilo que o Papa Francisco tem vindo a fazer em relação ao problema. Perante um drama de dimensão incalculável, a resposta do Papa tem sido invulgarmente dura e enérgica e reflecte a sua visão de muitos dos problemas que atravessam o catolicismo — e não apenas sobre o que se está a passar no Chile, e não só sobre a questão dos abusos sexuais.
(o texto pode continuar a ser lido aqui)

(Sobre alguns casos de abusos em Itália, pode ser lido, também no Público de hoje, este trabalhoe o editorial do jornal também é dedicado ao tema.)

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Pedofilia e críticas ao Papa


Um dos altares para a celebração da eucaristia, durante a viagem do Papa ao Chile 
(foto reproduzida daqui)

As afirmações do Papa no Chile, a propósito dos abusos sexuais e de um caso concreto registado no país, continuam a motivar debate. No JN desta segunda-feira, Fernando Calado Rodrigues escreve sobre o tema, para afirmar:

“Reconhecer que o Papa não esteve bem e dizê-lo claramente não deverá ser entendido como um ataque, mas antes como um contributo para que ele possa corrigir o seu erro. A crítica destrutiva não deveria acontecer no seio da Igreja. Mas também não é positivo para as comunidades cristãs que os fiéis assumam um posicionamento acrítico em relação ao Mundo, à Igreja e até aos seus líderes. Os cristãos devem, isso sim, desenvolver uma atitude crítica, mas construtiva, a qual deverá ser sempre de uma correção fraterna: irmãos que se corrigem uns aos outros, para que todos possam ser melhores.”
(O texto pode ser lido aqui na íntegra)

O tema, que tinha merecido mesmo um pedido de desculpas do Papa às vítimas, por causa das suas declarações, motivou também, entre outros, um texto do brasileiro Mauro Lopes, no blogue Caminho Pra Casa, que acrescenta vários elementos informativos sobre o caso que está na origem da polémica, e ainda uma reflexão do teólogo chileno Iván Navarro, na página de Reflexión y Liberación (aqui, em castelhano).
 (sobre o tema, já aqui  tinha sido publicada a tradução do editorial do National Catholic Reporter.)

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Pedofilia: Francisco ainda precisa de fazer mudanças na Igreja

Kieran Tapsell, advogado público aposentado e autor de “Potiphar’s Wife: The Vatican’s Secret and Child Sexual Abuse”.
[Artigo publicado no National Catholic Reporter, de 28-07-2017. A tradução é de Isaque Gomes Correa e foi publicada na Newsletter o Instituto Humanitas da Unisinos].

«O editorial do National Catholic Reporter, intitulado “A Igreja mudou em relação aos abusos sexuais, mas não o suficiente”, corretamente identifica a cultura clerical essencialmente masculina como um fator fundamental nos escândalos de abuso sexual, mas erra ao não apontar para o fracasso do Papa Francisco em mudar partes doDireito Canônico que incorporam tal cultura.
O Papa Francisco pode se ver impedido pela teologia no tocante a ter mulheres ordenadas ao sacerdócio. Mas os Cânones 478 e 1420 exigem que os vigários gerais, vigários episcopais e judiciais também sejam sacerdotes. Estes, portanto, não podem ser mulheres, exceto com uma autorização concedida por homens em Roma. Uma regra assim pode ser alterada com o simples uso de uma caneta.
Um exemplo mais grave do clericalismo é a imposição, no Direito Canônico, do segredo pontifício contra todas as acusações e informações relativas a abusos sexuais infantis cometidos pelo clero. A única exceção que permitiria reportar-se às autoridades civis foi dada aos EUA em 2002 e ao resto do mundo em 2010, e limitou-se a valer onde existem leis civis aplicáveis que exigem que este tipo de informação seja repassado. Pouquíssimas jurisdições têm leis abrangentes nesse sentido. Nos Estados Unidos, somente a metade dos estados obriga que o clero informe os casos à polícia.
As tentativas de Francisco em responsabilizar os bispos significaram muito pouco, pois a capacidade dele de assim fazer está limitada pelo Código de Direito Canônico. Os três bispos que ele forçou renunciar – Dom John Nienstedt e seu bispo auxiliar, Dom Lee Piché, de St. Paul-Minneapolis, e Dom Robert Finn, de Kansas City-St. Joseph, no estado do Missouri – violavam o Direito Canônico em vigor nos EUA desde 2002, o qual exigia que obedecessem às leis civis de informar à polícia as acusações de abuso.
Desde 1996, os bispos irlandeses, ingleses, australianos e americanos quiseram que a obrigação de relatar às autoridades civis fosse regra no Direito Canônico, independentemente de haver, ou não, a obrigação segundo o direito civil local. A Santa Sé tem reiteradamente rejeitado a ideia.
Em 2012, a Conferência dos Bispos Católicos da Austrália enviou ao Vaticano para aprovação o seu protocolo contra abusos sexuais, intitulado “Toward Healing 2010”. O texto exigia que fosse obrigatório relatar às autoridades civis sempre, em todos os casos. Em 22-02-2013, a Congregação para a Doutrina da Fé informou a conferência que tal obrigação poderia se aplicar a todos os demais na Igreja, exceto aos clérigos.
Em 2014, a Conferência Episcopal Italiana (da qual Francisco é o bispo mais importante, embora não seja o seu presidente) anunciou que seus bispos não iriam relatar à polícia as acusações de abuso sexual clerical porque as leis italianas não os exigiam – postura coerente com o Direito Canônico. Em 2015, a Conferência dos Bispos da Polônia fez o mesmo anúncio.
Em 2014, duas comissões das Nações Unidas – sobre os direitos da criança e contra a tortura – solicitaram a Francisco que abolisse o segredo pontifício para permitir que se relatassem às autoridades civis os casos de abuso sexual infantil sempre que ocorrerem e que tornasse esta prática um elemento obrigatório segundo o Direito Canônico. Não era outra coisa senão um pedido para que a Igreja voltasse à prática centenária que existia antes de 1917. Em setembro de 2014, o papa recusou o pedido, com a desculpa extraordinária segundo a qual tornar obrigatória a prática de relatar casos de abuso dentro do Direito Canônico iria interferir na soberania dos Estados independentes. O Direito Canônico interfere em tal soberania tanto quanto interferem as regras do futebol.
Em 15-02-2016, o Cardeal Sean O’Malley, da Arquidiocese de Boston, presidente da Pontifícia Comissão para a Tutela dos Menores, afirmou que os bispos têm uma obrigação ética e moral de relatar às autoridades civis todas as acusações de abuso sexual clerical, independentemente se há ou não leis civis nesse sentido. A sua afirmação era um bom indicativo de que o Direito Canônico seria alterado. Em 06-12-2016, a mesma comissão publicou as suas orientações para as conferências episcopais nacionais. A declaração de O’Malley não foi incluída.
Francisco vem dizendo que ele e seu antecessor, o Papa Bento, adotaram uma política de “tolerância zero” em casos de pedofilia. No contexto profissional, tolerância zero significa um desligamento permanente. No entanto, os números que Francisco apresentou às Nações Unidas em 2014 mostravam que menos de 25% de todos os padres acusados de pedofilia foram desligados da Igreja. Temos aqui uma tolerância de 75%, não de zero por cento.
Em 2017, Dom Mark Coleridge, de Brisbane, na Austrália, contou a uma Comissão Real que o Vaticano concordara em desligar apenas um dos 6 padres condenados por crimes sexuais. Isto representa uma tolerância de 83%.
Pode-se expressar melhor o desempenho de Francisco pegando o exemplo de Marie Collins, que renunciou da Pontifícia Comissão para a Tutela dos Menores em 1º de março deste ano:

Quando aceitei a nomeação para a Comissão em 2014, disse publicamente que se achasse que o que ocorria atrás de portas fechadas estivesse em conflito com o que estava sendo dito ao público, eu não permaneceria. Esse momento chegou. Sinto que não tenho escolha senão renunciar caso queira manter a minha integridade”

sábado, 18 de julho de 2015

Pedofilia na Igreja e acusações: é preciso bom senso

Na última quinta-feira, a diocese de Coimbra publicou um comunicado no seu site, pedindo a quem tenha informações sobre casos concretos de abusos de menores por membros do clero que denuncie essas situações aos responsáveis diocesanos.
O caso foi contado pelo DNque adianta que a Polícia Judiciária iniciou entretanto uma investigação, uma vez que se trata de um crime público (na notícia, quando se refere o caso do Fundão, deve corrigir-se que não é da diocese de Coimbra, mas da Guarda).
No ionline conta-se também a história, referindo mais pormenores, a partir das acusações do blogue que esteve na origem deste casoEsse blogue aponta nomes concretos, mas um dos visados admitiu já processar o(s) autor(es) de tal informação, por difamação.
O comunicado foi publicado na página da diocese de Coimbra na internet e pode ser lido aqui.
Nesse documento, de Abril de 2012, o episcopado estabelece que as instituições da Igreja – nomeadamente as dioceses – devem prestar toda a colaboração às entidades competentes, às vítimas e suas famílias e que cada bispo deve também desencadear um processo canónico, quando haja matéria para tal.
Se eventualmente há algum fundamento nas acusações feitas no blogue, e porque haverá várias dioceses envolvidas, a primeira atitude deveria ter sido que os diferentes bispos se pusessem de acordo sobre eventuais procedimentos. Em seguida, o caso deveria ter sido entregue às autoridades. Por isso, publiquei este sábado no Diário de Notícias um pequeno comentário sobre o tema, defendendo que o caso deveria ter sido gerido de outra maneira - o comunicado não tem consequência concreta a não ser a de pedir que sejam comunicadas informações a quem as tenha e levantar mais suspeitas. Sob o título Bom senso, o texto pode ser lido aqui.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Colóquio no Vaticano sobre pedofilia: para a cura e a renovação


Começou nesta segunda-feira em Roma um colóquio que pretende estabelecer uma estratégia eficaz de combate aos abusos sexuais de membros do clero. A notícia que resume o que está em debate na iniciativa, com o título “Para a cura e a renovação”, pode ser lida aqui.
O Papa Bento XVI enviou entretanto uma mensagem que foi lida no início do encontro. Nela, o Papa pede uma profunda renovação da Igreja, afirmando que a cura do sofrimento das vítimas deve ser uma preocupação fundamental para as comunidades cristãs.  Bento XVI pediu ainda, na sua mensagem, que se instaure “uma vigorosa cultura de efectiva salvaguarda e apoio das vítimas”. 
Na abertura do colóquio, o cardeal William Levada, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, afirmou que, na última década, o Vaticano recebeu mais de quatro mil denúncias de casos de pedofilia.
As intervenções que se irão suceder até esta quarta-feira podem ser lidas aqui. E no sítio do Vaticano na internet há uma secção especial dedicada a este tema. 

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

"O ano em que o Papa declarou guerra à pedofilia"

António Marujo faz, num curto vídeo do Público online, um balanço, necessariamente sumário, de alguns factos marcantes da vida da Igreja, em 2010. Aqui:

domingo, 14 de novembro de 2010

Causas dos abusos sexuais por parte de membros do clero

A questão central com que a Igreja deveria lidar, na gestão dos múltiplos casos de abuso sexual de membros do clero sobre crianças em diferentes partes do mundo está na questão e na natureza do poder, no interior da instituição eclesiástica. Esta é a perspectiva do Pe. Tom P. Doyle, dominicano e doutorado em Direito Canónico, que há mais de 25 anos fez da intervenção sobre este problema a causa da sua vida. Em 1984, renunciou a uma carreira como canonista e diplomata, ao abandonar o lugar de especialista em Direito Canónico na Nunciatura do Vaticano em Washington, para se dedicar ao trabalho com as vítimas de abusos e respectivas famílias, assim como com a bispos e outros altos responsáveis da Igreja, nas dimensões canónica e pastoral.
O vídeo refere-se a uma conferência que fez na semana passada em Sidney, Austrália, na Inaugural Australasian Clergy Abuse Reparation & Prevention Conference .



Informação complementar:

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Arcebispo de Bruxelas: condutor em contramão, sob fogo mediático

A Igreja Católica da Bélgica encontra-se numa crise profunda, agravada de forma exponencial este ano, pelos casos de pedofilia entre membros do clero. Mas quando se esperaria que quem dirige a instituição mostrasse bom senso e equilíbrio, eis que o que sucede é exactamente o contrário: o seu responsável máximo parece apostado em atirar gasolina para o incêndio.
Tendo sucedido em Janeiro último ao cardeal Daneels, outrora um prestigiado membro da hierarquia da Igreja, mas que esteve nos últimos meses sob a acusação de ter dado cobertura a pelo menos um caso de abusos sexuais continuados, o do bispo de Bruges, o seu sucessor, o arcebispo-primaz André-Joseph Léonard, não se tem cansado de provocar a polémica. Primeiro, foi acusado de considerar a SIDA uma "justiça imanente", espécie de castigo para pessoas que abusaram do corpo. Noutra ocasião, referiu-se à homossexualidade em termos que suscitaram a associação a uma doença semelhante à anorexia. Mais recentemente, perante uma sociedade chocada com a Igreja por causa da pedofilia, foi ao ponto de sugerir que os padres acusados desse crime não deveriam ser punidos pelo poder eclesiástico, mas antes deveriam poder viver tranquilos os anos que lhes restam de vida.
A tudo isto o visado responde (extenso comunicado difundido ontem) considerando que se trata, em boa medida, de interpretações abusivas dos media e dos comentadores e de frases eventualmente retiradas do respectivo contexto. Sobre a doença de SIDA observa que se trata de umas afirmações feitas há cinco anos, num quadro de evolução da doença diverso do actual, e que ganham agora pertinência, com a tradução do livro de 2005 para flamengo. Relativamente à homossexualidade, recorda que se limitou, num debate televisivo, a comparar "a atitude que se adopta com as pessoas anoréxic e a que devemos ter para com as pessoas homossexuais", o que não autoriza a dizer-se tratar-se nos dois casos de pessoas "anormais" ou "doentes". Finalmente, acerca de padres pedófilos, observou que se referia a casos concretos de padres de idade avançada, alguns internados em lares, relativamente aos quais os crimes prescreveram e cujas vítimas se satisfizeram com o facto de os vitimizadores reconhecerem os abusos e pedirem perdão pelo que fizeram.
Pelo menos boa parte da opinião pública belga considera estar-se perante um hierarca desbocado. A verdade é que o mal-estar na Igreja daquele país tem-se vindo a acentuar nos últimos meses e há bispos, como de Namur, que fazem questão de se distanciar dos seus posicionamentos. Há dias, Léonard fez saber que se calaria até ao Natal, uma medida apoiada pelos responsáveis de duas revistas católicas do país, mas a promessa durou poucas horas e quem não aguentou mais foi o seu porta-voz, um jovem e prestigiado teólogo leigo que anunciou ontem, em comunicado, a demissão do cargo, salientando que "o copo transbordou". E comparou mesmo o arcebispo a um condutor em contramão, convencido de que todos os outros condutores é que estão errados. Declarações que configuram "algo nunca visto na história da Igreja da Bélgica", nas palavras do chefe de redacção da revista católica daquele país "Kerk & Leven".
O que é facto é que, como dizia recentemente um dirigente católico belga, a Igreja daquele país é uma "zona sinistrada" e os factos mais recentes não são de molde a reconstruir o que tem estado a desabar.
  • Comunicado do porta-voz do arcebispo André-Joseph Léonard AQUI.
  • Comunicado do arcebispo de Bruxelas: AQUI

domingo, 25 de julho de 2010

Bento Domingues sugere leituras de férias; Anselmo Borges fala de "pedofilia e ordenação de mulheres"

Bento Domingues no "Público" de hoje:
Anselmo Borges no DN de ontem:
"No passado dia 15, o Vaticano publicou um documento que actualiza as regras para a punição dos clérigos (padres, bispos ou cardeais) que abusam sexualmente de menores. São medidas que endurecem as penas e exigem que se torne realidade a "tolerância zero" para estes casos trágicos". Ler mais aqui.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Aborto, lei, ética e o que (não) se faz

Numa entrevista publicada domingo passado, no Público, o presidente do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida, Miguel Oliveira da Silva, chamou a atenção para a necessidade de rever aspectos negativos da aplicação da lei do aborto. Tendo estado do lado do "sim" no referendo sobre a despenalização, Oliveira da Silva diz que há mulheres a fazer dois e três abortos por ano e muitas das que interrompem a gravidez não comparecem à consulta de planeamento familiar prevista após o aborto.

Apesar de uma notícia posterior do mesmo jornal em que se diz que é uma minoria de mulheres que o faz (o presidente do CNECV não falava de maioria, dizia apenas que "há mulheres" que o fazem), vale a pena ler a entrevista.

Miguel Oliveira da Silva tinha estado, dia 15 de Junho, num encontro promovido por jornalistas que tratam informação religiosa, onde falou exactamente sobre alguns dos temas retomados na entrevista. A importância das suas declarações levou-me a sugerir uma entrevista no Público. Na versão on-line, ele fala também da questão da pedofilia na Igreja. A ler com atenção.
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quarta-feira, 30 de junho de 2010

Papa pode ser chamado a depor nos tribunais norte-americanos

"É uma sentença ilógica. Abre-se caminho para pessoas em busca de dinheiro"

Gianni Gennari, teólogo e comentador do jornal Avvenire, dos bispos italianos, não vê "nenhuma racionalidade" na decisão tomada nesta segunda-feira pelo Supremo Tribunal norte-americano que rejeita a imunidade diplomática reivindicada pelo Vaticano, permitindo até que o Papa seja chamado a depor como testemunha ou como acusado nos casos de pedofilia. A entrevista saiu no “La Stampa” de 29 de Junho. Apareceu traduzida em português aqui.

De agora em diante, o Vaticano irá responder pelos abusos do clero?

Que uma coisa aconteça é um fato, mas não é dado que ela seja justa. Hegel se equivocou: "Nem todo o real é racional". Os juízes do tribunal dos EUA têm o direito de chamar a Santa Sé a julgamento por um crime cometido por um cidadão norte-americano, ou de outro Estado, só por ser padre? Um padre é um dependente jurídico do Vaticano? E por quê? Mesmo que viva no Pólo Sul? Mesmo se atropelar um pedestre de carro? Mesmo se roubar uma marmelada no supermercado? Que relação jurídica existe, para o direito norte-americano, entre um padre e o seu bispo quando se trata de ações totalmente pessoais e como tais incontroláveis?

A Santa Sé se sente cercada?

Vivemos um tempo de "zombarias" singulares. O limite da racionalidade parece ter sido superado. A menos que a pretensão se fundamente só no fato de que esse Papa, entristecido, reconheceu, de um lado, o horror cometido por padres como um pecado e, pela lei do Estado, também como um crime, e alguém queira se aproveitar disso para fazer dinheiro. Justamente o fato de ter decidido pela tolerância zero, por ter levado a sério as partes das vítimas seria pretexto para punir quem se recusa a proteger os réus e os entrega à justiça?

A linha defensiva da Igreja está ruindo?

Sim. Deve-se dizer, porém, que a tese defensiva de que "todo bispo é Papa em sua casa" é uma concepção ilógica da defesa, que já fez muitos danos. Todo cidadão adulto é o responsável único pelos seus atos e se, para realizá-los, usa prerrogativas de tipo associativo, como as eclesiais, comete um segundo delito, que deve ser punido com as leis da associação falsamente colocada em jogo e, assim, caluniada e prejudicada. Se nos tempos do caso Craxi, ou do caso Greganti, a polícia italiana não só tivesse entrado com força na sede do PSI e do PCI, mantendo todos presos por 10 horas, mas também tivesse escavado os túmulos de Nenni, Togliatti e Berlinguer para "procurar provas" dos crimes financeiros, além disso certos, o que se teria dito?

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Sexo: obediência e abertura

«O teólogo Yves Congar afirmou, um dia: "Na Igreja Católica parece muitas vezes que o pecado da carne é o único pecado e que a obediência é a única virtude." Esta dicotomia dinâmica constitui o elemento-chave da estrutura crise relacionada com o abuso sexual do clero em que actualmente a Igreja Católica se vê enredada».
Assim abre um artigo publicado hoje no site do National Catholic Reporter, cuja leitura se sugere, como contributo para analisar o actual problema da pedofilia na Igreja.
Ler:Sex: Obedience & Disclosure

terça-feira, 6 de abril de 2010

Aprender na Europa com os Estados Unidos

Sob o título "Taking Responsibility - What can Europe learn from the U.S. sexual abuse crisis?", a mais recente edição do semanário "America - the National Catholic Weekly" traz um texto do teólogo jesuíta Thomas J. Reese, do Woodstock Theological Center, Georgetown University, cuja consideração na Europa pode ser útil, no actual quadro de crise, relacionado com os abusos sexuais de crianças por parte de alguns membros do clero. Traduzimos apenas uma parte, recomendando a leitura do artigo na sua integralidade:

" (...) Desde o início que os bispos americanos subestimaram a dimensão e gravidade do problema. Antes de 1993, apenas um terço das vítimas se apresentaram para relatar o abuso às respectivas dioceses, de modo que nem mesmo a Igreja sabia o quão grave a crise se desenhava. A maioria das vítimas não quer que outros saibam que eles foram vítimas de abusos, especialmente os seus pais, cônjuges, filhos e amigos. A cobertura mediática dos abusos do clero incentivou e capacitou as vítimas a manifestrar-se e a descobrirem que não estávamos sozinhas.

Hoje, os europeus estão chocados com as centenas de casos que vêm sendo relatados. Devem preparar-se para milhares. Nos Estados Unidos, mais de 5.000 sacerdotes, ou 4 por cento do clero, foram responsáveis por 13.000 denúncias ao longo de um período de 50 anos. Não há nenhuma razão para pensar que a Europa seja diferente. Espere-se o melhor, mas façam-se as contas e esteja-se preparado.
O maior erro de cálculo dos bispos americanos foi feito a pensar que a crise iria passar em poucos meses.

Aninhar-se e esperar que a tempestade passe é uma estratégia errada. A não ser que se queira ir para uma crise muito prolongada, como nos Estados Unidos, os bispos europeus têm de ser transparentes e encorajar as vítimas a apresentar queixa agora. É melhor pôr cá fora todas as más notícias o mais rapidamente possível do que dar a aparência de uma tentativa de encobrimento.

Uma escola dos jesuítas, em Berlim, fez a coisa certa. Teve conhecimento de sete casos de abuso. Tornou-os públicos, contratou uma advogada para passar a pente fino os seus arquivos e lidar com as vítimas, e depois escreveu aos antigos alunos pedindo às vítimas que se manifestassem. Quando, pelo menos, 120 vítimas se manifestaram dizendo que tinham sido abusados naquela escola jesuíta da Alemanha, os insensatos acharam uma loucura a escola ter-se antecipado com aquelas medidas. Mas não se tratou apenas da atitude mais cristã a ter; foi igualmente uma inteligente acção de relações públicas. Agora ninguém acusa a actual administração da escola de esconder o assunto. Além disso, em lugar de três a cinco anos de má publicidade com uma vítima atrás da outra a aparecer, eles vão ter alguns meses de publicidade negativa até que os media se virem para outro assunto.

Os bispos americanos também cometeram o erro de culpar os media. Em contrapartida, acusaram a cultura permissiva e procuraram reduzir o alcance dos abusos clericais, apontando que há 90.000 a 150.000 casos de abusos sexuais por ano, nos Estados Unidos. Embora isso seja verdade, é contraproducente para os bispos apostar nestes argumentos, que são entendidos como desculpas. Pelo contrário, os bispos devem condenar o abuso, pedir desculpas e pôr em prática políticas para se certificarem de que as crianças estão seguras. Pedir uma vez desculpas não basta. Como um marido que foi infiel à sua esposa, eles devem pedir desculpas, desculpas, desculpas.

Finalmente, os bispos americanos desculparam-se, dizendo que cometeram erros, mas não foram culpados, dada a sua ignorância. Isso não pega. Os católicos norte-americanos queriam que alguns bispos se levantassem e dissessem: "Eu cometi um erro, mudei o padre para outra paróquia, achei que ele não iria abusar novamente, fui mal aconselhado, mas assumo plena responsabilidade. Lamento e demito-me. "

Se 30 bispos dos Estados Unidos tivessem feito isso, a crise não teria ido tão longe como foi. As pessoas teriam dito: "Bom, é isso que os líderes devem fazer. Eles entenderam. Com um novo bispo, podemos arrepiar caminho e seguir em frente.(...) "

Para ler o texto na íntegra: AQUI
Ver ainda no mesmo número da revista:
- The Millstone
- Vatican Goes on Defense in Response to Media Reports.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Ex-director do "Público" escreve sobre Bento XVI, a imprensa e a pedofilia

Texto de José Manuel Fernandes no "Público" de hoje, com uma imprecisão na distinção entre "eros" e "agape" (amor fundado sobre a fé, amor descendente, oblativo - para usar expressões do próprio Bento XVI) . Mas vale pelo resto.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

"Pedofilia e anticlericalismo"

Do texto de Helena Matos, no Publico de hoje, intitulado Pedofilia e anticlericalismo destaco:
"Tenho para mim que as violações, abusos e os crimes mais hediondos podem acontecer em qualquer meio seja ele laico ou religioso e não vejo portanto que o clero católico ou doutra fé goze duma qualquer superioridade que o torne imune a estes actos. Do que já faço alguma ideia é de que a reacção perante a pedofilia e os abusos sexuais varia em função do perfil de quem a ela é ou foi associado como responsável: se for cineasta terá abaixos-assinados de apoio; se for político os seus pares podem levar a protecção institucional até à alteração de leis de modo a que os casos sejam arquivados; se for um cidadão comum será provavelmente recebido por multidões em fúria à porta do tribunal e caso seja agredido na cadeia toda a gente achará que isso faz parte do código de honra dos presos (donde se presume que quem administra as cadeias não tem um código de honra que lhe imponha impedir que os detidos se agridam uns aos outros). Se for padre é imediatamente dado como culpado. Não menos importante, segundo este raciocínio, o actual Papa foi e é responsável por esses crimes."

segunda-feira, 29 de março de 2010

"Vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar"

O escândalo dos abusos sexuais por parte do clero e do modo como alguma hierarquia tem lidado com este tipo de casos já foi considerado o pior dos últimos cem anos. Será preciso mais recuo temporal para fazer tal avaliação, mas não parece haver dúvidas que há aqui algo de muito sério e grave e que muita coisa vai depender do modo como a Igreja lhe responde.
Não restam para mim dúvidas de que, em casos desta natureza, há quem se delicie em ver a Igreja a sangrar. E tomara a esses que não recuperasse dos golpes. A realidade talvez não lhes faça a vontade, porque o bom senso aconselha a distinguir o que não pode ser confundido. Também neste caso, não se pode tomar a nuvem por Juno.
Mas que a Igreja se põe a jeito, lá isso põe. Desde logo por pretender que estes são casos individuais, de "pecadores" que traíram a sua fé e esqueceram a doutrina. O número de casos e a extensão do fenómeno aí estão para mostrar que não é assim.
Mal iríamos se a resposta se limitasse a uma espécie de agravamento do regime disciplinar. Tenho para mim que se torna fundamental reflectir, ao menos sobre estes quatro pontos:
  • - Os direitos e a dignidade das vítimas, nomeadamente quando crianças pequenas e, maxime, quando portadoras de deficiência;
  • - a política do segredo e do encobrimento, confundida com serviço à Igreja, e que mais não é,neste tipo de casos, do que protecção da ilegalidade e do crime;
  • - o lugar e a dignidade da sexualidade e o papel do seu exercício saudável e responsável numa vida equilibrada, por parte de todos os cristãos, sejam clérigos ou não;
  • - a promoção e participação num debate mais largo, envolvendo diferentes instituições sociais que se confrontam com o problema dos abusos sexuais.
Da reflexão e do debate abertos é necessário tirar ilações. Que envolvem toda a Igreja, desde o mais humilde dos seus membros até ao papa. Não adianta sacudir a água do capote, esperar que a tempestade passe, contrapor que estão a atacar a Igreja e o papa. Tudo isso é, no fundo, desculpa de mau pagador.
Não é coisa pouca o que está em jogo. É "apenas" a credibilidade.
Em linguagem evangélica: se o sal perder a força, é melhor ser deitado fora e ser pisado pelos homens (Mt 5.13b).

sábado, 27 de março de 2010

Anselmo Borges escreve sobre "a pedofilia na Igreja Católica"

Na semana passada, fui abordado por vários jornalistas sobre a calamidade dos padres pedófilos. Que achava? A resposta saía espontânea: "Uma vergonha." Aliás, no sábado, apareceu, finalmente, a Carta do Papa, na qual manifestava isso mesmo: "vergonha", "remorso", partilha no "pavor e sensação de traição".

O pior, no meio deste imenso escândalo, foi a muralha de silêncio, erguida por quem tinha a obrigação primeira de defender as vítimas. Afinal, apenas deslocavam os abusadores, que, noutros lugares, continuavam a tragédia. Ler mais aqui.