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quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

Um estendal para aquecer o coração de Lisboa

Texto de Maria Wilton


Agasalhos para quem precisar estarão disponíveis neste sábado, 
na Avenida da Liberdade, em Lisboa

É já no próximo sábado, 15 de dezembro, que regressa à Avenida da Liberdade, em Lisboa o grande estendal solidário com agasalhos disponíveis para quem deles precisar: o Heat The Street.
O objetivo é que, entre as 14h e a meia-noite, numa corda com mais de uma centena de metros, pendurada entre a Praça dos Restauradores e a Rua das Pretas, qualquer pessoa pode chegar e pendurar o(s) agasalho(s) que já não utiliza. Depois, outros poderão levá-los, dando-lhes uma nova vida.
A corda estará divida em várias secções (homem, mulher e criança), como se fosse uma loja ao ar livre, só que sem caixa de pagamento. A ideia, explica Helena Carvalho, uma das organizadoras do projeto, é “dar às pessoas a opção de escolha, em vez de ficar apenas com o que lhes dão; acaba por ser quase como uma loja onde se pode escolher e ver os tamanhos” acrescenta.
A iniciativa destina-se a todos os que precisem de um agasalho e não apenas para cidadãos sem-abrigo, muitas vezes associados a este tipo de eventos solidários. Todos são bem-vindos, tanto para ajudar como para e receber, acrescenta a responsável da iniciativa. 
Nas edições anteriores, a corda tem sido ocupada e esvaziada umas três ou quatro vezes. Este ano, a aposta vai também para agasalhos de criança, explicou, citada pelo Público/P3, Sílvia Lopes, outro membro da organização: “A verdade é que as crianças crescem de um ano para o outro e há famílias que não têm dinheiro para comprar roupa.” Por isso, este ano a corda conta com o apoio de uma marca de roupa que já doou agasalhos para os mais novos. 
Serão ainda distribuídos sacos para quem queira recolher roupa da corda, para auxiliar o transporte. Haverá também chá quente e a Carris oferecerá deslocação de autocarro para as pessoas regressarem a casa.
Para os que não podem estar presentes no sábado, há ainda a alternativa de, antes da hora de início, deixar os agasalhos nos parceiros do Heat The Street: a Crescer (Bairro da Quinta da Cabrinha, 3, em Alcântara) e as lojas sociais Boa Vizinhança Santo António (Calçada Moinho de Vento, 3), da Junta de Freguesia de Santo António, e Dona Ajuda, no Mercado do Rato.

sábado, 8 de dezembro de 2018

Judaísmo: A partilha da luz no Hanukkah em Cascais

Texto, fotos e vídeo de Maria Wilton


As velas de Hanukkah: “A luz é a única coisa que, quando partilhamos, não ficamos com menos. 
Se passarmos uma chama, ficamos com duas.”

A Baía de Cascais está calma. A noite de quinta-feira, 6 de dezembro, parece outra qualquer, na hora de regressar a casa. Mas a roda gigante que ali está montada para a época do Natal celebra, hoje outra festa. No letreiro luminoso, lê-se: “Feliz Hanukkah”. 
Ali ao lado, quase escondida de quem passa, cerca de uma centena de pessoas reúne-se numa grande tenda para assinalar a quinta noite do Hanukkah, a Festa das Luzes judaica. É uma das mais importantes do calendário: durante oito dias, recorda-se a inauguração do segundo Templo de Jerusalém, depois de este ter sido profanado pelos selêucidas sírios.
A história de Hanukkah está contada no primeiro e segundo livros dos Macabeus, que integram a Bíblia judaica. Nestes está descrita em detalhe a história que originou a celebração: Em 165 a.E.C. (antes da Era Comum), o rei Antioco Epifânio queria helenizar a Síria e a Judeia, de maneira violenta. Para isso, proibia celebração do Shabat, a leitura da Bíblia e a circuncisão e mandou colocar no Tempo de Jerusalém uma estátua de Júpiter, chegando a ordenar sacrifícios com porcos.
Os israelitas revoltaram-se e Judá Macabeu liderou uma guerra de guerrilha contra a ocupação selêucida. Quando, depois da reconquista de Jerusalém, os judeus purificaram o Templo, conta-se que foi encontrado um pote com azeite para acender a chama sagrada durante um dia. Mas o azeite queimou durante oito dias.


Um judeu na cerimónia de quinta-feira: a festa assinalar a libertação da ocupação selêucida

Em memória desses acontecimentos, os judeus acendem as velas de um menorá ou hanukkiah, candelabro com nove braços. Neste, um dos braços está tipicamente elevado em relação aos restantes e essa vela, a shamashé utilizada para acender as oito restantes, uma por cada noite de Hanukkah.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

Motins, greves e as preocupações dos capelães de prisões em Portugal

Texto de Maria Wilton






Número total de reclusos em Portugal:
 a descer desde 2013, depois de ter atingido o máximo em 1998 
(clicar sobre a imagem para ampliar) 

“Todos os mundos fechados são mundos onde a tensão habita. Cada recluso é um indivíduo com a sua história pessoal. Foi privado da liberdade porque socialmente prejudicou o próximo e o cumprimento da pena tem que ser esse. Mas podemos perguntar se o sistema de justiça que temos se preocupa com a sua reabilitação e reinserção.”
O comentário ao RELIGIONLINE é do padre João Nogueira, 55 anos, capelão do Estabelecimento Prisional de Lisboa (EPL), a propósito dos incidentes dos últimos dias, em quatro prisões portuguesas: “Essa discussão tem de ser feita em paz na sociedade, e não apenas a propósito de um motim. É uma questão de maturidade democrática.”
Na passada terça-feira, 4 de dezembro, vários detidos do EPL iniciaram um protesto depois de ter sido anunciado que não iria haver visitas no dia seguinte, quarta-feira, por estar marcado um plenário de guardas, convocado pelo Sindicato Nacional do Corpo da Guarda Prisional. Ao Observador, Celso Manata, diretor-geral dos Serviços Prisionais admitiu que os reclusos só descobriram naquele dia que haveria greve dos guardas. A notícia acabaria por levar 170 reclusos da Ala B do EPL a amotinarem-se, reagindo com gritos e queimando colchões e papéis.
Também em declarações ao Observador, o presidente do sindicato, Jorge Alves, afirmou que a “ala B tem estado ultimamente em alvoroço” e referiu que a situação é imagem da falta de recursos nas cadeias, tanto para os guardas prisionais, como para os reclusos. 
“O homem, sendo privado de liberdade, já não está confortável na sua vida e história. Depois, privado de coisas básicas, facilmente a bolha rebenta”, acrescenta o capelão do estabelecimento. “Um recluso não sendo, não tendo e não habitando o seu espaço interior, sente a carência. E depois, muitas vezes, há carências efectivas que o sistema não dá, desde coisas básicas, como papel higiénico, champô, lâmina de barbear... aquilo que normalmente temos em casa para gerir o quotidiano.”
As carências no EPL são conhecidas. O relatório do Comité Europeu para a Prevenção da Tortura e das Penas ou Tratamentos Desumanos ou Degradantes, publicado a 27 de fevereiro deste ano, depois de uma visita a vários estabelecimentos prisionais portugueses, verificou que o EPL, com capacidade para 886 pessoas, albergava 1253 homens. O relatório dava ainda conta de que “os reclusos vivem em condições desumanas”, em celas frias, húmidas e escuras e que havia ratos a sair “pelas instalações sanitárias localizadas no piso térreo da prisão.” Adicionalmente, há cerca de um mês que os bares da prisão estão fechados devido à greve.
O padre João Nogueira comenta ainda que os reclusos não devem ser ilhas e que, se assim se tornaram, homens e mulheres devem ser desafiados a fazer pontes, a unir as margens de quem é livre e de quem é recluso: “Para quem passa de diante do EPL, é muito fácil pensar que, se os reclusos estão ali, é porque alguma coisa fizeram – e o pensamento solidário acaba ali. A solução é cada cidadão assumir a sua cidadania. Esse é que é o grande desafio de um pensamento social.”

Fernando Belo (1933-2018): o filósofo que foi padre e fez a leitura materialista do Evangelho de Marcos

In Memoriam
Texto de António Marujo


Fernando Belo

Em Agosto de 2015, Fernando Belo escrevia no Público: “Há três dicotomias políticas nos evangelhos que podem ser esclarecedoras: ‘não podeis servir Deus e o Dinheiro’ (Mateus 6,24), ‘dai o que é de César a César e o que é de Deus a Deus’ (Marcos 12,17), ‘[Deus] não é um Deus de mortos, mas de vivos; todos com efeito vivem por ele’ (Lucas 20,38). O dinheiro, César e o Deus dos mortos (da religião enquanto poder, de que o suporte é o Templo, adversário simbólico de Jesus) são três feitiços do poder substantivo que impede que se possa viver fecundamente. É o cerne da atitude espiritual, renunciar aos feitiços, mas também é a de todos os grandes apaixonados por causas de vida, artistas ou pensadores, gente entregue à generosidade social, aqueles cujas biografias lemos por vezes maravilhados, que nos mostram como vale a pena viver. Fecundidade fora do ‘poder’: ‘sem posses’ mas ‘podendo’ além do que podiam. É isso uma ética radical.”
Da busca de uma ética radical se fez a vida de Fernando Belo, filósofo e professor de filosofia, após ter-se licenciado em Engenharia Civil, entrado para o seminário, ordenado padre e licenciado em teologia. Foi depois de se desencantar com o ministério de padre que abraçou uma carreira académica na área da filosofia, caminho que lhe tinha sido aberto ainda no seminário pelo padre Honorato Rosa. Fernando Belo morreu na madrugada de segunda-feira passada, 3 de Dezembro, aos 85 anos, na sequência de uma doença respiratória. 
O seu percurso singular ficou marcado pela publicação de Lecture Matérialiste de l’Évangile de MarcRécit, pratique, idéologie (Leitura Materialista do Evangelho de Marcos – Narrativa, prática, ideologia), publicado em Paris pela editora católica francesa Éditions du Cerf, em 1974. 
Traduzida em Espanha, Alemanha e Estados Unidos, a obra “articulava uma leitura textual da narrativa do Evangelho de São Marcos, influenciada por Roland Barthes, à estrutura social da Palestina da época bíblica, servindo-se de fortes referências francesas, muito importantes à época, nomeadamente Louis Althusser e Georges Bataille”, como escreveu António Guerreiro, no Público, ao recordar o trajecto de Belo. “O estruturalismo francês, com o diálogo que este promoveu entre a filosofia e as ciências sociais e humanas, foi o campo e o horizonte teórico e epistemológico em que Fernando Belo se inscreveu”, acrescentava Guerreiro. Seria mesmo esse livro, acrescenta o crítico, que abriria as portas da Faculdade de Letras ao futuro professor. Belo ficaria na Faculdade entre 1975 e 2003

terça-feira, 4 de dezembro de 2018

Em que acreditam os portugueses?

Agenda 


(Foto reproduzida daqui)

Menos de 80% dos portugueses dizem-se católicos, e o número continua a descer. Ao mesmo tempo, multiplicam-se as igrejas evangélicas e o país até vai acolher a sede mundial dos ismailis, uma importante corrente do Islão xiita. Perante uma Igreja Católica que já não dá todas as respostas, o tradicional Portugal católico é cada vez mais diverso e plural e já tem 832 confissões oficialmente registadas. Sinónimo de diálogo e tolerância? Ainda é cedo para responder.
Um retrato de um país menos católico e em “destradicionalização”, no qual, nos últimos anos, se registou um boom do evangelismo protestante e que tem sido apontado como exemplo de tolerância será o tema do Fronteiras XXI, o programa que a RTP3 transmite esta quarta-feira, 5 de Dezembro, a partir das 21h30. O debate conta com as participações de José Tolentino Mendonça, responsável da Biblioteca do Vaticano, o escritor Bruno Vieira Amaral, o antropólogo Alfredo Teixeira e a socióloga Helena Vilaça. 
Como antecipação do debate, o jornalista João Francisco Gomes publicou na página do programa na internet um texto com o título Em que acreditam os portugueses?


Dia das Pessoas com Deficiência: A Igreja e o país ainda precisam de ser mais inclusivos

Texto de Maria Wilton



Desejamos ser uma Igreja de todos e com todos, que acolha a todos como irmãos, 
que derrube barreiras físicas e psíquicas diz o Serviço católico a Pessoas com Deficiência
(foto Josh Appel)

O Serviço Pastoral a Pessoas com Deficiência (SPPD), da Igreja Católica, divulgou uma mensagem na qual diz que esta deve ser “uma Igreja mais inclusiva”. A propósito do Dia Internacional das Pessoas com Deficiência, assinalado esta segunda-feira, 3 de dezembro, acrescenta o texto: “Desejamos ser uma Igreja de todos e com todos. Uma Igreja que acolha a todos como irmãos, cada vez mais inclusiva, que derrube barreiras físicas e psíquicas, que esteja atenta para ouvir cada um na sua singularidade.
Desejamos ser uma Igreja que permaneça companheira, pela vida fora, no calor da amizade e do abraço inclusivo.”
Como exemplo concreto, o SPPD diz que se deve “continuar a aprender Língua Gestual Portuguesa”. E refere dificuldades: “Temos boa vontade, mas ainda temos receios”, por vezes “quer-se apertar a mão e falta o jeito” e os reponsáveis da  Igreja ainda falam “de forma complexa”. 
Nessa missão de tornar a Igreja mais inclusiva, o Serviço Pastoral dirige-se às pessoas com deficiência, acrescentando: “Precisamos da vossa experiência de vida e conhecimento, da vossa persistência e resiliência, da vossa sabedoria de fazer acontecer o impossível, como possível.” E sublinha ainda que já há experiências positivas de acolhimento e inclusão “na catequese e em movimentos”, em instituições e em famílias “que, mesmo com limitações acentuadas, têm gosto por viver e nos agarram e levam pela mão”.
Este dia internacional foi proposto pelas Nações Unidas desde 1992 e tem o objetivo de apelar a uma maior sensibilidade para as questões da deficiência, promovendo a defesa da dignidade, dos direitos e do bem estar das pessoas. Este ano, o tema escolhido foi Capacitar pessoas com deficiência e assegurar a inclusão e igualdade. 
Em Portugal, não há estatísticas oficiais. A nota do SPPD fala em um sexto da população, mas a TSF dizia que se estima que a percentagem de população com algum tempo de deficiência pode chegar a 10 por cento, mas que há ainda limitações básicas que impedem a igualdade de oportunidades.

sábado, 1 de dezembro de 2018

Jornadas Mundiais da Juventude com o Papa serão em Portugal em 2022

 Texto de António Marujo



Jovens católicos portugueses nas JMJ de Cracóvia em 2016; desta vez, serão eles a acolher 
a juventude de todo o mundo que virá a Lisboa em 2022 (foto reproduzida daqui)

As Jornadas Mundiais da Juventude (JMJ) de 2022, presididas pelo Papa, serão em Portugal e a região de Lisboa acolherá os actos principais – nomeadamente o fim-de-semana de celebração, que habitualmente conta com a participação de cerca de um milhão de jovens de todo o mundo. O anúncio oficial será feito no Panamá, nas próximas JMJ, que decorrem entre 23 e 27 de Janeiro, e nas quais o patriarca de Lisboa (entre vários bispos portugueses) estará presente para receber o testemunho do Papa e do bispo do Panamá. A informação foi confirmada pelo RELIGIONLINE e pela SIC junto de várias fontes eclesiásticas. 
Nessa ocasião, o patriarca de Lisboa, acompanhado de uma delegação de jovens portugueses e de Lisboa, receberá a cruz das jornadas – o mais importante símbolo das JMJ, que os jovens do país de acolhimento transportarão e que servirá de centro para diferentes iniciativas, ao longo do tempo de preparação.
O próprio Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, prevê estar no Panamá também para as JMJ de Janeiro, “na esperança” de que o Papa Francisco anuncie que as jornadas seguintes sejam em PortugalMas uma tal decisão é tomada com muita antecedência e, neste caso, ela está já assumida há meses, mesmo que, como acontece com as visitas do Papa, ela só seja confirmada com o anúncio oficial – o que acontecerá no final da missa com os jovens, a 27 de Janeiro. 
O patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, oficializou o pedido no final de 2017, mas desde 2012 que em várias reuniões do Conselho Pontifício para os Leigos (CPL), do Vaticano, a hipótese de Portugal tem estado a ser pensada. Muitas pessoas sabem já da decisão, até pela enorme operação logística que ela envolve, mas a primeira informação por sair pelo Presidente da República que, já em relação à vinda do Papa em 2017, foi o primeiro a dar indicações de que a vinda de Francisco a Fátima estaria praticamente confirmada.  
A história, no entanto, começou muito antes: em 2009, a Conferência Episcopal Portuguesa propôs ao CPL, que, em 2017, as JMJ fossem realizadas em Fátima, por ocasião do centenário. Mas, nessa altura, já se aventava a possibilidade de o Papa estar no santuário português para os 100 anos de Fátima e não fazia sentido que viesse ao mesmo lugar com um intervalo de dois ou três meses (as JMJ decorrem, normalmente, no Verão). Além disso, Madrid acolheu as JMJ de 2011. 
Uma jornada em Lisboa seis anos depois seria demasiado próxima: a regra não escrita é que o acontecimento decorra uma vez na Europa e, dois ou três anos depois (o intervalo normal com que se realiza) em outro continente – até agora, nas Américas e na Ásia. Fátima também não teria as condições logísticas que a região de Lisboa garante – embora, num caso como este, a operação exija a mobilização de todas as dioceses do país. 

terça-feira, 20 de novembro de 2018

Tomáš Halík em Portugal: “O populismo é uma das grandes doenças da nossa vida”

Texto de António Marujo


Tomáš Halík está em Lisboa para apresentar o seu novo livro: “Escrevo sobre mim, 
mas também sobre meio século da história deste país no coração da Europa e, nomeadamente, da história da Igreja checa, repleta de graves provações.” (foto © Maria Wilton)

“Uma das grandes doenças e feridas da nossa vida é o populismo, o racismo e a xenofobia, o medo e o desespero... Este é o novo populismo, que é tão forte no nosso mundo”, diz o padre e teólogo Tomáš Halík, que está em Portugal até quinta-feira, dia 22, para quatro intervenções públicas – a mais importante das quais exactamente sobre o papel da “razão, esperança e fé numa era de populismo”, a propósito da publicação do seu novo livro Diante de Ti os Meus Caminhos (ed. Paulinas). 
Em entrevista ao RELIGIONLINE, o autor de Paciência Com Deus acrescenta: “[O populismo] é uma doença e devemos – não apenas a Igreja, mas também os bons média, as universidades... – ser um hospital para curar essas feridas e actuar também como prevenção, para preparar as pessoas, para confrontar notícias falsas e todas essas coisas, no nosso mundo.”
O novo livro – que sucede aos títulos Paciência Com DeusA Noite do ConfessorO Meu Deus é um Deus FeridoQuero que Tu Sejas! e ainda a O Abandono de Deus, escrito com Anseln Grün, todos na Paulinas Editora – faz um percurso por memórias biográficas, a par com um conjunto de reflexões sobre o sentido da vida, a fé, a política, a Igreja, a clandestinidade e a liberdade. Num tom que, por vezes, se aproxima do registo das Confissões, de Santo Agostinho, Halík explica: “Escrevo sobre mim, mas também sobre meio século da história deste país no coração da Europa e, nomeadamente, da história da Igreja checa, repleta de graves provações.”
Tomáš Halík tem dedicado boa parte da sua obra à reflexão sobre a crença e a descrença. Em Paciência Com Deus, o livro que o tornou conhecido em Portugal, ele começa por dizer que muitas vezes concorda com os ateus, mesmo em quase tudo. 

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

Xeque saudita de Meca saúda Portugal como “uma das fontes da civilização islâmica”

Texto de António Marujo


Painel de azulejos na Mesquita Central de Lisboa 
(foto © Maria Wilton)

O xeque Saleh Bin Abdullah Himeid, imã da Mesquita de Al-Haram, em Meca (Arábia Saudita), enalteceu em Lisboa o papel de Portugal como “uma das fontes da civilização islâmica”, que deixou “traços marcantes na cultura e na ciência”. Ao mesmo tempo, referiu que, quando estava em Medina, o profeta Maomé “não incluiu qualquer referência à exclusão de nenhum grupo na sociedade” do islão nascente, tendo antes feito uma “abordagem pluralista, que incluía a vivência em comum”. 
Saleh Bin Abdullah Himeid foi o convidado de honra, sexta-feira passada, 26 de Outubro, na sessão solene de encerramento das comemorações dos 50 anos de criação da Comunidade Islâmica de Lisboa (CIL)que decorreram  na Mesquita Central de Lisboa. A Mesquita de Al-Haram é a mais importante do mundo, já que é ali que se encontra a Caaba, que contém a relíquia mais sagrada do islão. 
Na sua intervenção de sexta-feira, o xeque Himeid, que é também conselheiro do Palácio Real saudita, recordou ainda pensadores importantes do islão que viveram no território que hoje é Portugal, nomeadamente em Beja e Santarém, e onde os muçulmanos foram dominantes entre os séculos VIII e XIII, deixando um legado artístico e cultural (como algumas centenas de palavras de origem árabe) assinalável.
Na plateia, entre outras personalidades, estavam o primeiro-ministro António Costa, o presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Fernando Medina, e o presidente da Comissão da Liberdade Religiosa, José Vera Jardim. Representantes de diversas confissões religiosas, entre os quais o núncio apostólico (representante do Vaticano) em Lisboa, Rino Passigato, bem como o presidente da CIL, Abdool Vakil, o imã da Mesquita Central, xeque David Munir e o xeque Zabir Edriss, que acompanha não muçulmanos convertidos, também estavam presentes. 


O xeque Saleh Bin Abdullah Himeid, imã da Mesquita de Al-Haram, 
de Meca, na sessão solene em Lisboa (foto © Maria Wilton)

Antes, o xeque saudita presidira à oração de Jumah (oração do meio-dia de sexta-feira, a mais importante da semana islâmica). No seu sermão, o imã de Al-Haram afirmou: “Alá criou os seres humanos diferentes nos seus gostos, percepções, caracteres, natureza, inteligência e convicções. Cada pessoa tem a sua própria convicção, visão, compreensão e consciência. Assim, a diferença entre as pessoas não significa que alguns são melhores do que outros quanto às suas raças, tribos e classes, mas é uma diferença pelos benefícios, criatividade e multiplicidade de formas de conhecimento e cultura.”

terça-feira, 9 de outubro de 2018

Petição quer que o Aquarius II use bandeira portuguesa para salvar refugiados

Texto de Maria Wilton


(Vídeo da Human Rights Watch com imagens de uma 
operação de salvamento no Mediterrâneo)

Depois de uma carta aberta assinada por 43 personalidades de vários sectores sociais, surge uma petição com o mesmo objetivo: solicitar ao Governo a atribuição de pavilhão português ao navio de salvamento de migrantes, o Aquarius II.
A proposta, feita inicialmente pelo Bloco de Esquerda (BE), deu origem a uma carta aberta, há dias publicada na íntegra pelo jornal Expresso
José Manuel Pureza, deputado do BE, explica as razões: “O que suscitou a elaboração da carta foi a noção que tivemos de que a operação humanitária do Aquarius II estava em risco por ter havido uma retração de quem lhe atribuíra pavilhão, devido a pressões diplomáticas do Governo italiano.”
O Aquarius II é um navio de salvamento de migrantes que tem estado em atividade no Mediterrâneo, desde fevereiro de 2016 e já salvou cerca de 30 mil pessoas. A embarcação, que começou por estar registada em Gibraltar, viu a bandeira do território ser-lhe retirada em agosto deste ano. Mais recentemente, “por pressão das autoridades e Governo italiano”, perdeu o registo entretanto concedido pelo Panamá, o que poderá impedir o barco de continuar a operar. 
A petição na internet, cujo conteúdo é o mesmo da carta aberta inicial, veio do interesse manifestado posteriormente por várias pessoas, conta ainda o deputado do Bloco: “Aquando da publicação da carta, surgiram muitas pessoas interessadas em participar e de exercer o seu direito de cidadania.
O receio é que, sem registo, o Aquarius II deixe de poder operar, mesmo que os Médicos Sem Fronteiras, que trabalham no navio, queiram continuar a fazê-lo: “Torna-se indispensável que o único barco que salva vidas no Mediterrâneo continue a funcionar. Por isso, mobilizámos este movimento para mostrar ao Governo português que podíamos e devíamos ter uma atitude corajosa e desassombrada.
Da mesma opinião é o bispo emérito das Forças Armadas, D. Januário Torgal Ferreira, um dos 43 subscritores da carta inicial, que defende que o ato de atribuir pavilhão ao navio devia ser a atitude “mais normal e comum”: “As pessoas que estão numa posição de poder deviam pôr em primeiro lugar os direitos dos que não os tem e não aqueles que vêm nisto um golpe político.” 
Ser um golpe político ou “favorecer o tráfico ilegal de pessoas” são algumas das críticas tecidas à carta aberta e petição. A isto, tanto José Manuel Pureza como Januário Torgal Ferreira respondem que o objetivo da iniciativa não é político mas sim humanitário – uma maneira de “salvar vidas”. 
Lisa Matos, psicóloga clínica especializada no trabalho com refugiados, assinou a carta com mais uma preocupação: “Esta proposta pareceu-me fulcral porque deu resposta ao apelo dos operantes do barco. É muito clara a frustração das pessoas que fazem estes salvamentos quando não conseguem ter apoio.”

sexta-feira, 5 de outubro de 2018

“Com o Papa Francisco – Dizer o seu pensamento a várias vozes”

Agenda
Texto de Maria Wilton


Papa Francisco (foto reproduzida daqui)

Na próxima segunda-feira, dia 8, a partir das 18h30, a Capela Nossa Senhora da Bonança (conhecida como Capela do Rato) em Lisboa, será palco de uma sessãde leituras de textos do Papa Francisco, escolhidos por um conjunto de pessoas, entre os quais crentes e não-crentes, algumas das quais personalidades públicas da cultura das artes, da política ou da universidade. 
A sessão “Com o Papa Francisco – Dizer o seu pensamento a várias vozes”, organizada pela escritora e jornalista Leonor Xavier, começará e terminará com duas peças musicais do compositor João Madureira. No início, o actor Luís Miguel Cintra lerá o Cântico da Criaturas, de S. Francisco de Assis. 
Leonor Xavier, que sugeriu a ideia e convidou os intervenientes, diz que o objetivo é fazer “uma colagem de textos” da grande diversidade de assuntos sobre os quais o Papa Francisco já falou e escreveu. O Papa é a “a grande figura do séc. XXI” e, à luz dos últimos acontecimentos, “fazia sentido” esta espécie de homenagem.
Juntar personalidades crentes e não crentes a várias pessoas que participam na comunidade era importante; isso “impede que se forme um circuito fechado de pessoas” e traz as questões que o Papa propõe para o debate da sociedade.
A ideia foi recebida com interesse e entusiasmo não só pelo novo capelão, padre António Martins, como por todos os convidados. A escritora Alice Vieira não é excepção: “É uma iniciativa extremamente importante porque o Papa merece o apoio de todos – e é muito reconfortante ver o apoio que ele tem em não católicos.” 
Também há quem se junte por ver na iniciativa algo diferente e inovador. O cantor Vitorino Salomé afirma que o seu interesse pessoal reside “na tradição de contestação ao status quomantido pela Capela do Rato.

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

A realidade humana é o lugar teológico mais importante

Nota de Agenda + Entrevista de António Marujo


Luciano Manicardi no final de 2012, em Lisboa
(foto © António Marujo)

Um livro, uma conferência sobre a mística do quotidiano e um encontro temático de dois dias sobre o seguimento de Jesus. Luciano Manicardi, prior da comunidade monástica de Bose (norte de Itália) e autor de A Caridade dá Que Fazere de vários outros livros, estará a partir desta sexta-feira, 5 de Outubro, em Lisboa, para várias actividades públicas que incluem a apresentação de um novo livro, Comentário à liturgia dominical e festiva – Ano C(ed. Paulinas). 
Sexta, dia 5, às 21h, Manicardi fará uma conferência sobre O quotidiano – lugar de revelação antropológica (entrada livre), no Centro Cultural Franciscano

(Largo da Luz, em Carnide. Sábado e domingo, dias 6 e 7, Manicardi, que junta à investigação bíblica o olhar da antropologia e da psicologia, animará um encontro (sujeito a inscriçõessobre o tema No seguimento de Jesus. Será no Mosteiro das Monjas Dominicanas, do Lumiar (Quinta do Frade, à Praça Rainha D. Filipa), também em Lisboa. 

No livro Comentário à liturgia dominical e festiva – Ano C, Manicardi aborda os textos da liturgia católica do próximo ano litúrgico (que se inicia no final de Novembro). “No Ano C da liturgia dominical, a Igreja propõe o Evangelho segundo Lucas à escuta e meditação por parte dos crentes. É um Evangelho com características muito especiais, como nos mostra frei Luciano Manicardi: ‘o Evangelho torna-se literatura’”, diz a editora, a propósito do livro. Na mesma nota, lê-se ainda que o evangelista Lucas se revela “um homem de Igreja inteligente e avisado, guiado por sentido pastoral evangélico e por um profundo sentido de humanidade”.
A estrutura da obra lucana “é muito simples: funda-se num plano geográfico e tem, no caminho de Jesus rumo a Jerusalém, ou antes, rumo ao Pai, o seu eixo condutor; a atenção prestada ao tempo leva Lucas a abordar o problema de como viver o Evangelho no dia a dia, com temáticas que têm levado várias pessoas a falar de ‘Evangelho social’ a propósito do terceiro Evangelho; do quotidiano, enfim, faz parte a relação interpessoal, a relação com o outro, e a confiança no amor misericordioso do Pai.”
Estas indicações darão o mote também para a conferência de sexta à noite. Nas suas obras, o prior de Bose (uma comunidade ecuménica de monges, que inclui homens e mulheres) confirma, como diz a editora, a “densidade humana e espiritual invulgares”, bem como o “aprofundado conhecimento” e a grande “sabedoria” na abordagem de questões de “grande relevância para a reflexão sobre a sociedade e a vivência cristã”. (Aqui podem ver-se outros elementos sobre os restantes títulos de Manicardi publicados em Portugal: Viver uma Fé Adulta – Itinerário para um Cristianismo credível, Memória do limite – A condição humana na sociedade pós-mortal, Ao Lado do Doente – 
O sentido da doença e o acompanhamento dos doentes Comentário à liturgia dominical e festiva – Ano B.)
Manicardi esteve já em Portugal por várias vezes, quer a convite da editora, quer da Fundação Betânia (entidades que o convidam de novo desta vez) quer, também, pela organização da Semana Social. Há seis anos, no Porto, Manicardi fez uma das intervenções de fundo da Semana Social desse ano, comentando a encíclica Deus Caritas Est, de Bento XVI.
Em Fevereiro de 2013, publiquei na revista Mensageiro de Santo António uma entrevista com Luciano Manicardi, a propósito dos seus livros A Caridade dá Que Fazer Viver uma Fé Adulta. É esse diálogo que a seguir se reproduz. 

A realidade humana é o lugar teológico mais importante

Diz que a tradição sapiencial bíblica nos ensina a fazer do cristianismo uma arte de viver o eros, a sofrimento, o trabalho ou a família. Luciano Manicardi, [prior] da comunidade monástica de Bose (norte de Itália), que reúne homens e mulheres, esteve em Portugal por ocasião da recente Semana Social da Igreja e da apresentação de dois livros seus. 
P. – No seu livro A Caridade dá Que Fazer, propõe reaprender a “gramática da caridade”. Esta necessidade é hoje mais urgente?
R. – Sim, porque há cada vez mais famílias e pessoas empobrecidas, com necessidade de assistência e sustento elementar. O meu receio é que, na actual crise, principalmente económica e financeira, os nossos governos intervenham com receitas muito técnicas, mas esqueçam a problemática social e familiar das pessoas. A justiça, que é a forma social da caridade, deve ter isto em conta. 

sábado, 29 de setembro de 2018

Um voto para uma casa, uma Casa para a Bíblia

Texto de António Marujo


© Ilda David, ilustração na Bíblia Ilustrada

Um voto pode decidir uma casa. E uma casa pode conter a Bíblia, a vida de uma comunidade local, a promoção da cultura e preocupações ambientais. Até este domingo, 30 de Setembro, estará em votação, no âmbito do Orçamento Participativo de Portugal, o projecto da Casa João Ferreira de Almeida, a construir em Torre de Tavares (Mangualde), que pretende “estudar, promover e divulgar a vida e obra” do autor da primeira tradução integral da Bíblia para português. O método é muito simples e basta usar uma mensagem de texto no telemóvel ou um computador com acesso à internet (no final, explica-se como se vota neste projecto). 
A ideia da Casa Ferreira de Almeida não pretende ser apenas a de um museu voltado para o passado. Entre os objectivos, estão os da apresentação da história da tradução da Bíblia para português e da biografia e trabalho de João Ferreira de Almeida, “salientando a sua importância como instrumento de promoção da língua e das culturas lusófonas”. 
“Promover a Bíblia como património espiritual e cultural” e de “valores universais”, bem como a criação de uma plataforma “para o conhecimento plural e acessível” do texto bíblico e dos seus significados, é outra das ideias. Tal como a de “resgatar da clandestinidade histórica e cultural a biografia e a bibliografia de João Ferreira de Almeida”, que pode ser considerado “um dos pais da lusofonia”, como dizem os promotores da ideia. 
O autor daquela que continua a ser a tradução mais vendida da Bíblia em português – pelo menos três a quatro milhões de exemplares, anualmente, só no Brasil – nasceu em 1628, em Chãs de Tavares, tendo ficado órfão desde muito cedo. Terá sido educado por um tio, padre católico, que residia em Lisboa. Aos 13 ou 14 anos, João parte para Amesterdão e, pouco depois, para Malaca. 
Durante a viagem, o jovem sobrinho de clérigo católico decide tornar-se protestante. Em 1644, com apenas 16 anos, João Ferreira Annes d’Almeida inicia a tradução dos textos da Bíblia do latim para português, começando pelo Novo Testamento. No trabalho, Ferreira d’Almeida coteja a sua versão com traduções para espanhol, francês e italiano. 

Reduzir a pegada de carbono

Não se ficarão pela Bíblia e pela memória de Ferreira d’Almeida os objectivos da Casa. Ela quer também afirmar-se como um “espaço expositivo de excelência” e um “centro vivo de referência cultural”, contribuindo, ao mesmo tempo, para “a formação da população local e dos visitantes”. “Não estamos a falar de uma realidade urbana, mas há uma preocupação forte com a comunidade local”, diz ao RELIGIONLINE Timóteo Cavaco, presidente da Sociedade Bíblica Portuguesa e um dos dinamizadores do projecto da Casa Ferreira de Almeida. 
Outra preocupação será a da integração dos espaços, das opções por soluções energéticas seguras e não poluentes, de modo a reduzir a pegada de carbono, e com boas acessibilidades para pessoas com diferentes condições físicas, sensoriais e motoras. “Focada em destacar a relação entre a Palavra Criadora (Bíblia) e a Criação, a Casa está comprometida em promover o uso sustentável do ecossistema local”, lê-se na descrição do projecto. “Com efeito, tanto as áreas naturais, a descoberto, como a estética arquitectónica dos espaços interiores devem ser pensados em articulação com as características da paisagem” e com a preocupação da “conservação e sustentabilidade dos recursos envolvidos
(Ilustração acima: © Ilda David, Bíblia Ilustrada)

terça-feira, 18 de setembro de 2018

Uma rota para respirar o tempo

Exposição
Texto de António Marujo


Santa Maria da Graça; séc. XVI (1º quartel), 
autor desconhecido, prov. Catedral de Setúbal
(Foto © Manuel Costa/Agência Ecclesia)

Quando se entra, três grandes ecrãs dão o mote a esta exposição diferente: neles se vêem imagens, captadas com uma câmara fixa, dos claustros das catedrais do Porto, Santarém e Évora. Vêem-se pessoas a atravessar uma ala do claustro, saem da imagem, surgem pessoas noutro ecrã e saem de novo na nossa direcção ou caminham em sentido contrário. As catedrais são espaços vivos, dizem-nos as imagens. São utilizadas e visitadas, são lugares onde se respira o tempo, na articulação entre o passado que as construiu, o presente que ali se vive e o futuro que promete mais vida ainda. 
Assim a exposição Na Rota das Catedrais: Construções (d)e Identidades possa contribuir para isso. Patente no Palácio Nacional da Ajuda até final deste mês (desde 28 de Junho), ela traz, até junto do grande público, tesouros de 26 catedrais portuguesas (as 20 das dioceses existentes, mais quatro antigas (Bragança, Coimbra, Elvas e Silves), mais duas con-catedrais (Miranda e Castelo Branco). 
Esta exposição consubstancia ainda a ideia de uma rota a ligar o país, lugares que ajudaram a estruturar a geografia, o urbanismo e a cultura. Enfim, a estruturar identidades, como se sugere no título: “Pelas catedrais passa a história de Portugal, passa a história da arte portuguesa, passa a história das mentalidades, da sociedade, da religião, do conhecimento, da arquitectura, da urbanidade, dos valores civilizacionais em que nos revemos e identificamos”, escreve Paula Araújo da Silva, directora-geral do Património Cultural, no texto de apresentação do roteiro da mostra.  


Menino Jesus da Cartolinha; séc. XVII, autor desconhecido,  
prov. Catedral de Miranda do Douro
(Foto © Manuel Costa/Agência Ecclesia)


No livro, podem ver-se fotos de todas as catedrais recenseadas e perceber os diferentes estilos arquitectónicos presentes, muitas vezes cruzados no mesmo edifício, pelas reconstruções ou remodelações que foram sofrendo: românico, gótico, barroco, neoclássico, contemporâneo... Seria interessante, aliás, que no roteiro se tivessem publicado alguns dados “biográficos”, sobre anos e épocas de construção ou remodelações e acrescentos principais, autores conhecidos e peças mais importantes, por exemplo.