Texto de Maria Wilton
Haryarpi, Seyran e Warduhi, filhos do casal Tamrazyane,
num dos momentos do culto ininterrupto na Igreja Bethel, em Haia
(Foto reproduzida daqui)
Uma igreja protestante em Haia, na Holanda, está a fazer celebrações religiosas contínuas desde 26 de outubro, às 13h30. Devido a uma lei do país, pouco conhecida, a polícia não pode interromper qualquer cerimónia religiosa para fazer detenções dentro do templo. É por isso que, nos últimos 46 dias, oficiais de imigração não têm podido entrar dentro da Igreja Bethel para deter os cinco arménios da família Tamrazyan, que lá se encontram desde então.
Os refugiados fugiram para lá, de modo a escapar a uma ordem de deportação. Para os proteger, mais de 550 líderes religiosos, leigos cristãos e outros responsáveis têm rodado em permanência. O que começou em outubro, como uma medida de emergência tomada por um pequeno grupo de pastores locais, é agora um movimento muito alargado, que atrai pessoas de diferentes confissões para a pequena igreja protestante.
O plano para evitar a ordem de deportação foi concebido em segredo, para que a família não fosse posta em perigo, contou o pastor Axel Wicke, da Igreja Bethel a um canal de televisão norte-americano: “Eu tinha copiado e colado [os guiões d]as liturgias dos últimos 10 anos num documento enorme, e nós simplesmente cantámos e rezámos a partir daí, até encontrarmos outros pastores que assumiram o controlo”, explicou. Apesar de a polícia não estar no exterior, a igreja está a ser monitorizada mais intensamente do que o habitual, garantiu.
A cerimónia tem contado também com apoiantes da comunidade para assistir ao culto ininterrupto e ajudar com comida. A igreja diz que 3500 visitantes de todo o país vieram já apoiar esta causa e que nem todos são religiosos.
Ao jornal The New York Times, Florine Kuethe, uma consultora de relações públicas, contou: “Não sou religiosa mas, quando ouvi acerca disto, disse ao meu marido: ‘Não fiques chocado mas eu quero ir à igreja.’”
Num país cada vez mais secular (que, segundo o Pew Research Center em 2017, contava com 48% de pessoas não religiosas), Florine diz que, para ela, são estas iniciativas que tornam as igrejas relevantes outra vez.
Já para Rosaliene Israel, secretária geral da Igreja Protestante de Amsterdão, esta é uma maneira de voltar a sentir que o que que faz é relevante: “Como igrejas na Europa ocidental, andamos a debater-nos, pois estamos cada vez mais nas margens da sociedade. E como líderes da Igreja, sentimos isto.”
A história da família Tamrazyan começou há nove anos, quando o casal e os três filhos fugiram da Arménia para a Holanda. Sasun Tamrazyane a sua mulher, Anousche, enfrentavam ameaças de morte no seu país, devido ao ativismo político de Sasun.






