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sexta-feira, 30 de março de 2018

Músicas que falam com Deus (41 b): Olhar para as estrelas e cantar a Quaresma


César Prata e Sara Vidal (foto reproduzida daqui)

A inspiração veio do cientista Stephen Hawking: “Lembrem-se de olhar para as estrelas e não para os vossos pés”. Por causa desse apelo, César Prata e Sara Vidal foram à procura de cantos da religiosidade popular do tempo da Quaresma. Desse trabalho resultou o disco Cantos da Quaresma, já aqui referido há dias e que nesta Sexta-feira Santa foi o tema de um programa da TSF, em que Manuel Vilas Boas entrevistou os dois músicos.
O disco alinha as músicas por ordem cronológica, de Quarta-Feira de Cinzas até às alvíssaras, aos aleluias e ao Domingo da Ressurreição. No programa, podem-se ouvir várias músicas do disco, intercaladas com explicações dos músicos.
Natural da Guarda, César Prata faz formação em instrumentos tradicionais, cultura popular e informática musical. Dedicado à recolha de património imaterial, é intérprete vocal e toca, entre outros instrumentos, guitarra, kalimba, sanfona, adufe e percussões.
Sara Vidal, originária da Nazaré, é licenciada em história moderna e contemporânea, na variante de gestão e animação, pelo ISCTE e com mestrado em gestão de Bens Culturais pela Universidade da Corunha. Fez parte dos Luar na Lubre, grupo galego de música tradicional e participa em diversos grupos de música tradicional portuguesa. É, também, intérprete de voz e toca harpa celta e adufe.
O programa pode ser escutado aqui.

sábado, 24 de março de 2018

Músicas que falam com Deus (41): Cantos para uma Quaresma de renascimento



Este disco, apresentado há um ano num espectáculo em Trancoso e agora editado numa gravação de estúdio,  traz-nos a devoção religiosa popular e o “ciclo anual da natureza que renasce, se completa nas colheitas e adormece em cada Inverno, sublimado na Paixão de Jesus Cristo”, como escreve Domingos Morais no pequeno texto de apresentação do disco.
Mesmo se o tempo litúrgico da Quaresma está no fim e os cristãos entram, neste Domingo, na sua Semana Maior (excepção para os cristãos ortodoxos, que neste ano assinalam a Páscoa a 8 de Abril), estes cantos são intemporais, próprios para este tempo e para qualquer tempo em que se viva a dor e o sofrimento, a alegria e o júbilo.
Na recolha, que inclui mesmo três Aleluias, dominam as Beiras (e, nestas, a Beira Baixa, de onde provem metade das peças) e a profundidade das vozes e melodias, que nos remetem para o horizonte largo dos planaltos daquela região do país.
As músicas e os poemas bebem no mais fundo da tradição popular dessas regiões (e ainda do Alentejo e do Algarve, de onde provêm três músicas), mas a dupla de intérpretes recria várias das peças, com as vozes e os instrumentos, revestindo-as de uma nova intensidade. Isso é visível nas quatro encomendações das almas, mas também em temas como Com o grande peso da Cruz ou Martírios do Senhor. Uma bela descoberta, que pode ser aqui experimentada, escutando Nome de Mariae também no vídeo a seguir, onde se podem ver e ouvir excertos de algumas músicas do disco, gravados num espectáculo ao vivo, em Alcains. 


(texto redigido a partir do artigo que será publicado na revista Além-Mar, de Abril 2018)

Cantos da Quaresma
Intérpretes: César Prata e Sara Vidal; ed. Sons Vadios



sábado, 24 de fevereiro de 2018

Tolentino Mendonça no retiro ao Papa e à Cúria: a sede e a aprendizagem do espanto



Foto reproduzida daqui

Terminou ontem, dia 23, o encontro de exercícios espirituais de Quaresma, orientados pelo padre José Tolentino Mendonça, para o Papa e os responsáveis da Cúria Romana. Ao longo da semana, na página do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, foram sendo publicadas notícias com os resumos das diversas meditações do padre Tolentino. Aqui fica um curto itinerário por excertos dessas sínteses, com as respectivas ligações electrónicas onde se podem encontrar as notícias na íntegra:

Primeira meditação: Aprendizes do espanto

(...) Jesus que, sentado no poço, pede à samaritana “dá-me de beber”, maravilha-nos, deixa-nos desarmados pelo espanto. Um judeu que fala com uma mulher da Samaria, habitada por dissidentes com os quais os judeus não estavam de acordo, surpreende-nos como Jesus que se dirige a nós para nos pedir: “Dá-me aquilo que tens. Abre o teu coração. Dá-me o que és”. (...) o pedido de Jesus provoca em nós perplexidade e desconcerto, porque “somos nós aqueles que vão beber” do poço, e sabe-se que a sede é fadiga e necessidade. Jesus está cansado da viagem e está sentado junto ao poço. E no Evangelho aqueles que estão sentados para pedir são os mendigos. Também Jesus mendiga, o seu corpo «experimenta o cansaço dos dias: desgastado pelo cuidado amoroso pelos outros». Não é só o ser humano que é mendigo de Deus. «Também Deus é mendigo do ser humano.»

Segunda meditação: A ciência da sede

(...) A última frase pronunciada por Jesus no livro do Apocalipse é um convite: «Quem tem sede, venha». (...) Jesus promete-nos saciar a sede quando reconhecemos que somos «incompletos e em construção». Ele sabe quantos são os obstáculos que nos travam e quantas são as «derivas que nos retardam». Estamos «tão próximos da fonte e andamos tão longe». No desejo e na sede estão dois sentimentos em contraste: a atracão e a distância, o ardor e a vigilância. Por isso a pergunta a colocar é: desejamos Deus? Sabemos reconhecer a nossa sede? Damo-nos tempo para a decifrar? (...)
Se tivéssemos de contar a parábola da nossa sede, prosseguiu, talvez emergissem os traços de Jean, o protagonista masculino de “A sede e a fome”, de Ionesco. É uma figura devorada por um «infinito vazio», por uma inquietação que nada parece poder aplacar e que o torna num «homem sem raízes, nem casa, incapaz de criar laços, perdido no vazio do labirinto em que escuta apenas o rumor solitário dos próprios passos». (...)
O consumismo, hoje, não é apenas material, é também espiritual, e o que se diz de um ajuda a compreender o outro. O facto é que as nossas sociedades, que «impõem o consumo como critério de felicidade, transformam o desejo numa armadilha»: de cada vez que pensamos apagar a nossa sede numa «montra», numa «aquisição», num «objeto», a posse comporta a sua desvalorização, e isso faz crescer em nós o vazio. O objeto do nosso desejo é um «ente ausente», é um «objeto sempre em falta». Por isso, «o Senhor não cessa de nos dizer: “Quem tem sede, venha; quem deseja, beba gratuitamente a água da vida”».

Terceira meditação: Dei-me conta de estar com sede

(...) «Construímos um fenomenal castelo de abstrações. Não é por acaso que a teologia dos últimos séculos se deteve tanto tempo a debater as questões levantadas pelo Iluminismo e se tenha afastado das colocadas, por exemplo, pelo Romantismo, como as da identidade, coletiva e pessoal, do emergir do sujeito ou do mal de viver. (...)
«O desejo humano diferencia-se do desejo dos animais», e ser humano significa «sentir que a existência depende deste reconhecimento mais do que qualquer outra coisa». Este anseio é mortificado nas sociedades capitalistas, que exploram avidamente as compulsões de satisfação de necessidade induzida, removendo a sede e o desejo tipicamente humanos.

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

A Quaresma serve para (mudar) alguma coisa?



Depois de uma sexta-feira de jejum pela paz, o Cristo-Rei, de Almada, 
ficará este sábado “pintado” de vermelho, 
para recordar os cristãos perseguidos (foto reproduzida daqui)





Não disparar onde haja crianças, Stop.
Na glória não necessitamos de mais anjos.
(Gloria Fuertes, “Telegrama Celestial para Lugares Conflituosos”, in Dios Sabe Hasta Geometria, ed. PPC. Madrid)

A iniciativa proposta pelo Papa para hoje, de jejuar pela paz (e nomeadamente, pelos povos do Congo e Sudão do Sul, especialmente martirizados nos últimos meses), coincide com a sexta-feira da primeira semana da Quaresma, como o próprio Papa Francisco referiu. Este é um tempo, portanto, em que os cristãos são convidados a um exercício mais intenso de reflexão e oração em ordem à mudança de vida.
Comentando um dos textos da liturgia católica de Domingo passado, o teólogo e assistente pastoral Joaquim Nunes, que vive e trabalha na Alemanha, escrevia no seu blogue precisamente sobre essa perspectiva da mudança de vida: “Seria bom que as nossas práticas de quaresma e as mensagens de quaresma que produzimos não esquecessem esta mensagem da ‘velha’ aliança que é hoje mais nova do que nunca: somos testemunhas do amor de Deus que nos salva de graça e não precisa das nossas penitências e continências para gostar de nós; e esta salvação é mesmo para todos. Nós é que podemos precisar delas para continuar a viver de maneira sustentável neste planeta, em fraternidade e em paz (em “aliança”) com Deus, com os outros e com criação. A quaresma propõe-nos treinos de mudança (metanoia) para uma vida neste sentido…” (texto disponível na íntegra aqui; o blogue tem este endereço).
Na Quaresma, os católicos são convidados a abdicar de algumas coisas que considerem supérfluas e, com o dinheiro que gastariam, ajudar outras pessoas e causas que mais necessitem. Cada diocese destina, depois, o fruto dessa renúncia quaresmal para um fim determinado. Neste ano, várias dioceses apoiarão as vítimas dos incêndios de 2017 e os cristãos perseguidos em diversos países e regiões do mundo, como resume esta notícia da Rádio Renascença.  
Precisamente para recordar os cristãos perseguidos, a imagem do Cristo-Rei, em Almada, e a Basílica dos Congregados, em Braga, serão neste sábado, 24, iluminadas de vermelho, numa ideia dinamizada pela Ajuda à Igreja que Sofre, que segue idênticas iniciativas que já “pintaram” de vermelho o Coliseu de Roma ou diversas igrejas em Mossul (Iraque) e Alepo (Síria). O patriarca da Igreja Católica dos caldeus, Louis Sako, enviou uma mensagem de agradecimento aos portugueses que têm ajudado a reconstruir as casas de muitos cristãos do seu país, destruída por anos de guerras na região.
Mas servem a Quaresma e a renúncia quaresmal para mudar alguma coisa? Sobre a renúncia quaresmal, escrevi há dez anos na Ecclesia um texto, questionando alguns dos destinos dados aqueles fundos, que acabam por ficar para projectos da própria diocese ou de estruturas internas da Igreja. Como há sempre algumas dioceses que dirigem o dinheiro para causas mais “interiores”, penso que essa reflexão se mantém válida. O texto pode ser lido aqui.

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Um jejum contra a violência e as fotos do purgatório dentro da igreja




(foto reproduzida daqui)

O Papa Francisco convocou para esta sexta-feira, dia 23, um jejum pela paz e, em especial, pelas populações da República Democrática do Congo e do Sudão do Sul, tendo em conta a “trágica continuação de situações de conflito em diversas partes do mundo”.
Ao convidar os crentes (incluindo “os irmãos e irmãs não católicos e não cristãos” com as “modalidades que considerarem mais oportunas”) para um dia de “oração e jejum”, o Papa acrescentou que cada pessoa se deve perguntar, na sua própria consciência: “O que posso eu fazer pela paz?” E acrescentou: “Certamente podemos rezar; mas não só. Cada um pode dizer concretamente ‘não’ à violência naquilo que depender dele ou dela. Porque as vitórias obtidas com a violência são falsas vitórias; enquanto trabalhar pela paz faz bem a todos!”
Na sua mensagem para a Quaresma deste ano, o Papa explica precisamente o sentido do jejum, relacionando-o com o fim da violência: “o jejum tira força à nossa violência, desarma-nos, constituindo uma importante ocasião de crescimento. Por um lado, permite-nos experimentar o que sentem quantos não possuem sequer o mínimo necessário, provando dia a dia as mordeduras da fome. Por outro, expressa a condição do nosso espírito, faminto de bondade e sedento da vida de Deus. O jejum desperta-nos, torna-nos mais atentos a Deus e ao próximo, reanima a vontade de obedecer a Deus, o único que sacia a nossa fome.”
Como proposta de oração para este dia de jejum, a Cáritas Portuguesa convidou um conjunto de instituições e movimentos católicos a redigir uma Via-Sacra que servisse de meditação para este dia. “Esta iniciativa resultou, primeiro, num gesto simbólico de união entre aqueles que têm por missão a evangelização e a erradicar a pobreza; segundo, num texto com um alinhamento diversificado que vive da identidade de cada uma destas organizações.” O texto está disponível aqui.
 
A propósito da violência que não se limita às guerras declaradas, merece também referência a iniciativa da Igreja Católica que, nas Filipinas, juntou aos objectivos de uma tradicional Marcha pela Vida a luta contra os assassinatos suspeitos, a declaração da lei marcial no sul do país ou a ideia de restabelecer a pena de morte. Numa semana em que assistimos a um dos mais graves massacres na guerra da Síria e a um novo massacre de jovens numa escola dos Estados Unidos, vale a pena reparar na forma como os católicos de um país se mobilizam contra a instalação de uma “cultura de violência”, como referiu o bispo Broderick Pabillo.
Uma forma de alertar consciências contra outras violências que a Europa está a infligir a muitas pessoas que no continente buscam refúgio, é aquela que propõe a paróquia da Vera-Cruz, em Aveiro: até 4 de Março, dentro da igreja paroquial, os fiéis e muitos visitantes que ali entram serão surpreendidos pelas fotografias de Ricardo Lopes feitas em campos de refugiados.
Grécia: o Purgatório Europeu, pretende mostrar “rostos, a preto e branco, cenas do quotidiano do sofrimento de quem é esquecido”. E os objectivos, como explica o pároco, padre João Alves, são mesmo o de “incomodar quem ali está ou passa, ajudar à relação entre a Eucaristia e a caridade, porque este ano é dedicado à caridade, e percebermos que a paróquia tem uma fraca sensibilidade sócio-caritativa da comunidade celebrante”. Uma reflexão mais para este tempo, como se pode ler nesta notícia.

domingo, 18 de fevereiro de 2018

Emily Dickinson a falar ao Papa Francisco, através de Tolentino Mendonça, sobre a água que a sede ensina


José Tolentino Mendonça (foto agência Ecclesia, reproduzida daqui)

Dizia a poetisa Emily Dickinson que “a água é ensinada pela sede”. Comenta, agora, o padre José Tolentino Mendonça, que “quando acolhemos verdadeiramente o desafio da sede, percebemos que a coisa mais importante não é propriamente satisfazê-la, mas interpretá-la, aprofundar-lhe o significado, intensificá-la, levá-la mais longe. A sede, por si própria, é um património espiritual.”
As palavras do padre e poeta português estão em entrevistas ao L’Osservatore Romano e ao portal de notícias Vatican News, a propósito dos Exercícios Espirituais de Quaresma que, neste momento (18h em Roma, 17h em Lisboa), começam nos arredores de Roma, com a participação do Papa e de muitos dos responsáveis da Cúria Romana. “Devemos ter a coragem de assumir a sede como mestra nos caminhos da alma”, diz Tolentino Mendonça, que citará também outros poetas, escritores e artistas nas suas reflexões, entre os quais Fernando Pessoa, Clarice Lispector, Antoine de Saint-Exupéry ou Tonino Guerra. Uma síntese da da entrevista em português pode ser lida aqui e a versão integral em áudio pode ser escutada aqui.
Neste outro texto, o próprio Tolentino Mendonça antecipa algumas das ideias do retiro que esta tarde começa em Ariccia. Aqui pode encontrar-se o roteiro deste retiro que se prolonga até sexta-feira, também resumido nesta notícia.

domingo, 10 de março de 2013

Não é a Quaresma que conta, mas a Páscoa


Crónica

No Público deste domingo, escreve frei Bento Domingues:

1. A religião é o mundo que toma a direcção de Deus; o cristianismo é Deus que toma a direcção do mundo. Os seres humanos que creem nele seguem a Sua direcção.
Esta é a posição do teólogo Urs von Balthazar. Parece-me justa, mas atrapalha a mística de olhos fechados, a preferida dos tempos que correm. Nesta quaresma, em Portugal, chegámos demasiado depressa às expressões de “sexta-feira santa”: em muitas cidades do país, saíram à rua multidões que já não podiam esconder mais uma imensa desilusão e enorme tristeza. Seria importante saber qual foi o impacto destes acontecimentos nas celebrações dominicais e nas vias-sacras, entretanto muito revalorizadas. Bento XVI, no passado dia 14, num encontro com o clero de Roma, ao recordar as descobertas e opções do Concílio Vaticano II, destacou a importância de se ter começado pela reforma litúrgica. O Mistério Pascal é o centro da vida e do tempo cristão, do tempo pascal e do domingo, dia da Ressurreição. Do encontro com o Ressuscitado saímos para o mundo. Neste sentido, é uma pena que, hoje, o domingo se tenha transformado em fim-de-semana, quando na verdade é o primeiro dia, é o dia do início.
Uma das perguntas inevitáveis é esta: para que mundo nos envia a ressurreição dominical? Mas antes, quem é este nós?
J. Ratzinger, quando ainda era Papa, recordou que foi a redescoberta da teologia do Corpo Místico (Mystici Corporis ) que fez crescer a fórmula: “Nós somos a Igreja, a Igreja não é uma estrutura; nós, os próprios cristãos juntos, todos nós somos o Corpo vivo da Igreja. Naturalmente isto é válido no sentido que o nós, o verdadeiro «nós» dos crentes, juntamente com o «Eu» de Cristo é a Igreja”.
Para que mundo nos envia esse “nós” que a Eucaristia dominical celebra? É o mundo a alterar durante a semana: na família, no trabalho, na escola, no desporto e no lazer, na solidariedade, no voluntariado, etc.. Com uma particularidade: levar estes celebrantes a ver o mundo a partir dos excluídos. Ir da periferia para o centro. Se começarem no centro, nunca mais chegam à periferia. Seja como fôr, foi o método seguido por Jesus. Estragou o sábado a muita gente.
2. Dada a situação do país, para além do imenso esforço de solidariedade das comunidades cristãs, é preciso uma grande convocatória em prol da justiça para que haja paz. Como disse Sto Agostinho, na “Cidade de Deus”: Eliminada a justiça, que são os Estados senão grandes salteadores?  
Para que não haja nem a tentação, nem a imagem de uma tentação, de que a Igreja quer mandar na sociedade ou no Estado, quer fazer política partidária ou formar um partido confessional, o caminho dessa convocatória deve envolver as paróquias, os movimentos, as congregações religiosas, padres e Bispos. Todos juntos teremos de responder à pergunta: se estamos no Ano da Fé para acolher o Vaticano II, que fazer para que o documento “A Igreja no mundo contemporâneo” se transforme no fermento das nossas igrejas locais perante os problemas sociais, económicos, financeiros, culturais em que nos encontramos?
O objectivo desta convocatória não é criar uma alternativa política, mas alterar a política, alterando a mente e o comportamento dos cristãos face às exigências do bem comum. Depois, é deixar a consciência de cada um em liberdade.
3. Jesus Cristo lembrou aos seus contemporâneos que, para aquilo que os interessava, sabiam ler os sinais do tempo: quando vedes levantar-se uma nuvem no poente, logo dizeis: vem chuva, e assim acontece. Quando sopra o vento do sul, dizeis: vai fazer calor, e isto sucede. Hipócritas, sabeis discernir o aspecto da terra e do céu; e porque não discernis o tempo presente? Por que não julgais por vós mesmos o que é justo? (Lc 12, 54-59)
Um dos desafios importantes do Vaticano II foi, precisamente, este: as Igrejas devem capacitar-se para saberem ler os sinais dos tempos. Hoje, as sociedades dispõem de serviços meteorológicos com muitas e úteis funções: para viajar, para a agricultura, para prever alterações na natureza e nos cuidados a ter com o meio ambiente, para não sermos vítimas dos males que semeamos.  Existem, também, muitos centros de investigação da sociologia das religiões. Podemos conhecer o seu número, as características de cada uma, a sua geografia, se estão a crescer ou a diminuir, se são pacíficas ou agressivas.
Segundo a Fé cristã, e não só, em Deus vivemos, nos movemos e existimos. Não em regime de fuga do mundo, mas numa história em contínuas transformações que afectam não só a vida, mas a sua própria interpretação. Somos do Eterno no tempo e os tempos não são todos iguais, não têm todos as mesmas características. Os horizontes mentais vão sendo modificados por novas descobertas científicas, geográficas e culturais. Seja no plano religioso, seja na vida profana, é inevitável a pergunta que a encarnação da fé cristã levanta: no seio das realidades terrestres em que passamos a maior parte do nosso tempo, que sentido têm as nossas actividades, para a construção o reino de Deus?
A teologia dos sinais dos tempos exige esta investigação.

(Ilustração: Marc Chagall - Libération, do tríptico Révolution)