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segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

Seis anos, 26 assassinatos: México, o país mais perigoso para os padres católicos

Texto de Maria Wilton



México: a violência é, hoje, uma marca endémica do país 
(foto Tim Mossholder/Pexels) 

O México “continua a ser o país mais perigoso para exercer o sacerdócio apesar de a sua população ser maioritariamente católica”. O alerta é do padre Omar Sotelo, diretor do Centro Católico Multimedial (CCM), na Cidade do México, capital federal do país. Sotelo lamenta ainda que o tempo da presidência de Enrique Peña Nieto tenha sido, até à data, o mais mortífero para o clero mexicano, já que, nesse período de tempo (2012-2018), morreram até agora 26 padres.
Em entrevista ao jornal mexicano Procesoo padre Sotelo explica: “O aumento no número de assassinatos coincide precisamente com o início da guerra contra o narcotráfico, quecomeçou com Calderón (anterior Presidente) e continuou com Peña Nieto. Esta foi uma guerra para a qual as instituições não estavam preparadas, o que as levou a  serem infiltradas pelo crime organizado.”
Como termo de comparação, no ano de 2017, em toda a América Latina, foram assassinados 14 padres católicos. Destes, metade foram-no no México. O maior problema, segundo Omar Sotelo, é o facto de nenhum dos crimes parecer ter resolução: “Há investigações a decorrer, suspeitos, gente detida que fica livre e dados sem certezas da burocracia judicial.” O padre mexicano denuncia ainda a brutalidade destes crimes dizendo que os sacerdotes são sequestrados,  torturados e só depois mortos.
Dá como exemplo o assassinato do padre José Ascencio Acuña, em setembro de 2014, na comunidade de São Miguel Totolapan. Suspeita-se que tenha sido levado a cabo por membros de crime organizado em conluio com o governo municipal: “Neste caso, havia ordens de detenção contra o deputado do PRI, Saúl Beltran, mas elas não só não foram levadas a cabo como o caso foi praticamente arquivado.”

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Padres “importados” para chegar a todas as paróquias


Em 13 dioceses portuguesas, há 116 padres estrangeiros com responsabilidades paroquiais. De Bragança ao Algarve, sucedem-se as missas celebradas com sotaque da Ucrânia, Brasil, Polónia, Roménia, Angola ou Espanha. Também espalhados pelo território nacional, a Igreja Católica conta 406 diáconos permanentes.
Estes dados constam de uma reportagem de Natália Faria, publicada domingo no Público. Em declarações reproduzidas no texto, o vigário-geral da diocese de Aveiro, padre Manuel Joaquim da Rocha, afirma que “está sempre na altura de a Igreja perceber qual é a melhor resposta que deve dar ao Evangelho” e que, na sua opinião, ela “pode passar pela ordenação de homens casados”, como é o caso dos diáconos, ou, mesmo, pela ordenação ou outras responsabilidades atribuídas às mulheres: “Talvez não possam ser padres, mas por que não dar-lhes acesso a algum degrau dentro da Igreja que lhes permita uma visibilidade mais pública?”
Uma reportagem que acrescenta novos dados ao texto anterior deste blogue e que pode ser lida aqui na íntegra, com um texto complementar aqui.

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

O caso de Rosa e de outras mulheres e homens que celebram uma “missa” que não é bem missa




Uma das fotografias reproduzidas na galeria de imagens disponível aqui
(foto Miguel Manso)

No Público de domingo passado, Margarida David Cardoso publicou uma reportagem sobre as celebrações dominicais na ausência de presbítero. Na Igreja Católica, estas celebrações generalizaram-se em Portugal, em dioceses mais dispersas e com problemas de falta de clero, a partir da década de 1980. A realização da celebrações da palavra (em tudo semelhantes à eucaristia, mas sem o gesto da consagração do pão e do vinho) é aqui retratada a partir do que se passa na região de Reguengos de Monsaraz, em que várias celebrações são animadas por mulheres e homens, mais jovens e mais velhos. Como Rosa: 

(...) Rosa, 55 anos, empregada fabril em Évora, ainda tem um “santo tremor” que sobe sempre consigo ao altar. Apesar de já ter dirigido centenas de celebrações dominicais, ao longo das mais de duas décadas que as tem a seu cargo. Começou de forma pontual, quando o padre tinha que ir à terra. Ou Rosa ia ou a igreja fechava. “O Nosso Senhor havia de meter as palavras certas na minha boca”, acreditou.
Se dependesse dela, aquela igreja, que quase parece uma pequena casa, nunca fecharia a porta. É pequena, caiada de branco, com um altar de pedra. Cá fora, emoldurada pelo olival e campos de pasto, cor de folhas e terra molhada.
Dentro, Rosa celebra uma espécie de missa que não é missa. Chama-se celebração da palavra, em substituição da eucaristia, que, diz a Igreja Católica, apenas pode ser feita por um padre. Na sua ausência, os cristãos designados para orientar as cerimónias seguem um guia de celebração. Há leituras, salmos, as mesmas orações, os mesmos cânticos, a comunhão e a oração dos fiéis. Só não há homilia — em sua substituição, os leigos fazem uma interpretação do evangelho – e a consagração das hóstias – estas são consagradas pelo presbítero numa missa anterior.

(a reportagem pode ser lida na íntegra aqui; no mesmo endereço pode ser vista uma galeria de imagens, da autoria de Miguel Manso, que pode ser acedida clicando sobre a fotografia que aparece na página)

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Pedofilia: Francisco ainda precisa de fazer mudanças na Igreja

Kieran Tapsell, advogado público aposentado e autor de “Potiphar’s Wife: The Vatican’s Secret and Child Sexual Abuse”.
[Artigo publicado no National Catholic Reporter, de 28-07-2017. A tradução é de Isaque Gomes Correa e foi publicada na Newsletter o Instituto Humanitas da Unisinos].

«O editorial do National Catholic Reporter, intitulado “A Igreja mudou em relação aos abusos sexuais, mas não o suficiente”, corretamente identifica a cultura clerical essencialmente masculina como um fator fundamental nos escândalos de abuso sexual, mas erra ao não apontar para o fracasso do Papa Francisco em mudar partes doDireito Canônico que incorporam tal cultura.
O Papa Francisco pode se ver impedido pela teologia no tocante a ter mulheres ordenadas ao sacerdócio. Mas os Cânones 478 e 1420 exigem que os vigários gerais, vigários episcopais e judiciais também sejam sacerdotes. Estes, portanto, não podem ser mulheres, exceto com uma autorização concedida por homens em Roma. Uma regra assim pode ser alterada com o simples uso de uma caneta.
Um exemplo mais grave do clericalismo é a imposição, no Direito Canônico, do segredo pontifício contra todas as acusações e informações relativas a abusos sexuais infantis cometidos pelo clero. A única exceção que permitiria reportar-se às autoridades civis foi dada aos EUA em 2002 e ao resto do mundo em 2010, e limitou-se a valer onde existem leis civis aplicáveis que exigem que este tipo de informação seja repassado. Pouquíssimas jurisdições têm leis abrangentes nesse sentido. Nos Estados Unidos, somente a metade dos estados obriga que o clero informe os casos à polícia.
As tentativas de Francisco em responsabilizar os bispos significaram muito pouco, pois a capacidade dele de assim fazer está limitada pelo Código de Direito Canônico. Os três bispos que ele forçou renunciar – Dom John Nienstedt e seu bispo auxiliar, Dom Lee Piché, de St. Paul-Minneapolis, e Dom Robert Finn, de Kansas City-St. Joseph, no estado do Missouri – violavam o Direito Canônico em vigor nos EUA desde 2002, o qual exigia que obedecessem às leis civis de informar à polícia as acusações de abuso.
Desde 1996, os bispos irlandeses, ingleses, australianos e americanos quiseram que a obrigação de relatar às autoridades civis fosse regra no Direito Canônico, independentemente de haver, ou não, a obrigação segundo o direito civil local. A Santa Sé tem reiteradamente rejeitado a ideia.
Em 2012, a Conferência dos Bispos Católicos da Austrália enviou ao Vaticano para aprovação o seu protocolo contra abusos sexuais, intitulado “Toward Healing 2010”. O texto exigia que fosse obrigatório relatar às autoridades civis sempre, em todos os casos. Em 22-02-2013, a Congregação para a Doutrina da Fé informou a conferência que tal obrigação poderia se aplicar a todos os demais na Igreja, exceto aos clérigos.
Em 2014, a Conferência Episcopal Italiana (da qual Francisco é o bispo mais importante, embora não seja o seu presidente) anunciou que seus bispos não iriam relatar à polícia as acusações de abuso sexual clerical porque as leis italianas não os exigiam – postura coerente com o Direito Canônico. Em 2015, a Conferência dos Bispos da Polônia fez o mesmo anúncio.
Em 2014, duas comissões das Nações Unidas – sobre os direitos da criança e contra a tortura – solicitaram a Francisco que abolisse o segredo pontifício para permitir que se relatassem às autoridades civis os casos de abuso sexual infantil sempre que ocorrerem e que tornasse esta prática um elemento obrigatório segundo o Direito Canônico. Não era outra coisa senão um pedido para que a Igreja voltasse à prática centenária que existia antes de 1917. Em setembro de 2014, o papa recusou o pedido, com a desculpa extraordinária segundo a qual tornar obrigatória a prática de relatar casos de abuso dentro do Direito Canônico iria interferir na soberania dos Estados independentes. O Direito Canônico interfere em tal soberania tanto quanto interferem as regras do futebol.
Em 15-02-2016, o Cardeal Sean O’Malley, da Arquidiocese de Boston, presidente da Pontifícia Comissão para a Tutela dos Menores, afirmou que os bispos têm uma obrigação ética e moral de relatar às autoridades civis todas as acusações de abuso sexual clerical, independentemente se há ou não leis civis nesse sentido. A sua afirmação era um bom indicativo de que o Direito Canônico seria alterado. Em 06-12-2016, a mesma comissão publicou as suas orientações para as conferências episcopais nacionais. A declaração de O’Malley não foi incluída.
Francisco vem dizendo que ele e seu antecessor, o Papa Bento, adotaram uma política de “tolerância zero” em casos de pedofilia. No contexto profissional, tolerância zero significa um desligamento permanente. No entanto, os números que Francisco apresentou às Nações Unidas em 2014 mostravam que menos de 25% de todos os padres acusados de pedofilia foram desligados da Igreja. Temos aqui uma tolerância de 75%, não de zero por cento.
Em 2017, Dom Mark Coleridge, de Brisbane, na Austrália, contou a uma Comissão Real que o Vaticano concordara em desligar apenas um dos 6 padres condenados por crimes sexuais. Isto representa uma tolerância de 83%.
Pode-se expressar melhor o desempenho de Francisco pegando o exemplo de Marie Collins, que renunciou da Pontifícia Comissão para a Tutela dos Menores em 1º de março deste ano:

Quando aceitei a nomeação para a Comissão em 2014, disse publicamente que se achasse que o que ocorria atrás de portas fechadas estivesse em conflito com o que estava sendo dito ao público, eu não permaneceria. Esse momento chegou. Sinto que não tenho escolha senão renunciar caso queira manter a minha integridade”

domingo, 17 de janeiro de 2016

Presbíteros casados disponíveis para servir comunidades

Congresso internacional


(Foto reproduzida daqui)

Os presbíteros casados estão disponíveis para ser úteis em comunidades onde se partilhem “cargos, responsabilidades, serviços e ministérios às pessoas que considerem mais preparadas e adequadas para cada tarefa, sem distinção de sexo nem de estado”, que possam tornar-se “comunidades abertas, inclusivas, a partir da pluralidade e do mútuo respeito”.
A intenção consta de um texto surgido na sequência do congresso do Movimento Internacional de Presbíteros Casados que esteve reunido em Guadarrama (Madrid, Espanha), em Novembro último, para debater o tema Presbíteros em Comunidades Adultas.
Num comunicado redigido, já em Janeiro, pelas federações europeia e latino-americana, afirma-se que as celebrações dos 50 anos do Concílio Vaticano II, que terminaram em Dezembro passado, incentivam os padres casados a oferecer a sua experiência e reflexão, “como movimento eclesial e como membros da Comunidade universal dos crentes em Jesus de Nazaré”.
O texto justifica: “Na nossa origem está a reivindicação de um celibato opcional para os presbíteros da Igreja Católica do Ocidente: liberdade que deveria ser reconhecida e respeitada não só por ser um direito humano, mas também porque a opção (e não a imposição) é mais fiel à mensagem libertadora de Jesus e à prática milenar das igrejas. Esta posição também está mais intimamente relacionada com o direito das comunidades a estarem providas de servidores dedicados ao seu cuidado, que hoje está insuficientemente satisfeito.”

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

A revolução franciscana (8) – Entre a reforma e os opositores, os temas difíceis do Papa

Sob o título genérico A revolução franciscana, publiquei no Jornal de Notícias, durante o mês de Dezembro, oito trabalhos sobre o Papa Francisco, que tentam fazer um balanço do que tem sido este ainda curto mas intenso pontificado. Este é o oitavo e último trabalho da série. 


O Papa Francisco com cardeais, no Vaticano 
(foto reproduzida daqui)

Pressente-se a urgência na sua forma de agir: a reforma da Cúria Romana terá de avançar e ser concluída antes de o Papa se retirar. Mas, até lá, e apesar do que já conseguiu, Francisco tem ainda muito trabalho pela frente. E muita oposição que se adivinha.

Não sendo a sua questão essencial - o que o Papa quer, em primeiro lugar, é que todos os católicos assumam de forma mais intensa a sua relação com o Evangelho e com as consequências da fé no agir quotidiano -, a reforma da Cúria Romana iniciada já por Francisco é um desafio importante para poder concretizar todos os outros de forma plena.
Os problemas da Cúria foram uma das razões que levaram Bento XVI a resignar do cargo e o Papa Bergoglio quer cumprir o mandato dos cardeais. Nas reuniões preparatórias do conclave, foram muitas as vozes a pedir uma clara reforma da instituição.
(o texto pode continuar a ser lido aqui)


Aprofundar o debate sobre o lugar da mulher na Igreja
Na sua primeira longa entrevista, ao padre jesuíta Antonio Spadaro, o Papa Francisco afirmava: “É necessário ampliar os espaços de uma presença feminina mais incisiva na Igreja.” O Papa criticava a “ideologia machista”, defendendo que a mulher é “imprescindível” para a Igreja e que é preciso “trabalhar mais para fazer uma teologia profunda da mulher”, bem como “reflectir sobre o lugar específico da mulher, precisamente também onde se exerce a autoridade nos vários âmbitos da Igreja.”
A exegese bíblica das últimas décadas tem destacado cada vez mais o lugar importante que as mulheres tiveram no grupo dos seguidores de Jesus e as mulheres concretas que São Paulo deixou a liderar comunidades por ele criadas.

domingo, 28 de junho de 2015

Sem mulher nem filhos, junto de uma capela encantada

Reportagem

Um padre invisual, pároco de uma aldeia; outro, trabalhando como enfermeiro no Hospital de São João; ambos passaram pelo Seminário Conciliar de Braga, local de formação do clero da diocese, onde também se aprende a cantar, se pratica futebol, se fala de arte e liturgia e se escreve e publica nas redes sociais. A reportagem de Manuel Vilas Boas, que passou este fim-de-semana na TSF, registou que ali se tentam formar “pastores nómadas” e peregrinos, que saibam entender os sinais deste tempo. A reportagem Sem mulher nem filhos pode ser escutada aqui.

Na reportagem fala-se também da capela Árvore da Vida, que foi construída dentro do seminário e que recebeu já várias distinções internacionais de arquitectura. A 11 de Setembro de 2011, publiquei na revista Pública um texto sobre A capela encantada de Braga, dedicado em exclusivo a este espaço, e acompanhado de fotos de Daniel Rocha, e que a seguir reproduzo:

A capela encantada de Braga


(fotos © Daniel Rocha)

É a Árvore da Vida. A madeira contorce-se, mostra as suas feridas, "como uma pessoa". Esta capela pode ser um jardim, um bosque ou uma avalanche de metáforas. Desde logo, uma metáfora de luz. E um jogo de sombras, alusivo à criação do mundo. Vinte toneladas de madeira, sem pregos.
Será uma cabana? Um barco? Um favo de mel? Talvez um abrigo? Uma caixa de luz? Um bosque? Há uma capela encantada no meio do Seminário Conciliar de Braga. São 20 toneladas de madeira que escrevem todo um tratado de teologia e beleza. E que permitem uma experiência estética de espanto.
Esta capela também se transforma numa grande estante, onde se podem abrigar livros de canto, de oração ou de liturgia, colocando-os no intervalo das lamelas. Ela é, ainda, um jogo de luz permanente, tricotando rendas, traços, sombras, redes, puzzles, desenhos inesperados... E, sim, pode visitar-se.
"Quando começámos a pensar no trabalho, sabíamos o que não queríamos: que o espaço fosse reconhecido como capela apenas por ter um altar e um ambão", diz à Pública o arquitecto António Jorge Fontes, que, com o irmão André Fontes, é autor do projecto.
Claro que nada há mais fácil do que projectar uma igreja: uma nave central, um altar para a mesa da celebração, um ambão para a leitura dos textos, algumas peças mais que fazem o conjunto. Diga-se de outro modo: nada há mais difícil do que projectar uma igreja, que conceber um espaço que remeta para o sagrado. E que o faça a partir de elementos singelos como uma mesa de altar, uma estante de leitura e pouco mais.
No caso da capela Árvore da Vida - iremos depois às razões do nome - do Seminário de Braga, o que constrói a ideia de capela é mesmo o espaço, diz António Jorge Fontes. Não há um adro, mas ele existe. Não há portas, mas estão lá duas. Não há uma cúpula, mas insinua-se uma.
Entra-se assim: podemos vir de baixo, da igreja de S. Paulo (que foi renovada com uma colecção de telas de Ilda David" sobre a vida do apóstolo) e, um piso acima, da capela São Pedro e São Paulo, o grande espaço litúrgico do seminário, que também já foi objecto de reforma espacial. Subimos em direcção ao primeiro piso. Duas janelas de vidro, grandes, a meio da escada, permitem ver o jardim que mais tarde será também trabalhado. E possibilita a entrada de luz que irá brincar com claridades e sombras no interior da capela. Uma porta pesada, sem verniz, para deixar a madeira respirar, dá acesso a um corredor do seminário.
Ou será um átrio? É uma caixa que envolve outra, a da capela propriamente dita. É um lugar de passagem, para o qual convergem mais duas portas que permitem idas e vindas para os quartos dos seminaristas. Aqui se faz um adro, com chão e paredes em microcimento, com relevos insinuados. Como lava informe, um caos.

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Os católicos na luta contra a ditadura (11) - Tribuna Livre, ou o 25 de Abril dos padres

25 de Abril, 40 anos

A história do grupo de padres que condenou a ligação da Igreja ao Estado Novo e que os bispos proibiram de se reunir em Fátima – e a carta inédita que 106 padres de Lisboa escreveram ao cardeal Cerejeira dizendo-lhe quem e porquê deveria ser o seu sucessor como patriarca 
(texto publicado no Público a 18 de Abril de 1999; o texto foi mantido tal como publicado naquela data, incluindo todas as referências temporais)


Chamavam-se “Tribuna Livre”. Eram padres de vários pontos do país que, durante meses, abalaram o frágil equilíbrio em que se encontrava a Igreja Católica e não esconderam a sua oposição ao regime. Proibidos pelos bispos de se reunirem em Fátima, não desistiram, criticaram a colagem da hierarquia ao poder político e o medo que se vivia na sociedade e na instituição eclesiástica. Isto, dois anos depois de muitos deles terem assinado uma carta a propor quem devia substituir o cardeal Cerejeira como patriarca de Lisboa...


Cardeal Manuel Gonçalves Cerejeira (foto reproduzida daqui)

Há quase 30 anos, em Novembro de 1969, um grupo de 67 padres de cinco dioceses do país era forçado a procurar uma alternativa a Fátima para se poder reunir e pensar a sua missão numa sociedade em mudança.
Perante a emergência, o então prior do Entroncamento resolveu bem o problema: “Telefonaram-me à última hora. Era difícil arranjar alojamentos mas, nas missas de domingo, fiz um apelo a quem estivesse disponível para receber colegas meus e contratei um restaurante em frente da estação para as refeições”, recorda agora Carlos Leonel Santos, editor na Multinova.
Duas semanas antes, o cardeal Manuel Gonçalves Cerejeira, então patriarca de Lisboa, tinha sabido da preparação do encontro e escrevera uma carta ao clero da sua diocese a contestar a “obra dissolvente” que o encontro significava. O episcopado, entretanto reunido, manifestou-se também contra os padres “marginais”. Acto contínuo, o bispo de Leiria proibiu todas as casas religiosas de Fátima de receber o grupo. Perante a interdição, os organizadores decidiram manter a convocatória, mudando de lugar e recorrendo ao salão paroquial do Entroncamento.
Era um encontro com claro fundo político, admite Manuel Tiago Martins, 61 anos, então pároco de Tremez (Santarém) e hoje professor do ensino secundário em Queluz. “Mas o seu objectivo era fundamentalmente religioso. Pretendíamos reflectir sobre a nossa missão numa sociedade em mudança, na qual já se pressentia que era impossível aos padres continuarem a colaborar com a hierarquia [católica] ligada ao sistema.”
A realização do encontro não caía do céu, mas começara um ano antes: depois do Verão de 1968, um grupo de padres da diocese de Lisboa começou a encontrar-se mensalmente. Das conversas informais, para troca de ideias e de informação, rapidamente se passou à constituição do grupo “Tribuna Livre”. Apoio mútuo, partilha de reflexões, troca de informação dos vários grupos de oposição católica ao regime eram alguns dos fins que o grupo se propunha. Rapidamente surgiu a ideia de alargar o debate a padres de outros pontos do país, através da realização de um encontro que debatesse a “rentabilidade” evangélica do seu trabalho como padres.

sábado, 24 de agosto de 2013

O que pensa o Papa Francisco – sobre Deus, a Igreja, o clero e a reforma da Cúria

Crónicas

Nas crónicas destes dois últimos sábados, no DN, Anselmo Borges debruça-se sobre o pensamento do actual Papa acerca de Deus e também sobre a Igreja
Fernando Calado Rodrigues falou igualmente do Papa Francisco nas suas últimas crónicas. Primeiro para falar sobre o clero, a partir de um estudo sobre o perfil psicológico dos padres, feito nos Estados Unidos – e que revela dados preocupantes – e, depois, para perspectivar as mudanças na Cúria Romana que se anunciam para depois do Verão.


quinta-feira, 25 de julho de 2013

Formação do clero católico passa a ser feita apenas em Lisboa, Porto e Braga

Na edição de hoje do jornal i, noticia-se que o Vaticano quer que os candidatos a padres passem a estudar apenas nos centros da Faculdade de Teologia da Universidade Católica (Lisboa, Porto e Braga). O Instituto Superior de Teologia de Viseu – onde estudavam 28 seminaristas das dioceses da Guarda, Bragança e Lamego –, encerrou no início deste mês e já não voltará a abrir portas. A escola de Évora fechará no próximo ano, de acordo com a notícia, que revela também os problemas financeiros que se verificava, em diversos seminários, tendo em conta o reduzido número de seminaristas. O texto pode ser lido na íntegra aqui.


segunda-feira, 13 de maio de 2013

Da (falta de) arte das homilias


Comentário

O tema é recorrente e quase não é afrontado: a qualidade das homilias (no caso, nas celebrações católicas) deixa muito a desejar. Falo, claro, do que predomina, não entro aqui em linha de conta com as boas e felizes excepções, que também as há.
Em muitos casos, a referência bíblica é quase inexistente. Ou não é aprofundada seriamente, o que vai dar ao mesmo. Nem se cultiva a preparação digna das homilias ou o bom gosto da linguagem.
Por outro lado, ignora-se a vida das pessoas, não se toca na corda sensível do que se anda a viver. Utiliza-se uma linguagem etérea, que não cola com a realidade, que não diz nada de significativo às pessoas. No final, tanto faz. E ninguém recorda nada de substancial ou significativo que o celebrante tenha dito.
O exemplo do actual Papa deveria motivar quem faz homilias a rever algumas práticas: intervenções curtas, que cruzam a Bíblia e a vida das pessoas, que apontam caminhos para a relação com o mundo e os outros.
Falha importante é também a falta de percepção dos auditórios que se têm diante de si. Em Fátima, por exemplo, não é positivo ver sucederem-se tantos bispos e cardeais que se esquecem das condições físicas em que os milhares de peregrinos se encontram – quase sempre, debaixo de frio ou de muito calor. E que, também neste caso, não têm nada de muito importante para dizer, aos milhares de pessoas que aqui acorrem – e aos milhões que seguem pela televisão e pelos outros media. Uma ocasião soberana de dizer algo de substantivo e significativo, e que é soberanamente desperdiçada na maior parte das ocasiões.
Este 12-13 de Maio não foi dos casos mais notórios no que respeita às duas homilias do presidente das celebrações, o arcebispo do Rio de Janeiro, Orani João Tempesta. Mas fica-se com a sensação de que muito mais se poderia dizer e fazer nestes momentos. Desde logo, é pena que as personalidades convidadas para presidir a estas celebrações não se interroguem sobre as condições, a proveniência e a expectativa deste auditório - que, em muitos casos, não está disponível para experiências deste género em outras ocasiões. Fátima tem sido um lugar de formação e renovação pastoral em vários campos. Mas é pena que, neste casopouco sirva de exemplo à renovação da linguagem das homilias, que deve fazer parte de um processo mais vasto de mudanças necessárias no catolicismo. Falta arte na palavra.

(Foto: o arcebispo do Rio de Janeiro, em Fátima, a 13 de Maio; foto de Luís Oliveira/Santuário de Fátima)