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quarta-feira, 28 de novembro de 2018

“Não é a religião que gera violência, mas o nível de apropriação que cada indivíduo faz da mesma”

Texto de Maria Wilton


Afirmar que a religião leva à violência não é só uma simplificação mas também uma generalização: “A religião gera violência, mas também gera paz. Podemos dizer que há uma ambiguidade profunda no fenómeno religioso e na relação com o sagrado que é preciso ser pensada. Não é a religião por si que gera violência, mas o nível de apropriação que cada indivíduo faz da mesma”. 
A afirmação é de José Rosa, professor na Universidade da Beira Interior (UBI) e um dos organizadores do colóquio internacional Religião e Violência, que nestas quinta e sexta-feira, dias 29 e 30 de Novembro, decorrerá na UBI, na Covilhã. 
Com convidados de variadas áreas profissionais, portugueses e estrangeiros, o objectivo do colóquio é debater a relação entre a violência e o fenómeno religioso – “o homo religiosus é também homo periculosus”, o homem religioso é também um homem perigoso –, discutindo a pertinência de textos sagrados na génese desta mesma violência e das radicalizações que ocorrem em todas as religiões.
José Rosa salienta que a importância deste colóquio não é estabelecer uma relação única e direta entre os dois termos, mas questionar todos os tipos de relação que se podem estabelecer: “É uma questão profundamente atual, que está em cima da mesa desde pelo menos 2001, aquando dos ataques do 11 de Setembro.”

terça-feira, 21 de julho de 2015

Karen Armstrong em entrevista: “Não há nada no islão que seja mais violento do que no cristianismo”


Karen Armstrong, autora de Uma História de Deus
ed. port. Círculo de Leitores (foto reproduzida daqui)

O final do mês islâmico sagrado do Ramadão coincidiu mais uma vez de forma trágica, no último fim-de-semana, com um novo atentado terrorista, em Bagdad (Iraque), que provocou quase 100 mortos.
Numa entrevista dada, em Fevereiro, a Lizette Thooft e publicada no site do Khutbah Bank após os atentados de Paris contra o Charlie Hebdo, Karen Armstrong comentava o seu mais recente livro com o título Fields of Blood. Religion and the History of Violence (Campos de Sangue. Religião e História da Violência). E afirmava: “O terrorismo não tem nada a ver com Muhammad [Maomé], tal como as Cruzadas não tinham nada a ver com Jesus. Não há nada no islão que seja mais violento do que no cristianismo.”
Fica aqui a versão portuguesa da entrevista, na tradução de M. Yiossuf Adamgy, director da revista de estudos islâmicos Al Furqán.


Os ataques terroristas em Paris originaram o seu novo livro Campos de Sangue. Religião e História da Violência repentina e tragicamente muito urgente. Em mais de quinhentas páginas, Karen Armstrong, que já foi freira e é autora de best-sellers respeitados como Uma História de Deus e O Processo de Deus, responde à questão de saber se a religião é a principal causa da violência. Uma conversa sobre o Islão e os terroristas, a responsabilidade ocidental e o mundo em que vivemos.

Não é um livro alegre, o mais recente de Karen Armstrong: o sangue flui livremente sobre as páginas, metaforicamente falando. Em detalhe, ela descreve a violência que tem sido sempre indissoluvelmente associada com o desenvolvimento de Estados-nações e culturas. Mas é um livro necessário, uma espécie de verificação da realidade. Pois é tempo de perceber o quanto cada civilização tem as suas raízes na submissão e exploração, incluindo a nossa. Importante altura de ouvir essa voz.
Karen Armstrong entra no hall do hotel, com um ritmo firme – uma mulher pequena e elegante, com uma madeixa loira de cabelo que continua caindo na frente de seus olhos. E um riso pronto, apesar do assunto sombrio. Vamos começar com a pergunta de um milhão de dólares.

Pergunta – Existe alguma diferença entre Jesus [Issa a.s.] e Maomé [Muhammad s.a.w.] em termos de violência ou, em outras palavras, como explica que a maior parte do terrorismo agora seja inspirado no Islão?
KAREN ARMSTRONG – O terrorismo não tem nada a ver com Muhammad, tal como as Cruzadas não tinham nada a ver com Jesus. Não há nada no Islão que seja mais violento do que no Cristianismo. Todas as religiões têm sido violentas, incluindo o Cristianismo. Não havia nada no mundo muçulmano como o antissemitismo, que é uma importação do período moderno. Eles tomaram de nós. Os missionários trouxeram-no. E então veio o estado de Israel. O judaísmo tornou-se violento no mundo moderno, graças ao Estado-nação.

P. – Mas, então, qual é a causa do terrorismo muçulmano? No seu livro escreve que os muçulmanos foram introduzidos na modernidade de uma forma mais abrupta...