Exposição/crónica de José Tolentino Mendonça
(Fotos de Rui Martins; reproduzidas daqui)
Numa crítica publicada na revista E, do Expresso, José Luís Porfírio descreve o que se vê: “A noite parece crescer a partir de um chão granuloso que se lamenta debaixo dos nossos pés convertidos em visão desta peça singular, o escuro cresce para melhor exaltar a luz deitada num esquife flutuando sobre o chão de ferro que geme e nos desequilibra. Ao longe, não sabemos onde nem quando, a água corre, temperando, cristalina, os lamentos do chão. Vemos com os ouvidos e vemos em estereofonia sentindo o piso irregular e a água correndo algures, porém, o mais importante é a luz que transfigura a matéria...”
Na Capela de Nossa Senhora da Bonança, conhecida como Capela do Rato, em Lisboa, pode ainda ver-se, entre quinta-feira e domingo (dias 6 a 9 de Setembro) a instalação “Junto ao chão”. Serão os últimos dias para poder ver esta mostra original, em que as cadeiras foram retiradas do espaço litúrgico e substituídas pela instalação do artista plástico Carlos Nogueira e textos do poeta Manuel de Freitas.
Essa matéria, escreve ainda José Luís Porfírio, é “escória de ferro escondida pela sombra, um leito de sal flutuando sobre a noite, é o foco de luz que o ergue do chão, e é o gravador trazendo a água e o vento”.
«capela/ escória de ferro, ferro, sal, luz,/ o som do vento e da água que corre,/ bonança» são os elementos presentes e evocados na instalação, que extraiu os bancos do espaço e o imergiu na penumbra, cobrindo o claro chão liso de porosa gravilha cinza.
«Junto ao chão é também o lugar de um corpo que só pode olhar para o alto, e tentar descobrir, como diz São João da Cruz citado por Carlos Nogueira, o caminho para chegar das coisas que vêem às coisas não se vêem», escreve Luísa Soares de Oliveira na folha da exposição. (Aqui podem encontrar-se elementos sobre o artista.)
Matéria, no texto citado, são ainda “os nossos corpos intrigados e hesitantes, barulhentos de vozes orientando-se nessa penumbra, ou o meu corpo isolado sem mais ninguém”, numa relação com o espaço que nos pode levar a “uma capela imaginária que pode morar dentro de nós.”
Na sua crónica semanal na revista E, José Tolentino Mendonça escreveu também sobre esta exposição. Transcreve-se o texto a seguir:
Foi o escritor Gonçalo M. Tavares que um dia, na Capela do Rato, me disse: “vocês poderiam retirar todas estas cadeiras e encher de areia o pavimento, para lembrar aos crentes que a fé é experiência de nomadismo e estrada, mais do que confortável sedentarismo”. Ele talvez nem se recorde já, mas, desde aí, isso ficou-me na cabeça e tenho contado muitas vezes esta história, embora, confesso, mais como repto a uma desinstalação interior do que propriamente como desafio a uma reconfiguração do espaço sagrado em tais moldes.










