segunda-feira, 26 de novembro de 2018

Iluminar monumentos: uma “red wednesday” para lembrar os cristãos perseguidos

Texto de Maria Wilton


Quatro monumentos portugueses serão iluminados de vermelho, na quarta-feira, 28 de Novembro, a partir das 20h, como homenagem e recordação dos cristãos perseguidos em todo o mundo. Será uma Red Wednesday, quarta-feira vermelha para recordar pessoas vítimas de violências. 
A Ajuda à Igreja que Sofre (AIS), organização católica internacional dependente da Santa Sé e responsável pela iniciativa em Portugal, escolheu pela segunda vez o Santuário do Cristo-Rei (Almada) e a Basílica dos Congregados (Braga), que já se tinham iluminado este ano. Desta vez, a lista será acrescentada com o Mosteiro dos Jerónimos (Lisboa) e a Torre dos Clérigos (Porto). Em Fevereiro, os dois primeiros monumentos iluminaram-se como parte de uma jornada de oração e de sensibilização da opinião pública para a questão da perseguição aos cristãos que, na altura, juntou também o Coliseu de Roma, a Catedral maronita de Santo Elias, em Alepo (Síria), e a Igreja de São Paulo, em Mossul (Iraque). 
Segundo Félix Lungu, porta-voz da AIS em Portugal, esta Red Wednesday é “uma forma de mostrar que Portugal também se importa com os direitos humanos”, e pretende “despertar para esta realidade”, já que a religião é um tema que “costuma ficar em segundo plano na agenda mediática”.
Na última sexta-feira, 23, a Basílica da Sagrada Família em Barcelona (Espanha) foi iluminada com o mesmo propósito, juntando-se a um leque de monumentos internacionais, que se iluminarão na ocasião mais propícia em cada país. Esta quarta-feira, além de Portugal, juntam-se a esta iniciativa países como o Reino Unido (Parlamento Britânico),  Austrália, Irlanda e Estados Unidos, todos com o mesmo intuito de combater a indiferença perante a dramática realidade atual.
Segundo o relatório sobre a Liberdade Religiosa no Mundodivulgado na semana passada pela AIS, estima-se que o número de cristãos perseguidos no mundo seja perto de 300 milhões. Isto significa que um em cada cinco cristãos reside em países onde há perseguição ou discriminação com base nas questões da fé. A falta de liberdade religiosa, relembra a AIS, apresenta por vezes contornos dramáticos, com pessoas, famílias e comunidades inteiras a sofrerem violência, terrorismo, ameaças, perseguição, prisão e até a morte. 

sábado, 24 de novembro de 2018

Um doodle para o padre que ajudou a integrar os surdos


 
Nascido em 24 de Novembro de 1712, o padre Charles Michel de l’Épée é uma das figuras mais destacadas na história da integração social das pessoas surdas. Ele “educou, instruiu e formou uma população abandonada que ninguém sabia como entender e ninguém queria atender”, como escreve Alberto López na edição brasileira do El País, onde se pode ler este parágrafo:

As pessoas com deficiência auditiva tinham naquela época poucas oportunidades de subir na vida e, certamente, nenhuma facilidade. As superstições e os preconceitos ainda estavam arraigados em muitas áreas da Europa Ocidental. Por exemplo, o filósofo grego Aristóteles escreveu no ano 355 a.C. que os surdos eram incapazes de raciocinar, algo que perdurou mais de um milénio como se fosse uma verdade absoluta. Felizmente, o médico Girolama Cardano realizou, em 1500, um estudo que demonstrou que os surdos eram, sim, capazes de raciocinar. Mesmo assim, em grande parte da Europa as pessoas surdas estavam sujeitas a decretos que as proibiam de se casar, possuir bens ou, em alguns casos, de ter acesso a uma mínima e elementar educação. Só os filhos surdos de famílias ricas podiam ler e escrever. Alguns até aprenderam a falar graças a professores dedicados exclusivamente a isso, cujos métodos, considerados quase milagrosos, eram um segredo bem guardado.

Tendo passado neste sábado, 24 de Novembro, o aniversário de Charles Michel de l’Épée, o motor de busca Google homenageou-o com o doodle do dia. O texto referido pode ser lido aqui.

Santos, Vaticano II e opção preferencial pelos pobres


Texto de Leonor Xavier


Pessoas sem-abrigo na igreja dos Mensageiros da Paz, em Madrid:  
Penso em todos os mortos e martirizados, nos retirantes e deslocados, nos excluídos da aparente segurança do mundo ocidental. E releio o poema de Drummond...


Em memória de momentos vividos por muitos, penso que é justo revisitar a própria memória. Ou seja, em vez de remendá-la, transformá-la em testemunho.
Retomo este meu texto de Novembro de 2012, a repensar fragmentos do percurso do Movimento Nós Somos Igreja entre nós. E assim confesso, uma vez mais, a saudade de Ana Vicente e a sua falta sentida, neste tempo que nos é dado viver. 

Santos, Vaticano II e opção preferencial pelos pobres

Dia de Todos os Santos, Dia das Bem Aventuranças, Dia do Sermão da Montanha, este ano faz-me uma vez mais pensar nas mais anónimas criaturas que todos os dias alcançam a santidade, na vivência das suas diferentes condições e circunstâncias. Faz-me pensar nos que sofrem, aqueles que Carlos Drummond de Andrade enumerava no poema “Canto ao Homem do Povo de Charlie Chaplin:”
falam por mim os abandonados da justiça, os simples de coração, os párias, os falidos, os mutilados, os deficientes, os recalcados.”
E faz-me reviver momentos do Encontro anual do Internacional Mouvement We Are Church, IMWAC, agora acontecido em Lisboa. Treze nacionalidades, quase trinta membros do IMWAC foram recebidos pelo Movimento Nós Somos Igreja – Portugal, organizador do Encontro. A língua falada foi o inglês, as línguas pensadas foram variadas, na identidade cultural de cada presença. Estes católicos, na sua universalidade, têm em comum, no IMWAC, a reforma desejada da Igreja. Reforma da Igreja-Instituição que, tal como muito bem sublinhou Ana Vicente, não é a Igreja do Povo de Deus.
Para ampliar esta causa aos grupos católicos nos mais remotos países, à Europa de Leste, aos continentes Ásia e Austrália, debateram-se meios de divulgar a Petição do Povo de Deus. Foram faladas as relações com a hierarquia, ou o diálogo diplomaticamente possível com alguns bispos na Dinamarca e praticamente impossível em países como Itália ou Espanha. A urgência de mudança de mentalidades foi invocada, para que aconteçam as mudanças desejadas.
O representante da Irlanda falou nas reações à pedofilia na Igreja. Um dos representantes dos Estados Unidos lembrou a tensão entre o ideal e a realidade, na questão social. Lançada pelos dois representantes do Brasil no IMWAC, a questão da “opção preferencial pelos pobres” que foi substância fundamental na Teologia da Libertação na América Latina dos anos 60, mereceu destaque no envolvimento de todos os participantes, unânimes na defesa da justiça social. 

sexta-feira, 23 de novembro de 2018

Tomáš Halík: “Deus gosta de quem luta com ele”

Entrevista de António Marujo
Imagem de Maria Wilton

“Deus não é um problema, é um mistério. E a fé é a coragem de entrar na nuvem do mistério”, diz o teólogo checo Tomáš Halík, que esta semana esteve em Lisboa, a propósito da edição do seu último livro, Diante de Ti os Meus Caminhos (ed. Paulinas). Obra que cruza as memórias e a reflexão teológica e antropológica a que o autor já habituou os seus leitores, Halik percorre, nela, os anos da aproximação à fé cristã durante a sua juventude, a opção pelo catolicismo e pela missão de presbítero, a clandestinidade e as proibições e controlos a que foi sujeito, a morte do colega Jan Palach, a democratização da então Checoslováquia ou a amizade com o primeiro Presidente eleito, Vaclav Havel. 
A partir do seu trabalho com jovens estudantes, Halik traça, também, as suas reflexões sobre o papel do cristianismo na contemporaneidade. “Não acredito numa Igreja sem feridas”, diz, para manifestar a sua extrema preocupação com o fenómeno dos populismos contemporâneos: “Comunismo e populismo não se podem comparar. No comunismo, precisamos de coragem. Agora, precisamos de sabedoria.”
Ao longo da entrevista, Tomáš Halík pára por vezes durante largos segundos para pensar na resposta. Noutras, volta atrás, porque a ideia não estava a sair como pretendia. “Escrevo os meus livros para pessoas com mentes e corações abertos”, dirá, a terminar. 


P. – Nos seus livros, cita várias vezes Nietzsche e, sobretudo, o seu “Assim Falava Zaratustra”. Neste último, escreve mesmo que começou a ler Nietzsche e volta a ele sempre, em diferentes momentos da sua vida. 


Há várias similitudes entre Nietzsche e Søren Kierkegaard, que foi um grande cristão, não conformista. Também há semelhanças com Pascal. Todos eles lutam contra um cristianismo superficial e de massa. Nietzsche criticava Jesus mas há também alguns capítulos no seu Anti-Cristo, que é como uma canção de amor e admiração por Jesus. Penso que os críticos perspicazes são sempre bons parceiros para pensar, provocadores do pensamento. 

– Termina este novo livro escrevendo: “Acredito que o NADA, ao qual nos dirigimos na morte, é apenas outro nome maravilhoso de Deus.” Isto é uma profissão de fé cristã ou uma declaração ateia?
– É uma citação do grande místico Mestre Eckart: “Deus não é nada das coisas deste mundo.” É uma purificação da idolatria presente em alguns dos nossos conceitos de Deus. Alguns retratos de Deus são humanos e não podemos viver sem eles. Mas, se esquecermos a diferença entre o símbolo e o que ele simboliza, isso é idolatria, fundamentalismo. Mestre Eckart está a dizer: Deus não é nada assim. 


Deus não é um problema, é um mistério. E a fé é a coragem de entrar na nuvem do mistério, para viver este mistério, este paradoxo da vida sem medo e com confiança. 

– Esse mistério de que fala tem algo a ver com o “horizonte absoluto” de que falava o Presidente Havel?
– Essa expressão de Havel é inspirada em Martin Heidegger e no existencialismo. Sim, há alguma similitude. Penso que é algo muito típico da espiritualidade checa: [muitos checos] não são ateus, são muito sensíveis aos valores espirituais, mas não são capazes de falar de Deus em termos tradicionais. 

quinta-feira, 22 de novembro de 2018

Violações à liberdade religiosa agravaram-se no mundo, diz relatório

Texto de Maria Wilton




Mapa-mundo das violações à liberdade religiosa: os casos mais graves concentram-se 
numa longa franja que se estende do Norte de África ao Extremo Oriente; 
na Ásia, são muito poucos os países onde não há discriminações e perseguições graves 
(fonte: Liberdade Religiosa no Mundo 2018, AIS)


A situação dos grupos religiosos minoritários agravou-se em 18 países e, em comparação com 2016, há mais países com violações significativas da liberdade religiosa, conclui o relatório que acabou de ser divulgado há minutos pela Ajuda à Igreja que Sofre (AIS), uma organização católica internacional. 
Neste levantamento exaustivo que é feito de dois em dois anos, analisam-se as situações da liberdade religiosa, seja no âmbito das confissões maioritárias e das minorias em cada país. Verificam-se as normas legais e relatam-se, quando existem, episódios de detenção, perseguição, tortura ou mortes por causa da fé. Os dados são recolhidos e tratados para estabelecer as situações de intolerância, discriminação, perseguição ou genocídio, por ordem crescente de gravidade. 
De acordo com o relatório 2016-18 da Liberdade Religiosa no Mundo (LRM), registam-se violações significativas da liberdade religiosa em 38 países – aproximadamente, 20 por cento das nações do mundo. Entre esses 38 com graves violações, predominam as perseguições em 21 e as discriminações nos outros 17. Estas violações da liberdade religiosa podem ter três autores principais: o Estado, grupos nacionalistas religiosos e organizações criminosas ou terroristas. 
Ao todo, o relatório da LRM analisa 197 países. A quase totalidade das situações mais graves registam-se na Ásia e África. O documento dá conta de um aumento de episódios de nacionalismo agressivo, hostil às minorias religiosas. É o caso de grupos religiosos hegemónicos e de líderes violentos como os talibãs no Paquistão e Afeganistão ou o Boko Haram, na Nigéria. Uma das situações mais preocupantes deste tipo de perseguição acontece em Mianmar (antiga Birmânia) que, desde 2012, sofre uma grande campanha de ódio, discriminação e violência contra os muçulmanos, liderada pelo movimento nacionalista budista militante conhecido como Ma Ba Tha, ou Comité Budista para a Protecção da Raça e da Religião. 

Anti-semitismo e discriminações legais

No entanto, não só nos continentes africano e asiático se regista o aumento de ataques motivados por ódio religioso. Como exemplo de anti-semitismo na Europa, o relatório recorda o caso de Sarah Halimi, uma judia de 65 anos que foi espancada e atirada pela janela da sua casa em Paris, em Abril de 2017. O autor do crime era muçulmano e foi escutado por vizinhos, também muçulmanos, a gritar frases religiosas em árabe, incluindo citações do Alcorão, durante o homicídio. Dez meses após o ataque, a morte da senhora Halimi foi classificada como “homicídio, com o anti-semitismo como factor agravante”. 

terça-feira, 20 de novembro de 2018

Tomáš Halík em Portugal: “O populismo é uma das grandes doenças da nossa vida”

Texto de António Marujo


Tomáš Halík está em Lisboa para apresentar o seu novo livro: “Escrevo sobre mim, 
mas também sobre meio século da história deste país no coração da Europa e, nomeadamente, da história da Igreja checa, repleta de graves provações.” (foto © Maria Wilton)

“Uma das grandes doenças e feridas da nossa vida é o populismo, o racismo e a xenofobia, o medo e o desespero... Este é o novo populismo, que é tão forte no nosso mundo”, diz o padre e teólogo Tomáš Halík, que está em Portugal até quinta-feira, dia 22, para quatro intervenções públicas – a mais importante das quais exactamente sobre o papel da “razão, esperança e fé numa era de populismo”, a propósito da publicação do seu novo livro Diante de Ti os Meus Caminhos (ed. Paulinas). 
Em entrevista ao RELIGIONLINE, o autor de Paciência Com Deus acrescenta: “[O populismo] é uma doença e devemos – não apenas a Igreja, mas também os bons média, as universidades... – ser um hospital para curar essas feridas e actuar também como prevenção, para preparar as pessoas, para confrontar notícias falsas e todas essas coisas, no nosso mundo.”
O novo livro – que sucede aos títulos Paciência Com DeusA Noite do ConfessorO Meu Deus é um Deus FeridoQuero que Tu Sejas! e ainda a O Abandono de Deus, escrito com Anseln Grün, todos na Paulinas Editora – faz um percurso por memórias biográficas, a par com um conjunto de reflexões sobre o sentido da vida, a fé, a política, a Igreja, a clandestinidade e a liberdade. Num tom que, por vezes, se aproxima do registo das Confissões, de Santo Agostinho, Halík explica: “Escrevo sobre mim, mas também sobre meio século da história deste país no coração da Europa e, nomeadamente, da história da Igreja checa, repleta de graves provações.”
Tomáš Halík tem dedicado boa parte da sua obra à reflexão sobre a crença e a descrença. Em Paciência Com Deus, o livro que o tornou conhecido em Portugal, ele começa por dizer que muitas vezes concorda com os ateus, mesmo em quase tudo. 

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

O Ano Novo hindu e a festa de Diwali

Na semana passada, terminaram as festas de Diwali e do Ano Novo hindu, duas das datas mais importantes do calendário do hinduísmo. As festas tinham começado seis dias antes, no Templo Radha Krishna, em Lisboa. Uma reportagem desses momentos. 


Papa insiste no papel das mulheres em lugares de responsabilidade

Texto de António Marujo


O Papa Francisco com Marianne Schlosser e Mario Botta, os dois laureados 
(foto reproduzida daqui)


O Papa Francisco sublinhou que “é muito importante que se reconheça cada vez mais a contribuição das mulheres no campo da investigação teológica científica e do ensino da teologia, considerados durante muito tempo territórios quase exclusivos do clero”. 
Num curto discurso na cerimónia de entrega do Prémio Ratzinger, no passado sábado, 17 de Novembro, o Papa acrescentou: “É necessário que esta contribuição seja estimulada e encontre um espaço mais amplo, de modo coerente com a crescente presença de mulheres nos diversos campos de responsabilidade da Igreja, em particular, e não só no campo cultural.”
O Prémio Ratzinger deste ano contemplou, pela segunda vez, depois da francesa Anne-Marie Pelletier, o nome de uma mulher: Marianne Schlosser, professora na Universidade de Viena, especialista em teologia das épocas patrística (primeiros séculos cristãos) e medieval. São Boaventura é um dos autores que tem trabalhado e Joseph Ratzinger (o Papa emérito Bento XVI), patrono do prémio, dedicara também, em 1959, a São Boaventura e a Teologia da Históriaum dos seus primeiros trabalhos de jovem teólogo. 

As doutoras da Igreja

“Desde que Paulo VI proclamou doutoras da Igreja a Teresa de Ávila e Catarina de Sena, não pode haver dúvida alguma de que as mulheres possam alcançar os cumes mais altos da inteligência da fé. João Paulo II e Bento XVI também o confirmaram, incluindo na série de doutoras os nomes de outras mulheres, Santa Teresa de Lisieux e Hildegarda de Bingen”, afirmou o Papa. 

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

Bispos dizem não ser necessário para já estudo dos casos de abuso sexual

Texto de António Marujo



Os cardeais António Marto (à esq.) e Manuel Clemente, esta quinta, 
na conferência de imprensa em Fátima: a metodologia seguida pela Obra da Rua 
“não é hoje, para o Estado e não só para o Estado, a maneira de responder a essas necessidades” 
(foto © Maria Wilton)

Conferência Episcopal Francesa criou uma comissão para averiguar abusos; nos EUA, bispos adiaram tomada de decisões concretas; em Portugal, patriarca admite desentendimento com o Estado sobre metodologia da Casa do Gaiato

Os bispos portugueses entendem que não é necessário fazer um estudo aprofundado da realidade dos abusos sexuais do clero, pelo menos no imediato: “Tudo é possível. Para já não tratámos disso directamente. O que nós fizemos foi publicar” um documento com directivas sobre o assunto, “que são suficientes” mas fazer mais do que isso, “para já, não está em cima da mesa”, disse  o presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), D. Manuel Clemente, no final dos trabalhos da assembleia plenária, que desde segunda-feira, dia 12, esteve reunida em Fátima. 
“Tenhamos cuidado: neste campo, tudo é mau, mas nem tudo é igual”, alertou o patriarca de Lisboa, sublinhando que “cada caso é um caso” e apresentá-lo num conjunto pode incorrer em “distorção”. Por isso, acrescentou, deve haver “cuidado em analisar pessoalmente cada caso”, envolvendo todos os implicados na averiguação dos casos e na sua resolução. 
O cardeal Manuel Clemente acrescentou que “o tema já foi tratado” pela CEP que, em 2012, publicou directivas conjuntas para todas as 20 dioceses portuguesas. E ele “continua a ser acompanhado por todos” os bispos, disse ainda, no sentido de encaminhar cada caso “quer para as instâncias do Estado quer para as instâncias romanas”. Em Portugal, há vários casos conhecidos e já julgados pelos tribunais: um na Guarda, outro em Santarém, e ainda em Vila Real e Funchal
O presidente da CEP diz que os que foram resolvidos pela justiça civil “e não arquivados na justiça canónica têm seguido para Roma”, o que pode significar que a última decisão sobre os mesmos – ou sobre outros que venham a aparecer – pode ainda não ter sido tomada. Em todo o caso, avisou, é preciso “atender as pessoas, ouvir os queixosos, acompanhar as famílias e recorrer às autoridades se necessário, fazendo a análise de cada caso, encaminhar para o Estado e para as instâncias [do Vaticano], e deixar seguir o percurso”. 
Sobre a possibilidade de, à semelhança do que aconteceu na Alemanha ou em França, em que as respectivas conferências episcopais estabeleceram comissões independentes para averiguar o que se passou nas últimas décadas, o patriarca acrescentou: “Outras conferências episcopais foram por aí. Tudo é possível” mas, para já, a CEP entende não ser necessário seguir esse caminho. 

Da comissão francesa à “esperança” nos EUA 

No caso francês, a decisão foi tomada pelos bispos gauleses na semana passada, por uma “maioria massiva”, como relatava o La Croix, além de um grupo de trabalho constituído por bispos e especialistas de diferentes áreas ir debater, nos próximos tempos, um conjunto de outras medidas (aqui em inglês)
O objectivo da Conferência Episcopal Francesa é realizar “um trabalho de memória reunindo os relatos das vítimas”, “compreender melhor as razões que conduziram a estes actos” e “acentuar o trabalho de prevenção” com acções de sensibilização e prevenção”. 

terça-feira, 13 de novembro de 2018

3 Milhões de Nós: outra linguagem, outra criatividade, para chegar a mais pessoas

Texto de Maria Wilton


Ricardo Araújo Pereira: 
Todos estão “à procura: não acredito em Cristo, mas acredito nos cristãos
(foto reproduzida daqui)

O encontro 3 Milhões de Nós pretendeu renovar a linguagem para aproximar a mensagem cristã dos jovens

“Eu fiz a escola primária num colégio de freiras vicentinas, depois estudei num colégio de padres franciscanos; depois, então, estudei num colégio de padres jesuítas e, no fim, Universidade Católica. Muitas vezes as pessoas perguntam-me se é por isso que eu sou ateu. E não é: eu sou ateu apesar disso.”
Foi assim que, entre muitas gargalhadas, o humorista Ricardo Araújo Pereira começou a sua intervenção no encontro 3 Milhões de Nós, que encheu a Aula Magna, em Lisboa. Sábado passado, 10 de Novembro, cerca de 1700 pessoas – jovens, na maior parte – ouviram um conjunto de convidados a falar sobre temas como a espiritualidade, o mundo do trabalho ou a família. O título da iniciativa remete para o facto de, em Portugal, haver cerca de três milhões de pessoas com menos de 25 anos, que o encontro pretendia atingir, com criatividade e novas linguagens, como diria a irmã Núria Frau, responsável da iniciativa. 
O humorista falou sobre viver a espiritualidade sem fé, partindo da sua experiência de, não sendo crente, ter frequentado escolas católicas. Destacou o impacto que para ele teve o “padre Joaquim”, um professor de Português do colégio dos padres franciscanos. Recentemente falecido, a sua recordação emocionou o fundador dos Gato Fedorento. Ricardo Araújo Pereira acrescentou que, enquanto ateu, está sempre a pensar no fim da vida e na sua finalidade ou propósito. Mas que, apesar disso, se considerava semelhante a quem tem fé: todos estão “à procura: não acredito em Cristo, mas acredito nos cristãos”. 




Um painel com frases escritas pelos participantes, 
no qual a frase de Ricardo Araújo Pereira foi reproduzida
(foto © Maria Wilton)

Acerca da experiência de ter fé falou também Zohora Pirbhai, da Comunidade Ismaili de Lisboa, um dos grupos muçulmanos mais importantes. A oradora pretendia dar outra perspetiva acerca do Islão. Assumindo-se como feminista e islâmica, salientou que, no seu modo de entender o seu islão, os dois conceitos não se excluem mutuamente.

Portugal “resiste à crise de fé”

Da experiência cristã falou o padre jesuíta Pedro Rocha Mendes, para quem os jovens continuam a tentar preencher a vida com algo mais: “O mundo em que vivemos”, virtual, descartável e instantâneo, como caracterizou, “está voltado para a satisfação imediata, mas todos nos apercebemos que a satisfação não gera felicidade, mas sim, mais insatisfação.” 

domingo, 11 de novembro de 2018

Fórum pela Paz celebra os cem anos do Armistício

Texto de Eduardo Jorge Madureira

O Armistício declarando o fim da I Guerra Mundial que, desde 1914, opunha tropas alemãs e aliadas, foi assinado fez cem anos neste domingo, 11 de Novembro. As celebrações oficiais da efeméride, que têm decorrido em França, onde se encontram dezenas de chefes de Estado e de governo, têm sido acompanhadas por múltiplas outras evocações de um conflito de uma violência e uma crueldade até então nunca vistas. Como é habitual nos aniversários de acontecimentos relevantes, têm abundado os colóquios, os seminários, as exposições, as edições de livros e de números especiais de revistas e de jornais.
A revisitação de um período negro do século XX não tem provocado polémicas excessivas. Mas elas não têm faltado. Uma diz respeito ao lugar a conceder, por estes dias, à memória do marechal Philippe Pétain, o Dr. Jekyll que se transformou em Mr. Hyde, para usar a imagem que o historiador Serge Klarsfeld traçou no diário francês Le Monde (8 de Novembro). Tendo sido um dos chefes militares que conduziram o exército francês à vitória em 1918, Pétain seria, poucas décadas depois, o rosto do colaboracionismo com o ocupante nazi da França na II Guerra Mundial. “A nossa memória colectiva assume o veredicto de 1945”, sintetizou, no mesmo jornal, Laurent Joly, também historiador.
O “consenso negativo” em relação ao marechal ocorre numa ocasião em que os jornais têm dado conta de um acréscimo de violência contra os judeus em França, tendo o número de acções antissemitas em França subido quase 70 por cento nos primeiros nove meses deste ano. A denúncia foi feita pelo primeiro-ministro Edouard Philippe, num texto de homenagem às vítimas da “Noite de Cristal”, os judeus que, a 9 de novembro de 1938, na Alemanha, viram as suas sinagogas, lojas e casas destruídas por uma onda de violência nazi.

“É melhor festejar a concórdia do que a vitória”

Não é, pois, por acaso que algumas vozes – como a do director do Libération, Laurent Joffrin – têm pedido que este dia 11 de Novembro de 2018 celebre a paz e a concórdia entre os povos da Europa – que, feito inédito, duram desde há mais de 70 anos – em vez de homenagear a vitória dos aliados. No editorial “1918, Uma paz com memória curta”, Laurent Joffrin escreve que foi o nacionalismo das nações europeias, que hoje há quem pretenda restaurar, o causador da morte de 18 milhões de seres humanos; e que foram os valores viris, cuja ausência hoje se deplora, que conduziram a uma brutalidade inédita, com a utilização de canhões de enorme calibre e de metralhadoras, de gás de combate, com a destruição de incontáveis edifícios civis, e a um genocídio contra os arménios, promovido por jovens turcos.

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

9 de Novembro. O que há numa data? E num nome?

Texto de Helena Araújo



Folhas Caídasinstalação de Menashe Kadishman no Museu Judaico de Berlim: 
10 mil rostos feitos de ferro, que podem ser pisados (foto © António Marujo)


A queda do muro de Berlim (em 1989), que deu origem ao processo de reunificação da Alemanha dividida após a Segunda Guerra Mundial, seria a melhor das razões para fazer do dia 9 de Novembro o feriado nacional alemão. Mas o 9 de Novembro está também marcado pela terrível sombra do pogrom nazi de 1938, pelo que a data escolhida para o feriado nacional acabou por ser o 3 de Outubro, dia da entrada oficial dos cinco Estados da RDA na República Federal da Alemanha.

O que há numa data?

Para além do pogrom nazi e da queda do muro, esta data está marcada por outros acontecimentos históricos importantes:

- 9 de Novembro de 1848: a execução de Robert Blum em Viena marcou o início do fim da Revolução de Março nos Estados alemães (que exigia - entre outros - uma Constituição para limitar o poder monárquico, a extinção dos laços que mantinham os agricultores presos aos senhores das terras, e mais direitos para os trabalhadores);

- 9 de Novembro de 1918: proclamação da República em Berlim (levando ao fim da Primeira Guerra Mundial, que desembocou tragicamente no tratado de Versalhes e na criação do contexto dramático que permitiria a ascensão dos nazis);
- 9 de Novembro de 1923: golpe do Hitler, em Munique, com o objectivo de tomar o poder e instalar uma ditadura nacionalista; o golpe falhou, o partido NSDAP foi proibido, Hitler foi condenado a cinco anos na prisão, aproveitou esse tempo para começar a escrever Mein Kampf, e dez anos depois estava a tomar o poder por via democrática.

Pelo que retomo a questão de fazer do 9 de Novembro o feriado nacional alemão: haveria algo de extraordinariamente inovador num feriado nacional que lembrasse tanto os feitos gloriosos como as vergonhas e os passos em falso da História - porque os países são feitos de tudo isso: glória, fracasso e vergonha.

O que há num nome?

Há apenas oitenta anos (já as minhas avós eram adultas, já os meus pais começavam a frequentar a escola) os nazis organizaram um ataque contra os judeus em toda a Alemanha. Para dar a aparência de uma certa legalidade, mascararam o ataque de “fúria popular”. Os paramilitares iam vestidos à civil, e Goebbels fez saber que a polícia não impediria os populares de darem livre curso à sua fúria justificada pelo recente assassinato de Ernst von Rath, em Paris. Por seu lado, as ordens dadas às SA eram muito claras: deitar fogo às sinagogas apenas se não houvesse a possibilidade de alastrar a outras casas; destruir as lojas dos judeus mas não permitir que fossem pilhadas; cuidar da segurança das lojas dos não judeus. 
O ataque foi realizado com toda a eficiência, e permitiu testar a população alemã: ao assistir sem nada fazer, mostrou que permitiria acções ainda mais violentas contra os seus vizinhos judeus. 
Durante décadas chamou-se a este ataque “Noite dos Cristais”. O nome resultou naturalmente dos montes de vidros espalhados pelos passeios das cidades (que no dia seguinte, em mais um sinal do cinismo do regime, as vítimas foram obrigadas a remover, porque “dava mau aspecto à rua”), e assim foi usado de forma acrítica até aos anos oitenta do século passado.

Vaticano, Guterres e o inventor da Internet pedem mais responsabilidade na rede

Texto de Maria Wilton



A importância de uma utilização responsável da internet e das redes sociais foi uma das ideias deixada na Web Summit, em Lisboa, pelo secretário do Conselho Pontifício da Cultura e responsável pela comunicação do Vaticano, o bispo irlandês Paul Tighe. Quarta-feira, dia 7, no penúltimo dia de conferências na cimeira tecnológica, Tighe falou num painel de debate sobre a importância da utilização responsável das redes: “A cultura da Internet é algo que é gerado pelos utilizadores, e se nós a usarmos bem, se interagirmos de forma positiva, podemos mudar essa cultura.”
O bispo acrescentou que o que está em causa não é rotular a Internet ou o espaço digital como algo negativo. No entanto, em entrevista à Renascença, deixou um apelo: “Antes de partilharem alguma coisa interroguem-se se é verdade.
Paul Tighe, que contribuiu para que o Papa Bento XVI passasse a ter uma conta na rede social Twitter referiu-se ainda ao papel da Igreja Católica nas redes sociais como o de “estar presente nesta comunicação, não primeiramente para evangelizar, mas para tomar parte num diálogo”.
O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, que esteve na sessão de abertura, dia 5, reconheceu as vantagens da tecnologia, mas alertou para as dificuldades que ela pode trazer: “Máquinas que têm o poder e a capacidade de escolher para matar pessoas são politicamente inaceitáveis, moralmente repugnantes e devem ser banidas pelas leis internacionais”, disse.
Numa intervenção intitulada “Cultivando um futuro digital que é seguro e benéfico para todos”, o antigo primeiro-ministro português defendeu ainda que cabe a todos os atores da comunidade internacional transformar as potencialidades da evolução digital numa “força do bem”.

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

“Cozinhar é um modo de amar os outros”

Texto de Joaquim Franco



A situação é mais grave nos países em vias de desenvolvimento 
“que não têm sistemas de saúde capazes de responder”, 
disse Francisco Sarmento, da FAO (foto Markus Spiske/temporausch.com/Pexels)


Debate na Mesquita Central de Lisboa realça papel das religiões na promoção de uma alimentação saudável, valorizando o acto de comer e os sistemas tradicionais de produção. 

“Cozinhar é um modo de amar os outros” – as palavras de Mia Couto serviram de ingrediente para uma conversa servida na Mesquita Central de Lisboa com uma pergunta na ementa: “Como alimentar a Humanidade de forma sustentável?”  
O debate, realizado na noite de terça, 6 de Novembro, foi promovido pelo Clube de Filosofia Al-Mu’tamid, uma parceria entre a Comunidade Islâmica de Lisboa e a Área de Ciência das Religiões da Universidade Lusófona, que todos os meses organiza um jantar-tertúlia ao salão principal da Mesquita.  
Francisco Sarmento, o representante da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura) em Portugal, abriu o apetite da conversa citando o poeta moçambicano, biólogo e escritor, para realçar a importância de se encarar a alimentação com responsabilidade ética: “Cozinhar é o mais privado e arriscado acto, no alimento se coloca ternura e ódio, na panela se verte tempero ou veneno. Cozinhar não é um serviço, cozinhar é um modo de amar os outros.”
A partir das palavras de Mia Couto, Sarmento salientou que “alimentação e sustentabilidade têm de estar juntas”, pois “não se pode alimentar a Humanidade de forma insustentável”.
Especialista em gestão alimentar e políticas agrícolas, o representante da FAO alertou para o novo problema da produção excessiva de calorias, em vez de nutrientes, que faz aumentar a incidência de doenças como a obesidade ou a diabetes, desencadeando indirectamente, entre outros dramas, a exclusão social e o absentismo laboral. A situação é mais grave nos países em vias de desenvolvimento “que não têm sistemas de saúde capazes de responder”, afirmou. Francisco Sarmento alertou ainda para a necessidade de “mudarem os padrões de consumo alimentar, com a evolução para dietas” mais saudáveis e ecologicamente sustentáveis e admitiu que esta discussão pode ser frustrante: as soluções são conhecidas mas parece faltar vontade política para contrariar uma “alimentação cada vez mais industrializada, que afecta os grupos mais desfavorecidos”.
A preocupação social foi reforçada pelo presidente da Cáritas Portuguesa, Eugénio Fonseca. “A comida não deve ser um negócio”, disse, lembrando que “não se pode desligar o modelo económico da realidade da má alimentação e suas consequências”.

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Sete mil pessoas, 2800 km, dois meses, 600 horas a pé para fugir à pobreza e à violência

Texto de Maria Wilton


O percurso feito até agora pela caravana de migrantes hondurenhos. 
A cidade de McAllen, no Texas, é o destino fronteiriço, daqui a cerca de um mês. 

Eram aproximadamente umas sete mil pessoas, no início. Partiram, a 12 de outubro, de San Pedro Sula, a segunda maior cidade das Honduras, conhecida como a “Faixa de Gaza hondurenha”, por ser um centro de tráfico de droga e disputas entre gangues. Chegou a ser considerada a cidade mais violenta do mundo por causa da alta taxa de homicídios, mas atualmente está em 26º lugar na lista do Business Insider: em 2017, com uma população de 765.864 habitantes, ocorreram 392 homicídios. 
Esta não é a primeira caravana de migrantes que, da América Central, procura  chegar aos Estados Unidos, mas é a mais falada nos média. Demorará perto de dois meses ou quase 600 horas a pé. A maioria viaja a pé, mas muitos conseguem boleias em partes do percurso. Em várias reportagens divulgadas desde que a marcha se iniciou nas Honduras, a maioria dos migrantes diz querer escapar à pobreza e à violência. Há famílias a viajar com os filhos pequenos, na esperança de arranjar emprego e educação para os mais novos. Outros saíram, dizem, por se sentirem ameaçados diretamente por gangues. Esta é mesmo, segundo o Washington Post, a maior caravana de migrantes já registada:



As marchas em caravanas tornaram-se um modo mais económico para os migrantes passarem o México em segurança, uma vez que não têm de pagar a contrabandistas. Domingo passado, ao passar Tierra Blanca,  no estado de Veracruz, no México, muitos dos marchantes hesitaram ao chegar à auto-estrada principal, que passa numa zona com atividades criminosas organizadas e frequentes. 

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

Flores e silêncio para quem já partiu

Texto e fotos de Maria Wilton



A atmosfera é pacífica, tranquila. Neste dia de 2 de Novembro, dia dos Fiéis Defuntos na liturgia católica, no Cemitério dos Prazeres, um dos mais importantes de Lisboa, há flores frescas sobre algumas campas e à porta de jazigos que são a última casa para muitos que já partiram.





Durante toda a manhã, entram visitantes, sobretudo idosos, transportando ramos de flores. Alguns fazem-se acompanhar por amigos ou familiares, outros chegam sozinhos. Perguntados acerca das razões de ali estarem, preferem não falar. “Aí está: hoje a morte é tabu, mais: vivemos numa sociedade assente sobre o tabu da morte, tendo nele o seu fundamento. Da morte não se fala”, escrevia o padre Anselmo Borges, sábado passado, no Diário de Notícias