domingo, 22 de dezembro de 2002

A noite e a estrela
Manuel Pinto

(...)
Em novembro chegaram os signos.
O céu nebuloso não filtravaestrelas anunciantes (...)


Carlos Drummond de Andrade

Bom Natal!
Sim, claro! Feliz Natal!
Mas, ainda assim, num lapso de tempo que dê para pensar no que fazemos e dizemos, vale a pena perguntar: que sentido tem celebrar o Natal – desejar bom Natal – em tempos sombrios e encerrados como são aqueles que temos diante de nós?
E os tempos estão mesmo sombrios. Quem o negará? Apesar das luzinhas que iluminam as ruas, dos holofotes que despejam luz sobre as montras e das musiquetas gastas que embalam os consumidores, a crise faz-se sentir. O emprego escasseia ou treme, o trabalho a poucos satisfaz, a vida é uma correria louca, a insegurança nas ruas agrava-se, o economicismo converte-se em ideologia política, a desconfiança nas instituições acentua-se.
Cá dentro, o poder das mafias do futebol (não do desporto, mas do negócio) já ousa ameaçar e manietar os próprios órgãos de soberania, utilizando de forma cada vez mais profissional os meios de comunicação.
Lá fora, uma guerra preparada e calendarizada como guerra preventiva, já nem sequer espera que se esgote a via persuasiva e diplomática, aguardando apenas que se complete o trabalho da propaganda para impor a sua lógica de destruição.
Tempos sombrios, exasperados e exasperantes, em que a cólera facilmente cede perante a esperança.
Paradoxo: o excessiva clarão que a nossa civilização incessantemente produz leva a dois efeitos: pela ofuscação que rouba horizonte, circunscreve-nos num mundo pequenino e medíocre; pelo universo ilusório que cria, dificulta o nosso confronto com a efectiva realidade das coisas.
Ora, ninguém consegue ver as estrelas no meio do ambiente feérico das nossas cidades iluminadas e das nossas vidas encandeadas.
De acordo com os ícones e símbolos desta quadra, os três reis magos viram uma estrela no Oriente e puseram-se a caminho, seguindo-a até Belém (sim Belém, a das notícias, a cidade palestiniana ocupada pelas tropas israelitas).
Pergunta: supondo que também nós nos dispomos a meter pés ao caminho, como ver a estrela que nos pode levar a Belém, sem nos confrontarmos com a noite?
(Crónica de hoje na RUM e amanhã no DM).

domingo, 8 de dezembro de 2002

Uma das questões que um dia gostaria de reflectir e debater diz respeito à afirmação de que só numa determinada confissão religiosa, ou só em Cristo, se pode encontrar a salvação. A arrogância que a afirmação virtualmente comporta e os riscos de fundamentalismo que dela podem decorrer não devem ser subestimados. O Cardeal Ratzinger vem dizer que arrogantes são os relativistas. A sua argumentação encerra pontos que merecem exame. Mas relativismo não é - não pode ser - sinónimo de pluralismo. Um assunto a retomar. Fica, para já, o relato de uma intervenção de Ratzinger, feito pela agência católica Zenit:

"Card. Ratzinger: “Est-ce arrogant de dire que le Christ est le seul sauveur?”En réalité, l’arrogant, c’est le relativiste, affirme-t-il

ROME, lundi 2 décembre 2002 (ZENIT.org) – La prétention des chrétiens d’annoncer que le Christ est l’unique sauveur de l’humanité
est-elle une prétention arrogante ? C’est la question que le cardinal Joseph Ratzinger, préfet de la Congrégation pour la Doctrine
de la Foi, a soulevée, au cours d’une conférence donnée à Murcia, en Espagne, ce week-end. En répondant à la question, il a rappelé quelle était la signification de la mission chrétienne.
Le congrès auquel participait le cardinal Ratzinger était organisé par l’Université catholique San Antonio de Murcia (UCAM) et
avait pour thème « Le Christ : Chemin, Vérité et Vie ». Il s’est déroulé du 28 novembre au 1 décembre.
« N’est-ce pas arrogant de parler de vérité dans des choses ayant trait à la religion et d’arriver à affirmer avoir trouvé la vérité, l’unique vérité dans sa propre religion? » a ajouté le cardinal Ratzinger.
Devant un auditoire d’environ 3.000 personnes, en majorité des jeunes, le cardinal allemand a déclaré qu’aujourd’hui « le fait de rejeter tous ceux que l’on peut accuser de croire « posséder » la vérité, comme à la fois simplistes et arrogants, est devenu un slogan avec une répercussion énorme ».
« Ces personnes ne sont semble-t-il pas capables de dialoguer, et par conséquent, on ne peut pas les prendre au sérieux car personne ne «possède » la vérité, a-t-il ajouté, en exposant la thèse du relativisme. On peut seulement être à la recherche de la vérité. Mais, a-t-il ajouté, de quelle recherche s’agit-il ici, si l’on ne peut jamais arriver au but ? »
Dans cette recherche, a-t-il poursuivi, « est-ce que l’on cherche réellement ou n’est-ce pas plutôt que l’on ne veut pas trouver la vérité car ce que l’on va trouver ne doit pas exister ? »
« Il est évident que la vérité ne peut pas être quelque chose que l’on possède, a-t-il expliqué. Face à elle je dois toujours avoir une attitude d’humble acceptation, en étant conscient du risque et en acceptant la connaissance comme un cadeau dont je ne suis pas digne, dont je ne peux pas me glorifier comme s’il s’agissait d’une conquête personnelle ».
« S’il m’a été donné de connaître la vérité je dois la considérer comme une responsabilité qui suppose aussi un service aux autres, a-t-il expliqué. La foi affirme par ailleurs que la différence entre ce que nous connaissons et la réalité proprement dite est infiniment plus grande que la ressemblance (Lat IV DS 806) ».
En réalité, l’arrogant c’est le relativiste, affirme le cardinal Ratzinger. « N’est-ce pas arrogant de dire que Dieu ne peut pas nous faire le cadeau de la vérité ? » ajoute-t-il. «N’est-ce pas une marque de mépris de Dieu de dire que nous sommes nés aveugles et que la vérité n’est pas pour nous ? »
La « vraie arrogance » consiste à « vouloir prendre la place de Dieu et à vouloir déterminer qui nous sommes, ce que nous faisons et ce que nous voulons faire de nous-mêmes et du monde».
Par conséquent, a-t-il expliqué, « la seule chose que nous pouvons faire est reconnaître humblement que nous sommes des messagers indignes qui ne s’annoncent pas eux-mêmes, mais qui parlent avec une sainte timidité de ce qui ne nous appartient pas mais qui provient de Dieu ».
«C’est seulement de cette manière que la tâche de la mission prend un sens, qui n’est pas le colonialisme spirituel, ni une soumission des autres à ma culture ou à mes idées », a-t-il expliqué. « La mission exige, en premier lieu, une préparation pour le martyre, une disposition à se perdre soi-même par amour de la vérité et du prochain ».
«C’est seulement ainsi que la mission est crédible », a conclu le cardinal Ratzinger. « La vérité ne peut ni ne doit avoir d’arme, qu’elle-même ».

sábado, 7 de dezembro de 2002

Intitulado "Religião, verdade e Paz", João A. Pinheiro Teixeira, padre da diocese de Lamego, escreve um artigo no "Expresso", de que respigo:
Quer-me parecer, por isso, que, na hora presente, os textos conciliares requerem não só uma cuidada análise semântica, mas acima de tudo uma cada vez mais indispensável hermenêutica existencial. Penso concretamente numa questão muito sensível, que a tragédia de 11 de Setembro de 2001 trouxe para a ordem do dia. Trata-se da relação entre religião e verdade, cuja afinidade dificilmente alguém contestará, mas que, não raramente, configura uma mistura explosiva e ameaçadora. É que não falta quem olhe prevalentemente para a verdade a partir da sua religião, julgando-se por isso depositário da sua fórmula definitiva e da sua versão final. O que falta é que cada um olhe para a sua religião a partir da verdade, investindo todas as energias na sua procura contínua e no seu acolhimento incessante.
Regra geral, quem presume possuir a verdade, tende a impô-la. A sua estratégia é violenta e a sua pose autista e arrogante. Quem, pelo contrário, persiste na sua busca, visa sobretudo encontrá-la e o anunciá-la. A sua conduta é pacífica e a sua atitude humilde e despojada.
Nesta luta sem tréguas, entre uma globalização sufocante e um sem-número de identidades reprimidas, a repetida evocação do divino parece radicalizar a tese de Samuel Huntington: «A religião é a diferença mais profunda que existe entre os povos».
É bom de ver que o problema não está na diferença, mas no modo como se tem lidado com a diferença. Isto é, no facto de ela ser encarada não como alicerce para a coexistência, mas como bissectriz separadora entre grupos, etnias e civilizações.
Não admira pois, que, nas vias que se perfilam para a resolução da actual crise internacional, só a paz pareça proscrita. O mais intrigante é que, entre os que praticam a agressão violenta e os que propugnam uma defesa beligerante, há quem alegue inspirar-se em mundividências de índole religiosa.
Perante tal quadro, o exame é inevitável e a pergunta obrigatória: que resposta tem sido a dos católicos ao apelo da «Gaudium et Spes» para que se «interdite absolutamente qualquer espécie de guerra» (nº82), incluindo, como é óbvio, a guerra em nome de Deus?
A verdade, de que todas as religiões se afirmam portadoras, não conflitua com o respeito por quem pensa - e sente - diversamente de nós. Já Maomé exortava: «Nenhum de vós é um crente até quererdes para o vosso vizinho aquilo que quereis para vós».
Sucede que o contencioso com a verdade tem mais a ver com a presunção de posse do que com a própria negação. É que a verdade encontra-se sobretudo do lado da busca. Eis, portanto e em síntese, o drama da nossa era: a verdade tem muitos «proprietários» e poucos «buscadores».
Se empreendêssemos mais na busca, daríamos conta que uma das dimensões mais surpreendentes da verdade - mas também mais esquecidas - é de ordem iconográfica, aquela que nos permite perceber que em cada homem se encontra esculpida a imagem de Deus.
Qualquer atentado contra seres humanos representa assim um crime de lesa-divindade e, nessa medida, de lesa-verdade. Esta, lembra o nº1 da declaração conciliar sobre a liberdade religiosa, «não se impõe de outro modo a não ser pela sua própria força, que penetra nos espíritos de modo ao mesmo tempo suave e forte».
Concretizando, enquanto pensarmos que a verdade se transmite pela força, dificilmente daremos atenção à intrínseca força da verdade. Que, ainda por cima, é de uma argúcia desconcertante. E de uma serenidade insuperavelmente convincente.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2002

"Quando pensamos que a leitura da imprensa era a 'oração matinal' de Hegel, interrogámo-nos sobre que tipo de jornais ele tinha a sorte de ler! (Não tenho disponibilidade para verificar agora esse aspecto). A maior parte dos jornais parecem escritos para nos desgostar da humanidade) (... ) "falta-nos a oração, a nós que já não acreditamos; por vezes, sofro por não poder rezar".
Sylvianne Agacinski, doutora em Filosofia e mulher de Lionel Jospin, in Journal Interrompu (Seuil) (cit. por Mário Mesquita).
Catalina e Mestre Américo
Manuel Pinto
Catalina Pestana. Já a conhecia. Mulher forte e frontal. De uma clarividência e assertividade tocantes. Toma hoje posse como nova Provedora da Casa Pia de Lisboa, sendo a primeira mulher a ocupar o cargo. O facto já diz, por si mesmo, muita coisa.
Gostei de a rever no fim de semana nos canais de televisão. Sorriso aberto num rosto expressivo, olhar de esperança, a frontalidade de sempre. O cargo e a boca do palco mediático não a tolhem nem no elogio e nem na denúncia.
O elogio foi para a comunicação social que, desassombradamente, investigou o que a justiça arquivou e que nos tem confrontado com um problema que não é apenas da Casa Pia, mas de todos nós, enquanto sociedade política (como bem notou o sociólogo Paquete de Oliveira, no “Jornal de Notícias” de sábado).
A denúncia foi para a mesma comunicação social, em particular para aquela que, emproada e justiceira, perdeu a noção da dignidade e da elevação, e se estatelou na mesma lama que denunciava. Catalina Pestana disse-o na própria TV, em nome das centenas de crianças da Casa Pia e de muitos milhares de outras que, por todo o país, abrem os olhos e a boca de espanto e perplexidade.
A outra figura desta crónica é mestre Américo, alguém de quem nunca tinha ouvido falar antes, mas que agora fiquei a admirar. Foi ele um dos poucos que, ao longo de todos estes longos anos, não pactuou com o silêncio, não claudicou diante da ignomínia e que deu a cara em nome da dignidade e dos direitos das crianças. Se os elementos que têm vindo a público se confirmam, a sociedade portuguesa deve-lhe estar profundamente grata. O testemunho e a coragem desse homem merecem ser enaltecidos e publicamente reconhecidos. Ele, de alguma forma, nos redime a todos, na medida em que sinaliza, de modo eloquente, que por mais poderosos que sejam os constrangimentos e as lógicas da intimidação e do medo, “há sempre alguém que resiste, há sempre alguém que diz não”.
Uma flor nasce no esterco. Um rebento no tronco ressequido. Com a flor e o rebento nos agarramos à vida. Para a fazer nova e lavada.
(Crónica na Rádio Universitária do Minho e publicada hoje no Diário do Minho)
Duarte Lima, comentando, no Expresso de 30.11.2002, o escândalo na rede de pedofilia:
"Já todos passámos por situações em que as palavras são absolutamente incapazes de comunicar. São situações normalmente associadas ao conhecimento de factos tão carregados de significado, que tornam supérflua qualquer palavra, qualquer enunciado, qualquer juízo ou explicação. Tudo quanto as palavras possam exprimir é insuficiente para acrescentar o quer que seja à força expressiva dos factos que nos atingem como um raio. É como se ficássemos no interior de uma câmara fechada, onde subitamente se rarefez o ar e a luz. É o domínio do indizível, da pura impotência do discurso para iluminar o significado daquilo que percebemos com os sentidos, com o intelecto, e sobretudo com a emoção. (...)
Vivemos numa civilização em que as máquinas, as técnicas e as leis, como instrumento de regulação social, mudam a uma velocidade vertiginosa. Tudo muda menos o homem. As máquinas progridem, mas o homem não. Acumulámos conhecimentos a níveis impensáveis há poucos séculos, mas o acréscimo de conhecimento não se traduziu num acréscimo de saber autêntico, no sentido ontológico. Mais informação não se traduziu em melhores níveis de consciência.
E por isso a civilização moderna continua a repousar na violência e na escravatura. A violência que nos é servida em doses maciças cada vez que abrimos a televisão. A escravatura de dezenas de milhões de crianças em todo o mundo, em números nunca antes atingidos na história da humanidade, não apenas nas redes pedófilas que circulam na net, mas também nos trabalhos forçados das plantações de chocolate e cacau dos países do terceiro mundo.
Podemos fazer muito pouco para melhorar o mundo se o caminho for apenas o do recurso a mais leis e a mais conhecimentos. Aliás, estamos a atingir o limite das nossas capacidades para armazenar mais conhecimentos, como lembra George Steiner, ao avisar que os milhões de livros novos que diariamente entram nas bibliotecas nos colocam perante uma ameaça, a da implosão do conhecimento.
Pensamos sempre que o homem será melhor no futuro, em resultado de mais educação, de mais progresso, de mais informação e de mais conforto.
Mas, nesse futuro, que é o do tempo linear que está à nossa frente, tudo se repetirá inevitavelmente, como se repetiu até aqui. Nesse futuro, o homem não será melhor. Há um velho ensinamento que diz que o «ser determina a vida», e se o ser não mudar, a vida não muda. Não é um problema de mudança de mentalidades, é um problema de mudança de nível de consciência. E neste domínio, a política é impotente. É um trabalho que só cada homem pode fazer por si próprio.
Consciência, literalmente, significa conhecer simultaneamente, conhecer um «fora», que está no exterior, e conhecer um «dentro», que está no interior de cada homem.
Por isso se diz que a consciência é luz: sem ela, nós continuaremos a ser, como se diz nos Evangelhos, «os homens que vivem nas trevas».

sábado, 9 de novembro de 2002

"...As religiões oficiais ganharam uma força que faz com que o seu estímulo seja precisamente uma demonstração das fraquezas humanas. Quem não tem qualquer outra esperança, refugia-se no ignoto, no desconhecido, no mistério. A religião, em parte, é uma tentativa de resposta para problemas cujos dados não conhecemos. As religiões são respostas antiquadas a certos problemas para os quais temos outro tipo de resposta. Não tenho nada contra a religião, desde que os religiosos me tolerem a mim. Agora não tenho religião nenhuma, mas fui católico, apostólico, romano até os 11 anos. Fui menino do coro e algumas pessoas da minha família insistiam para que fosse padre. Até aos 10 anos estive inclinado a sê-lo. Todo o ambiente da minha família era religioso. É curioso lembrar-me que o homem que mais contribuiu para o abalar das minhas convicções foi um padre. Ele próprio não acreditava. A curiosidade levou-me a deitar fora todos os preconceitos que limitam impositivamente a investigação. A pretexto das religiões tem-se falado agora muito do choque de civilizações. Não há choque nenhum de civilizações. Há choque de convicções...."
Óscar Lopes, militante do PCP, 85 anos
Expresso- Revista, 9.11.2002

"The Eagle soars in the summit of Heaven,
The Hunter with his dogs pursues his circuit.
O perpetual revolution of configured stars,
O perpetual recurrence of determined seasons,
O world of spring and autumn, birth and dying!
The endless cycle of idea and action,
Endless invention, endless experiment,
Brings knowledge of motion, but not of stillness;
Knowledge of speech, but not of silence;
Knowledge of words, and ignorance of the Word.
All our knowledge brings us nearer to death,
But nearness to death no nearer to God.
Where is the Life we have lost in living?
Where is the wisdom we have lost in knowledge?
Where is the knowledge we have lost in information?
The cycles of heaven in twenty centuries
Brings us farther from God and nearer to the Dust.

The lot of man is ceaseless labor,
Or ceaseless idleness, which is still harder,
Or irregular labour, which is not pleasant.
I have trodden the winepress alone, and I know
That it is hard to be really useful, resigning
The things that men count for happiness, seeking
The good deeds that lead to obscurity, accepting
With equal face those that bring ignominy,
The applause of all or the love of none.
All men are ready to invest their money
But most expect dividends.
I say to you: Make perfect your will.
I say: take no thought of the harvest,
But only of proper sowing.

The world turns and the world changes,
But one thing does not change.
In all of my years, one thing does not change,
However you disguise it, this thing does not change:
The perpetual struggle of Good and Evil".
T.S. Eliot
in "The Rock"

sábado, 19 de outubro de 2002

No DN de hoje, com o título "Uma ausência e um olhar", de João Lopes, vem este bocadinho de prosa. Reflecte sobre uma história contada no último livro de Manuel Alegre: no dia em que o pai morreu, o cão andou agitado para cima e para baixo das escadas e, depois de muito andar, foi enroscar-se aos pés da cadeira vazia, onde o dono costumava sentar-se:
"Em boa verdade, só se tivermos medo da nossa relação física com os objectos mortos recusaremos a intensidade da vida que neles se guarda. Animismo? Não. Antes a certeza incerta de que cada olhar que depositamos sobre os objectos do mundo não é uma mera confirmação do que nos é dado ver, mas sim a reinvenção do próprio acto de ver. Em quê? Em imagem interior, radical, pessoal e intransmissível.
Esquecemo-nos dessa dimensão visceral das imagens. Neste tempo de mensagens aceleradas, bips e telemóveis, quase tudo o que é imagem surge recoberto por uma bênção redentora - vemos e deliramos. Perdemos (ou queremos perder) a dimensão sagrada da imagem. É uma dimensão que começa no que vemos, mas cuja utopia é o «invisível». E não é preciso que no fundo disso tudo esteja Deus ou o Diabo para nos garantirem a verdade do nosso olhar. Basta que esse mesmo olhar saiba que nem tudo pode ser dito, nem tudo pode ser mostrado (...)."

sexta-feira, 18 de outubro de 2002

"Temos Que Renunciar a Quê, para nos Entendermos? "é o título de uma peça de Esther Mucznick, hoje, no Público. Nela dá a notícia da fundação, em Lisboa, há poucas semanas, da Associação Universos, associação para o diálogo inter-religioso."A Universos não é uma associação confessional ou religiosa, nem pretende converter ou formar adeptos em nenhuma religião.
É uma associação de pessoas individuais (e não de comunidades) que tem como objectivos proporcionar um conhecimento maior das várias tradições religiosas, promover o estudo e o debate crítico do fenómeno religioso e contribuir para o desenvolvimento pacífico, justo e solidário dos indivíduos e povos, nomeadamente através de um diálogo aberto".
Comentando esta iniciativa, escreve E. Mucznick:
"Esta associação não surge por acaso. Ela é o reflexo de uma presença étnica, cultural e religiosa cada vez mais diversificada e numerosa em Portugal, que se dá fundamentalmente depois do 25 de Abril (e que se tem vindo a acelerar nos últimos anos) e é significativa de uma vontade de reflexão conjunta sobre este fenómeno. Mais do que isso: a Universos reflecte igualmente o interesse crescente a nível internacional pelo fenómeno religioso e, nomeadamente depois do 11 de Setembro, a angústia e preocupação pela instrumentalização da religião e pelo incremento da violência religiosa.
Não é pois de admirar que, embora ainda no início da sua actividade, a Universos congregue já no seu seio pessoas representativas das mais diversas sensibilidades religiosas presentes em Portugal: hindus, budistas, muçulmanos, católicos, cristãos ortodoxos, coptas e judeus começaram a trilhar um caminho em conjunto que embora incerto é, sem dúvida, extraordinariamente inovador, pelo menos em Portugal.
(...)O que significa hoje o tão badalado "diálogo inter-religioso", e como levá-lo a cabo, não são questões fáceis de responder.
Em primeiro lugar, acredito que o objectivo do diálogo inter-religioso deve ser o assumir de compromissos: não sobre as questões teológicas ou doutrinárias, mas compromissos para a acção que sejam realmente um contributo para a paz e para uma convivência harmoniosa das pessoas. Não entendo o diálogo inter-religioso apenas como um objectivo mediático, e muito menos como fazendo parte da "missão evangelizadora" ou dito de uma forma mais prosaica, a tentativa de convencer o outro. A ser assim nunca passará de monólogos paralelos, sem consequências práticas.
Porque é disso que se trata. É evidente que a troca de ideias, o debate e a reflexão são, em si mesmos, estimulantes e fundamentais. Mas só cumprirão realmente o seu papel quando contribuírem para alterar o nosso comportamento e o nosso relacionamento, no sentido de um maior conhecimento e entendimento entre os seres humanos. Nunca é demais repeti-lo: a principal função do diálogo inter-religioso é contribuir para tornar o mundo melhor e não mais judaico, mais cristão ou mais muçulmano. (...)".

quinta-feira, 17 de outubro de 2002

De um texto de J. Pacheco Pereira, hoje, no Público, relativo ao populismo e à sua relação com o campo mediático:
"(...) Os populistas perceberam que aparecer é fonte de ser, e (...) aparecer muito é directamente correlativo de surgir à frente nas preferências das sondagens. As sondagens, outro elemento decisivo do mundo mediático de hoje, retratam que o que é escolhido é quem é reconhecido. Há excepções que confirmam a regra, mas não são a regra.
A televisão aqui não é usada como instrumento de comunicação, para se dizer qualquer coisa, para se transmitir sentido, mas como o grande teatro do mundo. Nela os políticos populistas dão razão a McLuhan, percebendo que a "mensagem" é a "massagem", e nela se fundem com o próprio meio, para serem eles próprios parte do ecrã, imagem da imagem, parte da fina película, que, por apelar ao nosso sentido mais enganador, o da visão, transporta consigo todas as possibilidades de manipulação.
Nesse ecrã representam o mais possível um frenesim de som, luz e muita cor, o maior "bragadoccio", algum melodrama, lágrimas e suspiros, arroubos estudados e frases assassinas, todo o espectáculo de si mesmos. Tudo do que é mais popular, numa continuidade com os outros espectáculos, com os "reality shows", com a crónica "social", e os programas desportivos. Nada há hoje de mais parecido na palavra e na imagem com a política populista do que o mundo do futebol, com as suas ameaças e processos, insinuações e acusações, mentidos e desmentidos, ausência completa de memória das palavras e dos factos, reconstrução permanente de um eterno quotidiano desprovido de quaisquer referências que não sejam a pura existência e o poder dos seus actores.
Não há aí lugar para valores, memória, ideias, espessura psicológica, a não ser o dos efeitos perversos do narcisismo absoluto, que muitas vezes conduz da ascensão à queda com o fragor de uma vingança do destino ou de um filme de Hollywood sobre actrizes envelhecidas ou jovens "yuppies" que não perceberam como é que o "inside trading" os levou à cadeia. O problema é que esse mesmo narcisismo absoluto arrasta tudo consigo, numa vontade de ou tudo ou nada, que tudo renega e nada respeita, a começar pelo respeito por si próprio e que tem a perdição tão inscrita na natureza das coisas como o sucesso instantâneo e a vã glória.
Este contínuo tem poderosos efeitos, porque consolida uma linha de entretenimento para as massas que não precisa de mediação - tem-na como é óbvio, porque há quem mexa os cordelinhos deste espectáculo - e que surge como adequada às literacias dominantes, as reforça e consolida como iliteracias, ignorâncias que recusam o saber. É aí que hoje se reproduzem as mais graves formas de exclusão social, mais do que no puro tecido da economia. É aí que hoje se gera a maior pobreza, e grande parte do nosso atraso, que a escola, a sociedade e a família não conseguem combater. No fundo, no fundo, porque é que não se há-de ser feliz assim, para que é que é preciso mais? (...)".

terça-feira, 15 de outubro de 2002

Fico grato a Hernán J. González, um argentino que, entre outros espaços que cultiva na Internet, alimenta o blog com o inusitado título Fotos del Apocalipsis. Grato pelo que descobri e grato por me ter lembrado que hoje se evoca o testemunho de Santa Teresa de Ávila. Uma mina de recursos para penetrar na vida e nos escritos desta grande figura da Igreja Católica.
Já agora, uma explicação para o título do blog. uma frase atribuída a Leon Bloy que diz: "Quando quero saber das últimas notícias, leio o Apocalipse". Uma excelente provocação, para um trabalhador nas coisas do jornalismo, como é o meu caso.

sábado, 12 de outubro de 2002

sexta-feira, 11 de outubro de 2002

Faz hoje 40 anos que se iniciou o Concílio Vaticano II. Quando se movimenta uma corrente de opinião que começa a propor um Vaticano III, é bom recordar a mudança que se operou durante o II, contra a vontade de muitos "funcionários de Deus" do Vaticano. Aqui está o texto do discurso de abertura, feito pelo papa João XXIII.
Outra decisão de grande significado: a atribuição do Nobel da Paz ao ex-presidente norte-americano James Carter. Depois de abandonar a presidência, tem-se dedicado a mediar conflitos, um pouco por todo o mundo e, recentemente, fez das mais duras denúncias da política belicista da actual administração dos EUA (veja-se o seu texto El inquietante nuevo rostro de EE UU, publicado em 12 de Setembro em El País). O presidente do grupo de "sábios" que atribuiu o prémio reconheceu que esta escolha constitui também uma crítica indirecta à política externa de George W. Bush.

quinta-feira, 10 de outubro de 2002

A ter em conta:
"(...)Several years ago I made a conscious effort to go rustic for motives of the utmost purity: To escape the media-driven droning of Washington. I had watched political obsession destroy the best minds of my generation. Many awaited the pre-dawn plop of the Post on their doorstep with the same yearning an adolescent boy takes to that fabled peephole into the girls' shower.
Yet as the sheep graze nearby, I find myself fully in the grips of News-Flow Mania. This is a debilitating condition. Where there was once hope of thinking the long thoughts of middle age, reading the great books of antiquity, and of escaping the tyranny of the morning headlines, there is now a rechecking of events on the hour, sometimes more often than that. The stories are almost always of no real importance". (Texto completo: Dave Shiflett, News-Flow Mania, National Review Online, 9.Out.2002)
Imre Kertesz, escritor húngaro sobrevivente de Auschwitz, de quem nunca tinha ouvido falar e muito menos lido alguma coisa, ganha o prémio Nobel da Literatura. A notícia mostra como o mundo é muitíssimo mais vasto do que o horizonte que diviso. Por outro, diz-me como é limitado o universo editorial português, que nunca traduziu qualquer obra deste autor, apesar dos diversos e importantes prémios internacionais que já recebeu. As referências à sua obra deixam-me touché. Por exemplo, a da ABC News Online, de que respigo:
"The Swedish Academy (...) said in its citation that Mr Kertesz won the (...) prize for writing which "upholds the fragile experience of the individual against the arbitrariness of history.(...) It is the ultimate truth about human degradation in modern existence," the Academy said.

terça-feira, 8 de outubro de 2002


O Evangelho para o dia de hoje (Lucas 10, 38-42):

"Estando Jesus em viagem, entrou numa aldeia, onde uma mulher, chamada Marta, o recebeu em sua casa.
Tinha ela uma irmã chamada Maria, que se sentou aos pés do Senhor para ouvir a sua palavra.
Marta, toda preocupada na lida da casa, veio ter com Jesus e disse: "Senhor, não te importas que minha irmã me deixe só a servir? Diz-lhe que me ajude".
Respondeu-lhe Jesus: "Marta, Marta, andas muito inquieta e ocupada com mil coisas; no entanto, uma só coisa é necessária; Maria escolheu a boa parte, que não lhe será tirada".

domingo, 6 de outubro de 2002


Vem de antes do sol
A luz que em tua pupila me desenha.
Aceito amar-me assim
Refletida no olhar com que me vês.

Ó ventura beijar-te,
espelho que premido não estilhaça
e mais brilha porque chora
e choro de amor radia.

(Adélia Prado, 1998).
Lembrando o 6 de Outubro de 1979

sábado, 5 de outubro de 2002

Um dia inteiro com a Mãe. A dependência quase total. Um mistério o que se passa para lá daqueles olhos por vezes ainda brilhantes. Palavras quase imperceptíveis. Resta o estar, a atenção, o cuidado, o gesto.
" (...) La razón, el orden, la virtud, aseguran el progreso del conglomerado humano pero rara vez bastan para hacer la felicidad de los individuos, en quienes los instintos reprimidos en nombre del bien social están siempre al acecho, esperando la oportunidad de manifestarse para exigir de la vida aquella intensidad y aquellos excesos que, en última instancia, conducen a, la destrucción y a la muerte. El sexo es el territorio privilegiado en el que comparecen, desde las catacumbas de la personalidad, esos demonios ávidos de transgresión y de ruptura a los que, en ciertas circunstancias, es imposible rechazar pues ellos también forman parte de la realidad humana. Más todavía: aunque su presencia siempre entraña un riesgo para el individuo y una amenaza de disolución y violencia para la sociedad, su total exilio empobrece la vida, privándola de aquella exaltación y embriaguez -la fiesta y la aventura»- que son también una necesidad del ser (...)"
Mario Vargas Llosa, El País, 5.Out. 2002

sexta-feira, 4 de outubro de 2002

"Escutem! A sabedoria lança um apelo
e a inteligência faz ouvir a sua voz.
Ela está de pé no alto das colinas
e coloca-se nas encruzilhadas dos caminhos.
Junto às portas de entrada da cidade,
nos lugares de passagem, ela proclama:
“É para vocês, humanos, que eu apelo.
Dirijo-me a todos, homens e mulheres.
Que os ingénuos adquiram um pouco de prudência
e os insensatos adquiram entendimento
”.
Provérbios 8, 1-5

quarta-feira, 2 de outubro de 2002

Joaquim Fidalgo é um companheiro e amigo de longa data, daqueles que, seguramente, nos deixariam mais pobres se não os tivéssemos um dia conhecido. Depois de uma longa e rica carreira jornalística, mantém uma coluna à quarta-feira, no Público, cuja leitura é, quase sempre, um tempo de respiro e de contacto com dimensões profundas da vida. Coisas simples: gestos, pessoas, cheiros,paisagens, reparos, poesia.
Hoje, escreveu sobre padres, vistos do lado da "senhora Maria": a falta deles, a falta de quem pense lucidamente a falta deles.
Registo aqui a parte final (a crónica completa - e recomendada - pode também ser consultada no site do jornal):
"(...) Cito dos jornais: "O director do Centro de Estudos Sociais e Pastorais da Universidade Católica Portuguesa, Marinho Antunes, afirmou (...) que em dez anos o número de padres activos em Portugal vai reduzir-se para metade, comprometendo a prática dominical." Cito mais: "(...) Marinho Antunes frisou que a média etária dos padres se situa actualmente entre os 63 e os 65 anos." Li bem? Deixa ver... Exactamente: entre os 63 e os 65 anos!
Já há, portanto, poucos padres - como bem sabe a senhora Maria. E os poucos que há são, na grande maioria, de avançada idade. E menos vai haver ainda, pois não aparecem novos para render os que se vão finando. Daqui a dez anos, haverá metade dos já poucos de hoje.
Às tantas, nada disto aconteceu por acaso. Mas aconteceu e continua a acontecer. E o que é que pensa, e o que é que faz - para além da penosa medição das estatísticas - quem manda por aquelas bandas?
Se já nem há padres que cheguem para as encomendas, a questão pode pegar-se de dois modos: ou se insiste nos padres, ou se reflecte nas encomendas. A senhora Maria preferia que continuasse a haver padres, padres como antigamente, e missas como desde há décadas. Mas se calhar ainda ninguém lhe explicou bem que os caminhos da relação com Deus e com a Igreja fazem-se de muitas e variadas maneiras, de muitas e variadas "missas". Quem não lhe explica essas coisas é quem, se calhar, só consegue lamentar-se por haver hoje tão poucos padres - em vez de tentar perceber por quê. E deitando desanimadamente as culpas para "este nosso tempo".
Mas não é "neste nosso tempo" que a Igreja quer existir e descobrir lugar? Ou prefere ficar à espera de um milagre?"

segunda-feira, 30 de setembro de 2002

Jesus Martin Barbero, no último número da revista espanhola Telos (Julho-Setembro 2002||Nº51:
" (...) el vacío de utopías que atraviesa el ámbito de la política se ve llenado en los últimos años por un cúmulo de utopías provenientes del campo de la tecnología y la comunicación: “aldea global”, “mundo virtual”, “ser digital”, etc. Y la más engañosa de todas, la “democracia directa" (03) atribuyendo al poder de las redes informáticas la renovación de la política y superando de paso las “viejas” formas de la representación por la “expresión viva de los ciudadanos”, ya sea votando por Internet desde la casa o emitiendo telemáticamente su opinión. Estamos ante la más tramposa de las idealizaciones ya que en su celebración de la inmediatez y la transparencia de las redes cibernéticas lo que se está minando son los fundamentos mismos de lo público; esto es, los procesos de deliberación y de crítica, al mismo tiempo que se crea la ilusión de un proceso sin interpretación ni jerarquía, se fortalece la creencia en que el individuo puede comunicarse prescindiendo de toda mediación social, y se acrecienta la desconfianza hacia cualquier figura de delegación y representación. Hay sin embargo en algunas de las proclamas y búsquedas de una “democracia directa” vía Internet, un trasfondo libertario que señala la desorientación en que vive la ciudadanía como resultado de la ausencia de densidad simbólica y la incapacidad de convocación que padece la política representativa. Trasfondo libertario que apunta también, entre los jóvenes y las mujeres especialmente, la incapacidad de representación de la diferencia en el discurso de la desigualdad, mientras los medios y las redes electrónicas se están constituyendo en mediadores de la trama de imaginarios que configura la identidad de los jóvenes y los géneros, las ciudades y las regiones, vehiculando así la multiculturalidad que hace estallar los referentes tradicionales de la identidad".
Para ver o texto completo, clicar aqui.

domingo, 29 de setembro de 2002

Bento Domingues, na sua coluna de hoje, no Público:
"A cultura islâmica pertence à cultura da inovação. Mas sabe, desde as disputas da Idade Média, que a religião é para religar.
Quando quer mandar em tudo, tudo sufoca e torna-se idiota. É um fenómeno que não poupou nem o judaísmo nem o cristianismo. A Igreja Católica só reconheceu oficialmente a liberdade religiosa no Vaticano II".
O (pouco) debate que voltou a aflorar nas últimas semanas em Portugal, a propósito do lugar do ensino da Religião nas escolas - designadamente nas do 1º Ciclo do Ensino Básico, não constitui especificidade portuguesa. Vale a pena ler dois textos publicados no jornal El País de hoje: No es una asignatura más, de Cayetano López, catedrático de Física de la Universidade Autónoma de Madrid, e Un valor de la democracia, de Carlos García de Andoain co-autor, com Ramón Jáuregui de Tender Puentes. PSOE y Mundo Cristiano (Desclée y la Fundación Pablo Iglesias).

sexta-feira, 27 de setembro de 2002

Os bispos católicos do Canadá enviaram anteontem uma carta ao primeiro ministro do país, apoiando a posição daqueles que se opõem à via da guerra para resolver as alegadas ligações do Iraque ao terrorismo internacional. Um extracto: "Nous vous écrivons, en tant que dirigeants responsables de plusieurs communautés chrétiennes du Canada, afin d’affirmer haut et fort qu’il faut dire NON à une telle guerre. L’heure est à la diplomatie intense et aux négociations entre individus, non aux missiles et aux bombardements". O texto integral pode ser consultado aqui.
É difícil não voltar a emocionar-se e não acreditar na mudança ao ver Timor-Leste tornar-se, a partir de hoje, no 191º Estado-membro das Nações Unidas. Ver o ex-prisioneiro Xanana Gusmão presidente da República, Mari Alkatiri chefe do Governo e José Ramos Horta ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros e Cooperação. Quem há quatro ou cinco anos traçasse esse cenário corria o risco de ser considerado louco. Não é possível medir qual foi o peso específico dass centenas de milhar de gestos de solidariedade e de pressão para vergar, nomeadamente, os Estados Unidos da América e a Indonésia. A resistência de um povo, alimentada pela fé cristã e celebrada nas igrejas de Timor-Leste foi decisiva. É salutar ser testemunha de acontecimentos como este.

quinta-feira, 26 de setembro de 2002

"Religião: o gueto informativo" - assim se intitula uma peça terça-feira divulgada pela agência Ecclesia, na qual vários jornalistas portugueses reflectem sobre o modo como os órgãos de informação tratam a questão das religiões. "Que lugar tem o religioso nos órgãos de comunicação social não confessionais? Quando é que a informação religiosa se torna notícia?" Foram estas algumas das questões colocadas pela Ecclesia a cinco jornalistas: António Marujo, do jornal Público, Licínio Lima, do Diário de Notícias, Mário Robalo, do Expresso, Manuel Villas-Boas, da TSF, e Joaquim Franco, da SIC Notícias. A leitura é interessante e elucidativa.
Inicio hoje este blog, no qual referirei aspectos, impressões, interrogações e notas sobre a experiência religiosa. Situo-me no quadro do cristianismo, procurando manter no horizonte o vasto e plural universo das experiências religiosas e do diálogo (de surdos?) entre elas. Mas consciente de que a busca de sentido extravasa em muito a dimensão religiosa-confessional. Um diálogo cultivado e exigente, sem preocupações proselitistas - eis o que procurarei manter como preocupação. Desejo igualmente fazer deste blog um espaço colectivo, onde outros companheiros de jornada participem, quer como membros, quer como comentadores.