sábado, 18 de agosto de 2018

Os abusos sexuais na Pensilvânia e a urgente Reforma da Igreja


Esta foto de Ivan Alavarado/Reuters/CNS (reproduzida daquié mais um sinal dos sentimentos 
de raiva, nojo, náusea, horror e traição que atingem fiéis católicos por todo o mundo: 
dia 25 de Julho, numa missa na catedral de Santiago do Chile, 
uma mulher segura um cartaz onde diz: “Não mais bispos encobridores”. 

No Expresso Diário de quinta-feira, dia 16, publiquei um texto sobre os abusos sexuais por membros do clero em seis dioceses da Pensilvânia (Estados Unidos): 

(...) um relatório de 1356 páginas regista 300 casos supostos de “padres depredadores” sexuais em seis dioceses, que vitimaram pelo menos mil crianças e adolescentes, entre 1947 e o início deste século. 
O padre jesuíta Thomas Reese, do Catholic News Service, uma das vozes que tem defendido a abertura de arquivos e a tolerância zero para com estes casos, afirmou que o documento deve ser um “alerta” para outras dioceses: os responsáveis devem contratar investigadores externos para averiguar tudo o que se passou até hoje e publicar os resultados. 
Naquele que é talvez o comentário mais certeiro ao caso, Reese acrescentou, citado pelo jornal digital Crux: “Muitos bispos pensam: ‘Isto aconteceu antes de eu chegar aqui, lamento que tenha acontecido, mas já mudámos os procedimentos e já não está a acontecer.’” O problema, acrescenta, é que não se averiguou toda a sujidade, ao mesmo tempo. Se isso tivesse sido feito “não estaríamos a ser mortos com mil golpes”. O relatório da Pensilvânia é apenas mais um, depois de outros. “É a mesma história em todos os lugares.”
(o texto pode continuar a ser lido aqui)

Como seria de esperar, o caso está a levantar uma avassaladora onda de reacções. A mais forte, até ao momento, será o apelo lançado por centena e meia de teólogos, educadores e leigos responsáveis de instituições católicas, que fizeram um apelo a que todos os bispos dos EUA apresentassem a sua resignação ao Papa Francisco, tal como fizeram, em Maio, os 34 bispos do Chile.
O apelo foi lançado sexta-feira mas, nesta tarde de sábado, o número de signatários já ia em mais de 700. “Hoje, pedimos aos bispos católicos dos Estados Unidos que orem e genuinamente considerem submeter ao Papa Francisco a sua renúncia colectiva como um acto público de arrependimento e lamento diante de Deus e do povo de Deus”, lê-se num texto publicado ontem mesmo, sexta-feira, em inglês e espanhol no blogue Daily Theology e noticiado pelo National Catholic Reporter (NCR).
Este seria “o primeiro de muitos passos para chegar à justiça, à transparência e à conversão” e só depois poderá começar o doloroso trabalho de cura, acrescenta o texto. 
Num editorial do mesmo NCR, com o título O corpo de Cristo deve reclamar a nossa Igrejaa prestigiada publicação católica alinha pelo mesmo tom muito crítico, defendendo uma urgente Reforma da Igreja. O texto começa por escrever que “raiva e nojo não parecem palavras suficientemente fortes” para definir o que se está a passar e soma três palavras: “Náusea? Horror? Traição?”
O editorial acrescenta, depois: “As revelações dos últimos dois meses tornam inegavelmente claro que é a hora de os leigos reclamarmos que esta Igreja nos pertence. Nós somos o corpo de Cristo, nós somos a Igreja. É tempo de exigirmos que os bispos assumam as suas verdadeiras vocações como servos do povo de Deus. E eles devem viver desse modo.

Dizer duas coisas aos bispos

No texto, admite-se que os leigos, neste momento, podem “fazer muito pouco” para provocar as mudanças necessárias nas “grandes questões” que afligem a Igreja – “carreirismo, abuso de poder, falta de transparência, nenhuma prestação de contas”. Os leigos têm pouco poder, diz o editorial, mas a raiva deve ser transformada em “determinação” e na exigência de mudanças claras. 

sábado, 11 de agosto de 2018

Livros: A mentira – Contra a mentira

Texto de Rui Pedro Vasconcelos

A publicação, no nosso contexto, de uma obra clássica da Tradição cristã – neste caso de Santo Agostinho – representa um acontecimento a registar. Agora, o leitor recebe nas suas mãos dois opúsculos de Agostinho de Hipona, escritos respetivamente em 395 e 420 d. C., sobre a temática da mentira. O primeiro opúsculo, A Mentira, adquire uma linguagem formal e académica, própria das investigações do autor na área da filosofia e da ética; já o segundo opúsculo, Contra a Mentira, consiste numa carta dirigida a um cristão, Consêncio, como resposta a dúvidas levantadas por este sobre a legitimidade de usar a mentira e táticas semelhantes para infiltrar grupos considerados heréticos, como os priscilianistas (movimento de caráter espiritual e popular muito influente na Península Ibérica ao longo dos séculos IV e V, fundado por Prisciliano, bispo de Ávila). Em ambos os opúsculos, Agostinho é perentório: a mentira nunca é, em caso algum, um meio legítimo de evangelização ou anúncio da verdade.
Agostinho procura responder a uma ampla corrente, oriunda da filosofia grega e difundida em significativos autores cristãos da época, segundo a qual a mentira poderia ser justificada em determinadas situações ou de acordo com a intenção de quem a proferisse. Agostinho defende que, podendo em alguns casos ser um mal menor ou leve, a mentira nunca é um bem ou um meio que se justifique, independentemente do fim – seja perseguir a verdade com a mentira ou defender a vida com o falso testemunho. Os mártires elevam-se como baluartes desta integridade da linguagem. Como é bem referido por José Maria Silva Rosa na sua Introdução à obra, a reflexão de Agostinho transporta-nos, hoje, para a natureza do discurso político. Um livro exigente, graças ao qual o leitor se aproximará da sua própria linguagem no comum dos dias.

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

“O poder é necessário e é um serviço”


Entrevista ao bispo Carlos Azevedo a propósito do livro “Ministros do Diabo”



D. Carlos Azevedo, fotografado no final de Julho em Santa Maria da Feira 
(foto © Paulo Pimenta/Público)

Defende que o proposto “Museu das Descobertas” deveria ter outro nome e que a Igreja faria bem em promover um processo de reflexão que pudesse levar a pedir perdão pelas atitudes de uma parte dos seus membros durante a guerra colonial. O bispo Carlos Azevedo transcreve e estuda, no seu último livro, sermões de um bispo de Coimbra em autos-da-fé da Inquisição.

O facto de viver em Roma permitiu-lhe um acesso mais fácil aos arquivos do Vaticano. À procura de documentos sobre o bispo João de S. José Queirós, do século XVIII, tropeçou num texto do padre João Moutinho a criticar a Inquisição, no qual condenava os bispos portugueses como heréticos. Agora, encontrou seis sermões do então bispo de Coimbra, Afonso de Castelo Branco, em autos-da-fé – o único caso conhecido em que alguém faz seis sermões em sessões do tribunal da Inquisição.
Delegado do Conselho Pontifício da Cultura, o bispo Carlos Azevedo fala, nesta entrevista em Roma, sobre o seu último livro: Ministros do Diabo (ed. Temas e Debates), onde reproduz e investiga seis sermões do então bispo de Coimbra, Afonso de Castelo Branco. E analisa o que ainda ficou nos portugueses sobre o espírito inquisitorial: “Por vezes, vem ao de cima algum espírito de caça ao erro ou ao mal que é típico deste espírito, em que bastava ser denunciado para ser condenado.”
(o texto pode continuar a ser lido aqui)



terça-feira, 7 de agosto de 2018

Eles ajudam a construir memórias para tornar o futuro possível na Síria



(Foto reproduzida daqui)

Mais de seis milhões de sírios fugiram do país nos últimos sete anos. Dentro da Síria, pelo menos 6,6 milhões estão deslocados. Perante isso, o que se pode fazer? O padre Fouad Nakhaleh, director do Serviço Jesuíta aos Refugiados (JRS, na sigla inglesa), na Síria, sugere o que se pode fazer: “Promover a justiça, chamar a atenção para situações de injustiça e, na medida das capacidades de cada um, repor a justiça”.
Ghalia, muçulmana de Damasco orgulhosa de trabalhar entre cristãos, que agora vê futuro para si em Portugal, explica que quando a ajudaram ganhou mais forças para ajudar os outros. E no momento em que a palavra “sírio” se tornou para tantos um símbolo de “radical”, lembra que “as pessoas, lá e cá, precisam de ser defendidas”. “Falem, falem em nossa defesa”, pede. Ajudar é também nunca, nunca “esquecer a Síria”.
O padre Fouad não estava preparado para a guerra, como nenhum outro sírio. Agora, enquanto responsável do JRS na Síria, não desiste da paz. E sublinha que os sírios não desistiram, ainda, da hospitalidade: “Hospitalidade e dignidade. Os sírios mantiveram a capacidade de expressar o seu ‘obrigado’ com muito pouco.” E recorda uma história, de 2013: “Organizámos uma distribuição para 3000 pessoas e era estilo supermercado, elas entravam e escolhiam o que queriam”, conta. “No dia seguinte, uma senhora voltou com a sua família e trouxe-nos um pequeno bolo. Era mesmo pequeno [e mostra o tamanho formando um círculo com as mãos]. ‘É isto que eu tenho’, disse. Éramos 100 voluntários mas fizemos uma grande festa com este bolo”, diz, emocionado com as suas memórias.
(excertos de uma reportagem de Sofia Lorena no Público, que pode ser lida na íntegra aqui)

(Aqui também, pode ser lido um texto sobre Nouar Machlah, o jovem sírio que se reviu na imagem de Cavani ajudado por Ronaldo. Nouar vive em Évora, depois de ter fugido à guerra na Síria natal. Agarrou uma bolsa da plataforma de Jorge Sampaio para formar líderes e agora quer recompensar Portugal pelo que lhe deu...)

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

A “aventura irrealizável” de traduzir a Bíblia para português corrente

Augusto de Almeida Esperança (1928-2018), In memoriam


Augusto Esperança, em Outubro de 2004, na Igreja Inglesa, em Lisboa, 
na celebração dos 200 anos das Sociedades Bíblicas; ao lado, a viúva, Felícia Fiandor Esperança

No início, parecia uma aventura “irrealizável”: Portugal tornava-se, em 1972, o sexto ou sétimo país, no mundo inteiro, a fazer uma tradução da Bíblia, directamente dos originais, com uma equipa interconfessional. “Não tínhamos dinheiro nem tínhamos tradutores, especialmente no meio evangélico. Tive que os escolher a dedo depois de muita ponderação e oração”, recordava, em 13 de Julho de 2002, o pastor Augusto de Almeida Esperança, da Igreja Evangélica Presbiteriana de Portugal (IEPP), que morreu ontem, domingo, dia 5 de Agosto, em Lisboa. O funeral será esta quarta-feira, 8 de Agosto, às 10h, saindo da Igreja Presbiteriana, na Rua Tomás da Anunciação, onde o corpo ficará a partir das 21h desta terça-feira, dia 7. 
Na mesma evocação, Augusto Esperança recordava algumas peripécias: “Fizemos o primeiro seminário, ou curso de tradução, durante uma semana no Centro Ecuménico [Reconciliação] da Igreja Presbiteriana, em Buarcos [Figueira da Foz]. (...) Arrisquei convidar biblistas católicos mesmo sem os conhecer, mas de quem tive as melhores referências. Foram eles o Dr. Carreira das Neves e o Dr. António Tavares, escolha de que nunca me arrependi. (O Dr. José Ramos entrou mais tarde para a equipa).”
Desses convites, ficaram amizades para a vida. Augusto Esperança recordava ainda que esse curso especializado teve a orientação dos melhores biblistas das Sociedades Bíblicas Unidas. Entre eles, o Dr. Bratcher, Dr. Wonderly, Dr. Eugene Nida e Dr.Tippox. Mais tarde, tivemos como consultores o Dr. Ellingworth, o Dr. Jan de Waard,o Dr. Mendoza e o Dr. Jean-Claude Margot. Do nosso meio protestante português tínhamos o Dr. Soares de Carvalho, o Rev. Pinto Ribeiro, o bispo Emílio de Carvalho de Angola e o Dr. Almeida Penicela, de Moçambique. (O pastor Pedro Cardoso e o Dr. Alexandre Júnior que colaboraram na tradução experimental de Marcos não estiveram presentes. Aliás os dois não puderam continuar, por motivos particulares).”

domingo, 5 de agosto de 2018

O terramoto chileno provoca o abalo que o Papa quer para toda a Igreja

Na edição de hoje do Público, escrevo um texto sobre o caso dos abusos sexuais no Chile e o modo como o Papa o pretende aproveitar para que ele seja um exemplo para toda a Igreja – não só na questão da pedofilia, mas também no modo como é exercido o poder e como se devem afrontar questões como o elitismo, o narcisismo e o clericalismo:


O Papa Francisco com os bispos do Chile, em Maio deste ano, 
no Vaticano (foto reproduzida daqui)

O Papa foi posto em causa, mandou investigar o que se passava na questão dos abusos, começou a tomar decisões, escreveu uma carta duríssima aos bispos chilenos. Mas o que Francisco tem dito e feito ultrapassa, neste caso, o que se passa no Chile e está para lá do tema dos abusos. Uma viagem, em sete pontos, aos abalos que já se deram e às ondas de choque que o Papa está a provocar no catolicismo.

Terramoto, cataclismo, abalo, devastação — as palavras que se possam escolher não chegam para dizer o que se está a passar com a Igreja Católica, no Chile, nem aquilo que o Papa Francisco tem vindo a fazer em relação ao problema. Perante um drama de dimensão incalculável, a resposta do Papa tem sido invulgarmente dura e enérgica e reflecte a sua visão de muitos dos problemas que atravessam o catolicismo — e não apenas sobre o que se está a passar no Chile, e não só sobre a questão dos abusos sexuais.
(o texto pode continuar a ser lido aqui)

(Sobre alguns casos de abusos em Itália, pode ser lido, também no Público de hoje, este trabalhoe o editorial do jornal também é dedicado ao tema.)