sábado, 21 de julho de 2018

Frei Bento: um observador sério da realidade da Igreja


No número de Julho da revista Brotéria, publicada pelos jesuítas portugueses, o padre jesuíta Rui Fernandes assina um texto sobre o livro de frei Bento Domingues A Religião dos Portugueses:

Em 1988, frei Bento Domingues publicava o livro A Religião dos Portugueses, condensando em parte as notas do seu Curso de Pastoral, no Instituto Superior de Estudos Teológicos (ISET), em Lisboa (1967-1975). Então, o autor apelava para a necessidade de se estudar em profundidade o fenómeno religioso português, tendo Fátima como objecto de análise simultaneamente concreto e simbólico. O livro que agora nos chega recupera esses textos e problemática, somando uma selecção de artigos posteriores do autor, uns provindos da sua coluna semanal no jornal Público, outros de colaborações suas em diferentes obras. Agora, como na versão original, o livro tem total cabimento e pertinência. (...)

O artigo, que pode continuar a ser lido aquideixa implícita, na minha perspectiva, uma pergunta: porque não houve até agora um reconhecimento público, por parte da Igreja institucional, do trabalho que frei Bento Domingues faz há décadas, e nomeadamente nos últimos 30 anos, de reflexão sobre o lugar do religioso na sociedade, de aproximação entre o catolicismo e a cultura e entre crentes e descrentes, de debate sobre razão e fé ou de questionamento sobre as dimensões religiosas da sociedade portuguesa?...


quarta-feira, 18 de julho de 2018

“Karitas habundat in omnia” ou a história da feiticeira Cundrîe

Músicas que falam com Deus (45)


O Palácio de Sintra, sábado à noite

A música começa só com a voz, junta-se depois a flauta e, a seguir, o saltério. É como uma onda que vem, lenta mas firme, até inundar tudo. O poema confirma: Karitas habundat in omnia, o amor inunda o todo, ele ama abundantemente tudo... O texto é de Hildegarda de Bingen, a mística renana do século XII, e é ele que marca o início (e também o final) do belo concerto da alemã Maria Jonas e da sua Ala Aurea na 4ª Temporada de Música da Parques de Sintra. 
O ciclo deste ano tem como título Reencontros – Memórias Musicais no Palácio de SintraSábado passado, no cenário renascentista e onírico da Sala dos Cisnes, no Palácio da Vila, o tema do espectáculo tinha por título Cundrîe la Surziere – Um trajecto medieval em busca de Chrétien de Troyes e Wolfram von Eschenbach. A história de Cundrîe, espécie de feiticeira, mensageira do Santo Graal, conta que ela governava as ciências e as línguas do mundo antigo, resumia o programa. Ela era mediadora entre Oriente e ocidente e a sua mensagem era a caridade, mensagem “cristã primeva” que ecoava através dela e da sua voz “meia pagã” no antigo círculo Arturiano cristão.
A recriação proposta por Maria Jonas é singular: a música medieval só sobreviveu em alguns casos excepcionais, explica a artista, “sendo difícil determinar o modo como os textos eram musicados, o papel da improvisação e a articulação destes elementos no espetáculo musical”. A interpretação e a audição da música medieval, acrescenta, “têm sempre qualquer coisa de um ‘aqui e agora’”, diz ainda Maria Jonas, que caracteriza o estilo do seu trabalho como “música medieval livre”. Por isso, nos seus concertos, a improvisação reveste-se por vezes de um tom quase jazzístico, outras dos jograis ou ainda dos liederromânticos.
O concerto de sábado passado foi exemplar, desse ponto de vista: não se limitou ao que poderá ser a interpretação básica da música medieval, seguindo um arquétipo consagrado, antes nos levou a novos territórios. Diga-se que isso tinha tudo a ver com a história que aqui se pode resumir, a partir do programa: Cundrîe, bruxa feia, quase monstro, repreendeu Parzival, dizendo-lhe que ele não era digno da Távola redonda ou do Graal. O programa do concerto, centrado no Parzival, de Wolfram von Eschenbach (século XII-XIII) traduzia as profundas mudanças sociais e culturais da época, entre as quais a nova percepção do conceito de amor cristão (a caritas) e a revalorização do papel das mulheres. Cundrîe (que na origem francesa significa “a enfeitada”) surge como a intermediária entre o Ocidente cristão e o Oriente muçulmano, que as Cruzadas tinham mostrado que não se devia menosprezar. E a sua sabedoria, a sua humanidade, a sua empatia e o respeito pelas outras pessoas – a sua vivência da caritas– levam-na a ser reconhecida, apesar da sua fealdade física. 
No concerto, deve destacar-se também o extraordinário contributo dos restantes músicos: o iraquiano Bassem Hawar, no djoze, espécie de violino com uma caixa minúscula; a alemã Elisabeth Seitz, no saltério; o italiano Fabio Accurso, no alaúde e flauta, além de autor das peças instrumentais; e também o português Tiago Mota na recitação. Diga-se que qualquer um deles já tocou com outros grandes nomes da música: entre outros, estão nessa lista Ton Koopman, Ricercar Consort, Poème Harmonique ou L’Arpeggiata (que, na véspera, estiveram no mesmo local a dar outro concerto, e do qual foi co-fundadora Elisabeth Seitz, talvez a mais conhecida executante alemã do saltério). 
“Entre a humanidade e Deus, estou exactamente a meio, na fronteira”, dizia Cundrîe, a dado passo. Este concerto também nos deixou nesse lugar. 




Azulejos no Palácio de Sintra

[O festival continua já na próxima sexta e sábado com dose dupla dos Odhecaton (já aqui referidos, a propósito do seu disco O Gente Brunette), dirigidos por Paolo da Col. Sexta, dia 20, sobre o tema Flos Florum – Simbologia do número e devoção Mariana na polifonia franco-flamenga (programa aqui); sábado, dia 21, com o título Os humores de Orlando di Lasso (programa aqui). 
Dias 27 e 28 será a vez da Accademia del Piacere, com os programas Redescobrindo Espanha – Fantasias, diferencias e glosas na música espanhola dos séculos XVI e XVII (sexta, 27e Hispalis Splendens – Músicas da Sevilha do Século de Ouro (sábado, 28). 
Os concertos realizam-se sempre às 21h30, na Sala dos Cisnes do Palácio da Vila, em Sintra; bilhetes à venda nos locais habituais. Mais informação: www.parquesdesintra.ptinfo@parquesdesintra.pt ou tel. 219 237 300.]

segunda-feira, 16 de julho de 2018

Nascida como um oásis na cidade


Agenda

Foto ao lado : Igreja de Nossa Senhora da Conceição, dos Olivais Sul, em Lisboa (reproduzida daqui)

Nasceu como um oásis. Isto é, “um conjunto de instalações, dificilmente definível como edifício, vivendo por si próprio e por si próprio possibilitando uma maneira de viver”. Era assim que o arquitecto Pedro Vieira de Almeida definia, em 1970, a nova igreja e complexo paroquial dos Olivais Sul, em Lisboa, onde a invenção pretendia ser “um sistema e não uma forma”. Trinta anos depois da dedicação da igreja (em 1988), aquele espaço será objecto de um debate nesta terça-feira, dia 17 de Julho, às 21h30, com a participação do arquitecto Gonçalo Byrne.
O mote para a conversa será Passado, Presente, Futuro: Oportunidades. Fruto de um concurso de arquitectura lançado em 1969 e construído na década de 1980, o complexo (apenas parcialmente concluído) implanta-se sobre uma pequena encosta no moderno bairro de Olivais Sul (Lisboa). O volume caracteriza-se pela sua horizontalidade, apresentando-se mais como uma estrutura ao serviço da comunidade do que como referência arquitectónica dominante no território, numa interpretação muito concreta dos princípios de integração de uma igreja na cidade, no pós-Concílio Vaticano II (1962-65).
Concluída pelo Secretariado das Novas Igrejas do Patriarcado, a igreja celebra este ano os 30 anos da sua dedicação, pretexto para esta iniciativa, organizada pelo Centro de Estudos de História Religiosa da Universidade Católica Portuguesa e a Paróquia de Olivais Sul.
Também no próximo sábado, 21 de Julho, às 21h30, será apresentado o documentário A espessura da luz, de João Valério, Sofia Almeida e Tiago Santos, sobre o projecto e construção da igreja de Olivais Sul. Em ambos os casos, as iniciativas decorrem na igreja dos Olivais Sul, com entrada gratuita. O filme de apresentação do documentário pode ser visto a seguir. 




quinta-feira, 28 de junho de 2018

Resto do Mundo, 72 – Europa, 53. E estes números dizem muito sobre o Papa



A cúpula da Igreja Católica fica hoje recomposta, 
com a nomeação de 14 novos cardeais, entre os quais o bispo de Leiria-Fátima, António Marto
 (na foto, a cúpula da Basílica de São Pedro, terça à noite) 

Regresso por uns dias às páginas do Público. A propósito do consistório que esta tarde decorre em Roma, com a nomeação de 14 novos cardeais – entre os quais o português António Marto, bispo de Leiria-Fátima –, procuro analisar o que as escolhas significam, tendo em conta a personalidade do Papa.

As estatísticas podem ser importantes na hora de olhar para a recomposição do colégio de cardeais feita pelo Papa. Uma análise aos números e a alguns nomes que traduzem as opções de Francisco.

Neste caso, alguns números traduzem factos importantes: a partir desta quinta-feira, passará a haver 72 cardeais do resto do mundo, na composição do colégio que, num eventual conclave, decidirá a eleição de um futuro Papa. O grupo de cardeais da Igreja Católica está cada vez mais universal e a Europa já “só” tem 53 (dos quais 22 italianos, o país com maior peso).
Os cardeais eleitores de um novo Papa passarão a ser 125 (pelo menos até Janeiro do próximo ano, se ninguém morrer até lá, pois nessa altura um deles completa os 80 anos, deixando de ser eleitor num conclave). A constituição que regula a matéria estabelece um máximo de 120, mas desde João Paulo II que esse tecto é sempre ultrapassado, na hora de nomear novos cardeais.
(o texto pode ser lido aqui na íntegra)

Em relação à nomeação de António Marto como cardeal e do padre José Tolentino Mendonça como novo responsável da Biblioteca e Arquivo do Vaticano, escrevi um comentário onde pretendo reflectir a dimensão estritamente pessoal do Papa que ambas as nomeações traduzem:

Duas escolhas pessoais. “Apenas” isso
De repente, o Papa Francisco e o Vaticano dão importância ao catolicismo português? Depois da nomeação do bispo de Leiria-Fátima para cardeal – a formalizar no consistório desta quinta-feira à tarde –, e da escolha do padre José Tolentino Mendonça para dirigir a Biblioteca e o Arquivo do Vaticano, parece que Portugal está na moda também na Santa Sé.
Desengane-se quem olhe para estas escolhas com uma perspectiva mais ou menos nacional-católica: em ambos os casos, elas são “apenas” escolhas pessoais do Papa. A coincidência temporal é só isso.

E poucos minutos antes de se iniciar o consistório, registo as declarações do novo cardeal aos jornalistas, aqui, falando sobre a tragédia humanitária que se pode abater sobre os refugiados. Declarações que vêm aliás, na continuidade da entrevista que concedeu ao Público.

quinta-feira, 14 de junho de 2018

“O crucifixo numa mão e a enxada na outra”


Foi bispo do Porto num “momento de transição” em Portugal e na Igreja Católica: António Barroso, nascido em Barcelos em 1854, foi bispo do Porto entre 1899 e 1918; antes disso, tinha sido missionário em Angola, Moçambique e Meliapor (Índia). Em 1889, dez anos antes da sua nomeação para bispo do Porto, fez uma conferência na Sociedade de Geografia de Lisboa, partindo da sua experiência na missão de São Salvador do Congo, na qual criticou diversos comportamentos de colonos portugueses em África e defendeu a presença de mulheres (religiosas) nas missões católicas.
A conferência, onde também advogou que o missionário deveria ter o crucifixo numa mão e a enxada na outra, valeu-lhe acusações várias de diversos sectores, quer católicos, quer políticos.
Perseguido depois pela I República, por causa da sua oposição às normas da Lei de Separação, Barroso foi bispo num tempo de passagem de um mundo rural para a primeira industrialização, como recorda Paulo Fontes, director do Centro de Estudos de História Religiosa (CEHR), da Universidade Católica. A nação perdera o Brasil e tentava redefinir-se com o seu império africano, o país procurava olhar para o futuro, apareciam novos sectores urbanos e novos protagonismos e sociabilidades.
No próximo dia 31 de Agosto, completa-se um século sobre a data da morte de António Barroso, aos 63 anos. Na iminência da sua beatificação, cujo processo já foi iniciado, a Universidade Católica Portuguesa levou a efeito um colóquio científico sobre a sua personalidade. Aqui pode ouvir-se uma entrevista (12 minutos) de Manuel Vilas Boas ao director do CEHR, a propósito desse colóquio, sobre a personalidade de António Barroso.

(foto acima reproduzida daqui)