domingo, 15 de janeiro de 2017

Sobre o futebol e outros suicídios do jornalismo (ou como jornalistas e católicos são tão parecidos)

Está a decorrer em Lisboa, desde quinta-feira (acaba este Domingo), o 4º Congresso dos Jornalistas Portugueses. Sábado à tarde, apresentei no congresso uma comunicação onde falo sobretudo do jornalismo, mas também da forma como algumas questões ligadas ao tratamento do religioso com ele se cruzam. Fica aqui o texto, para eventuais interessados. (Foto ao lado reproduzida daqui)


Hesitei muito sobre a minha participação no congresso e sobre a possibilidade de fazer ou não esta comunicação – já direi porquê. Desde há anos, foi crescendo o meu desencanto com algumas práticas do jornalismo. A 7 de Julho de 2014, esse desencanto ficou gravado como um espinho na carne: nesse dia, estive à porta do DN, numa manifestação contra os despedimentos que a então Controlinveste se preparava para fazer em vários meios do grupo. Nesse dia, ou na véspera, tinha ouvido na TSF (rádio do grupo, onde também haveria despedimentos) um noticiário que abriu com as declarações de um treinador de futebol sobre as suas expectativas acerca de um jogo que seria disputado dois dias depois.
Dei comigo a pensar que estávamos ali alguns (não muitos, aliás...) a protestar contra mais uma decisão intolerável de uma administração, mas que muito do que está a acontecer com as redacções e o jornalismo é cada vez mais da nossa responsabilidade.
Infelizmente, situações deste género repetem-se com demasiada frequência sobretudo nas televisões e em algumas rádios, dando um espaço desmesurado a coisas que, em si, não são notícia (é notícia ouvir “a minha equipa vai dar o melhor?” ou são notícia cuspidelas em balneários?...); promovemos programas de suposto debate que, exacerbando clubites já de si agudas, não debatem coisa nenhuma e só contribuem para degradar o nível do debate público; somos, enquanto jornalistas, veículo da publicidade dos patrocinadores de campeonatos ou clubes; fazemos entrevistas rápidas em cenários de marcas comerciais; designamos campeonatos com o nome dos patrocinadores... Há anos, o Parlamento quis impor restrições à livre circulação dos jornalistas em S. Bento; durante um mês, omitimos o noticiário parlamentar, em protesto contra essa ideia e os deputados recuaram. Pelos vistos, é mais fácil enfrentarmos o poder político que o poder do futebol...
Em síntese, o jornalismo desportivo audiovisual reflecte a tremenda inversão das prioridades noticiosas. Recordo-me de ouvir um camarada de televisão que esteve na Alemanha a acompanhar o Mundial de Futebol de 2006, contar que nem os jogos nem o próprio torneio eram notícia nos jornais televisivos daquele país; havia, isso sim, programas especiais, bem feitos e criativos, a propósito do futebol, mas ele não ocupava horas infindas de emissão até à náusea, sem nada para dizer.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Frei Bento Domingues conversa com Anabela Mota Ribeiro sobre (quase) toda uma vida

Agenda

No ciclo Literatura e Pensamento, organizado pelo Centro Cultural de Belém (CCB), Anabela Mota Ribeiro animará uma conversa com frei Bento Domingues, sob o título (Quase) Toda uma Vida. Será no próximo domingo e a apresentação da iniciativa e do protagonista é feita assim:

Frei Bento Domingues, um homem livre, quiçá subversivo, que cita [Tomás de] Aquino: “Se faço uma coisa porque está mandado, mesmo que seja por Deus, não sou livre, só sou livre quando faço, ou deixo de fazer, porque é mal ou é bem.” Nasceu no Minho, andou por muito lugar, de África à América Latina. Vive num convento. Ouvimos a sua voz, por exemplo, nas crónicas que escreve para o Público há anos. Escuta o rumor do mundo com atenção. É um clérigo que nos ajuda a procurar o sentido da palavra Humanismo. Este ano fará 83 anos. Parece mais novo, talvez pelo espanto e pela disponibilidade com que acolhe os outros, com que olha o mundo.

Domingo, 15 de Janeiro de 2017, das 17h00 às 18h30
Pequeno Auditório do CCB
Entrada livre mediante a disponibilidade da sala

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Mário Soares (7 de Dezembro de1924 – 7 de Janeiro de 2017): “Sou talvez um místico que se desconhece” – entrevista de Mário Soares sobre a religião e a fé, a vida e a morte

sábado, 7 de janeiro de 2017

Mário Soares (7 de Dezembro de 1924 – 7 de Janeiro de 2017): “Sou talvez um místico que se desconhece”


Há vinte anos, a 22 de Dezembro de 1996, publiquei no Público uma entrevista a Mário Soares, que deixara o cargo de Presidente a 9 de Março desse ano. O pretexto era o facto de que Soares participara em várias iniciativas de carácter religioso. O mistério da morte fascinava e perturbava o antigo Presidente, como confessava. Fica aqui o texto na íntegra, tal como está publicado no livro Diálogos com Deus em Fundo (ed. Gradiva).


Foto Arquivo DN (reproduzida daqui)
  
Depois de ter deixado a Presidência da República, Mário Soares participou, como convidado muito especial, em diferentes iniciativas católicas ou de instituições próximas da Igreja. Embora sempre se tenha assumido como agnóstico, afirma que, “no plano filosófico”, se voltou a interessar pelos temas das origens e do destino da humanidade. Nesta entrevista, respondida por escrito, admite que o mistério da morte o “fascina” e o “perturba”, e que, nos últimos anos, se insinua com mais frequência nas suas reflexões. E cita a frase bíblica “és pó e em pó te hás-de tornar”, para dizer que a morte é a única realidade indubitável, da qual não se deve fazer “abstracção”.
Oposicionista à ditadura do Estado Novo, Mário Soares nasceu a 7 de Dezembro de 1924, em Lisboa. Esteve preso uma dúzia de vezes, chegando a ser deportado para a ilha de São Tomé. No tempo de Marcello Caetano, foi expulso de Portugal e exilou-se em França, em 1970, onde se encontrava quando se deu a Revolução de 25 de Abril de 1974. Em 1973, participou na fundação do Partido Socialista, que passou a liderar e à frente do qual veio a vencer as eleições para a Assembleia Constituinte, em 1975 e, depois, para a nova Assembleia da República, em 1976. Entre Maio de 1974 e Março de 1975 exerceu ainda o cargo de ministro dos Negócios Estrangeiros de vários governos provisórios.
Foi primeiro-ministro por três vezes (1976-77; 1978 e 1983-85), qualidade em que assinou o tratado de adesão de Portugal à então Comunidade Económica Europeia (hoje União Europeia), em Junho de 1985, e Presidente da República em dois mandatos (1986-96). Desde a sua saída do cargo, passou a dirigir a Fundação Mário Soares. Foi eleito, em 1999, deputado ao Parlamento Europeu, onde esteve cinco anos. Em 2005, candidatou-se de novo à Presidência da República e foi derrotado. Em 2007, foi nomeado presidente da Comissão da Liberdade Religiosa, tendo também exercido diversos cargos internacionais. Publicou vários livros, entre os quais Portugal Amordaçado, os dez volumes de Intervenções (que recolhem os textos enquanto Presidente da República), Português e Europeu, Incursões Literárias, Um Mundo Inquietante e ainda os volumes de entrevistas com Maria João Avilez (Soares), Mário Bettencourt Resendes e Teresa de Sousa.
A sua fé, diz, está apenas no homem, embora admita que talvez se possa definir em termos religiosos com uma expressão usada por Jean Guitton: “Um místico que se desconhece”. A fé, disse-o nas Jornadas de Universitários Católicos, é uma graça. Mas acrescentou: "nunca fui tocado por essa graça". E foi em nome da humanidade e do humanismo, no qual diz acreditar profundamente, que participou em diferentes iniciativas católicas antes e depois de deixar o cargo de Presidente da República – falou, por diversas vezes, nos encontros internacionais pela paz promovidos pela Comunidade de Santo Egídio.


Aceitou, depois de deixar o cargo de Presidente da República, participar em diversas iniciativas católicas ou de instituições próximas da Igreja. Que sentido dá a essa participação?
Participei, que me lembre, apenas em três iniciativas, que se poderão classificar como religiosas ou, melhor, que partiram de organizações conotadas com a Igreja.
A primeira teve lugar em Roma, onde fui a convite da Comunidade de Santo Egídio, em Outubro último, para participar nas X Jornadas de Paz, através do diálogo ecuménico. Há já alguns anos havia sido convidado, então para Assis, para participar nessas interessantes jornadas, que não só reúnem crentes de todas as grandes religiões como também não crentes. Foi, aliás, nesta última qualidade, que fui convidado, como outros agnósticos confessos, como Jean Daniel do Nouvel Observateur e o director do prestigiado jornal italiano La Repubblica, Eugenio Scalfari.
A segunda foi na Universidade Católica, para estar presente e usar da palavra numa homenagem ao padre Joaquim Alves Correia, que tive a honra de conhecer pessoalmente, e que foi uma grande figura da Igreja – exilado na América, onde faleceu, perseguido por Salazar –, um católico progressista “avant la lettre”. [Este episódio é recordado também numa crónica de Anselmo Borges publicada hoje no DN]
A terceira foi um convite do Movimento Católico de Estudantes para fazer uma conferência no final de um seminário que teve lugar no Centro Diocesano do Porto, sobre o humanismo do próximo século.

Uma música para o dia de Natal (que hoje volta a ser, no calendário ortodoxo juliano)

Hoje volta a ser dia de Natal. No calendário juliano, seguido por várias Igrejas Ortodoxas, hoje é de novo 25 de Dezembro. A este propósito, pode ouvir-se Perinatal, um projecto de Tomáš Reindl, músico e compositor checo, que ainda em Junho último tocou algumas das suas peças na Igreja do Santo Salvador, onde está sediada a paróquia católica universitária, no centro histórico de Praga. Nesta nova peça (disponível numa ligação no final), uma composição meditativa baseada num projecto ainda em andamento, intitulado Ingrediente, o autor inspira-se em antigas tradições da música espiritual europeia (nomeadamente do canto e da polifonia medieval).


Os eslavos na sua terra natal, primeiro quadro da série Épica Eslava
de Alphonse Mucha (imagem reproduzida daqui)

Tomáš Reindl explica que essa inspiração foi como que “carregada” na peça e cruzada com sons do século XXI, em que se destacam “improvisações e novas possibilidades de processamento de som”.
A matéria-prima da composição vem da improvisação sobre três cantos tradicionais de Natal, complementados com a estrutura de peças polifónicas e trabalho adicional de estúdio, bem como o processamento de som sensível, o que cria uma atmosfera única. 
O tema central da composição é o fenómeno do nascimento de um homem, tomado quer no sentido espiritual quer na sua expressão secular. No início da peça, pode ouvir-se o ambiente de um centro comercial com músicas checas tradicionais de natal, reduzidas de modo a funcionar como estímulo às compras de Natal.

A peça tem a participação dos seguintes músicos:
Jiří Hodina – voz, violino
Jan Jirucha – trombone
Tomáš Reindl – saltério medieval, clarinete, tablas, voz, didjeridu, processador
Markéta Schley Reindlová – orgão
Matyáš Reindl (filho do autor) – voz e saltério

Os textos, em latim, são cantos gregorianos de Natal e reproduzem-se a seguir, no original:

Labia mea aperies et os meum adnuntiabit laudem tuam.

Christus natus est nobis, venite adoremus.
Venite exultemus Domino, Jubilemus Deo salutari nostro,
praeocupemus faciem ejus, in confesione, et in psalmis jubilemus ei.

Christe Redemptor omnium,
Ex Patre Patris Unice,
Solus ante principium
Natus ineffabiliter:
Tu lumen, tu splendor Patris,
tu spes perennis omnium,
intende quas fundunt preces
tui per orbem servuli.


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A humanidade e o sagrado são,nela, uma e a mesma coisa – o livro Maria, com obras de arte relacionadas com a figura de Maria de Nazaré

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

A humanidade e o sagrado são, nela, uma e a mesma coisa

Livro

Pouco se sabe acerca de Maria de Nazaré que, muito jovem, foi mãe de Jesus. Mas, como escreve Jacques Duquesne (Maria, A Verdadeira História da Mãe de Jesus, ed. Asa), “esta quase desconhecida foi representada de todas as maneiras – com talento, ingenuidade ou estupidez – e sem ela a História da Arte seria completamente diferente”.
A escassa dezena de referências dos quatro evangelhos canónicos à sua pessoa contrasta com a maior importância que lhe é dada nos apócrifos (os textos não aceites como autênticos ou divinamente inspirados, onde até se “identificam” os pais de Maria, sobre os quais não há certeza histórica nenhuma) e, mais ainda, com todas as alusões, invocações e atributos que, ao longo da história, se centraram na sua figura.
Resume ainda Duquesne: “Esta mulher ignorada pelos autores do seu tempo foi proclamada três séculos mais tarde mãe de Deus, depois rainha e mãe da Igreja e mil vezes coroada. Ela foi – e continua a ser – invocada por milhões de homens e mulheres. São-lhe atribuídos milhares de milagres. Nunca ninguém no mundo inspirou tantos hinos, cânticos, poemas, histórias.” E, numa alusão a fenómenos como Fátima, lembra o jornalista católico francês (autor também de um Jesus que causou muita polémica) que esta mulher arrasta multidões “para os lugares onde ela apareceu, onde ela falou e falou bem mais do que nos Evangelhos, séculos depois da sua morte”.
Foi precisamente esse fascínio de tantos milhões que levou as autoras deste “acervo” de arte a dar-nos um retrato dos retratos desta mulher ímpar na história da humanidade. São 370 imagens (quase todas pinturas, algumas esculturas e algumas fotos de santuários a ela dedicados) aqui reunidas, que nos dão o mais belo das diferentes invocações, factos miraculosos ou histórias relacionadas com Nossa Senhora, como popularmente é tantas vezes designada.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Um presépio no meio da cidade ou “por aí”, entre refugiados e perseguidos


A irmã Irene Guia num dos campos de refugiados por onde passou
(foto reproduzida daqui)

Fazer um presépio pode ser objecto de discussão num mosteiro, como conta a irmã Maria Domingos, monja no Mosteiro de Santa Maria, do Lumiar (Lisboa). “Não vivemos para outra coisa senão o louvor de Deus, a celebração da liturgia, a vida fraterna, dar um testemunho de que há outra maneira de estar na vida... damos o essencial do tempo ao silêncio”, conta também ela, na entrevista a Manuel Vilas Boas, onde se fala do quotidiano, de pequenas histórias e da proposta de uma espiritualidade diferente. E onde se termina a conversa evocando a cítara e a poesia de José Augusto Mourão. Para ouvir aqui.

Bem mais longe, Irene Guia, que estudou música em Viena, fala de um presépio com outras músicas, um presépio que “anda por aí”, em pleno Curdistão iraquiano, depois de ter estado em missões de apoio a refugiados em lugares como os Camarões, Timor, Ruanda ou República Democrática do Congo. Estar onde haja gritos”, diz esta religiosa das Escravas do Sagrado Coração de Jesus, que quer apenas ajudar a “manter a esperança”, incluindo a dos yazidis, populações que têm sido chacinadas e cujas mulheres são, muitas vezes, vendidas e revendidas. A entrevista pode ser escutada aqui. 

Na revista Bíblica, de Maio-Junho 2015, publiquei um texto sobre a irmã Irene Guia, onde ela conta o seu trajecto pessoal e nas várias missões de apoio a refugiados, com o Serviço Jesuíta aos Refugiados. O artigo fica a seguir na íntegra.

Ter na pele a sensação de ter salvo uma vida

Viu Saidi a correr para ela e nesse momento sentiu na pele a sensação de ter salvo uma vida. Viu Jimmy morrer com um tumor e foi pedir mais meios para evitar mortes assim. E viu a esperança que faz com que pessoas no limite “consigam padecer o incalculável.”

Chegou de capacete na cabeça, partiu depois de o colocar de novo, sentada na motorizada da congregação, que utiliza nas suas deslocações em Lisboa.
Houve um dia, num campo de refugiados do Congo, em que a motorizada poderia ter dado jeito à irmã Irene Guia, 55 anos, das Escravas do Sagrado Coração de Jesus. O pequeno Saidi, 14 anos que mais pareciam oito, mal nutrido, ventre enorme, mãe doente, foi identificado como precisando de cuidados de saúde. Mas tinha de andar 100 metros até ao posto de atendimento. Quando percebeu isso, começou a chorar.
“Um homem que me acompanhava pô-lo às cavalitas e ele parou o choro.” A mãe, que tinha um cancro e era igualmente mal nutrida, foi levada com o filho para o hospital. “Duas semanas depois, fui visitá-los. Quando me viu, Saidi desatou a correr. Nesse dia, tive a sensação na pele de que tinha salvo uma vida.”

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Uma biografia (im)possível de Jesus

Quem foi Jesus? E quem é ele hoje? A cada 25 de Dezembro os cristãos celebram o seu nascimento, mas, quanto à sua vida subsistem muitas dúvidas e mistérios. Fomos saber quais as mais recentes teses sobre este “judeu marginal” que “viveu num recanto do Império Romano”. Este texto foi originalmente publicado no Público de 23 de Dezembro de 2011. 


Sieger Koder, Última Ceia (imagem reproduzida daqui)


Um profeta ou um blasfemo? Um subversivo ou um sedutor? Um homem ou um deus? Um marginal ou um judeu da elite? Um amigo dos pobres e das mulheres ou um opositor aos líderes religiosos do seu tempo? Um político ou um mestre espiritual? Um sonhador ou um revolucionário?
Impossível compor uma biografia de Jesus de Nazaré, cujo nascimento é assinalado desde há séculos a 25 de Dezembro – mesmo se não há certezas sobre a data exacta ou sequer sobre o próprio nascimento. Começamos então por ver que sabemos pouco. Ou talvez não. Ed Parish Sanders, um dos mais importantes estudiosos sobre a personagem histórica de Jesus, escreve n’A Verdadeira História de Jesus (ed. Notícias/Casa das Letras): “Há muitos aspectos sobre o Jesus histórico que permanecerão um mistério.”
Não se sabe, por exemplo, quando e onde nasceu exactamente – apesar de, na festa do Natal, se assinalar a cidade de Belém como lugar onde veio à luz, segundo a tradição. Não se sabe se teve irmãos, embora John P. Meier, autor de Um Judeu Marginal – Repensando o Jesus Histórico (ed. Imago/Dinalivro), uma das obras maiores dos estudos contemporâneos sobre Jesus, aponte para a probabilidade de serem legítimos os vários irmãos de Jesus.
Não se sabe ainda como viveu durante os primeiros 30 anos da sua vida. Não se sabe se se casou – Meier diz que tudo aponta para que tenha permanecido celibatário. Desconhece-se se Jesus tinha consciência plena da sua missão –  ou, na linguagem crente, se era Deus.
Sabemos pouco, então, sobre Jesus? O mesmo E. P. Sanders escreve: “Sabemos que iniciou a vida pública sob João Baptista, que teve discípulos, que esperava o Reino, que foi da Galileia para Jerusalém, que fez algo hostil ao Templo, foi julgado e crucificado.” Sabemos ainda “quem era, o que fez, o que ensinou e por que morreu; e, talvez o mais importante, sabemos como inspirou os seus seguidores, que, por vezes, não o entenderam, mas que lhe foram tão fiéis que mudaram a História”.

Bilhete de identidade

Uma biografia impossível? À procura de respostas, a Sociedade Missionária da Boa Nova organizou o colóquio Quem foi, quem é Jesus Cristo? [as actas foram entretanto publicadas, com o mesmo título, pela Gradiva]. A convite do teólogo e filósofo Anselmo Borges, vários pensadores e especialistas contemporâneos passaram por Valadares (Gaia), em Outubro [de 2011], dando um panorama do que se conhece sobre Jesus, em várias áreas. Acompanhámos a iniciativa, que contou com a participação de alguns dos mais destacados teólogos espanhóis.

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Darth Vader invadiu o presépio de Alice Vieira, mas uma ambulância do INEM tratou do assunto

Pode Darth Vader invadir um presépio e um avião do INEM resolver o assunto? Em casa da escritora Alice Vieira, isso é possível, por causa dos netos. Mas o primeiro presépio feito pela autora de Histórias da Bíblia para Ler e Pensar foi quando nasceu a filha. Nessa altura – estava-se na época após a revolução de 25 de Abril de 1974 – o presépio de Alice chegou a incluir cartazes com várias reivindicações. Os presépios podem servir também para estimular a criatividade, diz Alice Vieira nesta entrevista ao programa Ecclesia, durante a qual mostra alguns dos seus mais de 60 presépios. E recorda que o Natal deve ser, sobretudo, um tempo em que cada pessoa se esforce para estar com outras.



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Laura Ferreira dos Santos (1959-2016): Católica das margens, em busca de uma ortodoxia maior

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Laura Ferreira dos Santos (1959-2016): Católica das margens, em busca de uma ortodoxia maior


Laura Ferreira dos Santos, fotografada por José Caria/Visão 
(foto reproduzida daqui)

Em 2008, ela confessava imaginar o seu encontro com Deus como acontecendo num momento semelhante a um colorido pós-pôr do sol. “Tenho a sensação que só nessa altura, como se diz na Bíblia, todas as lágrimas do nosso rosto serão enxugadas e todas as dúvidas que temos e não conseguimos resolver racionalmente serão resolvidas. (...) A minha ideia do ‘outro lado’ é a de que simplesmente vamo-nos abraçar de imediato e dizer: ‘Finalmente!’” Laura Ferreira dos Santos, professora universitária e ensaísta, que se destacara nos últimos anos na defesa da morte assistida, morreu sexta-feira passada em Braga, após vários anos de luta contra um cancro. O funeral realizou-se sábado, para o Porto.
Autora de um Diário de uma Mulher Católica a Caminho da Descrença (ed. Angelus Novus, 2003 e 2008), em dois volumes, essa obra marcante no seu percurso foi ignorada nas notícias acerca da sua morte. Nela se definia como uma “católica nas margens”, mas em busca de “uma ortodoxia maior”.
Na entrevista que lhe fiz em 2008 e foi publicada no Público em 5 de Maio desse ano (entretanto também publicada no livro Diálogos com Deus em Fundo, ed. Gradiva), ela contava como escreveu este diário singular na literatura portuguesa, as suas distâncias e proximidades com o catolicismo e a fé.
Mais recentemente, numa entrevista ao suplemento Igreja Viva, do Diário do Minho, Laura Ferreira dos Santos actualizou as razões do seu envolvimento na causa da morte assistida, surgido precisamente por causa da experiência de sofrimento e de morte que enfrentou várias vezes entre os seus próximos e que levou mesmo a mudar o seu modo de entender a fé.
“Como acredito num Deus de amor, acredito também que Ele só pode querer o nosso melhor interesse. Infelizmente, em certas alturas, o nosso melhor interesse é morrermos, para assim escaparmos ao sofrimento atroz. Por isso, por vezes rezamos para que Deus ‘leve’ alguém o mais depressa possível”, dizia, na entrevista que pode ser lida aqui.
Nascida em Braga, a 27 de Março de 1959, Laura Ferreira dos Santos licenciou-se em 1982, na Faculdade de Filosofia da Universidade Católica Portuguesa. No ano seguinte, passou a leccionar na Universidade do Minho. Trabalhou no Instituto de Educação da UM (Departamento de Teoria da Educação e Educação Artística e Física) e, em 1996, prestou provas de doutoramento em Educação, na mesma Universidade, com uma tese sobre Pensar o desejo a partir de Freud, Girard e Deleuze.
Laura Ferreira dos Santos dedicou a sua investigação à Filosofia da Educação e bioética (neste último caso, especialmente às questões das escolhas de fim de vida). Entre as suas obras, incluem-se Educação e cultura em Nietzsche. Análise da primeira fase do seu pensamento, Pensar o desejo a partir de Freud, Girard e Deleuze (ambos ed. da Universidade do Minho), Alteridades feridas. Algumas leituras feministas do cristianismo e da filosofia (ed. Angelus Novus), Ajudas-me a morrer? A morte assistida na cultura ocidental do século XXI e Testamento Vital – O que é? Como elaborá-lo? (ambos na Sextante). Integrou também, desde Janeiro de 2009, a Comissão de Ética para a Saúde da Administração Regional de Saúde do Norte.

Como surgiu este Diário de uma Mulher Católica a Caminho da Descrença?
Já há muitos anos que escrevo. No segundo volume [do Diário…], de vez em quando há extractos de diários antigos. Escrevi sempre porque tinha vários problemas para resolver e porque a escrita foi sempre a melhor maneira de pensar sobre eles.
Há uma canção de Leonard Cohen, que diz mais ou menos: “Toca os sinos que ainda podes tocar,/ larga a tua oferta perfeita,/ em todas as coisas há uma fissura/ e é por aí que a luz entra.” Desde que a ouvi, tomei consciência de que andei sempre à procura dessa luz, não só em circunstâncias de sofrimento, mas também em outras mais favoráveis.

Advento: Maria, José e a manjedoura



Oração de Maria

a fonte de Deus é a luminosa torrente
que alimenta aquilo que sou

e afasta de mim toda a secura:

por isso, na fonte de Deus eu espero

a mão de Deus é o mapa e a viagem
sei que me acompanha e sustém
mesmo quando eu não vejo:

por isso, na mão de Deus espero

o silêncio de Deus é a palavra

que desde o princípio do tempo

por dentro do amor vem sendo dita:
por isso, no silêncio de Deus eu espero


sábado, 17 de dezembro de 2016

Flannery O’Connor: querer ver a Lua inteira, passar de queijo a mística. Imediatamente.

Um Diário de Preces - um livro e uma encenação este Domingo, em Lisboa


Ilustração da capa de Um Diário de Preces (ed. Relógio d'Água)

“Meu bom Deus, não consigo amar-Te  como pretendo. És o crescente esguio de uma Lua que avisto, e o meu eu é a sombra da Terra que me impede de ver a Lua inteira.”
São palavras do início de Um Diário de Preces, da escritora norte-americana Falnnery O’Connor (1925-1964). O texto será encenado este Domingo, 18, na Capela do Rato, em Lisboa, a partir das 16h, numa encenação de Miguel Loureiro e interpretação de Isabel Abreu (mais informações aqui)
Um Diário de Preces é um texto curto, escrito na intensidade dos 22 anos de Flannery, que oscila “entre a metafísica e a terapêutica”. É um diálogo em luta com Deus e com as próprias contradições interiores, de quem se sente dividido entre aquilo que deseja ser e aquilo que realmente é. Mas também de quem tenta descobrir os verdadeiros desejos de Deus para si mesma. O mesmo Deus a quem Flannery se dirige, pedindo que a ajude a ser uma boa escritora, ou a saber como rezar ou a ser grata ou a adorá-l’O. Sobre a sombra que a impedia de ver a Lua, ela acrescentava: “Não te conheço, meu Deus, porque eu própria Te encubro. Por favor, ajuda-me a arredar-me do caminho.”
Flannery deixou vários 31 contos, dois romances – Sangue Sábio e O Céu é dos Violentos –, bem como muitas críticas literárias e ensaios. A sua obra de ficção está toda publicada em Portugal, nomeadamente na Relógio d’Água (que também publicou Um Diário de Preces) e na Cavalo de Ferro.
No prefácio obrigatório que escreveu à edição portuguesa deste Diário, Pedro Mexia recorda que a escritora “tinha uma sólida formação teórica”, que assentava em nomes como Tomás de Aquino e Romano Guardini, discutia o conceito de escritor católico – o que ele ou ela não deve fazer é “separar a natureza da Graça” – e manifestava, nos textos deste Diário, “a impaciência dos místicos”. No final, aliás, a última frase – “nada mais resta dizer acerca de mim” – assemelha-se ao “temperamento de Teresa d’Ávila”, escreve Mexia.
Há outras reminiscências. Como as que remetem para a possibilidade de ver Deus de forma intensa e permanente no quotidiano, ou para o pedido para que Deus se deixasse ajudar, ideias tão caras a Etty Hillesum, a judia que morreu em Auschwitz (autora de um Diário e de um volume de Cartas, ambos publicados na Assírio & Alvim, que relatam a sua aventura espiritual). Na penúltima entrada, escrita a 25/9/1947, escreve Flannery: “Se me cabe lavar todos os dias o segundo degrau, diz-mo e deixa-me lavá-lo até que o meu coração transborde de amor ao lavá-lo. Deus ama-nos, Deus precisa de nós. E também da minha alma.”
Em várias entradas do Diário, Flannery escreve sobre os quatro elementos de que a prece se deve compor: adoração, contrição, agradecimento e súplica. E também reza a propósito da fé, da esperança e do amor. Sobre a esperança, confessa sentir-se “um pouco perdida”. E pede, numa alusão a várias outras passagens em que se sente espatilhada e dividida por sentimentos contraditórios: “Por favor, deixa que alguma luz emane de todas as coisas que me rodeiam, para que me possa sentir coesa.”

Na entrada de 25/9, Flannery escreve, como quem dá uma ordem a Deus: “Aquilo que peço é, na verdade, bastante ridículo. Oh. Senhor, o que eu digo é que neste momento sou um queijo, faz de mim uma mística, imediatamente.”