quarta-feira, 18 de julho de 2018

“Karitas habundat in omnia” ou a história da feiticeira Cundrîe

Músicas que falam com Deus (45)


O Palácio de Sintra, sábado à noite

A música começa só com a voz, junta-se depois a flauta e, a seguir, o saltério. É como uma onda que vem, lenta mas firme, até inundar tudo. O poema confirma: Karitas habundat in omnia, o amor inunda o todo, ele ama abundantemente tudo... O texto é de Hildegarda de Bingen, a mística renana do século XII, e é ele que marca o início (e também o final) do belo concerto da alemã Maria Jonas e da sua Ala Aurea na 4ª Temporada de Música da Parques de Sintra. 
O ciclo deste ano tem como título Reencontros – Memórias Musicais no Palácio de SintraSábado passado, no cenário renascentista e onírico da Sala dos Cisnes, no Palácio da Vila, o tema do espectáculo tinha por título Cundrîe la Surziere – Um trajecto medieval em busca de Chrétien de Troyes e Wolfram von Eschenbach. A história de Cundrîe, espécie de feiticeira, mensageira do Santo Graal, conta que ela governava as ciências e as línguas do mundo antigo, resumia o programa. Ela era mediadora entre Oriente e ocidente e a sua mensagem era a caridade, mensagem “cristã primeva” que ecoava através dela e da sua voz “meia pagã” no antigo círculo Arturiano cristão.
A recriação proposta por Maria Jonas é singular: a música medieval só sobreviveu em alguns casos excepcionais, explica a artista, “sendo difícil determinar o modo como os textos eram musicados, o papel da improvisação e a articulação destes elementos no espetáculo musical”. A interpretação e a audição da música medieval, acrescenta, “têm sempre qualquer coisa de um ‘aqui e agora’”, diz ainda Maria Jonas, que caracteriza o estilo do seu trabalho como “música medieval livre”. Por isso, nos seus concertos, a improvisação reveste-se por vezes de um tom quase jazzístico, outras dos jograis ou ainda dos liederromânticos.
O concerto de sábado passado foi exemplar, desse ponto de vista: não se limitou ao que poderá ser a interpretação básica da música medieval, seguindo um arquétipo consagrado, antes nos levou a novos territórios. Diga-se que isso tinha tudo a ver com a história que aqui se pode resumir, a partir do programa: Cundrîe, bruxa feia, quase monstro, repreendeu Parzival, dizendo-lhe que ele não era digno da Távola redonda ou do Graal. O programa do concerto, centrado no Parzival, de Wolfram von Eschenbach (século XII-XIII) traduzia as profundas mudanças sociais e culturais da época, entre as quais a nova percepção do conceito de amor cristão (a caritas) e a revalorização do papel das mulheres. Cundrîe (que na origem francesa significa “a enfeitada”) surge como a intermediária entre o Ocidente cristão e o Oriente muçulmano, que as Cruzadas tinham mostrado que não se devia menosprezar. E a sua sabedoria, a sua humanidade, a sua empatia e o respeito pelas outras pessoas – a sua vivência da caritas– levam-na a ser reconhecida, apesar da sua fealdade física. 
No concerto, deve destacar-se também o extraordinário contributo dos restantes músicos: o iraquiano Bassem Hawar, no djoze, espécie de violino com uma caixa minúscula; a alemã Elisabeth Seitz, no saltério; o italiano Fabio Accurso, no alaúde e flauta, além de autor das peças instrumentais; e também o português Tiago Mota na recitação. Diga-se que qualquer um deles já tocou com outros grandes nomes da música: entre outros, estão nessa lista Ton Koopman, Ricercar Consort, Poème Harmonique ou L’Arpeggiata (que, na véspera, estiveram no mesmo local a dar outro concerto, e do qual foi co-fundadora Elisabeth Seitz, talvez a mais conhecida executante alemã do saltério). 
“Entre a humanidade e Deus, estou exactamente a meio, na fronteira”, dizia Cundrîe, a dado passo. Este concerto também nos deixou nesse lugar. 




Azulejos no Palácio de Sintra

[O festival continua já na próxima sexta e sábado com dose dupla dos Odhecaton, dirigidos por Paolo da Col. Sexta, dia 20, sobre o tema Flos Florum – Simbologia do número e devoção Mariana na polifonia franco-flamenga (programa aqui); sábado, dia 21, com o título Os humores de Orlando di Lasso (programa aqui). 
Dias 27 e 28 será a vez da Accademia del Piacere, com os programas Redescobrindo Espanha – Fantasias, diferencias e glosas na música espanhola dos séculos XVI e XVII (sexta, 27e Hispalis Splendens – Músicas da Sevilha do Século de Ouro (sábado, 28). 
Os concertos realizam-se sempre às 21h30, na Sala dos Cisnes do Palácio da Vila, em Sintra; bilhetes à venda nos locais habituais. Mais informação: www.parquesdesintra.ptinfo@parquesdesintra.pt ou tel. 219 237 300.]

segunda-feira, 16 de julho de 2018

Nascida como um oásis na cidade


Agenda

Foto ao lado : Igreja de Nossa Senhora da Conceição, dos Olivais Sul, em Lisboa (reproduzida daqui)

Nasceu como um oásis. Isto é, “um conjunto de instalações, dificilmente definível como edifício, vivendo por si próprio e por si próprio possibilitando uma maneira de viver”. Era assim que o arquitecto Pedro Vieira de Almeida definia, em 1970, a nova igreja e complexo paroquial dos Olivais Sul, em Lisboa, onde a invenção pretendia ser “um sistema e não uma forma”. Trinta anos depois da dedicação da igreja (em 1988), aquele espaço será objecto de um debate nesta terça-feira, dia 17 de Julho, às 21h30, com a participação do arquitecto Gonçalo Byrne.
O mote para a conversa será Passado, Presente, Futuro: Oportunidades. Fruto de um concurso de arquitectura lançado em 1969 e construído na década de 1980, o complexo (apenas parcialmente concluído) implanta-se sobre uma pequena encosta no moderno bairro de Olivais Sul (Lisboa). O volume caracteriza-se pela sua horizontalidade, apresentando-se mais como uma estrutura ao serviço da comunidade do que como referência arquitectónica dominante no território, numa interpretação muito concreta dos princípios de integração de uma igreja na cidade, no pós-Concílio Vaticano II (1962-65).
Concluída pelo Secretariado das Novas Igrejas do Patriarcado, a igreja celebra este ano os 30 anos da sua dedicação, pretexto para esta iniciativa, organizada pelo Centro de Estudos de História Religiosa da Universidade Católica Portuguesa e a Paróquia de Olivais Sul.
Também no próximo sábado, 21 de Julho, às 21h30, será apresentado o documentário A espessura da luz, de João Valério, Sofia Almeida e Tiago Santos, sobre o projecto e construção da igreja de Olivais Sul. Em ambos os casos, as iniciativas decorrem na igreja dos Olivais Sul, com entrada gratuita. O filme de apresentação do documentário pode ser visto a seguir. 




quinta-feira, 28 de junho de 2018

Resto do Mundo, 72 – Europa, 53. E estes números dizem muito sobre o Papa



A cúpula da Igreja Católica fica hoje recomposta, 
com a nomeação de 14 novos cardeais, entre os quais o bispo de Leiria-Fátima, António Marto
 (na foto, a cúpula da Basílica de São Pedro, terça à noite) 

Regresso por uns dias às páginas do Público. A propósito do consistório que esta tarde decorre em Roma, com a nomeação de 14 novos cardeais – entre os quais o português António Marto, bispo de Leiria-Fátima –, procuro analisar o que as escolhas significam, tendo em conta a personalidade do Papa.

As estatísticas podem ser importantes na hora de olhar para a recomposição do colégio de cardeais feita pelo Papa. Uma análise aos números e a alguns nomes que traduzem as opções de Francisco.

Neste caso, alguns números traduzem factos importantes: a partir desta quinta-feira, passará a haver 72 cardeais do resto do mundo, na composição do colégio que, num eventual conclave, decidirá a eleição de um futuro Papa. O grupo de cardeais da Igreja Católica está cada vez mais universal e a Europa já “só” tem 53 (dos quais 22 italianos, o país com maior peso).
Os cardeais eleitores de um novo Papa passarão a ser 125 (pelo menos até Janeiro do próximo ano, se ninguém morrer até lá, pois nessa altura um deles completa os 80 anos, deixando de ser eleitor num conclave). A constituição que regula a matéria estabelece um máximo de 120, mas desde João Paulo II que esse tecto é sempre ultrapassado, na hora de nomear novos cardeais.
(o texto pode ser lido aqui na íntegra)

Em relação à nomeação de António Marto como cardeal e do padre José Tolentino Mendonça como novo responsável da Biblioteca e Arquivo do Vaticano, escrevi um comentário onde pretendo reflectir a dimensão estritamente pessoal do Papa que ambas as nomeações traduzem:

Duas escolhas pessoais. “Apenas” isso
De repente, o Papa Francisco e o Vaticano dão importância ao catolicismo português? Depois da nomeação do bispo de Leiria-Fátima para cardeal – a formalizar no consistório desta quinta-feira à tarde –, e da escolha do padre José Tolentino Mendonça para dirigir a Biblioteca e o Arquivo do Vaticano, parece que Portugal está na moda também na Santa Sé.
Desengane-se quem olhe para estas escolhas com uma perspectiva mais ou menos nacional-católica: em ambos os casos, elas são “apenas” escolhas pessoais do Papa. A coincidência temporal é só isso.

E poucos minutos antes de se iniciar o consistório, registo as declarações do novo cardeal aos jornalistas, aqui, falando sobre a tragédia humanitária que se pode abater sobre os refugiados. Declarações que vêm aliás, na continuidade da entrevista que concedeu ao Público.

quinta-feira, 14 de junho de 2018

“O crucifixo numa mão e a enxada na outra”


Foi bispo do Porto num “momento de transição” em Portugal e na Igreja Católica: António Barroso, nascido em Barcelos em 1854, foi bispo do Porto entre 1899 e 1918; antes disso, tinha sido missionário em Angola, Moçambique e Meliapor (Índia). Em 1889, dez anos antes da sua nomeação para bispo do Porto, fez uma conferência na Sociedade de Geografia de Lisboa, partindo da sua experiência na missão de São Salvador do Congo, na qual criticou diversos comportamentos de colonos portugueses em África e defendeu a presença de mulheres (religiosas) nas missões católicas.
A conferência, onde também advogou que o missionário deveria ter o crucifixo numa mão e a enxada na outra, valeu-lhe acusações várias de diversos sectores, quer católicos, quer políticos.
Perseguido depois pela I República, por causa da sua oposição às normas da Lei de Separação, Barroso foi bispo num tempo de passagem de um mundo rural para a primeira industrialização, como recorda Paulo Fontes, director do Centro de Estudos de História Religiosa (CEHR), da Universidade Católica. A nação perdera o Brasil e tentava redefinir-se com o seu império africano, o país procurava olhar para o futuro, apareciam novos sectores urbanos e novos protagonismos e sociabilidades.
No próximo dia 31 de Agosto, completa-se um século sobre a data da morte de António Barroso, aos 63 anos. Na iminência da sua beatificação, cujo processo já foi iniciado, a Universidade Católica Portuguesa levou a efeito um colóquio científico sobre a sua personalidade. Aqui pode ouvir-se uma entrevista (12 minutos) de Manuel Vilas Boas ao director do CEHR, a propósito desse colóquio, sobre a personalidade de António Barroso.

(foto acima reproduzida daqui)

sexta-feira, 8 de junho de 2018

“A Religião dos Portugueses”, um livro marcante e uma mudança de respiração na teologia em Portugal


Está disponível no Youtube um vídeo com o registo da sessão de apresentação do livro A Religião dos Portugueses, de frei Bento Domingues, que decorreu no passado dia 29 de Maio, em Lisboa. Neste domingo, dia 10, entre as 17h e as 18h, frei Bento estará no stand da Leya na Feira do Livro de Lisboa, para autografar livros a quem o desejar. 
Na intervenção com que apresentou o livro, o padre José Tolentino Mendonça afirmou que a edição desta obra “é a realização de um sonho”. Este é um livro “absolutamente marcante na produção teológica em Portugal”, escrito por “um grande artesão da teologia”, que “mostra uma juventude e um saber fazer verdadeiramente incontornável”. 
Com este livro, “pela primeira vez, a teologia feita em português e em Portugal arriscava pensar-se contextualmente”, acrescentou o autor de Elogio da Sede. “E essa contextualização do seu discurso dá à sua palavra uma força em Portugal que a palavra teológica ainda não tinha conseguido.”
Estabelecendo relação com a obra O Labirinto da Saudade, de Eduardo Lourenço, Tolentino Mendonça afirmou que A Religião dos Portugueses é também “uma reflexão sobre o país, não a partir da dimensão traumática, das nossas patologias históricas e desta sintomatologia frustrada da nossa alma – nunca fomos aquilo que quisemos ser”, mas fazendo “uma leitura que, em diálogo com esta, é verdadeiramente outra coisa, pela leitura positiva, acolhedora, daquilo que é a demanda religiosa dos portugueses”. São dois livros, acrescentou, “absolutamente decisivos para entender Portugal, naquilo que eles têm de próximo e que têm de distante”. 
Referindo-se ainda ao autor, disse o poeta e biblista: “Temos uma grande dívida para com frei Bento Domingues, no sentido da inquietação e da incitação que ele nos faz ao pensamento.” Frei Bento Domingues, disse ainda, “é um grande autor”, cuja “capacidade de penetrar, poder de referenciação” e “magistério” exercido “na cultura portuguesa – no campo religioso e fora dele” mostram “como, através do pensamento e através da palavra, frei Bento é capaz de mostrar que aquilo que define os portugueses é o coração”. Por todas essas razões, frei Bento é hoje “um dos pilares da sociedade portuguesa”.
Ficam a seguir alguns excertos da intervenção de Tolentino Mendonça, que pode ser vista entre os 5’00 e os 30’20”:


(A Religião dos Portugueses é) Um livro absolutamente marcante na produção teológica em Portugal, no século XX , que marcará aquilo que de melhor se vier a produzir neste domínio, porque corresponde a um momento de viragem. 

A teologia – e devemos ao frei Bento a explicação do que é a teologia na pluralidade dos seus métodos, na diversidade dos caminhos que ela pode percorre, nas ferramentas de que ela se socorre – é a capacidade de poder pensar o fenómeno religioso, e poder pensar num percurso amplo, livre, coerente, mas arriscado, a uma série de metodologias; não é só a filosofia que é parceira do fazer da teologia, mas a teologia enriquece-se muito com o encontro com as outras ciências; e nesta obra temos uma capacidade madura e uma grande perícia e o recurso a instrumentos diversos para pensar a religião.

quarta-feira, 6 de junho de 2018

Rui Osório (27 Outº 1940–31 Maio 2018), padre e jornalista

In Memoriam

Padre e jornalista, jornalista e padre, sempre e em todos os momentos assumindo essa dupla missão e vocação, Rui Osório morreu quinta-feira passada, dia 31 de Maio, no Porto, na sequência de problemas cardíacos. Passa hoje o sétimo dia sobre o acontecimento. 
Colocado perante a questão de saber se se sentia mais padre ou mais jornalista, Rui Osório respondia assim: “É uma falsa questão. Foi sempre tudo muito pacífico. Vivi sempre em paz com as duas realidades. E tenho a certeza de que fosse ou não padre faria uma carreira de jornalista idêntica à que fiz.” (nesta entrevista de vidapode ler-se sobre esse entendimento que tinha da sua dupla filiação, bem como sobre o modo como se aproximou do jornalismo profissional e como entendia questões actuais do catolicismo, como o papel das mulheres na Igreja; ao lado, capa da revista Público Magazine, de 20/12/1992, com Rui Osório a celebrar a eucaristia e a trabalhar na redacção do JN). “Homem da Igreja e do jornalismo”, um “combatente da liberdade”, foi como o Presidente da República a ele se referiu. 
Próximo de muitos, advogado dos mais novos, querido por tantos, cheio de bonomia e serenidade, Rui Osório, como escreveu anteontem Manuel Pinto, “nunca deixou de ser padre entre os jornalistas e foi também sempre um jornalista nos meios eclesiais e na sociedade.” (o texto pode ser lido aqui)
Cedo o pequeno Rui pôs a hipótese de ser padre, coisa que ninguém na família imaginava. Nesse tempo, muitos rapazes iam para o seminário com a ideia de estudar, mas Rui Osório queria mais do que isso, como ele contava nesta entrevista ao programa Ecclesia, em Julho de 2014, quando completou 50 anos de ordenação como presbítero:


Não é despropositado o uso da palavra “presbítero” em relação a Rui Osório: essa era uma palavra que ele próprio gostava de usar, para marcar a sua adesão ao pensamento conciliar e ao modo de entender o cristianismo ministerial dos primeiros séculos. Mas também havia outro factor: formado em pleno II Concílio do Vaticano, Rui Osório sempre fez das orientações conciliares uma pauta que o guiava na sua acção enquanto padre e enquanto cristão cuja actividade profissional acabou por ser o jornalismo. 
Isso foi notório também quando assumiu, desde o início de Janeiro de 1970, a chefia de redacção do novo jornal Voz Portucalense (VP), criado após o regresso do exilado bispo António Ferreira Gomes à diocese do Porto, em 1969, como se recorda na edição deste dia 6 de Junho da Voz Portucalense
No jornal, fez vincar essa orientação conciliar, através de uma moderna linguagem jornalística e gráfica. Na TSF, Manuel Vilas Boas recordou essa etapa na crónica de obituário, afirmando que a VP se afirmou, nessa fase, como um dos mais notáveis semanários católicos dos anos setenta” e que Rui Osório foi “um dos homens mais carismáticos da comunicação social portuguesa”.