quarta-feira, 11 de Novembro de 2009

Músicas que falam com Deus - Istambul, de Jordi Savall

Istambul (ou Constantinopla) foi, durante séculos, lugar de encruzilhadas geográficas, culturais, religiosas e políticas. Tal como outras cidades – Tessalónica ou Jerusalém, por exemplo –, atraiu a si pessoas idas de diferentes latitudes, culturas ou credos.

Um dos notáveis que viveram na cidade foi Dimitrie Cantemir (1673-1723), príncipe da Moldávia, que chegou a Istambul em 1693, com 20 anos. Ali viveu cerca de duas décadas, primeiro como penhor da fidelidade do seu pai ao sultão, depois como representante diplomático do pai e do irmão enquanto governadores da Moldávia.

Interessado por história, pelo estudo das religiões e da filosofia, artes e música, ficou conhecido como intérprete de tanbur, uma espécie de alaúde, no qual seria exímio: “Nenhum constantinopolitano podia tocar melhor que ele”, escrevia o cronista Ion Neculce, citado por Jordi Savall no livro que acompanha o disco. Cantemir reuniu na antologia “Livro da Ciência da Música” 355 composições (nove das quais compostas por ele próprio) naquela que é a mais importante colecção de música instrumental otomana dos séculos XVI e XVII conhecida.

No disco, Jordi Savall coloca em diálogo a música do “Livro da Ciência da Música”, da corte otomana do século XVII, com a música tradicional sefardita (dos judeus oriundos de Espanha e Portugal) e arménia, populações acolhidas no império da Sublime Porta e representadas nos músicos da corte. O disco recria esse ambiente reunindo músicos da Turquia, Arménia, Israel, Marrocos e Grécia, além dos do Hespèrion XXI. Como nota Savall, sabemos muito pouco do Império Otomano. Por isso este disco é também uma revelação do gosto pela música numa nação com reputação de bárbara no Ocidente.

(Istanbul, de Dimitrie Cantemir, interpretado por Hespèrion XXI com direcção de Jordi Savall; Alia Vox, 2009; info: vgm@plurimega.com)

[in Além-Mar]

Sobre o futuro da Igreja Católica

De John L. Allen Jr., correspondente em Roma da revista National Catholic Reporter, acaba de ser publicado The Future Church: How Ten Trends Are Revolutionizing the Catholic Church (Doubleday, 2009).
Não tendo ainda tido acesso ao livro, deixo aqui a indicação de uma recensão ("A new Catholic horizon") e do blog criado pelo autor para comentar e acompanhar o percurso da obra agora lançada.
Foi igualmente disponibilizado um extracto do qual transcrevo:
"Um catolicismo horizontal autêntico não poderá existir por um fiat hierárquico. Terá que vir ao de cima a partir da base, como expressão de uma vontade das pessoas de que algo seja feito. Esperar que o Vaticano ou os bispos actuem ou acusá-los de agir de maneira errada, não vai alterar muito as coisas. Não passa de clericalismo acreditar que tudo na igreja depende do clero, ou que nada de útil pode ser feito enquanto Roma não virar uma nova página. Uma tal posição interpreta mal tanto a teoria como a prática de como a mudança opera na igreja".

segunda-feira, 9 de Novembro de 2009

"Esqueçamos a hora de Inverno"

Não será chegado o tempo de nos emanciparmos do constrangimento imposto pelo Estado de todos vivermos à mesma hora? A pergunta é de Eduardo Jorge Madureira, parafraseando Elie Arié. A ler.

sexta-feira, 6 de Novembro de 2009

"O toque do presente"

"O toque do presente": com este título, escrevia ontem no jornal digital Página 1 o teológo e poeta José Tolentino Mendonça:

Como dizia Oscar Wilde, “o mais difícil de ver é o óbvio”. Sem dúvida, de todos os tempos interiores de que dispomos, o mais difícil de habitar é o tempo presente. O passado é um tempo até certo ponto confortável, pois está intacto mesmo quando o revemos nos seus ângulos dolorosos. O futuro também transmite essa impressão difusa de protecção. Mas o presente, o desafio do presente, o desafio do agora, da palavra, do sentimento, do gosto que é o meu presente, esse pede-nos quase sempre uma longuíssima viagem.
Há um texto de Cecília Meireles, intitulado “Canção Excêntrica” a que volto muito:

“Ando à procura de espaço
para o desenho da vida.
Em números me embaraço
e perco sempre a medida.
Se penso encontrar saída,
em vez de abrir um compasso,
protejo-me num abraço
e gero uma despedida.
Se volto sobre o meu passo,
é já distância perdida.
Meu coração, coisa de aço,
começa a achar um cansaço
esta procura de espaço
para o desenho da vida.
Já por exausta e descrida
não me animo a um breve traço:
- saudosa do que não faço,
- do que faço, arrependida.”

É verdadeiramente uma canção excêntrica mas que, numa hora ou noutra, acabamos por trautear. Ela centra-nos na experiência do tempo, no seu extenso drama, aquilo que a sabedoria grega transmite com o mito de “Kronos”, o deus implacável que come os seus próprios filhos! Muitas vezes (demasiadas vezes) a vida é essa experiência de desgaste, de devoração, experiência inexorável de declive e perda. Aí não há espaço para o presente. Se o tempo é deglutição infi nita, só nos apercebemos dele quando passou. Compreendemos o que as coisas são quando elas já não são. Esta é a terrível mas sapiente imagem que o mito nos lega. Há, porém, outra palavra – uma palavra em que os textos cristãos das origens insistiram muito: “Kairos”, isto é, o tempo entrevisto como qualidade, oportunidade, lugar da revelação e da surpresa.
A nossa vida está entre estas duas categorias: o Kronos, esse tempo que nos cavalga, e o Kairos, esse tempo que nos reaproxima da vida como território da revelação criativa de nós próprios.

quinta-feira, 5 de Novembro de 2009

Crucificado

1. De novo se inicia uma onda de debates que parece querer retomar mais um episódio da novela global das mesquinhos tentativas de destruição da memória cristã do ocidente. Evocando retorcidas razões, cujo fundamento, à custa de tão encoberto, parece evidente, pretende-se de novo, agora a um nível dito europeu, eliminar símbolos religiosos (cristãos) de espaços públicos, de que sobressai, evidentemente, a imagem do crucifixo, que parece ser aquela que provoca mais incómodos – e como poderia não ser assim?
Da minha parte, não quero aqui debater razões de peso de ordem histórico-sociológica. Prefiro concentrar-me numa dimensão mais teológica, com resultados culturais que me parecem de monta e que, normalmente, não são abertamente discutidos – estratégia que faz parte do tal encobrimento dos fundamentos. De qualquer modo e a respeito da questão sócio-cultural, não resisto a deixar ao leitor duas citações de dois actuais (ainda) «mestres da suspeita», que sobre o tema me parecem insuspeitos, pois nem são crentes nem de «direita».
Num texto de Jürgen Habermas, sociólogo neo-marxista de Frankfurt, podemos ler: “Não acredito que nós, europeus, pudéssemos compreender seriamente conceitos como moralidade, pessoa, individualidade, liberdade e emancipação sem absorvermos a substância do pensamento histórico-salvífico de origem judaico cristã… Sem a mediação socializante… das grandes religiões mundiais, este potencial semântico poderá um dia tornar-se inacessível” (Nachmetaphysisches Denken).
Num outro texto, do conhecido sociólogo francês Alain Touraine, podemos também ler: “O ensino das religiões, das suas crenças como da sua história, não é certamente um atentado à laicidade; pelo contrário, é o silêncio imposto sobre as realidades religiosas que é um atentado inaceitável ao espírito de objectividade e de verdade de que a escola laica se reclama” (Pourrons-nous vivre ensemble?). Quem tiver ouvidos para ouvir… e inteligência sócio-histórica para compreender, que medite sobre o que eles, herdeiros da secularização, já conseguem dizer.

2. Mas a questão em debate pode assumir, ainda, outra vertente – ou outra face da mesma moeda. Afinal, o que pode significar o crucifixo?
Não se trata, para que sejamos claros, de um símbolo de marca religiosa, como os actuais símbolos de markting, de clube, ou mesmo de partido político. Se assim fosse, na actual proliferação dos «clubes» religiosos, seria legítimo não privilegiar o markting de nenhum – mesmo que a maioria esmagadora de cristãos, na sociedade portuguesa o pudesse, de algum modo, legitimar.
Mas o crucifixo, enquanto memória simbólica e imagética do Crucificado e de tudo o que Ele significa para o ser humano, pretende-se um símbolo universal. Por isso, interpela e dirige-se a todos, não apenas aos cristãos.
Nele denuncia-se, antes de mais, toda a violência vitimadora de inocentes, sejam eles quem forem: independentemente da raça, sexo, nação, religião, estado de vida, perfeição, idade, etc. Nele revela-se, para além disso, que Deus – neste caso, o Deus em que acreditam os cristãos – é solidário com essas vítimas de injustiça e que não se encontra do lado dos poderosos vitimadores. Nele anuncia-se, portanto, que, se assim é, essa vitimação e todo o sofrimento daí resultante não terão a última palavra sobre o destino do ser humano, mas que se realizará a promessa da vitória da justiça sobre a injustiça. Nele manifesta-se, para nós, que o caminho dessa vitória é, precisamente, o da solidariedade, sofredora, com todas as vítimas que, à nossa volta, nos interpelam com o seu grito – e não o trajecto vitorioso do herói que, exaltado culturalmente, rasga o caminho da vitória à custa da vitimação dos outros (a propósito, não resisto a aconselhar o leitor a que aprofunde o assunto, lendo sobretudo os textos de Johann Baptist Metz, sobre o sofrimento humano, e os textos de René Girard, sobre a violência e a vitimação – é pena que esses pensadores fundamentais não sejam inseridos no debate...).
Será que, numa cultura que se torna progressivamente apática ou insensível ao sofrimento das vítimas inocentes, o crucifixo se tornou incómodo e indesejado? Será que, numa sociedade que pretende esconder a dura realidade da injustiça e de outros modos de sofrimento, através de neutralização mediática e consumista, o crucifixo continua a ser – como sempre o foi – sinal de contradição e de denúncia da auto-satisfação em que nos pretendemos?
Se assim é e se, por essa razão, eliminarem o crucifixo da nossa paisagem e da nossa memória, cabe aos cristãos assumir profeticamente a mediação da voz silenciosa do Crucificado, anunciando corajosamente que o ser humano não se deixar neutralizar assim tão facilmente.

João Duque
Director Adjunto da Faculdade de Teologia – Núcleo de Braga
[texto publicado no site da diocese de Braga]

domingo, 1 de Novembro de 2009

Podem roubar-nos tudo, menos a esperança

Aos 81 anos, Pedro Casaldáliga, bispo emérito de São Félix de Araguaia (Brasil), deu uma entrevista à revista Pueblos, aqui transcrita na íntegra, onde fala da pobreza, da teologia da libertação, do papel da política na transformação da realidade, do consumismo e ambiente. Numa das perguntas, os entrevistadores recordam um encontro de Casaldáliga com Fidel, há 20 anos, em que o líder cubano dizia que a teologia da libertação fez mais pela transformação da realidade latino-americana que milhões de livros sobre marxismo.

O bispo recorda a propósito: "Una de las críticas que se le hace a la Teología de la Liberación por parte de los conservadores es que se trata de una teología muy materialista, que se preocupa mucho de intereses materiales, de necesidades físicas y olvida el espíritu, la oración. Ante eso, yo reivindicaría tres o cuatro trazos que serían indispensables en la Iglesia de Cristo: el primero, la opción por los pobres; el segundo, conjugar fe y vida; el tercero, la Biblia en manos del pueblo; cuarto, la solidaridad auténticamente fraterna."

Vale a pena ler esta voz, que continua profética.

Tempo glorioso para a Bíblia

Na crónica deste domingo no Público, frei Bento Domingues regressa ao tema da Bíblia para se referir também a uma presença portuguesa na Escola Bíblica e Arqueológica de Jerusalém: a de frei Francolino Gonçalves. Excertos do texto:

1.Nos confrontos, que vi e li, com José Saramago, por causa das suas declarações sobre Deus, as religiões e a Bíblia, a insistência recaía sempre no mesmo: “Saramago pronuncia-se, de forma rotunda, acerca do que ignora”. Ele, pelo contrário, declarava que conhecia suficientemente a Bíblia e os malefícios das religiões para poder dizer o que disse.

Longe de mim pensar que estes confrontos, nos meios de comunicação – atingem multidões –, sejam totalmente inúteis, embora não possam vencer a sua inerente superficialidade. Nestes casos, cada um reforça as suas posições. Quem não gosta de Saramago fica confortado: ele pensa que sabe tudo e não sabe. Quem gosta dos seus livros, das suas opções políticas e culturais lamenta o tom dos seus pronunciamentos, mas não perde a fé no escritor. (...)

2. De qualquer modo, este foi um tempo glorioso para a Bíblia, em Portugal. Veremos se terá ou não consequências duradoiras.

(...) O famoso dominicano Marie-Joseph Lagrange (1855-1938) fundou, em 1890, no meio de suspeitas e proibições, a Escola Bíblica e Arqueológica Francesa de Jerusalém. É o mais antigo centro de pesquisa bíblica e arqueológica da Terra Santa, estabelecido nos espaços do convento dominicano de St-Étienne, convento fundado, em 1882, sob o nome de Escola Prática de Estudos Bíblicos, sublinhando a sua especificidade metodológica. Coroando anos e anos de investigação e de publicações científicas, surgiu a famosa Bíblia de Jerusalém (1956). Na altura, os exegetas insistiram na sua grande diferença: além da tradução dos originais do hebraico, aramaico e grego, apontava a contextualização histórica, dentro do ambiente físico e cultural, relativo à época em que cada livro foi escrito. Era uma obra que reflectia "a união do monumento e do documento", na linha de Lagrange, ligando "a arqueologia, a crítica histórica e a exegese dos textos". (...)

3. O catolicismo português viveu bastante alheio não só à revolução que tinha acontecido na investigação da Bíblia e dos seus mundos, como ao próprio movimento bíblico das Igrejas. Já não estamos, propriamente, nessa situação. Sem pretender fazer a história da viragem, temos de realçar o grande trabalho que os Padres Capuchinhos começaram a desenvolver a partir de 1951. (...) Na Internet é fácil medir o volume desse esforço. (...)

Este ano, muitos portugueses foram surpreendidos com a nomeação do dominicano, Francolino Gonçalves, para a Comissão Bíblica Pontifícia. Não admira. Está há 40 anos, investigando e ensinando, na já referida Escola Bíblica e Arqueológica Francesa de Jerusalém. (...) É urgente que um conjunto de estudos de Francolino Gonçalves, absolutamente fundamentais, dispersos por revistas portuguesas de escassa tiragem, seja publicado numa edição que destaque a sua importância para a cultura nacional.

Seria injusto não haver Deus

Anselmo Borges escreveu neste sábado no DN sobre a morte e o mistério de Deus. Um excerto do texto que pode ser lido na íntegra aqui:

Para onde vão os mortos? Para o Silêncio. O mistério da morte é esse: dizemos que partiram, mas o que abala é não deixarem endereço. Na morte, a evidência é o cadáver. Mas quem se contenta com o cadáver? Por isso, a morte é o impensável que obriga a pensar e, enquanto formos mortais, havemos de perguntar por Deus.

Deus não é "objecto" de ciência, mas uma esperança, sobretudo quando se pensa nas vítimas inocentes. Como escreveu o agnóstico M. Horkheimer, um dos fundadores da Escola Crítica de Frankfurt, "se tivesse de descrever a razão por que Kant se manteve na fé em Deus, não saberia encontrar melhor referência do que aquele passo de Victor Hugo: uma anciã caminha pela rua. Ela cuidou dos filhos e colheu ingratidão; trabalhou e vive na miséria; amou e vive na solidão. E no entanto está longe de qualquer ódio e rancor, e ajuda onde pode... Alguém vê-a caminhar e diz: Ça doit avoir un lendemain!... Porque não foram capazes de pensar que a injustiça que atravessa a História seja definitiva, Voltaire e Kant postularam Deus - não para eles mesmos".

sexta-feira, 30 de Outubro de 2009

Emmaüs festeja o seu sexagésimo aniversário

O movimento Emmaüs celebra hoje no Zénith, uma conhecida sala de espectáculos de Paris, o sexagésimo aniversário da criação por abbé Pierre da primeira comunidade em França. As comemorações alargam-se depois a toda a França, como conta o diário La Croix, que recorda que, embora tenha sido frequentemente visto, por sectores da Igreja católica, como um provocador, o abbé Pierre é um exemplo aos olhos dos responsáveis católicos.

quinta-feira, 29 de Outubro de 2009

Onde está Deus?

Saramago pode ter posto alguma gente a comprar um livro que tem um título várias vezes menor do que o nome do seu autor. Mas também suscitou o debate em torno de Deus.
Se Deus fosse pura ilusão ou mero vestígio em vias de esquecimento, improvável seria que tantas ondas se levantassem, contra e a favor. Saramago é astuto e, se as suas boutades forem mais do que marketing, como, apesar de tudo, julgo que sejam, não seria improvável que, no fundo, tudo o que diz fosse, também, mais do que a enunciação de uma certeza (essa, afinal, velhíssima e conhecida), a emergência de uma pergunta existencial.
Agora o que parece difícil, entre nós, é fazer um debate sobre Deus e as mediações que o tornam (ou não) presente no mundo e na vida que vão além dos parâmetros que eram referência nos séculos XVIII e XIX.
Algum jornalismo saliva e delira com uns sound bites que se metam com Deus e a religião, mas é preguiçoso a fazer trabalho de casa e a interrogar quem os profere, como faz noutras áreas da vida pública. Pelos vistos o problema não se manifesta apenas por cá, como sublinha a última edição do Observatório da Imprensa, do Brasil, a propósito de um texto há dias publicado no Estado de São Paulo.