terça-feira, 24 de Novembro de 2009

A arte precisa de espiritualidade, o espiritual precisa da arte



Sábado passado, o Papa encontrou-se com 260 artistas de todo o mundo (predominância para os italianos). De Portugal, foi convidado o poeta José Tolentino Mendonça. O encontro decorre na Capela Sistina, coma envolvênca dos frescos de Miguel Ângelo. No sítio da Pastoral da Cultura pode agora ser lida uma tradução oficiosa do discurso de Bento XVI.

Uma proposta para este fim de tarde

Hoje, a partir das 18h30, a Fundação Mário Soares (Rua São Bento, em Lisboa), será o local de apresentação do livro "Dança dos Demónios - Intolerância em Portugal". Esta obra, coordenada pelo historiador José Eduardo Franco e por mim, inclui dez textos de grande qualidade sobre a oposição violenta a determinados grupos (seja essa violência física, dutrinal ou psicológica).

A lista de temas, pela ordem dos nomes que aparecem no convite ao lado, é a seguinte: Antifeminismo, Antiliberalismo, Anti-semitismo, Anti-islamismo, Antiprotestantismo, Antijesuitismo, Antclericalismo, Anticomunismo, Antimaçonismo e Antiamericanismo.

Para que se possa ter uma ideia do conteúdo do livro, fica aqui um texto adaptado da introdução do mesmo:

"O inferno são os outros"? Organizado em dez temas, este livro pretende mostrar que há movimentos e atitudes culturais que constroem uma história de que não se fala e permanecem como atavismos que só a consciência democrática e culturalmente fundada poderá vencer.

Os temas aqui reunidos falam de mitos de complô, estruturam-se na suspeita e na diabolização, no medo e na fobia, conduzem ora ao desejo de exclusão, ora à tentativa de absorção e apagamento da cultura do outro, ou ainda ao desenvolvimento de mecanismos sociais e culturais de limitação de direitos e liberdades.

Há uma forma mentis maniqueísta e intolerante, comum a todos estes fenómenos, que vê o Outro como inimigo a abater, como uma negação extrema do Nós. Seja qual for o grupo de que se fala – judeus ou muçulmanos, feministas, jesuítas, liberais ou maçons – ele é sempre tomado como secreto. Por vezes, as vítimas de uma determinada época histórica passam a carrascos no momento seguinte. E vice-versa. Outras vezes, o inimigo muda de rosto ou vários inimigos passam a alvo do mesmo preconceito.

Em todos os casos, esta demonização do outro ignora que a humanidade se construiu e continuará a construir precisamente na base de intersecções sucessivas. Contando com a colaboração de dez investigadores reconhecidos, cada texto perscruta a génese e evolução do fenómeno em causa, apresenta a sua doutrina ou traços ideológicos e estuda a sua recepção cultural, literária ou mental.

Este projecto constitui, assim, um contributo para a análise e compreensão histórica, cultural e ideológica das imagens construídas, em forma de abominação, em torno das diferentes mundividências, modos de estar, pensar e agir que se afirmaram em Portugal.

domingo, 22 de Novembro de 2009

"Festa de Cristo Rei" - porquê e que sentido?


Comentário de Jean-Luc Ragonneau, redactor de Croire Aujourd'hui.

sábado, 21 de Novembro de 2009

Qual choque de civilizações?

Não são as religiões a causa principal dos males da humanidade. É nos seus intérpretes que encontramos, absolutismos, lutas de poder, bipolarização entre bem e mal, "verdades" e "pecados", dominantes e dominados.

Foi num contexto parecido que o Profeta Muhammad [Maomé] se cruzou e conversou com os cristãos excluídos que escolheram outros caminhos de amor e fé, fugindo de alguma ortodoxia cristã. Com eles organizou tertúlias, procurou a fé, a razão, a saída da ignorância. Os ensinamentos de Jesus transmitidos por estes cristãos arabizados moldaram o pensamento e a espiritualidade árabe e muçulmana de formas profundas e desconhecidas.

Mawlana Rumi (séc XIII), por exemplo, um poeta sufi mundialmente conhecido, escreveu vários poemas sobre Jesus. Dizem que numa igreja cristã em Shiraz, no Irão, um verso de Rumi cravado em pedra, sobre a porta de entrada, diz o seguinte:

Onde Jesus vive, as pessoas de grande coração congregam.
Somos uma porta que nunca se tranca
Se sofres de qualquer tipo de dor,
Fica perto desta porta. Abre-a.

(Faranaz Keshavjee, em Crónicas de Uma Muçulmana
- excerto de um texto que pode ser lido na íntegra aqui.)

sexta-feira, 20 de Novembro de 2009

Peça de Gil Vicente e conferências sobre Deus

O Teatro Nacional São João (TNSJ - Porto) apresenta, a partir de hoje, a peça de Gil Vicente “Breve Sumário da História de Deus”. No Porto, pode ser vista até 20 de Dezembro, de terça a sábado às 21h30 e ao domingo às 16h. De 8 a 31 de Janeiro de 2010, estará no Teatro Nacional D. Maria II (Lisboa).

Em paralelo com o espectáculo, acontece o ciclo de conferências “O que resta de Deus”. A primeira é no dia 26 de Novembro, às 18h30, no Salão Nobre do TNSJ, com José Tolentino Mendonça e Armando Silva Carvalho. Moderação de Jacinto Lucas Pires.

TNSJ

O que resta de Deus

Manual de Leitura de "Breve Sumário da História de Deus"

quinta-feira, 19 de Novembro de 2009

Interrogar a beleza

Interroga a beleza da terra, interroga a beleza do mar, interroga a beleza do ar amplo e difuso;
interroga a beleza do céu, interroga a ordem das estrelas;
interroga o sol, que com o seu esplendor ilumina o dia;
interroga a lua, que com sua claridade modera as trevas da noite;
interroga as feras que se movem na água, que caminham sobre a terra, que voam no ar: almas que se escondem, corpos que se mostram; visível que se deixa guiar, invisível que guia. Interroga-os!
Todos te responderão: Vê-nos: somos belos! Sua própria beleza se dá a conhecer. Esta beleza imutável, quem a criou, senão a Beleza imutável?”

Santo Agostinho, Sermão CCXLI, 2: PL 38, 1134, texto evocado ontem, em Roma, por Bento XVI, numa catequese sobre a beleza das catedrais românicas e góticas.

quarta-feira, 18 de Novembro de 2009

Isto é uma igreja?

Há uma nova igreja cuja construção foi iniciada na zona do Restelo (Lisboa). Feia, a avaliar pela maquete, que se pode ver aqui. Com uma linguagem arquitectónica fora de tempo, no que a este tipo de construção diz respeito. Mesmo admitindo que, depois da discreção a que os templos católicos se remeteram na década de 60, as igrejas devem ter uma arquitectura que as diferencie do tecido urbano, esta é uma linguagem de imposição e não de diálogo, como diz o arquitecto Diogo Lino Pimentel na mesma notícia. Também a conjugação dos diversos corpos não funciona: um minarete de mesquita, um barco cortado a meio, um edifício de serviços a surgir do corte... Não vale tudo, mesmo quando um projecto é oferecido. Não há por aí outro arquitecto que ofereça outro projecto?

Já agora: usar o argumento de que a Igreja de São Vicente de Fora está fechada e precisa de obras (como se dizia aqui, citando o Fórum Cidadania Lisboa, pelo qual tenho grande respeito), é despropositado... As igrejas que precisam de obras devem ser recuperadas. Mas uma coisa tem que impedir outra, ainda por cima em locais diferentes da cidade? O projecto e a linguagem são outra discussão - e é essa que vale a pena.


segunda-feira, 16 de Novembro de 2009

Papa condena especulação no preço dos alimentos na abertura da cimeira da FAO

O Papa Bento XVI esteve esta manhã na cimeira da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura), manifestando-se vigorosamente contra a "especulação" na produção de alimentos. Quando o pão quotidiano ainda é uma miragem para tantos milhões de pessoas, o Papa alertou para o risco de que a fome se torne "como algo estrutural, parte integrante da realidade sócio-política dos países mais débeis, objecto de resignada amargura, senão de indiferença".
A intervenção do Papa está resumida aqui e aqui. O texto integral do discurso de Bento XVI pode ser lido aqui (em espanhol; a alternativa é o italiano, também no sítio do Vaticano).

[Foto: © Maria Duarte Marujo]

Os «Vencidos do Catolicismo» - Militância e atitudes críticas (1958-1974)

Os «Vencidos do Catolicismo» - Militância e atitudes críticas (1958-1974) é o título de um livro de Jorge Revez que o Centro de Estudos de História Religiosa da Universidade Católica Portuguesa acaba de editar. Aborda "uma linha de pensamento e acção que conduziu um conjunto de pessoas à desilusão e não poucas vezes à ruptura com a própria Igreja".
O ponto de partida - que, de resto, contém o título do livro - é um poema de Ruy Belo que começa assim:

Nós os vencidos do catolicismo
que não sabemos já donde a luz mana
haurimos o perdido misticismo
nos acordes dos carmina burana


"Partindo deste poema e do seu contexto - escreve o autor - procurámos compreender as atitudes críticas de um conjunto de católicos, face à instituição eclesial, desde a década de 50, quando o projecto de recristianização da sociedade portuguesa conheceu um período de abrandamento que culminaria com a campanha para a Presidência da República do General Humberto Delgado, em 1958, até ao 25 de Abril de 1974, data da Revolução dos Cravos, que poria fim ao Estado Novo, iniciando um processo de transição no qual os católicos participam activamente".
Um excerto da introdução pode ser lido no site do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura.

domingo, 15 de Novembro de 2009

Bento Domingues: "A laicidade não é inocente"

"Crucifixos e laicidade" é o título da coluna dominical de Bento Domingues, no Público. reflecte o alcance da recente decisão do Tribunal Europeu dos Direitos Humanos relativa à queixa contra a presença de um crucifixo numa escola, concluindo que a escola pública não tem religião nem pode usar símbolos religiosos. Eis o texto:

1.Segundo os meios de comunicação, perante a queixa de uma mãe, Soile Lautsi, que, em 2002, exigiu a retirada dos crucifixos na escola pública de Vittorino da Feltre (Pádua), onde os seus filhos estudavam, o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos, em Estrasburgo, acaba de lhe dar razão - a escola pública não tem religião nem pode usar símbolos religiosos - e condena o Estado italiano a pagar-lhe uma multa de cinco mil euros por danos morais.

Esta decisão é considerada, por uns, como lamentável, por outros, como uma decisão histórica na afirmação da laicidade do ensino público e na defesa da liberdade individual em matéria religiosa na Europa. Na Itália, a sua rejeição parece bastante generalizada, o Governo italiano vai recorrer da decisão e o Vaticano está de acordo.

Em Portugal, em 2005, este tema prometia um balão de polémicas. Pela voz de D. Carlos Azevedo, então porta-voz da CEP, foi esvaziado com declarações muito descontraídas, cheias de bom senso, que não davam para alimentar a ira dos laicistas. Da parte do Governo também não houve nenhuma vontade de precipitação e, em várias instâncias, foi-se abrindo caminho para soluções que respeitem a laicidade, a liberdade de crer e não crer e a presença das religiões na escola pública, para aqueles que não as consideram fonte de alucinação.

2.Continuaremos, no entanto, confrontados com vários aspectos das problemáticas em torno desta questão, pois, nem o mundo nem a Europa esgotaram as suas surpresas nos séculos XIX e XX. Felizmente, dispomos, entre nós, de algumas referências que podem ajudar a não ser simplistas com soluções abstractas que não tenham em conta a complexidade do devir histórico das sociedades e mentalidades. Destaco uma obra incontornável, de perspectiva histórica, de Fernando Catroga, com prefácio de Anselmo Borges (1), e um texto indispensável de Eduardo Lourenço, elaborado nas fronteiras da história cultural, da filosofia e da teologia, lembrando que a laicidade não é inocente se não comporta distância em relação à tentação de se fechar sobre si como "discurso de verdade" (2).

A laicidade pode ser vista, antes de mais, como um processo histórico desencadeado como efeito da secularização, isto é, da perda de influência social da religião e da sua capacidade configuradora da história, manifestada na autonomia da ciência, da política, da filosofia, da economia e da própria moral. A partir do Vaticano lI, redescobriu-se oficialmente que a própria autocompreensão do cristianismo exige a autonomia das realidades temporais. Por outro lado, a essência da laicidade não está na separação entre o Estado e a Igreja ou a religião e a política e nem se limita, sequer, à questão religiosa. Como observa o historiador Émile Poulat, o que está em jogo na laicidade é, antes de mais, uma concepção do ser humano e o papel da consciência individual. O facto da separação da esfera civil e política da esfera religiosa e eclesiástica só atinge o seu verdadeiro sentido quando essa separação é posta ao serviço da primazia da consciência e da defesa da liberdade humana.

3.Não basta, por isso, considerar a laicidade como um valor e um património histórico, cultural e político comum à Europa e à cultura ocidental, ignorando a sua raiz e origem profundamente religiosas e, concretamente, cristãs. Foi nesse contexto que nasceu e se desenvolveu. É difícil compreender a sua génesis e sentido fora da matriz que o cristianismo lhe proporcionou.

É certo que os processos de laicidade e sua implantação se desenvolveram em confrontações abertas com a religião e com a Igreja, rompendo com a sua abusiva tutela. Apesar dessa beligerância, não se pode esquecer que as noções de pessoa e humanismo, de autonomia e liberdade e direitos humanos ou da própria noção de separação do poder político e religioso só se tornam compreensíveis a partir da tradição cristã e judaico-cristã. Para Marcel Gauchet, como para vários outros analistas, a concepção laica da realidade do mundo, da natureza e do vínculo social constituiu-se, essencialmente, no interior do campo religioso, alimentou-se da sua substância e encontrou, aí, o meio para desabrochar como expressão das suas virtualidades fundamentais.

O quadro dualista, em que se tem movido a confrontação entre Igreja e Estado, religião e política, tornou-se insuficiente para entender as novas formas de expressão religiosa, a visibilidade pública da fé e as manifestações públicas do religioso no mundo actual. Como nota o já citado Émile Poulat, "a Igreja e a religião perderam o estatuto público de que gozavam no espaço público e, com ele, deixaram de ser um poder, mas encontraram um lugar legítimo na sociedade civil - essa grande família de corpos intermédios entre o Estado e os cidadãos - a partir do qual podem continuar a ser uma autoridade. Serão referências, tanto mais autorizadas e desejadas, quanto mais afastarem qualquer tentação de dominação política, social, cultural, económica ou religiosa".

O seu reino não é o das querelas de imagens, mas o seguimento do Crucificado no serviço dos excluídos.

(1) Entre Deuses e Césares, Coimbra, Almedina, 2006.

(2) Religião - Religiões - Laicidade, in Europa e Cultura, Gulbenkian, 1998, pp. 71-78.