terça-feira, 17 de outubro de 2017

Uma compreensão dinâmica da tradição da Igreja: o caso da pena de morte


O Papa Francisco pronunciou em 11 de setembro último um discurso curto mas de grande alcance, pelo seu significado. Foi a propósito dos 25 anos do Catecismo da Igreja Católica. O texto pode ser lido em Português aqui: http://bit.ly/2zhaYHg. Entretanto, já esta semana, o historiador italiano Massimo Faggioli, professor da Villanova University, nos Estados Unidos, publicou um artigo de comentário a esse discurso no sítio de La Croix International, que publicamos a seguir, recorrendo à tradução feita por Moisés Sbardelotto no site noticioso do Instituto Humanitas da Unisinos, Brasil. Eis o texto:

"O legado teológico de Joseph Ratzinger pode ser significativo, mas, provavelmente, não do modo como os seus fãs neotradicionalistas podem pensar.
Um importante estudo de caso que sugere isso está ligado ao recente discurso que o Papa Francisco proferiu no 25º aniversário do Catecismo da Igreja Católica. O discurso é significativo no modo como confirma vários componentes teológicos chave desse pontificado e do atual momento do catolicismo.

domingo, 8 de outubro de 2017

José Maria Cabral Ferreira sj: comunicar com todo o afecto


In Memoriam (Porto, 10/02/1933 – Lisboa, 15/09/2017)




As últimas semanas ficaram marcadas pela partida de pessoas que se tinham tornado referências em diversos âmbitos e para diferentes gerações. Depois do bispo do Porto, D. António Franciscoe antes de D. Manuel Martinsprimeiro bispo de Setúbal, e de Jorge Listopadencenador e escritor, morreu, no dia 15 de Setembro, o padre José Maria Cabral Ferreira. Natural do Porto, onde viveu e trabalhou durante as últimas décadas, estava em Lisboa quando morreu, pois para ali tinha sido encaminhado para receber cuidados de saúde.
 Jesuíta há 65 anos, padre há 54 anos, sociólogo de formação e profissão, o padre José Maria era uma pessoa que marcava todos os que com ele se cruzavam. Um deles, companheiro na Ordem e amigo de muitos anos, foi o padre Vasco Pinto de Magalhães, que publicou esta semana, na página dos Jesuítas de Portugal, o testemunho que a seguir se reproduz (o título e subtítulos são aqui acrescentados ao texto).


Vida e morte do P. José Maria Cabral Ferreira sj
(texto do padre Vasco Pinto de Magalhães sj)

Falar do padre Zé Maria, na hora da sua morte?… Sinto um turbilhão de imagens e de conversas que se atropelam no meu espírito. Uma amizade espontânea e construída, sobretudo nestes últimos 30 anos, dezoito deles a viver na mesma comunidade jesuíta do Porto, não se resume facilmente. Uma das suas características era a de fazer e deixar amigos por todo o lado. Como se nada fosse! 
Posso partilhar algumas coisas que fizemos juntos e foram marcantes, recorrendo ao meu “Álbum de memórias”. Abro à sorte, aqui, por exemplo, estamos na Sicília. Percorremo-la, nesse verão, de uma ponta à outra, contemplativamente… Ele sempre se distraiu com as horas! Mas sempre havia onde ficar, pois em todo o lado (e isto também no resto da Itália) encontrava um casal amigo, um arquiteto seu conhecido, um padre de paróquia aonde, antes, teria vindo ajudar na Páscoa, etc. Agora, aqui, esta foto é no Centro Pedro Arrupe (Istituto di formazione politica), que ele tanto queria visitar em Palermo: conversando sobre os grandes desafios impostos pela Máfia e as questões sociais graves da região. Mas, no dia seguinte, sem horas marcadas, em Agrigento, no Vale dos Templos, mergulhámos num grande silêncio só interrompido quando, de repente, ele começava a recitar algum texto dos clássicos ou uma poesia que parecia responder a alguma observação minha sobre a paz ou a estética do lugar, mas ele ia muito mais além.
Torno a abrir o Álbum e, agora, estamos em Exercícios Espirituais, nada mais, nada menos do que no grande Mosteiro cisterciense de Santa Maria la Real de Oseira. Oito dias, bem inacianos, dando pontos de meditação um ao outro, e participando nas horas canónicas cantadas no coro dos monges. Largos passeios silenciosos; uma paragem debaixo de um grande castanheiro e lá vinha a sua reflexão a partir das saborosas bolachas que os monges fabricavam e nos ofereciam e dali nos levava o pensamento até S. Bento e à construção da Europa (em Ora et Labora), e daí saltava para o seu Douro vinhateiro ou para as pequenas aldeias de Trás-os-Montes onde tinha trabalhado e deixado grande parte da sua alma social. 

Aulas que marcaram gerações

O padre Zé Maria não era um sociólogo de cátedra. As suas aulas, quer na Faculdade de Arquitetura quer no Instituto de Serviço Social do Porto, marcaram fortemente várias gerações. Mas onde se sentia mesmo bem era no trabalho de campo, ou melhor, comunicando com as “gentes” de todo o tipo e com todo o afecto. O tempo e cuidado que dedicava à JARC, aos grupos que vinham das suas terras reunir com ele ao Porto, a alegria com que participava nas celebrações da Comunidade da Serra do Pilar e a admiração pelos seus amigos “padres operários”, a presença no Banco Alimentar do Porto, a importância que dava aos encontros e às pessoas ligadas ao Metanoia, à CNIS (Confederação Nacional das Instituições de Solidariedade) de que foi um dos fundadores e, como ele próprio dizia, a sua “quase-obsessão” pelo “Bairro Português de Malaca” onde trabalhou, viveu e escreveu, mostram bem a sua inquietação pela justiça e pelos “esquecidos”, juntamente com seu sentido crítico e ao mesmo tempo apaixonado, fazem o seu retrato. 

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Jorge Listopad (1921-2017): aproximar o mundo visível do invisível

In Memoriam

Texto de Júlio Martín da Fonseca

(foto: Listopad em viagem; direitos reservados)

No passado dia 1 de Outubro faleceu, com a idade de 95 anos, o escritor, professor e encenador Jorge Listopad. De origem checa, este “português nascido em Praga” foi uma referência na cultura e particularmente no teatro, ao longo dos últimos cinquenta anos.
Nas suas criações manifestava-se naturalmente o desejo de aproximar o mundo visível do invisível, de criar relações, fossem elas claras ou misteriosas, entre o mundo da natureza e o mundo da graça. Fazia-o através de um exercício vivencial e artístico de querer reler e religar um universo ferido e fragmentado, como parece acontecer com todos aqueles que procuram através do teatro e da vida, decifrar a linguagem de Deus, incarnada até nas coisas mais pequenas e aparentemente insignificantes, onde se mistura o trivial e o sublime.
Em 1983 encenou O Anúncio Feito a Maria, de Paul Claudel, no Teatro Nacional D. Maria II, com a participação, entre outros, de Manuela de Freitas, Eunice Muñoz e João Perry, tendo a colaboração do grupo de Teatro da Universidade Técnica, de Lisboa. O espectáculo teve como cenário natural o vizinho Palácio da Independência e esteve em cena durante o mês de Julho com sessões esgotadas.
   Entre outros trabalhos de Jorge Listopad onde se pôde sentir igualmente, com particular intensidade, esta profunda sensibilidade, podemos destacar o encontro com as obras de Calderón de la Barca, José Régio, António Patrício e Václav Havel. Em 1988, Segismundo na Torre de Belém segundo A Vida é Sonho de Calderón de la Barca, com o TUT – Teatro da Universidade Técnica, na Torre de Belém; em 1990, Cenas da Vida de Benilde segundo Benilde ou a Virgem Mãe, de José Régio, e Judas, de António Patrício, com o Grupo Teatro Hoje – Teatro da Graça; em 2000, O Príncipe Constante, de Calderón da la Barca, com a Companhia de Teatro de Almada, que esteve presente no Festival de Teatro de Cáceres e no Festival de Teatro Clássico de Almagro; e, em 2003, Audiência/Vernissage/Havel, de Václav Havel, no Teatro Nacional D. Maria II, com a presença do autor na estreia.
O velório de Jorge Listopad será na Capela Mortuária do Mosteiro dos Jerónimos, hoje, dia 4 de Outubro, das 18h às 22h30.
No dia 5 de Outubro, às 14h, haverá missa na Igreja dos Jerónimos, saindo o cortejo fúnebre, às 14h45, para o Cemitério dos Prazeres.
No dia 6 de Outubro, dia de São Venceslau, padroeiro do Estado checo, a Embaixada da República Checa em Portugal recorda o aniversário do nascimento do primeiro presidente checo Václav Havel e homenageia o seu amigo, o poeta Jorge Listopad, numa cerimónia a realizar às 17h30 no Espaço Václav Havel, no Jardim do Príncipe Real, em Lisboa.



(Um outro perfil de Jorge Listopad pode também ser lido aqui)


quinta-feira, 28 de setembro de 2017

A propósito de uma “correcção”

Texto de João Duque
professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa (Braga)


João Paulo II "repreendendo" o padre Ernesto Cardenal, na Nicarágua, em 1983; 
invertem-se agora as posições e é o Papa quem é repreendido? (foto reproduzida daqui)

Superou-se a ideia quase fixa de que quem defende o papa é “conservador” e quem o critica é “progressista”.

Foi tornada pública, nos dias passados, uma autodenominada “correcção” à “Amoris Laetitia” do Papa Francisco, assinada por um grupo de teólogos. Trata-se de um texto complexo, que não permite um comentário breve, muito menos em contexto jornalístico. Da minha parte, apenas extrairei desse texto – independentemente do contexto e mesmo das personalidades que o assinam, pois não me cabe fazer juízos – alguns elementos que me parecem merecer reflexão e que, nesse sentido, não deixam de ser “positivos”.
Já agora, antes de entrar nesses elementos, devo manifestar estranheza pelo próprio título: chamar pomposamente à apresentação de um posição diferente – mesmo contrária – à do Sumo Pontífice uma “correção” pressupõe que quem corrige é detentor de uma verdade absoluta e final. É claro que é isso que pretende precisamente esse texto; mas também é claro que aí reside um dos seus maiores problemas. Não quero, contudo, fixar-me nessa questão, pois levaria demasiado longe – e provocaria, certamente, muitas correcções...
(o texto pode continuar a ser lido aqui)




terça-feira, 26 de setembro de 2017

D. Manuel Martins: “Que ninguém passe fome. Ninguém.”

Manuel da Silva Martins (1927-2017) - In memoriam


D. Manuel Martins (foto de Luís Vasconcelos/Global Imagens, reproduzida daqui)

Próximo de todos, brincalhão, o antigo bispo de Setúbal morreu ontem em casa de família. Manuel Martins insistia na ideia de que o apoio a quem mais precisa é uma consequência da fé cristã. O que lhe valeu críticas do poder político e de responsáveis... da Igreja.

Foi em meados da década de 1980. Como dezenas de outras empresas da região, uma metalomecânica de Setúbal, a fábrica dos Clérigos, estava para fechar. As máquinas iam ser retiradas para pagar aos credores e os trabalhadores ficariam de vez sem emprego. O bispo de Setúbal, D. Manuel Martins, soube da situação e pediu a Eugénio Fonseca, presidente da Cáritas diocesana, para o acompanhar numa visita às instalações.
Naquele caso concreto, que o próprio recordou numa entrevista ao Expresso em 2014, os trabalhadores tinham tomado conta da fábrica e a empresa até estava a recuperar clientes e encomendas. Mas os credores queriam dinheiro rápido. D. Manuel esteve reunido com vários deles, pedindo que adiassem a cobrança de dívidas e a falência. Sem resultado. Quando saiu, D. Manuel e Eugénio Fonseca ainda ouviram os gritos de mulheres agarradas às máquinas, que não queriam deixar ir embora.
O bispo só disse “o capital não tem coração”, antes de se remeter ao silêncio no resto da viagem de regresso. Quando reentrou em casa, as lágrimas vieram finalmente aos olhos e ele só conseguiu dizer a Eugénio Fonseca: “Trata de ir ter com cada família daquela fábrica, de modo a que ninguém passe fome. Ninguém.”
O agora presidente da Cáritas Portuguesa era uma das pessoas que estavam com o seu antigo bispo quando este morreu, ontem, domingo, às 14h05, na Maia, na casa de familiares onde se encontrava. Um padre tinha sido chamado para lhe administrar o sacramento da unção dos doentes. Depois disso, Eugénio Fonseca abraçou o bispo e ele morreu em paz. 

“Há fome em Setúbal”

Manuel da Silva Martins tinha 90 anos e uma vida preenchida, mesmo se foi a sua acção enquanto primeiro bispo da diocese de Setúbal, entre 1975 e 1998, que o tornou mais conhecido. Nomeado num tempo de ebulição política, teve de pensar bem na decisão. “A minha missão é anunciar o evangelho da libertação, da justiça e da paz”, disse à chegada. Começou por optar por viver numa casa modesta, em vez da casa episcopal. Logo depois, apanhou anos de uma profunda crise económica e social. Essa situação, que levou a uma realidade de desemprego, fome e aumento de suicídio, fez com que o bispo sentisse que não podia ficar calado, perante os casos de pessoas que lhe batiam à porta, desesperadas, a pedir pão, comida ou dinheiro para pagar bens essenciais.

sábado, 16 de setembro de 2017

No tenim por (Não temos medo) - Notas depois do atentado de Barcelona (e de Londres)


Uma agente da polícia a socorrer uma das vítimas do atentado de ontem.
(foto Stefan Rousseau/AP, reproduzida daqui)

O presidente da Conferência Episcopal de Inglaterra e Gales, cardeal Vincent Nichols, manifestou a sua consternação pelo atentado desta sexta-feira, 15 de Setembro, na estação de metro de Parsons Green, na capital inglesa. O arcebispo de Westminster disse que a reacção dos cidadãos na ajuda aos feridos mostrou “o bom que há na humanidade, perante alguns poucos que querem dividir a nossa sociedade”. E acrescentou que “todos devemos estar alerta, mantendo a calma”.
Sabemos que a resposta das lideranças políticas tem oscilado entre o aumento da segurança e as operações militares, entre a retórica oca de que não serão dadas tréguas ao terrorismo e a venda de armas e o apoio político a governantes que mantêm uma forte relação com grupos terroristas. E que essas respostas têm sido inconsequentes – e, pelo contrário, têm continuado os atentados, tem aumentado a sensação de insegurança e tem-se degradado a situação de vários países atingidos por guerras e conflitos internos (Síria, Paquistão, Iraque...)
Qual deve ser, então, a resposta dos cidadãos? O que se passou em Barcelona, em Agosto, mereceu também uma resposta de afirmação unívoca de socorro às vítimas (entre as quais duas portuguesas, avó e neta) e de afirmação de que a vida tem de continuar, sem medo.
Essa é a perspectiva deste texto, que a seguir se publica, escrito por monsenhor Manuel Nin i Güell, exarca dos católicos gregos de rito bizantino, monge de Montserrat. 
A tradução é de Lucy Wainewright.

No tenim por – Não temos medo

Quando éramos crianças e íamos em família a Barcelona para tratar de diversos assuntos, quase sempre viajávamos de comboio e aquela visita à capital  acabava sempre, antes de apanhar o comboio de volta, com uma meia hora de passeio ao longo das Ramblas, onde víamos uma infinidade de tendas com animais mais ou menos exóticos e com plantas, especialmente catos de grande beleza. Era uma vitória conseguir arrancar da generosidade de pais ou avós a decisão de comprar algum animal – um pássaro ou um peixe – ou alguns catos, quanto mais cheio de espinhos melhor, para levar para casa.
Nunca imaginei que aquele lugar de descontração, de tranquilidade, de vida famíliar, pudesse, alguma vez, tornar-se lugar de terror e morte. Qualquer atentado, qualquer forma de terrorismo gera em nós – não digo suscita, mas gera, porque é algo que surge, que vem de dentro – gera, digo, repugnância, tristeza e medo. E estas duas últimas reações podem constituir a verdadeira vitória do terrorismo e dos terroristas: a tristeza e, acima de tudo, o medo. O medo de que possam voltar de novo, que nos possa acontecer um dia a nós, em qualquer lugar e nos lugares mais variados, até mesmo nos locais de lazer e tranquilidade.

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Fátima, 100 anos, de Maio a Outubro (5) – A oscilação política e as guerras de Fátima à volta da paz

Depois de Maio, podemos voltar a parte do muito que se publicou sobre Fátima e que ajudará a sistematizar informação e elementos para vários debates sobre o fenómeno, que importa agora aprofundar.
Hoje, dia da peregrinação aniversária de Setembro, trago aqui dois textos sobre a relação de Fátima com a política, ambos publicados no Expresso: um, publicado a 6 de Maio na Revista E, sobre a oscilação da relação com a política, ao longo do primeiro século de Fátima. Outro, publicado dia 12 de Maio no Expresso Diário, sobre a questão específica da guerra e da paz.
Este é o quinto trabalho da série, que terminará a 13 de Outubro. Os textos já publicados podem ser lidos nestas ligações:


A oscilação política de Fátima – ou o poder da fé
(Foto à direita, em baixo: António Pedro Ferreira, reproduzida daqui)

Neste século, Fátima foi terreno de conflito entre o catolicismo tradicional e a República, afirmação do desejo de paz contra a participação de Portugal na guerra, “escola” do nacionalismo católico durante o Estado Novo e da mensagem anticomunista, lugar de divulgação de mensagens contra a guerra colonial, centro do catolicismo português depois da instauração da democracia.

Cem anos e muitas polémicas depois, o momento presente de Fátima não revela nenhum “motivo de atrito” nem de “utilizações abusivas entre o Estado e a Igreja”, ao contrário do que aconteceu durante este primeiro século de Fátima. A conclusão, expressa pelo historiador José Miguel Sardica na “Enciclopédia de Fátima”, traduz a realidade de ter sido o regime democrático a estabilizar a relação do Estado com a Igreja, no que também a Fátima diz respeito.
Ao longo destes 100 anos, a história do fenómeno faz-se também a partir do que foi a sua relação com o Estado e a política. E pode concluir-se pela oscilação, pois Fátima foi sendo várias Fátimas: o relato ingénuo dos primeiros três anos, acerca das visões das três crianças (e sobretudo de Lúcia) em 1917, coincidindo com a primeira adesão popular e as críticas severas dos republicanos; o reconhecimento do fenómeno como “autêntico” por parte da diocese de Leiria; as novas narrativas que Lúcia acrescenta, a partir da década de 1930 e até 1945; a relação de respeito e aproveitamento mútuo entre Fátima e o Estado Novo; a oposição surda das populações à guerra colonial e as ambiguidades de um santuário que falava de paz mas se silenciava perante um regime que coartava a liberdade e conduzia a guerra (ver texto “As guerras à volta da paz”); o esvaziamento do discurso anticomunista após a queda do Muro de Berlim...
(O texto pode continuar a ser lido aqui)



As guerras de Fátima à volta da paz

Panfletos contra a guerra colonial distribuídos em Fátima, uma carta entregue discretamente a um ex-secretário do Papa João XXIII, padres angolanos a pensar “ocupar” a nunciatura do Vaticano em Lisboa durante a visita de Paulo VI a Fátima... A questão da guerra e da paz esteve muito presente em Fátima desde o início, quando as crianças disseram que a visão lhes anunciara o fim da Grande Guerra.

A única vez que Joana Lopes foi a Fátima foi em 1967, na altura da visita do Papa Paulo VI. O objectivo era ela e José Manuel Galvão Teles, membros da então Junta Central da Acção Católica (um organismo coordenador desses movimentos de leigos católicos) entregarem ao antigo secretário do Papa João XXIII, Loris Capovilla, uma carta dirigida a Paulo VI. Nela se descrevia a situação política em Portugal, marcada pela guerra colonial e pela falta de liberdade.
“O objectivo foi conseguido”, recorda agora. Pouco tempo depois, conforme combinado em Fátima, o cartão recebido do Vaticano a dizer “Missão cumprida”, assinalava isso mesmo. Mas já alguns dias antes da visita do Papa, como recorda no livro Entre as Brumas da Memória (ed. Âmbar), Joana Lopes tinha ido, com Nuno Teotónio Pereira e o mesmo Galvão Teles, à nunciatura do Vaticano, falar com monsenhor Maximilien de Furstenberg, então representante do Vaticano em Lisboa. “Era ainda uma tentativa de que o Papa não viesse” ou, pelo menos, que tivesse em conta a situação política do país, explica, recordando o gesto.

As palavras e os gestos de D. António Francisco


Velório do corpo de D. António Francisco na sé do Porto 
(foto diocese do Porto, reproduzida daqui)

O padre Lino Maia contava que, no primeiro Natal passado como bispo do Porto, em 2014, D. António Francisco dos Santos convidou uma pessoa sem-abrigo da cidade, para a sua mesa de Natal.
Por causa de atitudes como esta, não soam ocas as palavras de D. António quando prometia uma acção pastoral de proximidade junto das pessoas mais vulneráveis – pobres, desempregados, doentes, idosos – ou também para com comunidades onde o conflito com a Igreja institucional assumiam manifestações duras, como foi o caso de Canelas, mal chegou à diocese do Porto.
De tudo isso o então novo bispo do Porto falava em Julho de 2014, na entrevista que então deu a Manuel Vilas Boas, para a TSF, e que se pode escutar aqui.

No dia em que o país e os católicos se despedem do bispo do Porto (hoje, às 15h, na catedral da cidade), pode ler-se também esta evocação do eurodeputado Paulo Rangel.