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quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Jornalismo e religião - a propósito da manchete do Público

Comentário


     A notícia da nota do patriarca, referida na publicação anterior, foi a manchete do Público de hoje, mas com um título forçado e que desvaloriza o texto rigoroso que está publicado no seu interior. 
     Ou seja: não se pode dizer “Igreja aconselha abstinência sexual aos católicos recasados”, como se lê na manchete do jornal (e onde se percebem mãos diferentes das da autora do texto, Natália Faria). Tão “Igreja” é a nota do patriarca como a carta pastoral do arcebispo de Braga divulgada há duas semanas; cada bispo, conforme o Papa diz na Amoris Laetitia, deve dispor as orientações para a sua diocese; por isso, não há, no documento de Lisboa, qualquer orientação para o conjunto da “Igreja”, como diz o título. A nota de D. Manuel Clemente destina-se apenas aos crentes da sua diocese, enquanto a carta pastoral de Braga também não atinge mais do que os católicos da diocese minhota. Valem o mesmo.
     A ideia de que o patriarca é o “chefe” da Igreja em Portugal, que erradamente persiste no senso comum, tem aqui uma nova manifestação. Não: o patriarca é “apenas” o bispo dos católicos de Lisboa. Neste momento, o actual patriarca é também o presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, que é tão só um organismo de consulta mútua e cooperação entre os diferentes bispos do país. E apenas quando alguma decisão é tomada em conjunto por todos os bispos da CEP é que ela obriga todas as dioceses e todos os bispos.
     Para que melhor se perceba, as decisões da Câmara de Lisboa dizem respeito apenas aos munícipes de Lisboa; e não é pelo facto de Lisboa ser a capital do país ou de, neste momento, o executivo municipal ter a maioria do mesmo partido que está no Governo do país, que as decisões da Câmara de Lisboa passam a ter carácter nacional. A responsabilidade social do jornalismo passa pelo rigor da informação. Mesmo no que à religião diz respeito.

sábado, 25 de novembro de 2017

Os jornalistas e o Papa Francisco




O Papa Francisco em conferência de imprensa, a bordo do avião,
numa das suas viagens (foto reproduzida daqui)

Declaração final
por ocasião do I Congresso Internacional de Jornalistas Pro Papa Francisco, realizado em Madrid na quinta-feira, dia 23

O título do encontro pode ser enganador, pois o que se pretendia não era esquecer o distanciamento que qualquer jornalista deve ter em relação aos acontecimentos; por isso, a declaração final aprovada resume melhor o que se pretendeu com esta iniciativa que, agora, poderá ter continuidade através da criação de redes e contactos vários que procurem colocar na agenda mediática os temas tantas vezes propostos pelo Papa. Aqui fica o texto da declaração:

Um grupo de jornalistas e comunicadores de diferentes lugares do mundo, reunidos por ocasião do I Congresso Internacional de Jornalistas Pro Papa Francisco, interpelados pelo processo de reformas empreendido por Bergoglio e as reacções que suscitou, a partir da nossa vocação pela informação religiosa e de qualidade, declaramos o seguinte:

1. – A religião e a espiritualidade são dimensões essenciais do ser humano. Partilhamos a frustração do Papa Francisco, quando afirma na sua encíclica Laudato Si, “vivemos já muito tempo na degradação moral, baldando-nos à ética, à bondade, à fé, à honestidade; chegou o momento de reconhecer que esta alegre superficialidade de pouco nos serviu.” (LS 229)

2. – “Amar a verdade, viver com profissionalismo e respeitar a dignidade humana” são, como defende o Papa, chaves para o nosso trabalho. Este é o nosso objectivo: evitar a instrumentalização ideológica e política da informação, para que esta seja oferecida à opinião pública de forma rigorosa, frente a fenómenos como as “fake news” (notícias falsas). Este compromisso exige, mais do que nunca, honestidade, transparência, busca da verdade, rigor e imparcialidade.

3. – Inspirados pelo protagonismo que Francisco quer dar às vítimas da cultura dos descarte, e conscientes de que existe um povo que sofrem comprometemo-nos a oferecer voz, através das nossas informações, aos mais empobrecidos, e incluir a busca da igualdade, a justiça, a solidariedade, a liberdade, a paz e o cuidado da nossa casa comum no nosso trabalho jornalístico, a partir da denúncia e da proposta.

4. – Tudo isto requer o esforço de incluir, da nossa parte, o que às vezes não encontramos em muitas informações:

- Reconhecemos que a misericórdia, colocada pelo Papa no centro do seu ministério, é também um elemento essencial na hora de informar sobre a vida da Igreja.

- Na sua recente mensagem para o Dia das Comunicações Sociais, o Papa convida “todos a oferecer aos homens e às mulheres do nosso tempo narrativas relatos permeados pela lógica da ‘boa notícia’”.

5. – Como jornalistas, queremos promover uma cultura do encontro, através da escuta e do diálogo, a partir da nossa independência profissional e pessoal. Por isso, empenhar-nos-emos em aproveitar as sinergias dos nossos meios, em partilhar informação e ajudar a fazê-la circular entre os nosso contactos e as nossas redes, para que frutifique.

Madrid, 23 de Novembro de 2017

domingo, 15 de janeiro de 2017

Sobre o futebol e outros suicídios do jornalismo (ou como jornalistas e católicos são tão parecidos)

Está a decorrer em Lisboa, desde quinta-feira (acaba este Domingo), o 4º Congresso dos Jornalistas Portugueses. Sábado à tarde, apresentei no congresso uma comunicação onde falo sobretudo do jornalismo, mas também da forma como algumas questões ligadas ao tratamento do religioso com ele se cruzam. Fica aqui o texto, para eventuais interessados. (Foto ao lado reproduzida daqui)


Hesitei muito sobre a minha participação no congresso e sobre a possibilidade de fazer ou não esta comunicação – já direi porquê. Desde há anos, foi crescendo o meu desencanto com algumas práticas do jornalismo. A 7 de Julho de 2014, esse desencanto ficou gravado como um espinho na carne: nesse dia, estive à porta do DN, numa manifestação contra os despedimentos que a então Controlinveste se preparava para fazer em vários meios do grupo. Nesse dia, ou na véspera, tinha ouvido na TSF (rádio do grupo, onde também haveria despedimentos) um noticiário que abriu com as declarações de um treinador de futebol sobre as suas expectativas acerca de um jogo que seria disputado dois dias depois.
Dei comigo a pensar que estávamos ali alguns (não muitos, aliás...) a protestar contra mais uma decisão intolerável de uma administração, mas que muito do que está a acontecer com as redacções e o jornalismo é cada vez mais da nossa responsabilidade.
Infelizmente, situações deste género repetem-se com demasiada frequência sobretudo nas televisões e em algumas rádios, dando um espaço desmesurado a coisas que, em si, não são notícia (é notícia ouvir “a minha equipa vai dar o melhor?” ou são notícia cuspidelas em balneários?...); promovemos programas de suposto debate que, exacerbando clubites já de si agudas, não debatem coisa nenhuma e só contribuem para degradar o nível do debate público; somos, enquanto jornalistas, veículo da publicidade dos patrocinadores de campeonatos ou clubes; fazemos entrevistas rápidas em cenários de marcas comerciais; designamos campeonatos com o nome dos patrocinadores... Há anos, o Parlamento quis impor restrições à livre circulação dos jornalistas em S. Bento; durante um mês, omitimos o noticiário parlamentar, em protesto contra essa ideia e os deputados recuaram. Pelos vistos, é mais fácil enfrentarmos o poder político que o poder do futebol...
Em síntese, o jornalismo desportivo audiovisual reflecte a tremenda inversão das prioridades noticiosas. Recordo-me de ouvir um camarada de televisão que esteve na Alemanha a acompanhar o Mundial de Futebol de 2006, contar que nem os jogos nem o próprio torneio eram notícia nos jornais televisivos daquele país; havia, isso sim, programas especiais, bem feitos e criativos, a propósito do futebol, mas ele não ocupava horas infindas de emissão até à náusea, sem nada para dizer.

sábado, 29 de outubro de 2016

Jornalismo e religião (II) – Iliteracia, cidadania e aceleração

Para complementar o texto anterior, que reflectia sobre a relação entre media e religião, traz-se aqui o segundo texto de Manuel Pinto, no sítio da Rádio Renascença, sobre a presença ou ausência da dimensão religiosa no jornalismo, eque começava assim:

Assiste-se a uma crescente iliteracia religiosa e cultural não apenas dos jornalistas, mas da cidadania que o jornalismo deveria servir e alimentar.
(o texto pode ser lido aqui na íntegra)


Poucos dias antes, Luís António Santos escrevia na mesma página sobre a aceleração dos ciclos informativos – uma reflexão que, indirectamente, se relaciona com o tema anterior, e que vale a pena ler também:

A aceleração dos ciclos informativos promove o ‘mais’ mas não promove ‘o melhor’.
Na mesma semana em que o Papa Francisco disse, sem meias palavras, que um jornalismo baseado em rumores ou promotor do medo é uma forma de terrorismo a responsável máxima pela BBC Radio, Helen Boaden, deixou o cargo com uma palestra criticando duramente o lugar social que a actividade ocupa na actualidade.

(os textos a que ambos os artigos fazem referencia têm também ligações no texto anterior, mas podem ser lidos aqui:
entrevista de Gil Tamayo à RR; discurso do Papa ao conselho nacional da Ordem dos Jornalistas de Itália)


sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Jornalismo e religião: estamos bem servidos?

Na semana passada, decorreram em Fátima as jornadas da comunicação social da Igreja Católica, que debateram o relacionamento entre a instituição e os média. A propósito, na sua última crónica na RR, depois de descrever alguns dados da realidade portuguesa, Manuel Pinto escreve: “pareceria haver base bastante para despertar a atenção do jornalismo. E no entanto é razoável perguntar: um cidadão que queira acompanhar de forma minimamente esclarecida e aprofundada a dimensão religiosa em Portugal (e no mundo) encontra-se bem servido?
(o texto pode ser lido aqui na íntegra)

Um dos convidados das jornadas de Fátima foi o padre Gil Tamayo, porta-voz da Conferência Episcopal Espanhola. Em entrevista à RR, Tamayo fala da importância da comunicação para a Igreja e da importância de não olhar os jornalistas como “inimigos da Igreja”.
(a entrevista pode ser lida aqui)

Também na semana passada, o Papa falou sobre o jornalismo. Perante o conselho geral da Ordem dos Jornalistas Italianos, referiu três elementos que devem estar presentes no jornalismo: amar a verdade, viver com profissionalismo e respeitar a dignidade humana.
(O discurso pode ser lido aqui na íntegra, em italiano)

Na TSF, nesta terça-feira, dia 27, Gil Tamayo falou também sobre o actual momento da Igreja em Espanha e do pontificado de Francisco, referindo ainda, sobre a relação entre média e Igreja:

“Continuar a trabalhar para encontrar lugar para Deus e o facto religioso, a dimensão religiosa do homem; a comunicação social, que (retrata todas as realidades humanas) não o faria se deixasse de fora  deixar de fora as grandes questões que estão também no coração do homem e da mulher do nosso tempo, que é o desejo de Deus e de um sentido da sua vida, que é a dimensão religiosa.

Temos também de olhar para a Igreja: às vezes não comunicamos bem; temos de procurar lugar para a comunicação, numa Igreja que tem de se fazer companheira do homem e estar com a linguagem e o sentir das pessoas, e hoje, sem a comunicação social, não se entende a sociedade do nosso tempo.”

A entrevista pode ser escutada aqui a seguir: 
 

domingo, 16 de novembro de 2014

Um Papa que não foge, antes vai ao encontro do difícil

A Igreja e a relação com os media é o título da crónica que o padre Paulo Terroso publicou quinta-feira no suplemento Igreja Viva, do Diário do Minho. No texto, o autor analisa o trajecto do Papa na relação com os jornalistas, com referência à sua própria estratégia comunicativa, e escreve:

Francisco não tem uma agenda demasiado preenchida para receber os jornalistas. Francisco não recusa entrevistas, mesmo quando está em viagem. Francisco não se esconde e se escuda numa muralha de silêncio perante os escândalos. Francisco não foge dos jornalistas, muito pelo contrário, vai ao encontro deles. Francisco responde a todas as perguntas incómodas e difíceis colocadas pelos jornalistas, mas que são legítimas.
(O texto pode ser lido na íntegra aqui.)

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Joaquim Franco premiado em Itália

O jornalista Joaquim Franco, um dos autores deste blogue, recebeu quinta-feira, em Itália, o segundo prémio do concurso de jornalismo Giuseppe de Carli, pela reportagem sobre o Arquivo Secreto do Vaticano, emitida em 2012 pela SIC, estação televisiva onde trabalha (e que pode ser vista no final deste texto).
A decisão foi tomada por um júri que inclui académicos, jornalistas, operadores de comunicação, religiosos e pessoas que trabalharam com Giuseppe De Carli, um especialista em questões religiosas, que foi responsável pela Rai Vaticano e morreu em 2010. Nesta primeira edição do prémio, o segundo lugar de Joaquim Franco foi atribuído ex-aequo, a par do documentário “Escritores por um ano – Fé e literatura”, de Daniela Mazzoli, transmitida pela Rai Educação. O primeiro prémio foi para “Bento XVI – Retrato Inédito”, do italiano Lucio Brunelli, emitido pela TG2 – a divulgação do prémio, aliás, foi feita no período de transição entre a renúncia de Bento XVI e a eleição e início de ministério do Papa Francisco.
Entre os trabalhos destacados de Joaquim Franco – alguns dos quais premiados – estão “João Paulo II, o primeiro Papa global” (SIC e Expresso, 2006), “Ritual da Morte no Islão” (SIC, 2006), “Padres políticos” (SIC, 2008) e “Jesus descodificado” (SIC, 2005). Já este ano, venceu também o Prémio Consciência e Liberdade, atribuído pela Associação Internacional para a Defesa da Liberdade Religiosa.

Em Novembro último, publicou uma entrevista com frei Fernando Ventura, sob o título Somos Pobres Mas Somos Muitos (ed. Verso da Kapa).