quinta-feira, 11 de outubro de 2018

Clara – Uma luz na noite

Teatro musical


Entrevista ao encenador Tiago Sepúlveda e imagens dos ensaios

Clara – Uma luz na noite é o título do teatro musical encenado por Tiago Sepúlveda e apresentado pelo Grupo de Teatro Musical Religioso (GTMR), que será levado à cena nos próximos dias 14 e 21 de Outubro, no Estoril e no Porto. 
O espectáculo apresenta a história de madre Maria Clara do Menino Jesus que, em 1871, fundou a Congregação das Franciscanas Hospitaleiras da Imaculada Conceição (Confhic), dedicando-se a trabalhar com os mais desfavorecidos, numa altura em que largas camadas da população portuguesa viviam em extrema pobreza. 
O regime liberal instaurado na década de 1820 decretara a extinção das ordens religiosas mas, sucessivamente, novas experiências foram surgindo, de forma clandestina ou dissimulada. Até à sua morte em 1899, com 56 anos, madre Clara criou 140 instituições sociais, dedicadas à assistência aos pobres, à saúde, à educação e às cozinhas económicas. Madre Clara foi beatificada em Lisboa, numa cerimónia presidida pelo então patriarca, D. José Policarpo, em Maio de 2011.
O espectáculo será apresentado dia 14, às 16h e 21h, no auditório da Senhora da Boa Nova (Estoril) e, no dia 21 de Outubro, às 17h, no Seminário de Vilar (Porto). Os bilhetes estão à venda em www.bol.pt e nos locais habituais e têm o preço de 12 euros (normal) e 40 euros (familiar); há desconto de 25 por cento para membros de ordens religiosas e escuteiros; mais informações através da Confhic (214 241 840) ou GTMR (962 713 075). 

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

Uma exposição missionária itinerante, porque “parar é retroceder”

Exposição
Texto de António Marujo
Vídeos de Maria Wilton 


Altar budista proveniente do Tibete

Um altar budista do Tibete; uma barquinha em chifres, que veio de Angola; um calendário eterno dos aztecas, do México; cinco crucifixos do Sudão do Sul, Eritreia, Índia, Portugal ou Etiópia; uma cuia (taça para beber) da Amazónia; uma mamã africana, de Moçambique, de onde também vem uma Sagrada Família em fuga para o Egipto, recordando os refugiados; uma placa com um excerto do Alcorão; e um nilavilakkuindiano, espécie de candelabro de mesa que representa Brahma, Vishnu e Shiva.
Estas são algumas das peças que podem ser vistas até sábado, dia 13 de Outubro, Escola Francisco de Holanda, em Guimarães. A partir desse dia, a mostra fica em Cabeceiras de Basto até dia 27, quando vai para Barcelos, continuando depois a circular por outras localidades do país. Trata-se da exposição itinerante Pelos Caminhos do Mundo, organizada pelos institutos missionários católicos ad gentes(algo como “enviados aos povos”). 
“Itinerante porque, como Igreja, temos de ser um povo itinerante”, diz ao RELIGIONLINE o padre Adelino Ascenso, presidente da rede dos IMAG (Institutos Missionários Ad Gentes). “A missão tem de fazer-se caminhando. Não podemos estagnar. Parar é retroceder.”




A ideia da mostra nasceu na última assembleia do IMAG, há dois anos. Depois de uma iniciativa semelhante organizada em Fátima, em 2012, e da publicação da exortação Evangelii Gaudium (“A Alegria do Evangelho”), do Papa Francisco, os 27 institutos missionários do IMAG (oito masculinos e 19 femininos) decidiram organizar uma nova mostra, desta vez com o objectivo de percorrer todo o país que reavivasse a reflexão sobre a evangelização e desafiasse a “uma abertura ao diálogo de culturas e religiões”, como refere o padre Ascenso, no texto de abertura do catálogo da mostra. 
O presidente do IMAG acrescenta outras três coincidências: 2018 marca o centenário do nascimento do bispo missionário D. António Barroso, que esteve em África e foi bispo de São Tomé de Meliapor, antes de ser bispo do Porto; a Conferência Episcopal Portuguesa sugeriu a celebração de um “ano missionário” entre Outubro deste ano e Outubro de 2019, que será o “mês missionário extraordinário” proclamado pelo Papa Francisco. 
Nos cartazes, títulos com substantivos e verbos, uma marca de pés e cores simbolizando cada um dos continentes aludem ao fundamento e tessitura da missão e à “missão em saída”, explica o padre António Leite, um dos responsáveis pela preparação da mostra. Trata-se de “apostar na imagem”, que para isso foi entregue a profissionais – a arquitecta Ana Kudelska e à designer Ana Rocha Catarino –, como forma de falar das propostas e atitudes dos missionários católicos: comunhão, escuta, disponibilidade, confiar, sair... “Comunicar significa partilhar; e a partilha exige a escuta, o acolhimento”, diz uma das frases, citando o Papa Francisco, a propósito da escuta. No final, um jogo pretende colocar os mais novos a percorrer a “aventura de correr os caminhos do mundo e da missão”. 


Mamã africana (Moçambique); taça para beber mate (Argentina); e cruz processional etíope


As peças são provenientes do património ou de pequenos museus de congregações religiosas. E podem ser mais explicitamente de inspiração cristã – como os crucifixos artesanais –, falar de outras matrizes religiosas ou traduzir culturas diversas. “O missionário tem de fazer esforço para se inculturar”, diz o presidente do IMAG. 

“Está aqui para converter?”

O padre Adelino Ascenso sabe bem do que fala. Membro da Sociedade Missionária da Boa Nova, esteve doze anos no Japão (duas vezes, seis anos de cada vez). “Fui procurando escutar e aprender, a finalidade era caminhar com as pessoas, estando com elas.” 
Uma vez, num debate inter-religioso, um monge budista questionou-o: “Como padre católico, está aqui para converter?” Adelino Ascenso respondeu que não. “Disse que, se ele se tornasse melhor budista e eu melhor cristão, isso seria uma forma de cumprir o diálogo. E que, se alguém se quisesse converter, logo veríamos, pois não fazíamos proselitismo.”
O monge ainda insistiu, perguntando ao padre Ascenso o que pensava da religião japonesa. Muitos especialistas escreveram que há uma religião própria do Japão, outros que os japoneses são a-religiosos. “Têm uma religião, mas não a entendem como nós. A palavra para dizer religião foi traduzida no século XIX e é sempre conotada com a religião europeia.”


Kannon, representação feminina do Buda da compaixão (Japão); 
calendário azteca eterno (México); e moinho de orações do budismo tibetano (Tibete)


Adelino Ascenso explica a “tripla insensibilidade” religiosa japonesa: “Não são monoteístas, não têm a noção de um Deus que nos transcende e não têm a noção de pecado como o corte com o Deus transcendente.” Para eles, as divindades caminham e vivem com as pessoas e a morte é um “sono profundo”. São um povo “espiritual, sim”, segundo o conceito ocidental, mas não “espiritualista”, como se revela, por exemplo, nas cerimónias do taoísmo.

Não por acaso, enquanto esteve no Japão, Adelino Ascenso fez a sua tese de doutoramento sobre o escritor Shūsaku Endō, autor de Silêncio, o livro que deu origem ao filme com o mesmo título, do realizador Martin Scorsese. Católico, Endōescreveu também umaVida de Jesus, para falar aos seus conterrâneos da figura de Jesus, com uma linguagem que eles entendessem. (Silêncio – Shūsaku Endō e a Inculturação da Fé no Japão, de Adelino Ascenso, onde se resumem alguns dos aspectos da tese, está publicado pela Letras e Coisas; vários livros de Endō estão disponíveis em português.)

Para evidenciar que é possível o cristianismo inculturar-se na cultura japonesa, o padre Ascenso lembra o caso do samurai Takayama Ukon: senhor feudal e militar, Ukon estaria, à partida, “muito longe do que são os valores cristãos”. Mas, pressionado a apostatar (a mesma história dos cristãos do Silêncio), Takayama Ukon decidiu “não trair o seu senhor” como é suposto um samurai fazer – só que, para este homem, o seu senhor já era Cristo. Foi beatificado em Fevereiro de 2017. 
A peça do samurai japonês, uma das trinta que se pode ver na exposição, seria precisamente a escolhida por Adelino Ascenso: 


Há já outras localidades previstas para o itinerário da mostra: Porto, Paredes, São João da Madeira, Bragança, Aveiro, Lamego e Guarda. Entre Julho a Setembro, a exposição deverá estar em Fátima, passando depois a Lisboa, onde encerrará a sua digressão, coincidindo com o final do Ano Missionário e o Dia Mundial das Missões de 2019. 

terça-feira, 9 de outubro de 2018

Evocação de Paulo VI e Óscar Romero pela sua canonização

Agenda

O Centro de Reflexão Cristã (CRC), de Lisboa, assinala a canonização do Papa Paulo VI e de Óscar Romero (que acontecerá domingo, numa cerimónia presidida pelo Papa, em Roma), com um debate que contará com a presença de Guilherme d’Oliveira Martins, administrador da Fundação Gulbenkian, e Eugénio Fonseca, presidente da Cáritas Portuguesa. A iniciativa decorre esta quarta-feira, dia 10, às 18h30, no Centro Nacional de Cultura (Largo do Picadeiro, 10). A entrada é livre.
Na apresentação do debate, fala-se de duas personalidades muito caras ao CRC que, “ao longo dos seus mais de 30 anos existência, tem trabalhado sobre o seu exemplo”. Em 1980, um número especial da revista do CRC foi dedicada a Óscar Romero, com o título D. Romero não morreu!– alguns exemplares deste número estarão disponíveis no local do encontro.
Nesse número, reproduz-se um texto de Pedro Casaldáliga, bispo (agora emérito) de São Félix de Araguaia, sobre Óscar Romero e a propósito do seu assassinato: “Estamos outra vez em pé de Testemunho, São Romero da América, pastor e mártir nosso! Romero de uma Paz quase impossível, nesta terra em guerra. Romero roxa flor morada da Esperança incólume de todo o Continente.”

(Ilustração acima: capa do número especial da revista do CRC sobre D. Óscar Romero, sobre quem se pode ler aqui uma evocação a partir de livros publicados em Portugal; aqui, um texto sobre algumas das suas propostase aqui uma crónica de Fernando Calado Rodrigues, sobre os que sobem aos altares, com estas duas canonizações)

O voto dos “evangélicos” e o Evangelho propriamente dito

Opinião

Texto de Silas Oliveira

A três dias da primeira volta das eleições presidenciais, a chamada bancada “evangélica” do Congresso brasileiro declarou formalmente o seu apoio ao candidato Jair Bolsonaro, em “defesa dos valores da família cristã”. É fácil dizer agora que “os Evangélicos” e “as Igrejas Evangélicas” são responsáveis por este equívoco, e são representadas por este homem. Mas não é exacto. 
As palavras têm significado, têm sentido – que pode, infelizmente, degradar-se, ser desviado, ser traído. Também as palavras são violadas. Importa, em defesa do rigor e da justiça, avaliar o sentido histórico do qualificativo de Evangélico, e as nuances que foi adquirindo ao longo do tempo. 
Quando os Reformadores da Igreja alemã, no séc. XVI, sentiram a necessidade de dizer o seu novo nome, chamaram-lhe Evangelisch. A Igreja não tem de ser Romana – pode sê-lo, como de muitas outras fontes de origem – mas tem sempre de ser Evangélica. 
Esta intuição original é correcta e mantém-se até hoje entre as Igrejas de língua alemã, no espaço da tradição luterana. Estas Igrejas, nos vários territórios (LandesKirchen) da Alemanha, têm a designação oficial de Evangelische Kirche (Igrejas Evangélicas) e, em alguns deles (não todos) completam o título acrescentando-lhe Lutherische (Luteranas). Mas o qualificativo principal é o primeiro, em que se assumem como seguidoras e testemunhas do Evangelho. 
O termo Evangelical, na língua inglesa, passa a designar uma sensibilidade ou uma tendência no seio do protestantismo, a partir do Reavivamento (Revival) Evangélico, que se desenvolve na Igreja Anglicana e, depois, nas várias Igrejas não-oficiais (Free Churches) – estando, aliás, na origem da Igreja Metodista, no séc. XVIII. 

Petição quer que o Aquarius II use bandeira portuguesa para salvar refugiados

Texto de Maria Wilton


(Vídeo da Human Rights Watch com imagens de uma 
operação de salvamento no Mediterrâneo)

Depois de uma carta aberta assinada por 43 personalidades de vários sectores sociais, surge uma petição com o mesmo objetivo: solicitar ao Governo a atribuição de pavilhão português ao navio de salvamento de migrantes, o Aquarius II.
A proposta, feita inicialmente pelo Bloco de Esquerda (BE), deu origem a uma carta aberta, há dias publicada na íntegra pelo jornal Expresso
José Manuel Pureza, deputado do BE, explica as razões: “O que suscitou a elaboração da carta foi a noção que tivemos de que a operação humanitária do Aquarius II estava em risco por ter havido uma retração de quem lhe atribuíra pavilhão, devido a pressões diplomáticas do Governo italiano.”
O Aquarius II é um navio de salvamento de migrantes que tem estado em atividade no Mediterrâneo, desde fevereiro de 2016 e já salvou cerca de 30 mil pessoas. A embarcação, que começou por estar registada em Gibraltar, viu a bandeira do território ser-lhe retirada em agosto deste ano. Mais recentemente, “por pressão das autoridades e Governo italiano”, perdeu o registo entretanto concedido pelo Panamá, o que poderá impedir o barco de continuar a operar. 
A petição na internet, cujo conteúdo é o mesmo da carta aberta inicial, veio do interesse manifestado posteriormente por várias pessoas, conta ainda o deputado do Bloco: “Aquando da publicação da carta, surgiram muitas pessoas interessadas em participar e de exercer o seu direito de cidadania.
O receio é que, sem registo, o Aquarius II deixe de poder operar, mesmo que os Médicos Sem Fronteiras, que trabalham no navio, queiram continuar a fazê-lo: “Torna-se indispensável que o único barco que salva vidas no Mediterrâneo continue a funcionar. Por isso, mobilizámos este movimento para mostrar ao Governo português que podíamos e devíamos ter uma atitude corajosa e desassombrada.
Da mesma opinião é o bispo emérito das Forças Armadas, D. Januário Torgal Ferreira, um dos 43 subscritores da carta inicial, que defende que o ato de atribuir pavilhão ao navio devia ser a atitude “mais normal e comum”: “As pessoas que estão numa posição de poder deviam pôr em primeiro lugar os direitos dos que não os tem e não aqueles que vêm nisto um golpe político.” 
Ser um golpe político ou “favorecer o tráfico ilegal de pessoas” são algumas das críticas tecidas à carta aberta e petição. A isto, tanto José Manuel Pureza como Januário Torgal Ferreira respondem que o objetivo da iniciativa não é político mas sim humanitário – uma maneira de “salvar vidas”. 
Lisa Matos, psicóloga clínica especializada no trabalho com refugiados, assinou a carta com mais uma preocupação: “Esta proposta pareceu-me fulcral porque deu resposta ao apelo dos operantes do barco. É muito clara a frustração das pessoas que fazem estes salvamentos quando não conseguem ter apoio.”

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Joana Gomes: Trocar o certo pelo incerto

Texto e vídeos de Maria Wilton
Entrevista de António Marujo e Maria Wilton



Numa aldeia do Chade, onde era a única branca, contraiu malária e chegou a dormir com 40º Celsius numa casa sem eletricidade. Sentiu medo quando, durante algumas horas, foi a única mulher num centro de refugiados em revolta, na Sicília. Nada disto a demove de voltar a trabalhar com refugiados, desta vez em Adjumani, no norte do Uganda, para gerir os projetos de educação do Serviço Jesuíta aos Refugiados (JRS, da sigla inglesa).
Joana Gomes, 30 anos, estava na Sicília em 2016, quando se registou uma das grandes vagas de chegada de refugiados à Europa. Uma experiência “muito intensa: vinham todos com depressão, não conseguiam dormir e andavam muito perdidos e desorientados – já que o processo de pedir asilo e estatuto de refugiado era muito novo”, contava ao RELIGIONLINE, antes de partir para o Uganda, no final de setembro. 
Tendo dedicado vários anos a trabalho de voluntariado e missionário, Joana recorda algumas das suas experiências. Na Sicília, esteve no mesmo centro de acolhimento a refugiados em três momentos diferentes. Isso permitiu acompanhar as mudanças dos migrantes: de refugiados perdidos a pessoas mais estáveis e, por fim, cidadãos inseridos na sociedade. 
Entre as histórias que a marcaram, está a de Buba, um jovem natural da Gâmbia. 



Natural de Lisboa, licenciada em serviço social, na Universidade Católica Portuguesa, em Lisboa e com mestrado em Gestão de recursos humanos no ISCTE, Joana sempre olhou para a problemática dos refugiados como algo que a toca especialmente. Por várias vezes na Europa, viu condições de vida muito precárias: “A Europa diz que está preocupada e a acolher mas aquilo não era bem um acolher. Temos de tentar perceber qual a causa de saída dos países (dos refugiados), o que está a acontecer lá e trabalhar na origem.”

sábado, 6 de outubro de 2018

Eleições no Brasil: o voto religioso e a “enorme ameaça” à democracia

Texto de António Marujo



(Milton Nascimento, Missa dos Quilombos - Estamos Chegando
poema disponível aqui)

Neste domingo, 7 de Outubro, mais de 147 milhões de eleitores brasileiros são chamados a votar na primeira volta das eleições presidenciais. Em muitos sectores, cresce a inquietação com a possibilidade de vitória do candidato Jair Bolsonaro, do PSL (Partido Social Liberal), que tem defendido posições misóginas, armamentistas, racistas e anti-ambientais. A sua eleição representa uma ameaça “enorme” à democracia brasileira, escrevia The Guardian quinta-feira, dia 4, e o “risco impensável'” de que ele se torne Presidente do Brasil passou a ser real.
Nestas eleições, há muitos factores em jogo. Os graves casos de corrupção, que nunca desapareceram do país e continuaram durante os governos do Partido dos Trabalhadores, a violência social e as fortes desigualdades sociais (atenuadas durante a presidência de Lula da Silva) são apenas algumas delas. O voto de evangélicos e católicos e a influência das redes sociais na dinamização das pessoas e na propagação de mentiras são, por outro lado, alguns dos elementos determinantes que podem fazer pender a eleição para um lado ou outro. 
O recenseamento de 2010 identificou 86,8 por cento dos brasileiros como cristãos. Destes, 22,2 por cento (cerca de 43,3 milhões de pessoas) são evangélicos. O crescimento dos últimos anos permite, no entanto, prever que, em 2020, possam tornar-se a maioria dos cristãos.
 “O crescimento [dos evangélicos] tem sido atribuído, por vários estudos com as mesmas conclusões analíticas, ao facto de que as igrejas evangélicas estão em locais em que o Estado não chega com suas políticas básicas”, diz ao RELIGIONLINE Jane Maria Vilas Bôas, assessora de imprensa da candidata Marina Silva. 
A mesma responsável acrescenta: “Os pastores (das diferentes comunidades e grupos) têm sido as referências de assistência social em locais muito pobres. Além disso, o corpo eclesiástico das igrejas evangélicas tem sido formado com pastores oriundos da própria população local. Assim, essa expansão demográfica também significa expansão da capacidade de influenciar qualquer processo social da sociedade brasileira, inclusive as eleições presidenciais.”

Marina Silva e o poder das mulheres

Uma das questões para este domingo está, então, em saber se o voto evangélico (e, por extensão, o católico) pode ser um factor decisivo na escolha do eleitorado. Jane Maria contesta o pressuposto da designação: “Os evangélicos no Brasil se distribuem em 36 denominações. Considerando essas diferentes práticas e doutrinas, é um pouco difícil definir ‘voto evangélico’.” 

sexta-feira, 5 de outubro de 2018

“Com o Papa Francisco – Dizer o seu pensamento a várias vozes”

Agenda
Texto de Maria Wilton


Papa Francisco (foto reproduzida daqui)

Na próxima segunda-feira, dia 8, a partir das 18h30, a Capela Nossa Senhora da Bonança (conhecida como Capela do Rato) em Lisboa, será palco de uma sessãde leituras de textos do Papa Francisco, escolhidos por um conjunto de pessoas, entre os quais crentes e não-crentes, algumas das quais personalidades públicas da cultura das artes, da política ou da universidade. 
A sessão “Com o Papa Francisco – Dizer o seu pensamento a várias vozes”, organizada pela escritora e jornalista Leonor Xavier, começará e terminará com duas peças musicais do compositor João Madureira. No início, o actor Luís Miguel Cintra lerá o Cântico da Criaturas, de S. Francisco de Assis. 
Leonor Xavier, que sugeriu a ideia e convidou os intervenientes, diz que o objetivo é fazer “uma colagem de textos” da grande diversidade de assuntos sobre os quais o Papa Francisco já falou e escreveu. O Papa é a “a grande figura do séc. XXI” e, à luz dos últimos acontecimentos, “fazia sentido” esta espécie de homenagem.
Juntar personalidades crentes e não crentes a várias pessoas que participam na comunidade era importante; isso “impede que se forme um circuito fechado de pessoas” e traz as questões que o Papa propõe para o debate da sociedade.
A ideia foi recebida com interesse e entusiasmo não só pelo novo capelão, padre António Martins, como por todos os convidados. A escritora Alice Vieira não é excepção: “É uma iniciativa extremamente importante porque o Papa merece o apoio de todos – e é muito reconfortante ver o apoio que ele tem em não católicos.” 
Também há quem se junte por ver na iniciativa algo diferente e inovador. O cantor Vitorino Salomé afirma que o seu interesse pessoal reside “na tradição de contestação ao status quomantido pela Capela do Rato.

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

De seita messiânica a Igreja Cristã – Os primeiros 100 anos do cristianismo

Agenda



Os Primeiros 100 Anos do Cristianismo. De seita messiânica a Igreja Cristãé o tema do encontro de formação que a Associação Fraternitas promove entre sexta, dia 5 (início às 15h) e domingo, 7 (termina com o almoço). O encontro, que decorre no Seminário Nossa Senhora de Fátima, dos padres Dehonianos (Largo Padre Adriano Pedrali, 1, em Alfragide, Amadora), será orientado pelo pastor Dimas Almeida, da Igreja Presbiteriana de Portugal, que tem estudado esse período inicial da formação da ecclesia
“As origens cristãs revestem-se de apaixonantes dimensões, não pela unanimidade das vozes (que nunca existiu), mas sim pela vivência de uma pluralidade fecunda”, lê-se no texto de apresentação do encontro, que adapta um texto de Henri Tincq publicado em Os Génios do Cristianismo(ed Gradiva). “Como é que a crença no Messias-Jesus, que caracterizou uma obscura seita judaica do século I, se foi transformando, nos seus primeiros cem anos, numa nova religião distinta do judaísmo? Como é que nos começos incertos vividos pelas primeiras comunidades se foi progressivamente tomando consciência da sua especificidade e identidade?”
A perguntas como estas procurará responder o itinerário proposto, que começará por abordar a pluralidade dos escritos sobre Jesus e a questão do cânone do Novo Testamento. Uma segunda etapa tratará dos diversos actores na progressiva autonomização da nova comunidade: a caracterização do judaísmo do início do século I, João Baptista e Jesus de Nazaré, a primeira comunidade de Jerusalém, os helenistas, Paulo de Tarso, João e Maria Madalena. 
“Jerusalém, a cidade santa, alarma-se com o proselitismo dos neocristãos da diáspora na Fenícia, em Chipre, na Síria”, explica ainda o documento de apresentação da iniciativa. “Para Pedro, Tiago e os outros discípulos que seguiram Jesus e mantêm a sua herança, a ideia de romper com o judaísmo é completamente estranha: […] eles continuam a ir diariamente ao Templo para as suas devoções, recitam os salmos de David e as Escrituras (ainda falta muito até que os Evangelhos sejam escritos), celebram anualmente a Páscoa judaica, praticam a circuncisão, rezam em hebreu e, mais frequentemente, na língua local aramaica (ámen, aleluia, hossana, marana-tha).

A realidade humana é o lugar teológico mais importante

Nota de Agenda + Entrevista de António Marujo


Luciano Manicardi no final de 2012, em Lisboa
(foto © António Marujo)

Um livro, uma conferência sobre a mística do quotidiano e um encontro temático de dois dias sobre o seguimento de Jesus. Luciano Manicardi, prior da comunidade monástica de Bose (norte de Itália) e autor de A Caridade dá Que Fazere de vários outros livros, estará a partir desta sexta-feira, 5 de Outubro, em Lisboa, para várias actividades públicas que incluem a apresentação de um novo livro, Comentário à liturgia dominical e festiva – Ano C(ed. Paulinas). 
Sexta, dia 5, às 21h, Manicardi fará uma conferência sobre O quotidiano – lugar de revelação antropológica (entrada livre), no Centro Cultural Franciscano

(Largo da Luz, em Carnide. Sábado e domingo, dias 6 e 7, Manicardi, que junta à investigação bíblica o olhar da antropologia e da psicologia, animará um encontro (sujeito a inscriçõessobre o tema No seguimento de Jesus. Será no Mosteiro das Monjas Dominicanas, do Lumiar (Quinta do Frade, à Praça Rainha D. Filipa), também em Lisboa. 

No livro Comentário à liturgia dominical e festiva – Ano C, Manicardi aborda os textos da liturgia católica do próximo ano litúrgico (que se inicia no final de Novembro). “No Ano C da liturgia dominical, a Igreja propõe o Evangelho segundo Lucas à escuta e meditação por parte dos crentes. É um Evangelho com características muito especiais, como nos mostra frei Luciano Manicardi: ‘o Evangelho torna-se literatura’”, diz a editora, a propósito do livro. Na mesma nota, lê-se ainda que o evangelista Lucas se revela “um homem de Igreja inteligente e avisado, guiado por sentido pastoral evangélico e por um profundo sentido de humanidade”.
A estrutura da obra lucana “é muito simples: funda-se num plano geográfico e tem, no caminho de Jesus rumo a Jerusalém, ou antes, rumo ao Pai, o seu eixo condutor; a atenção prestada ao tempo leva Lucas a abordar o problema de como viver o Evangelho no dia a dia, com temáticas que têm levado várias pessoas a falar de ‘Evangelho social’ a propósito do terceiro Evangelho; do quotidiano, enfim, faz parte a relação interpessoal, a relação com o outro, e a confiança no amor misericordioso do Pai.”
Estas indicações darão o mote também para a conferência de sexta à noite. Nas suas obras, o prior de Bose (uma comunidade ecuménica de monges, que inclui homens e mulheres) confirma, como diz a editora, a “densidade humana e espiritual invulgares”, bem como o “aprofundado conhecimento” e a grande “sabedoria” na abordagem de questões de “grande relevância para a reflexão sobre a sociedade e a vivência cristã”. (Aqui podem ver-se outros elementos sobre os restantes títulos de Manicardi publicados em Portugal: Viver uma Fé Adulta – Itinerário para um Cristianismo credível, Memória do limite – A condição humana na sociedade pós-mortal, Ao Lado do Doente – 
O sentido da doença e o acompanhamento dos doentes Comentário à liturgia dominical e festiva – Ano B.)
Manicardi esteve já em Portugal por várias vezes, quer a convite da editora, quer da Fundação Betânia (entidades que o convidam de novo desta vez) quer, também, pela organização da Semana Social. Há seis anos, no Porto, Manicardi fez uma das intervenções de fundo da Semana Social desse ano, comentando a encíclica Deus Caritas Est, de Bento XVI.
Em Fevereiro de 2013, publiquei na revista Mensageiro de Santo António uma entrevista com Luciano Manicardi, a propósito dos seus livros A Caridade dá Que Fazer Viver uma Fé Adulta. É esse diálogo que a seguir se reproduz. 

A realidade humana é o lugar teológico mais importante

Diz que a tradição sapiencial bíblica nos ensina a fazer do cristianismo uma arte de viver o eros, a sofrimento, o trabalho ou a família. Luciano Manicardi, [prior] da comunidade monástica de Bose (norte de Itália), que reúne homens e mulheres, esteve em Portugal por ocasião da recente Semana Social da Igreja e da apresentação de dois livros seus. 
P. – No seu livro A Caridade dá Que Fazer, propõe reaprender a “gramática da caridade”. Esta necessidade é hoje mais urgente?
R. – Sim, porque há cada vez mais famílias e pessoas empobrecidas, com necessidade de assistência e sustento elementar. O meu receio é que, na actual crise, principalmente económica e financeira, os nossos governos intervenham com receitas muito técnicas, mas esqueçam a problemática social e familiar das pessoas. A justiça, que é a forma social da caridade, deve ter isto em conta. 

O que querem os jovens dos bispos reunidos em Roma

Texto de António Marujo

Assembleia do Sínodo dos Bispos começou ontem e prolonga-se até dia 28



Tomás Virtuoso, Rui Teixeira e Joana Serôdio em Março, no Vaticano, 
com o cardeal Lorenzo Baldisseri, secretário-geral do Sínodo dos Bispos

Sentiram-se escutados, mas querem fazer a experiência mais vezes: “Estes processos de auscultação têm de ser mais frequentes”, diz Rui Teixeira, 31 anos, escuteiro. Pensam que há um claro problema na forma de a hierarquia católica lidar e comunicar com os jovens: “O problema não é alterar tudo o que se diz, mas dizê-lo com uma linguagem acolhedora, não como uma imposição que exclui”, afirma Joana Serôdio, 30 anos, que integra a equipa do Departamento Nacional de Pastoral Juvenil (DNPJ). E recordam que o Papa Francisco marcou decisivamente a reflexão quando lhes pediu que falassem “sem filtros” e fossem “exigentes”, não querendo receber o “nobel da prudência”. “É um erro quando a Igreja se quer pensar a si mesma e o faz para dentro”, acrescenta Tomás Virtuoso, 24 anos, das Equipas de Jovens de Nossa Senhora (EJNS). 
Rui, Joana e Tomás foram os três portugueses que estiveram na assembleia que, de 19 a 24 de Março, em Roma, reuniu 300 jovens de todo o mundo como preparação do Sínodo dos Bispos sobre Os Jovens, a Fé e o Discernimento Vocacionalque esta quarta-feira, dia 3, se iniciou em Roma. 
A abertura da reunião foi assinalada por uma missa presidida pelo Papa. Na sua homilia, Francisco afirmou: “Sabemos que os nossos jovens serão capazes de profecia e visão, na medida em que nós, adultos ou já idosos, formos capazes de sonhar e assim contagiar e partilhar os sonhos e as esperanças que trazemos no coração.”
Os participantes na reunião pré-sinodal eram quase todos católicos. Mas, por vontade do Papa Francisco, também foram convidados jovens de outros credos (muçulmanos, protestantes de diferentes confissões, sikhs,...) e mesmo alguns não-crentes. Se Joana foi como representante portuguesa, Tomás e Rui (que tinha 30 anos na altura do encontro) estiveram em representação dos seus movimentos a nível internacional. 
“Era uma espécie de parlamento de jovens do mundo inteiro, de jovens líderes católicos, com a consciência de saber discutir com profundidade os temas propostos”, diz Tomás, que está a fazer tese em Economia Política Europeia, depois de ter concluído o curso de economia na Universidade Católica Portuguesa. E acrescenta o membro do secretariado internacional das EJNS: “Foi uma experiência incrível. Para nós era uma coisa inédita, porque nunca se deu esta importância aos jovens. As Jornadas Mundiais da Juventude são um produto ‘acabado’ que se oferece aos jovens para participarem num programa. Ali, éramos nós a construir a reflexão.”
Vindo da área que vem, Tomás já fez contas para confirmar que a reunião pré-sínodo (RP) foi importante para a preparação do Sínodo: no Instrumentum Laboris, ou Documento de Trabalhoque os bispos têm para debater nas duas primeiras semanas, o documento final da RP é citado 75 vezes; o documento seguinte mais citado é a exortação do Papa, A Alegria do Evangelho, mas apenas por 20 vezes. 

Papel da mulher não é só “enfeitar” as igrejas

Joana Serôdio, bioquímica de formação, a trabalhar num centro de investigação em biotecnologia em Beja, também recorda fortemente as palavras do Papa, no primeiro dia de trabalhos: “Já pensava que o encontro com o Papa iria marcar o ritmo dos trabalhos. Ele disse-nos para não termos vergonha, falar sem filtros, para sermos humildes na escuta mesmo de quem pensa diferente de nós. E foi empático, acolhedor, divertido e assertivo connosco.” Porque ficaram todos tão marcados com a ideia de falar sem filtros? “Porque há muitos filtros em relação aos jovens. Como há muitos filtros para os mais novos, os mais velhos e para quem é diferente da norma.”

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

O Espaço Inter-Religioso: Novas Paisagens Culturais

Agenda


As tradições religiosas como contexto de diálogo e não apenas de potencial conflito, na contemporaneidade, é um dos pontos de partida para o seminário O Espaço Inter-Religioso: Novas Paisagens Culturais, cuja primeira sessão decorre esta terça-feira, dia 2, às 18h, na Universidade Católica Portuguesa (UCP), em Lisboa. O pensador, filósofo, teólogo e místico Raimon Pannikar – cujo centenário do nascimento ocorre no próximo dia 2 de Novembro e é pretexto para o Ano Pannikar – será o contexto deste seminário, que prevê duas lições sobre o autor de Mística, Plenitude de Vida
A comemoração do centenário do nascimento de Pannikar (na foto ao lado, reproduzida daqui) é uma oportunidade para visitar o pensamento e a obra deste autor que, ao entrecruzar mundos intelectuais e religiosos distintos, personifica os desafios do nosso tempo. Pela sua reflexão original, faz olhar de modo renovado para temas clássicos da filosofia, da teologia e da espiritualidade de introdução ao seu pensamento. Uma oportunidade, como se lê na apresentação do curso, “para visitar o pensamento e a obra deste autor que, ao entrecruzar mundos intelectuais e religiosos distintos, personifica os desafios do nosso tempo” e que, “pela sua reflexão original, faz olhar de modo renovado para temas clássicos da filosofia, da teologia e da espiritualidade”. 
A proposta de formação prevê ainda a abordagem dos problemas do diálogo intercultural e duas oficinas sobre o diálogo inter-religioso em contextos históricos e geográficos diversos.
Promovido pelo Instituto de Estudos da Religião (IER) da Faculdade de Teologia da UCP, o seminário é orientado por Alexandre Palma e Peter Hanenberg, membros do IER. Os temas das cinco sessões (todas as terças, dias 2, 9, 16, 23 e 30 de Outubro, sempre entre as 18h00 e as 20h00) serão R. Panikkar: mito, símbolo e diálogo(Alexandre Palma); R. Panikkar: o ritmo cosmoteândrico(Alexandre Palma), Diálogo intercultural: conceitos e práticas(Peter Hanenberg), Música e Teologia: um diálogo entre Hildegard von Bingen e Al-Ghazali(Rui Fernandes) e Vivências cristãs em contexto islâmico(Adel Sidarus). 
Mais informação sobre objectivos e condições de acesso podem encontrar-se aqui