sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

"Para ganhar um Ano Novo que mereça este nome"

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

Carlos Drummond de Andrade

"O ano em que o Papa declarou guerra à pedofilia"

António Marujo faz, num curto vídeo do Público online, um balanço, necessariamente sumário, de alguns factos marcantes da vida da Igreja, em 2010. Aqui:

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

"O preço da felicidade"

Vítor Belanciano anota hoje, no jornal Público, o facto de, depois da Bélgica, Reino Unido e França, também a Espanha ter adoptado medidas que permitam encontrar um indicador económico alternativo ao PIB (produto interno bruto), avaliando também "a qualidade de vida e a satisfação dos cidadãos, num misto de critérios objectivos e subjectivos".
Sobre o assunto, comenta o jornalista:
Independentemente do que for, há o mérito de nos pôr a pensar sobre as nossas prioridades e sobre o que é isso de ser feliz. Será difícil existir um consenso internacional na elaboração de um indicador que substitua o PIB, mas será positivo se algumas das conclusões tiradas tiverem peso nas políticas públicas.
A verdade é que alcançamos progresso tecnológico, científico e material, aumentámos produtividade e consumo, mas isso não nos levou a ganhos claros de bem-estar subjectivo. Talvez seja hora de voltar a pensar até que ponto as nossas opções nos têm conduzido à criação de condições para uma existência mais digna e plena. Regressar à pergunta de sempre: o que significa ser feliz?

Cf. Público - O preço da felicidade- acesso condicionado a assinantes)

«Este menino está aqui para ser sinal de contradição»

Simeão tomou-o nos braços e louvou a Deus, dizendo:
«Agora, Senhor, segundo a tua palavra, deixarás ir em paz o teu servo,
porque os meus olhos viram a Salvação
que ofereceste a todos os povos,
Luz para se revelar às nações e glória de Israel, teu povo.»
Seu pai e sua mãe estavam admirados com o que se dizia dele.
Simeão abençoou os e disse a Maria, sua mãe: «Este menino está aqui para queda e ressurgimento de muitos em Israel e para ser sinal de contradição (...)»
Lc, 2, 31-34
Mais de dois mil anos depois, esse menino - Emanuel - continua, e de que maneira, a ser sinal de contradição.
(Crédito da imagem: William Blake, 1800)

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Porque não inquirir os motivos do abandono da missa dominical

Um artigo na última edição de America, revista semanal dos jesuitas norte-americanos, aborda um assunto que é sem dúvida pertinente e oportuno também entre nós: conhecer as razões pelas quais tantas pessoas que «nasceram» e foram educadas no catolicismo abandonaram a prática religiosa.
Segundo aquela publicação, em 50 anos, mais concretamente entre 1955 e 2005, a participação dos católicos na missa dominical passou, nos Estados Unidos da América, de 75% para 45% [em termos comparativos, no mesmo período, a participação dominical entre as confissões protestantes passou de 42% para 45%].  Comentando estes dados, um especialista em gestão, citado pela revista, dizia, não há muito tempo, que se uma empresa perdesse clientes ao ritmo a que a Igreja Católica tem perdido fiéis praticantes naquele país, alguém teria já feito inquéritos sobre o abandono. E é isso que o articulista defende que deveria ser feito.
Prestes a iniciar-se o ano de 2011, durante o qual a Igreja Católica em Portugal vai repetir o recenseamento da prática da missa dominical, poderia ser interessante que, em simultâneo, e recorrendo aos recursos que possui, nomeadamente na Universidade Católica, mas não só, algo do género fosse levado a cabo aqui. A queda da ida à missa dominical é provavelmente bem maior entre nós do que nos Estados Unidos. As condições e contexto cultural são diversos, mas a necessidade de se conhecer os motivos da deserção não são menores. Mudanças nos valores dominantes e nas características na vida social? Qualidade das liturgias e das homilias? Questões doutrinais? Outros motivos? Não seria importante conhecer-se as razões?
É importante saber quantos vão. Igualmente importante seria saber por que vão. Mas talvez mais instrutivo ainda seria conhecer os motivos daqueles que não vão ou que deixaram de ir.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Músicas que falam com Deus (9) - para o tempo de Natal#3 - Huron Carol

"Huron Carol" é uma conhecida canção de Natal, ainda hoje cantada em muitas igrejas cristãs do Canadá e Estados Unidos. Foi criada pelo missionário jesuíta Jean de Brebeuf, por volta de 1640, como forma de fazer entender às comunidades Huron (do lago do mesmo nome, em Ontário) a narrativa do nascimento de Jesus, em categorias que elas pudessem entender. A versão que hoje se canta foi substancialmente reformulada, substituindo as figuras e imagens da versão índia primitiva. É tida como a canção de Natal mais antiga do Canadá.

domingo, 26 de dezembro de 2010

"A Igreja sabe o que quer?"

(foto © Enric Vives-Rubio no Público)

No “Público” de hoje, um artigo para pensar a Igreja Católica em Portugal em 2011: “O próximo ano trará uma pequena revolução à Igreja em Portugal”.

António Marujo aponta o que está em questão: eleições para a Conferência Episcopal Portuguesa (presidente, mas também para outros cargos e comissões), novos bispos, em breve, nas dioceses de Coimbra, Lamego, Bragança-Miranda e Lisboa, e o resultado da reflexão sobre o documento “Repensar juntos a pastoral da Igreja em Portugal”.

Ler texto aqui.

Ler comentário de António Marujo, "
A Igreja sabe o que quer?" aqui.

Bento Domingues: Memória para o futuro incerto

sábado, 25 de dezembro de 2010

Bom Natal


As maravilhas desta clara noite excedem todas quantas viram os antigos Servos de Deus: porque, como diz um Santo, os nossos padres antigos muitas e grandes maravilhas de Deus viram. O Céu lhes orvalhou manjar de Anjos para seu mantimento. O Mar Roxo se lhes abriu em carreiras para que pudessem passar a pé enxuto. O rio Jordão se retirou para a fonte donde nascia para lhes dar livre passagem. Os muros fortíssimos da cidade de Jericó caíram subitamente a som de trombeta. O Sol se deteve no Céu por um grande espaço sem se mover, para que o povo de Deus, que pelejava contra seus inimigos, acabasse de os destruir. Estas e outras maravilhas viram: mas não lhes foi dado ver a verdadeira Luz Eterna, coberta com a nuvenzinha de carne de menino e posta em um presépio por amor de nós.

Bartolomeu dos Mártires
[Antologia de Espirituais Portugueses. Lisboa: Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1994. Imagem: instalação de Dan Flavin]

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Um dia triste

O caso, ocorrido no final de 2009, na cidade Phoenix, nos Estados Unidos da América, é este:
uma mulher jovem, já com três filhos, está grávida do quarto, e encontra-se afectada por uma doença grave, medicamente comprovada, que com elevado grau de probabilidade, a levará à morte juntamente com o bebé. Se for feito um aborto, poder-se-á salvar a mãe.
No hospital em que a grávida se encontra internada, reúne-se o comité de ética, ouve-se a paciente, a sua família e outros prestadores de cuidados. Todos consideram que deve ser adoptada a via que preserva a vida da mãe, na impossibilidade de salvar ambas. Esse caminho é seguido, o aborto é praticado e a mulher salva-se.
O bom senso prevaleceu. Em nome do direito à vida, se não se pode salvar duas vidas, mas apenas uma, essa vida deve ser salva. Um mal menor, certamente. Mas salva-se uma vida.
Um mal menor?
Nem pensar. Não há mal menor. Há simplesmente mal. E matar uma vida é intrinsecamente um mal, independentemente das circunstâncias, pelo que o hospital em causa nunca deveria ter praticado o aborto que salvou a mãe.
Quem assim pensa e em consonância actua é o bispo da diocese, porque o hospital, sendo católico, deve agir de acordo com a interpretação que o bispo faz da doutrina da Igreja. E a Igreja - diz ele, socorrendo-se da doutrina do Magistério e das normas éticas da Conferência dos Bispos dos EUA - não aceita que tal possa acontecer.
Para começar, fez saber que a religiosa que presidia ao Comité de Ética e que era simultaneamente vice-presidente do hospital,se deveria considerar automaticamente excomungada. E, na sequência de contactos com os responsáveis da instituição hospitalar, durante os quais não conseguiu demovê-los da posição que tinham assumido em consciência, o bispo acaba de anunciar, em conferência de imprensa,que o hospital já não pode mais considerar-se católico.
Um caso destes é muito triste e, diria mesmo, revoltante. Posso compreender que existam outros factos que tenham pesado também na decisão do bispo. Mas no caso que desencadeia a sua intervenção drástica, não parece haver lugar para grandes dúvidas,salvo melhor opinião: se medicamente é comprovado (de acordo com os conhecimentos e a experiência existentes) que há real risco de morte para mãe e filho e que é possível, com uma intervenção (que redunda em aborto), salvar uma das vidas, deve-se deixar o processo correr, sacrificando as duas? Em nome de que ética? Se o hospital, esgotando todas as possibilidades, agindo com todas as precauções (e não se provou que o não tivesse feito), chega à conclusão de que pode salvar uma vida, essa atitude não é mil vezes preferível à do bispo que, em nome de um princípio cegamente aplicado, pretende obrigar à adopção de uma prática que sacrifica as duas?
Que o bispo deseje que ninguém seja sacrificado e que defenda que ninguém deve ser morto, aceita-se e aplaude-se. Mas isso também os médicos e o comité de ética - e, antes de mais ninguém, a mãe da bebé - certamente desejavam. Mas a decisão ética está precisamente aí - em ponderar valores e, em último caso, em salvar o que pode ser salvo.
Não creio que o bispo de Phoenix tenha prestado um bom serviço à causa da defesa da vida e este fundamentalismo no modo de actuar não desacredita apenas esses movimentos, desacredita a própria Igreja. E deixa-a, com o tempo, a falar sozinha. É isso que dói e é isso que faz do dia de hoje um dia triste.
É assim, pelo menos, que, em consciência, acho.

...E exaltou os humildes

Maria disse, então:
«A minha alma glorifica o Senhor
e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador.
Porque pôs os olhos na humildade da sua serva.
De hoje em diante, me chamarão bem-aventurada todas as gerações.
O Todo-poderoso fez em mim maravilhas.
Santo é o seu nome.
A sua misericórdia se estende de geração em geração
sobre aqueles que o temem.
Manifestou o poder do seu braço
e dispersou os soberbos.
Derrubou os poderosos de seus tronos
e exaltou os humildes.
Aos famintos encheu de bens
e aos ricos despediu de mãos vazias.
Acolheu a Israel, seu servo,
lembrado da sua misericórdia,
como tinha prometido a nossos pais,
a Abraão e à sua descendência, para sempre.»

Lucas 1,46-55

sábado, 18 de dezembro de 2010

Anselmo Borges: Religião, felicidade e infelicidade

Anselmo Borges no DN deste sábado:


Quando se toma o poder sacro em nome de Deus, os perigos são imensos e terríveis. Até surge a tentação de "administrar" Deus. Então, quem não está com os "administradores" de Deus é herético e condenado. Lá está o perigo do fanatismo: somos a única religião verdadeira e todas as outras devem ser combatidas. Lá está o impedimento da liberdade de pensar e a censura. O pior é a imagem de um deus mesquinho, cruel, violento, causa de ateísmo e de infelicidade.


Esses "administradores" da religião e do próprio Deus arrogam-se também o direito de administrar a moral e são eles então quem determina o que é bem e mal, o que se deve fazer e não fazer. E lá está o controlo do prazer pelo poder, porque o prazer subverte o poder. Lá está então uma sexualidade envenenada, a proibição dos contraceptivos, o celibato eclesiástico obrigatório e a sua grandeza e miséria. Lá está a pedofilia dos clérigos, ocultada para tentar preservar a instituição-poder.


Ler tudo aqui.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

John L. Allen entrevista o editor-chefe do "L'Osservatore Romano"

Giovanni Maria Vian é catedrático
em Filologia Patrística pela Universidade La Sapienza


“L'Osservatore Romano” faz 150 anos em 2011. John L. Allen Jr., correspondente do “National Catholic Reporter” em Roma, entrevistou o editor-chefe do jornal do Vaticano.

Giovanni Maria Vian afirma que o jornal é escrito com grande independência: “Tecnicamente, a única parte «oficial» do jornal é a coluna «Nossa informação» [geralmente publicada na primeira página, essa coluna é uma breve lista de indicações, audiências e outros atos oficiais papais] (…). Naturalmente, o L'Osservatore Romano é o único jornal do Vaticano, e por isso ele tem uma certa autoridade. No entanto, é uma autoridade derivada da sua longa história e da sua capacidade de interpretar do ponto de vista da Santa Sé, do Papa e da Secretaria de Estado, e não de ser diretamente aprovado. O Papa é o nosso "editor" no sentido de ser o dono do jornal, por meio da Secretaria de Estado e do substituto. Mas somos publicados todos os dias, e não é possível que alguém aprove o conteúdo de antemão”.

No 150.º aniversário vai ser publicado um livro sobre o “Singolarissimo Giornale”. E está igualmente prometido que os principais artigos vão passar a ser rapidamente traduzidos para inglês e espanhol e colocados on-line.

O editor-chefe do jornal que agora também fala dos Beatles e dos Simpsons diz que não houve furo ao embargo na publicação de excertos do livro do Papa. Os jornais só podiam publicar excertos de “Luz do Mundo” no dia domingo, 21 de Novembro. O “L'Osservatore Romano” publicou no sábado porque a edição de domingo sai no sábado à tarde. Ler tudo aqui.

O melhor de Portugal: por ele continuamos a existir

"Porquê e para quê - Pensar com esperança o Portugal de Hoje” é o título da mais recente obra de D. Manuel Clemente. O livro foi apresentado terça-feira à noite, no Palácio da Bolsa, no Porto, por Manuel António Pina, e recolhe 18 intervenções recentes (2009 e 2010) do bispo do Porto na área da cultura e da reflexão sobre Portugal.

No livro, edição da Assírio & Alvim, incluem-se textos como o da recepção do Prémio Pessoa, a entrevista ao Público feita por Teresa de Sousa, em Setembro deste ano, e ainda outros sobre temas como o centenário da I República, as repercussões das Invasões Francesas no catolicismo português, o diálogo entre religião e ciência, o monaquismo, a regionalização, e a trilogia liberdade-igualdade-fraternidade.

D. Manuel diz que a crise que Portugal vive é profunda, mas recorda que as dificuldades vividas no país ao longo de vários séculos nunca levaram ao fim da pátria, mesmo com todas as fragilidades de um país pequeno e periférico. Por mais pessimismo que o presente inspire, o bispo do Porto rejeita o conformismo e lembra que são agora bem mais visíveis os bons exemplos de esperança de gente concreta que procura dar a volta por cima.

Escreve o bispo do Porto: "O melhor de Portugal pouco aparece e não abre geralmente os noticiários. Mas existe e por ele mesmo continuamos nós a existir. Apesar de tudo, mas não apesar de nós."

Na introdução, a editora refere que o presidente da Comissão Episcopal da Cultura, Bens Culturais e Comunicações Sociais “coloca em relação passado e presente, comum e singular, religioso e profano, as verdades penúltimas que seguimos e aquelas que se desenham misteriosamente últimas”.

Num “tempo português carregado de incertezas, esta antologia pretende documentar a vivacidade de um pensamento rigoroso e polifónico que se abre, e nos abre, à esperança”, acrescenta o texto de introdução à obra.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Já é Natal em Alborán

Ya es Navidad en la isla de Alborán. No han sido los ángeles quienes me han dado la buena noticia, lo he leído esta mañana en las ediciones digitales de todos los periódicos: ayer domingo, una María negra dio a luz una preciosa niña en la embarcación con la que cruzaba “ilegalmente” el Estrecho.
Igual que hace dos mil años, María huía del futuro dictado por los Herodes de la miseria y la corrupción. En esta ocasión no viajaba a lomos de un burro, sino en el húmedo vientre de una patera. Como entonces, le llegó el momento del parto en pleno viaje y el pesebre fue sustituido por un desvencijado cayuco. No había posada ni para ella, ni para los 32 subsaharianos que la acompañaban, entre ellos siete embarazadas más y seis menores.
La estrella de Oriente se adaptó a los nuevos tiempos y se transmutó en una llamada de móvil que un ángel anónimo hizo desde Marruecos avisando de la salida de la embarcación la tarde anterior.
El calor que otrora dieron al niño un buey y una mula, ayer lo ofreció el regazo del guardia civil que durante dos horas, hasta llegar a Motril, protegió a la pequeña del intenso frío.
¿A qué esperamos para salir corriendo a Alborán y poner a los pies de la niña el requesón, la manteca y el vino de nuestras rebosantes despensas? ¿A qué esperan los políticos y sabios para ir a ofrecerle el oro, el incienso y la mirra de un futuro lleno de posibilidades? ¿Vamos a dejar que, dos mil años después, la sombra de una cruz se proyecte sobre el porvenir de esa niña? En cada crío que nace se juega la salvación compartida de un futuro mejor para todos, empezando por los últimos. Alegrémonos con los pastores porque ya es Navidad en Alborán.

Do Site Eclesalia

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

domingo, 12 de dezembro de 2010

Bento Domingues: O Evangelho é divertido

No "Público" de 12-12-2010. "Se lêssemos as narrativas do Novo Testamento sem beatices e reparássemos na ironia, no riso e no humor que as percorrem, seria fácil descobrir quanto o Evangelho é divinamente divertido!"

Águas jorrarão no deserto

O deserto e a terra árida
vão alegrar-se,
a estepe exultará
e dará flores belas
como narcisos.
Ela vai cobrir-se de flores
e transbordar de júbilo
e de alegria.
Tem a glória do Líbano,
a formosura do monte Carmelo
e da planície de Saron.
Será vista a glória do Senhor
e a magnificência do nosso Deus.
Fortificai as mãos desfalecidas,
robustecei os joelhos vacilantes.
Dizei àqueles que têm o coração perturbado:
Tomai ânimo, não temais! Eis o vosso Deus!
(...)
Então se abrirão os olhos do cego.
E se desimpedirão os ouvidos dos surdos;
então o coxo saltará como um cervo,
e a língua do mudo dará gritos alegres.
Porque águas jorrarão no deserto
e torrentes, na estepe.
A terra queimada se converterá num lago,
e a região da sede, em fontes.
No covil dos chacais crescerão caniços e papiros.
E haverá uma vereda pura,
que se chamará o caminho santo;
nenhum ser impuro passará por ele,
e os insensatos não rondarão por ali.
Nele não se encontrará leão,
nenhum animal feroz transitará por ele;
mas por ali caminharão os remidos,
por ali voltarão aqueles
que o Senhor tiver libertado.
Eles chegarão a Sião com cânticos de triunfo,
e uma alegria eterna coroará sua cabeça;
a alegria e o gozo possuí-los-ão;
a tristeza e os queixumes fugirão.

Isaías, 35

sábado, 11 de dezembro de 2010

Releitura (bem-humorada) da narrativa da natividade de Jesus

O vídeo natalício que, no YouTube, está a circular de forma viral. Até os que já se esqueceram da referência ao nascimento de Jesus o farão circular:

(Autoria: Excentric).

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

As Confissões, de Santo Agostinho, em debate em Lisboa

Hoje, às 19h00, no Ciclo Nós e os Clássicos, da Livraria Almedina de Lisboa (Atrium Saldanha), serão apresentadas e debatidas As Confissões, de Santo Agostinho. Caberá a Teresa F. A. Alves, professora associada da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, a apresentação da obra e os comentários ao debate.

O ciclo, coordenado e moderado pela jornalista e escritora Filipa Melo, pretende promover o contacto com os grandes textos clássicos como “aventura mental e afectiva” e numa “relação viva e transmissível”. Em cada sessão, o leitor especialista fala do seu gosto por um título clássico de ficção ou pensamento, como herança universal sem tempo. A sessão é aberta a todos os interessados.

Mais informação pelo telefone 213 570 428 ou em http://www.almedina.net.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Músicas que falam com Deus (8) - para tempo de Natal#2 - Música romena em concertos

Pelo quinto ano consecutivo, o Instituto Cultural Romeno de Lisboa e a Igreja Ortodoxa Romena em Portugal promovem quatro concertos com cânticos romenos tradicionais de Natal. A música de raiz bizantina será cantada a cappella pelo Coral Iosif Naniescu, da Faculdade de Teologia de Iasi.

Este coro, lê-se no site do Instituto Cultural Romeno, foi criado apenas há três anos e é dirigido pelo arquidiácono Ionuţ-Gabriel Nastasă, docente da Faculdade de Teologia de Iaşi e licenciado pelo Conservatório de Música de Iaşi.

O repertório inclui peças para coro a quatro vozes e a uma voz de carácter religioso, mas também algumas de carácter profano, quer romenas quer universalmente consagradas.

Os concertos decorrem em Setúbal (dia 9, 21h, Igreja de São Sebastião), Lisboa (dias 10, 21h30, Sé Patriarcal, e dia 12, 21h, Basílica da Estrela) e Santarém (11 de Dezembro, 21h, Igreja Catedral).

Para apreciar o trabalho do Iosif Naniescu, fica aqui uma amostra em vídeo:

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Músicas que falam com Deus (7) - para o tempo de Natal #1 - Cantatas de Natal, de J.S.Bach

Durante os próximos dias, vou tentar colocar aqui pequenas referências a alguns discos com música que celebra o tempo do Natal. Algumas delas são adpatadas de textos publicados antes na revista Além-Mar, dos Missionários Combonianos.

Nesta caixa, um conjunto de três discos, reúnem-se doze cantatas de Natal, de Bach, interpretadas pelo coro e orquestra barrocos de Amesterdão, dirigidos pelo maestro Ton Koopman. Só isto bastaria para dizer que estamos perante uma obra-prima da composição e da execução.

São doze peças que reflectem, na perfeição, a sensibilidade e o tom festivo de Bach. Em cada uma delas, intercalam-se árias, recitativos, duetos, corais (que finalizam cada cantata), com uma beleza instrumental ímpar, que nos levam a passar da aclamação à emoção do Natal e vice-versa.

Num conjunto deste nível, é injusto destacar apenas alguns trechos. Mas refiram-se, de qualquer modo, árias como “Woferne du den edlen Frieden” ou “Von der Welt verlang ich nichts”; recitativos como “Geh, Welt! Behalte nur das Deine”; ou corais como “Singt dem Herrn ein neues Lied”, “Ei nun, mein Gott, so fall ich dir” ou “Gute Nacht, o Wesen”.

Para aguçar o apetite, pode escutar-se aqui o coral da Cantata BWV 191, Gloria in Excelsis Deo:


Bento Domingues: O sonho é a fonte

No "Público" de 5 de Dezembro de 2010

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Dos homens, dos deuses e do cinema

Está em exibição pelo menos em Lisboa, pelo menos mais alguns dias, o filme Dos Homens e dos Deuses, do francês Xavier Beauvois, que em França foi um dos filmes mais vistos do ano e recebeu em Cannes o prémio do júri ecuménico (além de ser o candidato francês ao Óscar do melhor filme estrangeiro).

Esta obra de Beauvois, que já antes foi referida aqui no blogue, é um extraordinário poema cinematrográfico. A história conta o episódio da morte de oito monges franceses do mosteiro de Tibirine, na Argélia, em meados da década de 90. A tensão da guerra civil argelina está presente de forma subtil (apenas aparece visível numa cena de ataque a um grupo de trabalhadores estrangeiros); o conflito interior que vivem os monges ameaçados por grupos terroristas (ficar ou partir?) é dado através dos curtos diálogos e da música dos salmos, cantados na liturgia. A música é, aliás, um dos elementos de identidade desta obra maior.

Aqui pode ler-se um texto de Francisco Ferreira no Expresso, com imagens do filme e ligações para outros artigos.

Em Almada, começou esta noite, entretanto, o Ciclo de Cinema Católico, promovido pelo núcleo da Pastoral Universitária da cidade. A iniciativa não podia ter começado da melhor forma, com a exibição de A Ilha (2006), do russo Pavel Lounguine. Filme de uma intensa espiritualidade, A Ilha reflecte a busca de identidade e autenticidade dos trabalhos do realizador, mesmo se ele significou uma mudança profunda na sua linguagem estética.

Com uma fotografia simultaneamente imponente e rude, em que o gelo, a aridez, a água, são protagonistas, o filme fala de um monge que perturba permanentemente a vida do mosteiro, mas que é procurado por ter, alegadamente, o poder de curar, prever o futuro e expulsar demónios. Só que o monge guarda um segredo do qual se quer purificar e só quando isso acontecer ele poderá morrer em paz.

Esta sexta-feira, o ciclo continua com Deus tem necessidade dos homens (1950), do francês Jean Delannoy, que morreu em 2008 com 100 anos (e terá comentário do padre Rodrigo Mendes, no final). Sábado, será a vez de Mendel, o Jardineiro de Deus, de Liana Marabini (comentários da realizadora e de João Aires de Sousa). O ciclo encerra no domingo com O Nono Dia (2004), do alemão Volker Schlöndorff (debate com Orlindo Gouveia Pereira).

Liana Marabini, que no sábado acompanha a projecção do seu filme, é directora do Mirabile Dictu, festival de cinema de Roma. Antes, entre outros trabalhos, tinha realizado Vivaldi. Em O Jardineiro de Deus, M
arabini conta a história do padre Gregor Mendel (1822-1884), criador da genética moderna, que é protagonizado por Christopher Lambert. Na altura da estreia, há um ano, Marabini afirmou que foi a sua admiração por Mendel como padre e cientista que a levou a realizar a obra.


Um outro padre, desta vez do Luxemburgo, é o centro da história de O Nono Dia, baseado numa história real. O protagonista está preso no campo de concentração de Dachau e é libertado por nove dias. No final desse tempo deve decidir se apoia o regime nazi ou se mantém a sua oposição e regressa ao campo.


Esta iniciativa da Pastoral Universitária católica de Almada segue a linha de festivais do género realizados em cidades como Friburgo (Suíça) ou Trento (Itália), já com largo número de edições.

Os filmes começam às 21h00 e são seguidos de comentário e debate. Passam todos no Fórum Romeu Correia, Almada (há estacionamento pago), são legendados em português e a entrada é livre.



segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Igreja e cultura: cada vez mais longe?

Em Igreja e cultura: cada vez mais longe?, da autoria de José María Poirier, da revista Critério (transcrito pelo site Mirada Global), debatem-se os desafasamentos e mediações possíveis entre a doutrina da Igreja e a cultura, sobretudo entre as gerações mais jovens e, em particular, a propósito das questões da sexualidade. O trecho seguinte é apenas um pequeno extracto de um texto mais longo, que merece leitura:
" (...) Esta transformação da sensibilidade e dos valores, que leva à rejeição das normas e certezas tradicionais a favor de uma liberdade carente de referências firmes, é algo observável de um modo muito directo na conduta das gerações mais jovens. Estas tendem cada vez mais a gerir sua vida sexual quase exclusivamente em base ao critério da autenticidade afectiva. O casamento vai perdendo o carácter de horizonte natural do noivado, e aqueles que decidem casar-se o fazem hoje, em sua maioria, depois de experiências mais ou menos prolongadas de convivência. E não estamos falando de algo que aconteça só fora da Igreja. Muitos católicos adoptam estes novos estilos de vida sem sentir que estão pondo em jogo sua fé ou sua pertença religiosa.

Encontramos aqui um traço característico deste giro cultural: não se realiza contra a Igreja, isto é, não está necessariamente vinculado a uma postura de princípio contrário à fé ou à instituição eclesial (ainda que assim certas reivindicações particulares possam ser apresentadas publicamente). Pelo contrário, é uma mudança que acontece na maioria dos casos à margem da Igreja, isto é, em virtude de uma busca pessoal simplesmente alheia a tudo o que não for experimentado como significativo para si, muito além do que ela “diga” permita ou proíba.

Aqui parece localizar-se, então, o problema de fundo: a brecha crescente entre a Igreja e a cultura, entre seus ensinamentos e a vida da sociedade, sem excluir a vida dos fiéis. Não se trata tanto da verdade ou do valor da doutrina católica sobre a sexualidade em si mesma, quanto de sua relevância, isto é, de sua capacidade para modelar efectivamente a vida das pessoas. Precisamente, a percepção de uma perda dramática de relevância do ensino da Igreja está suscitando há anos profundas tensões no seio da mesma entre os que, por toda resposta, protegem a “doutrina segura”, e aqueles que no outro extremo procuram “chegar” às pessoas, através de propostas atraentes mas aventuradas, sem nenhuma continuidade possível com a Tradição(...)".

Eis-me aqui

«Eu manifestei-me àqueles que não me consultavam, saí ao encontro dos que não me buscavam. Dizia: «Eis-me aqui» a um povo que não invocava o meu nome»
(Is 65, 1)

domingo, 28 de novembro de 2010

Bento Domingues: Não há teologias definitivas

No "Público" de 28 de Novembro de 2010

Anselmo Borges: A Igreja e os sinais dos tempos

Anselmo Borges no DN de 27 de Novembro de 2010:

"Não foi por acaso que a revelação sobre o uso do preservativo apareceu no mesmo dia em que o Papa impôs o barrete a mais 24 cardeais. No dia seguinte, lembrou-lhes que devem estar sempre junto de Cristo na cruz. Mas cá está! No meio de todo aquele aparato do Vaticano, há aqui uma contradição entre a pompa e a cruz. Há aquele texto do filósofo dinamarquês Sören Kierkegaard, que diz mais ou menos assim: vai Sua Excelência Reverendíssima o Bispo de Copenhaga, revestido de paramentos com filamentos de ouro e um báculo e uma mitra debruados de pedras preciosas, com todo o seu séquito em esplendor, senta-se num cadeirão de prata e dá início à sua homilia sobre a pobreza. E ninguém se ri!..."

Ler tudo aqui.

sábado, 27 de novembro de 2010

Vigília pela vida nascente. E pela vida e dignidade ameaçadas?

Há muitas e boas razões para fazer uma vigília pela vida nascente, iniciativa desejada pelo Papa Bento XVI e seguida hoje em muitos lados, nas igrejas locais.
Ainda que não simpatize com algum fundamentalismo, obsessão e reduccionismo de movimentos que gravitam em torno da "defesa da vida", reconheço que é sempre pouco o que se faz para criar condições para que novos seres humanos possam vir ao mundo em condições de acolhimento do mistério da vida e de justiça e paz nos contextos de crescimento das crianças. É necessário promover a vida e combater o que a limita e entrava, nas suas causas mais profundas. O aborto será porventura um desses entraves, mas sou levado a crer que ele é mais um sintoma do que uma causa (ainda que de resultados trágicos).
Dito isto, não posso deixar de anotar que não vejo na Igreja a mesma acutilância, o mesmo investimento de energias noutros campos onde a vida (e a dignidade das pessoas) se joga, como ocorre com a "vida nascente". A prova é que, num contexto como o dos países europeus, nomeadamente, em que se vive uma crise gravíssima, que lança a cada dia milhares de pessoas para a valeta da sociedade, não há uma vigília da escala da de hoje, que alerte a consciência dos cristãos e de toda a sociedade. Quem diz uma vigília, diz outra forma de, liturgicamente, em ambiente celebrativo, fazer da crise e da procura de caminhos para a enfrentar o mote para a reunião dos cristãos.
Os jovens que não encontram de que viver e condições para constituir família; os de meia-idade que se vêm subitamente desempregados e tornados inúteis; os idosos cada vez mais abandonados e espoliados; os que trabalham e que, tantas vezes, se deparam com verdadeiros atentados à sua dignidade de trabalhadores; o mercado selvagem que tudo contamina - é a vida, o seu sentido e os seus limites, que está em causa. Olhe-se para a Irlanda, para a Grécia, para Espanha, para Portugal e vários outros países - se há "nova evangelização" em perspectiva, ou ela aterra aqui, nestes dramas, nestes impasses, nestes labirintos ou simplesmente não será.

"Não mais haverá noite"

Mostrou-me, depois, um rio de água viva, resplendente como cristal, que saía do trono de Deus e do Cordeiro.
No meio da praça da cidade e nas margens do rio está a árvore da Vida que produz doze colheitas de frutos; em cada mês o seu fruto, e as folhas da árvore servem de medicamento para as nações.
E ali nunca mais haverá nada maldito. O trono de Deus e do Cordeiro estará na cidade e os seus servos hão-de adorá-lo e vê-lo face a face, e hão-de trazer gravado nas suas frontes o nome do Cordeiro.
Não mais haverá noite, nem terão necessidade da luz da lâmpada, nem da luz do Sol, porque o Senhor Deus irradiará sobre eles a sua luz e serão reis pelos séculos dos séculos.

Apocalipse 22,1-5

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

O Papa, o preservativo e o debate mediático

O debate sobre o novo livro do Papa Bento XVI, Luz do Mundo, centrou-se na questão do preservativo. A propósito, anotei no Público algumas observações em forma de comentário.

Um texto onde se faz a apresentação do livro, de outros temas e polémicas que já levantou pode ser lido também aqui.

Pequenos excertos sobre outros temas podem ser lidos ainda aqui.

sábado, 20 de novembro de 2010

Homens que são como lugares mal situados

Daniel Faria






















Homens que são como lugares mal situados
Homens que são como casas saqueadas
Que são como sítios fora dos mapas
Como pedras fora do chão
Como crianças órfãs
Homens agitados sem bússola onde repousem

Homens que são como fronteiras invadidas
Que são como caminhos barricados
Homens que querem passar pelos atalhos sufocados
Homens sulfatados
Por todos os destinos
Desempregados das suas vidas

Homens que são como a negação das estratégias
Que são como os esconderijos dos contrabandistas
Homens encarcerados abrindo-se com facas

Homens que são como danos irreparáveis
Homens que são sobreviventes vivos
Homens que são sítios desviados
Do lugar
....
Homens que são como projectos de casas
Em suas varandas inclinadas para o mundo
Homens nas varandas voltadas para a velhice
Muito danificados pelas intempéries
Homens cheios de vasilhas esperando a chuva
Parados à espera
De um companheiro possível para o diálogo interior

Homens muito voltados para um modo de ver
Um olhar fixo como quem vem caminhando ao encontro
De si mesmo
Homens tão impreparados tão desprevenidos
Para se receber

Homens à chuva com as mãos nos olhos
Imaginando relâmpagos
Homens abrindo lume
Para enxugar o rosto para fechar os olhos
Tão impreparados tão desprevenidos
Tão confusos à espera de um sistema solar
Onde seja possível uma sombra maior
...
Não levantemos os homens que se sentam à saída
Porque se movem em seus carreiros interiores
Equilibram com dificuldade uma ideia
Qualquer coisa muito nítida, semelhante
A uma folha vazia
E põem ninhos nas árvores para se libertarem
Da gaiola terrível, invisível muitas vezes
De tão dura
Não nos aproximemos dos homens que põem as mãos nas grades
Que encostam a cabeça aos ferros
Sem outras mãos onde agarrar as mãos
Sem outra cabeça onde encostar o coração
Não lhes toquemos senão com os materiais secretos
Do amor.
Não lhes peçamos para entrar
Porque a sua força é para fora e a sua espera
É a fé inabalável no mistério que inclina
Os homens por dentro
Não os levantemos
Nem nos sentemos ao lado deles.
Sentemo-nos
No lado oposto, onde eles podem vir para erguer-nos
A qualquer instante

Daniel Faria, “HOMENS QUE SÃO COMO LUGARES MAL SITUADOS”, 1998

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Comissão Justiça e Paz e o desafio da mudança


A Comissão Nacional Justiça e Paz e a Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa organizam neste sábado, em Lisboa, a conferência "O Desafio da Mudança Urgente – Caridade, Verdade e uma Encíclica". A entrada é livre, sendo, porém, solicitada confirmação de presença para o e-mail comissãonjp@mail.com ou para o telefone 218 855 480.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

À procura da Palavra – Estranha realeza

(Crónica do padre Vítor Gonçalves, que durante alguns anos foi publicada no jornal Voz da Verdade. O Religionline tem muito gosto em publicá-la semanalmente, a partir de agora.)

“Hoje estarás comigo no paraíso.” (Lc 23, 43)
Domingo de Cristo Rei

Ficamos impressionados (e talvez incomodados) com a mega operação de segurança em torno da Cimeira da Nato realizada nestes dias em Lisboa. A vinda de mais de 50 chefes de estado e de governo e as numerosas comitivas obriga a rigorosas medidas de segurança e logística. E se os perigos são reais, também cresce uma sensação de aparato e ostentação que os “senhores deste mundo” persistem em cultivar. As menos de 24 horas de encontros e trabalho real pela segurança do mundo e o seu desenvolvimento irão produzir algo verdadeiramente benéfico? Esperamos que sim, para que não fique destes dias um amargo sabor a vaidade e desperdício!

Prestes a dar o último suspiro, pregado na cruz, Jesus é interpelado, por três vezes, pela mesma frase: “Se és o Messias…, salva-te a ti mesmo.” Repete-se a tentação do deserto. Jesus procurou sempre batalhar contra as ideias erradas acerca da sua “realeza”: não se centra em si mesmo, não age em seu benefício, não usa o poder para dominar nem para criar dependência. A loucura da cruz incomoda, porque quem não procura salvar-se a si mesmo, e sim, salvar todos os que puder, revela um amor que nada pode destruir. Que ninguém pode dominar ou manipular. Estranha realeza esta, que recusa os métodos habituais de conquista das multidões e de senhorio do mundo. A realeza fraca e pobre de um Deus crucificado!

No meio da algazarra e do espectáculo doloroso do calvário, por entre as vozes de zombaria e insulto, Jesus é atraído pelo sofrimento de um dos malfeitores. Sempre quem sofre a ter um lugar único no seu coração! É muito difícil para nós, que vivemos a dor fechando-nos em nós próprios, nesses momentos compreender o sofrimento dos outros. Dor e amor parecem-nos irreconciliáveis. Mas Jesus, no meio da maior dor, mostra o maior amor do mundo. Tinha chamado os discípulos para andarem com Ele, e levava consigo um discípulo nascido no meio do maior sofrimento. Um discípulo sem currículo, com práticas muito reprováveis, mas capaz de se compadecer e de acreditar. Estranho rei que não tem guarda-costas nem exército, mas é defendido pelo mais improvável dos advogados. Aquele que não se fechou na sua dor e fez sua a dor de Jesus. Teve 20 valores na prova prática do mandamento do amor!

Fecha-se a cortina do ano litúrgico e anuncia-se o nascimento de um “Deus despido”. O calvário e Belém tão próximos. A cruz e a manjedoura: únicos tronos deste estranho rei! Escrevia o pastor protestante Bonhoeffer, morto por ordem de Hitler: “Deus deixa-se empurrar para fora do mundo e pregar na cruz. Deus é impotente e fraco no mundo, e assim somente, ele está connosco e nos ajuda…”.

Bento XVI e a Europa

Músicas que falam com Deus (6) - Liturgia e poesia em disco

O CD “Vento”, interpretado pelos “Sete Lágrimas”, que corresponde a uma Missa de Pentecostes encomendada pela Capela do Rato, em Lisboa, inclui dez composições concebidas a partir de textos litúrgicos e poemas de Teixeira de Pascoaes, Sophia de Mello Breyner Andresen, Mário Cesariny, Maria Gabriela Llansol e José Augusto Mourão. O Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura disponibilizou os textos que acompanham o disco, bem como uma das faixas.
| ÁUDIO |

Sinais que chegam da América

  • Notícia "Hacia que Iglésia vamos?", do blog ENCOMUN
  • Notícia "L'archevêque de New York élu président de la Conférence des évêques des USA", em La Croix [Sobre este último link, vale a pena complementar o que diz e sugere com a análise feita por Michael Sean Winters em "What happened in Baltimore?"

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Comunicar também é escutar

Com que palavras apalavramos o conceito e a prática da comunicação?
Com termos como anúncio, informação, pregação, arenga, transmissão, …
E que significado de comunicação está contido neste modo de a enunciar? 
Vias de sentido único, mensagens unidireccionais, fluxos predominantes de A para B.  
Onde é que esse modo hegemónico de comunicar prevalece?
Na escola, na igreja, nos media, na política e em muitos outros espaços institucionais.
Há outros modos e modelos de comunicar?
Certamente que sim: a comunicação assente no diálogo, na escuta, na reciprocidade de papeis, na troca de pontos de vista, nos gestos partilhados…
Serão os dois modelos antagónicos ou mutuamente exclusivos?
Longe disso.  Nenhum deles pode prescindir do outro, ainda que possamos, de acordo com a inércia, a vontade e o contexto, acentuar mais um do que outro. Mas a comunicação humana carece tanto da informação que capacita  e abre horizontes quanto da relação que se estabelece e refaz no acontecer da própria comunicação. Não é, portanto, mero problema de linguagem – mais acessível ou mais hermética, mais clássica ou mais moderna – que está em jogo, mas um problema de atitude.
Estas reflexões surgem a partir de um evento que acaba de ocorrer em Roma, por iniciativa do Conselho Pontifício para a Cultura com o tema "Cultura da comunicação e novas linguagens" e que se apresentou com algumas novidades dignas de nota. Realizou a sessão de abertura no Capitólio, fora do Vaticano; juntou gente muito diversa, das artes, do pensamento, das letras e das indústrias criativas; enfim, quis olhar para um problema crucial da contemporaneidade – o da (in)comunicação, com olhos multidisciplinares, incluindo, naturalmente, o religioso.
A avaliar pelo que, a propósito, disseram os responsáveis máximos do Vaticano, a tónica voltou a ser colocada na forma da linguagem (carecendo de aggiornamento na Igreja) e nos meios para a veicular. "A necessidade de encontrar uma linguagem verdadeiramente mais capaz de sintonizar com a cultura e com o homem de hoje é imprescindível", declarou D. Gianfranco Ravasi, não sem advertir que “há palavras que devem ser conservadas".
Eu não me preocuparia tanto com a efectividade da linguagem, a novidade das palavras e dos media, ainda que reconheça residir ai uma parte do problema. Preocupar-me-ia, sim, com as mediações e com o cultivo de uma atitude de escuta, em que se possam intercambiar mensagens que circulem em múltiplas direcções e não em sentido único.

[Texto publicado no diário digital Página 1, da Renascença, em 15.11.2010]

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Um pequeno conforto

" [...] Gosto muito deste conto de Raymond Carver e já o tenho repetido. O que aprecio nele é sobretudo mostrar como as cenas da vida quotidiana, mesmo as mais dramáticas, nos podem abrir aos grandes espaços da experiência interior. As palavras criam um clima de acolhimento e escuta. O alimento consola, enxuga as lágrimas. Dentro das personagens acontece uma espécie de ressurreição. De facto, quando a gente aceita que mesmo sobre aquilo que nos parece imperdoável há mais do que um ponto de vista, ou quando compreendemos que, em grande parte das situações, mais do que premeditação o que existe é ignorância, então estamos prontos para encontrar perdão nos nossos corações.
Torna-se finalmente claro que o conforto que falta à nossa vida é bem mais pequeno do que supomos. Basta-nos o conforto de atravessar ao lado de outros a nossa noite e assistir aí, esperançados, à chegada da manhã.

[Para ler a súmula da historia: AQUI.]

José Tolentino Mendonça, in Diário de Notícias da Madeira, 14.11.10

Bento Domingues: Espanha pouco católica

Frei Bento Domingues no "Público" de 14 de Novembro de 2010

domingo, 14 de novembro de 2010

Papa pede reforma profunda da economia mundial

O Papa Bento XVI apelou, neste domingo, a uma reforma profunda da economia mundial. Fê-lou pucos dias depois de mais uma quase inútil cimeira do G20, desta vez na Coreia do Sul, cimeira à qual, aliás, tinha dirigido uma carta.

A actaul crise “reclama uma mensagem de firmeza apelando a uma profunda reforma do modelo de desenvolvimento económico mundial”, disse o Papa. “As economias dos países ricos não devem tentar alcançar alianças vantajosas que podem ter graves consequências para os países mais pobres”.

O essencial das afirmações de Bento XVI está aqui.

Causas dos abusos sexuais por parte de membros do clero

A questão central com que a Igreja deveria lidar, na gestão dos múltiplos casos de abuso sexual de membros do clero sobre crianças em diferentes partes do mundo está na questão e na natureza do poder, no interior da instituição eclesiástica. Esta é a perspectiva do Pe. Tom P. Doyle, dominicano e doutorado em Direito Canónico, que há mais de 25 anos fez da intervenção sobre este problema a causa da sua vida. Em 1984, renunciou a uma carreira como canonista e diplomata, ao abandonar o lugar de especialista em Direito Canónico na Nunciatura do Vaticano em Washington, para se dedicar ao trabalho com as vítimas de abusos e respectivas famílias, assim como com a bispos e outros altos responsáveis da Igreja, nas dimensões canónica e pastoral.
O vídeo refere-se a uma conferência que fez na semana passada em Sidney, Austrália, na Inaugural Australasian Clergy Abuse Reparation & Prevention Conference .



Informação complementar:

sábado, 13 de novembro de 2010

Anselmo Borges: Protesto, luto e reflexão

A sabedoria da história bíblica das vacas gordas e das vacas magras - armazenar no período da abundância para os tempos de dificuldade - há muito que foi esquecida entre nós. E aí está a crise, incalculável, na perplexidade, e sobretudo sem horizontes de futuro. Ninguém nos diz o que se pode razoavelmente esperar, depois de tanta crise e sacrifícios sem fim, e este é o perigo maior.

Há a crise mundial, uma imensa interrogação sobre o que ainda se chama União Europeia, a subordinação da política ao poder económico-financeiro. Entre nós, é tudo isto. Mas não só.

É certo que o País mudou, e nem tudo foi mau. A rede viária, por vezes até com excessos desnecessários - que interesses estavam em causa? -, permite comunicação rápida. Pôs-se fim ao analfabetismo. Há nichos de excelência na investigação e no ensino. Houve alguma mudança nas mentalidades, a convivência com outras culturas e religiões é boa. Grandes camadas da população viram o seu nível de vida melhorado.

Mas, depois, há perguntas que inevitável e desesperadamente se colocam, e todas, quando se pensa na situação presente e no que aí vem, convergem para esta: como foi possível chegar à beira do abismo em que nos encontramos? (...)


Texto de Anselmo Borges no DN de hoje. Ler tudo aqui.

Morreu o compositor Henryk Górecki



O compositor polaco Henryk Górecki morreu ontem em Katowice, noticiou o Público. A Sinfonia n.º 3, a chamada "Sinfonia das Canções Tristes", editada em 1992 em homenagem às vítimas do Holocausto, é uma das suas obras mais conhecidas.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Estreia o filme "Dos Homens e dos Deuses"

Estreia esta semana o filme "Dos Homens e dos Deuses", de Xavier Beauvais, Grande Prémio do Festival de Cannes.


Oito monges católicos franceses vivem em harmonia com a população muçulmana, até que, progressivamente, a violência e o terror tomam conta da região. Apesar das ameaças, os religiosos decidem resistir ao terrorismo e ficar. Esta é a história verídica dos monges de Tibhirine, raptados e assassinados por um grupo de fundamentalistas islâmicos durante a guerra civil argelina, em 1996.  
(Nota de apresentação do Público).

Alguém que tenha visto o filme quer comentar aqui?


Informação complementar:  

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Juan Masiá debate livro de Anselmo Borges

A apresentação do livro «Religião e Diálogo Inter-Religioso», do teólogo e filósofo Anselmo Borges, da Universidade de Coimbra, será o pretexto para um colóquio a realizar pelo Centro de Reflexão Cristá, em Lisboa, no próximo dia 16, às 18h30. Nesta iniciativa, que decorrerá nas instalações do Centro Nacional de Cultura (Largo do Picadeiro, nº 10, 1º, Metro: Baixa-Chiado) está prevista a participação do teólogo jesuíta espanhol Juan Masiá (Universidade Sophia, Tóquio) e Miguel Oliveira da Silva (Universidade de Lisboa / Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida), seguida de debate moderado pelo autor do livro.

Secularismo: Teoria e Prática em Diálogo

"O secularismo é, sem dúvida, um dos alicerces da auto-imagem ideológica da Europa" afirmam, na respectiva apresentação, os organizadores do curso "Secularismo: Teoria e Prática em Diálogo", que o Centro de estudos Socaiis da Universidade de Coimbra organiza nos próximos dias 19 e 20.

Este curso de formação avançada irá apresentar um panorama das questões do secularismo, combinando várias disciplinas que o têm como objecto de investigação: teologia, filosofia, antropologia e sociologia. O curso de formação avançada será ainda complementado por uma discussão em mesa redonda com Fernando Catroga (FLUC) sobre o tema de uma das suas mais recentes obras – o secularismo e a república.
Oradores:
  • AbdoolKarim Vakil (Department of Spanish, Portuguese and Latin American Studies/ Department of History, King's College London )
  • Angelo Cardita (CES)
  • Clemens Zobel (CES)
  • João Cardoso Rosas (Universidade do Minho)
  • Mathias Thaler (CES)
  • Roberto Merrill (Universidade do Minho)
  • Silas Oliveira
  • Teresa Toldy (CES/Universidade Fernando Pessoa, Porto)
Inscrições até sexta-feira, dia 12, AQUI.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Arcebispo de Bruxelas: condutor em contramão, sob fogo mediático

A Igreja Católica da Bélgica encontra-se numa crise profunda, agravada de forma exponencial este ano, pelos casos de pedofilia entre membros do clero. Mas quando se esperaria que quem dirige a instituição mostrasse bom senso e equilíbrio, eis que o que sucede é exactamente o contrário: o seu responsável máximo parece apostado em atirar gasolina para o incêndio.
Tendo sucedido em Janeiro último ao cardeal Daneels, outrora um prestigiado membro da hierarquia da Igreja, mas que esteve nos últimos meses sob a acusação de ter dado cobertura a pelo menos um caso de abusos sexuais continuados, o do bispo de Bruges, o seu sucessor, o arcebispo-primaz André-Joseph Léonard, não se tem cansado de provocar a polémica. Primeiro, foi acusado de considerar a SIDA uma "justiça imanente", espécie de castigo para pessoas que abusaram do corpo. Noutra ocasião, referiu-se à homossexualidade em termos que suscitaram a associação a uma doença semelhante à anorexia. Mais recentemente, perante uma sociedade chocada com a Igreja por causa da pedofilia, foi ao ponto de sugerir que os padres acusados desse crime não deveriam ser punidos pelo poder eclesiástico, mas antes deveriam poder viver tranquilos os anos que lhes restam de vida.
A tudo isto o visado responde (extenso comunicado difundido ontem) considerando que se trata, em boa medida, de interpretações abusivas dos media e dos comentadores e de frases eventualmente retiradas do respectivo contexto. Sobre a doença de SIDA observa que se trata de umas afirmações feitas há cinco anos, num quadro de evolução da doença diverso do actual, e que ganham agora pertinência, com a tradução do livro de 2005 para flamengo. Relativamente à homossexualidade, recorda que se limitou, num debate televisivo, a comparar "a atitude que se adopta com as pessoas anoréxic e a que devemos ter para com as pessoas homossexuais", o que não autoriza a dizer-se tratar-se nos dois casos de pessoas "anormais" ou "doentes". Finalmente, acerca de padres pedófilos, observou que se referia a casos concretos de padres de idade avançada, alguns internados em lares, relativamente aos quais os crimes prescreveram e cujas vítimas se satisfizeram com o facto de os vitimizadores reconhecerem os abusos e pedirem perdão pelo que fizeram.
Pelo menos boa parte da opinião pública belga considera estar-se perante um hierarca desbocado. A verdade é que o mal-estar na Igreja daquele país tem-se vindo a acentuar nos últimos meses e há bispos, como de Namur, que fazem questão de se distanciar dos seus posicionamentos. Há dias, Léonard fez saber que se calaria até ao Natal, uma medida apoiada pelos responsáveis de duas revistas católicas do país, mas a promessa durou poucas horas e quem não aguentou mais foi o seu porta-voz, um jovem e prestigiado teólogo leigo que anunciou ontem, em comunicado, a demissão do cargo, salientando que "o copo transbordou". E comparou mesmo o arcebispo a um condutor em contramão, convencido de que todos os outros condutores é que estão errados. Declarações que configuram "algo nunca visto na história da Igreja da Bélgica", nas palavras do chefe de redacção da revista católica daquele país "Kerk & Leven".
O que é facto é que, como dizia recentemente um dirigente católico belga, a Igreja daquele país é uma "zona sinistrada" e os factos mais recentes não são de molde a reconstruir o que tem estado a desabar.
  • Comunicado do porta-voz do arcebispo André-Joseph Léonard AQUI.
  • Comunicado do arcebispo de Bruxelas: AQUI

Ordens Religiosas em congresso inédito



(Ilustração: Giotto, Aparição de Sao Francisco no Capítulo de Arles)

Começou esta terça-feira em Lisboa (vai até sexta) o Congresso Ordens e Congregações Religiosas em Portugal - Memória, Presença e Diásporas. Este é o texto da notícia publicada aqui.
Apesar dos conflitos entre a I República e a Igreja Católica em Portugal — incluindo a medida inicial da extinção das ordens religiosas —, houve mais congregações religiosas criadas nos anos do novo regime que nas nove décadas de monarquia constitucional.
Quem o diz é o historiador José Eduardo Franco, coordenador-geral da organização do congresso Ordens e Congregações Religiosas em Portugal, que decorre entre amanhã e sexta-feira na Fundação Gulbenkian, em Lisboa. Só nos últimos três anos de República (1923-26) foram criadas em Portugal cinco novas congregações religiosas, quatro das quais de origem portuguesa, um dado que será apresentado nestes dias do congresso.
Esta é a primeira iniciativa do género no mundo a reunir tantos especialistas — há mais de 180 conferencistas oriundos de todos os continentes, e 600 participantes. Nos quatro dias de debates, serão dissecados todos os aspectos relativos às primeiras “multinacionais” católicas, as primeiras organizações a fazer a globalização, como se lhes refere o historiador.
As congregações fundadas na I República foram as Servas de Nossa Senhora de Fátima, Criaditas dos Pobres, Oblatas do Divino Coração e Religiosas Reparadoras de Nossa Senhora das Dores de Fátima. De França, veio a primeira comunidade das Irmãs da Apresentação de Maria.
No tempo da Monarquia constitucional, apenas tinham sido criadas duas congregações religiosas: as Dominicanas de Santa Catarina de Sena, por iniciativa de Teresa de Saldanha, e as Irmãs Vitorianas, dinamizadas por Mary Wilson, uma inglesa que vivia no Funchal.
O próprio Afonso Costa, líder republicano, “começou a tolerar a existência de hospitais” pertencentes a ordens religiosas, diz Eduardo Franco. Mas as medidas da I República “só fizeram bem, porque tiveram um efeito propulsor” para a acção das ordens religiosas, avalia o historiador.
Questões de natureza social, teológica, antropológica, histórica, patrimonial ou artística serão dissecadas nestes quatro dias. A par das polémicas e do papel das ordens religiosas na educação, saúde, cultura, missionação, povoamento do país e reconquista.

Em 1910, havia 33 institutos religiosos em Portugal, com mais de 3100 membros e 80 colégios (dos quais 26 continuaram a funcionar). Em 2008 eram 139 as congregações em Portugal (100 femininas), com mais de 6500 membros (das quais 5200 freiras). Das mais de 180 escolas católicas existentes no país, quase todas são de ordens e congregações.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

"Estas coisas"

«Bendigo-te, ó Pai, Senhor do Céu e da Terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e aos entendidos e as revelaste aos pequeninos. 
Sim, ó Pai, porque isso foi do teu agrado. 
Tudo me foi entregue por meu Pai; e ninguém conhece o Filho senão o Pai, como ninguém conhece o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar.» 
«Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, que Eu hei-de aliviar-vos. 
Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração e encontrareis descanso para o vosso espírito. 
Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve.» 
[Jesus in Mt. 11, 25-30]


Uma vez, um sábio camponês de cabelos brancos aproximou-se com ar de apoquentado com esta questão: "Como é possível uma pessoa com muita instrução cometer um crime?". Comentava sob a forma de pergunta uma notícia ouvida no rádio. Ingénuo, se lhe poderia chamar. Sábio, antes, ainda que ingénuo.

sábado, 30 de outubro de 2010

Anselmo Borges: Os finados

Anselmo Borges no DN de hoje:

Característica essencial do nosso tempo é fazer da morte tabu, talvez o último tabu. Nunca tinha acontecido na história da humanidade.

De qualquer modo, as nossas sociedades ainda mantêm dois dias por ano (1 e 2 de Novembro) em que permitem a visita dos mortos. Os cemitérios enchem-se e as pessoas ali estão ou por ali andam, numa recordação, talvez numa prece, num choro íntimo ou exteriorizado, e interrogando-se sobre o mistério da morte, esse mistério absolutamente opaco e laminante. Ler mais aqui.

Na Suécia é assim...


Ao ver este vídeo sobre a vida dos Deputados suecos, quando estão na capital, em serviço, é difícil não fazer comparações, mesmo correndo o risco de alguma demagogia. Eu conheço um ou outro caso, em Portugal, mesmo de ministro, que não anda longe do retrato aqui pintado. Mas a nossa "cultura" é bem outra: exercer cargos públicos (e privados) significa mudar de vida, exibir prerrogativas, subir no status. Como se o valor estivesse associado a este tipo de sinais e de estilo de vida.
É a mesma coisa com o exercício de outro tipo de cargos, dos mais altos aos mais humildes, nos mais diversos sectores: exercê-los significa para muitos - independentemente de ideologias, arranjar criados que lhes façam serviços, em vez de prestarem eles próprios serviço aos outros.
Enquanto assim for, "não vamos lá"! Até a crise se enfrentaria melhor. Ou não?

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

O que nos pede a crise, segundo a JOC e a LOC/MTC

(imagem reproduzida daqui)

As equipas executivas da Juventude Operária Católica e da Liga Operária Católica/Movimento de Trabalhadores Cristãos acabam de divulgar um comunicado sobre o actual momento de crise. Um texto que vale a pena ler e debater:

O momento que vivemos marcado principalmente: pelo trabalho precário e desemprego estruturante, geradores de muitas angústias e incertezas na vida dos trabalhadores, dos jovens e das famílias; pela situação económica e social e as políticas neoliberais que visam o emagrecimento do estado através dos cortes nas despesas sociais, motivaram uma reflexão conjunta da JOC – Juventude Operária Católica e da LOC/MTC – Liga Operária Católica/Movimento de Trabalhadores Cristãos, a qual tornamos pública.

Vivendo num tempo de grande evolução tecnológica e científica, com algum progresso económico e social, constatamos o acentuar escandaloso das desigualdades, que tem provocado um aumento da pobreza e da exclusão social. Sublinha-se ainda a baixa produtividade, a corrupção e a economia paralela como factores que agravam ainda mais a situação. Deste modo continuamos a assistir a um desenvolvimento económico sem regras nem ética, onde muita da riqueza criada vem da especulação financeira.

Constantemente é questionado o estado social e diminuídos os apoios, quando estes foram uma solução imediata para muitos homens e mulheres que, ao fim de muitos anos de trabalho produtivo e criador de riqueza se viram sem trabalho. Para milhares de trabalhadores e de outros cidadãos mais pobres, são o subsídio de desemprego ou o precário rendimento de inserção social que lhes permite continuar a sobreviver nesta sociedade.
Sentimo-nos indignados porque cresce na União Europeia da liberdade, da democracia e da carta social a ideia de que a imigração é também causa dos problemas económicos e do aumento dos conflitos sociais, levando a um crescente sentimento xenófobo, quando as realidades e as estatísticas comprovam o grande contributo dos imigrantes no desenvolvimento económico, no crescimento demográfico e na riqueza da diversidade cultural.

É inadmissível que sejam os bancos e o poder económico a impor as regras dos financiamentos das dívidas públicas e privadas com as incertezas e as especulações que continuamos a assistir.

As principais vítimas destes usurpadores de riqueza não produtiva e insustentável, são os países que enfrentam actualmente dificuldades financeiras, com défices orçamentais e dívida pública, mas os mais sacrificados são os trabalhadores e as populações mais pobres.

Apesar das realidades, dos fazedores de opinião pública e das estruturas do poder nos fazerem crer que não há outro caminho, nós reafirmamos com convicção que é possível e viável outro modelo de desenvolvimento mais justo que visa em primeiro lugar a dignidade da pessoa e não o lucro. Provam-no a história do movimento operário, o contributo dos trabalhadores e a nossa fé sustentada no projecto de Deus para a humanidade.

Para alterar o actual modelo de desenvolvimento e criar uma nova ordem mundial, como referiu o papa Bento XVI aquando do despoletar da crise económica, necessitamos:

• De uma União Europeia forte, que aposte no desenvolvimento democrático, social e equitativo, como sempre foram os seus princípios; que crie regulamentação e vigilância sobre os capitais e as offshore; que se revejam também os altos salários e as reformas dos cargos públicos e privados.

• De concretizar uma democracia mais participativa, principalmente nas autarquias e nas comunidades, de forma a serem encontradas respostas concretas e eficazes para as dificuldades e pobreza com que nos confrontamos.

• De rever urgentemente os nossos níveis de consumo, tanto do estado, como dos privados e principalmente das famílias. Por isso reprovamos a medida tomada, que incentiva a abertura dos estabelecimentos comerciais ao Domingo.

Como movimentos operários cristãos propomo-nos:

• Incentivar as comunidades cristãs a terem mais presente na sua reflexão e acção pastoral aquilo que são as angústias e anseios dos trabalhadores, dos jovens e desempregados a fim de contribuírem, à luz do Evangelho e do Ensino Social da Igreja, para uma sociedade mais humanizada.

• Apelar aos militantes dos movimentos operários cristãos para participar nas estruturas sindicais, sociais e eclesiais, no sentido de fazer destes, espaços de denúncia e busca de propostas de acção que levem a uma transformação fazendo renascer a esperança dos trabalhadores.

• Sensibilizar os trabalhadores, jovens, desempregados e reformados a viverem efectivamente a sua cidadania em todas as possíveis expressões que contribuam para a dignificação da pessoa.

Lisboa, 29 de Outubro de 2010

As equipas executivas da JOC e da LOC/MTC