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sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

O Papa face aos abusos sexuais do clero: alguns sinais de intranquilidade


“Nos últimos anos, pensávamos que os líderes religiosos punidos tinham começado a corrigir os erros do passado. Estávamos enganados. O Sumo Pontífice aparentemente não aprendeu essa lição”, afirma o editorial desta terça-feira do National Catholic Reporter, aqui traduzido por Luísa Flores Somavilla para a página do Instituto Humanitas da Unisinos (Brasil). Eis o texto:

É difícil sequer imaginar o sofrimento que as vítimas de abuso sexual clerical tiveram de suportar. Depois de serem estupradas ou violentadas por pessoas que suas comunidades tinham lhes ensinado a ver como quase infalíveis, muitos foram mantidos em silêncio por décadas, envergonhadas ou apenas sem conseguir falar.
Quando realmente se pronunciaram, seus motivos foram questionados e sua integridade contestada. Foram atacadas, vitimadas novamente, em processos judiciais e pronunciamentos públicos, já que bispos, advogados diocesanos e autoridades da igreja negaram as acusações.
A história mostrou que a maioria das vítimas estava dizendo a verdade. Qualquer reforma que aconteceu na Igreja deve-se à sua determinação corajosa. A hierarquia foi apanhada em suas mentiras e humilhada, mas não antes de uma série de fiéis desconhecidos serem expulsos da Igreja Católica. O escândalo custou a autoridade moral da Igreja, sua credibilidade e bilhões de dólares.
Nos últimos anos, pensávamos que os líderes religiosos punidos tinham começado a corrigir os erros do passado. Estávamos enganados. O Sumo Pontífice aparentemente não aprendeu essa lição.
Em quatro dias, o Papa Francisco caluniou vítimas de abuso duas vezes. No voo papal do Peru, em 21 de janeiro, ele voltou a chamar o testemunho contra o bispo chileno Juan Barros Madrid de "calúnia". Apesar do relato de pelo menos três vítimas em contrário, ele voltou a dizer que não havia visto provas do envolvimento de Barros em um encobrimento para proteger o notório abusador Pe. Fernando Karadima.
Essas observações são no mínimo vergonhosas. No máximo, sugerem que Francisco poderia ter-se tornado cúmplice do encobrimento. O roteiro é bastante familiar: desacreditar o testemunho das vítimas, apoiar o prelado em questão e contar com o fato de a atenção pública passar para outra coisa. 

sábado, 18 de julho de 2015

Pedofilia na Igreja e acusações: é preciso bom senso

Na última quinta-feira, a diocese de Coimbra publicou um comunicado no seu site, pedindo a quem tenha informações sobre casos concretos de abusos de menores por membros do clero que denuncie essas situações aos responsáveis diocesanos.
O caso foi contado pelo DNque adianta que a Polícia Judiciária iniciou entretanto uma investigação, uma vez que se trata de um crime público (na notícia, quando se refere o caso do Fundão, deve corrigir-se que não é da diocese de Coimbra, mas da Guarda).
No ionline conta-se também a história, referindo mais pormenores, a partir das acusações do blogue que esteve na origem deste casoEsse blogue aponta nomes concretos, mas um dos visados admitiu já processar o(s) autor(es) de tal informação, por difamação.
O comunicado foi publicado na página da diocese de Coimbra na internet e pode ser lido aqui.
Nesse documento, de Abril de 2012, o episcopado estabelece que as instituições da Igreja – nomeadamente as dioceses – devem prestar toda a colaboração às entidades competentes, às vítimas e suas famílias e que cada bispo deve também desencadear um processo canónico, quando haja matéria para tal.
Se eventualmente há algum fundamento nas acusações feitas no blogue, e porque haverá várias dioceses envolvidas, a primeira atitude deveria ter sido que os diferentes bispos se pusessem de acordo sobre eventuais procedimentos. Em seguida, o caso deveria ter sido entregue às autoridades. Por isso, publiquei este sábado no Diário de Notícias um pequeno comentário sobre o tema, defendendo que o caso deveria ter sido gerido de outra maneira - o comunicado não tem consequência concreta a não ser a de pedir que sejam comunicadas informações a quem as tenha e levantar mais suspeitas. Sob o título Bom senso, o texto pode ser lido aqui.

domingo, 13 de maio de 2012

Abusos sexuais do clero: dez anos depois

São passados dez anos sobre a eclosão, nos Estados Unidos da América, do escândalo do abuso sexual sobre crianças e adolescentes por parte de membros do clero, na sua maioria na segunda metade do séc. XX. A onda de denúncias de abusos semelhantes propagou-se, entretanto, a outras partes do mundo. O Vaticano e diversos episcopados, sob a égide do atual Papa, tomaram, na última década, medidas para lidar com estas situações e prevenir novos casos. Mas inúmeros aspetos se mantêm em aberto e muitas mais questões continuam sem ser afrontadas. Nesta sexta-feira, um conjunto de personalidades reuniu-se na Universidade de Santa Clara, na Califórnia, para uma espécie de ponto de situação. Intitulou-se a conferência “Clergy Sexual Abuse Ten Years Later”. Um dos conferencistas convidados foi o padre jesuita Thomas J. Reese, do Woodstock Theological Center em Georgetown e antigo diretor editorial da revista America. As notas que se seguem são extratos da sua conferência:
"Primeiro, acho que a igreja - e por igreja eu quero dizer tanto o clero como o povo de
Deus - precisa de re-equacionar a sua atitude para com os sobreviventes de abuso sexual. (...) [N]ão devemos olhar para as vítimas de abuso simplesmente como clientes ou problemas com que temos de lidar (...) precisamos de ver os sobreviventes de abuso como pessoas que podem ensinar-nos o que significa ser cristão, o que significa ser igreja. Ninguém que ouve as suas histórias pode deixar de ser tocado por eles. Isto significa que não podemos responder a cada nova vítima que surge com "Oh, não, mais outro!" Ao contrário, temos de vê-los como parte integrante da nossa comunidade, pessoas que devem ser acolhidas. Tal atitude encorajaria a igreja a chegar aos milhares de vítimas de abuso sexual que não se manifestaram. Queremos que eles se cheguem à frente, a igreja precisa deles". (...)

"Terceiro, nós ainda não temos um sistema orientado para a prestação de contas por parte dos bispos. É uma desgraça que só um bispo (o Cardeal Law) se tenha demitido por causa de sua incapacidade de lidar com a crise de abuso sexual. A igreja seria um lugar muito melhor, hoje, se 30 ou mais bispos se tivessem levantado, reconhecido os seus erros, assumido responsabilidades integrais, pedido desculpas e se tivessem demitido. É suposto que um pastor dê a vida pelas suas ovelhas; estes homens não estiveram dispostos a depor o báculo para o bem da igreja".
Os bispos também têm que estugar o passo e fiscalizar-se a si próprios. Eu sei que "à luz do Direito Canónico, só o papa pode julgar um bispo". Mas há muitas coisas que os bispos podem fazer, em todo o caso. Primeiro, devem falar e criticar publicamente aqueles bispos que não estão a seguir a 'carta' [com as normas a seguir relativamente a casos de abusos sexuais do clero, de 2002] ou que falham nas suas responsabilidades. Os bispos, incluindo, claro está, o presidente da conferência episcopal, devem poder dizer "Que vergonha, bispo, ponha a sua casa em ordem". Isto não é um julgamento canónico, é correção fraterna. O Vaticano também precisa de fazer a sua parte. Parece não ter qualquer problema quando se trata de investigar freiras e teólogos, mas investigar um bispo por má gestão não é uma prioridade. Um bispo pode ser rapidamente removido na Austrália por sugerir a necessidade de discutir o tema da ordenação das mulheres e de padres casados, mas já os bispos que falharam na gestão dos abusos sobre crianças não são removidos. Apenas o foram, em alguns cssos, na Irlanda por ação de um arcebispo corajoso e da pressão do primeiro-ministro e do governo.(...)"

"O problema hoje, na Igreja Católica, é que a sua hierarquia se centrou tanto na obediência e no controle que perdeu a capacidade de ser uma instituição de correção fraterna. A hierarquia ataca os teólogos criativos, investiga as religiosas, censura as publicações católicas convertendo a lealdade na virtude mais importante. Tais ações são justificadas pela hierarquia por causa do temor de "escandalizar os fiéis", quando na verdade foi a hierarquia que os escandalizou".


Ler o texto integral, em inglês, AQUI.

domingo, 14 de novembro de 2010

Causas dos abusos sexuais por parte de membros do clero

A questão central com que a Igreja deveria lidar, na gestão dos múltiplos casos de abuso sexual de membros do clero sobre crianças em diferentes partes do mundo está na questão e na natureza do poder, no interior da instituição eclesiástica. Esta é a perspectiva do Pe. Tom P. Doyle, dominicano e doutorado em Direito Canónico, que há mais de 25 anos fez da intervenção sobre este problema a causa da sua vida. Em 1984, renunciou a uma carreira como canonista e diplomata, ao abandonar o lugar de especialista em Direito Canónico na Nunciatura do Vaticano em Washington, para se dedicar ao trabalho com as vítimas de abusos e respectivas famílias, assim como com a bispos e outros altos responsáveis da Igreja, nas dimensões canónica e pastoral.
O vídeo refere-se a uma conferência que fez na semana passada em Sidney, Austrália, na Inaugural Australasian Clergy Abuse Reparation & Prevention Conference .



Informação complementar:

terça-feira, 8 de junho de 2010

Excomunhão: um caso na América

Nos finais de 2009, o St. Joseph’s Hospital and Medical Center, de Phoenix, Estados Unidos da América, desencadeou o aborto de uma mulher de 27 anos grávida de um bebé de 11 semanas, para salvar a vida da mãe, já com quatro filhos e que sofria de hipertensão pulmonar (1). A mulher estava tão mal que os médicos lhe comunicaram que morreria se não se pusesse fim à gravidez.

Na decisão interveio uma religiosa com responsabilidades na unidade hospitalar e membro do seu conselho de ética, apoiando a decisão de provocar o aborto.

Em Maio último, quando teve conhecimento do caso, o bispo de Phoenix divulgou uma declaração em que anunciava a excomunhão da religiosa, com base no facto de ocupar um cargo de responsabilidade no hospital e de ter considerado que o aborto [nestas circunstâncias] era moralmente bom e aceitável à luz da doutrina da Igreja.

O caso, que provocou alguma polémica, acabou por não desencadear reacções de maior na ocasião, até porque a freira excomungada se recusou a comentar a situação. Contudo, nas últimas semanas, vários professores de teologia moral têm questionado aspectos, nomeadamente pastorais, implicados nesta decisão de excomunhão. Uma das críticas relaciona-se com a proporcionalidade, dada a situação em que a grávida se encontrava, a qual comprometia inevitavelmente também a vida do bebé. Mas proporcionalidade também por comparação com outras situações de grande gravidade ético-moral, em que a prática pastoral da Igreja está longe de ser levada ao mesmo extremo (casos de apoio à pena de morte ou à guerra, ou abusos e violação sexual de crianças por parte de membros do clero, por exemplo).

Mas a questão é também a do princípio teológico segundo o qual "a única opção moral é não interferir e deixar que a mulher morra e o feto morra com ela".
Uma questão que se coloca é esta: se se sabe com segurança que não se pode salvar a criança, poderá ela entrar no quadro moral que leva a deixar morrer a mãe?

Fonte: National Catholic Reporter, "Ethicists fault bishop’s action in Phoenix abortion case", June 8, 2010.

(1) Sobre hipertensão pulmonar, ver, por exemplo:
Roberts NV, Keast PJ. Pulmonary hypertension and pregnancy—a lethal combination. Anaesth Intens Care 1990; 18: 366–74
L. Monnery, J. Nanson and G. Charlton. Primary pulmonary hypertension in pregnancy; a role for novel vasodilators. British Journal of Anaesthesia, 2001, Vol. 87, No. 2 295-298

quarta-feira, 31 de março de 2010

A maior crise da Igreja Católica dos últimos 100 anos

(Ilustração: Marc Chagall, A Crucifixão Branca, 1938)

O texto a que o anterior post faz referência está no site do Público; como corresponde a uma sintese de vários debates sobre a questão dos abusos sexuais por parte de membros do clero fica agora aqui também à disposiçao dos leitores do Religionline. Mas devo chamar a atenção também para o post anterior e para as várias questões que ali se levantam. Não há mais margem para continuar a ignorar os debates necessários e a importância da participação dos crentes (e que não sejam os mesmos de sempre). Fica aqui então o texto, que saiu também (numa versão um pouco mais curta) na edição de domingo passado do jornal:

A Igreja Católica atravessa a mais profunda crise do último século. Para encontrar algo de dimensão semelhante, devemos recuar até ao início do século XX, com o anti-modernismo do Papa Pio X. Ou antes, a 1870 e ao Concílio Vaticano I, com o dogma da infalibilidade papal, o cisma dos velho-católicos e o fim dos Estados Pontifícios. Há uma diferença: esta crise atinge um catolicismo universal, ao contrário do de há um século, quando ainda era uma realidade pouco mais que europeia.
Há várias questões à volta deste tema que, de repente, coloca um Papa académico perante um dos mais graves problemas pastorais da Igreja. Será ele capaz de afrontar o problema com a coragem necessária?
Ratzinger é um teólogo notável no diálogo cultural, mesmo com filósofos não-crentes como Jürgen Habermas ou Paolo Flores d’Arcais (como se pode perceber em Existe Deus?, editado na Pedra Angular). Eleito para um pontificado de transição, cuja marca seria afirmar a importância do facto cristão no diálogo multicultural contemporâneo, Bento XVI tem o desafio de “limpar a Igreja” da sua sujidade, como ele próprio afirmou na Via-Sacra de Sexta-Feira Santa de 2005, poucos dias antes da morte de João Paulo II.

1. Esta crise, como diz o étimo da palavra, pode ser uma oportunidade de mudança. A começar pela relação entre catolicismo e sexualidade – que o teólogo Hans Küng definiu como uma “relação crispada”. Não para dizer que o celibato é a causa da pedofilia. O celibato como opção voluntária pode ser dedicação extraordinária a uma comunidade. Como disciplina obrigatória (com excepções nas Igrejas Católicas orientais ligadas a Roma e, agora, com os anglicanos que decidiram aderir ao catolicismo), poderá ser revisto.
É certo que a esmagadora maioria de casos de abusos acontece com pais e familiares próximos das crianças. Como escrevia o Papa na carta aos católicos irlandeses, a pedofilia não é um problema que se restringe aquele país nem à Igreja Católica. Bem pelo contrário. Mas encarar a questão da sexualidade significa afrontar, desde logo, a formação nos seminários, tantas vezes castradora de afectos. E que é uma das causas profundas da pedofilia entre membros do clero.
A Igreja tem, na sua base bíblica e evangélica, uma fonte harmónica e integral que séculos de moralismo esconderam. Ao contrário do que diz Saramago, a Bíblia não é um manual de maus costumes. Mas, ao contrário do que pensam e dizem muitos católicos, ela tão pouco é um manual de bons costumes. A Bíblia é sobretudo uma proposta de relação – do ser humano com Deus e entre os seres humanos como imagem de Deus.
Aqui reside uma primeira dificuldade no exercício que a Igreja terá de fazer: muitos responsáveis católicos insistem numa abordagem dualista, legalista e pecaminosa (numa perspectiva greco-romana) da sexualidade. E que tem sido geradora de hipocrisias.

2. A crispada relação com a sexualidade reflecte-se também no modo como a doutrina católica olha a contracepção – e o preservativo, nomeadamente. Há quatro décadas, a encíclica Humanae Vitae interditou os métodos “artificiais” de planeamento familiar, apenas porque alguns cardeais da Cúria Romana não aceitavam a mudança doutrinal proposta por uma vasta comissão de médicos, teólogos e casais.
Se o Papa Paulo VI (que encarava a possibilidade de mudar a posição oficial) não tivesse cedido à pressão da Cúria, o preservativo não seria hoje um tabu doutrinal (mesmo se distribuído aos milhares por freiras e padres comprometidos na luta contra a sida, por exemplo). E o catolicismo das últimas décadas teria sido bem diferente.
Esta relação difícil do catolicismo oficial com a sexualidade tem manifestações visíveis como os abusos sexuais cometidos por padres sobre religiosas, em África, conhecidos há uma década; ou o padre mexicano Marcial Maciel, fundador dos Legionários de Cristo, de quem se sabe que teve filhos de várias mulheres às quais ocultava a sua identidade, foi pedófilo, incestuoso e toxicodependente.
A instituição por ele fundada é exemplo dos grupos católicos que hoje, na Igreja, insistem na perspectiva moralista e para os quais a vida só importa quando se fala de aborto, preservativo ou homossexualidade.
Não é de estranhar que mais se condene quem mais moralismo apregoa e acaba por ter tantos pecados (ou crimes) no seu interior. Com uma agravante: as pessoas que confiavam os seus filhos a responsáveis da Igreja eram, em grande parte, membros da própria comunidade cristã. Para elas, o sentimento de terem sido traídas por aqueles em quem confiavam é esmagador.

3. A acusação de encobrimento atinge agora o próprio Papa. Na carta que escreveu aos irlandeses, há oito dias, Bento XVI acusa vários bispos de terem falhado “por vezes gravemente”. Seria estranho que o Papa tivesse escrito o que escreveu, se tivesse telhados de vidro. De outra forma, estaria agora sob escrutínio e sem autoridade perante os seus “irmãos bispos”.
Pode haver aqui duas coisas diferentes. Como prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé (CDF), Joseph Ratzinger conhecia, obviamente, vários casos. Mas pode ser forçado dizer que os encobriu. O mais emblemático, noticiado pelo “New York Times” esta semana, revela que nem os poderes públicos agiram sobre o padre que abusou de 200 crianças – tal como aconteceu na Irlanda. E que Ratzinger só conheceu duas décadas depois dos factos.
O célebre documento de 1962 (que Ratzinger, então um padre com 35 anos, não escreveu, ao contrário do que muita ignorância afirma por aí), que defendia o secretismo, foi depois substituído em 2001, não para prosseguir a mesma orientação, mas para dar um passo em frente: o de obrigar os bispos a comunicar os casos de pedofilia ao Vaticano. Só nessa ocasião Ratzinger e a CDF passam a tomar conta destes casos, quando a questão já era um escândalo nos Estados Unidos (dois anos depois, João Paulo II chamaria vários bispos dos EUA para enfrentar a crise, pela primeira vez, de forma dramática). Só o total esclarecimento do papel do Papa em cada caso poderá aclarar de vez a sua quota-parte de responsabilidade – isso mesmo já foi pedido há dias pelo “National Catholic Repórter”.

4. O encobrimento e a tolerância social da pedofilia era a atitude normal até há três ou quatro décadas – o caso Polanski reapareceu a recordá-lo.
Durante séculos, a Igreja Católica entendeu-se como sociedade perfeita, sem necessidade de instâncias civis: tinha os seus tribunais, as suas penas, chegou a ter as suas prisões.
Também sabemos que a comunicação social é mais severa com a Igreja Católica do que com outros. E desproporcional: dá-se sempre mais dimensão aos escândalos do que aos caminhos de solução ou aos resultados, omite-se que o fenómeno atinge uma pequeníssima minoria do clero (embora bastasse um caso para que fosse grave). Sabe-se que os números aparecidos na Alemanha nas últimas semanas são resultado do trabalho iniciado pela Conferência Episcopal quando surgiram os casos nos Estados Unidos – mas isto também quase não é dito.
Mas desde 1990 há uma avalanche de casos. O que se passou na Irlanda, que durou até há poucos anos, mostra que não se atalhou o problema logo que ele começou. Em 1993, os bispos do Canadá publicaram um extenso documento com uma reflexão profunda sobre o tema e propostas de solução – que tiveram sucesso. O caminho deveria ter sido seguido em outros países.
Por isso não se entende a lamentável e infeliz declaração do cardeal Saraiva Martins: a Igreja é pela “tolerância zero”, mas não lava a “roupa suja” em público. Há mais de 60 anos, o Papa Pio XII dizia que a opinião pública é “vital” para a Igreja. Entenda-se, portanto, que a lavagem de “roupa suja” em público mais não é que uma desafortunada expressão para referir o debate interno, que está na matriz genética do cristianismo. E foi pela falta de tolerância zero que se chegou aqui.

5. A mês e meio da viagem de Bento XVI a Portugal, percebe-se que a crise continuará a revelar mais casos. Como em todas as histórias, percebe-se que também há interessados em atingir a credibilidade da Igreja. Mas esta tem que ser a primeira a reflectir o porquê dessa aversão e a procurar razões no seu interior – uma atitude própria desta Semana Santa que os cristãos hoje começam a viver. O cerco à volta de Ratzinger também continuará. Será, por isso, um Papa ferido aquele que virá a Portugal. Talvez rodeado por grupos interessados prioritariamente em defender a instituição dos “ataques” – já correm textos nesse sentido na Internet, em blogues, em mails…
Convém não esquecer que foi a preocupação pela defesa da honra da instituição que levou ao actual estado de coisas. Só uma atitude purificadora e aberta à mudança permitirá à Igreja recuperar a credibilidade perdida nesta crise. Os cristãos chamam a esse acontecimento ressurreição. E celebram-na no próximo domingo.

sábado, 27 de março de 2010

"Circunstâncias extraordinárias requerem respostas extraordinárias"

A revista norte-americana National Catholic Reporter, em editorial publicado ontem no seu site, considera que o papa Bento XVI deveria explicar-se e esclarecer todas as dúvidas relativamente ao seu papel no lidar, enquanto responsável da Igreja, com casos de pedofilia de membros do clero.
"O Santo Padre deve responder directamente, num forum credível, a questões acerca do papel que desempenhou como arcebispo de Munique (1977-82), como prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé (1982-2005) e como papa (desde 2005 até ao presente) na (má) gestão da crise sobre abusos sexuais de clérigos", escreve o editorial.
O pedido é feito - acrescenta a posição - "não primariamente enquanto jornalistas que procuram a notícia, mas como católicos que entendem que circunstâncias extraordinárias requerem respostas extraordinárias".
Esta tomada de posição segue-se a notícias dos últimos dois dias do diário the The New York Times, segundo as quais indiciadoras de que o papa dificilmente poderia não ter sido minimamente informado da gravidade de alguns casos, quer nos Estados Unidos da América (enquanto prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé) quer antes, na Alemanha (enquanto arcebispo de Munique). Recorde-se que o Vaticano reagiu a estas notícias considerando-as mais uma etapa de "ataque ignóbil" à figura do papa.