quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Festa do Yom Kipur: acrescentar misericórdia à justiça – e o que faz aqui Nina Simone?



O que faz um homem que errou e não sabe para onde voltar-se em busca da redenção? Em Sinnerman, Nina Simone canta esse homem que corre, corre e não encontra onde esconder-se – e que apenas encontra a paz quando se socorre de Deus e do seu refúgio.
“Mais do que expressar a nossa fé em Deus, o Yom Kipur é a expressão da fé de Deus em nós”, escreve o rabi judeu inglês Jonathan Sacks, a propósito da festa que os judeus de todo o mundo assinalam desde a noite de 18 de Setembro ao fim da tarde de 19 de Setembro, no décimo dia do sétimo mês – o mês de Tishrei.  “Para aqueles que se abrem totalmente a ele, o Yom Kipur é uma experiência transformadora de vida. Diz-nos que Deus, que criou o universo em amor e perdão, nos alcança em amor e perdão, pedindo-nos para amar e perdoar os outros. Deus nunca nos pediu para não cometer erros. Tudo o que Ele pede é que reconheçamos os nossos erros, aprendamos com eles, cresçamos através deles e façamos as pazes onde pudermos”, escreve ainda, num texto com o título Yom Kipur – como ele nos salva, que pode ser lido aqui, na íntegra, em inglês. 
O Yom Kipur, a Festa do Perdão, fala da possibilidade do erro e da possibilidade da purificação. Concluindo o período de dez dias da festa de Rosh Hashaná (literalmente, a “cabeça do ano”, ou Ano Novo judaico), Yom Kipur é a festa maior do judaísmo, assinalada por um jejum de 24 horas. Os cultos das sinagogas sucedem-se, como explica o rabi Marcelo M. Guimarães neste texto, que lê mesmo nas palavras de Paulo, na Carta aos Romanos – “Que homem miserável sou eu! Quem me há-de libertar deste corpo que pertence à morte?” – alguma influência das orações do dia da expiação (Marcelo Guimarães integra a Associação Ministério Ensinando de Sião, que reúne judeus, não-judeus e descendentes de judeus que acreditam em que Jesus, Yeshua haMashiasch é o Messias de Israel). (Ao lado: James Tissot, Agnus Dei. O bode expiatório (1894), Museu de Brooklyn, Nova Iorque, EUA; ilustração reproduzida daqui)

terça-feira, 18 de setembro de 2018

Uma rota para respirar o tempo

Exposição
Texto de António Marujo


Santa Maria da Graça; séc. XVI (1º quartel), 
autor desconhecido, prov. Catedral de Setúbal
(Foto © Manuel Costa/Agência Ecclesia)

Quando se entra, três grandes ecrãs dão o mote a esta exposição diferente: neles se vêem imagens, captadas com uma câmara fixa, dos claustros das catedrais do Porto, Santarém e Évora. Vêem-se pessoas a atravessar uma ala do claustro, saem da imagem, surgem pessoas noutro ecrã e saem de novo na nossa direcção ou caminham em sentido contrário. As catedrais são espaços vivos, dizem-nos as imagens. São utilizadas e visitadas, são lugares onde se respira o tempo, na articulação entre o passado que as construiu, o presente que ali se vive e o futuro que promete mais vida ainda. 
Assim a exposição Na Rota das Catedrais: Construções (d)e Identidades possa contribuir para isso. Patente no Palácio Nacional da Ajuda até final deste mês (desde 28 de Junho), ela traz, até junto do grande público, tesouros de 26 catedrais portuguesas (as 20 das dioceses existentes, mais quatro antigas (Bragança, Coimbra, Elvas e Silves), mais duas con-catedrais (Miranda e Castelo Branco). 
Esta exposição consubstancia ainda a ideia de uma rota a ligar o país, lugares que ajudaram a estruturar a geografia, o urbanismo e a cultura. Enfim, a estruturar identidades, como se sugere no título: “Pelas catedrais passa a história de Portugal, passa a história da arte portuguesa, passa a história das mentalidades, da sociedade, da religião, do conhecimento, da arquitectura, da urbanidade, dos valores civilizacionais em que nos revemos e identificamos”, escreve Paula Araújo da Silva, directora-geral do Património Cultural, no texto de apresentação do roteiro da mostra.  


Menino Jesus da Cartolinha; séc. XVII, autor desconhecido,  
prov. Catedral de Miranda do Douro
(Foto © Manuel Costa/Agência Ecclesia)


No livro, podem ver-se fotos de todas as catedrais recenseadas e perceber os diferentes estilos arquitectónicos presentes, muitas vezes cruzados no mesmo edifício, pelas reconstruções ou remodelações que foram sofrendo: românico, gótico, barroco, neoclássico, contemporâneo... Seria interessante, aliás, que no roteiro se tivessem publicado alguns dados “biográficos”, sobre anos e épocas de construção ou remodelações e acrescentos principais, autores conhecidos e peças mais importantes, por exemplo. 

segunda-feira, 17 de setembro de 2018

África do Sul na encruzilhada da xenofobia, violência e mentalidade mítica

Texto de Maria Wilton


Bairro na periferia da Cidade do Cabo: a África do Sul 
é a segunda economia “mais miserável do mundo”
(Foto © José Rebelo)

“O que sentimos é que [as igrejas não têm] um grande apelo sobre as pessoas. Questões culturais como a crença nos espíritos e na cura são difíceis de penetrar e fazem com que nós, os católicos, sejamos considerados estranhos.” A afirmação é do padre José Rebelo, dos Missionários Combonianos, 57 anos, a viver em Pretória, África do Sul, há sete anos. A trabalhar no país pela segunda vez, depois de ali ter estado no final do regime do apartheid, José Rebelo está, agora, a dirigir a revista WorldWidedos Combonianos. E descreve a realidade altamente desigual e pobre que encontrou na nação pós-regime do apartheid e depois da presidência de Jacob Zuma (2009-2018), acusado de estar envolvido em escândalos de corrupção.
Um dos problemas graves no país é também o da violência xenófoba. Na semana passada, o arcebispo de Joanesburgo, Buti Joseph Tlhagale, denunciou ataques de violência xenófoba ocorridos em Zeerust e Soweto. Pelo menos quatro comerciantes estrangeiros perderam a vida: “Mais uma vez, tivemos de ver fotos de bem vestidos e bem alimentados sul-africanos a pilhar lojas de estrangeiros, atacando os donos e deixando para trás devastação e mortes”, afirmava, citado pela agência Fides, o também presidente do Instituto para os Migrantes e Refugiados da Conferência Episcopal da África Austral (África do Sul, Botswana e Suazilândia). 


Arcebispo de Joanesburgo, Buti Joseph Tlhagale 
(Foto © José Rebelo)

De acordo com o sítio de informação financeira Bloomberg, a África do Sul é a segunda economia “mais miserável do mundo” (apenas atrás da Venezuela), com uma das maiores taxas de desemprego do mundo (27,5 por cento) e com uma alta inflação (5,1 por cento).
Adicionalmente, relatórios da polícia nacional divulgados pelo The Guardian dão conta de uma subida da taxa de homicídios em mais de sete por cento, com um total de 20 mil pessoas mortas entre abril de 2017 e março de 2018 (ou seja, 57 mortes diárias, em média). 
Perante esta realidade, José Rebelo refere os obstáculos que as igrejas encontram para prestar auxílio às pessoas que mais precisam: “A Igreja Católica na África do Sul é minoritária, não tendo grande relevância – até por causa de uma falta de identidade católica –, e por isso é difícil conseguir ajudar a população mais fragilizada.” O missionário português conta ainda que o crime também já acontece dentro das igrejas, com episódios de roubos da coleta de domingo, em alguns casos duas vezes em três meses. 

sábado, 15 de setembro de 2018

Rapazes de fé. Os U2 bebem na Bíblia sem medo

Texto de Miguel Marujo


Quando, no domingo e na segunda-feira à noite, dias 16 e 17 de setembro, os U2 subirem ao palco do antigo pavilhão da Utopia, em Lisboa, dificilmente alguma das pessoas ali presentes dirá que vai ver o concerto de uma banda cristã, que não o é, ou que quer ouvir mensagens cristãs, que as há. 
É antes a música e o espetáculo (e quase só a música e o espetáculo)que leva os milhares de fãs à Altice Arena, na busca de uma utopia que os irlandeses continuam a procurar reinventar, reinventando-se, com mais ou menos ousadia – e mais ou menos sucesso – quase 40 anos depois do seu primeiro disco, o EP Three (1979). Trata-se de uma questão de fé, para Bono, The Edge, Adam Clayton e Larry Mullen Jr., como para aqueles que os seguem de forma indefetível. Crentes uns e outros, e uns nos outros.
Nunca renegando um vínculo ao cristianismo, e em particular ao catolicismo, os U2, nomeadamente o seu vocalista, Bono, carregaram sempre uma espiritualidade muito própria: eram “uma espécie de irmandade”, como os definiu The Edge, crentes nos únicos “dois grandes sacramentos”, a amizade e a música, em que uma fé inabalável na sua capacidade de vingar também representou a vontade de melhor cantar a sua fé. “Eu só vou onde há vida, sabe? Onde sinto o Espírito Santo. Se é na parte de trás de uma catedral católica romana, na quietude e no incenso, que sugerem o mistério de Deus, da presença de Deus, ou nas luzes cintilantes de uma tenda revivalista, eu apenas vou onde encontro a vida. Não olho para a denominação”, confessou Bono ao Christianity Today
Esta ponte entre o sagrado e o profano é seguida de perto pelo vocalista do grupo irlandês. Em 2005, numa exposição sobre a Bíblia, em Lisboa, no âmbito do Congresso Internacional para a Nova Evangelização, liam-se estas palavras de Bono: “Sou um músico ‘escrevinhador’, fumador de charutos, bebedor de vinho, leitor da Bíblia. Sou um exibicionista que adora pintar quadros daquilo que não vê. Um marido, um pai, amigo dos pobres, às vezes dos ricos. Um ativista vendedor ambulante de ideias. Jogador de xadrez, estrela de rock em part-time, cantor de ópera no grupo pop mais barulhento do mundo. Que tal?”
Órfão de mãe, Bono escreve a sair da adolescência I Will Follow, o tema de abertura de Boy, o primeiro álbum, lançado em 1980 (e que certamente se ouvirá agora de novo em Lisboa, como tem acontecido nesta The eXPERIENCE + iNNOCENCE Tour). Notou que “este era um tema que ninguém tinha ainda explorado, no rock and roll– o fim da angústia da adolescência, a enganadora arte da masculinidade, a sexualidade, a espiritualidade, a amizade”.


No jornal L’Osservatore Romano recorda-se como Bono olhava para o rei David, dos tempos bíblicos: “Aos 12 anos adorava David: para mim era como uma pop star, as palavras dos salmos eram poesia e ele era um ídolo. Antes de se tornar profeta e rei de Israel, David passou por muita coisa. Viveu exilado e acabou por ir viver para uma caverna, onde fez as pazes com Deus. É aí que esta história se torna interessante: David compõe os seus primeiros blues.” 

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

Roma: distinção católica para um filme sobre a coragem solidária das mulheres

Texto de Sérgio Dias Branco


Uma das imagens de Roma

O filme Roma - realizado pelo mexicano Alfonso Cuarón -, que venceu o Leão de Ouro, prémio principal do Festival de Cinema de Veneza, foi galardoado também com o prémio da Signis – Associação Católica Mundial para a Comunicaçãona 75ª edição do certame, que terminou no passado dia 8 de setembro. 
Os jurados da Signis realçaram o “estilo ao mesmo tempo clássico e inovador e um uso sábio do preto e branco”, acrescentando que o realizador “constrói uma sugestiva e poética narrativa sobre o México dos anos 70”. “O filme captura as fraturas de uma sociedade que sofre mudanças profundas do ponto de vista familiar, e sublinha o papel essencial das mulheres, capazes de reagir com coragem e solidariedade face às dificuldades constantes. Roma ilustra brilhantemente as capacidades artísticas de Cuarón, com uma mise en scènerica e pessoal”, pode ler-se na nota divulgada à comunicação social.
O cineasta ganhou em 2014 o Óscar para melhor realizador com Gravidade, filme que obteve sete estatuetas. Para Roma, escreveu o argumento e co-assinou a fotografia e a montagem. Ao receber os prémios em Veneza, elogiou o elenco “por ter retratado as mulheres que [o] criaram”.
A Signis participa há 70 anos no Festival de Veneza e é representada em Portugal pelo Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura. O júri daquele organismo foi constituído por Magali Van Reeth (França, presidente), Ivan Giroud (Cuba), Guido Convents (Bélgica), Massimo Giraldi e Sergio Perugini (Itália).
Fica a seguir o trailer do filme:


Avança reforma da Cúria Romana e muda o conselho de cardeais (e o que fica por fazer)

Texto de António Marujo


(Ao lado: Hildegarda de Bingen, A fonte da vida; ilustração reproduzida daqui)

Três dos nove cardeais que aconselham o Papa, reunidos no designado C9, deverão sair e ser substituídos. Na interpretação que vários sítios de informação fazem do comunicado do C9 divulgado segunda-feira, 10 de Setembro, os cardeais Francisco Errázuriz, do Chile, com 85 anos, George Pell, da Austrália, 77, e Laurent Monsengwo Pasinya, da RD Congo, 78, deverão ser substituídos e não participar na próxima assembleia do grupo. 
No caso dos dois primeiros, a questão dos abusos sexuais do clero é decisiva: ambos enfrentam, nos seus países, acusações de não ter lidado com rigor em relação a padres acusados de abusos sexuais. Já Monsengwo poderá sair tendo em conta a sua idade. No comunicado, os cardeais referem apenas a questão da idade, afirmando que pediram ao Papa Francisco “uma reflexão sobre o trabalho, a estrutura e a composição do mesmo Conselho, levando em conta também a idade avançada de alguns membros”. 
Errázuriz, que foi arcebispo de Santiago entre 1998 e 2010, está acusado de negligência na forma como agiu em relação às acusações ao padre Fernando Karadima ou, mesmo, de ter encoberto deliberadamente os crimes do padre. O cardeal já não esteve nesta reunião, que termina dia 12, quarta-feira, e a única explicação dada em Santiago foi a de afazeres inesperados que não permitiram a sua saída do país
O padre Karadima foi considerado culpado de abusos de poder, consciência e sexo pela Congregação para a Doutrina da Fé do Vaticano, em 2011. Os seus crimes e os encobrimentos de vários bispos levaram à grave crise em que se encontra a hierarquia católica chilena, que levou mesmo o Papa a convocar todos os bispos para uma reunião em Roma. No início, Francisco entregou-lhes uma carta muito dura e, no final, todos eles apresentaram a sua demissão ao Papa, que aceitou já vários dos pedidos
O australiano George Pell, prefeito da Secretaria da Economia do Vaticano, enfrenta também acusações de abusos e está neste momento indiciado num processo na Austrália. 
As mudanças ocorreriam, assim, no final dos cinco anos de mandato do C9, que foi criado no final de Setembro de 2013, pelo Papa, como um grupo de aconselhamento mais próximo, como se analisa neste texto de Hernán Reyes Alcaide, correspondente de Religión Digital no Vaticano. 
De acordo com a mesma fonte, o conselho deverá incorporar, em breve, um secretário canónico, que faça a ponte entre as necessárias reformas da Cúria e a forma de as articular com o Direito Canónico
Foi também no âmbito do C9 que foi preparada a nova constituição apostólica que regula o funcionamento da Cúria Romana, provisoriamente intitulada Praedicate Evangelium
No comunicado já citado, o conselho também se dispõe a entregar essa proposta de constituição ao Papa. O texto está, agora, a ser discutido pelos diferentes organismos da Cúria, para que as últimas sugestões de correcção possam ser tidas ou não em conta pelo Papa, antes da sua publicação. 

terça-feira, 11 de setembro de 2018

Cristãos e marxistas aprendem juntos o que podem fazer pelo bem comum e a democracia


Texto de António Marujo

Ilustração reproduzida daqui

Os bens comuns, a democracia, a Europa e o diálogo foram os quatro temas que mobilizaram 35 jovens estudantes e vários professores, cristãos e marxistas, numa universidade de Verão. A iniciativa, que decorreu toda a semana passada em Ermoupoli, na Grécia, foi promovida por pessoas ligadas sobretudo ao movimento dos Focolares, do lado católico, tendo à frente o arcebispo Vincenzo Zani, secretário da Congregação da Educação Católica. Do lado marxista, eram sobretudo pessoas da rede Transform Europe, que congrega movimentos da esquerda política, entre os quais o brasileiro Michael Löwiradicado em França, que dirige a área de Ciências Sociais no Centre National de la Recherche Scientifique. 
Vindos de vários países, incluindo alguns de África e da Ásia, os participantes trabalhavam sempre com um professor católico e outro marxista, quer na análise da realidade quer na construção de cenários futuros. A ideia nasceu do diálogo entre Franz Konreif, membro do movimento dos Focolares, na Áustria, e o secretário-geral do Partido Comunista austríaco, Walter Baeir, que, em 2014, e em conjunto com o actual primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras, foram recebidos pelo Papa Francisco em audiência. 
O Papa Francisco pediu aos Focolares para levarem a iniciativa por diante, conta José Manuel Pureza, deputado do Bloco de Esquerda, que participou na academia, que o próprio apresentou neste artigo na Visãoe sobre a qual prestou declarações neste outro texto no DN.
Todos os dias, além das aulas, havia um momento inicial de invocação de trajectos pessoais ou políticos. O protestante Dietrich Bonhoeffer, assassinado pelos nazis, e o compromisso histórico entre a Democracia Cristã e os comunistas italianos foram duas das histórias trazidas por diferentes professores. José Pureza evocou Dorothy Daya activista católica que, nos Estados Unidos, criou o jornal The Catholic Worker, que acabou por dar origem a uma rede de centros onde sem-abrigo, pobres, desempregados e outros necessitados se juntam e gerem as próprias casas. 

Juan Maria Uriarte: A resistência ao Papa durará, porque ele afronta interesses

Entrevista de António Marujo 



Juan Maria Uriarte: O problema central da pedofilia é a 
muito baixa maturidade afectiva e sexual das pessoas
(foto © Diana Quintela)


No JN de domingo, foi publicada uma versão mais reduzida desta entrevista. Fica a seguir a versão completa.

Há uma resistência contra o modo de governar do Papa, pela sua abertura no campo disciplinar e pelo seu modo de afrontar os problemas sociais , diz Juan Maria Uriarte, ex-bispo de San Sebastián. 

Quando o celibato não se vive bem, acentua o carácter de poder, opressão e controlo sobre as pessoas, diz o bispo emérito de San Sebastián (Espanha), Juan Maria Uriarte, que esteve [na] semana [passada] em Fátima, a participar no 9º Simpósio do Clero, com quase meio milhar de padres. Uriarte defende que o problema central da pedofilia é a muito baixa maturidade afectiva e sexual das pessoas e que os abusos cometidos por membros do clero baixaram drasticamente com as medidas já tomadas. E defende a maior integração de áreas como a psicologia e sociologia na formação de seminaristas. 

P. – Não refere muito no seu livro O Celibato (ed. Paulinas), nem o fez em Fátima, ao tema dos abusos. Ele não tem relação com o celibato?
JUAN MARIA URIARTE – Os estudos que conheço provam que não existe uma correlação positiva entre celibato e pedofilia. O problema central da pedofilia é a muito baixa maturidade afectiva e sexual das pessoas. A imensa maioria dos casos de pedofilia acontecem com pessoas casadas, no seio das famílias, e também há casos entre líderes de outras confissões religiosas que se casam. 
A imensa maioria dos padres que conheço têm alguma maturidade. Há um grupo nada desprezível de sacerdotes que vivem elegantemente e com alegria interior a sua vida célibe. Há outro grande grupo para quem o celibato é uma experiência honesta e um adquirido aceitável. Há outro grupo para quem o celibato é um problema que lhes provoca sofrimento e, se pudessem casar-se, fá-lo-iam.
P. – Então a causa principal dos abusos é essa falta de maturidade?
R. – Sim, é o nível muito baixo de maturidade, que leva, por vezes, a repetir esquemas que os próprios sofreram na sua infância. Mas também há elementos da cultura actual que não ajudam: uma mentalidade que tendeu a uma prática sem limites, talvez em resposta a costumes demasiado restritivos do passado – já Freud dizia que uma praxis genital desorbitada alimentava a propensão a formas arcaicas e desviadas; e a ideia da satisfação ilimitada e imediata. Duas coisas importantíssimas na educação seria ajudar a digerir a insatisfação e a tolerar a frustração. 
P. – Já há notícias de novas investigações como a da Pensilvânia. Vamos continuar a ouvir a mesma história mais dez ou vinte anos ou a Igreja deve ser mais proactiva e fazer uma investigação geral e limpar a casa de vez? 

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

Homossexualidade descriminalizada na Índia

Texto de Maria Wilton


Ativistas indianos a celebrar a descriminalização da homossexualidade no seu país 
(foto reproduzida daqui)

O Supremo Tribunal Indiano descriminalizou esta quinta-feira, dia 6 de setembro, todos os atos homossexuais. Comentários na imprensa internacional falam de “uma grande vitória para os direitos LGBT” naquela que é a maior democracia do mundo. O padre católico Savio Fernandes, da diocese de Mumbai, afirmou por seu turno, ao sítio de informação religiosa AsiaNews, que a Igreja Católica nunca considerou a homossexualidade como um crime: “As punições contra os gays devem cessar. Todos merecem respeito e inclusão.”
O artigo 377º do Código Penal indiano foi introduzido em 1861, durante o mandato britânico no país, e criminalizava todas as atividades sexuais “contra a ordem da natureza”. O Supremo Tribunal da Índia considerou que esta lei era parcialmente inconstitucional, por criminalizar uma conduta sexual consensual entre adultos do mesmo sexo e decidiu alterar a lei, deixando apenas criminalizados os atos não consentidos entre adultos ou de adultos com crianças ou animais. Apesar de este artigo do Código Penal raramente ser usado como base para acusações judiciais, a sua existência significava que homossexuais enfrentavam ameaças e chantagem frequentes.
“O respeito pela escolha individual é a essência da liberdade”, disse o presidente do Supremo Tribual, Dipak Misra. “Esta liberdade só pode ser cumprida quando cada um de nós perceber que a comunidade LGBT possui direitos iguais.”
Na Índia, a homossexualidade é praticamente interdita. Os textos fundamentais hindus não têm referências explícitas à homossexualidade: O hinduísmo não tem regras obrigatórias. E, normalmente, não nos pronunciamos sobre o que não está previsto nas escrituras hindus”, dizia Ashok Hansraj, porta-voz da Comunidade Hindu de Lisboa, ao DN, neste texto.
Apesar disso, num país onde o hinduísmo é dominante e tem um grande papel em moldar costumes e tradições, a mentalidade que ainda predomina se opõe à homossexualidade. Muitos juízes já contestaram o artigo em causa e, em 2009, o Supremo Tribunal teria retirado a lei. No entanto, quatro anos depois, um astrólogo hindu, Suresh Kumar Kousha, juntou-se a organizações religiosas cristãs e muçulmanas e desafiou essa ordem, alegando que a homossexualidade era imoral e podia mesmo ameaçar a segurança nacional. Na altura ela foi recriminalizada, numa decisão que permaneceu até esta quinta-feira.

Graves violações da liberdade religiosa


Distribuição percentual das religiões na Índia 
(fonte: Ajuda à Igreja que Sofre)

A Índia não tem uma religião oficial de Estado, já que a lei da União requer que as instituições públicas tratem todas as confissões da mesma forma. No entanto, o hinduísmo é dominante, com 80 por cento da população a declarar-se hindu. De acordo com o Relatório da Liberdade Religiosa 2016, da Ajuda à Igreja que Sofre (AIS), os restantes 20 por cento encontram-se divididos entre muçulmanos, católicos, budistas, sikhs e outros grupos. 

Violência doméstica entre testemunhas de Jeová?

No Público de hoje refere-se um artigo no último número da revista Sentinela, da Associação das Testemunhas de Jeová (ATJ) que, na opinião de alguns ex-membros do grupo, alude à ideia de que cônjuges que sejam violentados devem permanecer com o agressor, na esperança de os conseguirem converter e de modo a não difamar aquele grupo religioso. A jornalista Natália Faria falou com várias ex-Testemunhas de Jeová, que se dizem chocadas com a alegação e partilham mesmo experiências que demonstrarão, segundo eles, a perpetuação deste tipo de comportamentos por parte de pessoas daquele credo religioso. 
O porta-voz da ATJ considera “repulsiva toda e qualquer forma de violência, incluindo a violência doméstica”, acrescentando que é “da responsabilidade de cada pessoa tomar as suas próprias decisões”. Também a socióloga Helena Vilaça, que há alguns anos estudou uma congregação de Testemunhas de Jeová, recusa que aquela seja a regra: “Não me parece que possamos concluir que as Testemunhas de Jeová são piores do que os outros ou que fazem a apologia da violência doméstica”…
O texto pode ser lido aquiNum outro texto, fala-se sobre a identidade das Testemunhas de Jeová. (M.W.)

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

“Acreditar num Deus criador implica cuidar da criação e da casa comum”

Texto de Maria Wilton


Comportamentos mais ecológicos e força para resistir às seduções dos males 
que afetam a nossa casa comum”, defende Manuela Silva 
(foto © Maria Marujo)


Na crise ecológica que estamos a viver, os desafios com que nos confrontamos “são de tal ordem que precisamos mesmo de rezar a Deus, para que converta os nossos corações para termos comportamentos mais ecológicos e força para resistir às seduções dos males que afetam a nossa casa comum”. 
A economista Manuela Silva,responsável da rede Cuidar da Casa Comum (CCC), que reúne pessoas individuais, instituições, organizações e grupos católicos e de outras igrejas cristãs, refere-se deste modo aos objetivos da vigília de oração que se realiza sexta-feira, 7 de setembro, às 21h, na Igreja do Sagrado Coração de Jesus (R. Camilo Castelo Branco, ao Marquês de Pombal), em Lisboa. 
A iniciativa, diz a economista, tem como objetivo a reflexão sobre a encíclica Laudato Si’publicada pelo Papa Francisco em 2015, dedicada ao ambiente e ao “cuidado da casa comum”. O tempo de oração pretende sensibilizar para o conhecimento da encíclica, levando os cristãos a uma conversão ecológica, no sentido de “um estilo de vida que não seja predador nem excludente de grande parte da população e até de outros seres vivos”.
Há uma acrescida responsabilidade ecológica que os cristãos devem demonstrar, diz Manuela Silva: acreditar num Deus criador implica acreditar que este confiou à humanidade a tarefa de cuidar da criação e da “casa comum”. 
Entre as propostas da CCC, estão os “focos de conversão ecológica”, pequenos grupos que pretendem alargar a sensibilização para as questões ambientais e ecológicas. “Os focos têm por missão escutar o grito da nossa Casa Comum ‘contra o mal que lhe provocamos’, identificar, na vida quotidiana, ‘o uso irresponsável’ dos bens da Terra”, lê-se na apresentação dos objetivos. Ao mesmo tempo, os focos propõem-se “criar no seio das respetivas comunidades “pontes de diálogo com vista à construção de uma ecologia integral, tanto no plano dos comportamentos individuais como nas opções e práticas das comunidades da sua área de influência”.  
No próximo sábado, uma outra iniciativa, esta de caráter mundial, terá concretização também em três cidades portuguesas: às 17h, Lisboa (concentração no Cais do Sodré), Porto (Praça da Liberdade) e Faro (Largo da Sé) participam na Marcha Mundial do Clima

terça-feira, 4 de setembro de 2018

Andar junto ao chão

Exposição/crónica de José Tolentino Mendonça


(Fotos de Rui Martins; reproduzidas daqui)


Numa crítica publicada na revista E, do Expresso, José Luís Porfírio descreve o que se vê: “A noite parece crescer a partir de um chão granuloso que se lamenta debaixo dos nossos pés convertidos em visão desta peça singular, o escuro cresce para melhor exaltar a luz deitada num esquife flutuando sobre o chão de ferro que geme e nos desequilibra. Ao longe, não sabemos onde nem quando, a água corre, temperando, cristalina, os lamentos do chão. Vemos com os ouvidos e vemos em estereofonia sentindo o piso irregular e a água correndo algures, porém, o mais importante é a luz que transfigura a matéria...”
Na Capela de Nossa Senhora da Bonança, conhecida como Capela do Rato, em Lisboa, pode ainda ver-se, entre quinta-feira e domingo (dias 6 a 9 de Setembro) a instalação “Junto ao chão”. Serão os últimos dias para poder ver esta mostra original, em que as cadeiras foram retiradas do espaço litúrgico e substituídas pela instalação do artista plástico Carlos Nogueira e textos do poeta Manuel de Freitas.
Essa matéria, escreve ainda José Luís Porfírio, é “escória de ferro escondida pela sombra, um leito de sal flutuando sobre a noite, é o foco de luz que o ergue do chão, e é o gravador trazendo a água e o vento”.
«capela/ escória de ferro, ferro, sal, luz,/ o som do vento e da água que corre,/ bonança» são os elementos presentes e evocados na instalação, que extraiu os bancos do espaço e o imergiu na penumbra, cobrindo o claro chão liso de porosa gravilha cinza.
«Junto ao chão é também o lugar de um corpo que só pode olhar para o alto, e tentar descobrir, como diz São João da Cruz citado por Carlos Nogueira, o caminho para chegar das coisas que vêem às coisas não se vêem», escreve Luísa Soares de Oliveira na folha da exposição. (Aqui podem encontrar-se elementos sobre o artista.)
Matéria, no texto citado, são ainda “os nossos corpos intrigados e hesitantes, barulhentos de vozes orientando-se nessa penumbra, ou o meu corpo isolado sem mais ninguém”, numa relação com o espaço que nos pode levar a “uma capela imaginária que pode morar dentro de nós.”

Na sua crónica semanal na revista EJosé Tolentino Mendonça escreveu também sobre esta exposição. Transcreve-se o texto a seguir:

Foi o escritor Gonçalo M. Tavares que um dia, na Capela do Rato, me disse: “vocês poderiam retirar todas estas cadeiras e encher de areia o pavimento, para lembrar aos crentes que a fé é experiência de nomadismo e estrada, mais do que confortável sedentarismo”. Ele talvez nem se recorde já, mas, desde aí, isso ficou-me na cabeça e tenho contado muitas vezes esta história, embora, confesso, mais como repto a uma desinstalação interior do que propriamente como desafio a uma reconfiguração do espaço sagrado em tais moldes.

Tolentino Mendonça: "Papa Francisco é a referência de uma Igreja que quer purificar-se de crimes passados e transporta uma exigência de coerência evangélica”


José Tolentino Mendonça fotografado em Abril, 
na reitoria da Universidade Católica Portuguesa 
(Foto © Nuno Ferreira Santos/Público)

O silêncio das bibliotecas outra coisa não é “do que um impressionante coral com milhões de vozes que atravessam os tempos, cuja audição nos avizinha do inesgotável e fascinante mistério da vida”, diz o novo responsável da Biblioteca e Arquivo Secreto do Vaticano, José Tolentino Mendonça, para quem a procura da beleza deve, hoje, assumir as linguagens, formas e gramáticas da contemporaneidade. 
Chegado a Roma para tomar posse dos novos cargos, o ex-vice-reitor da Universidade Católica Portuguesa deparou-se com a tempestade à volta do Papa. Mas sobre o que se está a passar, o novo bibliotecário da Igreja Católica diz, nesta entrevista, que “o conselho do Papa Francisco no regresso da viagem à Irlanda é de uma grande sabedoria” e que não é por acaso que “não só dentro da Igreja, mas tantos não-crentes manifestam o seu respeito e admiração por Bergoglio”.
(a entrevista pode ser lida aqui)

85 quilómetros de arquivos aos seus pés

Instituições históricas, o Arquivo e Biblioteca do Vaticano são pela primeira vez dirigidos por um português, mas poucos investigadores nacionais utilizam aqueles fundos para as suas pesquisas. 
Os milhares de visitantes dos Museus Vaticanos que todos os dias passam no Cortile della Pigna, o pátio interior que liga os espaços expositivos, não imaginam o que está sob os seus pés: 85 quilómetros de estantes, com milhões de documentos (dos quais 30 mil pergaminhos), provenientes pelo menos de 650 fundos diferentes e dos arquivos dos diferentes papados.
Será esse mundo – mais os milhares de volumes da Biblioteca Apostólica – que, a partir deste sábado, 1 de Setembro, estará sob a responsabilidade do novo arcebispo português, D. José Tolentino Mendonça, enquanto arquivista e bibliotecário da Igreja Católica. 
(o texto pode ser lido aqui)

sábado, 1 de setembro de 2018

Celibato obrigatório e abusos sexuais - que relação?

Presidente da conferência dos bispos e Presidente dos institutos religiosos da Austrália, respetivamente Mark Coleridge e Monica Cavanagh, na apresentação do relatório


Os responsáveis da Igreja Católica australiana (conferência dos bispos e dirigentes dos institutos religiosos) declararam estar abertos a colocar à Santa Sé a questão do celibato voluntário dos padres, na linha das recomendações feitas pelo relatório final da Royal Commission para os abusos sexuais, publicado em 2017.
Essa disponibilidade consta de um extenso documento em que os bispos e os religiosos esclarecem qual a sua posição relativamente a cada recomendação e as medidas que já tomaram ou se dispõem a tomar para combater os abusos e proteger e acautelar os direitos das crianças. É nele que manifestam concordância em clarificar os critérios da escolha dos bispos, assunto que terá de contar com a concordância do Vaticano; e em que se opõem terminantemente a revelar casos ou situações de pederastia de que tenham conhecimento no confessionário. Esta questão já foi objeto de lei em alguns dos estados australianos, mas os bispos entendem que, além de ser uma questão inegociável e uma matéria de liberdade religiosa, argumentam também que uma medida deste tipo é ineficaz, uma vez que a probabilidade de um perpetrador ou de uma vítima colocarem uma situação de abuso na confissão se reduziria se soubessem que o segredo não estava garantido.
No caso do celibato dos padres, trata-se, no entanto, de uma disponibilidade cheia de matizes. Na verdade, os bispos dizem ter já transmitido a recomendação aos seus superiores no Vaticano, com quem têm tido consultas sobre o assunto e que eles próprios têm buscado conselho da parte de teólogos e especialistas de direito canónico. Recorde-se que o órgão que a própria Igreja australiana criou para coordenar a resposta ao problema dos abusos - o  Truth Justice and Healing Council – escreveu, sobre este assunto o seguinte:
“Esta questão deve ser levada ao conhecimento do grupo de trabalho da Santa Sé [sobre os abusos], solicitando em particular que seja feito um estudo sobre o impacto do celibato obrigatório no comportamento dos perpetradores de abuso sexual de crianças e sobre a influência do clericalismo na resposta institucional ao abuso por pate da igreja”.