sexta-feira, 8 de julho de 2011

Eppur si muove

O patriarca de Lisboa corrigiu o que tinha dito.
Sabemos aquilo que pensa sobre a ordenação de mulheres, uma vez que o exprimiu em diferentes momentos, distanciados no tempo. Não se tratou, pois, de uma 'escorregadela', no contexto de uma entrevista, aquilo que disse, em Maio último, à revista da Ordem dos Advogados.
Este esclarecimento é, de facto, uma mudança de posição. D. José Policarpo afirmou não ver fundamento de ordem teológica para a posição do magistério da Igreja. João Paulo II, contudo, tinha frisado que o assunto não é meramente do foro disciplinar, antes "pertence à própria constituição divina da Igreja" e Bento XVI aludiu, já este ano, a este ensino colocando-o sob a alçada da 'infalibilidade' (o que não deixou de suscitar perplexidade em vários comentadores e teólogos).
D. José manifestava uma atitude de pragmatismo sobre a matéria: sendo uma construção histórica, em algum momento, poderia ser reapreciada. A mudança nesta matéria ocorrerá “se Deus quiser que aconteça e se estiver nos planos Dele acontecerá”, observava, na referida entrevista. Mas a posição de fundo não era, de todo, de questionamento, mas de seguimento, ainda que um seguimento interrogante.
Reacções negativas e mesmo indignação de fiéis quanto ao teor de declarações suas certamente não as teve só agora e, no entanto, isso não justifcaria que viesse, de cada vez, fazer esclarecimentos. O problema, neste caso, está, acima de tudo, em se apresentar este caso num 'framing' segundo o qual um cardeal estaria a questionar a posição e a autoridade do próprio Papa. O que me parece de uma grande injustiça para D. José.
O problema, no meu modo de analisar a situação, está em que hoje, está mais difícil do que nunca a liberdade de pensar no interior da Igreja, nomeadamente por parte de padres, religiosos e bispos. E os polícias da ortodoxia não perdoam. Não hesitam em pressionar, denunciar e, se preciso for, cilindrar, calar e derrubar quem exprima ideias próprias, em matérias que não são sequer do núcleo duro da fé. Esses polícias da ortodoxia não querem saber da valorização conciliar da opinião pública esclarecida no seio da Igreja; olham a sociedade como uma ameaça; preferem um ateu ou agnóstico a um cristão fiel mas crítico; olham mais à moral sexual do que à justiça e à fraternidade; preferem a fidelidade canina à fé esclarecida. Em suma, esses polícias da ortodoxia mostram ser mais papistas do que o Papa, e até ficam perturbados quando ouvem certas coisas de um Papa como o actual. Esses polícias e essa mentalidade de polícia ganhou peso na estrutura da Igreja e era muito importante reflectir e debater sobre as causas e consequências dessa tomada de poder que tão deletéria é para a Igreja e para o seu papel de acolhimento, inquietação e esperança na sociedade.
D. José bem pode, pois, apelar aos católicos a que acatem a disciplina sobre o papel da mulher na Igreja, no relativo ao sacerdócio; a verdade é que "o Espírito sopra onde quer" e a História não pode ser travada.  Aquilo que a estrutura de poder (masculino) fixou e não quer que seja nem questionado nem questionável assim se manteria eternamente se os hierarcas tivessem algum poder monopolista sobre o Espírito Santo. Haja, pois, esperança. Há mais vida (cristã) para além da hierarquia.

4 comentários:

José Vieira Arruda disse...

Completamente de acordo com o seu comentário e penso que o Vaticano foi totalmente injusto para com D. José Policarpo. No entanto e infelizmente, estes s~ao os nossos tempos... tempos de funda,entalismo, tempos de integrismo. Grande parte da nossa Igreja está em estado de exílio. Outra parte, como sabemos, simplesmente decidiu bater com a porta... por enquanto. Vivemos tempos de medo, tempo de uma grande tristeza. Até um dia...
Aqui em Montréal, Québec, Canada, estamos a lutar por uma Igreja mais aberta aos sinais dos tempos, e autêntica, mais dócil ao Espírito. Sempre Católica, com um C maúsculo. Sem dúvida, uma Igreja mais simples e mais pequena... mas, n~ao foi assim que ela começou? Abra¸o e coragem, José Vieira Arruda

maria disse...

"se Deus quiser que aconteça e se estiver nos planos Dele acontecerá"...desagrada-me que um cardeal ainda use expressões destas para perpetuar a ilusão de que Deus tem planos para o dia em que as mulheres entrarão "em cena" na Igreja. Como se não tenha que ser a própria Igreja a decidir e orientar-se para que viva cada vez mais fiel ao Evangelho...

João "o discipulo amado" Silveira disse...

Sim, porque no evangelho existiam imensas mulheres entre os doze

Anónimo disse...

Felizmente em Portugal não tem havido os extremismos e a dicotomia progressistas/conservadores que se vê entre os católicos de outros países. Estranhamente não parece haver um repovoamento episcopal conservador como vemos no Brasil ou na Espanha. Felizmente...
De assinalar que as denúncias do Cardeal D. José Policarpo foram veiculadas por agências de comunicação católicas estrangeiras ultraconsevadoras. Algumas parece que estão a especializar-se na caça às bruxas em vez de serem aquilo por que se designam.