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quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

O inclassificável Péguy e os seus portais da esperança

Livro



Foi socialista e católico, um dos primeiros defensores do capitão Alfred Dreyfus (acusado de traição por ser judeu), depois de ter sido marcado desde a infância por Victor Hugo. Jornalista e poeta, Charles Péguy morreu há 100 anos, a 5 de Setembro de 1914, em plena I Guerra Mundial, durante a batalha do Marne (próximo de Paris). Um dos seus poemas mais importantes, Os Portais do Mistério da Segunda Virtude, será lido na íntegra esta quinta-feira, a partir das 21h30, na Capela do Rato, em Lisboa, pelo actor e encenador Luís Miguel Cintraa partir da tradução de Armando Silva Carvalho, publicada agora nas Paulinas.
Inclassificável, o gigantismo de Péguy nas letras francesas é admitido por todos. Por todos? Não: no Estado francês, há um reduto de quem o considera um factor de “demasiada divisão” para que ele possa ser ensinado, por exemplo, no programa de agregação de letras modernas, uma proposta que tinha sido feita por um grupo de intelectuais franceses.
O episódio deu-se no início deste ano, recorda a Histoire du Christianisme Magazine no seu número 74 (Novembro-Dezembro 2014). “Se expurgássemos a literatura francesa de todos os seus autores que são factores de divisão, pergunta-se quem poderia restar”, comenta Yves Bruley num artigo sobre Péguy, a propósito do centenário da sua morte no campo de batalha da I Guerra Mundial.
No prefácio da edição portuguesa d’Os Portais do Mistério da Segunda Virtude, José Tolentino Mendonça escreve sobre esse carácter poliédrico de Péguy: “Dizia-se dele que era um anarquista perigoso que, em vez de lançar petróleo, lançava água benta. Mas, àqueles que o acusavam de viver continuamente entre escolhas paradoxais, ele respondia que ‘apenas aprofundava o seu coração num único caminho’.” Apaixonado da causa social, militante socialista e membro das Conferências de São Vicente de Paulo, Péguy escreveu: “Não sou um santo. A santidade reconhece-se imediatamente. Sou um pecador bom. (...) Ninguém é mais competente do que o pecador em matéria de Cristianismo.”