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segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

As errâncias de Francisco Xavier na música de Jordi Savall


Música - Disco

Ontem, 3 de Dezembro, foi dia de São Francisco Xavier, segundo o calendário católico. Xavier foi herói de muitas aventuras e viagens, cuja itinerância nos foi sugerida por Jordi Savall, em 2007, numa obra que celebra o caminho do Oriente e o encontro entre dois mundos então quase desconhecidos.
Esse disco-livro é uma viagem iniciática. Que nos leva desde o castelo de Xavier (em Navarra), passando por Paris, Roma e Lisboa, até à Índia, Japão e China. Num outro plano, esta jornada oferecida por Jordi Savall acompanha a vida de Francisco Xavier, apóstolo do Oriente, e atravessa o fervilhar do humanismo renascentista. A música segue a par de “O Elogio da Loucura” de Erasmo de Roterdão, “O Príncipe” de Maquiavel, a “Utopia” de Tomás Moro, e as 95 Teses de Wittenberg, redigidas por Lutero, que romperam a unidade decadente da Igreja no Ocidente.
Descobrimos ainda o movimento da Contra-Reforma, a regra da nascente Companhia de Jesus, as religiões poliédricas de África e da Índia, os cristãos esquecidos de Cochim, o islão do Oriente, o budismo e as religiões japonesas.
Tudo isto em apenas dois discos? Muito mais: as referências culturais, oferecidas no livro, cruzam-se de forma perfeita com a música que só Jordi Savall poderia seleccionar desta forma delicada e preciosa. A poesia da música europeia (do gregoriano a Escobar, Narváez, Isaac ou Morales, entre outros) junta-se à intensidade dos ritmos africanos e ao exotismo dos sons orientais para nos dar uma obra-prima e indispensável.
Vale a pena ver e ouvir este trecho, recuperado depois da tragédia do sismo de Março de 2011 no Japão num disco cuja receita reverteu para as vítimas da tragédia. Aqui podem ler-se outros textos de Jordi Savall sobre o projecto de contar através da música as errâncias de Francisco Xavier.






sábado, 5 de dezembro de 2009

Calendário de Advento (3) - Francisco Xavier, um “material duro” convertido em missionário

Doíam-lhe braços e garganta quando baptizava em massa na Índia. No Japão, converteu-se ao diálogo inter-religioso e percebeu que, para evangelizar, era preciso ser “bom filósofo, treinado no diálogo”. Quis ser missionário na China, mas a morte, aos 46 anos, apanhou-o na ilha de Sanchoão, às portas do Império do Meio. O seu corpo foi levado para Goa, tornando-se objecto de romaria de católicos e hindus.

[Ilustração: Manuel Henriques, S.J. (1593-1654), Milagre de S. Francisco Xavier acalmando o mar, in São Francisco Xavier - A Sua Vida e o Seu Tempo, ed. Comissariado das Comemorações do V Centenário do Nascimento de S. Francisco Xavier]

“Embora livre em relação a todos, fiz-me servo de todos, para ganhar o maior número. Fiz-me fraco com os fracos, para ganhar os fracos. Fiz-me tudo para todos, para salvar alguns a qualquer custo. E tudo faço por causa do Evangelho, para dele me tornar participante.”
(Carta de S. Paulo aos Coríntios, 9, 19; 22-23)

Foi só depois de chegar ao Japão, após 500 quilómetros a pé, feito padre maltrapilho a querer ser recebido por um imperador inexistente, que Francisco Xavier percebeu o quão errada era a estratégia que usara na Índia: aqui, passava horas a baptizar e a ensinar as orações básicas. “Os braços cansavam-se-lhe e a voz enrouquecia com tanto repetir o Credo e os Mandamentos”, escreve o padre José Leite (Os Santos de Cada Dia, vol. III).

Francisco Xavier morreu a 3 de Dezembro de 1552. Por essa razão, o calendário católico dedica hoje o dia ao “apóstolo das Índias” ou “São Paulo do Oriente”, como já foi chamado, numa alusão às viagens de missionação empreendidas pelo jesuíta.

Dois anos antes de morrer, quando chega ao Japão, Xavier percebe que está perante uma cultura superior. Nela aprecia, como revelará numa carta de 1549, a cortesia e a sobriedade, o facto de muitos saberem ler e escrever, a racionalidade e a espiritualidade. É então que se dá a sua “segunda conversão”, como lhe chama o padre e historiador jesuíta António Lopes (De Javier a Sanchoão, em São Francisco Xavier – 450 anos da sua morte, ed. Apostolado da Oração).

O missionário, que deixara Lisboa em 1541 rumo ao Oriente, percebe que tem “de pôr fim ao espírito de cruzada que até aí alimentara muita da sua própria missionação”. O jesuíta aprende então a comer com pauzinhos, a sentar-se no chão e a falar japão, como então se designava a língua e os naturais do país. Veste uma túnica de seda em vez dos trapos andrajosos com que andava, enaltece o valor da ciência, recomenda que os novos missionários sejam “bons filósofos, bem treinados no diálogo”.

Uma profunda mudança. Na Índia, a sua acção ficara “marcada por uma estranha insensibilidade a esses mundo e a essas civilizações prodigiosas”, como refere António Lopes no texto citado. A sua estratégia era pregar sucessivamente e baptizar em massa. Conta-se que, num mês, na costa de Pescaria, baptizou mais de dez mil pessoas. E depois de morrer, houve quem relatasse perante o Papa Gregório XV que ele tinha ressuscitado vinte pessoas.

Filho de uma família nobre do então reino de Navarra (que perderia a independência em 1515), Francisco Jasso d’Azpilcueta y Javier nasce em 7 de Abril de 1506. Em 1534, depois de ter ido para Paris estudar, torna-se um dos primeiros companheiros de Inácio de Loiola, fundador da Companhia de Jesus. Mas a sua integração no grupo não tinha sido fácil: Inácio dirá mais tarde que Xavier era o “material mais duro que jamais manejara”.

Foi depois de um pedido do rei português, D. João III, que solicitara ao Papa missionários disponíveis para evangelizar no Extremo Oriente, que Xavier veio para Lisboa, onde esteve a preparar a sua viagem. Em resposta ao convite, Xavier responde prontamente: “Pues, sus! Heme aqui.”

Depois de sete anos na Índia e dois no Japão, a morte surpreende-o na ilha de Sanchoão, perto de Macau e à entrada da China, para onde queria ir evangelizar. Goa reclama o seu corpo, que é trasladado para a cidade um ano após a sua morte e onde 200 mil hindus e cristãos lhe prestam uma grande homenagem. A mesma que continuará nos séculos seguintes e o tornará objecto de grande devoção, mesmo entre os hindus. É proclamado santo em 1622 e declarado padroeiro das missões católicas em 1904.


Poema - À noite do Natal, de Diogo Bernardes

Oh noite sancta, e clara, inda q escura
Te vê quê mais naõ ergue a fantesia;
Noite, que mereceste, mais que o dia,
Ver nascido JESUS da Virgem pura:

Como se naõ tornou logo em brandura
Tua grande aspereza, noite fria,
Vendo teu Criador que padecia
Teu frio como humana creatura?

Como vos desatais, oh ventos, tanto?
Porque vos derreteis, nuves em agua?
Tempo, que te naõ tornas mais sereno?

Se naõ sentis do Filho o tenro pranto,
Senti a dôr da Mãi, senti a magoa
De o guardar de vós com palha, e feno.

(In Natal... Natais – Oito Séculos de Poesia sobre o Natal,
antologia de Vasco Graça Moura, ed. Público
)