Texto de Massimo Faggioli (*)
Que a Cúria Romana é sinónimo de escândalos não é um facto
novo. Em si mesma, a Cúria Romana é quase um género literário, mesmo antes de Lutero. O que é novo é a relação entre o Papa e a Cúria
Romana – e isso não depende dos detalhes sobre esta ou aquela revelação contida
nos documentos furtados.
Há questões sobre as quais Bergoglio age
por mandato quase explícito do conclave que o elegeu: a reforma da Cúria Romana, a transformação da IOR, a limpeza daqueles que, na Igreja, em todos os
níveis, manuseiam grandes quantidades de dinheiro.
Sobre essas questões, o Papa Francisco não tem dificuldade de invocar e
mencionar explicitamente o consenso que emergiu entre os cardeais antes da sua
eleição. O problema, até mesmo para alguns daqueles que o elegeram, é a
profundidade e a radicalidade com que Francisco está interpretando esse
mandato.
Bergoglio age e
fala com inescrupulosidade, mas sobretudo governa a Igreja "etsi Curia non
daretur" [como se a Cúria não existisse], com um
substancial apoio externo que lhe vem da autoridade e popularidade adquiridas
nesses dois primeiros anos de pontificado.
Mas há outras questões sobre as quais o Papa Francisco atua
para além ou sem um mandato explícito proveniente do conclave: viu-se isso no Sínodo, se verá isso no Jubileu (um jubileu que se
anuncia muito mais austero do que os anteriores).
Nesse sentido, é evidente que o Papa Francisco age
por força de dois mandatos diferentes, o mandato do conclave: o de uma limpeza
e uma reforma, mas sem exagerar ("Adelante, Pedro, con
juicio", como dizia o chanceler Ferrer em Os noivos) e um mandato que impropriamente poderia
ser chamado de "popular" (divorciados recasados, homossexualidade,
desideologização da Igreja).
Os dois mandatos não coincidem na mente de alguns
eleitores do papa, e aqui estão, provavelmente, as raízes dos tremores
secundários dirigidos à pessoa do papa (a carta dos cardeais no início do Sínodo, a falsa notícia sobre a sua saúde etc.).
