quinta-feira, 4 de março de 2010

(Foto: Lima Duarte no filme de Manoel d'Oliveira, Palavra e Utopia)

Esta noite, na Igreja de Santa Isabel, em Lisboa, o actor Luís Miguel Cintra dirá o Sermão de Quarta-Feira de Cinzas, do Padre António Vieira. Esta iniciativa insere-se num ciclo de actividades propostos pela Paróquia de Santa Isabel e Capela do Rato, que continuará nos próximos dias 11 e 18, com duas "Conversas à Capela", sobre o tema "Deus: questão para Crentes e não-Crentes". Na primeira, participam Alberto Vaz da Silva, Pedro Tamen e Ricardo Araújo Pereira, com moderação de Laurinda Alves. Na segunda, a conversa é feita com Assunção Cristas, Henrique Raposo e Pedro Adão e Silva, com João Wengorovius Meneses a moderar. Todas as actividades são às 21h30.


Para aguçar o apetite para esta noite, fica aqui o início do sermão, proferido em 1670, na Igreja de S. António dos Portugueses, em Roma:

Memento homo, quia pulvis es, et in pulverem reverteris (Lembra-te homem, que és pó, e em pó te hás de converter)

O pó futuro, em que nos havemos de converter, é visível à vista, mas o pó presente, o pó que somos, como poderemos entender essa verdade? A resposta a essa dúvida será a matéria do presente discurso.

Duas coisas prega hoje a Igreja a todos os mortais, ambas grandes, ambas tristes, ambas temerosas, ambas certas. Mas uma de tal maneira certa e evidente, que não é necessário entendimento para crer: outra de tal maneira certa e dificultosa, que nenhum entendimento basta para a alcançar.

Uma é presente, outra futura, mas a futura vêem‑na os olhos, a presente não a alcança o entendimento.

E que duas coisas enigmáticas são estas? Pulvis es, tu in pulverem reverteris: Sois pó, e em pó vos haveis de converter. — Sois pó, é a presente; em pó vos haveis de converter, é a futura.

O pó futuro, o pó em que nos havemos de converter, vêem‑no os olhos; o pó presente, o pó que somos, nem os olhos o vêem, nem o entendimento o alcança.

Que me diga a Igreja que hei de ser pó: In pulverem reverteris, não é necessário fé nem entendimento para o crer. Naquelas sepulturas, ou abertas ou cerradas, o estão vendo os olhos. Que dizem aquelas letras? Que cobrem aquelas pedras? As letras dizem pó, as pedras cobrem pó, e tudo o que ali há é o nada que havemos de ser: tudo pó.

Vamos, para maior exemplo e maior horror, a esses sepulcros recentes do Vaticano. Se perguntardes de quem são pó aquelas cinzas, responder‑vos‑ão os epitáfios, que só as distinguem: Aquele pó foi Urbano, aquele pó foi Inocêncio, aquele pó foi Alexandre, e este que ainda não está de todo desfeito, foi Clemente.

De sorte que para eu crer que hei de ser pó, não é necessário fé, nem entendimento, basta a vista. Mas que me diga e me pregue hoje a mesma Igreja, regra da fé e da verdade, que não só hei de ser pó de futuro, senão que já sou pó de presente: Pulvis es?

Como o pode alcançar o entendimento, se os olhos estão vendo o contrário? É possível que estes olhos que vêem, estes ouvidos que ouvem, esta língua que fala, estas mãos e estes braços que se movem, estes pés que andam e pisam, tudo isto, já hoje é pó: Pulvis es?

Argumento à Igreja com a mesma Igreja: Memento homo. A Igreja diz‑me, e supõe que sou homem: logo não sou pó. O homem é uma substância vivente, sensitiva, racional.

O pó vive? Não. Pois como é pó o vivente?

O pó sente? Não. Pois como é pó o sensitivo?

O pó entende e discorre? Não. Pois como é pó o racional?

Enfim, se me concedem que sou homem: Memento homo, como me pregam que sou pó: Quia pulvis es? Nenhuma coisa nos podia estar melhor que não ter resposta nem solução esta dúvida. Mas a resposta e a solução dela será a matéria do nosso discurso. (...)

Em que cuidamos, e em que não cuidamos?

Homens mortais, homens imortais, se todos os dias podemos morrer, se cada dia nos imos chegando mais à morte, e ela a nós, não se acabe com este dia a memória da morte.

Resolução, resolução uma vez, que sem resolução nada se faz. E para que esta resolução dure e não seja como outras, tomemos cada dia uma hora em que cuidemos bem naquela hora. De vinte e quatro horas que tem o dia, por que se não dará uma hora à triste alma?

(...) E porque espero da vossa piedade e do vosso juízo que aceitareis este bom conselho, quero acabar deixando‑vos quatro pontos de consideração para os quatro quartos desta hora. Primeiro: quanto tenho vivido? Segundo: como vivi? Terceiro: quanto posso viver? Quarto: como é bem que viva?

Torno a dizer para que vos fique na memória: Quanto tenho vivido? Como vivi? Quanto posso viver? Como é bem que viva? Memento homo!
(O texto completo do sermão está aqui)

1 comentário:

Sérgio Almeida disse...

Boa noite!

Antes de mais, parabéns pelo vosso blog, principalmente pela seriedade e tolerância.

Queria deixar uma sugestão, não sobre este "post", mas sobre outra questão.

Há um portal sobre o Concílio Vaticano II muito interessante.

Descobri-o através do Jesuítasnet, n.º 66, o qual transmite a seguinte informação : "Os Cardeais Jesuítas Carlo Martini e Roberto Tucci lançaram um portal para dar a conhecer o tesouro espiritual, teológico e documental do Concílio Vaticano II. O portal chama-se “Viva o Concílio”: www.vivailconcilio.it"

Aqui ficou um pequeno contributo.

Cumprimentos,

Sérgio Almeida
sergiopauloalmeida@gmail.com