quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Diálogos com Deus em Fundo - entrevistas sobre a transcendência

Na próxima segunda-feira, dia 27, na Livraria Bucholz (R. Duque de Palmela, 4, ao Marquês de Pombal); em Lisboa, decorre a apresentação do livro Diálogos com Deus de Fundo, onde recolho um conjunto de entrevistas acerca da questão religiosa, feitas ao longo de vários anos. A apresentação será feita pelo prof. Carlos Fiolhais, a partir das 18h30. 
O leque de entrevistados inclui, pela ordem de publicação, José Tolentino Mendonça, frei Bento Domingues, Joaquim Carreira das Neves, Mário Soares, Isabel Allegro de Magalhães, João resina Rodrigues, José Augusto Mourão, Armindo Vaz, Horácio Araújo, Peter Stilwell, Maria de Lourdes Pintasilgo, Alfredo Bruto da Costa, Manuela Silva, D. Manuel Clemente, Alberto Azevedo, Teresa Toldy, Alfredo Teixeira, Anselmo Borges, Luís Archer, Dimas Almeida, D. Januário Torgal Ferreira, Laura Ferreira dos Santos, Joaquim Guerra e José Mattoso.
Fica a seguir o texto de apresentação do livro, com o convite implícito para a participação na sessão. 



Cidadania, Verdade e Liberdade

À memória de
Maria de Lourdes Pintasilgo
e João Resina
pelos seus testemunhos de cidadania e liberdade

Há um problema velho de décadas no catolicismo português: a quase ausência de uma reflexão, e de uma reflexão pertinente, sobre a sociedade, a experiência cristã e a própria questão de Deus.
Uma outra coisa é verdadeira: como diz José Tolentino Mendonça numa das entrevistas aqui reproduzidas, “em Portugal, a teologia tem um estatuto de clandestinidade”. Pior: “Mesmo quando se pensa nos textos bíblicos, eles não encontram uma relevância cultural.” E seria “muito importante” que a reflexão bíblica e teológica ganhasse “estatuto de cidade”.
A história nem sempre foi assim. Santo António de Lisboa, Pedro Hispano, João de Barros, Isaac Abravanel, Samuel Usque, António Vieira, Guerra Junqueiro, Teixeira de Pascoaes, Agostinho da Silva ou Manuel Antunes são alguns dos nomes grandes de portugueses que reflectiram a condição humana a partir da interrogação religiosa. Ou que se interrogaram religiosamente a partir da condição humana. Várias circunstâncias históricas acabaram por nos trazer ao ponto onde hoje estamos: entre a incapacidade de o catolicismo se questionar e a ignorância (ou o preconceito) social que tantas vezes se verifica, mesmo em meios “culturais”, há uma manifesta evacuação da reflexão teológica ou religiosa da praça pública.
E, no entanto, ela move-se. Em livros ou no cinema, na política ou na economia, a questão religiosa existe, a experiência de fé está presente na vida e nas questões que atravessam muitas pessoas. Por vezes, irrompe mesmo de forma impetuosa, veemente. Só que é mais cómodo acantonar o fenómeno na dimensão individual, na religiosidade popular, no fundamentalismo ou no esoterismo, sem cuidar de outras averiguações mais profundas, mais sérias ou questionadoras.
É certo que, no processo de reconfiguração do campo religioso, as pessoas se têm afastado da dimensão institucional. A autonomia individual afirma-se cada vez mais, também na aproximação à questão religiosa. Para citar ainda Tolentino Mendonça, e tomando como exemplo livros ou filmes recentes cujo pretexto é a pessoa de Jesus: “O que há de novo é que se acentuou um certo individualismo na apropriação que as pessoas têm necessidade de fazer da figura de Jesus. Já não há instâncias que tracem um modelo, seguido por toda a gente, quanto à aproximação à figura de Jesus. Temos uma galáxia de apropriações, muitas fazendo tábua rasa dos dados históricos, explorando o lado da fábula, que vêm ao encontro de dimensões da nossa contemporaneidade, como a acentuação de fenómenos de crença e de uma certa racionalidade.”

**

Uma das consequências da ausência de reflexão e debate leva ao menosprezo de uma ideia essencial do cristianismo: a sua pluralidade intrínseca. Numa outra entrevista, recorda frei Bento Domingues: “É da própria essência da Igreja ser plural. Os textos a que a Igreja se refere como fundadores – as narrativas evangélicas – têm quatro versões. Portanto, a Igreja tem de viver em comunhão, mas na diferença.”
A individualização da experiência religiosa, a sua autogestão, manifesta o problema das pessoas com o lado institucional, mas não retira Deus – ou a questão do transcendente – das suas vidas.

E não colhe o argumento de que a Igreja não tem que ser uma democracia. Não tem que o ser, no sentido de imitar os mecanismos e processos da sociedade civil. Aliás, nem isso seria bom, conhecidos que são os limites das democracias contemporâneas, capturadas por poderes financeiros ocultos e poderosos, que fogem do controlo cidadão. Mas a experiência religiosa tem que ser democrática, no sentido de reconhecer cada pessoa como sujeito da sua própria consciência e realização. E sob pena de os crentes se sentirem diminuídos na sua cidadania eclesial ou religiosa, quando confrontada com a que experimentam na sociedade civil. Sigo, aqui, expressões de Manuela Silva: “À democracia corresponde um modo de ser pessoa que é uma aquisição do ponto de vista antropológico: o reconhecimento do ser humano como sujeito da sua realização na história. É essa dimensão que terá, forçosamente, que passar também para o interior da Igreja, com modalidades adequadas. Não se trata, assim, de importar o modelo democrático das sociedades civis para o interior da Igreja. Trata-se de acomodar o modo de funcionamento da Igreja a este enriquecimento, do ponto de vista antropológico, de um ser humano que é membro da Igreja.”
Mais ainda: mostra-nos a história que a experiência de “um homem, um voto” (uma pessoa, um voto, diríamos melhor agora) nasceu nas comunidades monásticas medievais. Ora, essa experiência profundamente democrática de afirmação da responsabilidade individual no consenso das escolhas comunitárias ou colectivas não pode ser obliterada. Tal como não se podem apagar, recorda Dimas de Almeida, factos como a influência decisiva dos descendentes espirituais de Calvino, com a sua estrutura de governo presbiteriano, na construção da democracia dos Estados Unidos.

**

O pluralismo intrínseco do fenómeno religioso (falo aqui sobretudo do cristianismo e catolicismo, mas as referências podem ser alargadas também às outras religiões) manifesta-se hoje, no caso da expressão religiosa dominante em Portugal, em debates sobre questões como a doutrina moral, o papel das mulheres ou a já referida participação democrática no interior das comunidades religiosas.
Desde logo, há uma dificuldade grande com a questão do corpo. “O cristianismo é realmente uma religião do corpo”, recorda Anselmo Borges numa outra das entrevistas aqui publicadas. “Porque, logo no livro do Génesis, se diz que Deus criou o homem à sua imagem e semelhança, ‘homem e mulher os criou’ e achou que isso era muito bom. Deus mesmo, em Jesus Cristo, assumiu a corporeidade humana na sua fragilidade. E os cristãos têm como núcleo da sua fé a ressurreição de Jesus e a ressurreição dos mortos.” A pergunta é: “Como é que uma religião do corpo se dá depois tão mal com o corpo, historicamente? É espantoso e é necessário investigar isso...”
Esta dificuldade tem levado a mal-entendidos no modo de se enfrentarem as questões morais. Privilegia-se a norma em detrimento do sentido último, o interdito em vez da afirmação positiva e do entendimento. Neste campo, o que se passou com a encíclica “Humanae Vitae”, assinada pelo Papa Paulo VI em 1968, é sintomático: ao ser redigida por uma comissão refeita depois de expulsos os casais e médicos que a compunham, tornou a questão da contracepção artificial quase um dogma e levou muitos católicos ao abandono da Igreja e, mesmo, da fé.
O tema tem, aliás, tido diferentes entendimentos dentro do cristianismo. Dimas de Almeida recorda a forma como o protestantismo calvinista propôs uma nova forma de ver a sexualidade, no interior de uma perspectiva cristã: “Em linguagem de hoje, Calvino dessacraliza o casamento. Ao retirar o casamento das amarras de um poder religioso que o condiciona eticamente, Calvino liberta-o e escancara as portas a uma nova interpretação da sexualidade. O casamento é visto como algo que não se esgota na sexualidade.”
Também o lugar da mulher no interior dos sistemas religiosos é uma questão disputada. Desde logo, estamos perante o poder da metáfora: “Enquanto não se puder dizer que Deus é mãe, não se pode dizer que é pai. A ideia de Deus como pai é uma metáfora, que só se pode reconhecer como metáfora e tem de se poder colocar ao lado de outras metáforas”, afirma Teresa Toldy. “Ou seja, também tem de se poder dizer que Deus é mãe. Mas Deus não é pai nem é mãe, está para além de tudo o que se possa dizer dele. Podemos encontrar aproximações que nos permitem compreender um pouco mais de Deus. Mas não podemos identificar Deus com nenhuma delas.”
Depois, há o problema de como se traduz essa metáfora na organização institucional. A actual exegese bíblica mostra que as mulheres referidas nos evangelhos tinham um papel decisivo no grupo de discípulos de Cristo. E Paulo de Tarso, tantas vezes erradamente acusado de misógino, colocou mulheres como líderes e animadoras de várias das comunidades cristãs por ele fundadas. Esses papéis iniciais foram obliterados logo na terceira ou quarta geração de cristãos, além de terem tido a oposição de uma sociedade onde a mulher era pouco mais que um objecto – e cuja lógica os primeiros cristãos foram incapazes de contrariar, apesar de o terem tentado em outros campos. Por isso, está por recuperar essa intuição do cristianismo original.

**

Questão disputada, e não pouco nos tempos que correm, é ainda a da intervenção social e política dos crentes. No caso católico, ela está muitas vezes acantonada a um espectro político determinado, que sublinha alguns aspectos do pensamento tradicional da Igreja, mas esquece ideias fundamentais como o destino universal dos bens ou a radical centralidade de pessoa na reflexão sobre a economia.
Entre a tentação da teocracia e a remissão para a sacristia, estão por descobrir as “dimensões da mudança” (como tão bem sugeria o título de um livro de Maria de Lourdes Pintasilgo) que sejam consequentes com a fé. Dimensões que passam, antes de mais, por entender a vida e os problemas como um todo. No relatório “Cuidar o Futuro”, da Comissão Independente População e Qualidade de Vida, a que presidiu, Pintasilgo sintetizou essa dimensão holística que sempre a orientou: “Tratar de forma tradicional – sectorial e isolada – o problema da população não nos abria nenhum caminho. Tivemos, por isso, que o situar no nó das outras políticas que a ele estão ligadas. Verificámos que certas políticas são determinantes: a saúde, a educação, o trabalho. Outras são escamoteadas por afectarem a capacidade de carga da terra e da sua atmosfera: as políticas de ambiente, as económicas, as que regulam os esquemas de produção e padrões de consumo. Nada disto é sentimental, bem pelo contrário. (…) Estamos perante uma grande viragem cultural que tem de se impor a esse outro mundo da mera competição. É a grande mudança que temos à nossa frente.”
Mecanismos de participação democrática e económica, mercados económicos organizados para as necessidades humanas e não para o lucro, umas Nações Unidas mais democráticas e fiéis à defesa dos direitos humanos, o combate à guerra, à fome e à miséria, são apenas alguns dos aspectos a que os crentes – cristãos e não só – deveriam saber dar respostas a partir das suas convicções. O escândalo da exclusão social, “evitável” e insustentável, coloca em risco a própria democracia, como avisa Manuela Silva. Por isso, há que reinventar ou debater também os mecanismos económicos, incluindo questões como a democratização das empresas, defendida na entrevista de Alfredo Bruto da Costa. É precisamente porque entendo que a fé não é alheia a uma reflexão sobre a realidade económica e social, que trago aqui também as vozes de quem olha para esses temas a partir da sua condição de crente.

**

Mesmo se Portugal é um país onde ainda se faz sentir o peso de uma crença maioritária, não são já estranhos outros modos de viver a fé em Deus – incluindo os de manifestar a descrença, como é o caso de Mário Soares, que se interrogava se não seria “talvez um místico que se desconhece”. Desde muito cedo, no meu trabalho no “Público”, procurei trazer para a praça pública vozes diferentes dentro da experiência religiosa – e não apenas católica, expressão maioritária no país, mas que, mesmo em Portugal, não esgota o leque de vozes que reflectem sobre a fé em Deus. Por isso, várias expressões têm aqui lugar, mesmo se a lista de entrevistas não esgota os discursos possíveis no campo religioso. As que aqui se reúnem sugerem, no entanto, a pluralidade e a profundidade, a capacidade de proposta e de debate.
Um dos meus propósitos, ficou já dito, tem sido o de dar expressão de cidadania à teologia, à reflexão sobre Deus, ao debate sobre a vida a partir da experiência crente. O debate cultural não pode continuar a remeter para a clandestinidade essas vozes que, pela sua diferença, podem ser um contributo fundamental também para a definição das escolhas sociais. Pelo contrário: religiões e cultura têm que se abrir mutuamente, para permitir que a condição humana seja mais dignamente vivida por todas as pessoas.
Na actual reconfiguração da experiência social e religiosa, falta às instituições religiosas a capacidade de tornar o nome de Deus algo de significativo para a vida das mulheres e homens deste tempo. E serem, sobretudo, uma proposta positiva. No livro “Luz do Mundo”, publicado no final de 2010, o próprio Papa Bento XVI apontava esse caminho, falando da experiência cristã: “Temos de procurar que as pessoas não percam Deus de vista. Temos de procurar que elas reconheçam o tesouro que possuem. (...) [Jesus] veio (…) para que possamos tocar Deus. Para que a porta ficasse aberta para nós. (…) Para que encontrássemos a vida, a verdadeira vida, que já não está subjugada à morte.”
Falta, também, que as instituições religiosas saibam o que pretendem: ter mais pessoas nas suas missas ou cultos, crescer nas estatísticas ou contribuir para que a sociedade se torne mais justa e fraterna? As respostas que têm sido dadas (pela confissão maioritária, mas também por outras expressões minoritárias) limitam-se à repetição de fórmulas com décadas ou séculos que já pouco sentido têm – e que, pelos vistos, nem sequer têm dado resultados na lógica de manutenção.
No caso católico, para ir de novo ao exemplo mais evidente, isso nota-se no campo litúrgico e ritual (onde predomina uma indigência que só afugenta), no âmbito moral (onde muitas pessoas já não seguem regras que não respondem às suas perguntas) ou na intervenção social, tantas vezes presa de compromissos com poderes fácticos. E predominam, em grande parte das confissões religiosas, modelos centralizados, sem projectos mobilizadores e onde a dimensão comunitária é preterida em favor da hierárquica.

**

As mudanças sociais exigem outra dinâmica, outra atitude das comunidades religiosas. E outro modo de olhar a liberdade, esse tema fundador da relação do homem com Deus, na perspectiva das grandes religiões. Como recordava o padre João Resina, de grata memória: “Quem falou a sério da liberdade foi o existencialismo, quer cristão quer ateu. Sartre, Gabriel Marcel, Heidegger disseram que a liberdade é o poder de dar sentido à vida, é o poder de pegar na vida e fazer da vida a minha vida. Heiddeger foi mais longe ao dizer que a verdade só surge no contexto da liberdade: eu tenho que deixar ser as coisas e as pessoas para que elas se revelem. A essência da verdade é a liberdade.”
É para essa verdade cuja essência é a liberdade que pretendo contribuir, dando voz a estas vozes.

Sem comentários: