quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Prémio para reportagem sobre católicos portugueses e Igreja no Estado Novo

A reportagem Esplendores, que retrata a relação entre Igreja, Estado e sociedade, num retrato do Portugal de há 60 anos e das mudanças entretanto registadas sobretudo na região de Portalegre e do Alentejo, venceu o 17º Prémio Orlando Gonçalves.
Da autoria de Joaquim Franco, um dos colaboradores do RELIGIONLINE, investigador em Ciência das Religiões e jornalista dedicado à informação religiosa na SIC –, a reportagem (que pode ser vista aqui) faz uma ponte de 60 anos: em 1953, o poder político, local e nacional, convivia confortavelmente com o poder eclesiástico, numa cumplicidade quase inquestionável. Vários grupos de católicos e os movimentos de Acção Católica politizavam-se e desenhavam já um compromisso social nem sempre em sintonia com uma hierarquia maioritariamente comprometida com a situação. Era uma sociedade estratificada e conservadora. A economia do país começava a recuperar, mas havia perseguição e censura. Acentuava-se a emigração e o êxodo para o litoral.


Vindo das missões, Agostinho de Moura era feito bispo e nomeado para Portalegre, para suceder a D. António Ferreira Gomes, entretanto nomeado para o Porto. Na posse dos arquivos da SIC, Esplendores do episcopado, um filme realizado por profissionais que viriam a estar associados à fundação da RTP, registava naquele ano a entrada do bispo na diocese, em cortejo, desde a barragem de Castelo de Bode, inaugurada dois anos antes, até à sede episcopal de Portalegre.  
Seis décadas depois, recuperam-se memórias. Com o repórter de imagem de Hugo Neves e o editor de imagem Andres Gutierrez, Joaquim Franco fez agora o mesmo percurso que o bispo seguiu há 60 anos e encontrou uma diocese vítima do êxodo rural e abandonada pelo poder central. “Há 60 anos era um país de contrastes, 60 anos depois encontrámos o contraste entre as esperanças concretizadas, as lutas frustradas e os sonhos desfeitos” de uma geração, diz Joaquim Franco a propósito da reportagem.


Em Martinchel, Abrantes, Tolosa, Alpalhão e vários outros lugares percorridos pelo bispo, os repórteres cruzaram-se com gente que, emocionada, se reconhece num filme que nunca tinha visto. “São escassos os momentos na carreira de um jornalista em que, logo no terreno da reportagem, percebemos claramente que estamos a viver um momento único e inesquecível, e foi o caso”, acrescenta Joaquim Franco. 
O envelhecimento no Alentejo há muito fez soar o alarme. Há dois idosos por cada habitante em idade activa. Há 60 anos havia um idoso por cada três pessoas em idade activa e ninguém podia prever em Portalegre a morte da agricultura e da indústria. O atual bispo de Portalegre-Castelo Branco, Antonino Dias, também desconhecia a existência deste filme. Diz que não se sente sozinho, mas lamenta que o interior tenha sido “abandonado” ao longo das últimas décadas. Esplendores retrata o ambiente religioso, social e político vivido em Portugal na década de 50 do século passado. “Não me vejo numa situação daquelas», assegura o actual bispo, em comentário às imagens da entrada triunfante do antecessor, transportado num descapotável topo de gama, ladeado pelas forças representativas do poder, recebido nas aldeias por colchas às janelas e multidões de todas as idades que lhe atiram flores.


O Prémio Orlando Gonçalves distingue alternadamente obras de ficção e trabalhos jornalísticos de reportagem ou investigação, tendo como referência a cultura e história portuguesas, os direitos humanos e a democracia, bem como reflexões sobre os problemas sociais e políticos, princípios que nortearam a vida do jornalista Orlando Gonçalves. 

A distinção a esta reportagem foi atribuída por unanimidade. O prémio será entregue a 22 de Outubro, no auditório da Biblioteca Fernando Piteira Santos, na Amadora. O júri atribuiu também menções honrosas aos trabalhos Em busca do Pai Tuga, de Catarina Gomes, Combate ao trabalho não declarado e à exploração de trabalhadores – apanha da azeitona sob investigação, de Bruna Soares e História de uma vida, história do País, de Susana Moreira.

1 comentário:

Padre Batalha disse...

Em primeiro lugar saúdo e aplaudo a iniciativa de se fazer ouvir os andam fora da Igreja, sobretudo aqueles a tenham como referência de sentido para a vida. Porque o Espírito Santo não fala só dentro da Igreja. Deus não é um prisioneiro.
É preciso escutar outras até para as nossas recebam também uma mais valia.
Isso é também um desafio aos que já andam indiferentes. No que puder vou ajudar-vos P. Joaquim Batalha