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terça-feira, 26 de março de 2013

Documento revelador sobre intenções do novo Papa
Igreja deve romper com a auto-referencialidade e sair para as periferias

A história vem hoje no jornal espanhol Religion Digital. O Cardeal Bergoglio fez uma intervenção numa das reuniões do colégio dos cardeais, na fase pré-conclave. O seu colega Cardeal Jaime Ortega, de Cuba, ficou entusiasmado com o que ouviu e perguntou àquele que viria a ser o futuro Papa se tinha algum texto escrito. Bergoglio disse que não, mas, entretanto, redigiu umas notas e entregou-lhas, dando autorização para que as utilizasse. A mesma autorização viria a reiterar, uma vez eleito para o exercício do ministério petrino. Jaime Ortega revelou estes episódios numa liturgia que ocorreu no sábado passado em Havana. Entretanto, a revista da diocese, Palabra Nueva, publicou esse documento que é, sem dúvida, importante e que aqui damos em tradução para português (conferir com o original aqui):
"Foi feita referência à evangelização. É a razão de ser da Igreja. - "A doce e reconfortante  alegria de evangelizar" (Paulo VI). - É o próprio Jesus Cristo, que, de dentro, nos impulsiona.
1 - Evangelizar supõe zelo apostólico. Evangelizar supõe para a Igreja a ousadia de sair de si mesma. A Igreja é chamada a sair de si mesma e ir para as periferias, não só geográficas, mas também existenciais: as periferias do mistério do pecado, da dor, da injustiça, da ignorância e desprezo rleativamente à religião, do pensamento e de toda a miséria.
2 - Se a Igreja não sair de si mesma para evangelizar torna-se auto-referencial e, em seguida, fica doente (cf. a mulher do evangelho, dobrada sobre si própria) . Os males que, ao longo do tempo, se verificam nas instituições eclesiais têm raíz na auto-referencialidade, uma espécie de narcisismo teológico. No Apocalipse Jesus diz que ele está à porta e chama. Obviamente, o texto refere-se ao bater de fora da porta para entrar ... Mas penso também nas vezes em que Jesus bate do lado de dentro para que o deixemos sair para fora. A Igreja auto-referencial busca Jesus Cristo dentro de si e não o deixa sair.
3 - Quando é auto-referencial, a Igreja, involuntariamente, acredita ter luz própria, deixa de ser mysterium lunae e dá lugar a esse mal tão grave que é o mundanismo espiritual (que, de acordo com de Lubac, é o pior mal que pode acontecer à Igreja). Esse é um viver em que uns glorificam os outros. Simplificando, há duas imagens da Igreja: a Igreja evangelizadora que sai de si - a Dei Verbum religiose audiens et fidenter proclamans; ou Igreja mundana que vive em si, de si e para si. Isto deve lançar luz sobre as possíveis mudanças e reformas que devem ser feitas para a salvação das almas.
4 - Pensando no próximo Papa: [que seja] um homem que, a partir da contemplação e adoração de Jesus Cristo, ajude a Igreja a sair de si para as periferias existenciais, que a ajude a ser mãe fecunda que vive da "doce e reconfortante alegria de evangelizar ".
Notas:
- No ponto 2, foi usada a expressão 'sair para fora'. É óbvio pleonasmo, mas pareceu que, no contexto, dava força à ideia.
- No ponto 3, a expressão latina mysterium lunae é uma forma metafórica de referência à Igreja que, tal como a lua, não tem luz própria, recebe-a do sol que é Cristo.
- Dei Verbum religiose audiens et fidenter proclamans [escutando piedosamente a Palavra de Deus e proclamando-a com confiança] é a abertura, da versão em latim da Constituição Dogmática Dei Verbum sobre a Revelação Divina, do Concílio Vaticano II.
(Crédito da foto dos apontamentos do Papa: Valores Religiosos)

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Inquérito Nova Evangelização (10) - Helena Araújo

"O Deus em que acredito anda por aí, e suspeito até que se diverte com o uso de heterónimos"
Helena Araújo, 47 anos, tradutora

1. As transformações sociais e as suas consequências, nomeadamente o deserto interior

A expressão "deserto interior" surpreendeu-me de tal modo que cheguei a desconfiar que fosse erro de tradução ou de palavras fora do seu contexto... Mas parece que não. Decididamente, o Papa e eu não frequentamos os mesmos lugares e a mesma História. O meu mundo está cheio de pessoas que, não sendo necessariamente cristãs, se empenham na procura de um sentido e a traduzem em gestos de humanidade.
Deserto interior? Estou com o Padre Américo: "não há rapazes maus".
O facto de não chamarem Jesus Cristo à fonte que inspira os seus gestos, e
não irem à missa periodicamente, não significa que as pessoas vivam em
"deserto interior". Inversamente, frequentar a Igreja e alardear a Fé não é
garantia de nada - como prova, aliás, o modo desastroso como a Hierarquia
lidou com o horror da pedofilia.
Eu teria até um certo pudor em usar estas palavras a partir do interior da
Igreja. Não é preciso vasculhar muito no seu caixote de lixo para encontrar
situações de deserto interior que emanam da própria ortodoxia católica. O
exemplo habitual é o da Inquisição mas, infelizmente, há muitos outros, tais
como o caso Mortara, em meados do séc. XIX, ou o caso da educadora de
infância de um jardim infantil católico, na Alemanha de fins do séc. XX, que
foi despedida por estar grávida sem ter a situação familiar esclarecida (não
se queria dar maus exemplos às criancinhas, compreensível...).
A terrível perversão das "criadas" e dos "afilhados" dos padres, com a qual
a Igreja tem convivido pacatamente ao longo dos séculos, é um cruel exemplo
dos limites daquele diagnóstico: algumas das transformações sentidas como
ameaça (a revolução sexual, a moral sexual, os chamados ataques à família
tradicional) criaram nas pessoas uma consciência da sua dignidade e da
justiça que não permite continuar a aceitar passivamente escândalos como
estes.

E vou mais longe: estas transformações sociais são uma excelente
oportunidade de renovação da Igreja, e um desafio assustador. No espaço de
liberdade, exigência, capacidade de escrutínio e crítica que é o nosso mundo
actual, ninguém deve obediência, generosa tolerância e muito menos
respeitinho à Igreja Católica. Mas como pode esta - lugar de pecado como o
próprio mundo - ser exemplar de modo a conquistar o respeito de um mundo
livre, profundamente crítico e que a sente como um elemento hostil?

2. Os sinais dos tempos e o papel da secularização

Olho à minha volta, e vejo que alguma espécie de Bem toca os gestos das
pessoas. Vejo milhentos impulsos de generosidade e humanidade, inúmeros
voluntários que oferecem muito do seu tempo para servir os necessitados, a
dedicação com que tantas ONG tentam tornar o nosso mundo mais justo e mais
humano. Vejo no Burning Man (provavelmente o festival mais louco dos EUA)
que o espaço da meditação e espiritualidade é um dos mais frequentados. O
Deus em que acredito anda por aí, e suspeito até que se diverte com o uso de
heterónimos.
Talvez a secularização seja sinal de um Espírito Santo feito tempestade:
quando a sociedade se emancipa e confronta a Igreja com as suas próprias
contradições e fragilidades, obrigando-a a um esforço de renovação, a
sacudir a tralha acumulada e anacrónica, a concentrar-se no único fulcro
possível: Jesus Cristo.

3. A "nova evangelização"

"Nova evangelização"?! Eu gostava da antiga, aquela que se resumia à frase
"vede como eles se amam".
Em todo o caso, uma evangelização não pode ser uma operação de cosmética, de
gestão da crise, de reacção. Num mundo em que uma insuportável transparência
anda a par com exigências e críticas implacáveis, só fará sentido se for um
esforço profundo e muito honesto de se reencontrar com Cristo no coração do
nosso tempo. Um esforço que atinge tanto a tradição e as estruturas internas
da Igreja como a sua maneira de estar e agir no mundo.

4. A Igreja centrada numa “decisão ética” reduzida a uma ou em questões de
disciplina e de regras internas e, menos, na Pessoa de Jesus Cristo

Eu ia dizer que sim, que ça va sans dire, mas depois lembrei-me que também
sou Igreja, e que alguns padres e bispos que muito admiro também são Igreja.
A Igreja somos nós todos, é um lugar de imensa diversidade e pluralidade de
experiências. Se uns se prendem mais à "decisão ética" outros entregam a
vida ao serviço do encontro com Jesus. Se uma parte da Igreja endurece num
fundamentalismo dogmático, outros (e com certeza também alguns dos
"fundamentalistas") vão ao encontro daqueles que vivem na mais horrível
miséria, levam a luz de Cristo ao mundo, em gestos simples e despojados.
Penso na Comunidade de Sant'Egídio, nas Missionárias da Caridade, na
Comunidade de Taizé, e em tantos outros exemplos.


5. "Fórmulas" de evangelização para Portugal

Estrangeirada que sou, não me peçam para falar sobre Portugal. Dou, em vez
disso, um resumo de um debate a que assisti recentemente num grupo de leigos
católicos alemães, sobre caminhos de futuro para a Igreja:

Dois problemas centrais atravessam a Igreja: a crescente polarização, sobre
a qual pouco se tem reflectido, e a ausência da cultura do diálogo (nas duas
vertentes: horizontal e vertical) que por vezes chega a tomar a forma de
bloqueio. A Hierarquia padece de uma arrogância que a impede de reconhecer a
igualdade dos cristãos e de aceitar que a Igreja é antes de mais o povo de
Deus.
A renovação, necessária e inadiável, passa pela igualdade, pelo respeito
mútuo, pela participação de todos. Só assim se conseguirá uma ordem interna
estável e se ganhará credibilidade perante o exterior.
Motivos para os bloqueios:
- imagem teológica que os bispos têm de si próprios
- passividade dos leigos, que aceitam essa autoridade dos bispos sem
questionarem quais são as suas bases, esquecendo que os portadores primários
de autoridade são as comunidades e não os bispos
- passividade dos leigos, que não estudam as escrituras e não se entendem
como sujeito actuante da sua própria Fé

A Igreja e o Reino de Deus (que é hoje o mundo secularizado): o mundo fugiu
da Igreja porque foi maltratado por ela, que, ao concentrar-se em si própria
esquecendo os que sofrem, provocou ainda mais sofrimento. A Igreja tem de se
voltar para o mundo. Cristo fala do Reino de Deus, e não da Igreja. Esta não
é um objectivo em si própria, existe para cumprir uma missão importante. O
diálogo, se não for entendido como serviço, não passará de umbiguismo e
auto-reflexão.

Visões de futuro:
- Diálogo com as comunidades, o ecumenismo, o mundo: é necessário tomar
todos em consideração para entender o alcance da necessidade de reformas
dentro da Igreja.
- Fim da profunda discriminação das mulheres. O que é que a Igreja não
perdeu em todos estes séculos em que arredou do seu seio um grupo tão
importante? Só quando houver igualdade homem/mulher dentro da Igreja será
possível esta ter um olhar abrangente e equilibrado sobre o mundo.
- Estatuto das comunidades: o consenso é indispensável. O diálogo não deve
ser orientado pela Hierarquia, mas realizado com a participação de todos em
condições de igualdade. Todas as comunidades são sinodais e conciliares.
- Já não vivemos no feudalismo e no absolutismo: que autoridade pode ter um
bispo que não foi escolhido pela sua comunidade?
- Os leigos têm de se empenhar mais na Igreja. Não basta dizer mal dos
padres e da Hierarquia, há que assumir a sua quota parte de responsabilidade
e agir: "onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome".
- Confiança nos jovens: nas suas capacidades teológica, de solidariedade e
de empenhamento.
- Desclericalização dos cargos/serviços.
- Conexão ao tempo presente, solidariedade com os que sofrem, opção pela
pobreza.
- Diálogo público, abrangente e transparente. Sem se esquivar às questões
mais incómodas, sem temer (a renovação exige a coragem de experimentar),
realizado em conjunto (procurando especialmente a participação dos mais
jovens), procurando soluções parcelares que evitem o enquistamento em
trincheiras ideológicas, e sem desistir. Acreditar sempre que o espírito de
Jesus Cristo nos acompanha neste caminho.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Inquérito Nova Evangelização (9) - Maria da Conceição Coutinho

Aceitar o desafio do tempo que vivemos

Maria da Conceição Coutinho, 52 anos, administrativa, animadora do blog Jardim de Luz

1. Essas transformações foram portadoras de autonomia para o homem. Que é chamado a viver a experiência religiosa, não como uma necessidade ou de forma condicionada pelas estruturas religiosas, mas em liberdade criativa.
Mas a complexidade é própria do viver humano. "Assim o que realizo, não o entendo: pois não é o que quero que pratico, mas o que eu odeio é que faço." (Rm 7, 15). Todos os actos e realizações humanas vivem a tensão da luz e das sombras. Só Deus é criação pura. Ter consciência disso, ajuda-nos a olhar para nós próprios, para o nosso grupo religioso e para a sociedade, não através de um modelo ideal que se persegue (e nunca se conseguirá alcançar), mas sabendo que é a actividade do nosso caminhar que nos humaniza.
É, ainda, desavisado e imprudente utilizar um único modelo religioso e social (e é isto que, quanto a mim, o documento do Papa reflecte) para avaliar a espiritualidade e religiosidade contemporâneas.

2. As leituras são sempre múltiplas. Mas temos como base deste inquérito o documento papal, que reflecte o olhar de uma hierarquia que vive à margem da sociedade e até das comunidades católicas e vive apoiada numa estrutura centralizadora.
A secularização é o sinal de que já não é possível viver mais esse modelo. Perante ela temos vários caminhos. Ou se teima em alimentar e fomentar o mesmo esquema doutrinal e institucional (com as consequências que se vão verificando: comunidades reduzidas a idosos e a práticas ritualistas que já não dizem nada do que pretendem ser:"sal da terra", "fermento na massa", "ressurreição"). Ou aceitamos o desafio do tempo que vivemos que, a par de desenvolvimentos técnicos, científicos e humanos, configura uma grave "injustiça globalizada". E o cristianismo tem um largo espaço de acção neste campo.
O espanto dos evangelhos é apresentarem-nos um Jesus próximo, companheiro, interpelador. Quantos são os bispos efectivamente presentes nas suas comunidades? E no meio social que é todo o espaço da diocese?

3. A expressão é dúbia. Têm-se em conta as diferentes realidades? Parece-me que não. Uma evangelização que não tenha em conta a pluralidade do paradigma actual - económico, multirracial, multi -religioso, feminista, espaço privado da consciência - não pode ser considerada nova.
E muito menos será nova, apenas, por utilizar os meios informáticos e tecnológicos de que dispomos. Utilizar novos meios e manter a estrutura é desperdiçar oportunidades.

4. E quando é que se dá esse "início"? Eu diria que é um início que está sempre acontecendo. Um cristão (ou um grupo) "corre para a meta" não é a "meta".
"Eu sou a ressurreição e a vida! (Jo 11,25) Jesus pôde afirmá-lo
com propriedade e verdade. Nós, crentes cristãos, descobriremos com humildade que a nossa vida está marcada pela finitude e pela morte. Quanto maior for a nossa consciência de peregrinos, mais percebemos que a nossa adesão a Jesus não nos faz diferentes de ninguém. Todos fazemos parte do Todo. Então, individualmente e como grupo religioso, aprenderemos a dialogar e a descobrir o que é a vida.

5. Por tudo o que disse acima facilmente se conclui que concordo com o Papa: não implica “uma única fórmula igual para todas as circunstâncias”.
Desconhecia o debate sobre "estratégias e métodos." Não quero ser muito negativista, mas como não sê-lo com uma Conferência Episcopal tão discreta, tão alinhada à estrutura eclesial dominante? Sem alterar a estrutura não há linguagem, nem métodos que não passem de episódios voluntaristas.
Não posso ignorar, porém, que um pouco (ou muito) à margem da "estrutura" existem já grupos e indivíduos que vivem um modo diferente de ser Igreja e ser cristão.
O Espírito continua a soprar e a vivificar no mistério.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Inquérito Nova Evangelização (8) - Leonor Xavier

Secularização, feliz sinal dos tempos

Leonor Xavier, jornalista e escritora, membro do Movimento Internacional Nós Somos Igreja


I – A expressão leva-me a pensar em algo que tem que ser revisto na atitude de cada homem e de cada mulher em relação ao entendimento da vida e da morte, na experiência religiosa. Leva-me a regredir na história do mundo, quando a Palavra de Jesus abalou a realidade assente na expressão do poder, que era a do seu tempo e lugar, e fez do amor uma revolução verdadeira. Leva-me a pensar na dimensão misteriosa e infinita da fé, como iluminação de vida. A Nova Evangelização é uma maneira de dizer esse infinito de descobertas possíveis quando a prática de todos os dias deixou de ser o cumprimento formal do culto ou o ritual sempre repetido sem mudanças, porque a toda a hora e nas mais variadas circunstâncias deste mundo nos exige uma interior profissão de fé. Não só na consciência de Jesus em nós, mas na certeza de que a Palavra é universal, que é para todos e todas, além das diferenças sociais, culturais, ideológicas, religiosas. A Nova Evangelização faz-me pensar num compasso de pausa e de silêncio, na tumultuação dos dias.

II - A secularização é, sim, um feliz sinal dos tempos, em que a vivência religiosa deixou de ser um constrangimento de normas acordadas e de regras impostas para se tornar uma experiência de testemunho e liberdade.

III - A Igreja poderá ter papel principal na sociedade do nosso tempo, quando o nome de Jesus for presença constante no seu ministério. Quando, em vez de condenar e excluir, chame e envolva e inclua. Quando reconsiderar o celibato dos padres ou a não ordenação das mulheres, a condição dos divorciados e dos homossexuais. Que pena a atitude radical da Igreja nestes pontos, em contraste com a sua intervenção no plano da educação e da assistência.

IV - Para Portugal, a Nova Evangelização pode passar pelo diálogo inter-religioso, em públicas ocasiões, auditórios abertos, em que opiniões e vivências opostas ou diferentes se possam exprimir sobre temas diversos. Pode passar pela intervenção na cultura, através das várias disciplinas de criação e autoria, de atuação e arte.

terça-feira, 5 de abril de 2011

Inquérito Nova Evangelização (7) - Jorge Mendonça

Falta uma reflexão metódica sobre as grandes figuras da cultura contemporânea

José Jorge Teixeira Mendonça, 60 anos, professor

1. As transformações sociais das últimas décadas e as suas causas complexas tiveram uma multiplicidade de consequências correspondentes aos diferentes contextos em que se deram e à atitude dos sujeitos colectivos e individuais no seu modo específico de sentir e agir. Correndo o risco de simplificar, que pode ser redutor, entendo que o que está em questão é sobretudo o modo como cada um se vive a si próprio vivendo o seu contexto: na “neutralidade” anónima da terceira pessoa [on, it, es]ou na afirmação criticamente lúcida da primeira pessoa. Sejam quais forem as circunstâncias, o modo de os grupos e os indivíduos viverem pode ser estéril ou fecundo. E neste domínio não há “fecundação artificial” que possa disfarçar a esterilidade onde a houver.

2. A Igreja, enquanto Povo de Deus, pode fazer uma leitura dos sinais dos tempos alicerçando-se na oração [comunhão com Deus; felizmente - na relação com Deus - Ele não permite que se confunda comunhão com fusão] que, usando uma feliz expressão de Spinoza, proporciona uma visão do real sub specie aeternitatis. Nesta leitura dos sinais dos tempos, o Povo de Deus deve levar a sério as diferentes culturas (nas suas tão diversificadas expressões) para, num diálogo mutuamente interpelante, honrar a obra da criação que cabe a toda a humanidade continuar até à sua conclusão no fim da História. Assim sendo, a secularização é um sinal dos tempos que traduz o respeito pela autonomia das realidades terrestres. A secularização também constitui hoje o horizonte no qual a questão de Deus não é uma resposta “natural” mas antes uma questão existencial inerente à pergunta sobre o sentido da vida. Cada ser humano vive a sua própria vida como pergunta sobre este sentido que, para cada um, não está previamente constituído.

3. No número 5 do segundo capítulo dos Lineamenta, há uma expressão que bem pode exprimir o sentido da expressão “nova evangelização”: «A nova evangelização (…) é a coragem de ousar novos caminhos, face às novas condições no seio das quais a Igreja é chamada a viver hoje o anúncio do Evangelho.» Há aqui um corredor de liberdade que não pode ser asfixiado por atitudes “defensivas”. Que haja crises é um sinal positivo de que os equilíbrios não são estáticos mas dinâmicos [desde o século XIX que se conquistou, na cultura ocidental, a compreensão de que o movimento não é exterior ao ser, mas que o devir é o próprio conteúdo do ser]. A «nova evangelização» nega-se a si própria se o Povo de Deus não traduzir na sua própria vida os frutos e as interpelações do Evangelho.

4. Sempre que um cristão ou o Povo de Deus colocar em segundo lugar a pessoa de Jesus Cristo subordinando-a a outras “coisas”, é esse cristão e/ou o Povo de Deus que acabam por ser “evangelizados” até pela consciência crítica dos que não podem acreditar (aqueles a que habitualmente se chama não-crentes ou ateus).

5. Como baptizado que faz parte desta parcela do Povo de Deus que vive em Portugal, entendo ser necessário:
- cuidar da vida de oração
- na liturgia eucarística, os sacerdotes falam de mais; uma certa sobriedade, que não exclui a beleza da expressão litúrgica, educa para a dimensão transcendente do mistério de Deus; quando o sacerdote que preside à celebração eucarística não teve tempo para preparar cuidadosamente a homilia, então cale-se e proponha algum tempo de silêncio meditativo.
- é importante que no espaço eclesial haja uma reflexão metódica sobre as grandes figuras da cultura contemporânea nos seus diferentes domínios. A fé também se alimenta da contemplação das criaturas e as “criaturas” culturais não são menos criaturas que as naturais. Saber ver cura-nos das nossas “cegueiras” involuntárias.

sábado, 2 de abril de 2011

Inquérito Nova Evangelização (6) - Joana Rigato

A Igreja deve ouvir mais o mundo de hoje

Joana Rigato, 31 anos, professora

1 – Creio que a experiência religiosa se tornou simultaneamente mais individual e mais livre, o que traz grandes vantagens e também grandes riscos.

Nas sociedades ocidentais, talvez pela primeira vez na História, as pessoas passaram a não ser “obrigadas” a professar uma determinada fé nem a ter de pertencer a uma determinada religião. Isto provoca um certo desnorteamento, na medida em que há muita gente que não é educada na fé e não desenvolve a sua espiritualidade, embarcando muitas vezes em preconceitos superficiais acerca da religião dominante e vivendo a sua vida sem explorar todas as suas dimensões (o que conduz ao “deserto espiritual”). Simultaneamente, quando sentem a falta de uma dimensão transcendente na sua vida, muitas pessoas procuram-na sem grande critério, explorando propostas frequentemente incoerentes e até contraditórias entre si, misturando formas de terapia fácil com pseudo-religiões orientais, superstições camufladas de descobertas new age, etc. Isto é sinal de uma busca que não deixa de ter lugar nas sociedades modernas (e que, na minha opinião, deve ser empreendida com toda a liberdade) mas que nem sempre conduz a uma verdadeira profundidade.

Estes riscos são o “preço” a pagar pela fundamental conquista da liberdade religiosa. As igrejas estão mais vazias hoje – mas quem as frequenta fá-lo com muito mais verdade. Há muita confusão entre os vários caminhos possíveis, podendo perder-se de vista o património sapiencial de séculos de vida religiosa colectiva – mas a procura de Deus deixa de ser vivida exterior e passivamente, por fiéis que pouco se questionam e consideram que a Verdade não é descoberta mas aprendida, passando a ser assumida como um caminho e um compromisso. Tudo isto, a meu ver, torna o balanço francamente positivo. A busca é mais sincera e, multiplicada por milhões de pessoas, também muito mais rica.

2 – Sem dúvida que a secularização pode e deve ser vista como um sinal dos tempos. Tudo o é. Para que a Igreja possa ler esses sinais, deverá olhar o mundo sem pré-conceitos e sem superioridade. Não creio que a Igreja seja o “local” onde Deus habita e que a sociedade seja a realidade profana que recusa Deus e onde o espírito de Deus deixou de soprar. Deus atravessa toda a realidade, mesmo de formas inicialmente pouco compreensíveis. A Igreja deve perguntar-se: como é que Deus se manifesta nos jovens de hoje? Nos desempregados? Nos ateus? Naqueles que criticam a Igreja? Nas pessoas que fazem ioga?

A Igreja deve procurar perceber o que é que os caminhos que afastam as pessoas de si lhe revelam sobre a forma como ela própria fala de Deus. O que é que as pessoas procuram noutros sítios, que aqui não estão a encontrar? Como é que podemos revelar Deus de forma mais clara?

E assim, procurar compreender: aonde nos quer conduzir Deus actualmente? Como quer Deus que conduzamos a nossa acção?

3 – Penso que a última destas perguntas está a procurar orientar a resposta e a “forçar” a expressão em causa. Não creio que a “nova evangelização” deva ser vista nem como “uma forma de a Igreja sair das suas crises” nem como “desafio a repensar-se a estrutura eclesial”.

“Evangelizar” refere-se a levar a boa nova aos outros, ao mundo. O mundo precisa de Deus, a Igreja considera-se caminho privilegiado de descoberta de Deus e por isso assume como missão evangelizar. A meu ver, a “nova evangelização” é a evangelização do “novo mundo”, do mundo que mudou. A Igreja considera que deve repensar o modo de levar a boa nova ao mundo actual, ou seja, deve actualizar a sua forma de comunicar a mensagem. Eu concordo. Penso que, de facto, é necessário renovar a forma de evangelizar e que é fundamental pensar sobre isto.

Infelizmente, porém (e retomando o que respondi à pergunta anterior) o “re-pensamento” que a Igreja faz é frequentemente superficial. Como o “mundo” é visto como algo de exterior e oposto à Igreja (como se estivessem em duas frentes opostas de batalha: nós e os outros), a atitude é quase sempre de superioridade e não de escuta. Por isso, torna-se difícil “evangelizar” aquilo que não se percebe e com que não se “empatiza”. É uma espécie de atitude “colonizadora” e que já não funciona, nem voltará a funcionar (porque o “povo” emancipou-se e exige mais autonomia e mais respeito).

4 – Sem dúvida. Uma das grandes lacunas da Igreja enquanto testemunha de Cristo é, a meu ver, a sua tendência a apegar-se a questões acessórias, perdendo a credibilidade quando, depois, pretende pregar o essencial. O caminho de cada pessoa no seu encontro com Cristo tem de ser respeitado, e a Igreja deveria ser luz nesse caminho, uma ajuda no estabelecimento do diálogo e da intimidade entre cada pessoa e a pessoa de Jesus. Pelo contrário, ao longo da História e, infelizmente, ainda hoje, a Igreja actua como uma espécie da “mestre de cerimónias”, que pretende dizer a cada pessoa “como” percorrer o tal caminho.

Lembro-me, a esse propósito, das palavras de John Locke (protestante e muito anti-católico, é certo) referindo-se ao absurdo da falta de liberdade de religiosa que se vivia em Inglaterra na sua época (séc. XVII): «Se estou marchando com máximo vigor pelo caminho que, segundo a geografia sagrada, leva diretamente para Jerusalém, por que sou espancado? Será, talvez, pelo facto de não usar sandálias; porque não me deram o banho baptismal de maneira correcta ou meu cabelo não foi cortado como deveria; porque como carne na estrada ou qualquer outro alimento mais favorável para o meu estômago; porque evito certos atalhos que parecem conduzir-me a precipícios; porque, entre as várias sendas da mesma estrada e que levam para a mesma direção, escolho aquela que me pareceu ter menos vento ou barro; porque evito a companhia de certos viajantes menos graves e de outros mais impertinentes do que deveriam ser; ou, enfim porque sigo um guia que está ou não está coroado de mitra e vestido de branco? Certa¬mente, se ponderarmos devidamente, verificaremos que, na maior parte, são assuntos tri¬viais como estes que criam inimizades implacáveis entre confrades cristãos, apesar de todos concordarem com os aspectos essenciais da religião. Tais ninharias, porém, se não acompanhadas de superstição ou hipocrisia, podem ser observadas ou omitidas, sem qualquer prejuízo à religião e à salvação das almas.» (Carta sobre a Tolerância)

Creio que a Igreja é guardiã de uma Verdade revelada, mas que não pode ter a pretensão de ser a única nem de não se enganar ao procurar decifrar essa Verdade. Deus revela-se de muitas formas e, acredito, a toda a gente. A Igreja, através da sua sabedoria milenar, tem a missão de ajudar o povo a procurar, descobrir e aproximar-se de Deus em Jesus Cristo. Mas deve fazê-lo com humildade e no respeito da relação que se estabelece entre cada um e essa Verdade que se revela repetidamente. Deus deu a Razão e a luz da Fé a todos e a cada um, por isso seria até ofensivo que os fiéis se abstivessem de usar essas suas capacidades para se tornarem somente ovelhas.

5 – Antes de mais, há que pôr em prática algo fundamental e que remonta ao Concílio: o pleno envolvimento dos leigos na pastoral. Os padres são poucos e nem sempre têm uma formação mais profunda do que os próprios leigos. Por isso, os leigos devem ser vistos como um auxílio imprescindível na evangelização, no trabalho paroquial, na tomada de decisões.

Outro aspecto muito importante é a linguagem – frequentemente envelhecida, conotada, não só nas palavras como nas imagens, no estilo. Dou um exemplo que me é familiar: no âmbito da acção dos jesuítas, há imensas vocações, imensos jovens, um dinamismo que não se encontra noutros lados. Acredito que muito do mérito desta frescura está na linguagem. Veja-se o site da pastoral juvenil dos jesuítas: www.essejota.net

Penso que a Igreja em Portugal deve ouvir mais o mundo de hoje. Os seminaristas deveriam “misturar-se” mais com os jovens da sua idade para lhes conhecerem os gostos, as preocupações e haver mais afinidade entre uns e outros. A minha experiência como professora testemunha isto mesmo: muitas vezes aquilo que procurei transmitir aos meus alunos era exactamente aquilo que outros professores procuravam transmitir mas com menos sucesso. E porquê? Não porque eu fosse melhor em nada! Mas só porque era mais jovem, usava uma linguagem mais apelativa, menos datada, transmitia a imagem de alguém “normal”, que partilha gostos com os alunos em termos de música, ou roupa, enfim. Essa minha “normalidade” deu-me credibilidade para poder aconselhar, sugerir, ser levada a sério. Ora, se um padre acabado de sair do seminário hoje se veste da mesma forma que um padre saído do seminário há 50 anos, só ouve música religiosa, usa a segunda pessoa do plural nas homilias, etc… certamente que não será levado a sério pelos jovens da sua paróquia. Que fique claro: não estou a dizer que devemos mitigar a mensagem, torná-la mais light, de forma alguma! O que acho é que, compreensivelmente, as pessoas se deixam tocar e desinstalar por aqueles com quem se identificam, porque lhes “dão crédito”.

Também em termos de conteúdo há muito a mudar. Raramente ouço homilias que sejam realmente desafiadoras em termos sociais, onde a leitura do jovem rico não seja imediatamente acompanhada de uma palavra apaziguadora: “Claro que Jesus não estava a falar a sério quando disse que mais depressa entra um camelo pelo buraco de uma agulha do que um rico no reino dos céus! Não se assustem nem se ponham em causa, era uma metáfora! Estava só a falar do apego que temos às coisas, não se referia às posses que realmente temos!”

Ao contrário daquilo que encontrei na América Latina e em Itália (numa certa facção da Igreja italiana, que é tudo menos homogénea), raramente ouço palavras corajosas de crítica social na Igreja em Portugal ou padres que procurem envolver os seus paroquianos em movimentos cívicos, tomadas de posição concretas, denúncias, etc. Na sua maioria, a Igreja tem medo de tomar posição, de ser conotada politicamente com alguma ideologia, e então abstém-se e limita-se à assistência. A meu ver, isto tem-na feito perder terreno na sociedade. E para além de a prejudicar em termos de “marketing”, creio sobretudo que é lamentável que a Igreja “saia à rua”, em bloco, para questões como o aborto (questão relativamente à qual a posição oficial da Igreja tem a minha total concordância, não é isso que eu ponho em causa), não o fazendo da mesma forma quando há escândalos sociais dramáticos em Portugal e no mundo. Claro que, oficialmente, as posições da Igreja a nível de doutrina social são radicais e coerentes, mas não lhes é dado o devido eco na comunidade cristã, pelo que não têm visibilidade. Ou seja, ao contrário daquelas que eram as prioridades de Jesus, a catequese e a formação dos cristãos assenta ainda muito mais na moral dos costumes e na prática de ritos e regras, do que na ética social.

Por último, creio que a liturgia também deve sofrer uma grande revisão. Numa sociedade cheia de pressas, de ruído, de solicitações, deveria haver mais espaço para o silêncio e a introspecção nos momentos de encontro com Deus propostos pela Igreja. Depois de uma semana tão cheia de palavras gastas, de fórmulas automáticas, de exterioridade, seria muito importante que a oração comunitária de domingo fosse uma ocasião para parar realmente e deixar entrar o nosso coração em repouso, para podermos criar nele espaço para a palavra de Deus e o Seu sussurrar.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Inquérito Nova Evangelização (5) - José Manuel Pureza

Todo o apoio às pequenas comunidades de referência e de testemunho

José Manuel Pureza, 52 anos, professor universitário

1 – Creio que seria importante distinguir dois níveis de “experiência religiosa” (e referir-me-ei apenas ao cristianismo) para efeitos desta resposta. O primeiro é o da experiência pessoal. Aí, as grandes transformações sociais das últimas décadas terão provocado a evidência de fragilidades na cultura teológica e no relacionamento entre fé, ciência e sociedade. A condição crente tem vindo a ser desafiada a sacudir de si a carga de filiação num colectivo de verdades apodícticas e a assumir-se cada vez mais como imitação da vida de Jesus. O segundo nível de avaliação refere-se à experiência comunitária. E aí creio que se regista uma polarização entre uma reacção conservadora, que ensaia um regresso a uma visão “forte” da linguagem religiosa contra um suposto "deserto interior"- e daí o discurso d'"A verdade contra o relativismo" - e uma reacção de abertura aos diálogos difíceis no pressuposto de que a laicidade é um pilar de emancipação inultrapassável.

2 – Só pode fazer essa leitura através de uma observação participante plural e nunca a partir de uma posição de exterioridade ou de superioridade catedrática. Quem joga à defesa dificilmente vê marcas de Deus porque está mais preocupado/a em identificar contra-sinais. Há na Igreja uma nostalgia incompreensível dos "gloriosos tempos" da Acção Católica e de outros movimentos de massas como se este tempo de pós-cristandade estivesse despido de canais de detecção do fluir da realidade e da sua mutação permanente.

3 – A expressão “nova evangelização” é pastoralmente datada e tributária de um espírito de “reconquista” de uma hegemonia cultural perdida. Nesse sentido, acho que é uma lógica carregada de equívocos. As dinâmicas de secularização convocam, em termos definitivos, a um espírito de despojamento dos cristãos relativamente ao mundo e de estima pelo pluralismo a todos os níveis. Evangelizar no sentido de marcar as realidades a acontecer com o espírito libertador de Jesus é uma tarefa que dispensa bem todo o saudosismo de uma Igreja a marcar institucionalmente (e ideologicamente) a agenda do debate público.

4 – Em boa parte do seu discurso público, tem. A redução do espaço da decisão ética pessoal e colectiva é, aliás, uma das marcas de desajustamento da Igreja relativamente aos nossos tempos plurais. Isto dito, não pode deixar de se sublinhar a importância (positiva) que dou ao pronunciamento público de vozes da Igreja a respeito de questões como a guerra e a paz ou a assimetria de oportunidades em escala planetária ou o universo do trabalho e dos direitos sociais - aí, o questionamento ético de orientações sociais e políticas dominantes tem tido um papel muito relevante.

5 – Toda a prioridade à “desadministrativização” da organização das comunidades. Todo o apoio às pequenas comunidades de referência e de testemunho. E todo o investimento no serviço desinteressado aos mais pobres. Com a linguagem do mundo, para que o mundo a possa entender.
(Foto copiada daqui)

terça-feira, 15 de março de 2011

Inquérito Nova Evangelização (4) - Rui Silva Pedro

A secularização faz parte do processo de inculturação da mensagem cristã

Padre Rui M. da Silva Pedro, 49 anos, membro da Congregação dos Missionários Scalabrinianos, missionário de comunidades migrantes na Europa

1 – No mundo plural e “global”, marcado sempre mais pela diversidade religiosa num mesmo território, graças à mobilidade humana de povos e culturas, é possível encontrar em todas as religiões pessoas que, mesmo aparentando grande devoção, observância, fervor, solidariedade e apologética das suas crenças, não demonstram ter chegado a uma madura e libertadora “experiência religiosa”. Em Portugal, sempre mais ecuménico e inter-religioso, professando a liberdade religiosa como conquista da democracia, este fenómeno é também observável quer no seio da maioritária religião católica, quer noutras que padecem da mesma falta de convicção. A Nova Evangelização deverá conduzir a uma experiência pessoal da fé partilhada com a comunidade.

A relação pessoal com Deus, com a transcendência do outro, com os “mandamentos” codificados nas Escrituras, com a ética vai-se tornando-se assunto meramente privado. Segue-se uma vida espiritual(izada), discípula da própria consciência, individual e não inserida na comunidade, Igreja, omissa das consequências práticas e sociais da oração: fonte de toda e qualquer experiência religiosa. Esta tornou-se um facto não observável, sem mediações, alheia, que não seguindo a lei da objectividade assenta em ideias e não práticas, em sentimentos e não regras, em medos e não na memória porque é experiência do homem e não de Deus.

As mudanças de que fala o Santo Padre têm criado no homem de hoje a consciência do “Deus débil” que não exige exclusividade ao seu povo e que parece não ter mais poder sobre a história, a ciência, o universo e coração humano. Para que serve um Deus assim?

O “vazio interior” é uma das numerosas expressões da busca solitária, fragmentada e frustrada do homem hodierno empenhado em procuras “sensuais”, “psicológicas” e “desalinhadas”, com aparência de espiritualidade, onde Deus nunca habitou, mas por onde, nos modernos olimpos, veraneiam deuses ociosos e manipuláveis porque criados por mão humana.

Nas religiões monoteístas, como fruto das mudanças civilizacionais em acto, parece que a beleza da salvação se encontra apenas em percursos alternativos de espiritualidades desincarnadas, não institucionalizadas, e em militâncias subjectivas sem “sinais”, sem “ritos”, sem “templos” nem “pobres” que, desde sempre, são a via de familiarização do homem com Deus e suas alianças reveladas ao povo na historia.

2 – As mudanças culturais e transformações sociais não param. Elas vão acontecendo com uma rapidez impressionante ao ponto de provocar nas nossas estruturas de leitura (permanentes, como universidades e hierarquias, ou carismáticas, como as congregações religiosas e movimentos laicais) um desajuste e adiamento nas suas respostas pedagógicas, económicas, sociais, técnicas e religiosas.

Muitas vozes em muitos continentes têm apresentado suas leituras e decifrado os sinais de Deus no clamor de quem sofre e na beleza de quem acredita. Porém, mesmo se todas são ouvidas, nem todas são acolhidas, algumas são até silenciadas. No entanto, há que continuar a alfabetizar as comunidades para que todos aprendam a ler os sinais na co-responsabilidade baptismal.

Em geral, as hierarquias religiosas são óptimas nos diagnósticos, nas análises, na crítica, até política, mas insuficientes na terapia, na prática consequente, na proposta concreta. As respostas têm de ser por natureza e fidelidade à mensagem, respostas comunitárias em que todos, animados pela Palavra e pelos valores do Reino, religiosos e leigos participem no inteiro processo.
Desde o Vaticano II, autêntico “sinal dos tempos”, muitos outros “sinais” foram individuados na história como apelos de Deus à “conversão” das pessoas e das estruturas. Alguns foram mediatizados pela boca de iminentes teólogos, mas a Igreja adiou o debate sobre a leitura eclesial dos sinais, acomodando-se numa cristandade em declínio, reproduzindo modelos.

A secularização sempre acompanhou a relação do sagrado com o profano ao longo dos tempos. É uma lei do diálogo religião-mundo, Igreja-sociedade. O próprio Jesus secularizou uma certa ideia de Deus em voga no seu tempo, nos templos da altura, como também uma certa forma de viver a Lei e os Mandamentos. Ele revelou e ensinou caminhos novos para o homem se relacionar bem com Deus e com o próximo. E fê-lo, sem anular a interligação intrínseca que existe entre o sagrado e a vida, pois não há vida, nem cultura sem transcendência. Jesus segredou a todos que a felicidade é auto-transcendência mediante o amor e as bem-aventuranças.

A secularização faz ainda parte do processo de inculturação da própria mensagem cristã simplificando e emancipando símbolos, linguagens e costumes de determinada cultura para atingir uma nova expressão – purificada e evangelizada – dos conteúdos da fé, de forma mais acessível e compreensível para os homens de um particular contexto, tempo e situação.

3 – Missão “ad gentes” é o que fazem hoje os missionários sacerdotes, religiosas e leigos cristãos no norte de África ou no Vietname, testemunhando o Evangelho numa cultura que o desconhece. Evangelização é o que faz o nosso pároco, com seus colaboradores leigos, na paróquia transmontana ou açoriana ou o capelão junto de uma prisão, colégio, quartel, comunidade migrante ou hospital, apresentando propostas de formação, espiritualidade e solidariedade a pessoas já baptizadas ou familiarizadas com a cultura cristã. Missão “inter gentes” é uma expressão também hoje usada, mas ainda não assumida, para definir a missão da Igreja em contexto intercultural, inter-religioso e agnóstico onde, sem partir para Índias longínquas, no mesmo território paroquial, mas fora do templo, pessoas tão diferentes convivem e dialogam sobre a vida e religião.

Nova Evangelização (NE) é um pouco daquilo que, seguindo o exemplo de Paris (2004) e Viena (2003) e, depois, em Bruxelas (2006) e Budapeste (2007), se tentou fazer em Lisboa em Novembro de 2005 com o ICNE (Congresso Internacional da Nova Evangelização): repropor com ousadia missionária, criatividade inteligente e simplicidade apaixonada, o Evangelho na rua, na praça, na empresa, no bairro, na cidade. Provocou-se o encontro, o diálogo, o questionamento e a surpresa a pessoas que vivem numa sociedade laica, mas marcada por símbolos e tradições católicas. Não houve fugas, mas confronto sadio, aberto e tolerante.

O ICNE, no qual participei, foi a meu ver um bom ensaio para o próximo Sínodo. Mas, mais uma vez, para ir além da agenda de eventos apoiados por elites criativas, e conseguir atingir a massa, dando visibilidade ao inédito evento foi necessário, mais uma vez, recorrer ao tradicional: à procissão. A caminhada popular com a imagem de Nossa Senhora de Fátima pelas avenidas de Lisboa foi o evento que mobilizou mais gente e mediatizou decididamente o congresso. Mais um sinal a interpretar...

4 – A Igreja proclama sempre mais a Pessoa de Jesus, o Cristo do Evangelho e o Cristo experimentado por muitos santos e santas da história, mas ainda é comum o povo ficar-se pela moral da história. O próprio modo como a Igreja, ainda muito refém do direito e de uma certa teologia, lida com situações novas de irregularidade vividas por um número crescente de cristãos, parece não seguir aquela prática misericordiosa e libertadora praticada por Jesus Cristo para admiração de muitos e salvação de todos. Acredito que só favorecendo o encontro com Cristo na comunidade que acolhe sem julgar, que se compadece sem discriminar, cada um poderá fazer experiência de um encontro libertador com Cristo que, por sua vez, o envia a anunciar a dádiva e perdão recebidos. São precisos novos anunciadores que passem pelo crivo do perdão doado em Jesus Cristo e o “experimentem” na vida atribulada dos novos pobres de hoje.

A “Nova Evangelização” pretende basear-se mais na transmissão e partilha de um testemunho, na narração da própria experiência religiosa a partir do encontro com Cristo no mundo do que na comunicação de uma doutrina, moral ou vida devota.

5 – A Evangelização sempre procurou ensaiar formas velhas e novas para atingir as pessoas na sua particular situação de vida, de maneira a que a mensagem se incarne na vida da pessoa ou grupo e seja sentido o significado e urgência da proposta. Em Portugal, tem acontecido este processo que, a meu ver, encontra a sua fórmula ideal na Acção Católica e nos movimentos eclesiais, hoje imprescindíveis para a Nova Evangelização. Além dos movimentos eclesiais, pensemos também nos métodos aplicados na catequese infantil e de adultos, na linguagem usada nas aldeias rurais e nas cidades e suas periferias, no mundo do trabalho e solidariedade social... Uma diversidade de linguagem adaptada a idade e situação, mas que, mesmo assim, não tem levado a uma forte experiência de Deus e do outro. Os métodos repetem-se, transportam-se de um lado para outro, e até se importam de outras igrejas... mas, permanecem fragmentados sem duração no tempo, como exige a boa pedagogia para garantir continuidade no crescimento.

Uma prioridade para a Igreja em Portugal é aquela de conseguir definir finalmente um plano pastoral para todas as dioceses. De modo a que, partindo de uma leitura conjunta, se desenhe um caminho comum, participado por todos, com vista a garantir a unidade de acção ao redor de iguais prioridades, solidárias na fidelidade das metas a alcançar, intercambiando diversificados recursos, itinerários e pessoas, avaliando periodicamente métodos, estratégias e resultados. Passa por aqui a catolicidade da Igreja: ser universal no particular sem que o particular ponha em causa o bem comum, isto é, uma “Nova Evangelização” que cative e apaixone todos na sequela de Cristo.

(Foto António Marujo)

segunda-feira, 14 de março de 2011

Inquérito Nova Evangelização (3) - Joaquim Carreira das Neves

O desejo de preencher o “vazio” existencial

Joaquim Carreira das Neves, 76 anos, padre franciscano, exegeta bíblico

Retenho que a expressão “nova evangelização” pode ser admitida a partir do pressuposto que há “novos paradigmas” culturais na sociedade em que vivemos. Para “novos paradigmas” exige-se “nova evangelização”. Como dizia Jesus: “Não se pode meter vinho novo em odres velhos”. De qualquer modo, há sempre uma ambiguidade por causa do termo “evangelização”. Trata-se de um termo abstracto radicado num substantivo concreto: evangelho.

O evangelho não é um livro, mas uma “proclamação”. Proclama-se aquilo que o Papa diz ser “um acontecimento”. Não se trata, pois, de uma ideia, uma doutrina, uma ética, mas de um “encontro com um acontecimento”. Semelhante acontecimento é causado ou proporcionado por uma pessoa – a pessoa de Jesus que, no dizer do Papa, dá à vida um novo horizonte e, com isto, a orientação decisiva.”

Esta maneira de proclamar já é, em si mesma, muito diferente das nossas catequeses formais. Não há, assim, qualquer proclamação contra nada nem contra ninguém. Nem contra protestantes, judeus, islâmicos, ateus, ciência, evolucionismo. Há, simplesmente, o desejo de preencher o “vazio” existencial, próprio do ser humano. Mas, também aqui, há que considerar a ambiguidade deste “vazio”. Nas sociedades modernas e democráticas contactamos com pessoas que preenchem este “vazio” com a cultura, a ciência, a liberdade. São respostas sem religião que devemos considerar e respeitar.

Prometo continuar a reflectir convosco sobre esta temática.

(Foto copiada daqui)

sexta-feira, 11 de março de 2011

Inquérito Nova Evangelização (2) - Ana Vicente

Uma Igreja com outra linguagem, na busca de fidelidade à mensagem evangélica

Ana Vicente, 68 anos, investigadora, membro do Movimento Internacional Nós Somos Igreja

Quatro comentários:
A) Estas transformações consistem num desafio à experiência religiosa pois, como é evidente, esta também é marcada por todas as transformações sociais. Mas começo por me interrogar sobre a necessidade de utilizar a palavra NOVA, sempre perigosa porque, parecendo mobilizar energias, rapidamente se torna caduca. Quem não se lembra dos Novos Dicionários do século XIX que jazem nas prateleiras, e de tantos outros Novos, sem esquecer o Estado Novo.

Muito preferia ver a utilização de outra linguagem por parte da Igreja-instituição, numa busca de fidelidade à mensagem evangélica original e simples. Depois não vejo como é possível fazer algo de NOVO com estruturas completamente obsoletas. A Igreja-instituição precisa de se transformar ela própria antes de partir para qualquer horizonte de “nova” evangelização.

Não é possível com uma estrutura altamente hierarquizada, exclusivamente masculina e celibatária, ao nível da tomada de decisão, ou seja ao nível do poder real, crer que os povos, crentes nesta ou naquela expressão religiosa ou agnósticos ou ateus, possam dar ouvidos a um discurso advindo de uma instituição que está tão em contradição com a mensagem de Jesus – inclusiva, universal, de amor, de paz, de respeito pela consciência individual, de misericórdia, de compaixão. Estrutura essa que viveu e continua a viver a tragédia da prática do abuso sexual, físico e psíquico, por parte de sacerdotes (e algumas freiras) e que ainda muito pouco fez para que esses abusos nunca mais possam ocorrer. Estrutura essa que continua a perseguir teólogos e teólogas que “eles” consideram perigosos porque procuram caminhos diferentes. Que continua a desejar que as leis penais civis condenem criminalmente as mulheres que fazem um aborto mas pouco parecem agitar-se com o facto de que, em cada seis segundos, morre uma criança, já nascida, de fome.

B) A secularização é uma das boas notícias do século XX, e como sempre a Igreja-instituição andou a reboque, a protestar, a condenar, até que percebeu que não só não poderia reverter a necessidade absoluta de separação da Igreja e do Estado (de que a secularização é filha), como que esta até lhe poderia ser benéfica.

O que muitos clérigos condenam na secularização significa apenas que agora as populações agora mais cultas e pensantes já não aceitam receitas fáceis e acríticas e não fundamentadas (proibição do uso de contraceptivos por exemplo) emitidas por essas vozes clericais. As marcas de Deus estão cada vez mais presentes no mundo secular – procura intensa da igualdade entre todas as pessoas, igualdade de direitos e de deveres, mulheres, homens, crianças, diferentes orientações sexuais, capacidades, idades, respeito por toda a criação, direitos dos animais, protecção da natureza, paz, ética na política (teria evitado Khadafi no poder durante 40 anos alimentado a nível de armamento pelo ocidente), justiça nacional e internacional (Tribunal Internacional de Justiça); ética na economia e nas finanças, etc., etc.

C) A instituição-Igreja tem estado muito afastada da pessoa de Jesus Cristo, afastada das fontes de espiritualidade, da comunhão universal e individual com Deus e com o próximo. E quem é o meu próximo?

D) A instituição-Igreja, em Portugal, poderia procurar que em cada diocese/paróquia/comunidade houvesse sínodos (já não exclusivamente constituídos por homens ordenados celibatários, que objectivamente excluem não só as mulheres como o Povo de Deus no seu geral, os agnósticos e os ateus, como vai ser o caso em Roma) compostos e dinamizados por quem manifestasse vontade para tal e deixar soprar o Espírito, sem medo. Seriam esses a apontar caminhos de presente e de futuro.

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quinta-feira, 10 de março de 2011

Inquérito Nova Evangelização (1) - Guilherme d'Oliveira Martins

Nova evangelização, expressão legítima numa sociedade aberta e consciente da importância dos valores espirituais

Guilherme d'Oliveira Martins, 58 anos, presidente do Centro de Reflexão Cristã

1. As transformações sociais têm uma influência indiscutível na experiência religiosa. Há pouco tempo, Gianni Vattimo chamava, por exemplo, a nossa atenção para o facto de os desafios europeus perante os quais se encontra a Igreja Católica serem diferentes dos que ocorrem na América do Sul ou em África - apesar das complementaridades. Há virtualidades que devem ser consideradas, como o diálogo, cada vez mais fecundo, entre a religião e a ciência ou entre a fé e a razão, não devendo esquecer-se a comunicação entre as diferentes culturas, num momento em que a cultura da paz exige um esforço acrescido de diálogo entre as religiões.

2. A secularização é um sinal dos tempos, como tem sido salientado pelo pensador canadiano Charles Taylor. Essa circunstância obriga a que haja novas respostas por parte da Igreja Católica e das diversas religiões, de modo a impedir o clericalismo e anti-clericalismo ou o laicismo dogmático como factores de empobrecimento espiritual e social. A laicidade, sem adjectivos, é um sinal de maturidade e de enriquecimento para as sociedades contemporâneas - envolvendo a liberdade religiosa e o respeito pelas convicções religiosas, como salientou o Concílio Vaticano II.

3. Nova evangelização é uma expressão legítima, que pode ser útil, desde que inserida numa sociedade aberta e consciente da importância dos valores espirituais. Pode ser uma estratégia de comunicação, mas mais do que isso deve corresponder fundamentalmente a uma tomada de consciência sobre a importância do fenómeno religioso (como tem sido salientado por personalidades tão diferentes como Umberto Eco e Regis Debray).
Para os cristãos, o Evangelho de Jesus Cristo deve corresponder à procura de compreensão e desenvolvimento numa sociedade assente na dignidade universal da pessoa humana. A complexidade actual obriga a agir em vários campos da sociedade. A pastoral do amor e do cuidado (caritas, caridade) deve orientar-se para a sociedade plural e diversa, segundo a especialização e a compreensão das diferentes vocações e serviços. Hoje o Ver, Julgar e Agir tem de se adequar a uma realidade heterogénea caracterizada pelos progressos alcançados na educação, na cultura e na ciência, na economia e na sociedade. Daí a necessidade de uma pastoral inteligente, diversificada, assente na sabedoria e na experiência do amor.

4.Uma decisão ética para os cristãos tem de se basear sempre na Pessoa de Jesus Cristo e na dignidade universal da pessoa humana. O que está em causa é a responsabilidade para com o outro, de que fala Lévinas, bem como a preservação do pluralismo e do respeito mútuo entre todos. Não podemos esquecer, assim, que a ética da convicção e a ética da responsabilidade, de Max Weber, se ligam intimamente, referindo-se também ao fenómeno religioso - mesmo que o mínimo ético seja na essência cívico.

5. Como já disse, não há (não pode haver) uma única fórmula de acção para as diferentes circunstâncias - disso não pode haver dúvidas. O melhor método terá de passar sempre pela lógica do fermento na massa ou do grão de mostarda. Como diz o Salmo 24: "Todos o caminhos do Senhor são graça e fidelidade para aqueles que guardam sua aliança e seus preceitos".

(Foto copiada daqui)

quarta-feira, 9 de março de 2011

Nova Evangelização - um inquérito no Religionline

O Papa Bento XVI decidiu dedicar ao tema da Nova Evangelização o Sínodo dos Bispos católicos de 2102, cujas Linhas de Orientação, ou "Lineamenta", acabam de ser divulgadas, no passado dia 3 de Março (sobre esse documento, já aqui se publicou um texto). Recentemente, o Papa criou também o novo Conselho Pontifício para a Promoção da Nova Evangelização. E, em Portugal, a Conferência Episcopal decidiu lançar um processo para "Repensar Juntos a Pastoral" que procura dinamizar movimentos e grupos católicos na proposta de novos dinamismos para a Igreja.

Tendo estas motivações como pano de fundo, o Religionline promove, a partir de hoje, um inquérito sobre o tema da Nova Evangelização, expressão que tem ganho notoriedade no discurso católico das últimas três décadas. Pretendemos, deste modo, trazer ao debate um conjunto de questões que têm a ver com a presença do religioso e, concretamente, da experiência católica na sociedade portuguesa.

São cinco perguntas, que submetemos a um leque alargado de pessoas sensíveis à relação do catolicismo com a sociedade e cujas respostas irão sendo publicadas durante os próximos meses.

Começamos a publicação das respostas nesta Quarta-Feira de Cinzas, dia litúrgico que no calendário cristão marca o início da Quaresma, tempo que antecede e prepara a Páscoa e que os cristãos dedicam à revisão de vida.

AS PERGUNTAS DO INQUÉRITO:

1 - No decreto de criação do Conselho Pontifício para a Promoção da Nova Evangelização, o Papa refere as "transformações sociais" das últimas décadas e as suas causas complexas: progressos da ciência e da técnica, ampliação dos espaços de liberdade, mudanças económicas, miscigenação étnica e cultural, interdependência entre os povos. Que consequências tiveram estas transformações sociais na experiência religiosa? Só o "deserto interior" de que fala o Papa nesse texto?

2 - Como é que a Igreja pode fazer uma leitura dos sinais dos tempos de modo a acolher as marcas de Deus que estão presentes na sociedade? A secularização pode ser vista como um sinal dos tempos? De que forma?

3 - A expressão "nova evangelização" tem-se prestado a vários equívocos e a interpretações diversas. Tem sentido utilizá-la? Como poderia ser definida? Deve ser vista apenas como uma forma de a Igreja sair das suas crises ou também como desafio a repensar-se a estrutura eclesial?

4 - Também no decreto de criação do Conselho, o Papa cita a sua primeira encíclica, Deus Caritas Est: "No início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, com isto, a orientação decisiva." A Igreja não tem estado demasiado centrada numa "decisão ética" reduzida a uma moral ou em questões de disciplina e de regras internas e, menos, na Pessoa de Jesus Cristo?

5 - O Papa diz que falar de "nova evangelização" não implica que haja "uma única fórmula igual para todas as circunstâncias". A Conferência Episcopal Portuguesa lançou um debate sobre estratégias e métodos de evangelização para concluir em 2011. Neste quadro, que "fórmulas" deveriam ser encontradas para Portugal? Que prioridades e com que linguagem?