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quinta-feira, 8 de novembro de 2018

“Cozinhar é um modo de amar os outros”

Texto de Joaquim Franco



A situação é mais grave nos países em vias de desenvolvimento 
“que não têm sistemas de saúde capazes de responder”, 
disse Francisco Sarmento, da FAO (foto Markus Spiske/temporausch.com/Pexels)


Debate na Mesquita Central de Lisboa realça papel das religiões na promoção de uma alimentação saudável, valorizando o acto de comer e os sistemas tradicionais de produção. 

“Cozinhar é um modo de amar os outros” – as palavras de Mia Couto serviram de ingrediente para uma conversa servida na Mesquita Central de Lisboa com uma pergunta na ementa: “Como alimentar a Humanidade de forma sustentável?”  
O debate, realizado na noite de terça, 6 de Novembro, foi promovido pelo Clube de Filosofia Al-Mu’tamid, uma parceria entre a Comunidade Islâmica de Lisboa e a Área de Ciência das Religiões da Universidade Lusófona, que todos os meses organiza um jantar-tertúlia ao salão principal da Mesquita.  
Francisco Sarmento, o representante da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura) em Portugal, abriu o apetite da conversa citando o poeta moçambicano, biólogo e escritor, para realçar a importância de se encarar a alimentação com responsabilidade ética: “Cozinhar é o mais privado e arriscado acto, no alimento se coloca ternura e ódio, na panela se verte tempero ou veneno. Cozinhar não é um serviço, cozinhar é um modo de amar os outros.”
A partir das palavras de Mia Couto, Sarmento salientou que “alimentação e sustentabilidade têm de estar juntas”, pois “não se pode alimentar a Humanidade de forma insustentável”.
Especialista em gestão alimentar e políticas agrícolas, o representante da FAO alertou para o novo problema da produção excessiva de calorias, em vez de nutrientes, que faz aumentar a incidência de doenças como a obesidade ou a diabetes, desencadeando indirectamente, entre outros dramas, a exclusão social e o absentismo laboral. A situação é mais grave nos países em vias de desenvolvimento “que não têm sistemas de saúde capazes de responder”, afirmou. Francisco Sarmento alertou ainda para a necessidade de “mudarem os padrões de consumo alimentar, com a evolução para dietas” mais saudáveis e ecologicamente sustentáveis e admitiu que esta discussão pode ser frustrante: as soluções são conhecidas mas parece faltar vontade política para contrariar uma “alimentação cada vez mais industrializada, que afecta os grupos mais desfavorecidos”.
A preocupação social foi reforçada pelo presidente da Cáritas Portuguesa, Eugénio Fonseca. “A comida não deve ser um negócio”, disse, lembrando que “não se pode desligar o modelo económico da realidade da má alimentação e suas consequências”.

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Orações pela paz, carta aberta de uma muçulmana, o Vaticano e a guerra, e o “Imagine” de John Lennon

Agenda e crónicas


Imagem reproduzida daqui

Domingo, às 13h, uma oração inter-religiosa pela paz de corre na Mesquita Central de Lisboa, com a presença de vários responsáveis de diferentes comunidades religiosas. A notícia foi dada pelo presidente da Comunidade Islâmica de Lisboa, Abdool Vakil, no debate de Actualidade Religiosa da Rádio Renascença, que pode ser ouvido aqui.
Também no Domingo, mas a partir das 16h, no santuário do Cristo-Rei, a Ajuda à Igreja que Sofre promove uma oração pela paz no mundo, tendo em conta realidades e acontecimentos recentes em países como a República Centro-Africana, o Iraque, a Nigéria, a Síria, o Sudão do Sul e a França. O programa pode ser lido aqui.

Sobre a questão do extremismo muçulmano que os atentados de Paris trouxeram de novo  ao debate público, Faranaz Keshavjee escreveu na Visão uma Carta aberta de uma muçulmana aos portugueses, na qual escreve:

Num mundo em que o diferente deixou de ser abstrato e distante, e no qual o desafio de viver juntos é cada vez mais complicado, e onde a maior informação pode significar menos contacto e até maior confusão, é imperioso que trabalhemos no sentido de uma nova ética cosmopolita, que não entende apenas as diferenças, mas faz por conhecê-las, e aprender com elas, para que olhemos para a diversidade como uma oportunidade e não como um peso.


No CM desta sexta-feira, Fernando Calado Rodrigues escreve, sobre O Vaticano e a guerra:

Em resumo: esmagar os terroristas, só por si, não garante que estes Estados Islâmicos não ressurgem noutros pontos, como aliás tem acontecido... É preciso investir, a sério, na melhoria da vida das pessoas, tanto nos países orientais, como nas cidades ocidentais onde estes fenómenos se têm instalado. E é necessário combater sempre o ódio e tentar construir a paz, suceda o que suceder.


No Igreja Viva, suplemento do Diário do Minho, Paulo Terroso escreve também a propósito dos acontecimentos de Paris. Sob o título O nosso canto de paz não é o “Imagine” de John Lennon, diz:

Também aqui é-nos oferecido um mundo de paz, “num só Corpo”, mas o caminho é todo um Outro. É que Jesus constrói a paz destruindo em si a inimizade e não o inimigo. Precisamos sim de declarações de guerra e de guerras santas, mas só se forem para destruir a inimizade, não os outros. E isto, como sustenta Cantalamessa, “não faz sentido só no âmbito da fé; vale também no âmbito político, para a sociedade”.