Texto de Joaquim Franco
A situação é mais grave nos países em vias de desenvolvimento
“que não têm sistemas de saúde capazes de responder”,
disse Francisco Sarmento, da FAO (foto Markus Spiske/temporausch.com/Pexels)
Debate na Mesquita Central de Lisboa realça papel das religiões na promoção de uma alimentação saudável, valorizando o acto de comer e os sistemas tradicionais de produção.
“Cozinhar é um modo de amar os outros” – as palavras de Mia Couto serviram de ingrediente para uma conversa servida na Mesquita Central de Lisboa com uma pergunta na ementa: “Como alimentar a Humanidade de forma sustentável?”
O debate, realizado na noite de terça, 6 de Novembro, foi promovido pelo Clube de Filosofia Al-Mu’tamid, uma parceria entre a Comunidade Islâmica de Lisboa e a Área de Ciência das Religiões da Universidade Lusófona, que todos os meses organiza um jantar-tertúlia ao salão principal da Mesquita.
Francisco Sarmento, o representante da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura) em Portugal, abriu o apetite da conversa citando o poeta moçambicano, biólogo e escritor, para realçar a importância de se encarar a alimentação com responsabilidade ética: “Cozinhar é o mais privado e arriscado acto, no alimento se coloca ternura e ódio, na panela se verte tempero ou veneno. Cozinhar não é um serviço, cozinhar é um modo de amar os outros.”
A partir das palavras de Mia Couto, Sarmento salientou que “alimentação e sustentabilidade têm de estar juntas”, pois “não se pode alimentar a Humanidade de forma insustentável”.
Especialista em gestão alimentar e políticas agrícolas, o representante da FAO alertou para o novo problema da produção excessiva de calorias, em vez de nutrientes, que faz aumentar a incidência de doenças como a obesidade ou a diabetes, desencadeando indirectamente, entre outros dramas, a exclusão social e o absentismo laboral. A situação é mais grave nos países em vias de desenvolvimento “que não têm sistemas de saúde capazes de responder”, afirmou. Francisco Sarmento alertou ainda para a necessidade de “mudarem os padrões de consumo alimentar, com a evolução para dietas” mais saudáveis e ecologicamente sustentáveis e admitiu que esta discussão pode ser frustrante: as soluções são conhecidas mas parece faltar vontade política para contrariar uma “alimentação cada vez mais industrializada, que afecta os grupos mais desfavorecidos”.
A preocupação social foi reforçada pelo presidente da Cáritas Portuguesa, Eugénio Fonseca. “A comida não deve ser um negócio”, disse, lembrando que “não se pode desligar o modelo económico da realidade da má alimentação e suas consequências”.

