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domingo, 24 de novembro de 2013

“Dêem-me uma pobre que não seja rica”


A crónica de Eduardo Jorge Madureira, no Diário do Minho deste domingo, 24 de Novembro:

“O ‘pobrezinho’ era uma entidade que povoou a minha infância”, lembra António Alçada Baptista no primeiro volume da Peregrinação Interior, que inclui as Reflexões sobre Deus. Recordando o que se passava na década de 30 do século XX, regista o autor: “Em todas as ‘boas’ casas da minha meninice meiga e temente cultivavam-se os pobrezinhos, regavam-se com bocadinhos de pão com conduto, com pequenas moedas de cobre e cultivava-se sobretudo a sua pobreza”. Nada parecia faltar: “Havia a comida dos pobres, a esmola dos pobres, as visitas dos pobres e a sexta-feira, sobre ser dia aziago, era também o dia dos pobres”. Para o católico António Alçada Baptista, “as conversas sobre pobres entravam naquela zona de espiritualidade provinciana que abrangia as novenas, os lausperenes e as santas missões”.                   
As coisas para os pobres, explica, eram objectos no meio do caminho entre o uso e o lixo. “Estavam predeterminadas e correspondiam ainda à dificuldade de desapossamento das coisas, mesmo as que já não servem, que está na base da civilização em que vivemos”. Para o comprovar, relata o caso de uma alma distinta, aliás, devidamente nomeada, a quem a mulher pergunta o que fazer à lista telefónica antiga, no momento em que tinham acabado de entregar a nova edição. A resposta foi simples: dar a um pobre. Oferecer uma lista telefónica a um pobre é, de facto, uma boa piada, mas é, também, “uma caricatura exacta da dificuldade que tem o homem de encarar uma coisa que, sem merecer obviamente o caixote do lixo, na realidade não serve para nada”. 
Conta Alçada Baptista que cada rico se dava “mesmo ao luxo de ter o ‘seu’ pobre” e que “os ricos deliravam com estes pobrezinhos assim cordatos, cumpridores, submissos e respeitadores”. A Peregrinação Interior, que teve a primeira edição em 1971, regista ainda que, nesse Portugal, que tantos pensavam longínquo, havia muitas espécies de pobres. “Quanto ao modo como adquiriam os meios de subsistência, havia os pedintes, os necessitados e os envergonhados”, cuja distinção o autor estabelece com rigor.
Sobre a singular relação dos ricos com os seus pobres, Alçada Baptista conta um eloquente episódio, identificando uma das protagonistas.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Saudades de António

No Ciberescritas, de Isabel Coutinho, pode ler-se (post de 3 de Janeiro) o texto publicado sexta-feira passada no Ípsilon, evocando António Alçada Baptista. O pretexto é a inauguração do site dedicado ao autor de Os Nós e os Laços e da Peregrinação Interior, preparado pelo Centro Nacional de Cultura. Aqui, podem encontrar-se uma curta biografia de Alçada, elementos sobre as casas com que a vida do escritor se cruzou (CNC, Fundação Oriente, Instituto do Livro), os projectos por ele abraçados (a Moraes, o Tempo e o Modo, a edição portuguesa da Concilium, entre outros), a bibliografia e vários depoimentos. No texto evocativo de Sidónio de Freitas Branco Paes, pode ler-se, a propósito da obra escrita de Alçada Baptista:

"(...) vem-me a lembrança de quanto gozo me deram os livros que escreveste, esses espelhos em que te mirava. Estou longe de ter uma ideia do que por cá se escreve. Mas, no teu género – de memórias gostosas e bem humoradas, de reflexão sobre as circunstâncias das pessoas e da sociedade, de uma mundividência humanista cristã e atenta à comédia (e por vezes à tragédia) humana – não conheço quem escreva melhor, aqui e agora, num País de tantos, tão talentosos e variados escritores. E não só nos livros mas também em tantos escritos de opinião, intervenção ou ensaio, merecedores de uma publicação que fosse reeditando as tuas obras completas."
(Foto copiada do site de António Alçada Baptista)