Os protestantes não aceitam, os ortodoxos expressam-no quase como os católicos, mas estes formularam a doutrina tradicional num dogma: a Imaculada Conceição, proclamado há 151 anos. Essa decisão não foi inocente, como inocentes não foram as promessas de D. João IV em dar uma renda ao santuário de Vila Viçosa e em proclamar a Imaculada como padroeira de Portugal.[Ilustração: Francesco Barbieri, "Assunta" (Imaculada Conceição), Igreja do Sso. Rosário em Cento (Ferrara), in "Una Donna Vestita di Sole", ed. Federico Motta, Milano, 2005]“Os primeiros cristãos devem ter sentido o que há de espantoso nesta afirmação: Deus, o absoluto e o eterno, escolheu uma criatura e ama-a como sua mãe. Por isso chamaram a Maria Mãe de Deus.” (Padre João Resina Rodrigues, A Palavra no Tempo, ed. Multinova)
Imaculada Conceição? Dita assim, a expressão aparecerá estranha a muita gente. O dogma católico, formulado há 151 anos (em 1854), sob o pontificado do Papa Pio IX, afirma que Maria, mãe de Jesus, não conheceu o mal.
A definição dogmática remete para a noção de pecado original. De acordo com este enunciado (aprofundado por Santo Agostinho no meio de polémicas teológicas do século IV), desde a criação do mundo que cada pessoa, quando nasce, está em pecado.
Com a formulação do dogma da Imaculada, a Igreja atribui à mãe de Jesus uma espécie de “imunidade absoluta” em relação ao mal, como se escreve na enciclopédia católica Théo. Mas esta proposição doutrinal mais não faz que formalizar uma tradição que, no mundo católico e ortodoxo, existia já desde há muitos séculos. Ao contrário do que acontece entre as igrejas protestantes, que não veneram a figura da mãe de Jesus da mesma maneira que católicos e ortodoxos.
“Durante muito tempo, as igrejas protestantes minimizaram ou ignoraram a figura de Maria”, escreve João Resina Rodrigues na obra acima citada. “A ideia era concentrar toda a atenção em Cristo e também contrariar alguns exageros da devoção católica. Hoje, temos todos uma teologia mais serena, Não ignoramos (de resto, nunca ignorámos) que só Jesus Cristo é salvador.”
No mundo ortodoxo, a mãe de Jesus é designada muitas vezes como “plenamente santa” e como “Theotokos”, ou mãe de Deus – embora nenhuma destas designações tenha sido elevada à categoria dogmática. Ambas se fundam, entretanto, na saudação que, segundo o relato bíblico, o anjo lhe fez, ao anunciar-lhe o nascimento de Jesus: “Salvé, ó cheia de graça!”
A doutrina tradicional colocava, mesmo antes de ser adoptada como dogma, problemas teológicos: como é que o salvador pode nascer de alguém que já está salvo? Para tentar resolver o problema, o teólogo católico escocês John Duns Scott, do século XIII, formulou então o que ele chamou de “redenção antecipada”.
Foi esse argumento que levou o Papa Pio IX, depois de ter consultado os bispos de todo o mundo, a declarar o dogma. Mas esta decisão também tinha outros objectivos, mesmo se implícitos: era uma forma de o papado afirmar a sua autoridade contra o liberalismo e anticlericalismo do século XIX. Ao mesmo tempo, antecipava o terreno para a proclamação de outro dogma que protestantes e ortodoxos também não partilham: o da infalibilidade pontifícia, declarado em 1870, no Concílio Vaticano I.
Apenas quatro anos depois da proclamação de Pio IX, o dogma como que foi confirmado. Em Lourdes, a 25 de Março de 1858, a jovem Bernadette Soubirous contou ter visto uma figura de mulher a aparecer-lhe numa gruta. Em resposta à pergunta sobre a identidade da aparição, esta respondeu, no dialecto local dos Pirinéus: “Que soy era Immaculada Councepciou!”
O mesmo padre João Resina escreve: “O dogma da Imaculada (…) convida-nos a aceitar que a santidade é o encontro do dom de Deus com o dom da criatura. Ninguém é santo sem o dom de Deus, o dom de Deus não prescinde da liberdade humana.”
Contributos portuguesesO dogma católico da Imaculada Conceição tem também contributos portugueses. O inglês Gilberto Hastings, primeiro bispo de Lisboa pós-reconquista, adoptou o calendário de Salsbury, onde se fazia referência à Imaculada. Em 1645, após a restauração da independência em relação a Espanha, o rei D. João IV propôs nas cortes de Lisboa que a Imaculada Conceição fosse consagrada como padroeira do reino. O rei propunha-se pagar 50 cruzados de ouro anuais ao santuário de Vila Viçosa, o primeiro da Península Ibérica a adoptar a invocação. Promessa de rei, ainda, era a garantia de defender a ideia da concepção de Maria de Nazaré sem pecado original. Decisões que não eram só da ordem da devoção: o rei pretendia também o apoio da Santa Sé para a causa da independência. Em 1671, o Papa Clemente X confirmou a escolha da Imaculada Conceição como padroeira de Portugal. No século XVIII, a adesão a essa doutrina era mesmo condição de acesso à carreira docente na Universidade de Coimbra.
Poema -
O Meu Natal (excerto), de António Nobre
A noite de Natal. Em meu paiz, agora,
O que não vae até romper o dia, a aurora!
As mezas de jantar na cidade e na aldeia,
A’ luz das velas, ou á luz d’uma candeia,
Entre rizadas de creanças e crystaes
(De que me chegam até mim só ais, só ais),
Dois milhões de almas e outros tantos corações,
Pondo de parte odios, torturas, afflicções,
Que o mel suaviza e faz adormecer o vinho:
São todas em redor duma toalha de linho!
(In Natal... Natais – Oito Séculos de Poesia sobre o Natal,
antologia de Vasco Graça Moura, ed. Público)