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segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Advento: Maria, José e a manjedoura



Oração de Maria

a fonte de Deus é a luminosa torrente
que alimenta aquilo que sou

e afasta de mim toda a secura:

por isso, na fonte de Deus eu espero

a mão de Deus é o mapa e a viagem
sei que me acompanha e sustém
mesmo quando eu não vejo:

por isso, na mão de Deus espero

o silêncio de Deus é a palavra

que desde o princípio do tempo

por dentro do amor vem sendo dita:
por isso, no silêncio de Deus eu espero


domingo, 8 de dezembro de 2013

À procura da palavra - O encontro


Crónica 



Na sua crónica “À Procura da Palavra”, Vítor Gonçalves escreve este domingo sobre os encontros com Deus, a propósito dos encontros de Maria de Nazaré:

As palavras e os silêncios, do anjo e de Maria, são condição para o diálogo. Não há relação com Deus que não seja diálogo, que não seja mútuo acolhimento, espaço para colocar as perguntas (e só pergunta quem quer saber, e, no fundo, quem ama, não é verdade?) e para acolher os sinais. Deste encontro de Nazaré, nasce o encontro de Ain-Karim com Isabel, e Maria é imagem da Igreja no dinamismo constante de multiplicar os encontros que Deus quer fazer com todos. Estar em anunciação e visitação constantes é condição para vencer o isolamento e a autosuficiência, tantas vezes geradores de tristeza e dureza de coração. Algum encontro dependerá de nós?

Texto integral da crónica para ler aqui


(ilustração: Visitação, de Marko Rupnik, 2006; pormenor do painel Anunciação e Visitação, na igreja das Irmãs Ursulinas Filhas de Maria Imaculada, Verona, Itália; reproduzido daqui)

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Calendário de Advento (8) - Imaculada: Um dogma que divide, um enunciado sobre Deus que ama a humanidade

Os protestantes não aceitam, os ortodoxos expressam-no quase como os católicos, mas estes formularam a doutrina tradicional num dogma: a Imaculada Conceição, proclamado há 151 anos. Essa decisão não foi inocente, como inocentes não foram as promessas de D. João IV em dar uma renda ao santuário de Vila Viçosa e em proclamar a Imaculada como padroeira de Portugal.

[Ilustração: Francesco Barbieri, "Assunta" (Imaculada Conceição), Igreja do Sso. Rosário em Cento (Ferrara), in "Una Donna Vestita di Sole", ed. Federico Motta, Milano, 2005]

“Os primeiros cristãos devem ter sentido o que há de espantoso nesta afirmação: Deus, o absoluto e o eterno, escolheu uma criatura e ama-a como sua mãe. Por isso chamaram a Maria Mãe de Deus.” (Padre João Resina Rodrigues, A Palavra no Tempo, ed. Multinova)

Imaculada Conceição? Dita assim, a expressão aparecerá estranha a muita gente. O dogma católico, formulado há 151 anos (em 1854), sob o pontificado do Papa Pio IX, afirma que Maria, mãe de Jesus, não conheceu o mal.

A definição dogmática remete para a noção de pecado original. De acordo com este enunciado (aprofundado por Santo Agostinho no meio de polémicas teológicas do século IV), desde a criação do mundo que cada pessoa, quando nasce, está em pecado.

Com a formulação do dogma da Imaculada, a Igreja atribui à mãe de Jesus uma espécie de “imunidade absoluta” em relação ao mal, como se escreve na enciclopédia católica Théo. Mas esta proposição doutrinal mais não faz que formalizar uma tradição que, no mundo católico e ortodoxo, existia já desde há muitos séculos. Ao contrário do que acontece entre as igrejas protestantes, que não veneram a figura da mãe de Jesus da mesma maneira que católicos e ortodoxos.

“Durante muito tempo, as igrejas protestantes minimizaram ou ignoraram a figura de Maria”, escreve João Resina Rodrigues na obra acima citada. “A ideia era concentrar toda a atenção em Cristo e também contrariar alguns exageros da devoção católica. Hoje, temos todos uma teologia mais serena, Não ignoramos (de resto, nunca ignorámos) que só Jesus Cristo é salvador.”

No mundo ortodoxo, a mãe de Jesus é designada muitas vezes como “plenamente santa” e como “Theotokos”, ou mãe de Deus – embora nenhuma destas designações tenha sido elevada à categoria dogmática. Ambas se fundam, entretanto, na saudação que, segundo o relato bíblico, o anjo lhe fez, ao anunciar-lhe o nascimento de Jesus: “Salvé, ó cheia de graça!”

A doutrina tradicional colocava, mesmo antes de ser adoptada como dogma, problemas teológicos: como é que o salvador pode nascer de alguém que já está salvo? Para tentar resolver o problema, o teólogo católico escocês John Duns Scott, do século XIII, formulou então o que ele chamou de “redenção antecipada”.

Foi esse argumento que levou o Papa Pio IX, depois de ter consultado os bispos de todo o mundo, a declarar o dogma. Mas esta decisão também tinha outros objectivos, mesmo se implícitos: era uma forma de o papado afirmar a sua autoridade contra o liberalismo e anticlericalismo do século XIX. Ao mesmo tempo, antecipava o terreno para a proclamação de outro dogma que protestantes e ortodoxos também não partilham: o da infalibilidade pontifícia, declarado em 1870, no Concílio Vaticano I.

Apenas quatro anos depois da proclamação de Pio IX, o dogma como que foi confirmado. Em Lourdes, a 25 de Março de 1858, a jovem Bernadette Soubirous contou ter visto uma figura de mulher a aparecer-lhe numa gruta. Em resposta à pergunta sobre a identidade da aparição, esta respondeu, no dialecto local dos Pirinéus: “Que soy era Immaculada Councepciou!”

O mesmo padre João Resina escreve: “O dogma da Imaculada (…) convida-nos a aceitar que a santidade é o encontro do dom de Deus com o dom da criatura. Ninguém é santo sem o dom de Deus, o dom de Deus não prescinde da liberdade humana.”


Contributos portugueses
O dogma católico da Imaculada Conceição tem também contributos portugueses. O inglês Gilberto Hastings, primeiro bispo de Lisboa pós-reconquista, adoptou o calendário de Salsbury, onde se fazia referência à Imaculada. Em 1645, após a restauração da independência em relação a Espanha, o rei D. João IV propôs nas cortes de Lisboa que a Imaculada Conceição fosse consagrada como padroeira do reino. O rei propunha-se pagar 50 cruzados de ouro anuais ao santuário de Vila Viçosa, o primeiro da Península Ibérica a adoptar a invocação. Promessa de rei, ainda, era a garantia de defender a ideia da concepção de Maria de Nazaré sem pecado original. Decisões que não eram só da ordem da devoção: o rei pretendia também o apoio da Santa Sé para a causa da independência. Em 1671, o Papa Clemente X confirmou a escolha da Imaculada Conceição como padroeira de Portugal. No século XVIII, a adesão a essa doutrina era mesmo condição de acesso à carreira docente na Universidade de Coimbra.


Poema - O Meu Natal (excerto), de António Nobre

A noite de Natal. Em meu paiz, agora,
O que não vae até romper o dia, a aurora!
As mezas de jantar na cidade e na aldeia,
A’ luz das velas, ou á luz d’uma candeia,
Entre rizadas de creanças e crystaes
(De que me chegam até mim só ais, só ais),
Dois milhões de almas e outros tantos corações,
Pondo de parte odios, torturas, afflicções,
Que o mel suaviza e faz adormecer o vinho:
São todas em redor duma toalha de linho!

(In Natal... Natais – Oito Séculos de Poesia sobre o Natal,
antologia de Vasco Graça Moura, ed. Público
)

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

A Imaculada Conceição

No seu texto deste sábado, no DN, Anselmo Borges fala do feriado que hoje, dia 8, se assinalou, e do seu significado teológico e pastoral.

Não sei se a maioria dos portugueses conhece o motivo do feriado no dia 8 de Dezembro. Os católicos praticantes saberão que se trata de uma festa ligada a Nossa Senhora. Se interrogados, talvez respondessem, na quase totalidade, que tem a ver com a virgindade de Maria.
Aí está, pois, uma festa infestada com equívocos. Logo à partida, que pode significar Imaculada Conceição? De facto, não se refere directamente à virgindade, mas não lhe é completamente alheia. Do que se trata, na realidade, é da afirmação de que Maria, a Mãe de Jesus, foi concebida sem pecado.
Mas, aqui, sem hermenêutica, isto é, sem interpretação, pode albergar-se uma série de confusões, profundamente ofensivas sobretudo para as mulheres, minando, desgraçadamente, a mensagem do Evangelho enquanto notícia boa e felicitante.
Foi concretamente Santo Agostinho que elaborou a doutrina do pecado original, no sentido de um pecado cometido pelos primeiros pais (Adão e Eva) e transmitido a todos por herança, no acto sexual. Houve uma excepção: Maria foi concebida sem a mancha do pecado original.
Deste modo, porém, a sexualidade ficou manchada e as mulheres acabavam por sentir-se discriminadas, tanto mais quanto, associando a concepção de Jesus a uma geração virginal, se lhes propunha o ideal impossível de virgem e mãe.
Sub-repticiamente, esta doutrina causou imensos danos ao cristianismo, concretamente à mulher, à visão do sexo e do casamento.
Assim, um cristão atento e reflexivo sabe que é necessário e urgente rever o dogma, mostrando o seu verdadeiro sentido. O próprio Papa João Paulo II deu a chave, ao escrever que "o Natal de Jesus revela o sentido profundo de todo o nascimento humano". Afinal, quando percebe que o ser humano não é redutível à biologia, o crente verá em toda a nova geração a presença do Espírito, como aconteceu com Jesus. Por outro lado, nascer é vir à luz e, portanto, dar à luz não constitui uma mancha para a mãe, como supõe a doutrina da virgindade de Maria, antes, no e depois do parto.
Um dia, numa entrevista, um jornalista atirou-me: "Não acha que Nossa Senhora é a mulher mais poderosa de Portugal?" Nunca tinha pensado nisso, mas é bem possível. Basta pensar em Fátima e no que Fátima representa para os portugueses. Aliás, Nossa Senhora "concede" dois feriados nacionais: Imaculada Conceição (8 de Dezembro) e Assunção (15 de Agosto).
Mas, se se pensar bem, estas festas são metáforas de esperança e salvação: todo o ser humano é concebido sem pecado, mas, entrado no mundo, terá de lutar contra a maldade e o pecado, na esperança de um mundo melhor, e também na morte pode contar com o Deus amor e a sua graça de vida eterna.
Podemos então compreender, como dizia o teólogo Karl Rahner, que, nestes domínios, por exemplo, da virgindade de Maria, não se trata de biologia. Referindo-se à narrativa do Evangelho de São Mateus sobre a geração de Jesus por obra do Espírito Santo, escreveu o exegeta Jean Radermakers: "Tomando imagens das mitologias pagãs, depuradas pela reflexão judaica, Mateus não se situa num plano de fisiologia, medicina, ginecologia ou sexologia, mas no de uma realidade mais profunda. Deveríamos reler a nossa experiência do dar à luz e da responsabilidade parental a partir do nascimento de Jesus. Toda a criatura recém-nascida vem de Deus. Assumir uma maternidade e paternidade humanas é deixar que Deus se revele na criatura nascida. A missão de todo o varão e toda a mulher que se unem é dar lugar a que apareça no mundo a realidade do Emanuel, Deus connosco."
Criticando os mal-entendidos da leitura do Evangelho a partir de pressupostos negativos em relação à sexualidade, o teólogo Juan Masiá põe na boca do anjo estas palavras dirigidas a São José: "Não deixes de levar Maria contigo. Não penses que pelo facto da intervenção do Espírito o teu papel como varão está a mais. Não tens que afastar-te para permitir que Deus faça algo grande com a tua família. Com a tua relação com Maria, não vais entrar em concorrência com o Espírito. O teu papel é compatível com a acção de Deus e com que Jesus seja o Cristo."