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segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

"Deus Vem a Público - Entrevistas sobre a transcendência"

O facto de o autor ser membro da equipa deste blog (e fica assim feita a competente declaração de interesses) não pode inibir a referência a uma obra que acaba de ser publicada e que é certamente um acontecimento editorial, no seu âmbito. Refiro-me a "Deus Vem a Público: Entrevistas sobre a transcendência", cujo autor é o jornalista do Público e um internacionalmente premiado especialista em assuntos religiosos - António Marujo.
A obra, de quase 500 páginas, reúne aquele que é o primeiro volume de uma série de entrevistas com nomes cimeiros das religiões, da filosofia, da teologia, da cultura, da ciência, da política, da arte ... Entre outros: Abbé Pierre, Aga Khan, Aloísio Lorscheider, Andrea Riccardi, Bronisław Geremek, Dalai Lama, Erri de Luca, Eugen Drewermann, Gianfranco Ravasi, Gianni Vattimo, Godfried Danneels, Hans Küng, Irmão Roger de Taizé, Jacques Arnould, Jacques Gaillot, Jean-Yves Calvez, Johann Baptist Metz, José António Pagola, Joseph Comblin, Jordi Savall, Juan José Tamayo, Juan Masiá, Jürgen Moltmann, Lavinia Byrne, Leonardo Boff, Raimon Panikkar, Rino Fisichella, Timothy Radcliffe.
Muitos destes documentos testemunham sobre o pensamento oficial, sobre a heterodoxia, sobre o olhar original, o testemunho de vida, a busca de sentido. Todos eles se interrogam sobre esse mistério que é Deus, que continua a ocupar e mobilizar energias na nossa contemporaneidade.
Ler o livro é, assim, atravessar universos plurais de surpresa e abrir-se a encontros inesperados. Nestas entrevistas - e transcrevo um excerto da introdução do autor - "se debatem cortinas de dogmas que por vezes tolhem a possibilidade de um debate sério e mais rico sobre muitas das questões que a Deus e à humanidade dizem respeito. Ou revela-se o espantoso empenhamento radical de mulheres e homens na construção de uma «parábola de comunhão» para a casa comum da família humana. Ou ousa-se propor novos horizontes aos modos de olhar.
Esta obra que, juntamente com o segundo volume que se anuncia - bem poderá ser vista como o compêndio de uma carreira com mais de 20 anos a acompanhar o fenómeno religioso no mundo actual - constitui, de algum modo, um desafio a todos, sejam crentes ou não crentes, porque não remete para um qualquer universo esotérico, mas para as grandes e incontornáveis perguntas do nosso viver pessoal e colectivo. desse ponto de vista, é susceptível de abrir horizontes de desanuviamento para um mundo encerrado em si mesmo e carente de chaves para reinventar o futuro.

terça-feira, 26 de abril de 2011

"O altar do deus desconhecido"

Tem já uns dias esta coluna do escritor Rafael Argullol, no diário El País. Intitula-se "El altar del dios desconocido".
Principia o autor pela dúvida "que sempre surge no desconcerto dos nossos dias": "estamos perante um novo Renascimento ou às portas de uma Idade Obscura?". E comenta de seguida:
"Bajo la advocación de un dios -fuera este de la religión o de la ideología-, el hombre se atreve al pronóstico porque la doctrina que abraza necesariamente le reclama un futuro mejor, cuando menos a largo plazo (el cristianismo ofrecía la salvación; el comunismo dibujaba la igualdad; la Ilustración se consolaba de las penurias del presente con promesas de libertad y progreso). El problema surge cuando el dios está ausente, y el altar vacío. Cuando los templos, también laicos, están deshabitados, como sucede en nuestros días, el pronóstico se hace imposible. ¿A qué juego vamos a apostar si ni siquiera sabemos las reglas del juego? Cuando el altar está vacío podemos, como máximo, adorar a los ídolos del presente -en los estadios, por ejemplo, o en los festejos lúdicos-, pero nos representa una gran temeridad, o nos produce una insoportable pereza, ir más allá de esto".
Ler o texto completo: AQUI [dica de CatalunyaReligió.cat]

sexta-feira, 4 de março de 2011

Evangelização ou proselitismo?

Acabam de ser divulgadas em Roma, em oito línguas, os Lineamenta ou documentos preparatórios do próximo Sínodo dos Bispos da Igreja Católica, convocado para 2012 pelo Papa Bento XVI e que será dedicado ao tema da "Nova Evangelização" (para ler a versão portuguesa, clicar aqui).
A propósito do "Patio dos Gentios", uma iniciativa de Roma que é uma outra frente deste plano de "nova evangelização", temos procurado introduzir aqui algumas questões em torno dos pressupostos e atitudes subjacentes a este empreendimento. O assunto é de grande importância, porque nele se joga o essencial da relação Igreja-Sociedade e, para recorrer à terminologia evangélica, o modo como a Igreja pretende ser hoje "sal da terra e luz do mundo".
Gostaríamos, de resto, que esta reflexão crítica fosse alargada a um amplo leque de pessoas interessadas e sensíveis a estas matérias, independentemente de se situarem ou não no espaço cristão e católico.
No sentido de alimentar essa reflexão e esse desejável debate, deixamos aqui dois contributos. O primeiro é proveniente dos próprios Lineamenta, que, no seu ponto 5, se refere ao significado da definição de "Nova Evangelização". O segundo é o extracto de um artigo publicado ontem no site do National Catholic Reporter pelo jornalista e vaticanista John C. Allen, justamente a propósito do documento.

1. Nova evangelização: definição
("Lineamenta", nº 5)

"«Nova em seu ardor, em seus métodos, em suas expressões». Não se trata de fazer de novo qualquer coisa que foi mal feita ou que não funcionou, como se a nova acção fosse um implícito juízo sobre o falhanço da primeira. A nova evangelização não é uma duplicação da primeira, não é uma simples repetição, mas é a coragem de ousar novos caminhos, para atender às mudanças de condições dentro das quais a Igreja é chamada a viver hoje o anúncio do Evangelho. (...)
Nesta acepção, o termo é retomado e relançado no Magistério do Papa João Paulo II, dirigido à Igreja universal. «A Igreja deve hoje enfrentar outros desafios, lançando-se para novas fronteiras, quer na primeira missão ad gentes, quer na nova evangelização dos povos que já receberam o anúncio de Cristo. A todos os cristãos, às Igrejas particulares e à Igreja universal, pede-se a mesma coragem que moveu os missionários do passado, a mesma disponibilidade para escutar a voz do Espírito»: a nova evangelização é, antes de mais, uma acção espiritual, a capacidade de assumir, no presente, a coragem e a força dos primeiros cristãos, dos primeiros missionários. É, portanto, uma acção que requer, em primeiro lugar, um processo de discernimento acerca do estado de saúde do cristianismo, o reconhecimento das medidas tomadas e das dificuldades encontradas. O Papa João Paulo II precisará mais adiante: «A Igreja deve dar hoje um grande passo em frente na sua evangelização, deve entrar numa nova etapa histórica do seu dinamismo missionário. Num mundo que, com o encurtar das distâncias, se torna sempre mais pequeno, as comunidades eclesiais devem ligar-se entre si, trocar energias e meios, empenhar-se juntas na missão, única e comum, de anunciar e de viver o Evangelho. “As Igrejas ditas mais jovens — disseram os Padres sinodais — têm necessidade da força das mais antigas, enquanto que estas precisam do testemunho e do entusiasmo das mais jovens, de forma que cada Igreja beneficie das riquezas das outras Igrejas”».
Estamos agora em condições de compreender o funcionamento dinâmico confiado ao conceito de “nova evangelização”: recorre-se a ele para indicar o esforço de renovação que a Igreja é chamada a fazer para estar à altura dos desafios que o contexto social e cultural de hoje coloca à fé cristã, ao seu anúncio e ao seu testemunho, como consequência das profundas mudanças em curso. A Igreja responde a estes desafios não cruzando os braços, não se fechando em si mesma, mas através do lançamento de uma operação de revitalização do seu próprio corpo, tendo colocado no centro a figura de Jesus Cristo, o encontro com Ele, que doa o Espírito Santo e as energias para um anúncio e uma proclamação do Evangelho através de novos caminhos, capazes de falar às culturas de hoje.(...)".

2. Termo que continua a ser difícil de definir
(John C. Allen)

Com toda esta ênfase na "nova evangelização" (...) o termo em si continua a ser difícil de definir. Comummente as perguntas que surgem incluem:
  • É a "nova evangelização" especialmente direccionada para o mundo ocidental, onde a fé tem estado desde há muito em declínio? Ou é uma iniciativa mais ampla, mais global?
  • É basicamente para atrair pessoas para a prática da fé - por outras palavras, para encher as igrejas aos domingos? Ou tem também por objectivo uma renovada capacidade de envolver os grandes temas culturais da actualidade, como o secularismo, o surgimento de uma economia global interligada, novos meios de comunicação e a revolução da biotecnologia?
  • Constitui a nova evangelização em grande parte um esforço dirigido ao exterior e, nesse sentido, como que uma "estratégia de saída" das várias crises e conflitos internos que recentemente minaram o mundo católico? Ou será que também inclui um exame de consciência interno, que se interrogue sobre se não haverá dimensões da vida da Igreja e do seu modo de pensar que representam obstáculos à evangelização?
Os Lineamenta para o próximo Sínodo fornecem respostas parciais a estas perguntas, deixando muito espaço para debate, durante o Sínodo e no mundo católico mais amplo.
Primeiro, os Lineamenta tentam introduzir alguma clareza conceptual. Distinguem três formas de evangelização:
  • A evangelização como uma "actividade regular da igreja" e, portanto, direccionada basicamente para os católicos praticantes;
  • O primeiro anúncio ad gentes, dirigido às pessoas que nunca foram cristãs;
  • Nova evangelização, que é "direccionada principalmente àqueles que se distanciaram da igreja [e] a pessoas baptizadas não suficientemente evangelizadas".
Na realidade, salienta o documento, dada a mobilidade social dos nossos dias e os padrões de migração, muitas vezes estes três grupos vivem no mesmo lugar, e as igrejas locais têm, por conseguinte, de ter estratégias para cada um. Como resultado, diz, pensar segundo critérios geográficos sobre a actividade missionária encontram-se ultrapassados.
"Hoje, cada um dos cinco continentes é campo da actividade missionária", nota.
Apesar desse quadro, no entanto, há pouca dúvida de que a Europa e os Estados Unidos constituem uma preocupação especial no documento - em parte porque é onde se encontra uma parcela bastante significativa dos "cristãos afastados". (...)
Em resposta à questão de saber se a "nova evangelização" diz respeito à transformação do mundo ou a levar mais pessoas para a Igreja, a resposta parece ser: as duas coisas.(...)
Nesse sentido, a "nova evangelização" poderia ser entendida como um esforço para concretizar a visão do cristianismo de Bento XVI como uma "minoria criativa", que não colapsa sobre si mesma.
"A nova evangelização é o oposto de auto-suficiência e de fechamento em si mesmo, da mentalidade do status quo e de uma visão pastoral que considera suficiente continuar a fazer como sempre se fez. Hoje, o “business as usual” já não basta, afirma-se nos Lineamenta.
Como distinguir a evangelização de proselitismo poderia ser precisamente um dos pontos de viragem no debate sinodal, em parte porque é isso que está no âmago de um número crescente de tensões na igreja.(...)"

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Sobre o pátio dos gentios

Desde que, nas vésperas do Natal de 2009, o Papa Bento XVI falou na necessidade de instituir (de novo) um "Pátio dos Gentios", a exemplo daquele que existia nos templos dos israelitas, que muitos hierarcas andam com a expressão na boca.
O Conselho Pontifício para a Cultura acaba de anunciar para os dias 24 e 25 de Março, em Paris, o lançamento de "uma nova instituição permanente do Vaticano destinada a promover os intercâmbios e encontros entre crentes e não crentes", designada precisamente Átrio dos Gentios.
Sob o tema genérico "Religião, luz e razão", o acontecimento irá compor-se de um conjunto de debates a ter lugar na sede da UNESCO, na Sorbonne, no Institut de France e no Collège des Bernardins. No segundo dia à noite, será organizada uma festa aberta a todos, sobretudo aos jovens, sobre o "Átrio do Desconhecido", a realizar no átrio da Catedral de Notre Dame.
Este tipo de iniciativas é certamente importante e pessoalmente julgo que deles poderão esperar-se resultados promissores, mesmo que não imediatamente visíveis. Há que prestar, no entanto, atenção a alguns aspectos, sob pena de muitas das boas intenções ficarem minadas à partida.
Palavras são palavras. Valem o que valem. Mas muitas delas carregam um peso histórico muito forte. E gentio é uma delas. Porque se define pela negativa: os que são pagãos, os que não podiam entrar no templo (pelo menos em certas partes reservadas aos israelitas). Porque não, antes, o Pátio dos Encontros, o pátio dos desconhecidos que querem encontrar-se e conhecer-se?
Quando se organiza este tipo de iniciativas na esperança secreta (ou confessada) de que as 'ovelhas tresmalhadas' encontrem o (ou regressem ao) redil, julgo que já é difícil haver aqui verdadeiro diálogo e interconhecimento. O que existe é vontade de ser conhecido. Não tanto de conhecer.
Este 'Atrio dos Gentios' não deveria ser um espaço apenas para que aqueles que buscam o caminho, a verdade e a vida entrem em contacto com o Deus da fraternidade e da justiça. Mas um espaço para que as mulheres e homens que se dizem seguidores desse Deus se aproximem e escutem os seus semelhantes, os seus anseios, os seus testemunhos, as suas inquietações e expectativas. A comunicação não resulta se não for também para escutar, para se aproximar e, eventualmente, para aprender com todos, sejam crentes ou não crentes. Se assim não for, como esperar que outros aprendam com (e escutem quem) organiza esse pátio dos gentios?

Informação complementar: