segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Vai fazer-nos muita falta, D. António!

D. António Francisco dos Santos (1948-2017) – In memoriam



D. António Francisco em Fátima, em 2015 (foto António Marujo)

Era um homem, um padre e um bispo com uma visão rara, que colocava as pessoas, cada pessoa, no centro da acção da Igreja – e da sua própria. D. António Francisco dos Santos, padre da diocese de Lamego, onde nasceu, era bispo do Porto desde 2014. Tinha sido bispo de Aveiro entre 2006 e 2014 e bispo auxiliar de Braga de 2004 a 2006. Morreu esta manhã, na casa episcopal do Porto. Vai fazer-nos muita falta. Pelo seu carácter, pela sua proximidade com as pessoas, pela sua visão pastoral.
D. António Francisco completou 69 anos no passado dia 29 de Agosto. Acabara de estar em Fátima, sábado passado, presidindo à peregrinação diocesana ao santuário. Na sua homilia, disse que os cristãos devem ser capazes de “construir uma Igreja bela, como uma casa de família” e que seja capaz de atender sobretudo aos mais frágeis: “Não podemos viver distantes dos dramas humanos nem ficar insensíveis aos seus clamores e indiferentes aos seus sofrimentos”, declarou, convidando os diocesanos a “entrarem na vida concreta dos que sofrem” (a homilia pode ser lida aqui na íntegra). 
A sua visão e acção pastoral tinham uma perspectiva muito coincidente com a do Papa Francisco: centrada na misericórdia, na atenção a cada pessoa, na proximidade quotidiana com todos – clero, fiéis, não-crentes, na dedicação aos mais pobres e a quem mais sofre. Isso mesmo é recordado por várias pessoas, de diferentes âmbitos, no perfil que se pode ler no Público.
Nessa perspectiva, D. António Francisco apoiou com vigor intenso as muitas iniciativas pastorais de padres e leigos que, na diocese de Aveiro, faziam um caminho de busca de novas soluções para a integração eclesial dos divorciados que tinham voltado a casar, também na linha (mas já antes) do que o Papa Francisco tem proposto.
A propósito dessa realidade, e numa entrevista que lhe fiz, em 2015, para a revista espanhola Vida Nueva, dizia D. António: “Diante da Igreja e na Igreja todas as pessoas têm nome, rosto, alma e coração. Muitas vezes, um coração partido, a sofrer, dorido, por muitas desventuras! Mas a Igreja tem de saber acolher e fazer um caminho em comum nesse sentido.”
Este modo de actuar não perspectivava, no entanto, apenas uma atitude passiva ou a imposição de decisões, mesmo que abertas. Ele entendia que os interessados deveriam também participar no processo de reflexão: “Temos também de saber reflectir com eles, não apenas acolher. Importa saber ouvir e decidir com os casais divorciados recasados os caminhos de cada um no empenhamento concreto na vida da Igreja. Mesmo com aqueles que estejam em situações de ruptura ou de não aceitação das orientações da Igreja, sabemos que nunca podem ser marginalizados e que podem sempre encontrar a Igreja aberta.”
Quando tomou posse do lugar de bispo do Porto, apontou ainda o combate à pobreza como horizonte da acção da Igreja. Na mesma entrevista, justificava: “Temos áreas muito marcadas pela fragilidade, pela pobreza, pela injustiça, pelo desemprego. Somos muitos e, por isso, maior é também o número dos que sofrem. Mais atento tem de estar o bispo e mais presente tem de estar a Igreja, junto de todos, com iniciativas próprias que eu desejo que sejam criativas e ousadas. E não podemos esperar, como dizia o Papa, pois quando alguém sofre não pode esperar para o dia seguinte.” E acrescentava, no que era uma crítica severa a muitas das coisas que se fazem, não apenas na Igreja: “Temos de dar lugar aos pobres e não apenas esmola.” No sábado, em Fátima, a participação de 50 pessoas sem-abrigo na peregrinação diocesana foi uma forma de concretizar em gesto as ideias que D. António Francisco defendia (ver aqui a sua última entrevista, dada em Fátima à agência Ecclesia). 
D. António sofreu muito com a saída de Aveiro e a sua nomeação para o Porto. Em Aveiro, houve quem tentasse evitar a saída, como na altura se noticiou no RELIGIONLINENa entrevista já citada, esse processo levava-o a admitir que “as Igrejas locais deviam ser chamadas a intervir na nomeação dos seus bispos”. Num caso como o que acabara de viver, acrescentava que, na “mudança de diocese apenas é ouvida a diocese para onde vai o bispo e não aquela de onde sai”.
No Porto, esperava-o uma grave crise financeira da diocese, que ele tentou enfrentar através de uma reorganização administrativa, para reduzir despesas e criar receitas, sempre com a preocupação da coresponsabilidade e de apelar à participação dos leigos nessas tarefas. O desgaste com essas questões, bem como com casos de conflito que ele tentou gerir com a paciência e bondade que lhe eram características (como em Canelas, Gaia), podem ter contribuído para a sua morte prematura. Porque o sorriso transparente que D. António tinha nunca o deixava, mesmo quando falava dos imensos problemas que tinha para resolver. Mas, sobretudo, um desfecho como este – que abre agora uma vaga muito difícil de preencher – deveria levar a Igreja a reflectir sobre processos de decisão e escolha que são feitos contra a vontade dos envolvidos.

Onde estava, então, este homem, que pouco aparecia nos grandes meios de comunicação para além das notícias de Natal e Páscoa? D. António Francisco primava pela discrição, por preferir os gestos pessoais a grandes acontecimentos. Além disso, era uma pessoa que privilegiava o diálogo franco em vez de qualquer encenação mais ou menos pública. Por isso, é unânime o sentimento de perda de tanta gente, mesmo de fora da Igreja.
Sejam-me permitidas ainda três curtas evocações pessoais, gestos que dizem muito sobre o modo de estar de António Francisco dos Santos.  
Em 2006, recebi pela segunda vez um prémio europeu de jornalismo. D. António, então ainda bispo auxiliar de Braga, não me conhecia pessoalmente. Mas teve a amabilidade de me enviar um cartão a felicitar e a dizer-me que acompanhava o meu trabalho.
Quando o meu pai morreu, há quase cinco anos, enviei uma mensagem escrita a D. António Francisco, então ainda em Aveiro, sabendo que ele tinha estado com o meu pai várias vezes durante a sua doença. Dois segundos depois de a mensagem seguir, tocava o telefone: “Onde estão vocês?” Meia hora mais tarde, D. António estava junto de nós, rezando por alguém que ele conhecera apenas poucos anos antes.
Há meses, ele manifestou-me o desejo de conversar comigo sobre o plano que a Conferência Episcopal Portuguesa está a preparar para as comunicações sociais, pela consideração que ele tinha para com o meu trabalho. Falámos uma primeira vez, dei-lhe sobretudo ideias de coisas que se poderiam fazer (mais do que questões de organização) e ficou prometida uma segunda conversa, em que ele queria sobretudo falar de planos de revitalização dos meios de comunicação da diocese. Essa conversa ficou adiada.
Falaremos disso mais tarde, D. António! Porque, para já, o senhor vai fazer-nos muita falta.

(na SIC, Joaquim Franco faz uma bela evocação de D. António, que pode ser lida aqui.)

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