segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Salmos - conferência em Lisboa

Conferência organizada pela Fundação Betânia, evocando os 20 anos da publicação dos seus estatutos.
Luciano Manicardi nasceu em Itália, em 1957. Formou-se na Universidade de Bolonha. Desde 1980 é monge da  Comunidade de Bose, onde continuou os Estudos Bíblicos e é responsável pela formação cultural.
Autor com vasta obra publicada, colabora também em diversas revistas.
[Créditos de Imagem: Reprodução da Abertura do Salmo 102 do  Saltério de Arundel - (1050-1060)  Fotógrafo: Philip Spruyt. 2002 - COLECÇÃO: Historical Picture Library © Stapleton Collection/Corbis]

Bento Domingues: Elogio da participação na política

No "Público" de 10 de Outubro de 2010

terça-feira, 28 de setembro de 2010

"A Idade Média não é tão cristã como se pensa"

José Mattoso é o coordenador geral dos vários volumes da “História da vida privada portuguesa” que o Círculo de Leitores está a publicar. Numa breve entrevista dada ao JN de hoje, nota-se uma especial curiosidade da jornalista pela época medieval, nomeadamente nesta passagem:

JN - O que pretendeu sublinhar na organização do volume sobre a Idade Média?

JM - É difícil dizer em poucas palavras. A primeira coisa que me lembro é que a Idade Média não é tão cristã como geralmente se pensa, nem, por outro lado, tão rude e primitiva como outros dizem. Um dos aspectos mais característicos desta época é o que se pode chamar a «dialogia», isto é, uma norma muito exigente ou até radical - a dos sermões - e uma prática muito maleável, baseada nas circunstâncias e nos casos pessoais. Quanto à rudeza dos costumes, creio que se deve pôr de lado o conceito de «idade das trevas» que muitas vezes se aplica à Idade Média. Diferente é o problema das concepções mágicas, que é um problema muito complexo, mas em que houve, sem dúvida alguma, um progresso muito lento devido à racionalização da teologia e ao desenvolvimento das universidades. De qualquer maneira um tipo de magia que não tem nada que ver com “Harry Potter” ou “O Senhor dos Anéis”.

Ler a entrevista: "A Idade Média não é tão cristã como se pensa" - JN

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Quem é o maior?

Veio-lhes então ao pensamento qual deles seria o maior.
Conhecendo Jesus os seus pensamentos, tomou um menino, colocou-o junto de si
e disse-lhes: «Quem acolher este menino em meu nome, é a mim que acolhe, e quem me acolher a mim, acolhe aquele que me enviou; pois quem for o mais pequeno entre vós, esse é que é grande.»
Lucas, 9, 46-48

É para aprender. Depois de um dia inteirinho a ouvir que a minha instituição tem de se medir com as maiores, para ser maior do que elas; depois de ver, ali na esquina, o anúncio que diz que elas vão achar-me o máximo ...

Zola, Lurdes, Fátima - o debate em Portugal entre 1894 e 1932

O crítico e investigador Eduardo Cintra Torres acaba de publicar na revista canadiana Conserveries Mémorielles o texto "Zola, Lourdes and the New Religious Crowd in Ideological Debates in Portugal (1894-1932)".
Nele aborda o impacto do livro de Emile Zola sobre Lurdes no nosso país, nos finais do século XIX e nas primeiras décadas do séc. XX. Sustenta que "o desenvolvimento dos debates revela como os sectores católicos foram progresivamente incorporando a 'multidão' na renovação do Catolicismo, particularmente depois dos acontecimentos [das aparições] de Fátima de 1917, ainda que a burguesia liberal continuasse a rejeitar as massas".
Uma versão deste trabalho sobre a multidão religiosa de Lourdes, em Zola e Huysmans, foi originalmente publicada em 2007 na revista Análise Social e será publicado em francês ainda este ano, na revista Mille Neuf Cent .

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

"Estados gerais do Cristianismo" durante três dias em França

Três dias de debates e de ateliers sobre a situação do Cristianismo em França, por iniciativa da revista La Vie,a partir deste fim de tarde. Fisicamente, o evento tem lugar na Universidade Católica de Lille, mas é possível acompanhar boa parte dos cerca de 30 debates previstos através do Facebook, de um blog e de transmissão por webstream, além, naturalmente, da informação de apoio disponibilizada no site da publicação francesa. Tudo a partir do site de La Vie. O programa completo: AQUI.
Entre os temas que serão objecto de debate destaca-se:
  • Quelle présence chrétienne dans le débat public?
  • S'aimer toute une vie, une utopie?
  • Divan ou confessionnal?
  • Quelle forme d'engagement aujourd'hui?
  • La science a-t-elle du sens?
  • Notre vie a-t-elle un sens?
  • Les chrétiens ont-ils un problème avec le sexe?
  • Changer l'église, oui, mais dans quel sens?
  • Grand Forum du samedi Évangéliser, est-ce provoquer?
Ver, a propósito desta iniciativa, as declarações do director de Redacção de La Vie ao diário Le Monde:
"Il faut qu'une société civile chrétienne émerge"

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Blair escreve no Osservatore Romano sobre o cardeal Newman

Num texto publicado ontem no Osservatore Romano, Tony Blair assina o texto "On the eve of the beatification - The Pope and Newman". O texto incide, sobretudo, no diálogo inter-religioso, mas aborda igualmente outras questões, de inevitável incidência na actualidade da Igreja Católica. Um curto extracto:
"(...)Newman foi o primeira a colocar o conceito de desenvolvimento no mapa. A sua compreensão sobre como a doutrina se desenvolveu revelou-se extremamente influente no seu tempo. Ele fez do desenvolvimento uma ideia-chave, tanto dentro como fora da Igreja. Nós provavelmente não estaríamos hoje a usar as expressões "Objectivos de Desenvolvimento do Milénio" ou "desenvolvimento internacional" se ele não tivesse usado primeiro a palavra na sua teologia.
As reflexões de Newman sobre o desenvolvimento das ideias têm, evidentemente, implicações não menos profundas para a vida da Igreja hoje. Ele concluiu que era impossível fixar um ponto em que o crescimento da doutrina da Igreja cessaria. Daí decorre que esse crescimento continua hoje, e não acontece no vácuo. (...).
Decidir se algo foi um desenvolvimento "verdadeiro" era, naturalmente, a prerrogativa do magistério da Igreja. Mas Newman também descreveu o consenso do "conjunto dos fiéis" sobre questões de doutrina como a "voz da Igreja Infalível". Duvido que esta voz esteja ainda a ser suficientemente levada a sério sobre as questões morais, e se digerimos devidamente as implicações dessas ideias. A tendência de alguns líderes religiosos para meter um grande número de ideias diferentes dentro de um saco etiquetado de "secularismo" para, em seguida, tratá-lo como um pacote de sinistro, é divisionista em sociedades pluralistas, porquanto amputa a Igreja das possibilidades de novos desenvolvimentos no pensamento. (...)"
ACT.:
  • Já depois de lido o texto do Osservatore Romano, o National Catholic Reporter publicou no seu site o artigo "Newman: the 'sense' and 'consent' of the faithful", no qual se desenvolve e se contextualiza a parte citada do texto de Tony Blair.
  • A propósito, o pensamento de John Henry Newman (1801-1890) sobre esta matéria do consensus fidelium encontra-se desenvolvido no seu ensaio "On Consulting the Faithful in Matters of Doctrine", datado de Julho de 1859 e pode ser lido AQUI.

«Àquele a quem pouco se perdoa pouco ama.»

«Vês esta mulher? Entrei em tua casa e não me deste água para os pés; ela, porém, banhou-me os pés com as suas lágrimas e enxugou-os com os seus cabelos.
Não me deste um ósculo; mas ela, desde que entrou, não deixou de beijar-me os pés.
Não me ungiste a cabeça com óleo, e ela ungiu-me os pés com perfume.
Por isso, digo-te que lhe são perdoados os seus muitos pecados, porque muito amou; mas àquele a quem pouco se perdoa pouco ama.»
Lucas 7, 44-47

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Superando a violência e a morte em Timor-Leste

Joel Hodge, um professor de teologia da Australian Catholic University, escreve no último número do Australian eJournal of Theology, e a propósito de Timor-Leste, sobre o modo como a fé cristã "proporciona a base para a promoção do bem comum" naquele país.
Especialista em René Girard, Hodge aplica ao percurso histórico recente daquela antiga colónia portuguesa algumas das propostas deste autor, no seguimento daquilo que já havia iniciado, na sua tese de doutoramento.

Ler:
Hodge, Joel (2010),"Overcoming Violence and Death in East Timor: The foundations for a new nation". Australian eJournal of Theology, n. 16, 28 pp.

domingo, 12 de setembro de 2010

Bento Domingues: Despolitizar as religiões

Bento Domingues no "Público" de 12 de Setembro de 2010

... e foi logo matar o vitelo gordo e fazer uma festa!

Vitral em Charleston, Carolina do Sul.
A leitura do Evangelho de hoje - a parábola do filho pródigo - leva, habitualmente, a prestar atenção ou ao filho que volta ou ao pai que o espera e acolhe e festeja o seu regresso. Mas a reacção do outro filho bem comportado - que fica enciumado, super-zangado e incapaz de fazer a festa - não deixa de merecer reflexão:
«'Há já tantos anos que estou contigo sem nunca transgredir uma ordem tua, e nunca me deste um cabrito para fazer uma festa com os meus amigos; e agora, ao chegar esse teu filho, que gastou os teus bens com mulheres de má vida, mataste-lhe o vitelo gordo.'
O pai respondeu-lhe: 'Filho, tu estás sempre comigo, e tudo o que é meu é teu.
Mas tínhamos de fazer uma festa e alegrar-nos, porque este teu irmão estava morto e reviveu; estava perdido e foi encontrado.'»
(Ler o texto em Lucas 15,1-32)

sábado, 11 de setembro de 2010

Raimon Panikkar no Público e no DN

Um dia contou que em 1954 deixou a Europa como cristão, descobriu na Índia que era hindu e regressou como budista - sem, contudo, "nunca deixar de ser cristão". Raimon Panikkar era um ícone da unidade por que tanto pugnava nas suas obras.
No Público de 11 de Setembro de 2010, um esboço biográfico por António Marujo do "teólogo católico que quis as suas cinzas nas águas sagradas do Ganges".
Ler aqui.
No DN deste sábado, também Anselmo Borges escreve sobre o teólogo catalão.
O Padre Raimon Panikkar era uma das maiores autoridades mundiais nas questões do diálogo inter-religioso. As suas raízes genéticas, religiosas, académicas, geográficas, deram um contributo decisivo para ser ponte entre Ocidente e Oriente: o pai era hindu e a mãe, catalã católica; era doutorado em Filosofia, Química e Teologia; viveu uma parte da sua vida na Europa, outra viveu-a na Ásia, uma terceira passou-a na América. Ensinou em várias universidades, entre as quais Santa Bárbara, na Califórnia, e Harvard. Deixou mais de 50 livros, em várias línguas. No meio de uma vida agitada e aparentemente dispersa, manteve, no Uno, a serenidade do monge.
Ler aqui.

domingo, 29 de agosto de 2010

Raimon Panikkar, um ícone da unidade

(Foto: http://picsdigger.com/image/09d41830/)

Morreu Raimon Pannikar. Com 91 anos, o filósofo e teólogo do diálogo inter-religioso morreu na sua casa de Tavertet, na Catalunha, na passada quinta-feira à tarde. O funeral foi este sábado, mas a cerimónia pública de homenagem será uma missa de homenagem na próxima sexta-feira, dia 3 de Setembro, às 17h, na Abadia de Montserrat.
Filho de mãe catalã e pai hindu, Panikkar era ele próprio um ícone da unidade que ele tanto pugnava nas suas obras - nomeadamente, aquelas em que falava do diálogo inter-religioso. As suas cinzas ficarão em Tavertet e no rio Ganges, na Índia.

José Manuel Vidal escreveu no ReligionDigital um pequeno obituário e vários outros textos e vídeos. O site oficial de Raimon Panikkar tem também diversos textos e artigos.
Em 2004, no Parlamento das Religiões do Mundo que decorreu em Barcelona, tive o gosto de o entrevistar para o Público. Aqui ficam excertos dessa entrevista.

O diálogo inter-religioso é imparável

O diálogo inter-religioso tem altos e baixos, mas já ninguém o pode parar. Essa é a convicção do co-presidente do Parlamento das Religiões do Mundo, que hoje termina em Barcelona. Raimon Panikkar é, ele mesmo, um símbolo vivo desse processo, pois é filho de um hindu e de uma catalã.
Veste-se à maneira indiana e calça sandálias. Padre católico, Raimon Panikkar vive, sem televisão, numa aldeia da Catalunha, com 60 habitantes, onde recebe, uma vez por semana, quem com ele quer falar. Publicou dezenas de livros (alguns traduzidos em português, pela Editorial Notícias, como “A Trindade”), é reconhecido e apreciado por muita gente da rua. Voz e rosto sereno, olhos tranquilos, é um dos principais teólogos e filófosos europeus contemporâneos.

P. — Um dos argumentos mais ouvidos é que as religiões têm um papel social e político a desempenhar. Isso significa que a dimensão religiosa está esgotada?
R. — Não, significa que as religiões descobrem que devem incarnar-se neste mundo e não devem preocupar-se exclusivamente com o céu e o outro mundo — sobretudo no caso do cristianismo, que é inclusivo. Não podemos passar por cima das injustiças institucionais e de tantos problemas concretos, mesmo se as religiões não são para solucionar todas as coisas. As religiões criam opinião, promovem consciência e abrem caminhos mais pacíficos.

P. — O diálogo inter-religioso começou há três décadas e hoje atingiu já uma dimensão fundamental para o mundo. Como analisa esta evolução?
R. — Contesto a sua pergunta. o diálogo inter-religioso começou no século I, do ponto de vista do cristianismo, quando os primeiros cristãos, que eram judeo-cristãos, falaram com os gregos e helenizaram o cristianismo. Depois, este cristianismo helenizado dialogou com o mundo germânico. Mais tarde, fossilizou-se um pouco com o colonialismo, onde se pensava que não se devia entrar em diálogo com o outro.

P. — Mas esta forma de diálogo actual é diferente. Acha que vai no bom caminho?
R. — O processo é imparável, não há quem o páre, e vai na direcção certa. [No caso do catolicismo] o Concílio Vaticano II [1962-65] abriu as portas [da Igreja Católica] e tirou a muitos católicos os problemas de consciência que sobre eles pesava acerca do exclusivismo da salvação. Agora, por razões políticas, às vezes trava-se. vai-se com prudência, fecham-se janelas. Falar para mil milhões de pessoas tem que ser com modos diferentes, por isso por vezes parece que se vai mais lentamente. Há grupos que querem mais abertura, outros têm medo de perder identidade e preferem defender-se.

P. — Afirmou neste parlamento que as religiões servem de desculpa para guerras políticas e económicas. Como se combate essa violência de marca religiosa?
R. — Em primeiro lugar, não combatendo, porque o combate seria já violento. Em segundo, tirando o medo, porque muitos fecham-se no seu grupo por terem medo de perder a identidade. Perdemos a dimensão mística das religiões e identificam-se religião com crença: se eu digo uma coisa e o outro diz diferente, eu tentarei eliminar quem diz diferente.

P. — O senhor é um símbolo vivo do diálogo inter-religioso. É possível fazer uma síntese entre credos diferentes?
R. — Não se trata de uma síntese, mas de fecundação mútua. Nem é tão pouco um ecletismo, mas um enriquecimento, que será consequência de um maior conhecimento, do amor e do encontro com a diferença. Dou-lhe um exemplo: os católicos têm necessidade do budismo para recordar a dimensão da contemplação e do silêncio. O encontro serve para enriquecer e contactar com o que cada um esqueceu da sua tradição.

P. — O que têm os católicos a aprender do hinduísmo?
R. — Deixe-me criticar a pergunta: o que necessitamos é, mutuamente, uns dos outros. Não posso só enriquecer-me com os outros, mas partilhar também o que sou. Pode aprender-se a contemplação, a paciência. Mas posso dizer-lhe que, do hinduísmo, os cristãos podem aprender a tolerância, a superar a razão, a não reduzir as coisas apenas a uma dimensão.

EM COMPLEMENTO:
(mp)

sábado, 28 de agosto de 2010

Anselmo Borges: Há receitas para a felicidade?

O que queremos verdadeiramente é, sem sombra de dúvida, ser felizes. Mas como se chega à felicidade? É que, para se ser feliz, é necessária uma multidão de coisas e de condições: algum prazer, saúde, uma vida familiar agradável, realização profissional mínima, reconhecimento social, algum dinheiro, amigos - "sem amigos, ninguém escolheria viver", disse Aristóteles. Depois, também é preciso ter sorte, como diz a própria palavra no seu étimo ("felix"), e isso não acontece apenas com felicidade ("felicidad", em espanhol, e "felicità", em italiano): o "Glück" alemão significa felicidade e sorte, a raiz de "happiness" é "happ", com o significado de acaso, fortuna ("perhaps" significa talvez), o mesmo acontecendo nas palavras grega e francesa, respectivamente: "eudaimonia" e "bonheur".

Texto de Anselmo Borges no DN de 28 de Agosto de 2010. Ler mais aqui.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

"O meu mundo"

Recentemente a BBC convidou a sua audiência a produzir e enviar um curto docmentário no âmbito de um concurso designado "O Meu Mundo". Recebeu mais de meio milhar de contributos. O júri, depois de analisar os trabalhos, seleccionou como vencedor o documentário do espanhol Frederico Teixeira de Sampayo, intitulado "Wash, Rinse and Spin" ["Lavar, enxaguar e centrifugar"]. Aqui está:

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Padre Alberto Azevedo – Um Testemunho

Texto colectivo enviado ontem aos dois diários de Braga e publicado hoje no 'Diário do Minho':
Vivemos da inspiração e coerência dos testemunhos e o Padre Alberto Azevedo, há dias falecido, foi uma dessas vidas que deixam marcas e saudades. Foi coerente, solidário, intrépido e atento às pessoas concretas e à situação do país e do mundo. Ao longo de décadas, como professor, ouvia, espicaçava, municiava – em suma fazia as pessoas crescer e por isso tantos lhe devemos tanto. Na Igreja e na sociedade, inquietava, sofria, alertava, tornando-se frequentemente motivo de incómodo, o que fez dele sempre um homem certamente com defeitos, como todos nós, mas digno e inteiro.
Foi, frequentemente, sinal e ponte para muitos para quem a Igreja não foi nem mãe nem mestra, ou não a sentiram como tal. Caminhou com outros que, no meio do nevoeiro denso dos dias ou das perplexidades e contradições da vida, buscavam um sentido e insistiam na procura.
Muitos desses, de várias proveniências e trajectórias, se juntaram, na semana passada, para um adeus, na igreja de Ribeirão, incluindo um significativo número de colegas e amigos presbíteros. Teria sido ocasião para um reconhecimento por parte da Igreja – ao menos neste momento – relativamente a um dos seus padres que, bem antes, diversos sectores da sociedade já tinham reconhecido e homenageado. 
Desgraçadamente, o que vimos e ouvimos, na celebração das exéquias, por parte do bispo auxiliar que presidiu foi quase o contrário – umas palavras sem grandeza, sem justiça e quase a pedirem desculpa pela irreverência e incómodo que foi a vida do sacerdote que ia a sepultar. Ficámos estupefactos com uma homilia baça e infeliz, sem alma nem afecto, quando se esperaria, em tão solene momento, que a Igreja Diocesana reconhecesse o homem e o padre extraordinário que teve consigo, o seu contributo decisivo para que alguma credibilidade ela ainda tivesse e as portas (tantas portas!) se não fechassem de vez. Um gesto de justiça face a um homem que foi, por certo, um dos seus filhos mais dedicados e amantes.
Foi bem sentido o sururu de descontentamento e de revolta que circulou pela igreja ainda durante a homilia. Atenuou este sentimento de profunda injustiça a intervenção final de um sobrinho do Padre Alberto Azevedo, sublinhada por sentidas e prolongadas palmas, e o testemunho de uma antiga militante da JEC, já no cemitério.
Pelo nosso lado, enquanto amigos e companheiros que fomos do Padre Azevedo, só podemos lamentar que seja apesar da Igreja, e não pela e com a Igreja, que ele seja reconhecido como um testemunho de homem e de cristão. Mais ainda, escutamos, na missa de corpo presente uma diatribe contra o mundo laico que nos pareceu manifestamente desqualificadora da sua autonomia, como se a Igreja tivesse (ainda) o monopólio das exéquias fúnebres e não pudesse haver beleza em funerais não católicos. É também isto que se situa nos antípodas do modo de ser cristão do Padre Azevedo. Com ele aprendemos, de facto, e continuamos a procurar, olhar atentamente o mundo e  intervir nele de forma esclarecida, crítica e confiante, inspirados pelo seu desassombro e pela radicalidade do Evangelho. E não a ficar tolhidos ou alarmados com o que se passa à nossa volta. Afinal move-nos a esperança; uma esperança que é maior que a História e maior que a Igreja.

Armando Romano, Engenheiro
Cristina Fabião, Médica
Eugénio Peixoto, Professor
Gabriela Macedo, Professora
Helena Martinho, Professora
Luís Soares Barbosa, Professor
Manuel Pinto, Professor
Margarida Constantino, Professora
Paulo Bateira, Médico
Vera Constantino, Professora

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

A deriva securitária em França

A França, considerada "pátria dos direitos humanos", vive, nas últimas semanas, debates intensos, desencadeados pelas medidas do presidente Sarkozy que pretendem criar uma associação implícita entre imigração e criminalidade. Numa deriva de cariz securitário, e na sequência de acontecimentos dramáticos que envolveram comunidades romanis ou roms, Sarkozy decidiu desmantelar 300 acampamentos ilegais (200 dos quais de romanis) expulsar do país centenas de membros daquela etnia, originários da Roménia e da Bulgária, que se encontravam em situação ilegal em França.
Esta política e as circunstâncias e factos que lhe estão subjacentes têm tido pouca expressão nos media portugueses, especialmente no que se refere à relação destas medidas com a política interna francesa, com as outras comunidades imigrantes (nomeadamente a portuguesa) e com o facto de os dois países de destino das expulsões serem membros da União Europeia (ainda que em situação especial).
As igrejas, e nomeadamente a católica, mas também outras organizações da sociedade francesa, têm tido uma intervenção decidida neste acampo. O cardeal de Paris sublinhava, há dias, que o medo dos outros não é «nem a mensagem do Evangelho nem a mensagem de uma sociedade civilizada», enquanto o padre Arthur Hervet, de Lille, conhecido em França pelo trabalho que há muito desenvolve junto daquela etnia, anunciou neste domingo ter decidido devolver ao Ministério do Interior, em sinal de protesto, a condecoração de medalha de mérito, com que foi agraciado pelas autoridades, há quatro anos. Deixam-se aqui algumas sugestões de leitura de diferentes órgãos da imprensa:
E ainda:

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Alberto Azevedo: morreu um padre "inquieto e inquietante"

Mais tarde ou mais cedo a notícia surgiria. E veio hoje, num e-mail escrito pelo Luís Barbosa: faleceu Alberto Azevedo, um padre que marcou gerações de estudantes no Liceu Sá de Miranda, em Braga.
Foi um daqueles professores que não se esquecem mais. Não tanto pelo que ensinam das matérias do programa, mas pelo modo como estão com os alunos e como são pessoas com eles e para eles. Na homenagem que tantos amigos lhe prestaram em 2000, por altura dos seus 50 anos de padre, Anselmo Borges considerou-o um homem "inquieto e inquietante".
Conheci-o faz agora quarenta anos, vivo, combativo, anti-demagógico, homem de fé, num encontro nacional da JEC, num tempo em que os movimentos da Acção Católica eram dos escassíssimos espaços abertos em que se discutia a situação do país, e em que um dos documentos de fundo dos conselhos nacionais daquele movimento estudantil se intitulava "Análise da Situação do Meio". Foi nessa escola que o Padre Azevedo se fez e ajudou a formar muitas pessoas.
Dele só fui aluno na vida. Seu aluno foi, por exemplo, o não há muito desaparecido jornalista Torcato Sepúlveda, que escreveu em 20 de Janeiro de 1996 um depoimento no Público, que dá bem a ideia da grandeza de espírito deste sacerdote e professor:
0 padre Alberto Azevedo aguentou tudo. Foi meu professor durante seis anos, no Liceu Sá de Miranda, em Braga, e aguentou tudo. Quando acabáramos de sair da primeira adolescência, aturou os nossos primeiros arroubos de materialismo primário: "Eu não vejo Deus, eu não vejo Deus. Como é que ele existe se a gente não o vê?" [...]. Depois, quando já contávamos a provecta idade de quinze, dezasseis ou dezassete anos, a coisa complicou-se. Na turma rodavam umas obras - hoje consideradas inocentíssimas: mas imaginem a cidade de Braga nos anos 60... -como "Porque não sou cristão", de Bertrand Russell, ou "A Relíquia", de Eça de Queirós, ou "O Cavaleiro da Esperança», de Jorge Amado. A coisa passou a piar mais fino. [...] eu estava a ler, na aula de Religião e Moral, esse ensaio superlativamente subversivo "Porque não sou cristão". Um rapaz denunciou-me: "Aqui o colega está a ler um livro mau." Padre Azevedo dirigiu-se pausadamente à carteira onde eu cabulava e exigiu ver a capa do ensaio. E desabafou: "Faz ele muito bem. Este livro vale mais do que o que eu estou a dizer." E ameaçou o denunciante que, se ele reincidisse na canalhada, o punha fora da aula com falta de castigo.[...] Um dia os meus pais resolveram ir a Fátima. Havia que comungar. Declarei, em casa, que não o faria. Choro e ranger de dentes do poder paternal. Desesperado, fui ao liceu e «confessei-me» ao padre Azevedo. Que se tirou das suas tamanquinhas, foi falar com os meus pais e lhes ralhou: "O rapaz tem direito à liberdade. Fará o que quiser. Só ele pode escolher.» Um cidadão destes - numa terra devagaríssima como Braga -, era forçoso que se tornasse mito.[...]»
Público (20 de Janeiro de 1996)

ACTUALIZAÇÃO (em 26/08):
- RECORDAR O PADRE ALBERTO DE AZEVEDO, Por Guilherme d’Oliveira Martins, in Público, 21.08.2010